Poemas neste tema
Outros
Augusto dos Anjos
Apocalipse
Minha divinatória Arte ultrapassa
os séculos efêmeros e nota
Diminuição dinâmica, derrota
Na atual força, integérrima, da Massa.
É a subversão universal que ameaça
A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,
Destrói a ebulição que a água alvorota
E põe todos os astros na desgraça!
São despedaçamentos, derrubadas,
Federações sidéricas quebradas...
E eu só, o último a ser, pelo orbe adeante,
Espião da cataclísmica surpresa
A única luz tragicamente acesa
Na universalidade agonizante!
os séculos efêmeros e nota
Diminuição dinâmica, derrota
Na atual força, integérrima, da Massa.
É a subversão universal que ameaça
A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,
Destrói a ebulição que a água alvorota
E põe todos os astros na desgraça!
São despedaçamentos, derrubadas,
Federações sidéricas quebradas...
E eu só, o último a ser, pelo orbe adeante,
Espião da cataclísmica surpresa
A única luz tragicamente acesa
Na universalidade agonizante!
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Augusto dos Anjos
Apocalipse
Minha divinatória Arte ultrapassa
os séculos efêmeros e nota
Diminuição dinâmica, derrota
Na atual força, integérrima, da Massa.
É a subversão universal que ameaça
A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,
Destrói a ebulição que a água alvorota
E põe todos os astros na desgraça!
São despedaçamentos, derrubadas,
Federações sidéricas quebradas...
E eu só, o último a ser, pelo orbe adeante,
Espião da cataclísmica surpresa
A única luz tragicamente acesa
Na universalidade agonizante!
os séculos efêmeros e nota
Diminuição dinâmica, derrota
Na atual força, integérrima, da Massa.
É a subversão universal que ameaça
A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,
Destrói a ebulição que a água alvorota
E põe todos os astros na desgraça!
São despedaçamentos, derrubadas,
Federações sidéricas quebradas...
E eu só, o último a ser, pelo orbe adeante,
Espião da cataclísmica surpresa
A única luz tragicamente acesa
Na universalidade agonizante!
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Juan Andrés Leiwir
O amor
O amor é uma gota de orvalho pousando em uma pétala de rosa,
uma gota intermitente afogando-se no mar do esquecimento,
um suspiro esperando ser correspondido,
uma lágrima acariciando o rosto de quem amas,
é um grito esperando ser escutado,
um coração esperando ser aquietado,
um raio de luz na imensidão da noite
porém, sobre todas as coisas é o poder gritar que...TE AMO!
uma gota intermitente afogando-se no mar do esquecimento,
um suspiro esperando ser correspondido,
uma lágrima acariciando o rosto de quem amas,
é um grito esperando ser escutado,
um coração esperando ser aquietado,
um raio de luz na imensidão da noite
porém, sobre todas as coisas é o poder gritar que...TE AMO!
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Juan Andrés Leiwir
O amor
O amor é uma gota de orvalho pousando em uma pétala de rosa,
uma gota intermitente afogando-se no mar do esquecimento,
um suspiro esperando ser correspondido,
uma lágrima acariciando o rosto de quem amas,
é um grito esperando ser escutado,
um coração esperando ser aquietado,
um raio de luz na imensidão da noite
porém, sobre todas as coisas é o poder gritar que...TE AMO!
uma gota intermitente afogando-se no mar do esquecimento,
um suspiro esperando ser correspondido,
uma lágrima acariciando o rosto de quem amas,
é um grito esperando ser escutado,
um coração esperando ser aquietado,
um raio de luz na imensidão da noite
porém, sobre todas as coisas é o poder gritar que...TE AMO!
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Ricardo Miró
Amor?
Uma vaga inquietude; um misterioso
temor; como um feliz pressentimento;
um íntimo e reservado tormento;
uma pena que acaba em alvoroço
o sufocante nó de um soluço
perene na garganta; o sentimento
de uma dor que se acerca; o pensamento
cheio de luz, de júbilo, de gozo;
uma contradição funda e escura
que me enche a vida de amargura,
que mata toda luz e toda idéia,
que turba toda paz e toda alegria;
porém... senhor, que sabes minha agonia:
se tudo isso é amor, bendito seja!
temor; como um feliz pressentimento;
um íntimo e reservado tormento;
uma pena que acaba em alvoroço
o sufocante nó de um soluço
perene na garganta; o sentimento
de uma dor que se acerca; o pensamento
cheio de luz, de júbilo, de gozo;
uma contradição funda e escura
que me enche a vida de amargura,
que mata toda luz e toda idéia,
que turba toda paz e toda alegria;
porém... senhor, que sabes minha agonia:
se tudo isso é amor, bendito seja!
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Bocage
Ó trevas, que enlutais a Natureza
Ó trevas, que enlutais a Natureza,
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza;
Manes, surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plutão se goza,
Não aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que voz minha tristeza.
Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formosura.
Volvei, pois, sombras vãs, ao fogo eterno;
E, lamentando a minha desventura,
Movereis à piedade o mesmo Inferno.
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza;
Manes, surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plutão se goza,
Não aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que voz minha tristeza.
Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formosura.
Volvei, pois, sombras vãs, ao fogo eterno;
E, lamentando a minha desventura,
Movereis à piedade o mesmo Inferno.
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Augusto dos Anjos
Barcarola
Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.
Espelham-se os esplendores
Do céu, em reflexos, nas
Águas, fingindo cristais
Das mais deslumbrantes cores.
Em fulvos filões doirados
Cai a luz dos astros por
Sobre o marítimo horror
Como globos estrelados.
Lá onde as rochas se assentam
Fulguram como outros sóis
Os flamívomos faróis
Que os navegantes orientam.
Vai uma onda, vem outra onda
E nesse eterno vaivém
Coitadas! não acham quem,
Quem as esconda, as esconda...
Alegoria tristonha
Do que pelo Mundo vai!
Se um sonha e se ergue, outro cai;
Se um cai, outro se ergue e sonha.
Mas desgraçado do pobre
Que em meio da Vida cai!
Esse não volta, esse vai
Para o túmulo que o cobre.
Vagueia um poeta num barco.
O Céu, de cima, a luzir
Como um diamante de Ofír
Imita a curva de um arco.
A Lua - globo de louça -
Surgiu, em lúcido véu.
Cantam! Os astros do Céu
Ouçam e a Lua Cheia ouça!
Ouça do alto a Lua Cheia
Que a sereia vai falar...
Haja silêncio no mar
Para se ouvir a sereia.
Que é que ela diz?!
Será uma História de amor feliz?
Não! O que a sereia diz
Não é história nenhuma.
É como um réquiem profundo
De tristíssimos bemóis...
Sua voz é igual à voz
Das dores todas do mundo.
Fecha-te nesse medonho
Reduto de Maldição,
Viajeiro da Extrema-Unção,
Sonhador do último sonho!
Numa redoma ilusória
Cercou-te a glória falaz,
Mas nunca mais, nunca mais
Há de cercar-te essa glória!
Nunca mais! Sê, porém, forte.
O poeta é como Jesus!
Abraça-te à tua Cruz
E morre, poeta da Morte! -
E disse e porque isto disse
O luar no Céu se apagou...
Súbito o barco tombou
Sem que o poeta o pressentisse!
Vista de luto o Universo
E Deus se enlute no Céu!
Mais um poeta que morreu,
Mais um coveiro do Verso!
Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas!
Publicado no livor Eu (1912).
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.144-147. (Ensaios, 32
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.
Espelham-se os esplendores
Do céu, em reflexos, nas
Águas, fingindo cristais
Das mais deslumbrantes cores.
Em fulvos filões doirados
Cai a luz dos astros por
Sobre o marítimo horror
Como globos estrelados.
Lá onde as rochas se assentam
Fulguram como outros sóis
Os flamívomos faróis
Que os navegantes orientam.
Vai uma onda, vem outra onda
E nesse eterno vaivém
Coitadas! não acham quem,
Quem as esconda, as esconda...
Alegoria tristonha
Do que pelo Mundo vai!
Se um sonha e se ergue, outro cai;
Se um cai, outro se ergue e sonha.
Mas desgraçado do pobre
Que em meio da Vida cai!
Esse não volta, esse vai
Para o túmulo que o cobre.
Vagueia um poeta num barco.
O Céu, de cima, a luzir
Como um diamante de Ofír
Imita a curva de um arco.
A Lua - globo de louça -
Surgiu, em lúcido véu.
Cantam! Os astros do Céu
Ouçam e a Lua Cheia ouça!
Ouça do alto a Lua Cheia
Que a sereia vai falar...
Haja silêncio no mar
Para se ouvir a sereia.
Que é que ela diz?!
Será uma História de amor feliz?
Não! O que a sereia diz
Não é história nenhuma.
É como um réquiem profundo
De tristíssimos bemóis...
Sua voz é igual à voz
Das dores todas do mundo.
Fecha-te nesse medonho
Reduto de Maldição,
Viajeiro da Extrema-Unção,
Sonhador do último sonho!
Numa redoma ilusória
Cercou-te a glória falaz,
Mas nunca mais, nunca mais
Há de cercar-te essa glória!
Nunca mais! Sê, porém, forte.
O poeta é como Jesus!
Abraça-te à tua Cruz
E morre, poeta da Morte! -
E disse e porque isto disse
O luar no Céu se apagou...
Súbito o barco tombou
Sem que o poeta o pressentisse!
Vista de luto o Universo
E Deus se enlute no Céu!
Mais um poeta que morreu,
Mais um coveiro do Verso!
Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas!
Publicado no livor Eu (1912).
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.144-147. (Ensaios, 32
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Augusto dos Anjos
Barcarola
Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.
Espelham-se os esplendores
Do céu, em reflexos, nas
Águas, fingindo cristais
Das mais deslumbrantes cores.
Em fulvos filões doirados
Cai a luz dos astros por
Sobre o marítimo horror
Como globos estrelados.
Lá onde as rochas se assentam
Fulguram como outros sóis
Os flamívomos faróis
Que os navegantes orientam.
Vai uma onda, vem outra onda
E nesse eterno vaivém
Coitadas! não acham quem,
Quem as esconda, as esconda...
Alegoria tristonha
Do que pelo Mundo vai!
Se um sonha e se ergue, outro cai;
Se um cai, outro se ergue e sonha.
Mas desgraçado do pobre
Que em meio da Vida cai!
Esse não volta, esse vai
Para o túmulo que o cobre.
Vagueia um poeta num barco.
O Céu, de cima, a luzir
Como um diamante de Ofír
Imita a curva de um arco.
A Lua - globo de louça -
Surgiu, em lúcido véu.
Cantam! Os astros do Céu
Ouçam e a Lua Cheia ouça!
Ouça do alto a Lua Cheia
Que a sereia vai falar...
Haja silêncio no mar
Para se ouvir a sereia.
Que é que ela diz?!
Será uma História de amor feliz?
Não! O que a sereia diz
Não é história nenhuma.
É como um réquiem profundo
De tristíssimos bemóis...
Sua voz é igual à voz
Das dores todas do mundo.
Fecha-te nesse medonho
Reduto de Maldição,
Viajeiro da Extrema-Unção,
Sonhador do último sonho!
Numa redoma ilusória
Cercou-te a glória falaz,
Mas nunca mais, nunca mais
Há de cercar-te essa glória!
Nunca mais! Sê, porém, forte.
O poeta é como Jesus!
Abraça-te à tua Cruz
E morre, poeta da Morte! -
E disse e porque isto disse
O luar no Céu se apagou...
Súbito o barco tombou
Sem que o poeta o pressentisse!
Vista de luto o Universo
E Deus se enlute no Céu!
Mais um poeta que morreu,
Mais um coveiro do Verso!
Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas!
Publicado no livor Eu (1912).
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.144-147. (Ensaios, 32
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.
Espelham-se os esplendores
Do céu, em reflexos, nas
Águas, fingindo cristais
Das mais deslumbrantes cores.
Em fulvos filões doirados
Cai a luz dos astros por
Sobre o marítimo horror
Como globos estrelados.
Lá onde as rochas se assentam
Fulguram como outros sóis
Os flamívomos faróis
Que os navegantes orientam.
Vai uma onda, vem outra onda
E nesse eterno vaivém
Coitadas! não acham quem,
Quem as esconda, as esconda...
Alegoria tristonha
Do que pelo Mundo vai!
Se um sonha e se ergue, outro cai;
Se um cai, outro se ergue e sonha.
Mas desgraçado do pobre
Que em meio da Vida cai!
Esse não volta, esse vai
Para o túmulo que o cobre.
Vagueia um poeta num barco.
O Céu, de cima, a luzir
Como um diamante de Ofír
Imita a curva de um arco.
A Lua - globo de louça -
Surgiu, em lúcido véu.
Cantam! Os astros do Céu
Ouçam e a Lua Cheia ouça!
Ouça do alto a Lua Cheia
Que a sereia vai falar...
Haja silêncio no mar
Para se ouvir a sereia.
Que é que ela diz?!
Será uma História de amor feliz?
Não! O que a sereia diz
Não é história nenhuma.
É como um réquiem profundo
De tristíssimos bemóis...
Sua voz é igual à voz
Das dores todas do mundo.
Fecha-te nesse medonho
Reduto de Maldição,
Viajeiro da Extrema-Unção,
Sonhador do último sonho!
Numa redoma ilusória
Cercou-te a glória falaz,
Mas nunca mais, nunca mais
Há de cercar-te essa glória!
Nunca mais! Sê, porém, forte.
O poeta é como Jesus!
Abraça-te à tua Cruz
E morre, poeta da Morte! -
E disse e porque isto disse
O luar no Céu se apagou...
Súbito o barco tombou
Sem que o poeta o pressentisse!
Vista de luto o Universo
E Deus se enlute no Céu!
Mais um poeta que morreu,
Mais um coveiro do Verso!
Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas!
Publicado no livor Eu (1912).
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.144-147. (Ensaios, 32
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Franz Kafka
O pião
Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E se via um menino que tinha um pião já ficava à espreita. Mal o pião começava a rodar, o filósofo o perseguia com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda girava, ficava feliz, mas só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora. Na verdade, acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas – era algo que lhe parecia antieconômico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando. E sempre que se realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que agora ia conseguir; e se o pião girava, a esperança se transformava em certeza enquanto corria até perder o fôlego atrás dele. Mas quando depois retinha na mão o estúpido pedaço de madeira, ele se sentia mal e a gritaria das crianças – que ele até então não havia escutado e agora de repente penetrava nos seus ouvidos – afugentava-o dali e ele cambaleava como um pião lançado com um golpe sem jeito da fieira.
4 035
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Augusto dos Anjos
Agonia de um filósofo
Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, não me consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
Assisto agora à morte de um inseto!...
ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!
No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...
Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!
Rig-Veda. E, ante obras tais, não me consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
Assisto agora à morte de um inseto!...
ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!
No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...
Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!
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Augusto dos Anjos
Agonia de um filósofo
Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, não me consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
Assisto agora à morte de um inseto!...
ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!
No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...
Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!
Rig-Veda. E, ante obras tais, não me consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
Assisto agora à morte de um inseto!...
ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!
No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...
Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!
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Fernando Pessoa
XI. A ÚLTIMA NAU
Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol azíago
Erma, e entre choros de ânsia e de presago
Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.
Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol azíago
Erma, e entre choros de ânsia e de presago
Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.
Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.
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1
Álvares de Azevedo
OH! NÃO MALDIGAM!
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
Oh! não maldigam o mancebo exausto
Que nas orgias gastou o peito insano...
Que foi ao lupanar pedir um leito,
Onde a sede febril lhe adormecesse!
Não podia dormir! nas longas noites
Pediu ao vício os beijos de veneno...
E amou a saturnal, o vinho, o jogo
E a convulsão nos seios da perdida!
Misérrimo! não creu... Não o maldigam,
Se uma sina fatal o arrebatava...
Se na torrente das paixões dormindo
Foi naufragar nas solidões do crime.
Oh! não maldigam o mancebo exausto
Que no vício embalou, a rir, os sonhos,
Que lhes manchou as perfumadas tranças
Nos travesseiros da mulher sem brio!
Se ele poeta nodoou seus lábios...
É que fervia um coração de fogo
E da matéria a convulsão impura
A voz do coração emudecia!
E quando p'la manhã da longa insônia
Do leito profanado ele se erguia,
Sentindo a brisa lhe beijar no rosto
E a febre arrefecer nos roxos lábios...
E o corpo adormecia e repousava
Na serenada relva da campina...
E as aves da manhã em torno dele
Os sonhos do poeta acalentavam...
Vinha um anjo de amor uni-lo ao peito,
Vinha uma nuvem derramar-lhe a sombra...
E a alma que chorava a infâmia dele
Secava o pranto e suspirava ainda!
Segunda Parte
Oh! não maldigam o mancebo exausto
Que nas orgias gastou o peito insano...
Que foi ao lupanar pedir um leito,
Onde a sede febril lhe adormecesse!
Não podia dormir! nas longas noites
Pediu ao vício os beijos de veneno...
E amou a saturnal, o vinho, o jogo
E a convulsão nos seios da perdida!
Misérrimo! não creu... Não o maldigam,
Se uma sina fatal o arrebatava...
Se na torrente das paixões dormindo
Foi naufragar nas solidões do crime.
Oh! não maldigam o mancebo exausto
Que no vício embalou, a rir, os sonhos,
Que lhes manchou as perfumadas tranças
Nos travesseiros da mulher sem brio!
Se ele poeta nodoou seus lábios...
É que fervia um coração de fogo
E da matéria a convulsão impura
A voz do coração emudecia!
E quando p'la manhã da longa insônia
Do leito profanado ele se erguia,
Sentindo a brisa lhe beijar no rosto
E a febre arrefecer nos roxos lábios...
E o corpo adormecia e repousava
Na serenada relva da campina...
E as aves da manhã em torno dele
Os sonhos do poeta acalentavam...
Vinha um anjo de amor uni-lo ao peito,
Vinha uma nuvem derramar-lhe a sombra...
E a alma que chorava a infâmia dele
Secava o pranto e suspirava ainda!
1 855
1
Alfonsina Storni
Sou
Sou suave e triste se idolatro, posso
abaixar o céu até minha mão quando
a alma do outro à alma minha enredo.
Pena alguma não acharás mais branda.
Nenhuma como eu as mãos beija,
nem se acomoda tanto em um sonho,
nem convém outro corpo, assim pequeno,
uma alma humana de maior ternura.
Morro sobre os olhos, se os sinto
como pássaros vivos, um momento
voar baixo meus dedos brancos.
Sei a frase que encanta e que compreende,
sei calar quando a lua ascende
enorme e vermelha sobre os barrancos.
abaixar o céu até minha mão quando
a alma do outro à alma minha enredo.
Pena alguma não acharás mais branda.
Nenhuma como eu as mãos beija,
nem se acomoda tanto em um sonho,
nem convém outro corpo, assim pequeno,
uma alma humana de maior ternura.
Morro sobre os olhos, se os sinto
como pássaros vivos, um momento
voar baixo meus dedos brancos.
Sei a frase que encanta e que compreende,
sei calar quando a lua ascende
enorme e vermelha sobre os barrancos.
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1
Álvares de Azevedo
EUTANÁSIA
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
Ergue-te daí, velho! ergue essa fronte onde o passado afundou suas rugas como o vendaval no Oceano, onde a morte assombrou sua palidez como na face do cadáver, onde o simoun do tempo ressicou os anéis louros do mancebo nas cãs alvacentas de ancião?
Por que tão lívido, ó monge taciturno, debruças a cabeça macilenta no peito que é murcho, onde mal bate o coração sobre a cogula negra do asceta?
Escuta: a lua ergueu-se hoje mais prateada nos céus cor-de-rosa do verão, as montanhas se azulam no crepuscular da tarde e o mar cintila seu manto azul palhetado de aljôfares. A hora da tarde é bela, quem aí na vida lhe não sagrou uma lágrima de saudade?
Tens os olhares turvos, luzem-te baços os olhos negros nas pálpebras roxas e o beijo frio da doença te azulou nos lábios a tinta do moribundo. E por que te abismas em fantasias profundas, sentado à borda de um fosso aberto, sentado na pedra de um túmulo?
Por que pensá-la... a noite dos mortos, fria e trevosa como os ventos de inverno? Por que antes não banhas tua fronte nas virações da infância, nos sonhos de moço? Sob essa estamenha não arfa um coração que palpitara outrora por uns olhos gázeos de mulher?
Sonha!... sonha antes no passado, no passado belo e doirado em seu dossel de escarlate, em seus mares azuis, em suas luas límpidas e suas estrelas românticas.
O velho ergueu a cabeça. Era uma fronte larga e calva, umas faces contraídas e amarelentas, uns lábios secos, gretados, em que sobreaguava amargo sorriso, uns olhares onde a febre tresnoitava suas insônias...
E quem to disse - que a morte é a noite escura e fria, o leito de terra úmida, a podridão e o lodo? Quem to disse - que a morte não era mais bela que as flores sem cheiro da infância, que os perfumes peregrinos e sem flores da adolescência? Quem to disse - que a vida não é uma mentira? - que a morte não é o leito das trêmulas venturas?
Segunda Parte
Ergue-te daí, velho! ergue essa fronte onde o passado afundou suas rugas como o vendaval no Oceano, onde a morte assombrou sua palidez como na face do cadáver, onde o simoun do tempo ressicou os anéis louros do mancebo nas cãs alvacentas de ancião?
Por que tão lívido, ó monge taciturno, debruças a cabeça macilenta no peito que é murcho, onde mal bate o coração sobre a cogula negra do asceta?
Escuta: a lua ergueu-se hoje mais prateada nos céus cor-de-rosa do verão, as montanhas se azulam no crepuscular da tarde e o mar cintila seu manto azul palhetado de aljôfares. A hora da tarde é bela, quem aí na vida lhe não sagrou uma lágrima de saudade?
Tens os olhares turvos, luzem-te baços os olhos negros nas pálpebras roxas e o beijo frio da doença te azulou nos lábios a tinta do moribundo. E por que te abismas em fantasias profundas, sentado à borda de um fosso aberto, sentado na pedra de um túmulo?
Por que pensá-la... a noite dos mortos, fria e trevosa como os ventos de inverno? Por que antes não banhas tua fronte nas virações da infância, nos sonhos de moço? Sob essa estamenha não arfa um coração que palpitara outrora por uns olhos gázeos de mulher?
Sonha!... sonha antes no passado, no passado belo e doirado em seu dossel de escarlate, em seus mares azuis, em suas luas límpidas e suas estrelas românticas.
O velho ergueu a cabeça. Era uma fronte larga e calva, umas faces contraídas e amarelentas, uns lábios secos, gretados, em que sobreaguava amargo sorriso, uns olhares onde a febre tresnoitava suas insônias...
E quem to disse - que a morte é a noite escura e fria, o leito de terra úmida, a podridão e o lodo? Quem to disse - que a morte não era mais bela que as flores sem cheiro da infância, que os perfumes peregrinos e sem flores da adolescência? Quem to disse - que a vida não é uma mentira? - que a morte não é o leito das trêmulas venturas?
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Arthur Rimbaud
OS CORVOS
Senhor, quando os campos são frios
E nos povoados desnudos
Os longos ângelus são mudos...
Sobre os arvoredos vazios
Fazei descer dos céus preciosos
Os caros corvos deliciosos.
Hoste estranha de gritos secos
Ventos frios varrem nossos ninhos!
Vós, ao longo dos rios maninhos,
Sobre os calvários e seus becos,
Sobre as fossas, sobre os canais,
Dispersai-vos e ali restais.
Aos milhares, nos campos ermos,
Onde há mortos recém-sepultos,
Girai, no inverno, vossos vultos
Para cada um de nós vos vermos,
Sede a consciência que nos leva,
Ó funerais aves das trevas!
Mas, anjos do ar, no alto da fronde,
Mastros sem fim que os céus encantam,
Deixai os pássaros que cantam
Aos que no breu do bosque esconde,
Lá, onde o escuro é mais escuro,
Uma derrota sem futuro.
E nos povoados desnudos
Os longos ângelus são mudos...
Sobre os arvoredos vazios
Fazei descer dos céus preciosos
Os caros corvos deliciosos.
Hoste estranha de gritos secos
Ventos frios varrem nossos ninhos!
Vós, ao longo dos rios maninhos,
Sobre os calvários e seus becos,
Sobre as fossas, sobre os canais,
Dispersai-vos e ali restais.
Aos milhares, nos campos ermos,
Onde há mortos recém-sepultos,
Girai, no inverno, vossos vultos
Para cada um de nós vos vermos,
Sede a consciência que nos leva,
Ó funerais aves das trevas!
Mas, anjos do ar, no alto da fronde,
Mastros sem fim que os céus encantam,
Deixai os pássaros que cantam
Aos que no breu do bosque esconde,
Lá, onde o escuro é mais escuro,
Uma derrota sem futuro.
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1
Felipe Vianna
AO MEU AMOR
És bela,
Tão bela,
Que a rosa
Desbota.
Teu perfume
De flor
Causa ciúme
Ao amor.
A luz profunda
Do pôr-do-sol de abrolhos
Foi inspirada
Em teus olhos.
Teu amor
E a tua boca
São comparados
Ao incomparável.
Teu toque,
Teu gosto,
São igualáveis
Ao inigualável.
15/05/1996
Tão bela,
Que a rosa
Desbota.
Teu perfume
De flor
Causa ciúme
Ao amor.
A luz profunda
Do pôr-do-sol de abrolhos
Foi inspirada
Em teus olhos.
Teu amor
E a tua boca
São comparados
Ao incomparável.
Teu toque,
Teu gosto,
São igualáveis
Ao inigualável.
15/05/1996
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Felipe Vianna
AO MEU AMOR
És bela,
Tão bela,
Que a rosa
Desbota.
Teu perfume
De flor
Causa ciúme
Ao amor.
A luz profunda
Do pôr-do-sol de abrolhos
Foi inspirada
Em teus olhos.
Teu amor
E a tua boca
São comparados
Ao incomparável.
Teu toque,
Teu gosto,
São igualáveis
Ao inigualável.
15/05/1996
Tão bela,
Que a rosa
Desbota.
Teu perfume
De flor
Causa ciúme
Ao amor.
A luz profunda
Do pôr-do-sol de abrolhos
Foi inspirada
Em teus olhos.
Teu amor
E a tua boca
São comparados
Ao incomparável.
Teu toque,
Teu gosto,
São igualáveis
Ao inigualável.
15/05/1996
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1
Álvares de Azevedo
POR MIM?
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
Teus negros olhos uma vez fitando
Senti que luz mais branda os acendia,
Pálida de langor, eu vi, te olhando,
Mulher do meu amor, meu serafim,
Esse amor que em teus olhos refletia...
Talvez! - era por mim?
Pendeste, suspirando, a face pura,
Morreu nos lábios teus um ai perdido...
Tão ébrio de paixão e de ventura!
Mulher de meu amor, meu serafim,
Por quem era o suspiro amortecido?
Suspiravas por mim?...
Mas... eu sei!... ai de mim? Eu vi na dança
Um olhar que em teus olhos se fitava...
Ouvi outro suspiro... d'esperança!
Mulher do meu amor, meu serafim,
Teu olhar, teu suspiro que matava...
Oh! não eram por mim.
Segunda Parte
Teus negros olhos uma vez fitando
Senti que luz mais branda os acendia,
Pálida de langor, eu vi, te olhando,
Mulher do meu amor, meu serafim,
Esse amor que em teus olhos refletia...
Talvez! - era por mim?
Pendeste, suspirando, a face pura,
Morreu nos lábios teus um ai perdido...
Tão ébrio de paixão e de ventura!
Mulher de meu amor, meu serafim,
Por quem era o suspiro amortecido?
Suspiravas por mim?...
Mas... eu sei!... ai de mim? Eu vi na dança
Um olhar que em teus olhos se fitava...
Ouvi outro suspiro... d'esperança!
Mulher do meu amor, meu serafim,
Teu olhar, teu suspiro que matava...
Oh! não eram por mim.
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1
Mario Benedetti
Ainda
Não o creio ainda
Estás chegando a meu lado
E a noite é um punhado
De estrelas e de alegria
Sinto o gosto escuto e vejo
Teu rosto teu passo longo
Tuas mãos e todavia
Ainda não o creio
Teu regresso tem tanto
Que ver contigo e comigo
Que a cabala o digo
E pelas dúvidas o canto
Ninguém nunca te substitui
E as coisas mais triviais
Se voltam fundamentais
Por que estás chegando a casa
Todavia ainda
Duvido desta boa sorte
Porque o céu de ter-te
Me parece fantasia
Porém vindes e é seguro
E vindes com tua olhada
E por isso tua chegada
Faz mágico o futuro
E embora não sempre tenha entendido
Minhas culpas e meus fracassos
Em compensação sei que em teus braços
O mundo tem sentido
E se beijo a ousadia
E o mistério de teus lábios
Não haverá dúvidas nem ressaibos
Te quererei mais
Ainda.
Estás chegando a meu lado
E a noite é um punhado
De estrelas e de alegria
Sinto o gosto escuto e vejo
Teu rosto teu passo longo
Tuas mãos e todavia
Ainda não o creio
Teu regresso tem tanto
Que ver contigo e comigo
Que a cabala o digo
E pelas dúvidas o canto
Ninguém nunca te substitui
E as coisas mais triviais
Se voltam fundamentais
Por que estás chegando a casa
Todavia ainda
Duvido desta boa sorte
Porque o céu de ter-te
Me parece fantasia
Porém vindes e é seguro
E vindes com tua olhada
E por isso tua chegada
Faz mágico o futuro
E embora não sempre tenha entendido
Minhas culpas e meus fracassos
Em compensação sei que em teus braços
O mundo tem sentido
E se beijo a ousadia
E o mistério de teus lábios
Não haverá dúvidas nem ressaibos
Te quererei mais
Ainda.
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1
Jorge Luis Borges
Everness
Só uma coisa há. É o esquecimento.
Deus, que salva o metal, salva a escoria
E cifra na sua profética memória
as luas que serão e que hão sido.
Já tudo está. Os mil reflexos,
Que entre os dois crepúsculos do dia
Teu rosto foi deixando nos espelhos
e os que irá deixando ainda.
E tudo é uma parte do diverso
Cristal dessa memória, o universo;
Não têm fim seus árduos corredores
E as portas se fecham a teu passo,
Só do outro lado do ocaso
Verás os Arquétipos e Esplendores.
Retirado do livro El otro, el mismo (1964)
Deus, que salva o metal, salva a escoria
E cifra na sua profética memória
as luas que serão e que hão sido.
Já tudo está. Os mil reflexos,
Que entre os dois crepúsculos do dia
Teu rosto foi deixando nos espelhos
e os que irá deixando ainda.
E tudo é uma parte do diverso
Cristal dessa memória, o universo;
Não têm fim seus árduos corredores
E as portas se fecham a teu passo,
Só do outro lado do ocaso
Verás os Arquétipos e Esplendores.
Retirado do livro El otro, el mismo (1964)
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1
Eugenio Montejo
Meu amor
Em outro corpo vai meu amor por esta rua,
sinto seus passos embaixo da chuva,
caminhando, sonhando, como em mim já faz tempo...
Há ecos de minha voz em seus sussurros
posso reconhecê-los.
Tem agora uma idade que era a minha,
uma lâmpada que se acende ao nos encontrarmos.
Meu amor que se embeleza com o mar das horas,
meu amor no terraço de um café
com um hibisco branco entre as mãos,
vestida à antiga do novo milênio.
Meu amor que seguirá quando me for,
com outro riso e outros olhos,
como uma chama que deu um salto entre duas velas
e ficou iluminando o azul da Terra.
sinto seus passos embaixo da chuva,
caminhando, sonhando, como em mim já faz tempo...
Há ecos de minha voz em seus sussurros
posso reconhecê-los.
Tem agora uma idade que era a minha,
uma lâmpada que se acende ao nos encontrarmos.
Meu amor que se embeleza com o mar das horas,
meu amor no terraço de um café
com um hibisco branco entre as mãos,
vestida à antiga do novo milênio.
Meu amor que seguirá quando me for,
com outro riso e outros olhos,
como uma chama que deu um salto entre duas velas
e ficou iluminando o azul da Terra.
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Álvares de Azevedo
PÁGINA ROTA
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
Meu pobre coração que estremecias,
Suspira a desmaiar no peito meu:
Para enchê-lo de amor, tu bem sabias
Bastava um beijo teu!
Como o vale nas brisas se acalenta,
O triste coração no amor dormia;
Na saudade, na lua macilenta
Sequioso ar bebia!
Se nos sonhos da noite se embalava
Sem um gemido, sem um ai sequer,
E que o leite da vida ele sonhava
Num seio de mulher!
Se abriu tremendo os íntimos refolhos,
Se junto de teu seio ele tremia,
E que lia a ventura nos teus olhos,
É que deles vivia!
Via o futuro em mágicos espelhos,
Tua bela visão o enfeitiçava,
Sonhava adormecer nos teus joelhos...
Tanto enlevo sonhava!
Via nos sonhos dele a tua imagem
Que de beijos de amor o recendia...
E, de noite, nos hálitos da aragem
Teu alento sentia!
Ó pálida mulher! se negra sina
Meu berço abandonado me embalou,
Não te rias da sede peregrina
Dest"alma que te amou...
Que sonhava em teus lábios de ternura
Das noites do passado se esquecer...
Ter um leito suave de ventura...
E amor onde morrer!
Segunda Parte
Meu pobre coração que estremecias,
Suspira a desmaiar no peito meu:
Para enchê-lo de amor, tu bem sabias
Bastava um beijo teu!
Como o vale nas brisas se acalenta,
O triste coração no amor dormia;
Na saudade, na lua macilenta
Sequioso ar bebia!
Se nos sonhos da noite se embalava
Sem um gemido, sem um ai sequer,
E que o leite da vida ele sonhava
Num seio de mulher!
Se abriu tremendo os íntimos refolhos,
Se junto de teu seio ele tremia,
E que lia a ventura nos teus olhos,
É que deles vivia!
Via o futuro em mágicos espelhos,
Tua bela visão o enfeitiçava,
Sonhava adormecer nos teus joelhos...
Tanto enlevo sonhava!
Via nos sonhos dele a tua imagem
Que de beijos de amor o recendia...
E, de noite, nos hálitos da aragem
Teu alento sentia!
Ó pálida mulher! se negra sina
Meu berço abandonado me embalou,
Não te rias da sede peregrina
Dest"alma que te amou...
Que sonhava em teus lábios de ternura
Das noites do passado se esquecer...
Ter um leito suave de ventura...
E amor onde morrer!
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Eugenio Montejo
Alfabeto do mundo
Em vão me demoro soletrando
o alfabeto do mundo.
Leio nas pedras um escuro pranto,
ecos afogados em torres e edifícios,
indago a terra pelo tato
cheia de rios, paisagens e cores,
mas ao copiá-los sempre me equivoco.
Necessito escrever preso a uma linha
Sobre o fio do horizonte.
Desenhar o milagre desses dias
Que flutuam envoltos na luz
E se desprendem em cantos de pássaros.
Quando na rua os homens que perambulam
Do seu rancor a sua fadiga, cavilando,
Se me revelam mais do que nunca inocentes.
Quando o trapaceiro, o astuto, a adultera ,
Os mártires do ouro ou do amor
São só signos que não li bem,
Que ainda não consigo anotar no meu caderno.
Quanto quisera, ao menos um instante
Que esta plana febril de poesia
Grave na sua transparência cada letra:
O "o" do ladrão, o "t" do santo
o gótico ditongo do corpo e seu desejo,
com a mesma escritura do mar nas areias,
a mesma cósmica piedade
que a vida abre na frente dos meus olhos.
o alfabeto do mundo.
Leio nas pedras um escuro pranto,
ecos afogados em torres e edifícios,
indago a terra pelo tato
cheia de rios, paisagens e cores,
mas ao copiá-los sempre me equivoco.
Necessito escrever preso a uma linha
Sobre o fio do horizonte.
Desenhar o milagre desses dias
Que flutuam envoltos na luz
E se desprendem em cantos de pássaros.
Quando na rua os homens que perambulam
Do seu rancor a sua fadiga, cavilando,
Se me revelam mais do que nunca inocentes.
Quando o trapaceiro, o astuto, a adultera ,
Os mártires do ouro ou do amor
São só signos que não li bem,
Que ainda não consigo anotar no meu caderno.
Quanto quisera, ao menos um instante
Que esta plana febril de poesia
Grave na sua transparência cada letra:
O "o" do ladrão, o "t" do santo
o gótico ditongo do corpo e seu desejo,
com a mesma escritura do mar nas areias,
a mesma cósmica piedade
que a vida abre na frente dos meus olhos.
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