Poemas neste tema
Arte
Aleilton Fonseca
nota sobre
teoria particular (mas nem tanto) do poema
a disposição dos versos em estrofes numeradas indica uma seqüência de leitura entre
outras, por exemplo:
a disposição dos versos em estrofes numeradas indica uma seqüência de leitura entre
outras, por exemplo:
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Cláudio Alex
Por João Quental
Uma das maiores dificuldades da moderna poesia brasileira é falar sobre o amor. Isso se deve, em parte, a uma saturação provocada pela poesia romântica do século XIX. Seus excessos acabaram por abrir dois caminhos bastante distintos em nossa literatura, criando assim muitas vezes violentos antagonismos. Se por um lado a poesia “séria” (e o adjetivo aqui traz implicações, de ordem estética, extremamente perigosos) abandonou quase de vez o tema da paixão, considerando-o exaurido e indigno da modernidade, por outro uma tradição mais “popular” perpetuou o gosto da expressão amorosa. Em ambos os casos, percebemos a dificuldade que o tema apresenta, e pode-se até dizer que nosso século vive uma angústia especial no que se refere ao amor na literatura.
“Noturno Azul” é um livro que escapa dessa dualidade. Se alguma vez foi formulada a pergunta sobre se é possível escrever sobre o sentimento amoroso, sem com isso cair-se na pieguice, não se pode deixar de perceber que Cláudio Fagundes apresenta uma das possíveis soluções para o problema. Com poemas escritos de maneira extremamente precisa, expondo diversas vezes ao olhar do leitor aquelas facetas de nossos sentimentos que julgávamos adormecidas por um cotidiano muitas vezes doloroso e repetitivo, seu livro pratica uma espécie de “desnudamento”. Símbolos já muitas vezes usados, com uma superficial aparência de gastos, aparecem aqui com um brilho misterioso, como que despertados de um sono profundo que fora provocado pela falência parcial do projeto romântico. A lua, os beijos trocados pelos amantes, o telefonema não respondido, a noite estrelada e nem sempre suave, tudo isso ressurge com uma força que apenas as palavras de um extraordinário poeta podem criar.
A leitura de “Noturno Azul” é também um mergulho no erotismo. Mas os corpos que aqui aparecem, muitas vezes dilacerados e perdidos em um espaço em que delicadeza e fúria se misturam intensamente, não são apenas o espetáculo de uma visão provocante. Na verdade, toda a sensualidade do texto está no fato de que a angústia está presente, e não se tem, em momento algum, a certeza de uma explosão final. As inversões são poderosas, e ao fim percebemos que na prática poético-amorosa é preciso ter paciência, tratar com suavidade as palavras, pois apenas elas podem dar algum tipo de resposta a nossos desejos.
O livro de Cláudio pode, muitas vezes, enganar em sua simplicidade. Nos diversos níveis em que é escrito, um leitor desatento pode perder-se na impressão de que sua fala é a mesma de sempre, vazia de significado porque repetitiva. Tal armadilha pode e deve ser evitada, dando-se especial atenção ao fato de que não estamos diante de um apaixonado que, circunstancialmente, tornou-se poeta. Na verdade, o que temos aqui é um poeta que, em seus versos, não pode impedir que o amor se misture às suas palavras. Essa sutil diferença, porém, é o que nos faz ler com especial fascínio poemas como “o beijo” e “sedução”.
Finalmente, a curiosidade dos poemas escritos em parceria nos faz perceber que o poeta não é, ao contrário do que parece, um indivíduo autônomo e mergulhado em suas próprias miragens. Se esse foi, talvez, o grande erro dos românticos do passado, afastando-se do mundo para viver sua própria “viagem”, longe de todos os padrões que não os amorosos e poéticos, tal equívoco não se reproduz nos poemas que aqui se desdobram. A preocupação maior é com a existência de vínculos comuns, linguagens que podem ser compartilhadas e desmontadas, a critério dos parceiros do jogo poético. Por isso, um leitor atento poderá perceber que, atrás de todos os versos, reside também um inusitado senso-de-humor, como se o poeta soubesse que mudanças ocorrem o tempo inteiro, e que o que se deve levar a sério não são, realmente, as palavras que se constróem no fazer poético. Mas apenas a verdade dos sentimentos e percepções que elas traduzem.
João Quental
“Noturno Azul” é um livro que escapa dessa dualidade. Se alguma vez foi formulada a pergunta sobre se é possível escrever sobre o sentimento amoroso, sem com isso cair-se na pieguice, não se pode deixar de perceber que Cláudio Fagundes apresenta uma das possíveis soluções para o problema. Com poemas escritos de maneira extremamente precisa, expondo diversas vezes ao olhar do leitor aquelas facetas de nossos sentimentos que julgávamos adormecidas por um cotidiano muitas vezes doloroso e repetitivo, seu livro pratica uma espécie de “desnudamento”. Símbolos já muitas vezes usados, com uma superficial aparência de gastos, aparecem aqui com um brilho misterioso, como que despertados de um sono profundo que fora provocado pela falência parcial do projeto romântico. A lua, os beijos trocados pelos amantes, o telefonema não respondido, a noite estrelada e nem sempre suave, tudo isso ressurge com uma força que apenas as palavras de um extraordinário poeta podem criar.
A leitura de “Noturno Azul” é também um mergulho no erotismo. Mas os corpos que aqui aparecem, muitas vezes dilacerados e perdidos em um espaço em que delicadeza e fúria se misturam intensamente, não são apenas o espetáculo de uma visão provocante. Na verdade, toda a sensualidade do texto está no fato de que a angústia está presente, e não se tem, em momento algum, a certeza de uma explosão final. As inversões são poderosas, e ao fim percebemos que na prática poético-amorosa é preciso ter paciência, tratar com suavidade as palavras, pois apenas elas podem dar algum tipo de resposta a nossos desejos.
O livro de Cláudio pode, muitas vezes, enganar em sua simplicidade. Nos diversos níveis em que é escrito, um leitor desatento pode perder-se na impressão de que sua fala é a mesma de sempre, vazia de significado porque repetitiva. Tal armadilha pode e deve ser evitada, dando-se especial atenção ao fato de que não estamos diante de um apaixonado que, circunstancialmente, tornou-se poeta. Na verdade, o que temos aqui é um poeta que, em seus versos, não pode impedir que o amor se misture às suas palavras. Essa sutil diferença, porém, é o que nos faz ler com especial fascínio poemas como “o beijo” e “sedução”.
Finalmente, a curiosidade dos poemas escritos em parceria nos faz perceber que o poeta não é, ao contrário do que parece, um indivíduo autônomo e mergulhado em suas próprias miragens. Se esse foi, talvez, o grande erro dos românticos do passado, afastando-se do mundo para viver sua própria “viagem”, longe de todos os padrões que não os amorosos e poéticos, tal equívoco não se reproduz nos poemas que aqui se desdobram. A preocupação maior é com a existência de vínculos comuns, linguagens que podem ser compartilhadas e desmontadas, a critério dos parceiros do jogo poético. Por isso, um leitor atento poderá perceber que, atrás de todos os versos, reside também um inusitado senso-de-humor, como se o poeta soubesse que mudanças ocorrem o tempo inteiro, e que o que se deve levar a sério não são, realmente, as palavras que se constróem no fazer poético. Mas apenas a verdade dos sentimentos e percepções que elas traduzem.
João Quental
1 059
Aleilton Fonseca
Um Poema de Jorge de Lima
Jorge de Lima (1893-1953) escreveu um poema intitulado "O grande desastre aéreo de ontem", dedicado ao pintor Cândido Portinari (Cf: LIMA, Jorge de. Poesia completa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980, 2 v, v 1, p. 237) que ficou praticamente esquecido pelos estudiosos. Isto talvez se deva ao fato deste poema estar, de certa forma, fora das características gerais da poesia do poeta alagoano. Trata-se de um poema em prosa, condensado em apenas um parágrafo, no qual podemos perceber duas partes justapostas. Eis a primeira:
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
1 897
Albano Dias Martins
Trapézio
Volúvel foi o nome escolhido para a entronização da festa. Para seu ornamento, a máscara.
Uma orquestra de violinos, disposta em ogiva, convocada para a lânguida coreografia dos sentidos, ensaiava, em todos os timbres, a prometida melodia dos gestos e das palavras sem fronteiras.
Quem olhasse atentamente em redor, na sala deserta, acharia por fim descomposta a mesa, esgarçada a toalha de linho do banquete, rotas as cordas dos violinos.
Só o trapezista, lá no alto, aguardava ainda o sinal anunciado para o início do seu número, inscrito no programa. O trapézio fora, porém, retirado a ocultas, e, sem rede, apenas lhe restava o salto no vazio. O salto mortal.
Uma orquestra de violinos, disposta em ogiva, convocada para a lânguida coreografia dos sentidos, ensaiava, em todos os timbres, a prometida melodia dos gestos e das palavras sem fronteiras.
Quem olhasse atentamente em redor, na sala deserta, acharia por fim descomposta a mesa, esgarçada a toalha de linho do banquete, rotas as cordas dos violinos.
Só o trapezista, lá no alto, aguardava ainda o sinal anunciado para o início do seu número, inscrito no programa. O trapézio fora, porém, retirado a ocultas, e, sem rede, apenas lhe restava o salto no vazio. O salto mortal.
966
André Ricardo Aguiar
Revisão
uma mão sempre escreve
o ofício das letras:
a Eternidade
urge reformas
o ofício das letras:
a Eternidade
urge reformas
880
Paladas
QUATRO POEMAS
QUATRO POEMAS
Digamos pois que a vida é um teatro,
em que cumpre ao actor fingir com arte:
levando-a a rir, como se fora farsa,
ou digno sendo na tragédia parte.
Digamos pois que a vida é um teatro,
em que cumpre ao actor fingir com arte:
levando-a a rir, como se fora farsa,
ou digno sendo na tragédia parte.
903
Augusto de Campos
A igreja nova
A antiga capela não bastava.
Mal sobranceava os colmos achatados.
Começou a erigir-se a igreja nova.
Delineara-a o próprio Conselheiro,
sem módulos, sem proporções, sem regras.
Frisos grosseiros e volutas impossíveis
cabriolando
num delírio de curvas incorretas.
Era sua obra-prima.
Ali passava os dias,
sobre os andaimes altos e bailéus bamboantes.
O povo enxameando embaixo
estremecia muita vez ao vê-lo
passar, lentamente,
sobre as tábuas flexuosas e oscilantes,
impassível,
sem um tremor no rosto bronzeado e rígido,
feito uma cariátide errante
sobre o edifício monstruoso.
Mal sobranceava os colmos achatados.
Começou a erigir-se a igreja nova.
Delineara-a o próprio Conselheiro,
sem módulos, sem proporções, sem regras.
Frisos grosseiros e volutas impossíveis
cabriolando
num delírio de curvas incorretas.
Era sua obra-prima.
Ali passava os dias,
sobre os andaimes altos e bailéus bamboantes.
O povo enxameando embaixo
estremecia muita vez ao vê-lo
passar, lentamente,
sobre as tábuas flexuosas e oscilantes,
impassível,
sem um tremor no rosto bronzeado e rígido,
feito uma cariátide errante
sobre o edifício monstruoso.
1 682
Gabriela Mistral
O PENSADOR DE RODIN
Apoiando na mão rugosa o queixo fino,
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.
E tremeu de amor; toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O havemos de morrer passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.
E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte
Que o reclama nos bronzes. Não há árvores torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.
E tremeu de amor; toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O havemos de morrer passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.
E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte
Que o reclama nos bronzes. Não há árvores torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.
2 334
Konstantínos Kaváfis
NUM LIVRO VELHO
NUM LIVRO VELHO
Num livro velho - mais ou menos de há cem anos -
por entre as suas folhas esquecida,
encontrei uma aguarela sem assinatura.
Devia ser a obra de artista assaz forte.
Levava por título, «Apresentação do Amor».
Mas antes lhe convinha, «- do amor dos ultra estetas».
Pois era evidente quando se via a obra
(com facilidade se sentia a ideia do artista)
que para quantos amam um tanto higienicamente,
mantendo-se dentro do permitido de todas as maneiras,
não era destinado o adolescente
da pintura - com olhos castanhos de cor profunda;
com a beleza selecta do seu rosto,
a beleza das atracções perversas;
com os seus lábios ideais que levam
o prazer a um corpo amado;
com os seus membros ideais moldados para leitos
a que chama depravados a moral corrente.
Num livro velho - mais ou menos de há cem anos -
por entre as suas folhas esquecida,
encontrei uma aguarela sem assinatura.
Devia ser a obra de artista assaz forte.
Levava por título, «Apresentação do Amor».
Mas antes lhe convinha, «- do amor dos ultra estetas».
Pois era evidente quando se via a obra
(com facilidade se sentia a ideia do artista)
que para quantos amam um tanto higienicamente,
mantendo-se dentro do permitido de todas as maneiras,
não era destinado o adolescente
da pintura - com olhos castanhos de cor profunda;
com a beleza selecta do seu rosto,
a beleza das atracções perversas;
com os seus lábios ideais que levam
o prazer a um corpo amado;
com os seus membros ideais moldados para leitos
a que chama depravados a moral corrente.
1 436
Jean de La Fontaine
Invocação à volúpia
Sem ti, doce Volúpia, o viver e o morrer
Teriam, desde o berço, idêntico valor:
De toda a criação, universal pendor,
Com que força fatal, tu consegues prender!
Tudo, por ti,
aqui se passa.
Por tua causa e
tua graça,
A duras penas
todos vão:
Não há soldado,
capitão,
Nem fidalgo, plebeu, nem Ministro de Estado,
Que em ti não
tenha o olhar pregado
Das Musas na afeição, se, de serões nascido,
Um agradável som não nos encanta o ouvido,
E se ele não nos traz amena sensação,
Tentamos nós uma
canção?
O que, pomposamente, é chamado de glória
E, nos jogos dOlimpo, exalçava a vitória,
Precisamente, és tu, Volúpia divinal.
E seu preço não tem o prazer sensual?
E então por que
os dons de Flora,
O pôr-do-sol, a
linda Aurora,
Pomona e seus
finos manjares,
Baco, razão dos
bons jantares,
Florestas,
fontes, pradarias,
Mães de
fagueiras fantasias?
Belas artes, por quê? de quem és a nascente,
Por que tanta beldade, amável, atraente,
Se não pra vires, até nós, sempre morar?
Eis o meu parecer, por mais procure alguém
O seu desejo
castigar,
Algum prazer inda
lhe vem.
Ó Volúpia gentil, que, na Grécia de outrora,
De um pensador
foste senhora,
Não me desprezes não: vem à minha morada,
Não ficarás sem
fazer nada:
Amo os livros, o amor, música e diversão,
Cidade, campo, enfim; o mundo nada tem
Que não me seja
enorme bem,
Mesmo o aflito prazer de um triste coração.
Vem, pois, e desse bem, ó Volúpia querida,
Queres então saber a medida acertada?
Pelo menos preciso uns cem anos de vida,
Pois trinta só
é quase nada...
Teriam, desde o berço, idêntico valor:
De toda a criação, universal pendor,
Com que força fatal, tu consegues prender!
Tudo, por ti,
aqui se passa.
Por tua causa e
tua graça,
A duras penas
todos vão:
Não há soldado,
capitão,
Nem fidalgo, plebeu, nem Ministro de Estado,
Que em ti não
tenha o olhar pregado
Das Musas na afeição, se, de serões nascido,
Um agradável som não nos encanta o ouvido,
E se ele não nos traz amena sensação,
Tentamos nós uma
canção?
O que, pomposamente, é chamado de glória
E, nos jogos dOlimpo, exalçava a vitória,
Precisamente, és tu, Volúpia divinal.
E seu preço não tem o prazer sensual?
E então por que
os dons de Flora,
O pôr-do-sol, a
linda Aurora,
Pomona e seus
finos manjares,
Baco, razão dos
bons jantares,
Florestas,
fontes, pradarias,
Mães de
fagueiras fantasias?
Belas artes, por quê? de quem és a nascente,
Por que tanta beldade, amável, atraente,
Se não pra vires, até nós, sempre morar?
Eis o meu parecer, por mais procure alguém
O seu desejo
castigar,
Algum prazer inda
lhe vem.
Ó Volúpia gentil, que, na Grécia de outrora,
De um pensador
foste senhora,
Não me desprezes não: vem à minha morada,
Não ficarás sem
fazer nada:
Amo os livros, o amor, música e diversão,
Cidade, campo, enfim; o mundo nada tem
Que não me seja
enorme bem,
Mesmo o aflito prazer de um triste coração.
Vem, pois, e desse bem, ó Volúpia querida,
Queres então saber a medida acertada?
Pelo menos preciso uns cem anos de vida,
Pois trinta só
é quase nada...
1 645
Heinrich Heine
DOCH DIE KASTRATEN
Quando ensaiei minhas árias
Os castrados protestaram.
Que voz, que dicção, ordinárias
- Protestaram e clamaram.
E logo de cada qual
A vozinha delicada
Em trilos como cristal
Pura vibrou e afinada.
De desejos só cantavam,
E do amor e suas partes.
E as damas todas choravam
Comovidas com tais artes.
Os castrados protestaram.
Que voz, que dicção, ordinárias
- Protestaram e clamaram.
E logo de cada qual
A vozinha delicada
Em trilos como cristal
Pura vibrou e afinada.
De desejos só cantavam,
E do amor e suas partes.
E as damas todas choravam
Comovidas com tais artes.
1 982
Cruz e Sousa
A UMA ATRIZ
trechos do
poema O Botão de Rosa
Era um botão feliz,
Cuia roseira, impávida,
Ébria de aromas bons, ébria de orgulhos - ávida
De completa fragrância,
Palpitava com ânsia
Desde a própria raiz.
Tardes formosíssimas,
Ó grande livro aberto aos geniais artistas,
Como tanto alargais as crenças panteístas,
Como tanto esplendeis e como sois riquíssimas.
O cérebro em nevrose,
No pasmo que precede a augusta apoteose
De uma excelsa visão perfeitamente bela,
De uma excelsa visão em límpidos docéis,
Exaltava o acabado artístico da Tela
E o gosto dos pincéis.
A arte especialmente, esse prodígio, atriz,
Como o botão de rosa
Tão meigo e tão feliz,
Pode ser arrojada e brutalmente, ao pego,
Na treva silenciosa,
Onde o espírito vai, atordoado e cego,
Cair, entre soluços,
Como um colosso ideal tombado ao chão de bruços,
Ou pode equilibrar-se em admirável base
Estética e profunda,
Assim, bem como o outro, à mais radiosa altura.
Deves sondá-la bem nesta segunda fase.
Precisas para isso uma alma mais fecunda.
Precisas de sentir a artística loucura...
poema O Botão de Rosa
Era um botão feliz,
Cuia roseira, impávida,
Ébria de aromas bons, ébria de orgulhos - ávida
De completa fragrância,
Palpitava com ânsia
Desde a própria raiz.
Tardes formosíssimas,
Ó grande livro aberto aos geniais artistas,
Como tanto alargais as crenças panteístas,
Como tanto esplendeis e como sois riquíssimas.
O cérebro em nevrose,
No pasmo que precede a augusta apoteose
De uma excelsa visão perfeitamente bela,
De uma excelsa visão em límpidos docéis,
Exaltava o acabado artístico da Tela
E o gosto dos pincéis.
A arte especialmente, esse prodígio, atriz,
Como o botão de rosa
Tão meigo e tão feliz,
Pode ser arrojada e brutalmente, ao pego,
Na treva silenciosa,
Onde o espírito vai, atordoado e cego,
Cair, entre soluços,
Como um colosso ideal tombado ao chão de bruços,
Ou pode equilibrar-se em admirável base
Estética e profunda,
Assim, bem como o outro, à mais radiosa altura.
Deves sondá-la bem nesta segunda fase.
Precisas para isso uma alma mais fecunda.
Precisas de sentir a artística loucura...
820
Paulo P. P. Rodrigues da Costa
DNA
Açúcar, arte,
ácido nucleico, feito
sexo, elo.
Prazer reflexo, afeto, affair
em toda parte
o seu corpo belo.
Tal pétala suave,
em terno aperto, acerto para sempre
que por um momento fica
onde a pele excitada se estica,
sobre o púbis, pelve.
Um pênis pica
com sua glande
todo colocado
em sua vulva,
vagina,
boceta,
a pequena caixa
com o brilho líquido dos cristais.
Crisálida, ovo
onde o ego
de novo desliza,
penetra, entre pernas
entreabertas,
esperma
feito estrelas sobre a noite
e desperta
a linda orquídea
sob pêlos,
que em si encerra
a réplica, da réplica, da réplica
do segredo
da vida.
ácido nucleico, feito
sexo, elo.
Prazer reflexo, afeto, affair
em toda parte
o seu corpo belo.
Tal pétala suave,
em terno aperto, acerto para sempre
que por um momento fica
onde a pele excitada se estica,
sobre o púbis, pelve.
Um pênis pica
com sua glande
todo colocado
em sua vulva,
vagina,
boceta,
a pequena caixa
com o brilho líquido dos cristais.
Crisálida, ovo
onde o ego
de novo desliza,
penetra, entre pernas
entreabertas,
esperma
feito estrelas sobre a noite
e desperta
a linda orquídea
sob pêlos,
que em si encerra
a réplica, da réplica, da réplica
do segredo
da vida.
737
Liz Christine
Dor
Sozinha e vulnerável
A dor é intragável
E é patética essa poesia
Não, na falta de companhia
Nem existe poesia
Arte é relação
E quanto mais pessoas à minha volta
Mais eu me sinto entregue
À solidão
E nem há ódio nem revolta
Que a inércia me carregue
Nada faço em depressão
Quero o prazer de viver de volta
Porque arte é paixão
Que sustenta e alimenta
O desejo
De viver e criar
E quando me vejo
Chorando
Amar
Anulando
A angústia e o vazio
Porque amor é o sentido
E sem ele nada crio
E ele é você
Meu amor pervertido
Agora você lê
O que prefiro esconder
Os fetiches? A depravação?
Eu preciso dizer
Que onde há paixão
Não existe nunca depravação
Baixaria
Não é fuder amando
Nem escrever poesia
Estando
Nua
Baixaria
É chorar
O sofrimento sempre me parece
Vulgar
E só amor me abastece
Para criar
Odeio a dor
E adoro me expor
Para me enxergar
E me conhecer
Florescer
Tão
Perfumada
Mergulhada
Em paixão
Venha à tona
Poesia
Aroma
Que me guia
Se não estou apaixonada
Eu me sinto desnorteada
A dor é intragável
E é patética essa poesia
Não, na falta de companhia
Nem existe poesia
Arte é relação
E quanto mais pessoas à minha volta
Mais eu me sinto entregue
À solidão
E nem há ódio nem revolta
Que a inércia me carregue
Nada faço em depressão
Quero o prazer de viver de volta
Porque arte é paixão
Que sustenta e alimenta
O desejo
De viver e criar
E quando me vejo
Chorando
Amar
Anulando
A angústia e o vazio
Porque amor é o sentido
E sem ele nada crio
E ele é você
Meu amor pervertido
Agora você lê
O que prefiro esconder
Os fetiches? A depravação?
Eu preciso dizer
Que onde há paixão
Não existe nunca depravação
Baixaria
Não é fuder amando
Nem escrever poesia
Estando
Nua
Baixaria
É chorar
O sofrimento sempre me parece
Vulgar
E só amor me abastece
Para criar
Odeio a dor
E adoro me expor
Para me enxergar
E me conhecer
Florescer
Tão
Perfumada
Mergulhada
Em paixão
Venha à tona
Poesia
Aroma
Que me guia
Se não estou apaixonada
Eu me sinto desnorteada
1 004
Roy Campbell
LUÍS DE CAMÕES
Camões é quem de toda a raça lírica,
Nascido em negra aurora de desastre,
Pode a um soldado raso olhar de frente;
Encontro um camarada em vez de um mestre.
Pois, dia a dia, enquanto os crocodilos
Deslizam pela margem pantanosa,
Da minha barca ele compartilha o toldo,
E conta-me sorrindo uma igual vida.
Por chamas e naufrágios, pestes, perdas,
Do fogo-fátuo de servir levado
A uma morte de cão, rei de seus males
Ergueu bem alto a voluntária cruz,
E as dores moldou em formas de beleza,
Como à Gorgona fez cantar destinos
Nascido em negra aurora de desastre,
Pode a um soldado raso olhar de frente;
Encontro um camarada em vez de um mestre.
Pois, dia a dia, enquanto os crocodilos
Deslizam pela margem pantanosa,
Da minha barca ele compartilha o toldo,
E conta-me sorrindo uma igual vida.
Por chamas e naufrágios, pestes, perdas,
Do fogo-fátuo de servir levado
A uma morte de cão, rei de seus males
Ergueu bem alto a voluntária cruz,
E as dores moldou em formas de beleza,
Como à Gorgona fez cantar destinos
1 098
Charles Baudelaire
A BEATRIZ
Num solo hostil, crestado e cheio de aspereza,
Enquanto eu me queixava um dia à natureza,
E de meu pensamento ao acaso vagando
Fosse o punhal no coração sem pressa afiando,
Em pleno dia eu vi, sobre a minha cabeça,
Prenúncio de borrasca, uma nuvem espessa,
Trazendo um bando de demônios maliciosos,
Semelhantes a anões perversos e curiosos.
Entreolham-se a mirar-me, aguda e friamente,
E, como o povo que na rua olha um demente,
Eu ps via rir, entre si cochichando,
Piscando os olhos e também sinais trocando:
Contemplemos em paz essa caricatura
Que do fantasma de Hamlet imita a postura,
Os cabelos ao vento e o ar sempre hesitante.
Não causa pena ver agora esse farsante,
Esse idiota, esse histrião ocioso, esse indigente,
Que seu papel de artista ensaia à nossa frente,
Querer interessar, cantando as suas dores,
Os grilos, os falcões, os córregos e as flores,
E mesmo a nós, que concebemos esses prólogos,
Aos berros recitar na praça os seus monólogos?
Com meu orgulho sem limite, eu poderia
Domar a nuvem dos anões em gritaria,
Deles desviando a fronte esplêndida e serena,
Caso não visse erguer-se, em meio à corja obscura
- Crime que até a própria luz do sol abala! -
A deusa a cujo olhar outro nenhum se iguala,
Que com eles de minha angústia escarnecia,
E às vezes um afago imundo lhes fazia.
(Tradução
de Ivan Junqueira)
Enquanto eu me queixava um dia à natureza,
E de meu pensamento ao acaso vagando
Fosse o punhal no coração sem pressa afiando,
Em pleno dia eu vi, sobre a minha cabeça,
Prenúncio de borrasca, uma nuvem espessa,
Trazendo um bando de demônios maliciosos,
Semelhantes a anões perversos e curiosos.
Entreolham-se a mirar-me, aguda e friamente,
E, como o povo que na rua olha um demente,
Eu ps via rir, entre si cochichando,
Piscando os olhos e também sinais trocando:
Contemplemos em paz essa caricatura
Que do fantasma de Hamlet imita a postura,
Os cabelos ao vento e o ar sempre hesitante.
Não causa pena ver agora esse farsante,
Esse idiota, esse histrião ocioso, esse indigente,
Que seu papel de artista ensaia à nossa frente,
Querer interessar, cantando as suas dores,
Os grilos, os falcões, os córregos e as flores,
E mesmo a nós, que concebemos esses prólogos,
Aos berros recitar na praça os seus monólogos?
Com meu orgulho sem limite, eu poderia
Domar a nuvem dos anões em gritaria,
Deles desviando a fronte esplêndida e serena,
Caso não visse erguer-se, em meio à corja obscura
- Crime que até a própria luz do sol abala! -
A deusa a cujo olhar outro nenhum se iguala,
Que com eles de minha angústia escarnecia,
E às vezes um afago imundo lhes fazia.
(Tradução
de Ivan Junqueira)
5 688
Archibald Mcleish
ARS POETICA
Um poema deve ser palpável e mudo
como o fruto em globo
Calado
como antigos medalhões nos dedos
Silente como a pedra gasta por mangas
em umbrais onde o musgo cresceu -
Um poema deve ser sem palavras
como o voo das aves
Um poema deve ser imóvel no tempo
como a lua sobe
Largando, como a lua solta
ramo a ramo as árvores presas na noite,
largando, como a luz atrás do inverno larga
memória a memória, o espírito -
Um poema deve ser imóvel no tempo
como a lua sobe
Um poema deve ser igual a -
não verdadeiro
Porque toda a história da dor
uma porta vazia e uma folha de plátano
Porque o amor
as ervas que se curvam e duas luzes acima do mar
Um poema não deve significar
mas ser.
como o fruto em globo
Calado
como antigos medalhões nos dedos
Silente como a pedra gasta por mangas
em umbrais onde o musgo cresceu -
Um poema deve ser sem palavras
como o voo das aves
Um poema deve ser imóvel no tempo
como a lua sobe
Largando, como a lua solta
ramo a ramo as árvores presas na noite,
largando, como a luz atrás do inverno larga
memória a memória, o espírito -
Um poema deve ser imóvel no tempo
como a lua sobe
Um poema deve ser igual a -
não verdadeiro
Porque toda a história da dor
uma porta vazia e uma folha de plátano
Porque o amor
as ervas que se curvam e duas luzes acima do mar
Um poema não deve significar
mas ser.
1 203
Jorge Lúcio de Campos
Retrato de Regina num quimono preto
(a Steve Hawley)
Pouco a ver ou
a dizer daqueles
seios de Alechinsky –
as coisas do mundo
a argila quente do dia
Pouco a ver ou
a dizer daquele
queixo de Rodchenko
– um eu-te-amo de
delírio reencontrado
(um pouco a língua e
a nuca por completo)
Ao redor daquelas
patas de Tanguy
só cabeça, tronco
e membros
Pouco a ver ou
a dizer daqueles
seios de Alechinsky –
as coisas do mundo
a argila quente do dia
Pouco a ver ou
a dizer daquele
queixo de Rodchenko
– um eu-te-amo de
delírio reencontrado
(um pouco a língua e
a nuca por completo)
Ao redor daquelas
patas de Tanguy
só cabeça, tronco
e membros
835
Liz Christine
Matando
Eu passional
Eu criando
Você, você, eu mal
Consigo assistir
Eu desenhando
Aula, aula, preciso fugir
Que saco, eu desenho
Seu corpo, eu tenho
Que sentir
Paixão! Criação!
Seu beijo em meu pescoço
Uma mordida
Meus lábios
Seduzida
Delirando
Tão sábios
Sabem, os seus, me fazem
Eu gozando
Aula chata!
Não acaba, não mata
Minha fome de você
Amo, minha fome
É o desejo que me consome
E preciso fugir Matar
Aula e me alimentar
Porque já estou quase desmaiando
De fome, imaginando...
Ao leite ou derretido
Com passas ou crocante
Puro ou pervertido
Com recheio
É excitante
Eu saboreio
Te mordo
E meu corpo todo
Lambuzada
Chocolate
Fina arte
Transformada
Misturada
Ao sabor supremo
Meu chocolate
Meu veneno
Você é arte
Só você extermina
Minha melancolia
Você, serotonina
Que me vicia
Eu criando
Você, você, eu mal
Consigo assistir
Eu desenhando
Aula, aula, preciso fugir
Que saco, eu desenho
Seu corpo, eu tenho
Que sentir
Paixão! Criação!
Seu beijo em meu pescoço
Uma mordida
Meus lábios
Seduzida
Delirando
Tão sábios
Sabem, os seus, me fazem
Eu gozando
Aula chata!
Não acaba, não mata
Minha fome de você
Amo, minha fome
É o desejo que me consome
E preciso fugir Matar
Aula e me alimentar
Porque já estou quase desmaiando
De fome, imaginando...
Ao leite ou derretido
Com passas ou crocante
Puro ou pervertido
Com recheio
É excitante
Eu saboreio
Te mordo
E meu corpo todo
Lambuzada
Chocolate
Fina arte
Transformada
Misturada
Ao sabor supremo
Meu chocolate
Meu veneno
Você é arte
Só você extermina
Minha melancolia
Você, serotonina
Que me vicia
857
Jorge Lúcio de Campos
A origem do mundo
(a Gustave Courbet)
Há uma doença qualquer tagarela
nesse buço de quasares negros
ao meu lado; aqui comigo a carne
ferve aos poucos – cortes lentos
Mas por que não regurgita agora
a vulva cáqui linguaruda
sob a luz desenroscada
da manhã?
Há uma doença qualquer tagarela
nesse buço de quasares negros
ao meu lado; aqui comigo a carne
ferve aos poucos – cortes lentos
Mas por que não regurgita agora
a vulva cáqui linguaruda
sob a luz desenroscada
da manhã?
951
Levi Bucalem Ferrari
Un séjour à Guarujá
(Madrigale a la moda dei maestri MariOswalDrumão, produção de Joãozinho Trinta, figurinos de Clodovil e direção variando entre Frederico Fellini e Zé do Caixão. Agradecemos ao indispensável apoio de nossos patrocinadores sem os quais este espetáculo seria impossível etc.)
Lua cheia... Minissaias, sorvetes, frivolidades.
Maduros casais idicham cotidianos milionários.
Ou galicizam lugares comuns: Mais non!
Um menino do Rio cinematografa-se.
Morte em Veneza, verão com vento.
Certas garotinhas... Âge du diable...
Une vague sensation dinceste.
De uma a língua circunda o sorvete
E outra o chupa, sorvendo-lhe o suco.
Alguém assobia bossas-novas...
"e quem sonhou, sonhou..."
Entre impertinentes cartazes de vende-se e aluga-se
O balneário se liquida
Num muro, toscas garatujas desafiam o frenesi imobiliário:
Volte minha nega, abaixo a psicanálise.
As ondas se fazem gigantescas lânguidas línguas
A lamber o traseiro da surfista sobre a prancha
Há espuma nas franjas
O mar saliva e ejacula.
Areias abundam bandos de madamas maquiadas.
O jogo da noite foi longe demais. Nunca mais.
Negócios em alta agitam conversas senhoriais
Saltos altos... modorras... uis e ais.
Alhures middle classes weekendizam
Vôlei, tênis, frescobol... guarda-sóis coloridos.
O executivo esteira-se. Ê vida boa!
Não volto mais prá São Paulo.
Crinaças areiam coxas de óleobronze...
Não enche o saco moleque!
Uma gorda de biquini...exigências do fellini
Ah, sim,
Entre tantas abandonadas bundas
Uma por ti suspira
Talvez aquela que retesou-te os glúteos
Mais ao fundo, negros caipiram
Cachaça ou vodka?
E espetinhos de camarão
Televivem-se anúncios de cigarro e coca-cola.
Figuração.
Às vezes penso que o Debret retratou o Brasil pro resto da vida.
Lua cheia... Minissaias, sorvetes, frivolidades.
Maduros casais idicham cotidianos milionários.
Ou galicizam lugares comuns: Mais non!
Um menino do Rio cinematografa-se.
Morte em Veneza, verão com vento.
Certas garotinhas... Âge du diable...
Une vague sensation dinceste.
De uma a língua circunda o sorvete
E outra o chupa, sorvendo-lhe o suco.
Alguém assobia bossas-novas...
"e quem sonhou, sonhou..."
Entre impertinentes cartazes de vende-se e aluga-se
O balneário se liquida
Num muro, toscas garatujas desafiam o frenesi imobiliário:
Volte minha nega, abaixo a psicanálise.
As ondas se fazem gigantescas lânguidas línguas
A lamber o traseiro da surfista sobre a prancha
Há espuma nas franjas
O mar saliva e ejacula.
Areias abundam bandos de madamas maquiadas.
O jogo da noite foi longe demais. Nunca mais.
Negócios em alta agitam conversas senhoriais
Saltos altos... modorras... uis e ais.
Alhures middle classes weekendizam
Vôlei, tênis, frescobol... guarda-sóis coloridos.
O executivo esteira-se. Ê vida boa!
Não volto mais prá São Paulo.
Crinaças areiam coxas de óleobronze...
Não enche o saco moleque!
Uma gorda de biquini...exigências do fellini
Ah, sim,
Entre tantas abandonadas bundas
Uma por ti suspira
Talvez aquela que retesou-te os glúteos
Mais ao fundo, negros caipiram
Cachaça ou vodka?
E espetinhos de camarão
Televivem-se anúncios de cigarro e coca-cola.
Figuração.
Às vezes penso que o Debret retratou o Brasil pro resto da vida.
881
João dos Sonhos
A arte nobilitante
É preciso fazer do amor
um uso imediato e corrente
a arte nobilitante
de atravessar os dias com a luz
dos corpos enleados,
devorados na lenta florescência
de invisiveis lâmpadas,
ofegantes na lida (na pequisa)
de bocas fulgurantes,
do sabor das ancas contornadas
com dedos de zimbro
e de hortelã,
enfebrecidos sempre
e fascinados
na voragem do púbis levitado
pela língua do fauno
que o levanta.
um uso imediato e corrente
a arte nobilitante
de atravessar os dias com a luz
dos corpos enleados,
devorados na lenta florescência
de invisiveis lâmpadas,
ofegantes na lida (na pequisa)
de bocas fulgurantes,
do sabor das ancas contornadas
com dedos de zimbro
e de hortelã,
enfebrecidos sempre
e fascinados
na voragem do púbis levitado
pela língua do fauno
que o levanta.
970
Cristiane Neder
Olhar consumista
Nestes nus
que tento seduzir
meus olhos ficam vazios
de tanto te invadir.
Os teus olhos
que saem da platéia
chegam a me contaminar
estragando
minhas idéias velhas,
que eu tinha no lugar
e pensava que eram valiosas
como um quadro de Picasso.
Todo amor
tem seu traço aberto
na hora ága de se apagar.
Minha vida consumista
faz do amor
um objeto vulgar,
cheio de coisas novas
numa vitrine sem par,
e meus olhos
cheios de desejo
querem te consumir
a qualquer preço.
que tento seduzir
meus olhos ficam vazios
de tanto te invadir.
Os teus olhos
que saem da platéia
chegam a me contaminar
estragando
minhas idéias velhas,
que eu tinha no lugar
e pensava que eram valiosas
como um quadro de Picasso.
Todo amor
tem seu traço aberto
na hora ága de se apagar.
Minha vida consumista
faz do amor
um objeto vulgar,
cheio de coisas novas
numa vitrine sem par,
e meus olhos
cheios de desejo
querem te consumir
a qualquer preço.
883
Tanussi Cardoso
As time goes by
Meu bem,
Me chama de Humphrey Bogart
Que eu te conto Casablanca.
Me tira esse sobretudo;
Sobretudo, conta tudo
Que eu te dou uma rosa branca.
Meu bem,
Me chama de Humphrey Bogart...
Te dou carona em meu carro
Chevrolet — que sou bacana;
Te levo, meu bem, pra cama
Fumamos nossa bagana;
Te provo que sou sacana...
Te faço toda a denguice:
Te dispo que nem a Ingrid,
Te dou filhos de montão
Só pra te ver sufocar...
Mas me chama de Humphrey Bogart!
Faço chover colorido
Como num bom musical.
Te chamo de Lauren Bacall!
Te danço, te canto, te mostro,
Entre as pernas, meu bom astral...
Te deixo pro enxoval
Meu chapéu preto de gangster,
Mil poemas de ninar...
Só pra te ouvir sussurrar:
Como te amo, meu Humphrey Bogart!
Me chama de Humphrey Bogart
Que eu te conto Casablanca.
Me tira esse sobretudo;
Sobretudo, conta tudo
Que eu te dou uma rosa branca.
Meu bem,
Me chama de Humphrey Bogart...
Te dou carona em meu carro
Chevrolet — que sou bacana;
Te levo, meu bem, pra cama
Fumamos nossa bagana;
Te provo que sou sacana...
Te faço toda a denguice:
Te dispo que nem a Ingrid,
Te dou filhos de montão
Só pra te ver sufocar...
Mas me chama de Humphrey Bogart!
Faço chover colorido
Como num bom musical.
Te chamo de Lauren Bacall!
Te danço, te canto, te mostro,
Entre as pernas, meu bom astral...
Te deixo pro enxoval
Meu chapéu preto de gangster,
Mil poemas de ninar...
Só pra te ouvir sussurrar:
Como te amo, meu Humphrey Bogart!
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