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Gonçalves Crespo

Gonçalves Crespo

Ao Rabequista Eugênio Dégremont

Recitada na noite de 25 de fevereiro de 1877 no Teatro de
S.João do Porto


Vede-o! É tão criança! ó mães, olhai-o!
Como é vivo o fulgor e ardente o raio
Que vibra nesse olhar!
Faz gosto vê-lo assim tão pequenino
Enlevado nos sons do violino
A sonhar, a sonhar...

E ao passo que a sua alma vai sonhando,
Vão-se ante nossos olhos desdobrando
Quadros a mil e mil.
A rabeca suspira? Assim amenas
São na longínqua roça as cantilenas
Das moças do Brasil.

Vibram ríspidos sons? E logo ouvimos
Curvar o vento da floresta os cimos
Com ruidoso fragor...
E uivam pintadas onças e as araras
Roçam, fugindo, as trêmulas taquaras.
E crocita o condor.

Enterrados nas úmidas pastagens
Mugem raivosos búfalos selvagens,
E por entre os sarçais
Pula a pantera; os jacarés astutos
Choram, fingindo lacrimosos lutos
Nos fulvos areais.

Soluçou a rabeca? Ouvi, formosas,
São os negros soltando as lastimosas
Canções do seu país;
Sem família, sem pátria, sem amores,
Ninguém mitiga o fel daquelas dores,
Triste raça infeliz!

Agora, como em namorado anseio,
Sai da rabeca um lânguido gorjeio
Que enleva o coração.
E a saudade repinta-nos ao vivo
Dos sabiás o cântico lascivo
Nas sombras do sertão.

Tudo isso e mais eu vejo, admiro e escuto,
Com meu olhar de prantos não enxuto,
Ó criança gentil,
Que em vez de perseguir as borboletas
Vens batalhar no meio dos atletas
E honrar o teu Brasil!

Não presumas, porém, prodígio das crianças!
Que basta o fogo, o estro, a viva inspiração;
É mister trabalhar, sem isso nada alcanças;
A glória chamarás, ser-te-á o apelo em vão.

Pois que! tu cuidarás, criança, porventura
Que sem lutar, sofrer, sem hórridos tormentos
O artista poderia erguer aos quatro ventos
A Epopéia, o Drama, a Estátua, a Partitura?

Vamos, trabalha pois, ó meu precoce artista,
Dos precipícios ri, vinga-me o barrocal!
Para o profundo azul estende a larga vista.
Eis-te nos alcantis! Eleva-te ao ideal!

Imagem - 00030001


Publicado no livro Noturnos (1882).

In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
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Gonçalves Crespo

Gonçalves Crespo

Ao Rabequista Eugênio Dégremont

Recitada na noite de 25 de fevereiro de 1877 no Teatro de
S.João do Porto


Vede-o! É tão criança! ó mães, olhai-o!
Como é vivo o fulgor e ardente o raio
Que vibra nesse olhar!
Faz gosto vê-lo assim tão pequenino
Enlevado nos sons do violino
A sonhar, a sonhar...

E ao passo que a sua alma vai sonhando,
Vão-se ante nossos olhos desdobrando
Quadros a mil e mil.
A rabeca suspira? Assim amenas
São na longínqua roça as cantilenas
Das moças do Brasil.

Vibram ríspidos sons? E logo ouvimos
Curvar o vento da floresta os cimos
Com ruidoso fragor...
E uivam pintadas onças e as araras
Roçam, fugindo, as trêmulas taquaras.
E crocita o condor.

Enterrados nas úmidas pastagens
Mugem raivosos búfalos selvagens,
E por entre os sarçais
Pula a pantera; os jacarés astutos
Choram, fingindo lacrimosos lutos
Nos fulvos areais.

Soluçou a rabeca? Ouvi, formosas,
São os negros soltando as lastimosas
Canções do seu país;
Sem família, sem pátria, sem amores,
Ninguém mitiga o fel daquelas dores,
Triste raça infeliz!

Agora, como em namorado anseio,
Sai da rabeca um lânguido gorjeio
Que enleva o coração.
E a saudade repinta-nos ao vivo
Dos sabiás o cântico lascivo
Nas sombras do sertão.

Tudo isso e mais eu vejo, admiro e escuto,
Com meu olhar de prantos não enxuto,
Ó criança gentil,
Que em vez de perseguir as borboletas
Vens batalhar no meio dos atletas
E honrar o teu Brasil!

Não presumas, porém, prodígio das crianças!
Que basta o fogo, o estro, a viva inspiração;
É mister trabalhar, sem isso nada alcanças;
A glória chamarás, ser-te-á o apelo em vão.

Pois que! tu cuidarás, criança, porventura
Que sem lutar, sofrer, sem hórridos tormentos
O artista poderia erguer aos quatro ventos
A Epopéia, o Drama, a Estátua, a Partitura?

Vamos, trabalha pois, ó meu precoce artista,
Dos precipícios ri, vinga-me o barrocal!
Para o profundo azul estende a larga vista.
Eis-te nos alcantis! Eleva-te ao ideal!

Imagem - 00030001


Publicado no livro Noturnos (1882).

In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
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Gonçalves Crespo

Gonçalves Crespo

Ao Rabequista Eugênio Dégremont

Recitada na noite de 25 de fevereiro de 1877 no Teatro de
S.João do Porto


Vede-o! É tão criança! ó mães, olhai-o!
Como é vivo o fulgor e ardente o raio
Que vibra nesse olhar!
Faz gosto vê-lo assim tão pequenino
Enlevado nos sons do violino
A sonhar, a sonhar...

E ao passo que a sua alma vai sonhando,
Vão-se ante nossos olhos desdobrando
Quadros a mil e mil.
A rabeca suspira? Assim amenas
São na longínqua roça as cantilenas
Das moças do Brasil.

Vibram ríspidos sons? E logo ouvimos
Curvar o vento da floresta os cimos
Com ruidoso fragor...
E uivam pintadas onças e as araras
Roçam, fugindo, as trêmulas taquaras.
E crocita o condor.

Enterrados nas úmidas pastagens
Mugem raivosos búfalos selvagens,
E por entre os sarçais
Pula a pantera; os jacarés astutos
Choram, fingindo lacrimosos lutos
Nos fulvos areais.

Soluçou a rabeca? Ouvi, formosas,
São os negros soltando as lastimosas
Canções do seu país;
Sem família, sem pátria, sem amores,
Ninguém mitiga o fel daquelas dores,
Triste raça infeliz!

Agora, como em namorado anseio,
Sai da rabeca um lânguido gorjeio
Que enleva o coração.
E a saudade repinta-nos ao vivo
Dos sabiás o cântico lascivo
Nas sombras do sertão.

Tudo isso e mais eu vejo, admiro e escuto,
Com meu olhar de prantos não enxuto,
Ó criança gentil,
Que em vez de perseguir as borboletas
Vens batalhar no meio dos atletas
E honrar o teu Brasil!

Não presumas, porém, prodígio das crianças!
Que basta o fogo, o estro, a viva inspiração;
É mister trabalhar, sem isso nada alcanças;
A glória chamarás, ser-te-á o apelo em vão.

Pois que! tu cuidarás, criança, porventura
Que sem lutar, sofrer, sem hórridos tormentos
O artista poderia erguer aos quatro ventos
A Epopéia, o Drama, a Estátua, a Partitura?

Vamos, trabalha pois, ó meu precoce artista,
Dos precipícios ri, vinga-me o barrocal!
Para o profundo azul estende a larga vista.
Eis-te nos alcantis! Eleva-te ao ideal!

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Publicado no livro Noturnos (1882).

In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
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Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu

Meus Oito Anos

Oh! souvenirs! printemps! aurores!
V. HUGO.

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
— Pés descalços, braços nus —
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

..............................

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Lisboa, 1857

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Publicado no livro As primaveras (1859). Poema integrante da série Livro I.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
14 811 1
Machado de Assis

Machado de Assis

Pássaros

Je veux changer mes pensées en oiseaux.
C. MAROT

Olha como, cortando os leves ares,
Passam do vale ao monte as andorinhas;
Vão pousar na verdura dos palmares,
Que, à tarde, cobre transparente véu;
Voam também como essas avezinhas
Meus sombrios, meus tristes pensamentos;
Zombam da fúria dos contrários ventos,
Fogem da terra, acercam-se do céu.

Porque o céu é também aquela estância
Onde respira a doce criatura,
Filha do nosso amor, sonho da infância,
Pensamento dos dias juvenis.
Lá, como esquiva flor, formosa e pura,
Vives tu escondida entre a folhagem,
Ó rainha do ermo, ó fresca imagem
Dos meus sonhos de amor calmo e feliz!

Vão para aquela estância enamorados,
Os pensamentos de minh'alma ansiosa;
Vão contar-lhe os meus dias gozados
E estas noites de lágrimas e dor.

Na tua fronte pousarão, mimosa,
Como as aves no cimo da palmeira,
Dizendo aos ecos a canção primeira
De um livro escrito pela mão do amor.

Dirão também como conservo ainda
No fundo de minh'alma essa lembrança
De tua imagem vaporosa e linda,
Único alento que me prende aqui.

E dirão mais que estrelas de esperança
Enchem a escuridão das noites minhas.
Como sobem ao monte as andorinhas,
Meus pensamentos voam para ti.


Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Vária.

In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994 v.3, p.51-52. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 217 1
Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu

Mocidade

Ninon, Ninon, que fais tu de la vie?
L'heure s'enfuit, le jour succede au jour.
Rose ce soir, demain flétrie,
Comment vis-tu, toi qui n'as pas d'amour?!
MUSSET.


Doce filha da lânguida tristeza,
Ergue a fronte pendida — o sol fulgura!
Quando a terra sorri-se e o mar suspira
Por que te banha o rosto essa amargura?!

Por que chorar quando a natura é risos,
Quando no prado a primavera é flores?
— Não foge a rosa quando o sol a busca,
Antes se abrasa nos gentis fulgores.

Não! — Viver é amar, é ter um dia
Um amigo, uma mão que nos afague;
Uma voz que nos diga os seus queixumes,
Que as nossas mágoas com amor apague.

A vida é um deserto aborrecido
Sem sombra doce, ou viração calmante;
— Amor — é a fonte que nasceu nas pedras
E mata a sede à caravana errante.

Amai-vos! — disse Deus criando o mundo,
Amemos! — disse Adão no paraíso,
Amor! — murmura o mar nos seus queixumes,
Amor! — repete a terra num sorriso!

Doce filha da lânguida tristeza,
Tua alma a suspirar de amor definha...
— Abre os olhos gentis à luz da vida,
Vem ouvir no silêncio a voz da minha!

Amemos! Este mundo é tão tristonho!
A vida, como um sonho — brilha e passa;
Por que não havemos pra acalmar as dores
Chegar aos lábios o licor da taça?

O mundo! o mundo! — E que te importa o mundo?
— Velho invejoso, a resmungar baixinho!
Nada perturba a paz serena e doce
Que as rolas gozam no seu casto ninho.

Amemos! — tudo vive e tudo canta...
Cantemos! seja a vida — hinos e flores;
De azul se veste o céu... vistamos ambos
O manto perfumado dos amores.

..........................................

Doce filha da lânguida tristeza,
Ergue a fronte pendida — o sol fulgura!
— Como a flor indolente da campina
Abre ao sol da paixão tua alma pura!

Setembro, 1858

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Publicado no livro As primaveras (1859). Poema integrante da série Livro II.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Domingos Caldas Barbosa

Domingos Caldas Barbosa

Lundum em Louvor de uma Brasileira Adotiva

Eu vi correndo hoje o Tejo
Vinha soberbo e vaidoso;
Só por ter nas suas margens
O meigo Lundum gostoso.

Que lindas voltas que fez
Estendido pela praia
Queria beijar-lhe os pés.

Se o Lundum bem conhecera
Quem o havia cá dançar;
De gosto mesmo morrera
Sem poder nunca chegar.

Ai rum rum
Vence fandangos e gigas
A chulice do Lundum.

Quem me havia de dizer
Mas a coisa é verdadeira;
Que Lisboa produziu
Uma linda Brasileira.

Ai beleza
As outras são pela pátria
Esta pela Natureza.

Tomara que visse a gente
Como nhanhá dança aqui;
Talvez que o seu coração
Tivesse mestre d'ali.

Ai companheiro
Não será ou sim será
O jeitinho é Brasileiro.

Uns olhos assim voltados
Cabeça inclinada assim,
Os passinhos assim dados
Que vêm entender com mim.

Ai afeto
Lundum entendeu com eu
A gente está bem quieto.

Um lavar em seco a roupa
Um saltinho cai não cai;
O coração Brasileiro
A seus pés caindo vai.

Ai esperanças
É nas chulices de lá
Mas é de cá nas mudanças.

Este Lundum me dá vida
Quando o vejo assim dançar;
Mas temo se continua.
Que Lundum me há de matar.

Ai lembrança
Amor me trouxe o Lundum
Para meter-me na dança.

Nhanhá faz um pé de banco
Com seus quindins, seus popôs,
Tinha lançado os seus laços
Aperta assim mais os nós.

Oh! doçura
As lobedas de nhanhá
Apertam minha ternura.

Logo que nhanhá saiu
Logo que nhanhá dançou,
O cravo que tinha ao peito
Envergonhado murchou.

Ai que peito
Se quiser flores bem novas
Aqui tem Amor perfeito.

Pois segue as danças de lá
Os de lá deve querer;
E se tem de lá melindres
Nunca tenha malmequer.

Ai delírio
Ela semeia saudades
De enxerto no meu martírio.

Imagem - 00190005


Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)

NOTA: Chulice: de chulo; no texto, graças, malícias. Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Quindins: dengues, meiguices, encantos. Popôs: possivelmente "dengues". Lobedas: possivelmente "fitas". Melindre: planta também conhecida como beijo-de-frad
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Domingos Caldas Barbosa

Domingos Caldas Barbosa

Lundum em Louvor de uma Brasileira Adotiva

Eu vi correndo hoje o Tejo
Vinha soberbo e vaidoso;
Só por ter nas suas margens
O meigo Lundum gostoso.

Que lindas voltas que fez
Estendido pela praia
Queria beijar-lhe os pés.

Se o Lundum bem conhecera
Quem o havia cá dançar;
De gosto mesmo morrera
Sem poder nunca chegar.

Ai rum rum
Vence fandangos e gigas
A chulice do Lundum.

Quem me havia de dizer
Mas a coisa é verdadeira;
Que Lisboa produziu
Uma linda Brasileira.

Ai beleza
As outras são pela pátria
Esta pela Natureza.

Tomara que visse a gente
Como nhanhá dança aqui;
Talvez que o seu coração
Tivesse mestre d'ali.

Ai companheiro
Não será ou sim será
O jeitinho é Brasileiro.

Uns olhos assim voltados
Cabeça inclinada assim,
Os passinhos assim dados
Que vêm entender com mim.

Ai afeto
Lundum entendeu com eu
A gente está bem quieto.

Um lavar em seco a roupa
Um saltinho cai não cai;
O coração Brasileiro
A seus pés caindo vai.

Ai esperanças
É nas chulices de lá
Mas é de cá nas mudanças.

Este Lundum me dá vida
Quando o vejo assim dançar;
Mas temo se continua.
Que Lundum me há de matar.

Ai lembrança
Amor me trouxe o Lundum
Para meter-me na dança.

Nhanhá faz um pé de banco
Com seus quindins, seus popôs,
Tinha lançado os seus laços
Aperta assim mais os nós.

Oh! doçura
As lobedas de nhanhá
Apertam minha ternura.

Logo que nhanhá saiu
Logo que nhanhá dançou,
O cravo que tinha ao peito
Envergonhado murchou.

Ai que peito
Se quiser flores bem novas
Aqui tem Amor perfeito.

Pois segue as danças de lá
Os de lá deve querer;
E se tem de lá melindres
Nunca tenha malmequer.

Ai delírio
Ela semeia saudades
De enxerto no meu martírio.

Imagem - 00190005


Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)

NOTA: Chulice: de chulo; no texto, graças, malícias. Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Quindins: dengues, meiguices, encantos. Popôs: possivelmente "dengues". Lobedas: possivelmente "fitas". Melindre: planta também conhecida como beijo-de-frad
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Bernardo Guimarães

Bernardo Guimarães

O Nariz Perante os Poetas

Cantem outros os olhos, os cabelos
E mil cousas gentis
Das belas suas: eu de minha amada
Cantar quero o nariz.

Não sei que fado mísero e mesquinho
É este do nariz,
Que poeta nenhum em prosa ou verso
Cantá-lo jamais quis.

Os dentes são pérolas,
Os lábios rubis,
As tranças lustrosas
São laços sutis
Que prendem, que enleiam
Amante feliz;
É colo de garça
A nívea cerviz;
Porém ninguém diz
O que é o nariz.

Beija-se os cabelos,
E os olhos belos,
E a boca mimosa,
E a face de rosa
De fresco matiz;
E nem um só beijo
Fica de sobejo
Pro pobre nariz;
Ai! pobre nariz,
És bem infeliz!

(...)

Perdão por esta vez, perdão, senhora!
Eis nova inspiração me assalta agora,
E em honra ao teu nariz
Dos lábios me arrebenta em chafariz:

O teu nariz, doce amada,
É um castelo de amor,
Pelas mãos das próprias graças
Fabricado com primor.

As suas ventas estreitas
São como duas seteiras,
Donde ele oculto dispara
Agudas flechas certeiras.

Em que sítios te pus, amor, coitado!
Meu Deus, em que perigo?
Se a ninfa espirra, pelos ares saltas,
E em terra dás contigo.

Estou já cansado, desisto da empresa,
Em versos mimosos cantar-te bem quis;
Mas não o consente destino perverso,
Que fez-te infeliz;
Está decidido, — não cabes em verso,
Rebelde nariz.

E hoje tu deves
Te dar por feliz
Se estes versinhos
Brincando te fiz.

Rio de Janeiro, 1858


Publicado no livro Poesias (1865). Poema integrante da série Poesias Diversas.

In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
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