Poemas neste tema
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Carlos Vogt
Metalurgia
Para João Baptista
Ponho a palavra em estado de gramatical ofensa,
no torno retalho suas redondezas,
desgasto obsessivo com a broca da caneta
o que há de angular e mole na sentença.
Fora, uma forma enxuta, dentro, amor de sequidões,
ovo sozinho sem nenhum conceito a circundar-lhe a norma
de ser só ovo, sêmen contido, casca de memória.
Fazer abrasivo:
a lima, a lixa, a mão desgastam por extornos
a rixa com o verso, a rima com o avesso;
no chão, limalhas, matéria de contornos,
na página, o poema:
liso, úmido, duro como gelo.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
Ponho a palavra em estado de gramatical ofensa,
no torno retalho suas redondezas,
desgasto obsessivo com a broca da caneta
o que há de angular e mole na sentença.
Fora, uma forma enxuta, dentro, amor de sequidões,
ovo sozinho sem nenhum conceito a circundar-lhe a norma
de ser só ovo, sêmen contido, casca de memória.
Fazer abrasivo:
a lima, a lixa, a mão desgastam por extornos
a rixa com o verso, a rima com o avesso;
no chão, limalhas, matéria de contornos,
na página, o poema:
liso, úmido, duro como gelo.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
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Carlos Vogt
Metalurgia
Para João Baptista
Ponho a palavra em estado de gramatical ofensa,
no torno retalho suas redondezas,
desgasto obsessivo com a broca da caneta
o que há de angular e mole na sentença.
Fora, uma forma enxuta, dentro, amor de sequidões,
ovo sozinho sem nenhum conceito a circundar-lhe a norma
de ser só ovo, sêmen contido, casca de memória.
Fazer abrasivo:
a lima, a lixa, a mão desgastam por extornos
a rixa com o verso, a rima com o avesso;
no chão, limalhas, matéria de contornos,
na página, o poema:
liso, úmido, duro como gelo.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
Ponho a palavra em estado de gramatical ofensa,
no torno retalho suas redondezas,
desgasto obsessivo com a broca da caneta
o que há de angular e mole na sentença.
Fora, uma forma enxuta, dentro, amor de sequidões,
ovo sozinho sem nenhum conceito a circundar-lhe a norma
de ser só ovo, sêmen contido, casca de memória.
Fazer abrasivo:
a lima, a lixa, a mão desgastam por extornos
a rixa com o verso, a rima com o avesso;
no chão, limalhas, matéria de contornos,
na página, o poema:
liso, úmido, duro como gelo.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 524
1
Carlos Vogt
Metalurgia
Para João Baptista
Ponho a palavra em estado de gramatical ofensa,
no torno retalho suas redondezas,
desgasto obsessivo com a broca da caneta
o que há de angular e mole na sentença.
Fora, uma forma enxuta, dentro, amor de sequidões,
ovo sozinho sem nenhum conceito a circundar-lhe a norma
de ser só ovo, sêmen contido, casca de memória.
Fazer abrasivo:
a lima, a lixa, a mão desgastam por extornos
a rixa com o verso, a rima com o avesso;
no chão, limalhas, matéria de contornos,
na página, o poema:
liso, úmido, duro como gelo.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
Ponho a palavra em estado de gramatical ofensa,
no torno retalho suas redondezas,
desgasto obsessivo com a broca da caneta
o que há de angular e mole na sentença.
Fora, uma forma enxuta, dentro, amor de sequidões,
ovo sozinho sem nenhum conceito a circundar-lhe a norma
de ser só ovo, sêmen contido, casca de memória.
Fazer abrasivo:
a lima, a lixa, a mão desgastam por extornos
a rixa com o verso, a rima com o avesso;
no chão, limalhas, matéria de contornos,
na página, o poema:
liso, úmido, duro como gelo.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
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Manoel de Barros
O Solitário
Os muros enflorados caminhavam ao lado de um
homem solitário
Que olhava fixo para certa música estranha
Que um menino extraía do coração de um sapo.
Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer
Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas
Que faziam esquecer de tudo
Olhando os barcos sobre as ondas...
No entanto o homem passava ladeado de muros!
E eu não pude descobrir em seu olhar de morto
O mais pequeno sinal de que estivesse esperando
alguma dádiva!
Seu corpo fazia uma curva diante das flores.
Publicado no livro Face Imóvel (1942).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
homem solitário
Que olhava fixo para certa música estranha
Que um menino extraía do coração de um sapo.
Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer
Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas
Que faziam esquecer de tudo
Olhando os barcos sobre as ondas...
No entanto o homem passava ladeado de muros!
E eu não pude descobrir em seu olhar de morto
O mais pequeno sinal de que estivesse esperando
alguma dádiva!
Seu corpo fazia uma curva diante das flores.
Publicado no livro Face Imóvel (1942).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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Manoel de Barros
O Solitário
Os muros enflorados caminhavam ao lado de um
homem solitário
Que olhava fixo para certa música estranha
Que um menino extraía do coração de um sapo.
Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer
Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas
Que faziam esquecer de tudo
Olhando os barcos sobre as ondas...
No entanto o homem passava ladeado de muros!
E eu não pude descobrir em seu olhar de morto
O mais pequeno sinal de que estivesse esperando
alguma dádiva!
Seu corpo fazia uma curva diante das flores.
Publicado no livro Face Imóvel (1942).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
homem solitário
Que olhava fixo para certa música estranha
Que um menino extraía do coração de um sapo.
Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer
Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas
Que faziam esquecer de tudo
Olhando os barcos sobre as ondas...
No entanto o homem passava ladeado de muros!
E eu não pude descobrir em seu olhar de morto
O mais pequeno sinal de que estivesse esperando
alguma dádiva!
Seu corpo fazia uma curva diante das flores.
Publicado no livro Face Imóvel (1942).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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Alphonsus de Guimaraens
XII - A Passiflora
A Passiflora, flor da Paixão de Jesus,
Conserva em si, piedosa, os divinos Tormentos:
Tem cores roxas, tons magoados e sangrentos
Das Chagas Santas, onde o sangue é como luz.
Quantas mãos a colhê-la, e quantos seios nus
Vêm, suaves, aninhá-la em queixas e lamentos!
Ao tristonho clarão dos poentes sonolentos,
Sangram dentro da flor os emblemas da Cruz...
Nas noites brancas, quando a lua é toda círios,
O seu cálice é como entristecido altar
Onde se adora a dor dos eternos Martírios...
Dizem que então Jesus, como em tempos de outrora,
Entre as pétalas pousa, inundado de luar...
Ah! Senhor, a minha alma é como a passiflora!
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Caminho do Céu / Estrada de Jacó.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 311. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
Conserva em si, piedosa, os divinos Tormentos:
Tem cores roxas, tons magoados e sangrentos
Das Chagas Santas, onde o sangue é como luz.
Quantas mãos a colhê-la, e quantos seios nus
Vêm, suaves, aninhá-la em queixas e lamentos!
Ao tristonho clarão dos poentes sonolentos,
Sangram dentro da flor os emblemas da Cruz...
Nas noites brancas, quando a lua é toda círios,
O seu cálice é como entristecido altar
Onde se adora a dor dos eternos Martírios...
Dizem que então Jesus, como em tempos de outrora,
Entre as pétalas pousa, inundado de luar...
Ah! Senhor, a minha alma é como a passiflora!
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Caminho do Céu / Estrada de Jacó.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 311. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
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Alphonsus de Guimaraens
XL [O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.
Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.
O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.
A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pajem:
Somos felizes só porque morremos.
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 350. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.
Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.
O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.
A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pajem:
Somos felizes só porque morremos.
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 350. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
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1
Alcides Villaça
Serenata
Por falta de público para o Nelson Gonçalves que venho ensaiando
escrevo para mim, mais baixo e floreado.
Mas o murmúrio é ciumento de um tenor
de voz educada para as deusas da rua.
E eu teria vergonha de uma taça de dor.
Afogo noutro lirismo outra espécie de flor.
Domo a bom domador um velho dó de peito, surdino, circunspecto,
que trato por senhor.
Minha ária em bocca chiusa aspira ao violoncelo
que não pôde serestear.
Abre o peito um cabaré.
O bolero de Ravel plana a meio palmo
de uma insônia comum.
A escultura da mulher, da garrafa, do violão
dão na mesma sombra da cortina lilás.
Mas venho ensaiando Ofélias
que vão do bar para o mar.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Sala de Espera
escrevo para mim, mais baixo e floreado.
Mas o murmúrio é ciumento de um tenor
de voz educada para as deusas da rua.
E eu teria vergonha de uma taça de dor.
Afogo noutro lirismo outra espécie de flor.
Domo a bom domador um velho dó de peito, surdino, circunspecto,
que trato por senhor.
Minha ária em bocca chiusa aspira ao violoncelo
que não pôde serestear.
Abre o peito um cabaré.
O bolero de Ravel plana a meio palmo
de uma insônia comum.
A escultura da mulher, da garrafa, do violão
dão na mesma sombra da cortina lilás.
Mas venho ensaiando Ofélias
que vão do bar para o mar.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Sala de Espera
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Alcides Villaça
Serenata
Por falta de público para o Nelson Gonçalves que venho ensaiando
escrevo para mim, mais baixo e floreado.
Mas o murmúrio é ciumento de um tenor
de voz educada para as deusas da rua.
E eu teria vergonha de uma taça de dor.
Afogo noutro lirismo outra espécie de flor.
Domo a bom domador um velho dó de peito, surdino, circunspecto,
que trato por senhor.
Minha ária em bocca chiusa aspira ao violoncelo
que não pôde serestear.
Abre o peito um cabaré.
O bolero de Ravel plana a meio palmo
de uma insônia comum.
A escultura da mulher, da garrafa, do violão
dão na mesma sombra da cortina lilás.
Mas venho ensaiando Ofélias
que vão do bar para o mar.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Sala de Espera
escrevo para mim, mais baixo e floreado.
Mas o murmúrio é ciumento de um tenor
de voz educada para as deusas da rua.
E eu teria vergonha de uma taça de dor.
Afogo noutro lirismo outra espécie de flor.
Domo a bom domador um velho dó de peito, surdino, circunspecto,
que trato por senhor.
Minha ária em bocca chiusa aspira ao violoncelo
que não pôde serestear.
Abre o peito um cabaré.
O bolero de Ravel plana a meio palmo
de uma insônia comum.
A escultura da mulher, da garrafa, do violão
dão na mesma sombra da cortina lilás.
Mas venho ensaiando Ofélias
que vão do bar para o mar.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Sala de Espera
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1
Alice Ruiz
na esquina da consolação
na esquina da consolação
com a paulista
me perdi de vista
virei artista
equilibrista
meio mãe
meio menina
meio meia-noite
meio inteira
inteiramente alheia
toda lua cheia
In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
com a paulista
me perdi de vista
virei artista
equilibrista
meio mãe
meio menina
meio meia-noite
meio inteira
inteiramente alheia
toda lua cheia
In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
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1
Gilka Machado
Emotividade da Cor
A Dolores Marques Caplonch
e a Miguel Caplonch
Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.
Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.
Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?
(...)
— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.
Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...
Cores são vagas, sugestivas toadas...
Cores são emoções paralisadas...
(...)
Publicado no livro Estados de alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 141-143
e a Miguel Caplonch
Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.
Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.
Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?
(...)
— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.
Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...
Cores são vagas, sugestivas toadas...
Cores são emoções paralisadas...
(...)
Publicado no livro Estados de alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 141-143
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Gilka Machado
Emotividade da Cor
A Dolores Marques Caplonch
e a Miguel Caplonch
Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.
Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.
Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?
(...)
— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.
Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...
Cores são vagas, sugestivas toadas...
Cores são emoções paralisadas...
(...)
Publicado no livro Estados de alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 141-143
e a Miguel Caplonch
Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.
Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.
Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?
(...)
— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.
Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...
Cores são vagas, sugestivas toadas...
Cores são emoções paralisadas...
(...)
Publicado no livro Estados de alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 141-143
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Gilka Machado
Emotividade da Cor
A Dolores Marques Caplonch
e a Miguel Caplonch
Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.
Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.
Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?
(...)
— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.
Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...
Cores são vagas, sugestivas toadas...
Cores são emoções paralisadas...
(...)
Publicado no livro Estados de alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 141-143
e a Miguel Caplonch
Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.
Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.
Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?
(...)
— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.
Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...
Cores são vagas, sugestivas toadas...
Cores são emoções paralisadas...
(...)
Publicado no livro Estados de alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 141-143
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1
Gilka Machado
Emotividade da Cor
A Dolores Marques Caplonch
e a Miguel Caplonch
Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.
Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.
Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?
(...)
— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.
Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...
Cores são vagas, sugestivas toadas...
Cores são emoções paralisadas...
(...)
Publicado no livro Estados de alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 141-143
e a Miguel Caplonch
Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.
Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.
Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?
(...)
— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.
Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...
Cores são vagas, sugestivas toadas...
Cores são emoções paralisadas...
(...)
Publicado no livro Estados de alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 141-143
3 019
1
Carlos Felipe Moisés
A Paixão Segundo Camões
Transforma-se o amador em coisa alguma,
sem dolo, sem virtude, sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma.
As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
perde-se no amor de um mar sem espuma.
Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido
e busca se encontrar na coisa amada.
A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
sem dolo, sem virtude, sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma.
As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
perde-se no amor de um mar sem espuma.
Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido
e busca se encontrar na coisa amada.
A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
1 576
1
Abgar Renault
Retorno de Pasárgada
Do que vi, do que fiz, do que compus, do que andei
nos palácios, nas ilhas, nas selvas, nos astros da rainha do rei,
só ficou este repleto silêncio, a unânime solidão
que escorre, negro luar, de dentro para fora,
e desce a rampa onde enterrei a aurora.
De tudo, na tristeza de cinza de cada mão,
trouxe uma flor defunta e, na profundidade do meu chão,
dura lágrima que não usarei.
Publicado no livro A outra face da lua (1983).
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990
nos palácios, nas ilhas, nas selvas, nos astros da rainha do rei,
só ficou este repleto silêncio, a unânime solidão
que escorre, negro luar, de dentro para fora,
e desce a rampa onde enterrei a aurora.
De tudo, na tristeza de cinza de cada mão,
trouxe uma flor defunta e, na profundidade do meu chão,
dura lágrima que não usarei.
Publicado no livro A outra face da lua (1983).
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990
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1
Abgar Renault
Retorno de Pasárgada
Do que vi, do que fiz, do que compus, do que andei
nos palácios, nas ilhas, nas selvas, nos astros da rainha do rei,
só ficou este repleto silêncio, a unânime solidão
que escorre, negro luar, de dentro para fora,
e desce a rampa onde enterrei a aurora.
De tudo, na tristeza de cinza de cada mão,
trouxe uma flor defunta e, na profundidade do meu chão,
dura lágrima que não usarei.
Publicado no livro A outra face da lua (1983).
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990
nos palácios, nas ilhas, nas selvas, nos astros da rainha do rei,
só ficou este repleto silêncio, a unânime solidão
que escorre, negro luar, de dentro para fora,
e desce a rampa onde enterrei a aurora.
De tudo, na tristeza de cinza de cada mão,
trouxe uma flor defunta e, na profundidade do meu chão,
dura lágrima que não usarei.
Publicado no livro A outra face da lua (1983).
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990
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1
Antonio Fernando De Franceschi
Sílex
face angular
que cavo a talho
esta em que me mudo
reiterado
cópia provável de mim
no mudo rosto
e abrasado golpe
que desfecho:
minha antes não fosse
a dor
e a mão crispada
que desce
fere
e me desvela pedra
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). Poema integrante da série Perfis em Pedra.
que cavo a talho
esta em que me mudo
reiterado
cópia provável de mim
no mudo rosto
e abrasado golpe
que desfecho:
minha antes não fosse
a dor
e a mão crispada
que desce
fere
e me desvela pedra
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). Poema integrante da série Perfis em Pedra.
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1
Antonio Fernando De Franceschi
Sílex
face angular
que cavo a talho
esta em que me mudo
reiterado
cópia provável de mim
no mudo rosto
e abrasado golpe
que desfecho:
minha antes não fosse
a dor
e a mão crispada
que desce
fere
e me desvela pedra
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). Poema integrante da série Perfis em Pedra.
que cavo a talho
esta em que me mudo
reiterado
cópia provável de mim
no mudo rosto
e abrasado golpe
que desfecho:
minha antes não fosse
a dor
e a mão crispada
que desce
fere
e me desvela pedra
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). Poema integrante da série Perfis em Pedra.
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1
Thiago de Mello
Poema de Quarto Centenário
Para Astrojildo Pereira
Olho longamente num jornal
que serve de correio da manhã
a fotografia do escritor
num cárcere do Rio de Janeiro.
De tanta doçura,
parece a foto de um adolescente.
Recordo que muitas vezes lhe vi
brincar no olhar um alegre passarinho,
um arabesco de amor no azul aberto,
o terno gosto da alegria humana.
Mas já está com 74 anos o escritor,
o escritor preso.
Está preso porque provou
do mundo que lhe coube,
e achou o mundo amargo
e um tanto podre.
Continuo olhando no jornal
a fotografia do grande machadiano
sentado altivo no catre,
o seu perfil sereno
e malferido
na dor da biblioteca devassada,
o olhar cravado límpido na vida
consumida na construção do amor,
esse poder imenso de canção
de amanhecer na boca anoitecida.
Queima demais a brasa desta foto:
brasa de incêndios, frágua da manhã.
É preciso fazer alguma coisa,
varar no escuro um rumo de meninos,
inventar um navio de amapolas.
aprender outra vez a soletrar,
abrir os alicerces do arco-íris,
é preciso fazer alguma coisa
para lavar a vida degradada.
(...)
Santiago do Chile, noite de ano novo, 1965
Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
Olho longamente num jornal
que serve de correio da manhã
a fotografia do escritor
num cárcere do Rio de Janeiro.
De tanta doçura,
parece a foto de um adolescente.
Recordo que muitas vezes lhe vi
brincar no olhar um alegre passarinho,
um arabesco de amor no azul aberto,
o terno gosto da alegria humana.
Mas já está com 74 anos o escritor,
o escritor preso.
Está preso porque provou
do mundo que lhe coube,
e achou o mundo amargo
e um tanto podre.
Continuo olhando no jornal
a fotografia do grande machadiano
sentado altivo no catre,
o seu perfil sereno
e malferido
na dor da biblioteca devassada,
o olhar cravado límpido na vida
consumida na construção do amor,
esse poder imenso de canção
de amanhecer na boca anoitecida.
Queima demais a brasa desta foto:
brasa de incêndios, frágua da manhã.
É preciso fazer alguma coisa,
varar no escuro um rumo de meninos,
inventar um navio de amapolas.
aprender outra vez a soletrar,
abrir os alicerces do arco-íris,
é preciso fazer alguma coisa
para lavar a vida degradada.
(...)
Santiago do Chile, noite de ano novo, 1965
Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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1
Felipe d’Oliveira
Ubi Troia Fuit
Eu queria que tu perdesses a beleza e ficasses,
não a estátua mutilada que liberta e amplia o êxtase,
mas a transfiguração de teu próprio esplendor,
a tua metempsicose em criatura usual,
integrada na turba.
Eu queria que tua beleza morresse
e que, como um mar de naufrágio,
sobrevivesse o teu corpo deserto de tua
graça sem vestígio.
Os homens perderiam a lembrança de seu desejo
e na lembrança dos homens se apagaria a tua irradiação
e ante os olhos dos homens se fecharia para
sempre o sulco que teus gestos
cadenciados abrem no ar
e a inconstância dos homens, insensível a
teu desastre, esqueceria a tua primavera.
Eu, só eu, ficaria contigo, eu só, com a
alegria de guardar intacta a tua imagem.
Tudo que para minha percepção nasceu de ti
permaneceria integral e imutável:
a rua continuaria sendo o friso que tu
povoaste de efígies harmoniosas
nascidas de cada passo de tua marcha;
a noite continuaria sendo o veludo morno
com que teu beijo a prolongou até a
origem de meu sonho;
e diante de mim a felicidade continuaria,
vigilante e eterna, no fundo de teus
olhos de antigamente já apagados
para os outros que os olharam.
Eu, só eu, ficaria contigo
e seria o senhor fabuloso de um tesouro
desaparecido que a cobiça não percebe,
e seria a voz secreta, a alma imperecível de
uma cidade morta,
e seria o testemunho revelador de uma
legenda esquecida.
Eu, só eu, ficaria contigo...
E, de trazer-te em mim,
eu seria a fôrma ignorada de uma
escultura perdida
de cuja perfeição os homens se recordam com nostalgia.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Amor, que Move o Sol.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.91-9
não a estátua mutilada que liberta e amplia o êxtase,
mas a transfiguração de teu próprio esplendor,
a tua metempsicose em criatura usual,
integrada na turba.
Eu queria que tua beleza morresse
e que, como um mar de naufrágio,
sobrevivesse o teu corpo deserto de tua
graça sem vestígio.
Os homens perderiam a lembrança de seu desejo
e na lembrança dos homens se apagaria a tua irradiação
e ante os olhos dos homens se fecharia para
sempre o sulco que teus gestos
cadenciados abrem no ar
e a inconstância dos homens, insensível a
teu desastre, esqueceria a tua primavera.
Eu, só eu, ficaria contigo, eu só, com a
alegria de guardar intacta a tua imagem.
Tudo que para minha percepção nasceu de ti
permaneceria integral e imutável:
a rua continuaria sendo o friso que tu
povoaste de efígies harmoniosas
nascidas de cada passo de tua marcha;
a noite continuaria sendo o veludo morno
com que teu beijo a prolongou até a
origem de meu sonho;
e diante de mim a felicidade continuaria,
vigilante e eterna, no fundo de teus
olhos de antigamente já apagados
para os outros que os olharam.
Eu, só eu, ficaria contigo
e seria o senhor fabuloso de um tesouro
desaparecido que a cobiça não percebe,
e seria a voz secreta, a alma imperecível de
uma cidade morta,
e seria o testemunho revelador de uma
legenda esquecida.
Eu, só eu, ficaria contigo...
E, de trazer-te em mim,
eu seria a fôrma ignorada de uma
escultura perdida
de cuja perfeição os homens se recordam com nostalgia.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Amor, que Move o Sol.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.91-9
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1
Felipe d’Oliveira
Ubi Troia Fuit
Eu queria que tu perdesses a beleza e ficasses,
não a estátua mutilada que liberta e amplia o êxtase,
mas a transfiguração de teu próprio esplendor,
a tua metempsicose em criatura usual,
integrada na turba.
Eu queria que tua beleza morresse
e que, como um mar de naufrágio,
sobrevivesse o teu corpo deserto de tua
graça sem vestígio.
Os homens perderiam a lembrança de seu desejo
e na lembrança dos homens se apagaria a tua irradiação
e ante os olhos dos homens se fecharia para
sempre o sulco que teus gestos
cadenciados abrem no ar
e a inconstância dos homens, insensível a
teu desastre, esqueceria a tua primavera.
Eu, só eu, ficaria contigo, eu só, com a
alegria de guardar intacta a tua imagem.
Tudo que para minha percepção nasceu de ti
permaneceria integral e imutável:
a rua continuaria sendo o friso que tu
povoaste de efígies harmoniosas
nascidas de cada passo de tua marcha;
a noite continuaria sendo o veludo morno
com que teu beijo a prolongou até a
origem de meu sonho;
e diante de mim a felicidade continuaria,
vigilante e eterna, no fundo de teus
olhos de antigamente já apagados
para os outros que os olharam.
Eu, só eu, ficaria contigo
e seria o senhor fabuloso de um tesouro
desaparecido que a cobiça não percebe,
e seria a voz secreta, a alma imperecível de
uma cidade morta,
e seria o testemunho revelador de uma
legenda esquecida.
Eu, só eu, ficaria contigo...
E, de trazer-te em mim,
eu seria a fôrma ignorada de uma
escultura perdida
de cuja perfeição os homens se recordam com nostalgia.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Amor, que Move o Sol.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.91-9
não a estátua mutilada que liberta e amplia o êxtase,
mas a transfiguração de teu próprio esplendor,
a tua metempsicose em criatura usual,
integrada na turba.
Eu queria que tua beleza morresse
e que, como um mar de naufrágio,
sobrevivesse o teu corpo deserto de tua
graça sem vestígio.
Os homens perderiam a lembrança de seu desejo
e na lembrança dos homens se apagaria a tua irradiação
e ante os olhos dos homens se fecharia para
sempre o sulco que teus gestos
cadenciados abrem no ar
e a inconstância dos homens, insensível a
teu desastre, esqueceria a tua primavera.
Eu, só eu, ficaria contigo, eu só, com a
alegria de guardar intacta a tua imagem.
Tudo que para minha percepção nasceu de ti
permaneceria integral e imutável:
a rua continuaria sendo o friso que tu
povoaste de efígies harmoniosas
nascidas de cada passo de tua marcha;
a noite continuaria sendo o veludo morno
com que teu beijo a prolongou até a
origem de meu sonho;
e diante de mim a felicidade continuaria,
vigilante e eterna, no fundo de teus
olhos de antigamente já apagados
para os outros que os olharam.
Eu, só eu, ficaria contigo
e seria o senhor fabuloso de um tesouro
desaparecido que a cobiça não percebe,
e seria a voz secreta, a alma imperecível de
uma cidade morta,
e seria o testemunho revelador de uma
legenda esquecida.
Eu, só eu, ficaria contigo...
E, de trazer-te em mim,
eu seria a fôrma ignorada de uma
escultura perdida
de cuja perfeição os homens se recordam com nostalgia.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Amor, que Move o Sol.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.91-9
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1
Cassiano Ricardo
Café-Expresso
1
Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo...
E pronto! parece um brinquedo...
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.
E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
[apagada...
Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada...
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.
E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.
E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
[sol que floriu no portão...
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão...
Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim...
2
Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.
Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando...
Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!
Imagem - 00700005
In: RICARDO, Cassiano. Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis. Ed. crít. Marlene Gomes Mendes, Deila Conceição Perez e Jayro José Xavier. Pref. Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL: Fundação Pró-Memória, 198
Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo...
E pronto! parece um brinquedo...
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.
E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
[apagada...
Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada...
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.
E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.
E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
[sol que floriu no portão...
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão...
Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim...
2
Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.
Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando...
Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!
Imagem - 00700005
In: RICARDO, Cassiano. Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis. Ed. crít. Marlene Gomes Mendes, Deila Conceição Perez e Jayro José Xavier. Pref. Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL: Fundação Pró-Memória, 198
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1
Renata Pallottini
Através da Vida
Através da vida o homem
vai sendo ludibriado.
Deitando-se em qualquer porta
o homem percebe que ficou de lado.
E depois constatando
que a mulher não lhe foi dada
para amá-lo, como está dito.
Foi-lhe dada para nada.
A mulher ao longo da vida
percebe que foi sendo usada
e que agora está no fim.
E que nunca recebeu um sim.
Os filhos que ali estão
estão ali porque estão.
Não tinham sido queridos.
Tinham só acontecido.
E os filhos que ali estão,
não sabem de coisa alguma.
Vão à escola se vão à escola.
Se não vão, inventam uma.
Depois que morre a gente descansa
e a terra é quente, mesmo na morte.
Depois da morte eu descansarei
e não terei medo da morte.
E não olharei para o alto, temendo
o alto peso da terra.
Mas estarei dormindo e dormindo.
De forma eterna e só então eterna.
Publicado no livro Os Arcos da Memória (1971).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.17
vai sendo ludibriado.
Deitando-se em qualquer porta
o homem percebe que ficou de lado.
E depois constatando
que a mulher não lhe foi dada
para amá-lo, como está dito.
Foi-lhe dada para nada.
A mulher ao longo da vida
percebe que foi sendo usada
e que agora está no fim.
E que nunca recebeu um sim.
Os filhos que ali estão
estão ali porque estão.
Não tinham sido queridos.
Tinham só acontecido.
E os filhos que ali estão,
não sabem de coisa alguma.
Vão à escola se vão à escola.
Se não vão, inventam uma.
Depois que morre a gente descansa
e a terra é quente, mesmo na morte.
Depois da morte eu descansarei
e não terei medo da morte.
E não olharei para o alto, temendo
o alto peso da terra.
Mas estarei dormindo e dormindo.
De forma eterna e só então eterna.
Publicado no livro Os Arcos da Memória (1971).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.17
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