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Poemas neste tema

Casa e Lar

Herberto Helder

Herberto Helder

Iii J

O dia meteu-se para dentro: a água enche o meu sono
e transborda.
Os dons obscurecem-me.
Nas redes da pedra coa-se o muito forte
das matérias. E numa volta espasmódica a curva exaltada arranca
dos fundos da carne trémula
grandes massas côncavas, difíceis, terrestres, convexas.
Meto para dentro a linha sísmica,
ponho os dedos de fora,
e a linha
— os pontos poderosos das palavras:
amor, velocidade, morte, metamorfose — a linha
vibra, a linha do mundo. Escreva-se:
obscurece, revela.
Nos lugares frios as pedras longamente pousadas sobre leques de água.
Nem sempre se tem a voltagem das coisas: mesa aqui, fogão aceso,
torneiras fechadas com aquela assombrosa massa de água
atrás, à espera,
roupas, madeiras, livros.
Oh como alguém espera que a luz se levante asperamente até à cara
Ou se espera ver em alguém assim
tocado ver
o sangue nos orifícios da cabeça, ou
melhor:
amígdalas, palato, língua, a voz tratada a sangue e rapidez.
E a maneira de andar na escuridão sob as gotas,
cuidar da ferida, cuidar
da gramática, árduo cuidar, quem
pensaria?, cuidar da música,
do mundo.
Há um azul selvagem defronte se alguém se vira,
nas costas rebenta a espuma.
Que sim, que os elementos através da casa: um espaço
na beleza: água atrás das paredes,
fogo nas botijas,
cristal nas unhas.
Mantém o nome, tu, o gás cingido pelos aros de ferro, mesa
e papéis, a morte atenta, mantém-na, tarda, não
tarda, abertas, fechadas
as torneiras.
Oh mundo escrito dolorosamente nas faixas de seda
saída de bichos como que
plenos, em brasa, mas
macios, saída
do âmago dos bichos.
Quem morre morre, tão fulgurante nas mãos e na testa.
O bafo trabalha nas linhas perigosas.
A estrela estala.
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Herberto Helder

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Redivivo. E basta a luz do mundo movida ao toque no interruptor,
ou de lado
a lado negro, quando se é esquerdo,
o amargo e o canhestro à custa
de fôlego e lenta
bebedeira: o esforço de estar vivo —
e lunas e esteias: e as vozes magnificam pequenas
coisas das casas, e teias dos elementos
pelas janelas, teias
portas adentro: da água compacta no corpo das paredes,
do ar a circundar as zonas veementes dos utensílios
— e a música mirabilíssima que ninguém escuta:
o duro, duro nome da tua oficina de mão torta,
boca cheia de areia estrita, áspera cabeça,
tanto que só pensas:
se isto é música, ou condição de música, se isto é para estar redivivo,
então não percebo sequer o movimento, digamos,
da laranja
na fruteira, ou o movimento da luz na lâmpada,
ou
o movimento do sangue na garganta
impura — e menos ainda percebo o movimento que já sinto
no papel se se aproxima, por exemplo,
pelo tremor da textura
do caderno e da força da
esferográfica dolorosa, a palavra Deus saída pronta,
arrebatada aos limbos, como se diz que se arrebata
aos ferros, a poder de tenazes e martelos,
um objecto, vá lá, supremo:
uma chave, quer
se queira quer se não queira, mas
que não abre coisa alguma: que abre, a partir de como se está de rojo,
um espaço em cada nome, e nesse espaço se possa
dançar, no abismo entre um quarto
e outro quarto da terra, dançar dentro do ar como para
o ar bater nas paredes, e as paredes
estremecerem com a água esmagada contra si própria —
e depois ninguém fala, e cada
coisa actua
sobre cada coisa, e tudo o que é visível abala
o território invisível.
Redivivo. E foi por essa mínima palavra que apareceu não
se sabe o quê que arrancou
à folha e à esferográfica canhota a poderosa superfície
de Deus, e assim é
que te encontraste redivivo, tu que tinhas morrido um momento antes,
apenas.
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Herberto Helder

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Prefácio

Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
— Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes —
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.

Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?

Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
— Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.

Falemos de casas. E verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas.
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros —
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.

Só um instante em cada primavera se encontravam
com o junquilbo original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
— E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva — tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.

— E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.

Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
celestes que fulguram lentamente
até uma baía fria — que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.

Falemos de casas como quem fala da sua alma,
entre um incêndio,
junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Onde Não Pode a Mão 2

Cortaram pranchas palpitando de água:
fincaram-nas,
Montaram esta casa: suas membranas
trémulas: a potência
do chão, Este astro opulento entreaberto
pelas labaredas,
Com uma chaga na camisa: grita,
Há alguém que grita com uma imagem
em combustão saída
do corpo: como
a parte de fora de um planeta,
Que se não toque nunca nas bolsas onde
pulsa a água,
Que se não toque nas torneiras
onde se ata o gás: nos pontos
de tensão por onde o gás rebenta,
A morte está tapada em qualquer parte
dos dedos
enredados em qualquer parte
da matéria
tremenda sob os dedos, A matéria que mata
por fogo ou afogamento,
E na garganta como o ar faz o som
a morte faz um grito:
um estrangulamento, O gás brilha muito:
a água brilha:
no interior de tudo brilha tanto
o medo
como uma força, Respiradamente: ah
jubilação da cara: o sangue dentro
na sua malha sensível
canta canta, O lirismo é louco: aterra,
O tronco:
a dor de um músculo
arroteado
fremindo, Este uso
luminoso imposto ao mundo
das paisagens, Assim sobre o pescoço
dispõe-se disto — carne
martelada por fluxos e refluxos entre
as formas e o assombro,
A comida por exemplo há que tragá-la,
Há que escoar a água
pelos ralos
da terra: ou entre os braços côncava
como uma estrela há que
sustê-la, Há que sorver veneno: gás: um
delírio tóxico, Há
que ter a transparência da morte,
E preciso ser dental: ter entranhas: ser igual
ao furor das coisas:
da metáfora
das coisas, Um pouco de acrescento
manual ao raio que destroça
a mão, Ou engolir no tubo assoprado
tanto
do ar do fundo, Há que ser
ferramenta de música
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 3

Uma mulher está sentada junto à sua janela.
Por detrás fica a casa.
Ainda hoje não entendo isso.
Porque venho através dos corredores, eu, o mensageiro ardente e desordenado, e caio naquele espaço de silêncio, e quando digo mãe, ela volta-se e sorri do fundo de uma terrível sabedoria.
Os olhos são límpidos e de uma beleza dolorosa.
Sim, sim, diz a mulher, e sorri sempre.
Agora a memória é a minha tarefa, e tantos anos de trabalho assíduo não me levam a grande coisa.
Sou um homem de pouca qualidade.
Lento.
A cabeça da mãe, essa, é tremendamente alta, no meio da luz.
Não compreendo.
Mas vejo que há distâncias, e a distância é uma dor.
A maturidade, uma dor: apenas isso.
A grande maravilha é a tal cabeça muito alta que a luz ataca por todos os lados.
Na casa é tudo assim, e eu sou a única criatura que possui uma velocidade cega.
Uma criança voraz batendo contra o implacável fulgor de todas as coisas.
E então não tenho o amor das palavras e significações, e quando chego as pessoas sorriem e são pacientes comigo.
Param, andam devagar: o seu ritmo é inacessível.
Eu desejaria saber alguma coisa mais acerca dos ritmos.
Talvez quisesse, digo.
Hoje, o meu ofício tornou-se a lentidão, e o meu ritmo é escrever sobre a veloz cegueira de um ano mais antigo.
Eu tinha oito anos, parece-me que é bom dizer isto, e a casa ficava por detrás da mãe, e agora acho que me vou pôr a falar da casa.
A qual parece uma grande esponja.
Atravessam-na múltiplos, longos e estreitos corredores, lançados em todos os sentidos.
É por aí que eu corro, gritando as palavras bárbaras.
Não, não é a infância.
Refiro-me às musas inquietantes, e a mãe, como o carneiro de fogo, a tremenda força animal, arrasta tudo atrás de si.
A mulher sentada — essa bela criatura destruída — ela, imaginem, o carneiro de fogo.
E é.
A casa que tem pregada às costas é o meu amargo, exaltante e inútil prodígio.
Não tenciono ser demasiado claro a respeito de coisa alguma.
Falo da casa.
Trata-se de uma grande casa.
O que há mais são corredores e escadas, e vastos quartos onde irrompe a luz abrupta.
Tenho uma teoria acerca desta casa.
Falsa, sim.
Mas está certa com o espírito de tudo, quero dizer: com as regras da memória.
A minha teoria é que os quartos esmagam os corredores.
Segundo as leis da memória, eles desenvolvem-se como seres vivos, e os corredores e escadas são apenas consentidos acessos, um pouco ambíguos, à inacessível alma dos quartos.
Porque os quartos são adultos.
Caminho pelos corredores e escadas e procuro atingir a mãe que sorri na sua violenta mas imóvel força, e a avó completamente enigmática, e as irmãs e primas que, vou dizê-lo, são assim como cercadas de uma atmosfera de irrespirável beleza.
Amo-as em pânico.
Este amor oblíquo, vejam, não o escrevo com qualquer tergiversão lírica.
Os meus oito anos são monstruosos, mesmo com a distância dita transfiguração, ou dor, se quiserem, ou talento.
Qualquer desses erros é cuidadosamente implacável, porque escrevo.
Escrever não é uma simples volúpia, ou uma responsabilidade moral.
Deve ser um acto de cruel religiosidade, uma espécie de inteligentíssima expiação do crime obscuro de não ter morrido.
E quando se escreve sobre o que eu amaria chamar de temas centrais, há que saber cometer bem os bons erros.
Falo de musas, e a casa — segundo o que penso — é uma esponja.
Ando pelos corredores como para ter acesso à dor incompreensível.
A casa desenvolve-se a partir do quarto grande, o da frente, voltado para o mar, e de onde quase nunca sai a mãe.
A força concentra-se ali e é por um impulso secreto que os outros quartos se desdobram, empurrando-se uns aos outros e abrindo altas portas estreitas para os corredores esmagados.
Há muitas escadas que exprimem um atento esforço para tudo ligar, na linguagem exterior da utilidade.
Porque, afinal, tudo é unido através daquele coração nuclear.
O quarto da mãe.
E então foi-me dado o labirinto e a minha tarefa é dura e fascinante.
Encontrar chaves, decifrar enigmas, descobrir pistas.
Porque estas mulheres que me amam, e que eu amo num segredo doloroso, não me ajudam.
O seu auxílio executa-se em planos inextricáveis.
Ensinam-me os nomes, narram as fábulas e apresentam-me a tradição.
Em certo sentido, conheço tudo.
Mas sou um sôfrego: tenho o talento do amor.
Desejo tocar os vestidos das mulheres, vê-las pentear-se, saber as mínimas razões dos seus movimentos, e o que é aquilo, aquilo — o silêncio delas, a pausa e a luz fixa dos olhos.
A mãe está a essa janela.
Eu cresço, durmo só.
Ouço de noite os ruídos da casa contra o fundo do mar.
Nada é simples, mas todos dizem que eu cresço, e sinto-me crescer.
Não sei o que vou fazer do meu crescimento, senão que agora é mais difícil fazer qualquer coisa, pois as irmãs também crescem e de um modo fulminante.
Porque sinto que se retiram e não posso segui-las.
Muitas vezes mandam-me embora, e os seus vestidos tornam-se de repente deslumbrantes.
Passo os dias a procurá-las pela casa.
Vejo-as, ora uma ora outra, no alto das escadas, e desaparecem.
Minhas primas voltam das aulas e riem loucamente, a cabeça para trás, e depois ficam muito sérias.
A avó diz: raparigas, raparigas.
E então, uma noite, estou sentado no chão, num dos corredores, com as costas junto à parede.
No quarto ao fundo do corredor, por cuja porta aberta sai a luz quente e o murmúrio curvo das vozes, as mulheres trabalham.
Eu ouço.
Das sombras, da luz, das vozes — sobretudo daquele calor como que distante — nasce uma súbita razão.
Em mim, uma alegria tão forte que se torna necessário fazer qualquer coisa.
Tiro do bolso o meu pequeno canivete e, no braço nu, traço um golpe fundo.
Vejo o sangue correr, o meu sangue.
Desliza pela carne, pinga para o soalho.
E as vozes continuam, mornas e ricas, e a luz e as sombras no corredor são as mesmas.
Distingo até o ruído leve de alguns movimentos das mulheres, e o seu riso abafado.
Levanto-me devagar, atravessado de alto a baixo por essa incoerente alegria que, parece, não deverá nunca mais extinguir-se.
Não tiro os olhos do sangue, mais abundante agora.
Sei que é o meu sangue.
Meu.
De pé, fico encostado à parede.
E depois ponho-me a rodar sobre mim mesmo, ao longo do corredor.
Deixo na cal marcas de sangue.
Sinto na cara, a cada volta, a frescura da parede.
É uma lenta marcha que cumpro ritualmente, às vezes beijando a parede, premindo contra ela o braço rasgado.
O sangue corre.
Devo estar bêbedo.
As vozes parecem agora mais altas, a luz mais intensa, e a minha alegria torna-se inseparável de uma confusa e decisiva dor.
Uma dor conquistada com inspiração e sacrifício.
Depois é o meu espectáculo.
E o monstro aparece em cena.
Em frente da porta, vejo as mulheres dobradas sobre os bordados.
A mãe lê.
Num canto, à mesa, as primas estudam.
Levanta-se uma cabeça.
Um grito, o começo do triunfo.
Estou ali, diante de todas as mulheres que me amam, e sangro por mim e por elas, e para elas.
Estou coberto de sangue.
É a glória.
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