Poemas neste tema
Arrependimento e Culpa
Lili Gharcia
Boulevard
Compro do mundo uma parte de mim.
A alma é tão comerciável....
Vendo aos homens a vida que me deram.
Multiplicai-me, Senhor!
O social é uma relação de compra e venda
Então vendo meu Milton,
Vendo Chopin,
Meu Bach,
Minha Alegria,
E depois me afogo de culpa por comer no almoço
um pedaço de espírito.
A alma é tão comerciável....
Vendo aos homens a vida que me deram.
Multiplicai-me, Senhor!
O social é uma relação de compra e venda
Então vendo meu Milton,
Vendo Chopin,
Meu Bach,
Minha Alegria,
E depois me afogo de culpa por comer no almoço
um pedaço de espírito.
1 548
Reinaldo Ferreira
Deus que me fez e fizera
Deus que me fez e fizera
O pecado antes de mim,
Junto de Si não me espera,
Sabe o destino a que vim.
Pode tudo; e não altera
O pecador que há em mim,
Nem nunca tanto pudera:
Pecarei até ao fim.
Pois que tudo em mim venera
O pecador que há em mim.
Deus já não pode nem espera:
Fez o destino a que vim.
O pecado antes de mim,
Junto de Si não me espera,
Sabe o destino a que vim.
Pode tudo; e não altera
O pecador que há em mim,
Nem nunca tanto pudera:
Pecarei até ao fim.
Pois que tudo em mim venera
O pecador que há em mim.
Deus já não pode nem espera:
Fez o destino a que vim.
2 066
Reinaldo Ferreira
A estátua jacente
Mandei, mundano, talhar
Esta galante postura.
Ai de mim!, que a desventura
Dura o que a pedra durar!
Latinas frases austeras
Dizem de mim ilegíveis,
As mil virtudes possíveis
À pressão das sete esferas.
O nome, farto e faustoso
Com que de nada me enchi
Horizontal, o esqueci
Da altura do meu repouso.
Mas sempre sofro, emanando
Das cinzas por mim guardadas,
Memória de horas danadas
Que vão meu sono acordando.
Bispo fui; amando a guerra,
Cego ao aceno dos céus,
Troquei a graça de Deus
Pelas miragens da terra
Fui cobiçoso, mesquinho,
Falso, cruel, intrigante,
E numa orgia infamante
Pequei a carne e o vinho.
Morto me acharam um dia
No leito; tão decomposto
Que pelos restos do rosto
Ninguém já me conhecia.
Em vão, com óleos, essências
De aroma arábico e forte,
Se disputaram à morte
Minhas letais pestilências.
Húmido, em nardo, eu jazia;
Mas o fedor que exalava,
Mais que da carne, alastrava
Da alma que apodrecia.
Mãos, num vagar rancoroso,
Vingadas, porque adularam,
Em brocado entalharam
Meu corpo inchado e escabroso.
Por fim, fantoche mitrado,
Entre cem círios a arder
- Pudesse um deles também ser
E consumir-me queimado! -
Entrei na nave deserta
Que do pórtico parecia
Que a todos nos engolia,
Fauce esfaimada e aberta.
Oh! Com que náusea os ouvi
Salmodiar-me; e exausto
De tão falsíssimo fausto,
Com terror me apercebi
De que o cansaço devia
Ter-se extinguido também
Comigo, não ir além
Da vida que em mim havia.
Mas não! Meus cinco sentidos
Desenfreados agora
Os tinha mais do que outrora,
Buscando os vícios preferidos!
Incapaz de movimento,
Eu, cego, impotente e mudo,
Dentro de mim, via tudo
Num pavoroso tormento!
Só a solidão me deixaram
Na cava nave nocturna
E a presença taciturna
Dos que a meu soldo mataram,
Dos que a meu lado morreram
Sem confissão, emboscados,
Dos que ao meu oiro amarrados
Porque os perdi se perderam!
O tempo, enorme, passou.
Mais que um vitral se partiu,
Mais de que um arco ruiu
E eu vivo e morto ainda estou.
Quando o tempo ao fim desbaste
Minhas puídas feições,
Talvez as minhas acções
Também o tempo as desgaste.
A sombra silenciosa
Da cruz, que alonga ao sol posto
Sua brandura ao meu rosto,
Talvez parando piedosa
Sobre os meus olhos, talvez
Dorida do meu quebranto,
Amoleça em meigo pranto
Tanta maciça altivez.
Talvez os vermes, por dó,
Os alicerces minando,
Altos tectos derrubando,
Me restituam ao pó.
Talvez também - maldição! -
Em cada grão inda viva
A minha insónia, cativa
De um remorso sem perdão!
Não creias, pois, viajante
No meu sossego aparente;
Sê calmo, casto e constante,
Sê sóbrio, humano e paciente;
Sê tudo quanto eu não sendo,
Porque o não fui, Deus legou,
À pedra inerme jazendo
A sensação de quem sou.
Esta galante postura.
Ai de mim!, que a desventura
Dura o que a pedra durar!
Latinas frases austeras
Dizem de mim ilegíveis,
As mil virtudes possíveis
À pressão das sete esferas.
O nome, farto e faustoso
Com que de nada me enchi
Horizontal, o esqueci
Da altura do meu repouso.
Mas sempre sofro, emanando
Das cinzas por mim guardadas,
Memória de horas danadas
Que vão meu sono acordando.
Bispo fui; amando a guerra,
Cego ao aceno dos céus,
Troquei a graça de Deus
Pelas miragens da terra
Fui cobiçoso, mesquinho,
Falso, cruel, intrigante,
E numa orgia infamante
Pequei a carne e o vinho.
Morto me acharam um dia
No leito; tão decomposto
Que pelos restos do rosto
Ninguém já me conhecia.
Em vão, com óleos, essências
De aroma arábico e forte,
Se disputaram à morte
Minhas letais pestilências.
Húmido, em nardo, eu jazia;
Mas o fedor que exalava,
Mais que da carne, alastrava
Da alma que apodrecia.
Mãos, num vagar rancoroso,
Vingadas, porque adularam,
Em brocado entalharam
Meu corpo inchado e escabroso.
Por fim, fantoche mitrado,
Entre cem círios a arder
- Pudesse um deles também ser
E consumir-me queimado! -
Entrei na nave deserta
Que do pórtico parecia
Que a todos nos engolia,
Fauce esfaimada e aberta.
Oh! Com que náusea os ouvi
Salmodiar-me; e exausto
De tão falsíssimo fausto,
Com terror me apercebi
De que o cansaço devia
Ter-se extinguido também
Comigo, não ir além
Da vida que em mim havia.
Mas não! Meus cinco sentidos
Desenfreados agora
Os tinha mais do que outrora,
Buscando os vícios preferidos!
Incapaz de movimento,
Eu, cego, impotente e mudo,
Dentro de mim, via tudo
Num pavoroso tormento!
Só a solidão me deixaram
Na cava nave nocturna
E a presença taciturna
Dos que a meu soldo mataram,
Dos que a meu lado morreram
Sem confissão, emboscados,
Dos que ao meu oiro amarrados
Porque os perdi se perderam!
O tempo, enorme, passou.
Mais que um vitral se partiu,
Mais de que um arco ruiu
E eu vivo e morto ainda estou.
Quando o tempo ao fim desbaste
Minhas puídas feições,
Talvez as minhas acções
Também o tempo as desgaste.
A sombra silenciosa
Da cruz, que alonga ao sol posto
Sua brandura ao meu rosto,
Talvez parando piedosa
Sobre os meus olhos, talvez
Dorida do meu quebranto,
Amoleça em meigo pranto
Tanta maciça altivez.
Talvez os vermes, por dó,
Os alicerces minando,
Altos tectos derrubando,
Me restituam ao pó.
Talvez também - maldição! -
Em cada grão inda viva
A minha insónia, cativa
De um remorso sem perdão!
Não creias, pois, viajante
No meu sossego aparente;
Sê calmo, casto e constante,
Sê sóbrio, humano e paciente;
Sê tudo quanto eu não sendo,
Porque o não fui, Deus legou,
À pedra inerme jazendo
A sensação de quem sou.
2 079
Silvaney Paes
Depois de blasfemar
Depois
de blasfemar contra Meu Senhor,
Já curada a febre e seus vãos delírios,
Provei do silêncio...
E enquanto esperava um castigo,
Que nunca adveio,
Deparei-me com o imenso vazio
Em que me encontro agora.
E descobrir com os olhos alevantados
Para o firmamento
Que sou sonhos, delírio, crença...
E que esta carne se putrefaria
Como toda matéria impura
Para que restasse apenas o vínculo,
Destalma dantes em cruéis enganos,
Com Àquele que sempre nela fez morada.
Mas se considerado indigno de Vós,
Mesmo em tardio castigo,
Hei de querer assim mesmo o Vosso Anagrama
Gravado em minha laje fria,
Pois que em mim sempre esteve escrito;
Eis que sois um templo do Senhor.
E essas letras, que canto...
Vez por outra, serão Hinos de Louvor
de blasfemar contra Meu Senhor,
Já curada a febre e seus vãos delírios,
Provei do silêncio...
E enquanto esperava um castigo,
Que nunca adveio,
Deparei-me com o imenso vazio
Em que me encontro agora.
E descobrir com os olhos alevantados
Para o firmamento
Que sou sonhos, delírio, crença...
E que esta carne se putrefaria
Como toda matéria impura
Para que restasse apenas o vínculo,
Destalma dantes em cruéis enganos,
Com Àquele que sempre nela fez morada.
Mas se considerado indigno de Vós,
Mesmo em tardio castigo,
Hei de querer assim mesmo o Vosso Anagrama
Gravado em minha laje fria,
Pois que em mim sempre esteve escrito;
Eis que sois um templo do Senhor.
E essas letras, que canto...
Vez por outra, serão Hinos de Louvor
677
Bocage
Um procurador de causas
Um procurador de causas
Tinha na destra de harpia
Nojenta, incurável chaga,
Que até ossos lhe roía.
Exclama um taful ao vê-lo:
"Que pena de Talião!
Quem com a mão roeu tanto
Ficou roído na mão".
Tinha na destra de harpia
Nojenta, incurável chaga,
Que até ossos lhe roía.
Exclama um taful ao vê-lo:
"Que pena de Talião!
Quem com a mão roeu tanto
Ficou roído na mão".
1 193
Carlos Góes
Mística
Rezas, postas as mãos em súplice postura.
Pedes a Deus perdão das faltas que deploras,
E Ele, em quem lacrimosa o fito olhar demoras,
Sorri, por te saber acrisolada e pura.
Há na tua atitude mística doçura
De quem contempla o albor de célicas auroras,
— O olhar vago de quem se impregna e se satura
De toda a contrição que exala o Livro de Horas...
Volves agora o olhar à imagem de Maria,
E Maria, de cima, a unção prodigaliza
De outro olhar, onde a graça esplêndida irradia!
Nem sequer o cansaço as fibras te quebranta...
E, arroubada, não vês que assim se imobiliza
Genuflexa uma santa em face de outra Santa...
Pedes a Deus perdão das faltas que deploras,
E Ele, em quem lacrimosa o fito olhar demoras,
Sorri, por te saber acrisolada e pura.
Há na tua atitude mística doçura
De quem contempla o albor de célicas auroras,
— O olhar vago de quem se impregna e se satura
De toda a contrição que exala o Livro de Horas...
Volves agora o olhar à imagem de Maria,
E Maria, de cima, a unção prodigaliza
De outro olhar, onde a graça esplêndida irradia!
Nem sequer o cansaço as fibras te quebranta...
E, arroubada, não vês que assim se imobiliza
Genuflexa uma santa em face de outra Santa...
858
César William
O Errante
Por um erro me fiz errante,
Mais errante que o erro do errado
Mil tropeços no meu passado,
Os infernantes constando
Dos meus retalhos.
Sem dúvida, com mágoas
Meu sorriso pichado.
Ó triste dor tão infinita:
Não me inflame agora
Não me deixe ser um errante,
O mesmo que ontem amava
Nas curvas de um delirante.
Um errado errante,
Um facínora
Um desamante.
Tantos sonhos refeitos,
Tantos tombos levados...
Viver numa clausura com incúria
Tamanha fera, qual a rua desabitada.
Nos degraus de uma ponte pitoresca?
Na esquina de um velho sobrado?...
Não importa
É um errado,
Um errante de sonhos mutilados
Pelo poder da censura
Mais errante que o erro do errado
Mil tropeços no meu passado,
Os infernantes constando
Dos meus retalhos.
Sem dúvida, com mágoas
Meu sorriso pichado.
Ó triste dor tão infinita:
Não me inflame agora
Não me deixe ser um errante,
O mesmo que ontem amava
Nas curvas de um delirante.
Um errado errante,
Um facínora
Um desamante.
Tantos sonhos refeitos,
Tantos tombos levados...
Viver numa clausura com incúria
Tamanha fera, qual a rua desabitada.
Nos degraus de uma ponte pitoresca?
Na esquina de um velho sobrado?...
Não importa
É um errado,
Um errante de sonhos mutilados
Pelo poder da censura
939
Beni Carvalho
Magdá (Um quadro de Tiziano)
Colo desnudo em flor, lábio entreaberto em prece,
olhos, no alto, exorando o perdão de seu crime,
Magdalena, a ofegar, toda em febre aparece...
E o almo encanto da Vida e do Pecado exprime.
Perscruta o coração, que o Amor, voraz, oprime;
Sente-lhe a luta, e a dor que, dentro da alma, cresce...
E, a cada pulsação que lhe o peito oprime,
Os delírios sensuais, em prantos, amortece.
Em fogo o olhar, tremendo a voz, a mente em brasas,
Desnastrado o cabelo em ondas de veludos,
Demanda o Azul, assim, nessas formosas asas...
Enquanto, aos céus, contrita, a suplicar, exangue,
Mostra os duros punhais dos seios pontiagudos,
Ainda quentes de amor, ainda rubros de sangue!
olhos, no alto, exorando o perdão de seu crime,
Magdalena, a ofegar, toda em febre aparece...
E o almo encanto da Vida e do Pecado exprime.
Perscruta o coração, que o Amor, voraz, oprime;
Sente-lhe a luta, e a dor que, dentro da alma, cresce...
E, a cada pulsação que lhe o peito oprime,
Os delírios sensuais, em prantos, amortece.
Em fogo o olhar, tremendo a voz, a mente em brasas,
Desnastrado o cabelo em ondas de veludos,
Demanda o Azul, assim, nessas formosas asas...
Enquanto, aos céus, contrita, a suplicar, exangue,
Mostra os duros punhais dos seios pontiagudos,
Ainda quentes de amor, ainda rubros de sangue!
992
Atílio Milano
O Filho de Patmore
Meu filho, ralhei contigo,
eu, que sou tão teu amigo!
Mas, se sou tão teu amigo,
por que é que ralho contigo?!
Quando me desobedeces
já com o homem te pareces...
Vais ser o homem que pareces:
vejo que não obedeces!
Foste chorar para a cama,
ofendido com quem te ama!
E teu pai, que tanto te ama,
salta, tão triste, da cama
e vai dar-te a sua bênção.
Ah, vocês filhos não pensam,
ah, vocês filhos nem pensam
que um pai é um deus, dando a bênção!
eu, que sou tão teu amigo!
Mas, se sou tão teu amigo,
por que é que ralho contigo?!
Quando me desobedeces
já com o homem te pareces...
Vais ser o homem que pareces:
vejo que não obedeces!
Foste chorar para a cama,
ofendido com quem te ama!
E teu pai, que tanto te ama,
salta, tão triste, da cama
e vai dar-te a sua bênção.
Ah, vocês filhos não pensam,
ah, vocês filhos nem pensam
que um pai é um deus, dando a bênção!
1 059
Araújo Filho
Fatalismo
Foi meu erro idear maior altura,
para um Sonho tão Pobre e pequenino:
— Ninguém torna em ventura a desventura,
que é mais forte o desígnio do Destino.
Ninguém pode mudar a noite escura
em dia azul, sem nuvens, cristalino...
Da vida, a estrada é tão agreste e dura
que leva muita vez ao desatino.
Gira em torno de tudo uma Alta Força,
que, com letras de fogo, escreve a sorte
de cada Ser... Escreve, e passa adiante...
E do que escrito foi, não há quem torça
ou mude uma só letra, nem durante
a vida, nem também depois da morte.
para um Sonho tão Pobre e pequenino:
— Ninguém torna em ventura a desventura,
que é mais forte o desígnio do Destino.
Ninguém pode mudar a noite escura
em dia azul, sem nuvens, cristalino...
Da vida, a estrada é tão agreste e dura
que leva muita vez ao desatino.
Gira em torno de tudo uma Alta Força,
que, com letras de fogo, escreve a sorte
de cada Ser... Escreve, e passa adiante...
E do que escrito foi, não há quem torça
ou mude uma só letra, nem durante
a vida, nem também depois da morte.
847
Adail Coelho Maia
Segundo a Bíblia
Diz a Bíblia que o nosso Criador
Fez o mundo em seis dias, simplesmente,
Deus criou Adão, puro, inocente,
Para exaltar as glórias do Senhor.
Vendo Adão tanta luz, tanto esplendor,
Uma idéia fatal lhe veio à mente:
— Pedir um companheiro ao Onipotente,
Para gozar de tudo igual favor!
E Eva lá se vem, e Adão vencido,
Foi levado a um pomar, por entre trevas,
Para comer de um fruto proibido!
E por castigo eterno ao crime bruto,
O pomar inda existe, e novas Evas,
Com a mesma história do maldito fruto!...
Fez o mundo em seis dias, simplesmente,
Deus criou Adão, puro, inocente,
Para exaltar as glórias do Senhor.
Vendo Adão tanta luz, tanto esplendor,
Uma idéia fatal lhe veio à mente:
— Pedir um companheiro ao Onipotente,
Para gozar de tudo igual favor!
E Eva lá se vem, e Adão vencido,
Foi levado a um pomar, por entre trevas,
Para comer de um fruto proibido!
E por castigo eterno ao crime bruto,
O pomar inda existe, e novas Evas,
Com a mesma história do maldito fruto!...
1 047
Ruy Pereira e Alvim
Acto de Contrição
Não tenho direito à prece,
nem mereço o teu perdão;
Nada fiz para morrer
de farda e arma na mão...
Perdi horas em conversa
passei dias a pensar
em arremedos de guerra,
perdi a vontade imersa
no desejo de lutar...
Troquei os sonhos por tiros
que não dei nem deixei dar!...
Gastei pedações de vida,
e fiz com eles as flores
de renúncia e omissão...
Perdi a terra e o mar,
fiquei sem voz pra cantar
a minha libertação!...
nem mereço o teu perdão;
Nada fiz para morrer
de farda e arma na mão...
Perdi horas em conversa
passei dias a pensar
em arremedos de guerra,
perdi a vontade imersa
no desejo de lutar...
Troquei os sonhos por tiros
que não dei nem deixei dar!...
Gastei pedações de vida,
e fiz com eles as flores
de renúncia e omissão...
Perdi a terra e o mar,
fiquei sem voz pra cantar
a minha libertação!...
1 028
Ribeiro Couto
O Longe e o Perto
Logo que a noite envolve em sombras o jardim
Parece que um mistério estranho me rodeia,
Bocas de flores se entreabrem para mim,
E não sei de quem são estes passos na areia
Nem este murmurar de uma queixa sem fim.
Como a seiva da terra alimenta as raízes,
Uma seiva secreta enche meu coração.
Deve ser o tal "gosto amargo de infelizes",
Plantinha sempre verde entre as pedras do chão,
Cujo travo provei em todos os países.
Tudo que pude fiz para não ser assim,
Mas não posso esquecer o longe pelo perto;
Os que amei e perdi dormem dentro de mim;
A culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
Logo que a noite envolve em sombras o jardim.
Parece que um mistério estranho me rodeia,
Bocas de flores se entreabrem para mim,
E não sei de quem são estes passos na areia
Nem este murmurar de uma queixa sem fim.
Como a seiva da terra alimenta as raízes,
Uma seiva secreta enche meu coração.
Deve ser o tal "gosto amargo de infelizes",
Plantinha sempre verde entre as pedras do chão,
Cujo travo provei em todos os países.
Tudo que pude fiz para não ser assim,
Mas não posso esquecer o longe pelo perto;
Os que amei e perdi dormem dentro de mim;
A culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
Logo que a noite envolve em sombras o jardim.
1 391
Menezes y Morais
Balada dos Mortos na Parede etc
teus mortos
estão nas paredes
nos álbuns
memórias
dramas
te espiamudos
denunciam calados
o crime q comeste
teus mortos
não perdoaram
eles vivem
todo dia
quando reparas
nos álbuns
paredes
memórias
dramas
é inútil tentar/remover os mortos/
dessas paragens
eles estão em ti
te acompanham
procriam na sala
quarto lembranças
convive com os mortos
é mais seguro do q conviver com os
vivos
a vida é túmulo em via
estão nas paredes
nos álbuns
memórias
dramas
te espiamudos
denunciam calados
o crime q comeste
teus mortos
não perdoaram
eles vivem
todo dia
quando reparas
nos álbuns
paredes
memórias
dramas
é inútil tentar/remover os mortos/
dessas paragens
eles estão em ti
te acompanham
procriam na sala
quarto lembranças
convive com os mortos
é mais seguro do q conviver com os
vivos
a vida é túmulo em via
926
Marco Valadares
Nossos Caminhos Pela Vida
Eu não saberia da vida
Muito que dela aprendi
Se por caminhos passados
Passasse por longe de ti
E nesses caminhos vividos...
Com amor, mágoa e paixão
Certas vezes eu era sozinho
Mas longe da solidão
Pois solidão é nunca ter tido
Nada pra pensar ou sentir
Mas desde que te conheço
Não me conheço longe de ti
E nesse novo caminho que estamos
Ando com muito cuidado
Pois estou tendo que aprender
A não andar mais do teu lado
Mas quero ter sempre em mente
Que isso é coisa passageira
Pois quero viver novamente
Daquela velha maneira
Como quando numa praia deserta
Ficamos juntos por dez dias
Dias de amor, carinho, amizade,
E um sentimento que crescia
Ou mesmo de um carnaval
Que muitas tristezas senti
Mas quando voltamos pra casa
Podia estar perto de ti
Queria muito me desculpar
Por aquele nosso passado
Mas é de se compreender
Pelo caminho que começou errado
E a vida que desejávamos
Lhe digo com muito amor
Que está mais perto do que pensas
Se reconhecer nosso valor
Pois a tua falta pra mim
Faz com que viver pareça
Semanas durarem anos
E faz, com isso, que eu cresça
Faz com que eu me arrependa
Da liberdade que não lhe dei
Mas foi tão inconsciente
Que fui eu quem me aprisionei
Tanto que não lhe devo desculpas
Pois me sinto em igual situação
Mas devo com muita esperança
Propor-lhe uma solução
De que nossas pegadas na areia
Pelos caminhos que passamos
Não sejam jamais esquecidas
Pra não esquecermos que erramos
Mas que sejam deixadas expostas
Nossas pegadas na vida
Para que o vento possa fechá-las
Fechando nossas feridas
E, nesse dia, finalmente
No meu ombro se deitarás
Como era antigamente
E não deixará de ser mais...
Muito que dela aprendi
Se por caminhos passados
Passasse por longe de ti
E nesses caminhos vividos...
Com amor, mágoa e paixão
Certas vezes eu era sozinho
Mas longe da solidão
Pois solidão é nunca ter tido
Nada pra pensar ou sentir
Mas desde que te conheço
Não me conheço longe de ti
E nesse novo caminho que estamos
Ando com muito cuidado
Pois estou tendo que aprender
A não andar mais do teu lado
Mas quero ter sempre em mente
Que isso é coisa passageira
Pois quero viver novamente
Daquela velha maneira
Como quando numa praia deserta
Ficamos juntos por dez dias
Dias de amor, carinho, amizade,
E um sentimento que crescia
Ou mesmo de um carnaval
Que muitas tristezas senti
Mas quando voltamos pra casa
Podia estar perto de ti
Queria muito me desculpar
Por aquele nosso passado
Mas é de se compreender
Pelo caminho que começou errado
E a vida que desejávamos
Lhe digo com muito amor
Que está mais perto do que pensas
Se reconhecer nosso valor
Pois a tua falta pra mim
Faz com que viver pareça
Semanas durarem anos
E faz, com isso, que eu cresça
Faz com que eu me arrependa
Da liberdade que não lhe dei
Mas foi tão inconsciente
Que fui eu quem me aprisionei
Tanto que não lhe devo desculpas
Pois me sinto em igual situação
Mas devo com muita esperança
Propor-lhe uma solução
De que nossas pegadas na areia
Pelos caminhos que passamos
Não sejam jamais esquecidas
Pra não esquecermos que erramos
Mas que sejam deixadas expostas
Nossas pegadas na vida
Para que o vento possa fechá-las
Fechando nossas feridas
E, nesse dia, finalmente
No meu ombro se deitarás
Como era antigamente
E não deixará de ser mais...
354
Mario Ribeiro Martins
O Triste
Ei-la, tristonha, como nunca esteve:
Face pálida, cabisbaixa, rosto decaído.
Fui eu? Perguntou meu coração e não conteve...
Sim. Fui eu... ingrato, injusto, distraído.
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
e eu pobre, com o coração dorido.
Sofri o amor...sofri a dor...ah! ela susteve
meu amor, meu ser, meu triste dolorido!
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
mas perto de mim, ela manteve
aquele amor que vem da alma apetecida.
Ei-la agora alegre como nunca esteve,
ei-la disposta a se manter como manteve
perto de mim, O TRISTE MAIS FELIZ DA VIDA.
Face pálida, cabisbaixa, rosto decaído.
Fui eu? Perguntou meu coração e não conteve...
Sim. Fui eu... ingrato, injusto, distraído.
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
e eu pobre, com o coração dorido.
Sofri o amor...sofri a dor...ah! ela susteve
meu amor, meu ser, meu triste dolorido!
Ei-la, tristonha, como nunca esteve,
mas perto de mim, ela manteve
aquele amor que vem da alma apetecida.
Ei-la agora alegre como nunca esteve,
ei-la disposta a se manter como manteve
perto de mim, O TRISTE MAIS FELIZ DA VIDA.
871
Mario Ribeiro Martins
Qual dos Dois?
Abandonou-me a vida displicente,
fria, calada, sem medo e sem dó...
Aquela cuja vida tão somente,
era meu coração, o meu Jacó.
Agora, eu subo os montes tristemente,
olho o rico passado, como Jó...
Ouço as desilusões na minha frente,
que gritam com desprezo: SIGA SÓ.
Como seguir assim sem coração?
pois eu o dei com tanta devoção,
com tanta devoção que não pensei.
Ó montanhas, ó gritos, ó passado,
respondei-me: FUI EU ABANDONADO?
OU TIVE O PARAÍSO E REJEITEI?
fria, calada, sem medo e sem dó...
Aquela cuja vida tão somente,
era meu coração, o meu Jacó.
Agora, eu subo os montes tristemente,
olho o rico passado, como Jó...
Ouço as desilusões na minha frente,
que gritam com desprezo: SIGA SÓ.
Como seguir assim sem coração?
pois eu o dei com tanta devoção,
com tanta devoção que não pensei.
Ó montanhas, ó gritos, ó passado,
respondei-me: FUI EU ABANDONADO?
OU TIVE O PARAÍSO E REJEITEI?
964
Micheliny Verunschk
Amiga
Amiga,
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.
930
Mário Hélio
30-X-(Dos que vivem na sombra)
ontem suspeitei o cego em mim
andei errante por ruas e não encontrei luas
e me castiguei com medo de mim
ontem descobri o monstro hurrando em mim
quisera que meu corpo fosse vosso corpo
o sombrio vagalume por pousadas de mim.
ontem suspeitei o descoberto em mim
e pensei em andar pra sempre nutando
pra ver o rosto vasto que se esmaga em mim
vencido contrafeito morto
me agarrei ao quindavia de intato em mim
há muito eu constatei a insegurânsia em mim
o anjo rebelde que havia em mim
o estranho prisioneiro nas masmorras em mim
escrevi versos duros de dura ansiedade
mas não constatei verdade alguma
escrevi versos pálidos num suspiro
mas não encontrei nenhuma só lição
à tona tropeçando nos meus passos
penso que é angústia o sentimento vácuo
mas não sei ao certo se existe angústia.
quisera que meu bálsamo fosse o vosso beijo
tendes lábios enormes e eu não os vejo
mas no alto do rosto se incendeia
a mesma luz sombria que me guia.
as forças me forçam a fins que desconheço
mas suspeito que está no universo falido
ontem descobri o pouco que conheço
e me vi trancado pelo avesso
não sei se foi remorso o que passou por mim
ou foi vontade de fugir de mim.
ontem descobri o desespero em mim
verti meu sangue no vasto mundo
amorte doido feito busquei
rasguei papéis desfiz contratos
que com meu ego o tempo fez,
sonhei loucuras calei-me há tempo
meu sofrimento é tão imenso e tão presente
que nem notei
é lodo e mundo ida sem volta
amorte é sangue maldiçoado
corpo do livro pastirrasgado
amorte é medo nunca explicado
há sempre uma possibilidade de não me esconder,
e vocês sorririam se eu dissesse que a tristeza
é supérflua enquanto importa esta análise?
deixa nua a verdade do medo todos temos medo
talvez seja pela cereja que tenho no corpo
e ninguém a colheu.
nunca mais amorte amarei
nunca direi sim direi sempre talvez.
ontem suspeitei o inacabado em mim
orgasma prometida à minha estrela
à custa da revolta que houve sempre em mim
os conhecidos seres conformados como eu
inconformado que apesar da fraqueza
nunca olhei pro fim
às vezes penso que somos frutos das ondas dos instantes
que arrebatadas nos levam distante
mas é bastante pra da tal verdade ficar mais distante
ontem constatei o espectro em mim
com sua mão de fogo exorcizando a dor
mas sei e muito sei que não existem santos
apesar do ódio que sou eu amo tanto.
ontem cobri redescobri grotescos arabescos
ridículo estranho e iníquo eu era para mim.
há sempre uma possibilidade (mesmo que longínqua)
de esquecer a culpa e escapar de mim.
andei errante por ruas e não encontrei luas
e me castiguei com medo de mim
ontem descobri o monstro hurrando em mim
quisera que meu corpo fosse vosso corpo
o sombrio vagalume por pousadas de mim.
ontem suspeitei o descoberto em mim
e pensei em andar pra sempre nutando
pra ver o rosto vasto que se esmaga em mim
vencido contrafeito morto
me agarrei ao quindavia de intato em mim
há muito eu constatei a insegurânsia em mim
o anjo rebelde que havia em mim
o estranho prisioneiro nas masmorras em mim
escrevi versos duros de dura ansiedade
mas não constatei verdade alguma
escrevi versos pálidos num suspiro
mas não encontrei nenhuma só lição
à tona tropeçando nos meus passos
penso que é angústia o sentimento vácuo
mas não sei ao certo se existe angústia.
quisera que meu bálsamo fosse o vosso beijo
tendes lábios enormes e eu não os vejo
mas no alto do rosto se incendeia
a mesma luz sombria que me guia.
as forças me forçam a fins que desconheço
mas suspeito que está no universo falido
ontem descobri o pouco que conheço
e me vi trancado pelo avesso
não sei se foi remorso o que passou por mim
ou foi vontade de fugir de mim.
ontem descobri o desespero em mim
verti meu sangue no vasto mundo
amorte doido feito busquei
rasguei papéis desfiz contratos
que com meu ego o tempo fez,
sonhei loucuras calei-me há tempo
meu sofrimento é tão imenso e tão presente
que nem notei
é lodo e mundo ida sem volta
amorte é sangue maldiçoado
corpo do livro pastirrasgado
amorte é medo nunca explicado
há sempre uma possibilidade de não me esconder,
e vocês sorririam se eu dissesse que a tristeza
é supérflua enquanto importa esta análise?
deixa nua a verdade do medo todos temos medo
talvez seja pela cereja que tenho no corpo
e ninguém a colheu.
nunca mais amorte amarei
nunca direi sim direi sempre talvez.
ontem suspeitei o inacabado em mim
orgasma prometida à minha estrela
à custa da revolta que houve sempre em mim
os conhecidos seres conformados como eu
inconformado que apesar da fraqueza
nunca olhei pro fim
às vezes penso que somos frutos das ondas dos instantes
que arrebatadas nos levam distante
mas é bastante pra da tal verdade ficar mais distante
ontem constatei o espectro em mim
com sua mão de fogo exorcizando a dor
mas sei e muito sei que não existem santos
apesar do ódio que sou eu amo tanto.
ontem cobri redescobri grotescos arabescos
ridículo estranho e iníquo eu era para mim.
há sempre uma possibilidade (mesmo que longínqua)
de esquecer a culpa e escapar de mim.
869
Luiz Guimarães
História d’um cão
História d’um cão
Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
Para dizer numa palavra tudo
Foi o mais feio cão que houve no mundo
Recebi-o das mãos dum camarada.
Na hora da partida, o cão gemendo
Não me queria acompanhar por nada:
Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.
O meu amigo cabisbaixo, mudo,
Olhava-o ... o sol nas ondas se abismava....
«Adeus!» - me disse,- e ao afagar Veludo
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
«Trata-o bem. Verás como rasteiro
Te indicarás os mais sutís perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos.»
Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitado
A sua cauda - caminhava errante
A luz da lua - tristemente uivando
Toussenel: Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.
Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! era um artigo
Contendo a narração miuda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes:
Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais - todas francesas.
Assombrava-me muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso d’uma passageira...
Mil coisas mais de que me não recordo.
Finalmente, por baixo disso tudo
Em nota breve do melhor cursivo
Recomendava o pobre do Veludo
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.
Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento
Me contemplava, e - creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se a meus pés silencioso
Movendo a cauda, - e adormeceu contente
Farto d’um puro e satisfeito gozo.
Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre d’aquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher d’um velho carvoeiro.
E respirei! «Graças a Deus! Já posso»
Dizia eu «viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo».
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca sismadora.
Mal respirei, porém! Quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo
Sentí que à minha porta alguem batia:
Fui ver quem era. Abrí. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E - de cansado - foi rolar dormindo
Como uma pedra, junto do meu leito.
Preguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo
Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos...
De instante em instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.
Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo - e com furor remamos
Veludo à proa olhava-me choroso
Como o cordeiro no final momento,
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremessei-o às ondas de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente.
Voltei à terra - entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas morimbundo.
Mas ao despir dos ombros meus o manto
Notei - oh grande dor! - haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
Certo caira lém no mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah, se Veludo
Duas vidas tivera - duas vidas
Eu arrancara àquela besta morta
E àquelas vís entranhas corrompidas.
Nisto sentí uivar à minha porta.
Corrí, - abrí... Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se a meus pés, - e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente.
Fôra crível, oh Deus? - Ajoelhado
Junto do cão - estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.
Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
Para dizer numa palavra tudo
Foi o mais feio cão que houve no mundo
Recebi-o das mãos dum camarada.
Na hora da partida, o cão gemendo
Não me queria acompanhar por nada:
Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.
O meu amigo cabisbaixo, mudo,
Olhava-o ... o sol nas ondas se abismava....
«Adeus!» - me disse,- e ao afagar Veludo
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
«Trata-o bem. Verás como rasteiro
Te indicarás os mais sutís perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos.»
Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitado
A sua cauda - caminhava errante
A luz da lua - tristemente uivando
Toussenel: Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.
Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! era um artigo
Contendo a narração miuda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes:
Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais - todas francesas.
Assombrava-me muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso d’uma passageira...
Mil coisas mais de que me não recordo.
Finalmente, por baixo disso tudo
Em nota breve do melhor cursivo
Recomendava o pobre do Veludo
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.
Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento
Me contemplava, e - creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se a meus pés silencioso
Movendo a cauda, - e adormeceu contente
Farto d’um puro e satisfeito gozo.
Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre d’aquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher d’um velho carvoeiro.
E respirei! «Graças a Deus! Já posso»
Dizia eu «viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo».
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca sismadora.
Mal respirei, porém! Quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo
Sentí que à minha porta alguem batia:
Fui ver quem era. Abrí. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E - de cansado - foi rolar dormindo
Como uma pedra, junto do meu leito.
Preguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo
Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos...
De instante em instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.
Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo - e com furor remamos
Veludo à proa olhava-me choroso
Como o cordeiro no final momento,
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremessei-o às ondas de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente.
Voltei à terra - entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas morimbundo.
Mas ao despir dos ombros meus o manto
Notei - oh grande dor! - haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
Certo caira lém no mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah, se Veludo
Duas vidas tivera - duas vidas
Eu arrancara àquela besta morta
E àquelas vís entranhas corrompidas.
Nisto sentí uivar à minha porta.
Corrí, - abrí... Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se a meus pés, - e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente.
Fôra crível, oh Deus? - Ajoelhado
Junto do cão - estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.
1 345
Geraldo Lyra
Perdão para Meu Pai!
Meu pai pagou bem caro uma aventura
com jovem que não tinha virgindade,
pois, quando a "conheceu", toda a cidade
sabia que não era mulher pura ...
O genitor da tal, por crueldade,
contratou pistoleiros de alma dura:
— pegado de surpresa, um que o segura
e outro que o esfaqueia sem piedade ...
Pelo resto da vida deformado,
sofreu motejos e os filhos, também,
mesmo sem terem culpa do pecado...
Mas, quem de uma moiçola enjeita as graças?
— E eu, agora, respondo que — ninguém,
apesar das piores das desgraças!!!
com jovem que não tinha virgindade,
pois, quando a "conheceu", toda a cidade
sabia que não era mulher pura ...
O genitor da tal, por crueldade,
contratou pistoleiros de alma dura:
— pegado de surpresa, um que o segura
e outro que o esfaqueia sem piedade ...
Pelo resto da vida deformado,
sofreu motejos e os filhos, também,
mesmo sem terem culpa do pecado...
Mas, quem de uma moiçola enjeita as graças?
— E eu, agora, respondo que — ninguém,
apesar das piores das desgraças!!!
336
Luiz Nogueira Barros
Luta
Luta mais feroz não há que a dos erros
saindo das cavernas mais recônditas
de portas derrubadas aos últimos instantes:
quando a morte é certa e a vida uma tolice !...
saindo das cavernas mais recônditas
de portas derrubadas aos últimos instantes:
quando a morte é certa e a vida uma tolice !...
950
Maria Thereza Noronha
Pássaro
Assombrava-me o dia um pensamento.
Acuada, corri ao mais cômodo arbusto
e, à sua escassa sombra,
abriguei-me do dia.
Entanto, o negro pássaro do remorso
- insistente sombra noturna -
dissimulado em algum sutil remanso
aguardava o momento mais propício
para estender as asas friorentas
sobre meu sono de púrpura.
Acuada, corri ao mais cômodo arbusto
e, à sua escassa sombra,
abriguei-me do dia.
Entanto, o negro pássaro do remorso
- insistente sombra noturna -
dissimulado em algum sutil remanso
aguardava o momento mais propício
para estender as asas friorentas
sobre meu sono de púrpura.
893
João Linneu
Em seu leito, finda a velha
Em seu leito, finda a velha.Ao seu lado, fito a cena.Num átimo, sou seus sentidos.Por olhos turvoslímpidas visões;nos flácidos braços,íntimos abraçosNo silencio dos ouvidossussurros de paixão;br>no mutismo dos lábios,murmurando, disse não.Sofre pelo não feito...o beijo negado e tanto querido;o bilhete escrito e logo rasgado;o abraço sonhado e nunca dado;a palavra não dita, e que a sós gritava;amores ocultos, noites insones;um pouco mais e seria feliz...
746