Temas
Poemas neste tema

Arte

Cláudio Alex

Cláudio Alex

Por João Quental

Uma das maiores dificuldades da moderna poesia brasileira é falar sobre o amor. Isso se deve, em parte, a uma saturação provocada pela poesia romântica do século XIX. Seus excessos acabaram por abrir dois caminhos bastante distintos em nossa literatura, criando assim muitas vezes violentos antagonismos. Se por um lado a poesia “séria” (e o adjetivo aqui traz implicações, de ordem estética, extremamente perigosos) abandonou quase de vez o tema da paixão, considerando-o exaurido e indigno da modernidade, por outro uma tradição mais “popular” perpetuou o gosto da expressão amorosa. Em ambos os casos, percebemos a dificuldade que o tema apresenta, e pode-se até dizer que nosso século vive uma angústia especial no que se refere ao amor na literatura.
“Noturno Azul” é um livro que escapa dessa dualidade. Se alguma vez foi formulada a pergunta sobre se é possível escrever sobre o sentimento amoroso, sem com isso cair-se na pieguice, não se pode deixar de perceber que Cláudio Fagundes apresenta uma das possíveis soluções para o problema. Com poemas escritos de maneira extremamente precisa, expondo diversas vezes ao olhar do leitor aquelas facetas de nossos sentimentos que julgávamos adormecidas por um cotidiano muitas vezes doloroso e repetitivo, seu livro pratica uma espécie de “desnudamento”. Símbolos já muitas vezes usados, com uma superficial aparência de gastos, aparecem aqui com um brilho misterioso, como que despertados de um sono profundo que fora provocado pela falência parcial do projeto romântico. A lua, os beijos trocados pelos amantes, o telefonema não respondido, a noite estrelada e nem sempre suave, tudo isso ressurge com uma força que apenas as palavras de um extraordinário poeta podem criar.
A leitura de “Noturno Azul” é também um mergulho no erotismo. Mas os corpos que aqui aparecem, muitas vezes dilacerados e perdidos em um espaço em que delicadeza e fúria se misturam intensamente, não são apenas o espetáculo de uma visão provocante. Na verdade, toda a sensualidade do texto está no fato de que a angústia está presente, e não se tem, em momento algum, a certeza de uma explosão final. As inversões são poderosas, e ao fim percebemos que na prática poético-amorosa é preciso ter paciência, tratar com suavidade as palavras, pois apenas elas podem dar algum tipo de resposta a nossos desejos.
O livro de Cláudio pode, muitas vezes, enganar em sua simplicidade. Nos diversos níveis em que é escrito, um leitor desatento pode perder-se na impressão de que sua fala é a mesma de sempre, vazia de significado porque repetitiva. Tal armadilha pode e deve ser evitada, dando-se especial atenção ao fato de que não estamos diante de um apaixonado que, circunstancialmente, tornou-se poeta. Na verdade, o que temos aqui é um poeta que, em seus versos, não pode impedir que o amor se misture às suas palavras. Essa sutil diferença, porém, é o que nos faz ler com especial fascínio poemas como “o beijo” e “sedução”.
Finalmente, a curiosidade dos poemas escritos em parceria nos faz perceber que o poeta não é, ao contrário do que parece, um indivíduo autônomo e mergulhado em suas próprias miragens. Se esse foi, talvez, o grande erro dos românticos do passado, afastando-se do mundo para viver sua própria “viagem”, longe de todos os padrões que não os amorosos e poéticos, tal equívoco não se reproduz nos poemas que aqui se desdobram. A preocupação maior é com a existência de vínculos comuns, linguagens que podem ser compartilhadas e desmontadas, a critério dos parceiros do jogo poético. Por isso, um leitor atento poderá perceber que, atrás de todos os versos, reside também um inusitado senso-de-humor, como se o poeta soubesse que mudanças ocorrem o tempo inteiro, e que o que se deve levar a sério não são, realmente, as palavras que se constróem no fazer poético. Mas apenas a verdade dos sentimentos e percepções que elas traduzem.

João Quental

1 059
Aleilton Fonseca

Aleilton Fonseca

Um Poema de Jorge de Lima

Jorge de Lima (1893-1953) escreveu um poema intitulado "O grande desastre aéreo de ontem", dedicado ao pintor Cândido Portinari (Cf: LIMA, Jorge de. Poesia completa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980, 2 v, v 1, p. 237) que ficou praticamente esquecido pelos estudiosos. Isto talvez se deva ao fato deste poema estar, de certa forma, fora das características gerais da poesia do poeta alagoano. Trata-se de um poema em prosa, condensado em apenas um parágrafo, no qual podemos perceber duas partes justapostas. Eis a primeira:
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
1 897
Jean de La Fontaine

Jean de La Fontaine

Invocação à volúpia

Sem ti, doce Volúpia, o viver e o morrer
Teriam, desde o berço, idêntico valor:
De toda a criação, universal pendor,
Com que força fatal, tu consegues prender!
Tudo, por ti,
aqui se passa.
Por tua causa e
tua graça,
A duras penas
todos vão:
Não há soldado,
capitão,
Nem fidalgo, plebeu, nem Ministro de Estado,
Que em ti não
tenha o olhar pregado
Das Musas na afeição, se, de serões nascido,
Um agradável som não nos encanta o ouvido,
E se ele não nos traz amena sensação,
Tentamos nós uma
canção?
O que, pomposamente, é chamado de glória
E, nos jogos dOlimpo, exalçava a vitória,
Precisamente, és tu, Volúpia divinal.
E seu preço não tem o prazer sensual?
E então por que
os dons de Flora,
O pôr-do-sol, a
linda Aurora,
Pomona e seus
finos manjares,
Baco, razão dos
bons jantares,
Florestas,
fontes, pradarias,
Mães de
fagueiras fantasias?
Belas artes, por quê? de quem és a nascente,
Por que tanta beldade, amável, atraente,
Se não pra vires, até nós, sempre morar?
Eis o meu parecer, por mais procure alguém
O seu desejo
castigar,
Algum prazer inda
lhe vem.

Ó Volúpia gentil, que, na Grécia de outrora,
De um pensador
foste senhora,
Não me desprezes não: vem à minha morada,
Não ficarás sem
fazer nada:
Amo os livros, o amor, música e diversão,
Cidade, campo, enfim; o mundo nada tem
Que não me seja
enorme bem,
Mesmo o aflito prazer de um triste coração.
Vem, pois, e desse bem, ó Volúpia querida,
Queres então saber a medida acertada?
Pelo menos preciso uns cem anos de vida,
Pois trinta só
é quase nada...

 
1 645
Levi Bucalem Ferrari

Levi Bucalem Ferrari

Un séjour à Guarujá

(Madrigale a la moda dei maestri MariOswalDrumão, produção de Joãozinho Trinta, figurinos de Clodovil e direção variando entre Frederico Fellini e Zé do Caixão. Agradecemos ao indispensável apoio de nossos patrocinadores sem os quais este espetáculo seria impossível etc.)

Lua cheia... Minissaias, sorvetes, frivolidades.
Maduros casais idicham cotidianos milionários.
Ou galicizam lugares comuns: Mais non!
Um menino do Rio cinematografa-se.
Morte em Veneza, verão com vento.
Certas garotinhas... Âge du diable...
Une vague sensation dinceste.
De uma a língua circunda o sorvete
E outra o chupa, sorvendo-lhe o suco.
Alguém assobia bossas-novas...
"e quem sonhou, sonhou..."

Entre impertinentes cartazes de vende-se e aluga-se
O balneário se liquida
Num muro, toscas garatujas desafiam o frenesi imobiliário:
Volte minha nega, abaixo a psicanálise.

As ondas se fazem gigantescas lânguidas línguas
A lamber o traseiro da surfista sobre a prancha
Há espuma nas franjas
O mar saliva e ejacula.

Areias abundam bandos de madamas maquiadas.
O jogo da noite foi longe demais. Nunca mais.
Negócios em alta agitam conversas senhoriais
Saltos altos... modorras... uis e ais.

Alhures middle classes weekendizam
Vôlei, tênis, frescobol... guarda-sóis coloridos.
O executivo esteira-se. Ê vida boa!
Não volto mais prá São Paulo.
Crinaças areiam coxas de óleobronze...
Não enche o saco moleque!
Uma gorda de biquini...exigências do fellini
Ah, sim,
Entre tantas abandonadas bundas
Uma por ti suspira
Talvez aquela que retesou-te os glúteos

Mais ao fundo, negros caipiram
Cachaça ou vodka?
E espetinhos de camarão
Televivem-se anúncios de cigarro e coca-cola.
Figuração.
Às vezes penso que o Debret retratou o Brasil pro resto da vida.

881