Poemas neste tema
Outros
Yolanda Morazzo
Barcos
"Nha terra é quel piquinino
É São Vicente é que di meu"
Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.
Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.
E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio...
A embarcação:
Para o mar!
É para o mar!...
E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...
É São Vicente é que di meu"
Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.
Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.
E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio...
A embarcação:
Para o mar!
É para o mar!...
E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...
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Ruy Belo
A flor da solidão
Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário silencioso
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário silencioso
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos
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Ruy Belo
A flor da solidão
Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário silencioso
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário silencioso
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos
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2
Adalgisa Nery
Poema ao Silêncio
Silencio, cobre meu pensamento e o meu coração
Cobre o meu corpo do desejo dos homens
E a minha sombra da luz do sol
Cobre a te a lembrança dos meus passos
E o som da minha voz
Cobre a minha caridade e a minha fé
A vontade de morrer e também a de viver
Estende-te sobre o colorido das paisagens
Interpõe-te na minha respiração e no meu pestanejar
Cobre-me desde o início da minha concepção
Enrola-te no duplo de mim mesma
Transforma-me em fragmento de ti próprio,
Penetra no meu principio e no meu fim,
Cobre-me bem, com tanta amplitude e intensidade
Que possa eu ser esquecida
E me esquecer por toda a eternidade!
(Adalgisa Nery)
Cobre o meu corpo do desejo dos homens
E a minha sombra da luz do sol
Cobre a te a lembrança dos meus passos
E o som da minha voz
Cobre a minha caridade e a minha fé
A vontade de morrer e também a de viver
Estende-te sobre o colorido das paisagens
Interpõe-te na minha respiração e no meu pestanejar
Cobre-me desde o início da minha concepção
Enrola-te no duplo de mim mesma
Transforma-me em fragmento de ti próprio,
Penetra no meu principio e no meu fim,
Cobre-me bem, com tanta amplitude e intensidade
Que possa eu ser esquecida
E me esquecer por toda a eternidade!
(Adalgisa Nery)
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Adalgisa Nery
Poema ao Silêncio
Silencio, cobre meu pensamento e o meu coração
Cobre o meu corpo do desejo dos homens
E a minha sombra da luz do sol
Cobre a te a lembrança dos meus passos
E o som da minha voz
Cobre a minha caridade e a minha fé
A vontade de morrer e também a de viver
Estende-te sobre o colorido das paisagens
Interpõe-te na minha respiração e no meu pestanejar
Cobre-me desde o início da minha concepção
Enrola-te no duplo de mim mesma
Transforma-me em fragmento de ti próprio,
Penetra no meu principio e no meu fim,
Cobre-me bem, com tanta amplitude e intensidade
Que possa eu ser esquecida
E me esquecer por toda a eternidade!
(Adalgisa Nery)
Cobre o meu corpo do desejo dos homens
E a minha sombra da luz do sol
Cobre a te a lembrança dos meus passos
E o som da minha voz
Cobre a minha caridade e a minha fé
A vontade de morrer e também a de viver
Estende-te sobre o colorido das paisagens
Interpõe-te na minha respiração e no meu pestanejar
Cobre-me desde o início da minha concepção
Enrola-te no duplo de mim mesma
Transforma-me em fragmento de ti próprio,
Penetra no meu principio e no meu fim,
Cobre-me bem, com tanta amplitude e intensidade
Que possa eu ser esquecida
E me esquecer por toda a eternidade!
(Adalgisa Nery)
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2
Simeão Cachamba
Xirico
domesticadas asas estrebucham
o ancestral sonho sitiado que
a exiguidade geométrica da gaiola calca
enquanto ouvimos rádio na sala de estar
dura um instante infinitesimal a pausa do locutor
e nesse vazio
breve
oportuno
subversivo o pássaro entoa as cores do arco-íris
os sons fluem em cascata através dos arames
e estacam na sala
- vá tu saber se o bicho está triste ou alegre
o ancestral sonho sitiado que
a exiguidade geométrica da gaiola calca
enquanto ouvimos rádio na sala de estar
dura um instante infinitesimal a pausa do locutor
e nesse vazio
breve
oportuno
subversivo o pássaro entoa as cores do arco-íris
os sons fluem em cascata através dos arames
e estacam na sala
- vá tu saber se o bicho está triste ou alegre
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2
José Gomes Ferreira
POESIA III
Com pés de aragem
andou toda a noite uma Mulher
a colar folhas na paisagem
e invenções de flores
no chão desnudo
Depois...
(E esta mania que eu tenho
de pôr mulheres em tudo?)
andou toda a noite uma Mulher
a colar folhas na paisagem
e invenções de flores
no chão desnudo
Depois...
(E esta mania que eu tenho
de pôr mulheres em tudo?)
6 955
2
José Gomes Ferreira
POESIA III
Com pés de aragem
andou toda a noite uma Mulher
a colar folhas na paisagem
e invenções de flores
no chão desnudo
Depois...
(E esta mania que eu tenho
de pôr mulheres em tudo?)
andou toda a noite uma Mulher
a colar folhas na paisagem
e invenções de flores
no chão desnudo
Depois...
(E esta mania que eu tenho
de pôr mulheres em tudo?)
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José Gomes Ferreira
POESIA III
Com pés de aragem
andou toda a noite uma Mulher
a colar folhas na paisagem
e invenções de flores
no chão desnudo
Depois...
(E esta mania que eu tenho
de pôr mulheres em tudo?)
andou toda a noite uma Mulher
a colar folhas na paisagem
e invenções de flores
no chão desnudo
Depois...
(E esta mania que eu tenho
de pôr mulheres em tudo?)
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2
Herberto Helder
As Musas Cegas - Vii
Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,
ressoando violentamente pelos corredores
e paredes e pátios desta própria casa
que eu sou. Que eu serei até não sei quando.
E uma doce pancada à porta, alguma coisa
que desfaz e refaz um homem. Uma pancada
breve, breve —
e eu estremeço como um archote. Eu diria
que cantam, depois de baterem, que a noite
se move um pouco para a frente, para a eternidade.
Eu diria que sangra um ponto secreto
do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente
ou se queima como uma face. Escuta:
que a noite vagarosamente se queima
como a minha face.
Essa criança tem boca, há tantas finas raízes
que sobem do meu sangue. Um novo instrumento,
uma taça situou-se na terra, e há tantas
finas raízes que sobem do meu sangue. E uma candeia,
uma flor, uma pequena lira,
podem erguer-se de um rio de sangue, sobre o mundo —
um novo instrumento rodeado pelas campânulas
inclinadas, por ligeiras pedras húmidas,
pelos animais que movem no seu calmo halo de fogo
as grandes cabeças sonhadoras.
Essa criança dorme sobre os meus lagos de treva.
Pensei algumas palavras para oferecer-lhe. Esqueço-me
tantas vezes dos mistérios dessa porta.
Porque então é muito estreita com seus espelhos
detrás, com o vestíbulo frio.
Mas é tão belo uma criança ainda enevoada,
uma criança que ascende como uma
grande música
desta rede de ossos, deste espinho do sexo,
da confusa pungência, escuta: da pungente
confusão
de um homem restrito com a sua vida tão lenta.
Essa criança é uma coisa que está nos meus dedos.
As vezes debruço-me sobre as cisternas, e as vertigens,
e as virilhas em chama.
E a minha vida. Mas essa criança
é tão brusca, tão brusca, ela destrói e aumenta
o meu coração.
No outono eu olhava as águas lentas,
ou as pistas deixadas na neve
de fevereiro, ou a cor feroz,
ou a arcada do céu com um silêncio completo.
Misturava-se o vinho dentro de mim, misturava-se
a ciência na minha carne
atónita. Escuta: cada vez a minha vida
é mais hermética.
Essa criança tem os pés na minha boca
dolorosa.
Se ela um dia adormecer com cerejas junto à
respiração pequena e sonhar
estes imensos arcos que os séculos vão colocando
sob os astros — e se de tudo
a sua cabeça estremecer como numa loucura,
com altos picos em volta, com enormes faróis
acendendo e apagando — escuta: se essa criança
imaginar, e todas as cordas se juntarem tensamente
para que ela invente o seu próprio rio
sem nome —
será ainda que do meu sangue se erguem finas
raízes, e o tenebroso tumulto
das minhas sombras
está no fundo, no fundo da sua ingénua vida,
da sua terrível vida sem remédio.
Se ela morrer, escuta, será que a minha boca
diz lá em baixo
essas majestosas e violentas palavras
dos poemas.
Essa criança que aperta as veias que iluminam
a minha garganta. Ela dorme. Escuta:
a sua vida estala como uma brasa, a sua vida
deslumbrante estala e aumenta.
Se um dia os archotes incendiarem essa boca,
e as faúlhas cercarem
o silêncio tremendo dessa pequena boca, escuta:
a minha boca, lá em baixo, está coberta de fogo.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,
ressoando violentamente pelos corredores
e paredes e pátios desta própria casa
que eu sou. Que eu serei até não sei quando.
E uma doce pancada à porta, alguma coisa
que desfaz e refaz um homem. Uma pancada
breve, breve —
e eu estremeço como um archote. Eu diria
que cantam, depois de baterem, que a noite
se move um pouco para a frente, para a eternidade.
Eu diria que sangra um ponto secreto
do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente
ou se queima como uma face. Escuta:
que a noite vagarosamente se queima
como a minha face.
Essa criança tem boca, há tantas finas raízes
que sobem do meu sangue. Um novo instrumento,
uma taça situou-se na terra, e há tantas
finas raízes que sobem do meu sangue. E uma candeia,
uma flor, uma pequena lira,
podem erguer-se de um rio de sangue, sobre o mundo —
um novo instrumento rodeado pelas campânulas
inclinadas, por ligeiras pedras húmidas,
pelos animais que movem no seu calmo halo de fogo
as grandes cabeças sonhadoras.
Essa criança dorme sobre os meus lagos de treva.
Pensei algumas palavras para oferecer-lhe. Esqueço-me
tantas vezes dos mistérios dessa porta.
Porque então é muito estreita com seus espelhos
detrás, com o vestíbulo frio.
Mas é tão belo uma criança ainda enevoada,
uma criança que ascende como uma
grande música
desta rede de ossos, deste espinho do sexo,
da confusa pungência, escuta: da pungente
confusão
de um homem restrito com a sua vida tão lenta.
Essa criança é uma coisa que está nos meus dedos.
As vezes debruço-me sobre as cisternas, e as vertigens,
e as virilhas em chama.
E a minha vida. Mas essa criança
é tão brusca, tão brusca, ela destrói e aumenta
o meu coração.
No outono eu olhava as águas lentas,
ou as pistas deixadas na neve
de fevereiro, ou a cor feroz,
ou a arcada do céu com um silêncio completo.
Misturava-se o vinho dentro de mim, misturava-se
a ciência na minha carne
atónita. Escuta: cada vez a minha vida
é mais hermética.
Essa criança tem os pés na minha boca
dolorosa.
Se ela um dia adormecer com cerejas junto à
respiração pequena e sonhar
estes imensos arcos que os séculos vão colocando
sob os astros — e se de tudo
a sua cabeça estremecer como numa loucura,
com altos picos em volta, com enormes faróis
acendendo e apagando — escuta: se essa criança
imaginar, e todas as cordas se juntarem tensamente
para que ela invente o seu próprio rio
sem nome —
será ainda que do meu sangue se erguem finas
raízes, e o tenebroso tumulto
das minhas sombras
está no fundo, no fundo da sua ingénua vida,
da sua terrível vida sem remédio.
Se ela morrer, escuta, será que a minha boca
diz lá em baixo
essas majestosas e violentas palavras
dos poemas.
Essa criança que aperta as veias que iluminam
a minha garganta. Ela dorme. Escuta:
a sua vida estala como uma brasa, a sua vida
deslumbrante estala e aumenta.
Se um dia os archotes incendiarem essa boca,
e as faúlhas cercarem
o silêncio tremendo dessa pequena boca, escuta:
a minha boca, lá em baixo, está coberta de fogo.
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Herberto Helder
As Musas Cegas - Vii
Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,
ressoando violentamente pelos corredores
e paredes e pátios desta própria casa
que eu sou. Que eu serei até não sei quando.
E uma doce pancada à porta, alguma coisa
que desfaz e refaz um homem. Uma pancada
breve, breve —
e eu estremeço como um archote. Eu diria
que cantam, depois de baterem, que a noite
se move um pouco para a frente, para a eternidade.
Eu diria que sangra um ponto secreto
do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente
ou se queima como uma face. Escuta:
que a noite vagarosamente se queima
como a minha face.
Essa criança tem boca, há tantas finas raízes
que sobem do meu sangue. Um novo instrumento,
uma taça situou-se na terra, e há tantas
finas raízes que sobem do meu sangue. E uma candeia,
uma flor, uma pequena lira,
podem erguer-se de um rio de sangue, sobre o mundo —
um novo instrumento rodeado pelas campânulas
inclinadas, por ligeiras pedras húmidas,
pelos animais que movem no seu calmo halo de fogo
as grandes cabeças sonhadoras.
Essa criança dorme sobre os meus lagos de treva.
Pensei algumas palavras para oferecer-lhe. Esqueço-me
tantas vezes dos mistérios dessa porta.
Porque então é muito estreita com seus espelhos
detrás, com o vestíbulo frio.
Mas é tão belo uma criança ainda enevoada,
uma criança que ascende como uma
grande música
desta rede de ossos, deste espinho do sexo,
da confusa pungência, escuta: da pungente
confusão
de um homem restrito com a sua vida tão lenta.
Essa criança é uma coisa que está nos meus dedos.
As vezes debruço-me sobre as cisternas, e as vertigens,
e as virilhas em chama.
E a minha vida. Mas essa criança
é tão brusca, tão brusca, ela destrói e aumenta
o meu coração.
No outono eu olhava as águas lentas,
ou as pistas deixadas na neve
de fevereiro, ou a cor feroz,
ou a arcada do céu com um silêncio completo.
Misturava-se o vinho dentro de mim, misturava-se
a ciência na minha carne
atónita. Escuta: cada vez a minha vida
é mais hermética.
Essa criança tem os pés na minha boca
dolorosa.
Se ela um dia adormecer com cerejas junto à
respiração pequena e sonhar
estes imensos arcos que os séculos vão colocando
sob os astros — e se de tudo
a sua cabeça estremecer como numa loucura,
com altos picos em volta, com enormes faróis
acendendo e apagando — escuta: se essa criança
imaginar, e todas as cordas se juntarem tensamente
para que ela invente o seu próprio rio
sem nome —
será ainda que do meu sangue se erguem finas
raízes, e o tenebroso tumulto
das minhas sombras
está no fundo, no fundo da sua ingénua vida,
da sua terrível vida sem remédio.
Se ela morrer, escuta, será que a minha boca
diz lá em baixo
essas majestosas e violentas palavras
dos poemas.
Essa criança que aperta as veias que iluminam
a minha garganta. Ela dorme. Escuta:
a sua vida estala como uma brasa, a sua vida
deslumbrante estala e aumenta.
Se um dia os archotes incendiarem essa boca,
e as faúlhas cercarem
o silêncio tremendo dessa pequena boca, escuta:
a minha boca, lá em baixo, está coberta de fogo.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,
ressoando violentamente pelos corredores
e paredes e pátios desta própria casa
que eu sou. Que eu serei até não sei quando.
E uma doce pancada à porta, alguma coisa
que desfaz e refaz um homem. Uma pancada
breve, breve —
e eu estremeço como um archote. Eu diria
que cantam, depois de baterem, que a noite
se move um pouco para a frente, para a eternidade.
Eu diria que sangra um ponto secreto
do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente
ou se queima como uma face. Escuta:
que a noite vagarosamente se queima
como a minha face.
Essa criança tem boca, há tantas finas raízes
que sobem do meu sangue. Um novo instrumento,
uma taça situou-se na terra, e há tantas
finas raízes que sobem do meu sangue. E uma candeia,
uma flor, uma pequena lira,
podem erguer-se de um rio de sangue, sobre o mundo —
um novo instrumento rodeado pelas campânulas
inclinadas, por ligeiras pedras húmidas,
pelos animais que movem no seu calmo halo de fogo
as grandes cabeças sonhadoras.
Essa criança dorme sobre os meus lagos de treva.
Pensei algumas palavras para oferecer-lhe. Esqueço-me
tantas vezes dos mistérios dessa porta.
Porque então é muito estreita com seus espelhos
detrás, com o vestíbulo frio.
Mas é tão belo uma criança ainda enevoada,
uma criança que ascende como uma
grande música
desta rede de ossos, deste espinho do sexo,
da confusa pungência, escuta: da pungente
confusão
de um homem restrito com a sua vida tão lenta.
Essa criança é uma coisa que está nos meus dedos.
As vezes debruço-me sobre as cisternas, e as vertigens,
e as virilhas em chama.
E a minha vida. Mas essa criança
é tão brusca, tão brusca, ela destrói e aumenta
o meu coração.
No outono eu olhava as águas lentas,
ou as pistas deixadas na neve
de fevereiro, ou a cor feroz,
ou a arcada do céu com um silêncio completo.
Misturava-se o vinho dentro de mim, misturava-se
a ciência na minha carne
atónita. Escuta: cada vez a minha vida
é mais hermética.
Essa criança tem os pés na minha boca
dolorosa.
Se ela um dia adormecer com cerejas junto à
respiração pequena e sonhar
estes imensos arcos que os séculos vão colocando
sob os astros — e se de tudo
a sua cabeça estremecer como numa loucura,
com altos picos em volta, com enormes faróis
acendendo e apagando — escuta: se essa criança
imaginar, e todas as cordas se juntarem tensamente
para que ela invente o seu próprio rio
sem nome —
será ainda que do meu sangue se erguem finas
raízes, e o tenebroso tumulto
das minhas sombras
está no fundo, no fundo da sua ingénua vida,
da sua terrível vida sem remédio.
Se ela morrer, escuta, será que a minha boca
diz lá em baixo
essas majestosas e violentas palavras
dos poemas.
Essa criança que aperta as veias que iluminam
a minha garganta. Ela dorme. Escuta:
a sua vida estala como uma brasa, a sua vida
deslumbrante estala e aumenta.
Se um dia os archotes incendiarem essa boca,
e as faúlhas cercarem
o silêncio tremendo dessa pequena boca, escuta:
a minha boca, lá em baixo, está coberta de fogo.
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2
Lilinho Micaia Kalungano
Ódio
Foi assim
que tudo aconteceu
senti uma dor aguda
e o cão não ladrou
o xirico não cantou
a lua não estava
a lua não estava
Foi ali
na estrada Ilha-Monapo
era 14 de Março
Uma enorme gargalhada
e tudo foi silêncio
sem cor
Cerrei os dentes
O peito inchou
duro
Uma lágrima desce
lenta
pesada
Uma só
Anita caiu
morreu
que tudo aconteceu
senti uma dor aguda
e o cão não ladrou
o xirico não cantou
a lua não estava
a lua não estava
Foi ali
na estrada Ilha-Monapo
era 14 de Março
Uma enorme gargalhada
e tudo foi silêncio
sem cor
Cerrei os dentes
O peito inchou
duro
Uma lágrima desce
lenta
pesada
Uma só
Anita caiu
morreu
1 291
2
Lobo da Costa
AQUELE RANCHINHO (Ranchinho do Sertão)
Tu me perguntas a história
daquele triste ranchinho,
que abandonado encontramos,
coberto por negros ramos
de pessegueiro maninho;
aquele rancho de palha,
aquele triste ranchinho!...
Ai foi um drama de sangue
que aqui se deu...pois não vês!
Repara para as janelas...
o fogo passou por elas!
- Há quantos anos! - Há três.
Contou-me o velho moleiro
há pouco menos de um mês.
Ali morava um velhinho
e mais, um anjo de amor;
criança bela morena
mais formosa que a açucena...
Maria, - a pálida flor,
cujo perfume recende
ainda aos pés do Senhor.
Maria e Vito se amaram
iam seus fados unir,
quando a trombeta da guerra
plangente ecoou na serra
convocando a reunir:
Parte o audaz cavalariano,
porém antes de partir...
Porém antes...entre beijos
juraram constância enfim:
"Se eu morrer numa batalha,
nesta casinha de palha
tu viverás só por mim!..."
A moça beijou-lhe a fronte
e respondeu-lhe: "Pois sim."
Os anos voam! Há tempo
que ela não ri como sói...
chora a triste sertaneja,
quando por fim lhe negreja
uma notícia que dói!
Morrera Vito em combate...
morrera como um herói.
Vestiu luto a pobrezinha,
o velho também vestiu...
Cede por fim a ternura,
e pouco a pouco a tristura
no peito se lhe extinguiu;
se ele morreu foi destino
foi a sorte que o feriu!
Depois correu pela riba
uma nova singular:
Que a bela flor do posteiro
c'o filho de um fazendeiro
já de pronto ia casar;
causou abalo a notícia,
sem que ousassem duvidar.
Uma noite a tempestade
batia pelos cipós,
gemia o vento nos montes
e as águas frias das fontes
desciam com rouca voz...
e no rancho do posteiro
dois noivos dormiam sós.
De repente pela encosta
um cavaleiro desceu;
molhado o poncho brilhava
ao resplendor da saraiva
que resvalava do céu...
era um vulto negro...negro...
trazia enorme chapéu!
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...
À luz de um raio
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...
À luz de um raio se abre
a porta de par em par!
Sobre o leito precipita-se
o camponês sem temor!
No punho a adaga flutua
e nas mãos aperta a sua
primeira sombra de amor!
Uma luta então se trava,
sendo Vito o vencedor.
"Pérfida! brada o gaúcho,
Vês o teu noivo? Morreu!
Morrerás também ingrata!"
E a fria adaga de prata
bem nos ares suspendeu.
Baixou a mão e três vezes
no alvo seio a embebeu.
No outro dia os destroços
de um rancho via-se então.
O incêndio levara tudo
e fora cúmplice mudo,
fora cúmplice o trovão!
- Aí tens a história que pedes
do ranchinho do sertão.
Poema escrito em Pelotas, sua terra natal, no ano de 1875 e dedicado (como ele mesmo comentou) ao inspirado poeta riograndense Bernardo Taveira.
daquele triste ranchinho,
que abandonado encontramos,
coberto por negros ramos
de pessegueiro maninho;
aquele rancho de palha,
aquele triste ranchinho!...
Ai foi um drama de sangue
que aqui se deu...pois não vês!
Repara para as janelas...
o fogo passou por elas!
- Há quantos anos! - Há três.
Contou-me o velho moleiro
há pouco menos de um mês.
Ali morava um velhinho
e mais, um anjo de amor;
criança bela morena
mais formosa que a açucena...
Maria, - a pálida flor,
cujo perfume recende
ainda aos pés do Senhor.
Maria e Vito se amaram
iam seus fados unir,
quando a trombeta da guerra
plangente ecoou na serra
convocando a reunir:
Parte o audaz cavalariano,
porém antes de partir...
Porém antes...entre beijos
juraram constância enfim:
"Se eu morrer numa batalha,
nesta casinha de palha
tu viverás só por mim!..."
A moça beijou-lhe a fronte
e respondeu-lhe: "Pois sim."
Os anos voam! Há tempo
que ela não ri como sói...
chora a triste sertaneja,
quando por fim lhe negreja
uma notícia que dói!
Morrera Vito em combate...
morrera como um herói.
Vestiu luto a pobrezinha,
o velho também vestiu...
Cede por fim a ternura,
e pouco a pouco a tristura
no peito se lhe extinguiu;
se ele morreu foi destino
foi a sorte que o feriu!
Depois correu pela riba
uma nova singular:
Que a bela flor do posteiro
c'o filho de um fazendeiro
já de pronto ia casar;
causou abalo a notícia,
sem que ousassem duvidar.
Uma noite a tempestade
batia pelos cipós,
gemia o vento nos montes
e as águas frias das fontes
desciam com rouca voz...
e no rancho do posteiro
dois noivos dormiam sós.
De repente pela encosta
um cavaleiro desceu;
molhado o poncho brilhava
ao resplendor da saraiva
que resvalava do céu...
era um vulto negro...negro...
trazia enorme chapéu!
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...
À luz de um raio
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...
À luz de um raio se abre
a porta de par em par!
Sobre o leito precipita-se
o camponês sem temor!
No punho a adaga flutua
e nas mãos aperta a sua
primeira sombra de amor!
Uma luta então se trava,
sendo Vito o vencedor.
"Pérfida! brada o gaúcho,
Vês o teu noivo? Morreu!
Morrerás também ingrata!"
E a fria adaga de prata
bem nos ares suspendeu.
Baixou a mão e três vezes
no alvo seio a embebeu.
No outro dia os destroços
de um rancho via-se então.
O incêndio levara tudo
e fora cúmplice mudo,
fora cúmplice o trovão!
- Aí tens a história que pedes
do ranchinho do sertão.
Poema escrito em Pelotas, sua terra natal, no ano de 1875 e dedicado (como ele mesmo comentou) ao inspirado poeta riograndense Bernardo Taveira.
3 717
2
Wisława Szymborska
Alguns gostam de poesia
Alguns —
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.
Gostam —
mas gosta-se também de sopa de espaguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.
De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.
Gostam —
mas gosta-se também de sopa de espaguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.
De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.
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2
Juan Gelman
Chuva
hoje chove muito, muito,
dir-se-ia que estão a lavar o mundo.
o meu vizinho do lado vê a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher com quem vive
e lhe faz a comida e lava a roupa e faz amor com ele
e se parece com a sua sombra
o meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta entra-se em muitos sítios
no trabalho, no quartel, na prisão,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher / nem na alma
quer dizer / nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje / que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e só a alma sabe onde as duas se encontram
e quando / e como
mas que pode a alma explicar
por isso o meu vizinho tem tempestades na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na
mesma noite em que ele amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que existe entre duas rosas
ou como eu / que escrevo palavras para regressar
ao meu vizinho que vê a chuva
e à chuva
ao meu coração desterrado
dir-se-ia que estão a lavar o mundo.
o meu vizinho do lado vê a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher com quem vive
e lhe faz a comida e lava a roupa e faz amor com ele
e se parece com a sua sombra
o meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta entra-se em muitos sítios
no trabalho, no quartel, na prisão,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher / nem na alma
quer dizer / nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje / que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e só a alma sabe onde as duas se encontram
e quando / e como
mas que pode a alma explicar
por isso o meu vizinho tem tempestades na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na
mesma noite em que ele amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que existe entre duas rosas
ou como eu / que escrevo palavras para regressar
ao meu vizinho que vê a chuva
e à chuva
ao meu coração desterrado
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2
Juan Gelman
Chuva
hoje chove muito, muito,
dir-se-ia que estão a lavar o mundo.
o meu vizinho do lado vê a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher com quem vive
e lhe faz a comida e lava a roupa e faz amor com ele
e se parece com a sua sombra
o meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta entra-se em muitos sítios
no trabalho, no quartel, na prisão,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher / nem na alma
quer dizer / nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje / que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e só a alma sabe onde as duas se encontram
e quando / e como
mas que pode a alma explicar
por isso o meu vizinho tem tempestades na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na
mesma noite em que ele amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que existe entre duas rosas
ou como eu / que escrevo palavras para regressar
ao meu vizinho que vê a chuva
e à chuva
ao meu coração desterrado
dir-se-ia que estão a lavar o mundo.
o meu vizinho do lado vê a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher com quem vive
e lhe faz a comida e lava a roupa e faz amor com ele
e se parece com a sua sombra
o meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta entra-se em muitos sítios
no trabalho, no quartel, na prisão,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher / nem na alma
quer dizer / nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje / que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e só a alma sabe onde as duas se encontram
e quando / e como
mas que pode a alma explicar
por isso o meu vizinho tem tempestades na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na
mesma noite em que ele amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que existe entre duas rosas
ou como eu / que escrevo palavras para regressar
ao meu vizinho que vê a chuva
e à chuva
ao meu coração desterrado
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Juan Gelman
Chuva
hoje chove muito, muito,
dir-se-ia que estão a lavar o mundo.
o meu vizinho do lado vê a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher com quem vive
e lhe faz a comida e lava a roupa e faz amor com ele
e se parece com a sua sombra
o meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta entra-se em muitos sítios
no trabalho, no quartel, na prisão,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher / nem na alma
quer dizer / nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje / que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e só a alma sabe onde as duas se encontram
e quando / e como
mas que pode a alma explicar
por isso o meu vizinho tem tempestades na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na
mesma noite em que ele amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que existe entre duas rosas
ou como eu / que escrevo palavras para regressar
ao meu vizinho que vê a chuva
e à chuva
ao meu coração desterrado
dir-se-ia que estão a lavar o mundo.
o meu vizinho do lado vê a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher com quem vive
e lhe faz a comida e lava a roupa e faz amor com ele
e se parece com a sua sombra
o meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta entra-se em muitos sítios
no trabalho, no quartel, na prisão,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher / nem na alma
quer dizer / nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje / que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e só a alma sabe onde as duas se encontram
e quando / e como
mas que pode a alma explicar
por isso o meu vizinho tem tempestades na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na
mesma noite em que ele amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que existe entre duas rosas
ou como eu / que escrevo palavras para regressar
ao meu vizinho que vê a chuva
e à chuva
ao meu coração desterrado
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2
Gulamo Khan
Mocambicanto I
céleres as águas
zambezeiam pela memória
das almadias do silêncio
nem o zumbido da cigarra
me entontece
nem o troar do tambor
me ensurdece
as vozes que são
sulcos das nossas esperanças
Oh pátria
mocambiquero-te
neste alumbramento
e amar-te
devo-o à carne e ao nervo
deglutidos em revolta.
Da enxada e do martelo
é o verso escrito na palma
da tua mão punho fechado
que nas alavancas das horas
faz refulgir o aço
analfabetamente parido
Cavador maldito
pronto a decepar o tronco
deste imbondeiro tão pária
carcomido pelas talecuas
sugadoras do seu sangue
e o veneno da nhoca cuspideira
queimando as migalhas bélicas
postadas de cócoras no caminho
dos simples
assim altivo ergues o teu nome
num pais ainda
de nadas e famélicos
desbravando os crápulas bem como os satanhocos.
Sei da Pátria
o nome erguido
a estrela tatuada
no corpo do Indico
uma timbila
canção guerreira
zambezeiam pela memória
das almadias do silêncio
nem o zumbido da cigarra
me entontece
nem o troar do tambor
me ensurdece
as vozes que são
sulcos das nossas esperanças
Oh pátria
mocambiquero-te
neste alumbramento
e amar-te
devo-o à carne e ao nervo
deglutidos em revolta.
Da enxada e do martelo
é o verso escrito na palma
da tua mão punho fechado
que nas alavancas das horas
faz refulgir o aço
analfabetamente parido
Cavador maldito
pronto a decepar o tronco
deste imbondeiro tão pária
carcomido pelas talecuas
sugadoras do seu sangue
e o veneno da nhoca cuspideira
queimando as migalhas bélicas
postadas de cócoras no caminho
dos simples
assim altivo ergues o teu nome
num pais ainda
de nadas e famélicos
desbravando os crápulas bem como os satanhocos.
Sei da Pátria
o nome erguido
a estrela tatuada
no corpo do Indico
uma timbila
canção guerreira
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José Luís Tavares
Curvo-me ao obstinado peso das raízes
Curvo-me ao obstinado peso das raízes.
Mais alto se erguem os morosos frutos
da inquietude. Por todo o meu corpo
animais em deserção, bélicos murmúrios,
impendentes murmúrios, desdenhada fortuna.
Não sei de barcos, não sei de pontes,
para outro tão melodioso território.
Afeiçoados ficaram os olhos ao sonhado
verde dos campos. Derrotados sob o
adivinhado zelo do sol por quantos dias
a ilha estremece ao temor da sede
e da ruína.
Deram-lhe navegadores nome de santo,
quando à vista das angras lágrimas
e gritos se confundiram. E na hora terreal,
feito o sinal da cruz, divisa de quem
por tão longes terras os mandara navegar,
um destino de penumbra ali se traçou.
E ficámos náufragos, irmãos dos chibos,
pela ocidental terra que o dia já desnuda.
Pelos sinos da matriz avisando da inexorável
aproximação dos corsários (um tempo
de rapina subjaz ainda na memória desses
anos) eu vos saúdo, velho cadamosto,
diogo gomes, antónio da noli; eu vos saúdo
desde esses picos de sede de onde a noite
mais veloz se confunde com os desfraldados
estandartes da alegria.
Mais alto se erguem os morosos frutos
da inquietude. Por todo o meu corpo
animais em deserção, bélicos murmúrios,
impendentes murmúrios, desdenhada fortuna.
Não sei de barcos, não sei de pontes,
para outro tão melodioso território.
Afeiçoados ficaram os olhos ao sonhado
verde dos campos. Derrotados sob o
adivinhado zelo do sol por quantos dias
a ilha estremece ao temor da sede
e da ruína.
Deram-lhe navegadores nome de santo,
quando à vista das angras lágrimas
e gritos se confundiram. E na hora terreal,
feito o sinal da cruz, divisa de quem
por tão longes terras os mandara navegar,
um destino de penumbra ali se traçou.
E ficámos náufragos, irmãos dos chibos,
pela ocidental terra que o dia já desnuda.
Pelos sinos da matriz avisando da inexorável
aproximação dos corsários (um tempo
de rapina subjaz ainda na memória desses
anos) eu vos saúdo, velho cadamosto,
diogo gomes, antónio da noli; eu vos saúdo
desde esses picos de sede de onde a noite
mais veloz se confunde com os desfraldados
estandartes da alegria.
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2
Gabriel Mariano
Única Dávida
Os engajadores levaram
a nossa única dádiva
e já ninguém devolve
o que nos foi roubado.
Longa è a ladeira que a fome alonga.
Enquanto eu vivo
as perguntas duram
E eu vivo da fome
interrogativamente.
Longa è a ladeira que a fome alonga.
Como podem ladrões
rondar meus olhos
se amor só
meus olhos tem?
Longa è a ladeira que a fome alonga
terralonginquamente.
a nossa única dádiva
e já ninguém devolve
o que nos foi roubado.
Longa è a ladeira que a fome alonga.
Enquanto eu vivo
as perguntas duram
E eu vivo da fome
interrogativamente.
Longa è a ladeira que a fome alonga.
Como podem ladrões
rondar meus olhos
se amor só
meus olhos tem?
Longa è a ladeira que a fome alonga
terralonginquamente.
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2
António Botto
Explica-me tu se podes
Explica-me tu se podes
Num movimento de calma,
Porque razão
Se te beijo num desvairo de prazer
Às vezes sou todo corpo
E às vezes sou todo alma?
Num movimento de calma,
Porque razão
Se te beijo num desvairo de prazer
Às vezes sou todo corpo
E às vezes sou todo alma?
3 086
2
Malangatana Valente Ngwenya
A mamã preocupada
Nos teus braços eu fiquei
quando me nasceste muito preocupada
quem estava aflita
naquela altura perigosa
com o receio de que Deus me vai levar?
Tudo em silêncio olhava
para ver se o parto corria bem
tudo lavava as mãos
para poder receber quem vinha dos Céus
e toda a mulher quieta e aflita
Mas quando afastei-me
do lugar em que me guardaste durante longo tempo
dei logo o primeiro respiro
tu gritaste logo de alegria
o primeiro beijo foi o da Avó
Que levou-me logo para o lugar
que me guardaram e é secreto
tudo foi proibido a entrar no meu quarto
porque tudo cheirava mal
e eu todo fresco, fresco
respirava finalmente dentro das minhas fraldas
Mas a Avó que se supunha doida
estava sempre ao meu lado
ver-me e rever-me sempre
porque as moscas vinham ter comigo
e os mosquitos inquietavam-me
Deus que revia-me também
era o amigo da minha Avó velhinha
quando me nasceste muito preocupada
quem estava aflita
naquela altura perigosa
com o receio de que Deus me vai levar?
Tudo em silêncio olhava
para ver se o parto corria bem
tudo lavava as mãos
para poder receber quem vinha dos Céus
e toda a mulher quieta e aflita
Mas quando afastei-me
do lugar em que me guardaste durante longo tempo
dei logo o primeiro respiro
tu gritaste logo de alegria
o primeiro beijo foi o da Avó
Que levou-me logo para o lugar
que me guardaram e é secreto
tudo foi proibido a entrar no meu quarto
porque tudo cheirava mal
e eu todo fresco, fresco
respirava finalmente dentro das minhas fraldas
Mas a Avó que se supunha doida
estava sempre ao meu lado
ver-me e rever-me sempre
porque as moscas vinham ter comigo
e os mosquitos inquietavam-me
Deus que revia-me também
era o amigo da minha Avó velhinha
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Olga Savary
Pedido
A Manuel Bandeira
Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.
Caieiras, 25 de janeiro de 1954
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970.
NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora Pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.
Caieiras, 25 de janeiro de 1954
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970.
NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora Pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
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Olga Savary
Pedido
A Manuel Bandeira
Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.
Caieiras, 25 de janeiro de 1954
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970.
NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora Pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.
Caieiras, 25 de janeiro de 1954
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970.
NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora Pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
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