Outros
Reynaldo Bessa
uma noite
minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
"mamãe, o que elas têm?"
Leonardo Aldrovandi
A bigorna
tórax de ressonância
(brilha)
cega entre os pêssegos
fustiga a sequencia das cepas
desfecha capelas
na aldeia de alguns lares
e os pronomes perdidos da viagem
azedam no seio da ama-de-leite gigante
nada a não ser meios o mundo oferece
alpendre
tobogã
raiz forte
Nós frouxos
e o imenso campo mudo
qual o segredo da papoula escarnada?
a resposta é não ter altura
para ser dominante ao olhar
Todo outro peso
meus braços confia
esperando a pedra que a banha esfria
nos olhos daquele anjo
Marcus Vinicius Quiroga
Goya
olhares
com dentes engolem
as primaveras
sobre a mesa da sala
nada
não mais flores mortas enfeitando o dia
na vida cômoda
o quadro de Goya
rejeita
a cor que não for sombra
Marcus Vinicius Quiroga
Goya
olhares
com dentes engolem
as primaveras
sobre a mesa da sala
nada
não mais flores mortas enfeitando o dia
na vida cômoda
o quadro de Goya
rejeita
a cor que não for sombra
Josely Vianna Baptista
para leminsky
penso e surpreendo dentro
esse peso suspenso
entre fuga e allegro
entre risos e abismo
resgato fragmentos
e vestígios do vértigo
(espreito, rima leonina,
as naus, bits e ítacas
de tuas russas cismas,
as lengua-lengas feras
de teus trobares raros)
entre sóis e êsseoésses
miro etrelas-desastres
e desorientes ferozes
rumo ao ouro quase-Órion
de um perhappiness
entre o novo e o velho
só vejo o vero fogo
que te tornou eterno
só vestígios do vétigo
desde que o caos
deixou de ser acaso
Marcelo Montenegro
Cinecittà
Marcelo Montenegro
Mulher com chapéu
de Outono de 1905,
uma assistente da
exposição apontou
indignada para o quadro
Mulher com chapéu,
no qual Matisse
havia retratado sua esposa:
“Não existe uma
mulher com nariz
amarelo!”. Ao que
o pintor respondeu:
“Não é uma mulher,
senhora. É um quadro”.
Marcelo Montenegro
Mulher com chapéu
de Outono de 1905,
uma assistente da
exposição apontou
indignada para o quadro
Mulher com chapéu,
no qual Matisse
havia retratado sua esposa:
“Não existe uma
mulher com nariz
amarelo!”. Ao que
o pintor respondeu:
“Não é uma mulher,
senhora. É um quadro”.
Marcelo Montenegro
Cabaré
E se apenas cantássemos
como dois cansaços
num “deserto sem bússola”?
E se inscrevêssemos nosso sopro
na vidraça suja do mundo?
E se parássemos
de gastar nossas fichas nesta máquina?
E se apenas fingíssemos
como dois copos tingidos
de vinho no fundo?
E se nos anunciássemos
com bocejos sinceros em reuniões de negócios?
E se apenas sangrássemos
feito fiapos de riso
que escapam do choro?
E se topássemos, entre abandonos,
com o prenúncio invisível
de um poema lindo?
Resistiríamos, desistindo?
Marcelo Montenegro
Cabaré
E se apenas cantássemos
como dois cansaços
num “deserto sem bússola”?
E se inscrevêssemos nosso sopro
na vidraça suja do mundo?
E se parássemos
de gastar nossas fichas nesta máquina?
E se apenas fingíssemos
como dois copos tingidos
de vinho no fundo?
E se nos anunciássemos
com bocejos sinceros em reuniões de negócios?
E se apenas sangrássemos
feito fiapos de riso
que escapam do choro?
E se topássemos, entre abandonos,
com o prenúncio invisível
de um poema lindo?
Resistiríamos, desistindo?
Manoel Herzog
FIM DE NOITE
Se esvai num minuto
Tão louco que escuto
Vozes que não ouço.
Tão louco que dentro
De mim grita um fauno
Que toca uma flauta,
Tão louco que é calmo
Tão louco que d’antes
Já fora de noite
Agora amanhece
E eu aqui, tão louco.
Louco fim de noite
No fim solitário.
Riam-se os malandros
Deste pobre otário.
Tão louco, maluco,
Caduco e demente
Cena deprimente
De final de festa
Tão louco me sinto
Doido quando todos
Ficaram caretas
E eu pareço um bobo
Que ainda me rio,
Que ainda, até, flerto,
Tão louco, coberto
Das razões da vida.
Tão louco me tenho
No final de tudo.
Todos se arrumaram,
E eu fiquei sozinho.
Marcelo Montenegro
Eu costumava grifar meus livros
com aquela frase. Depois passei a achar que
os grifos direcionavam muito as releituras.
E os substituí por microdobradinhas nas
páginas. (Cocteau: “Uma única frase, e o
poema todo é levado aos céus!”.) Mas se
este método tem a provável vantagem de
atenuar a arbitrariedade e a feiura dos grifos,
algumas vezes, no entanto, ao reler estas
páginas, não encontrava o motivo delas
terem sido condecoradas com a dobradinha,
ou achava mais de um motivo para tanto.
Coisas de louco com as quais, bem ou mal,
“abastecemos nossa obsessão” (Philip Roth).
Penso até que a literatura se alimenta desse
medo. (Waly Salomão: “Escrever é se vingar
da perda”.) Afinal, de onde vêm os versos
senão dos grifos e dobradinhas que aplicamos
na existência, momentos que roubamos do mundo,
instantes que nossas solidões recrutam para
(W.B. Yeats) o “imundo ferro-velho do coração”?
Marcelo Montenegro
Eu costumava grifar meus livros
com aquela frase. Depois passei a achar que
os grifos direcionavam muito as releituras.
E os substituí por microdobradinhas nas
páginas. (Cocteau: “Uma única frase, e o
poema todo é levado aos céus!”.) Mas se
este método tem a provável vantagem de
atenuar a arbitrariedade e a feiura dos grifos,
algumas vezes, no entanto, ao reler estas
páginas, não encontrava o motivo delas
terem sido condecoradas com a dobradinha,
ou achava mais de um motivo para tanto.
Coisas de louco com as quais, bem ou mal,
“abastecemos nossa obsessão” (Philip Roth).
Penso até que a literatura se alimenta desse
medo. (Waly Salomão: “Escrever é se vingar
da perda”.) Afinal, de onde vêm os versos
senão dos grifos e dobradinhas que aplicamos
na existência, momentos que roubamos do mundo,
instantes que nossas solidões recrutam para
(W.B. Yeats) o “imundo ferro-velho do coração”?
Marcelo Montenegro
Eu costumava grifar meus livros
com aquela frase. Depois passei a achar que
os grifos direcionavam muito as releituras.
E os substituí por microdobradinhas nas
páginas. (Cocteau: “Uma única frase, e o
poema todo é levado aos céus!”.) Mas se
este método tem a provável vantagem de
atenuar a arbitrariedade e a feiura dos grifos,
algumas vezes, no entanto, ao reler estas
páginas, não encontrava o motivo delas
terem sido condecoradas com a dobradinha,
ou achava mais de um motivo para tanto.
Coisas de louco com as quais, bem ou mal,
“abastecemos nossa obsessão” (Philip Roth).
Penso até que a literatura se alimenta desse
medo. (Waly Salomão: “Escrever é se vingar
da perda”.) Afinal, de onde vêm os versos
senão dos grifos e dobradinhas que aplicamos
na existência, momentos que roubamos do mundo,
instantes que nossas solidões recrutam para
(W.B. Yeats) o “imundo ferro-velho do coração”?
Friedrich Hölderlin
Diotima
O caos do tempo, ó tu, que outrora os elementos irmanaste,
Em tons de paz do céu me suaviza a fera luta,
Até que aos seios dos mortais se amaine a intriga,
Até que a suave, a ingente, a velha natureza dos humanos
Brote enfim do fermentar do tempo alegre e forte.
E que à viva forma voltes, da gente aos corações sedentos!
Voltes à mesa hospitaleira, e ao santuário voltes!
Pois que, do Espírito colmada, como em neve as flores finas,
Vive ainda e a remirar o sol está Diotima.
Mas foi-se deste mundo o sol do Espírito, o mais belo,
E em caliginosa treva raivam agora tão somente os furacões.
Diotima
Komm und besänftige mir, die du einst Elemente versöhntest,
Wonne der himmlischen Muse, das Chaos der Zeit,
Ordne den tobenden Kampf mit Friedenstönen des Himmels,
Bis in der sterblichen Brust sich das Entzweite vereint,
Bis der Menschen alte Natur, die ruhige, große,
Aus der gärenden Zeit mächtig und heiter sich hebt.
Kehr’ in die dürftigen Herzen des Volks, lebendige Schönheit!
Kehr’ an den gastlichen Tisch, kehr’ in den Tempel zurück!
Denn Diotima lebt, wie die zarten Blüten im Winter,
Reich an eigenem Geist, sucht sie die Sonne doch auch.
Aber die Sonne des Geists, die schönere Welt, ist hinunter
Und in frostiger Nacht zanken Orkane sich nur.
– Friedrich Hölderlin. “Diotima”. [tradução Antonio Medina Rodrigues]. In: Canto do destino e outros cantos. (Organização, tradução e ensaio por Antonio Medina Rodrigues). São Paulo: Ilulminuras, 1994.
Marcus Vinicius Quiroga
PERPETUUM MÓBILE DE MAGRITTE
requer músculos para abstrair
e manter o objeto em equilíbrio
o reflexo torna-se o espelho
e move-se ao redor de si mesmo
mecânico, preciso, presto
a ilusão deforma a figura
em jogo de sombra e geometria:
engano à primeira vista
com o tempo vê-se o truque
mas ele faz parte do quadro
como pergunta que, se pintada,
propõe pensar outros ângulos
desfazer o até então familiar
e lugar-comum fora de lugar
recupera o espanto
a efemeridade perpétua
do homem preso na tela
o rosto se movimenta, círculo
de observações da mesma cena:
nenhum objeto é idêntico
o que é magritte ou chirico
também não se sabe, se lado a lado
fingem afinidades e correlatos
em um mundo que se desloca
permanentemente e sem propósito
estranho, quanto mais próximo,
e, se aos olhos surpresa joga
em móvel exercício de peso,
busca a visão sem excesso, seca
Marcus Vinicius Quiroga
PERPETUUM MÓBILE DE MAGRITTE
requer músculos para abstrair
e manter o objeto em equilíbrio
o reflexo torna-se o espelho
e move-se ao redor de si mesmo
mecânico, preciso, presto
a ilusão deforma a figura
em jogo de sombra e geometria:
engano à primeira vista
com o tempo vê-se o truque
mas ele faz parte do quadro
como pergunta que, se pintada,
propõe pensar outros ângulos
desfazer o até então familiar
e lugar-comum fora de lugar
recupera o espanto
a efemeridade perpétua
do homem preso na tela
o rosto se movimenta, círculo
de observações da mesma cena:
nenhum objeto é idêntico
o que é magritte ou chirico
também não se sabe, se lado a lado
fingem afinidades e correlatos
em um mundo que se desloca
permanentemente e sem propósito
estranho, quanto mais próximo,
e, se aos olhos surpresa joga
em móvel exercício de peso,
busca a visão sem excesso, seca
Josely Vianna Baptista
RIVUS
de clepsidras, no sobrecéu ascendem (como anjos suspensos
numa casa barroca), e em presença de ausências o tempo
se distende. Uns seios de perfil, sono embalando
a rede, campânula encurvada pelas águas da chuva.
No horizonte invisível, dobras de anamorfoses;
sombras que se insinuam, a matéria mental.
Marcelo Montenegro
Ensaios
Nelson Cavaquinho é o Ingmar Bergman do samba;
AC/DC, os James Browns do metal;
Marcelo Nova foi o Toquinho do Raul;
o seu Francisco (a duas quadras daqui de casa)
é o Shakespeare dos pastéis; Ramones
são Beatles arruaceiros; Faulkner, um pedreiro
experimental; Lou Reed é um Frank Sinatra
roto; Carver é Hooper (em formato conto);
Tom Zé é um misto de Marcel Duchamp
com Jackson do Pandeiro; Seinfeld é Homero.
2.
Beatles é uma perfeição
a que a humanidade
raramente chega.
É Tchékhov, Rilke, Pelé
e Coutinho, Nonas
Sinfonias, Ilíadas, Catherine
Deneuves, pirâmides
egípcias de três minutos.
Marcelo Montenegro
Ensaios
Nelson Cavaquinho é o Ingmar Bergman do samba;
AC/DC, os James Browns do metal;
Marcelo Nova foi o Toquinho do Raul;
o seu Francisco (a duas quadras daqui de casa)
é o Shakespeare dos pastéis; Ramones
são Beatles arruaceiros; Faulkner, um pedreiro
experimental; Lou Reed é um Frank Sinatra
roto; Carver é Hooper (em formato conto);
Tom Zé é um misto de Marcel Duchamp
com Jackson do Pandeiro; Seinfeld é Homero.
2.
Beatles é uma perfeição
a que a humanidade
raramente chega.
É Tchékhov, Rilke, Pelé
e Coutinho, Nonas
Sinfonias, Ilíadas, Catherine
Deneuves, pirâmides
egípcias de três minutos.
Marcelo Montenegro
Ensaios
Nelson Cavaquinho é o Ingmar Bergman do samba;
AC/DC, os James Browns do metal;
Marcelo Nova foi o Toquinho do Raul;
o seu Francisco (a duas quadras daqui de casa)
é o Shakespeare dos pastéis; Ramones
são Beatles arruaceiros; Faulkner, um pedreiro
experimental; Lou Reed é um Frank Sinatra
roto; Carver é Hooper (em formato conto);
Tom Zé é um misto de Marcel Duchamp
com Jackson do Pandeiro; Seinfeld é Homero.
2.
Beatles é uma perfeição
a que a humanidade
raramente chega.
É Tchékhov, Rilke, Pelé
e Coutinho, Nonas
Sinfonias, Ilíadas, Catherine
Deneuves, pirâmides
egípcias de três minutos.
Marcus Vinicius Quiroga
A CAMISA SETE DE MANÉ GARRINCHA
Ele dribla João-joãos e até a sombra,
para e espera que o adversário retorne.
Então repete o drible e, como cabe ao ponta,
cruza na área oposta a precisa pelota.
Desliza no gramado e, leve feito uma ave,
foge dos estilingues que miram seu corpo.
Seu vôo é solto na hora em que lhe dão o passe
e, mesmo baixo, sobe no ar e marca o gol.
Finge-se de invisível aos olhos dos beques
e dribla o jogo com seus lugares-comuns.
Ri por dentro de tudo como se um moleque
que sempre prega peças na terra do nunca.
E, se alguém lhe pergunta de onde o seu driblar,
de onde o truque de seus pé que se mexem mágicos,
responde com um sopro e se faz pluma no ar:
Mané é apelido de menino-pássaro
Martha Medeiros
A nova minoria
A comunidade dos sensatos nunca se organizou formalmente. Seus antepassados acasalaram-se com insensatos, e geraram filhos e netos e bisnetos mistos, o que poderia ser considerada uma bem-vinda diversidade cultural, mas não resultou em grande coisa. Os seres mistos seguiram procriando com outros insensatos, até que a insensatez passou a ser o gene dominante da raça. Restaram poucos sensatos puros.
Reconhecê-los não é difícil. Eles costumam ser objetivos em suas conversas, dizendo claramente o que pensam e baseando seus argumentos no raro e desprestigiado bom senso. Analisam as situações por mais de um ângulo antes de se posicionarem. Tomam decisões justas, mesmo que para isso tenham que ferir suscetibilidades. Não se comovem com os exageros e delírios de seus pares, preferindo manter-se do lado da razão. Serão pessoas frias? É o que dizem deles, mas ninguém imagina como sofrem intimamente por não serem compreendidos.
O sensato age de forma óbvia. Ele conhece o caminho mais curto para fazer as coisas acontecerem, mas as coisas só acontecem quando há um empenho conjunto. Sozinho ele não pode fazer nada contra a avassaladora reação dos que, diferentemente dele, dedicam suas vidas a complicar tudo. Para a maioria, a simplicidade é sempre suspeita, vá entender.
O sensato obedece a regras ancestrais, como, por exemplo, dar valor ao que é emocional e desprezar o que é mesquinho. Ele não ocupa o tempo dos outros com fofocas maldosas e de origem incerta. Ele não concorda com muita coisa que lê e ouve por aí, mas nem por isso exercita o espírito de porco agredindo pessoas que não conhece. Se é impelido a se manifestar, defende sua posição com ideias, sem precisar usar o recurso da violência.
O sensato não considera careta cumprir as leis, é a parte facilitadora do cotidiano. A loucura dele é mais sofisticada, envolve rompimento com algumas convenções, sim, mas convenções particulares, que não afetam a vida pública. O sensato está longe de ser um certinho. Ele tem personalidade, e se as coisas funcionam pra ele, é porque ele tem foco e não se desperdiça, utiliza seu potencial em busca de eficácia, em vez de gastar sua energia com teatralizações que dão em nada.
O sensato privilegia tudo o que possui conteúdo, pois está de acordo com a máxima que diz que mais grave do que ter uma vida curta é ter uma vida pequena. Sendo assim, ele faz valer o seu tempo. Reconhece que o Big Brother é um passatempo curioso, por exemplo, mas não tem estômago para aquela sequência de conversas inaproveitáveis. É o vazio da banalidade passando de geração para geração.
Ouvi de um sensato, dia desses: “Perdi minha turma. Eu convivia com pessoas criativas, que falavam a minha língua, que prezavam a liberdade, pessoas antenadas que não perdiam tempo com mediocridades. A gente se dispersou”. Ele parecia um índio.
Mesmo com poucas chances de sobrevivência, que se morra em combate. Sensatos, resistam.
Mário de Sá-Carneiro
Partida
Em suas águas certas, eu hesito,
E detenho-me às vezes na torrente
Das coisas geniais em que medito.
Afronta-me um desejo de fugir
Ao mistério que é meu e me seduz.
Mas logo me triunfo. A sua luz
Não há muitos que a saibam refletir.
A minh’alma nostálgica de além,
Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto,
Aos meus olhos ungidos sobe um pranto
Que tenho a força de sumir também.
Porque eu reajo. A vida, a natureza,
Que são para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul à busca da beleza.
É subir, é subir além dos céus
Que as nossas almas só acumularam,
E prostrados rezar, em sonho, ao Deus,
Que as nossas mãos de auréola lá douraram.
É partir sem temor contra a montanha
Cingidos de quimera e d’irreal;
Brandir a espada fulva e medieval,
A cada hora acastelando em Espanha.
É suscitar cores endoidecidas,
Ser garra imperial enclavinhada,
E numa extrema-unção d’alma ampliada,
Viajar outros sentidos, outras vidas.
Ser coluna de fumo, astro perdido,
Forçar os turbilhões aladamente,
Ser ramo de palmeira, água nascente
E arco de ouro e chama distendido…
Asa longínqua a sacudir loucura,
Nuvem precoce de subtil vapor,
Ânsia revolta de mistério e olor,
Sombra, vertigem, ascensão — Altura!
E eu dou-me todo neste fim de tarde
À espira aérea que me eleva aos cumes.
Doido de esfinges o horizonte arde,
Mas fico ileso entre clarões e gumes!…
Miragem roxa de nimbado encanto —
Sinto os meus olhos a volver-se em espaço!
Alastro, venço, chego e ultrapasso;
Sou labirinto, sou licorne e acanto.
Sei a distância, compreendo o Ar;
Sou chuva de ouro e sou espasmo de luz;
Sou taça de cristal lançada ao mar,
Diadema e timbre, elmo real e cruz…
…………………………………………………………….
…………………………………………………………….
O bando das quimeras longe assoma…
Que apoteose imensa pelos céus!
A cor já não é cor — é som e aroma!
Vêm-me saudades de ter sido Deus…
*
* *
Ao triunfo maior, avante pois!
O meu destino é outro — é alto e raro.
Unicamente custa muito caro:
A tristeza de nunca sermos dois…