Poemas neste tema
Casa e Lar
Bernardo Pinto de Almeida
Melancolia
Os papéis falam uns com os outros
Sobre esta mesa onde a sombra cai
A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.
Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens
Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.
Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa
Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas
Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
Sobre esta mesa onde a sombra cai
A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.
Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens
Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.
Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa
Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas
Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
670
Fernando Fitas
Ave te chamaria
Ave te chamaria(s) se não fosse
haver em teu olhar uma flor ausente
que derramando vai quanto perfume
vestiu o despontar (despertar) das madrugadas
que de afectos cobriram esta casa.
Por isso flor és não só de rosa
mas de aloendro — creio — e madressilva
e de acácia e de trigo e de poejo
p’ra que melhor nos saibam os desejos
que o marulhar de lábios mais incita.
Guardadora de ventos e de rios
e de nascentes e margens e afluentes
que despidos ainda se apresentem
de quanto néctar houvesse ao seu alcance
sem que tivesse sido recolhido.
haver em teu olhar uma flor ausente
que derramando vai quanto perfume
vestiu o despontar (despertar) das madrugadas
que de afectos cobriram esta casa.
Por isso flor és não só de rosa
mas de aloendro — creio — e madressilva
e de acácia e de trigo e de poejo
p’ra que melhor nos saibam os desejos
que o marulhar de lábios mais incita.
Guardadora de ventos e de rios
e de nascentes e margens e afluentes
que despidos ainda se apresentem
de quanto néctar houvesse ao seu alcance
sem que tivesse sido recolhido.
790
Matilde Campilho
Piscinão Blue
the real reason why we never jumped into the pool was
well freddy never was a good jumper betty never was a
good sport aunt amy always talked about tea pots and
tea plates and spoons and her lost loving pomegranates
and dad kept drawing leopards on every wall of our house
please don’t ask about mom or mom’s dress made of flowers
made of silk made of every shade of desmond’s fears
little timmy sang a song about our only friend kazakalim
whose skin was dark whose blood was dim whose chest
was shiny as the wooded flute that father used to clean
every morning every midday every night and every dawn
as mother danced around the oak tree which surely did
contain a bird contain a whale contain a stack of all our tears
well freddy never was a good jumper betty never was a
good sport aunt amy always talked about tea pots and
tea plates and spoons and her lost loving pomegranates
and dad kept drawing leopards on every wall of our house
please don’t ask about mom or mom’s dress made of flowers
made of silk made of every shade of desmond’s fears
little timmy sang a song about our only friend kazakalim
whose skin was dark whose blood was dim whose chest
was shiny as the wooded flute that father used to clean
every morning every midday every night and every dawn
as mother danced around the oak tree which surely did
contain a bird contain a whale contain a stack of all our tears
1 176
Pero da Ponte
Quem a Sesta Quiser Dormir
Quem a sesta quiser dormir,
conselhá-lo-ei a razom:
tanto que jante, pense d'ir
à cozinha do infançom:
e tal cozinha lh'achará,
que tam fria casa nom há
na hoste, de quantas i som.
Ainda vos en mais direi
eu, que um dia i dormi:
tam bõa sesta nom levei,
des aquel dia 'm que naci,
como dormir em tal logar,
u nunca Deus quis mosca dar,
ena mais fria rem que vi.
E vedes que bem se guisou
de fria cozinha teer
o infançom, ca nom mandou
des ogan'i fogo acender;
e, se vinho gaar d'alguém,
ali lho esfriarám bem,
se o frio quiser bever.
conselhá-lo-ei a razom:
tanto que jante, pense d'ir
à cozinha do infançom:
e tal cozinha lh'achará,
que tam fria casa nom há
na hoste, de quantas i som.
Ainda vos en mais direi
eu, que um dia i dormi:
tam bõa sesta nom levei,
des aquel dia 'm que naci,
como dormir em tal logar,
u nunca Deus quis mosca dar,
ena mais fria rem que vi.
E vedes que bem se guisou
de fria cozinha teer
o infançom, ca nom mandou
des ogan'i fogo acender;
e, se vinho gaar d'alguém,
ali lho esfriarám bem,
se o frio quiser bever.
1 619
Paio Gomes Charinho
Dom Afonso Lopes de Baiam Quer
Dom Afonso Lopes de Baiam quer
fazer sa casa, se el pod'haver
madeira nova; e, se mi creer,
fará bom siso: tanto que houver
madeira, logo punh', ena cobrir,
o fundamento bem alt'; e guarir
pod'o lavor per i, se o fezer.
E, quand'el a madeira adusser,
guarde-a bem e faça-a jazer
em logar que nom chôvia, ca torcer-
s'-ia mui tost', e nom ar há mester;
e, se o lavor nom quer escarnir,
abra-lh'o fundament'alt'; e ferir,
e muito batê-lo, quanto poder.
E pois o fundamento aberto for
alt'e bem batudo, pode lavrar
em salvo sobr'el; e, pois s'acabar,
estará da madeira sem pavor;
e do que diz que a revolverá,
ant'esto faça, senom matar-s'-á,
ca est'é o começo do lavor.
E Dom Afonso pois há tal sabor
de fazer bõa casa, começar
a dev[e] assi; e des i folgar
e jazer quand'e quando mester for
descobri-la e cobri-la poderá
e revolvê-la, ca todo sofrerá
a madeir', e seerá-l[h]i en melhor.
E Dom Afonso tod'esto fará
que lh'eu conselho; se nom, perder-s'-á
esta casa per mao lavrador.
fazer sa casa, se el pod'haver
madeira nova; e, se mi creer,
fará bom siso: tanto que houver
madeira, logo punh', ena cobrir,
o fundamento bem alt'; e guarir
pod'o lavor per i, se o fezer.
E, quand'el a madeira adusser,
guarde-a bem e faça-a jazer
em logar que nom chôvia, ca torcer-
s'-ia mui tost', e nom ar há mester;
e, se o lavor nom quer escarnir,
abra-lh'o fundament'alt'; e ferir,
e muito batê-lo, quanto poder.
E pois o fundamento aberto for
alt'e bem batudo, pode lavrar
em salvo sobr'el; e, pois s'acabar,
estará da madeira sem pavor;
e do que diz que a revolverá,
ant'esto faça, senom matar-s'-á,
ca est'é o começo do lavor.
E Dom Afonso pois há tal sabor
de fazer bõa casa, começar
a dev[e] assi; e des i folgar
e jazer quand'e quando mester for
descobri-la e cobri-la poderá
e revolvê-la, ca todo sofrerá
a madeir', e seerá-l[h]i en melhor.
E Dom Afonso tod'esto fará
que lh'eu conselho; se nom, perder-s'-á
esta casa per mao lavrador.
470
Afonso Lopes de Baião
Em Arouca Ua Casa Faria
Em Arouca ũa casa faria;
atant'hei gram sabor de a fazer
que já mais custa nom recearia
nem ar daria rem por meu haver,
ca hei pedreiros e pedra e cal;
e desta casa nom mi míngua al
senom madeira nova, que queria.
E quem mi a desse, sempr'o serviria,
ca mi faria i mui gram prazer,
de mi fazer madeira nova haver,
em que lavrass'ũa peça do dia,
e pois ir logo a casa madeirar
e telhá-la; e pois que a telhar,
dormir en'ela de noit'e de dia.
E, meus amigos, par Santa Maria,
se madeira nova podess'haver,
log'esta casa iria fazer
e cobri-la e descobri-la ia,
e revolvê-la, se fosse mester;
e se mi a mi a abadessa der
madeira nova, esto lhi faria.
atant'hei gram sabor de a fazer
que já mais custa nom recearia
nem ar daria rem por meu haver,
ca hei pedreiros e pedra e cal;
e desta casa nom mi míngua al
senom madeira nova, que queria.
E quem mi a desse, sempr'o serviria,
ca mi faria i mui gram prazer,
de mi fazer madeira nova haver,
em que lavrass'ũa peça do dia,
e pois ir logo a casa madeirar
e telhá-la; e pois que a telhar,
dormir en'ela de noit'e de dia.
E, meus amigos, par Santa Maria,
se madeira nova podess'haver,
log'esta casa iria fazer
e cobri-la e descobri-la ia,
e revolvê-la, se fosse mester;
e se mi a mi a abadessa der
madeira nova, esto lhi faria.
742
Samarone Lima de Oliveira
Formas do dia
Às vezes, ao escolher os sapatos
Erramos o dia.
E a cor, a forma,
Nos levam ao ponto primordial:
Como saímos de casa.
Às vezes, a falta de uma bênção
Nos leva ao segundo erro:
Saímos de casa desassistidos
E nos perdemos do próprio dia.
Às vezes, a falta de um aviso
De um recado
De um aceno
Nos faz seguir sem os pequenos gestos
Que nos salvam o dia.
Quase sempre
Voltamos para casa
Tão vivos
E nem sabemos
Que sapatos, bênçãos, avisos
Nos salvam a vida.
Erramos o dia.
E a cor, a forma,
Nos levam ao ponto primordial:
Como saímos de casa.
Às vezes, a falta de uma bênção
Nos leva ao segundo erro:
Saímos de casa desassistidos
E nos perdemos do próprio dia.
Às vezes, a falta de um aviso
De um recado
De um aceno
Nos faz seguir sem os pequenos gestos
Que nos salvam o dia.
Quase sempre
Voltamos para casa
Tão vivos
E nem sabemos
Que sapatos, bênçãos, avisos
Nos salvam a vida.
691
Renato Rezende
Bicho de Goiaba
No tacho de cobre/ vermelho
era eu mesmo me derretendo.
Todos os dias, o dia.
Aqui estou eu, de repente, o mesmo,
no ermo recanto das flores
da infância de mim mesmo.
Aqui estou eu, como num sonho
ou num porto-fragmento
do que já fui, perdido no tempo.
Irrompo aos gritos a casa ensolarada
e tudo brilha e está em seu lugar
enquanto gira ao redor do nada.
Aquelas manhãs na fazenda
ainda existem, não se perderam, estão lá
agora,
você que é o sempre ausente.
Mas espere
ainda há esperança, e por mais um dia
por dádiva dos deuses
que giram todos os dias
a roda do destino
eu apareço, inteiro.
As terras
ainda estão aqui, generosas
e fecundas, vermelhas.
Ainda não vendemos
nossa memória, nem mesmo o medo
de menino sozinho no quarto escuro...
e já acaba o óleo da lamparina
papai e mamãe dormem
do outro lado da enorme casa
e a sombra bruxeleia na parede escura,
no forro passeiam gambás
aranhas e baratas
infestam o chão a esta hora.
O banheiro
está do outro lado do mundo
no fim do corredor
imenso de assoalho vermelho.
Se acordo meu pai
ele vai ficar bravo e vai ser pior.
Fazer xixi na cama
é até gostoso
(o prenúncio
de um prazer maior),
é quentinho
e com este calor logo seca, ninguém nota.
Meu irmão dorme na cama ao lado
e estas duas camas parecem agora dois barcos
que se separam no enorme mar do tempo.
Tenho medo
de ficar sozinho.
E se meus pais morrerem?
(Ensaio na madrugada o sofrimento da desgraça
que durante a vida inteira espero que aconteça).
Rompe o dia.
Assisto
pela janela encardida a delicadeza da aurora
e com pijamas saio lá fora.
Estou na varanda. Ouço pássaros novos
e vacas rumo aos currais de outrora.
Do pomar irrompe um porco
que como tudo agora é puro mistério e delicadeza
banhado de luz dourada.
A doçura é tanta
que acuado volto para cama.
O que mais dança
no centro do meu peito?
Antigas penteadeiras
de madeira de lei
ou mármore de carrara.
Jarras de prata, tachos
de cobre
onde ferve a minha carne
mexida pela preta velha
que pica e cospe tabaco
junto ao seu fogão de cinzas e lenha.
Posso vê-la, de longe
varrendo pétalas e poeira
sobre as pedras do terreiro.
-- Aí! D. Paula!
Esse pirão é feito de água ou leite?
-- De água, fiô, de água.
Espelhos.
Piso de tábua larga.
Ping-pong com besouros.
Sapos de línguas longas.
Cavalos mangalarga
desembestados no pasto largo.
Briga de bois bravos
a despedaçar o curral.
E os homens munidos com varas e paus.
-- Ôôo! Pierrô! Eiaa! Apolo!
E depois a calmaria
da tarde de rolinhas
aninhando-se no enorme pau-d'alho
as borboletas com grande olhos
o pôr do sol.
O pôr do sol mais belo
e mais longo do mundo.
Mas ainda há tempo para mais um mergulho
na piscina de água corrente
onde antigamente era lavadouro de café.
Ainda há tempo
para uma espiga de milho quente,
para um copo de leite,
um punhado de jabuticabas,
um roubo de pitangas,
uma guerra de cevada.
Ainda há tempo, antes
que caia novamente a noite...
Que venham! Que venham!
No mar do naufrágio de agora
os escombros dos dias plenos.
(Hoje queremos apenas
que as crianças cresçam
e ganhar muito dinheiro).
Ribeirão Preto, Natal 1997
era eu mesmo me derretendo.
Todos os dias, o dia.
Aqui estou eu, de repente, o mesmo,
no ermo recanto das flores
da infância de mim mesmo.
Aqui estou eu, como num sonho
ou num porto-fragmento
do que já fui, perdido no tempo.
Irrompo aos gritos a casa ensolarada
e tudo brilha e está em seu lugar
enquanto gira ao redor do nada.
Aquelas manhãs na fazenda
ainda existem, não se perderam, estão lá
agora,
você que é o sempre ausente.
Mas espere
ainda há esperança, e por mais um dia
por dádiva dos deuses
que giram todos os dias
a roda do destino
eu apareço, inteiro.
As terras
ainda estão aqui, generosas
e fecundas, vermelhas.
Ainda não vendemos
nossa memória, nem mesmo o medo
de menino sozinho no quarto escuro...
e já acaba o óleo da lamparina
papai e mamãe dormem
do outro lado da enorme casa
e a sombra bruxeleia na parede escura,
no forro passeiam gambás
aranhas e baratas
infestam o chão a esta hora.
O banheiro
está do outro lado do mundo
no fim do corredor
imenso de assoalho vermelho.
Se acordo meu pai
ele vai ficar bravo e vai ser pior.
Fazer xixi na cama
é até gostoso
(o prenúncio
de um prazer maior),
é quentinho
e com este calor logo seca, ninguém nota.
Meu irmão dorme na cama ao lado
e estas duas camas parecem agora dois barcos
que se separam no enorme mar do tempo.
Tenho medo
de ficar sozinho.
E se meus pais morrerem?
(Ensaio na madrugada o sofrimento da desgraça
que durante a vida inteira espero que aconteça).
Rompe o dia.
Assisto
pela janela encardida a delicadeza da aurora
e com pijamas saio lá fora.
Estou na varanda. Ouço pássaros novos
e vacas rumo aos currais de outrora.
Do pomar irrompe um porco
que como tudo agora é puro mistério e delicadeza
banhado de luz dourada.
A doçura é tanta
que acuado volto para cama.
O que mais dança
no centro do meu peito?
Antigas penteadeiras
de madeira de lei
ou mármore de carrara.
Jarras de prata, tachos
de cobre
onde ferve a minha carne
mexida pela preta velha
que pica e cospe tabaco
junto ao seu fogão de cinzas e lenha.
Posso vê-la, de longe
varrendo pétalas e poeira
sobre as pedras do terreiro.
-- Aí! D. Paula!
Esse pirão é feito de água ou leite?
-- De água, fiô, de água.
Espelhos.
Piso de tábua larga.
Ping-pong com besouros.
Sapos de línguas longas.
Cavalos mangalarga
desembestados no pasto largo.
Briga de bois bravos
a despedaçar o curral.
E os homens munidos com varas e paus.
-- Ôôo! Pierrô! Eiaa! Apolo!
E depois a calmaria
da tarde de rolinhas
aninhando-se no enorme pau-d'alho
as borboletas com grande olhos
o pôr do sol.
O pôr do sol mais belo
e mais longo do mundo.
Mas ainda há tempo para mais um mergulho
na piscina de água corrente
onde antigamente era lavadouro de café.
Ainda há tempo
para uma espiga de milho quente,
para um copo de leite,
um punhado de jabuticabas,
um roubo de pitangas,
uma guerra de cevada.
Ainda há tempo, antes
que caia novamente a noite...
Que venham! Que venham!
No mar do naufrágio de agora
os escombros dos dias plenos.
(Hoje queremos apenas
que as crianças cresçam
e ganhar muito dinheiro).
Ribeirão Preto, Natal 1997
1 030
Renato Rezende
A Idade de Cristo
I.
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
1 222
Renato Rezende
O Cofre
Quando morrer quero ir pro Céu.
E sei que vou. E sei que vou.
Cumprir a vida e voltar à Casa.
Voltar à Casa. Voltar à Casa.
Minha família guarda uma cama para mim
num quarto que é meu, com coisas que, embora há muito abandonadas
ainda são minhas, e se alegrariam com minha presença;
livros que jamais reli, velhas cartas, velhos poemas,
desenhos velhos,
uma caixa só de fotografias, coisas que, se desaparecessem
me deixariam perplexo e mudo, como se eu tivesse morrido um pouco.
Sei que desaparecem pouco a pouco,
assim como eu também morro. Mas, por enquanto,
lá estão elas
num armário de um quarto onde estou (não estando);
e esse saber me reconforta.
Lá está o banho quente
do meu corpo agora cansado.
Lá está a comida gostosa, à vontade
para quem está com fome agora, num hotel sujo
sem coragem de sair à rua, um refúgio
que mais parece um esconderijo, mas que facilmente poderia ser
um Palácio iluminado.
Olhando a chuva fina, contra a lua dourada
penso na vida que é minha
e se mascara em tantas vidas.
A casa da minha família
não é mais a minha casa.
Qualquer lugar, o mundo estranho
se torna o bom quarto, a cama, o travesseiro
para o coração arrombado,
como um velho cofre, de cobre, que pulsa
apesar de tudo
e que no fundo ainda pula
de alegria.
Rio de Janeiro, 19 de novembro 1998
E sei que vou. E sei que vou.
Cumprir a vida e voltar à Casa.
Voltar à Casa. Voltar à Casa.
Minha família guarda uma cama para mim
num quarto que é meu, com coisas que, embora há muito abandonadas
ainda são minhas, e se alegrariam com minha presença;
livros que jamais reli, velhas cartas, velhos poemas,
desenhos velhos,
uma caixa só de fotografias, coisas que, se desaparecessem
me deixariam perplexo e mudo, como se eu tivesse morrido um pouco.
Sei que desaparecem pouco a pouco,
assim como eu também morro. Mas, por enquanto,
lá estão elas
num armário de um quarto onde estou (não estando);
e esse saber me reconforta.
Lá está o banho quente
do meu corpo agora cansado.
Lá está a comida gostosa, à vontade
para quem está com fome agora, num hotel sujo
sem coragem de sair à rua, um refúgio
que mais parece um esconderijo, mas que facilmente poderia ser
um Palácio iluminado.
Olhando a chuva fina, contra a lua dourada
penso na vida que é minha
e se mascara em tantas vidas.
A casa da minha família
não é mais a minha casa.
Qualquer lugar, o mundo estranho
se torna o bom quarto, a cama, o travesseiro
para o coração arrombado,
como um velho cofre, de cobre, que pulsa
apesar de tudo
e que no fundo ainda pula
de alegria.
Rio de Janeiro, 19 de novembro 1998
719
Renato Rezende
Andaluza
A janela de serviço do pequeno apartamento
de Granada, onde morava com minha família
(eu, meu marido, três filhos, a empregada)
era também pequena, mas dava
para a rua ensolarada: as copas das árvores
das alamedas de Granada, e a vida, que passava
(sempre!) longe e iluminada.
Nova York, setembro 1995
de Granada, onde morava com minha família
(eu, meu marido, três filhos, a empregada)
era também pequena, mas dava
para a rua ensolarada: as copas das árvores
das alamedas de Granada, e a vida, que passava
(sempre!) longe e iluminada.
Nova York, setembro 1995
706
Zulmira Ribeiro Tavares
Maioridade da mãe
Aberta a porta da rua
por ela escaparam curiosas
crianças-criaturas-transeuntes
luminescentes tortas rebarbativas.
Gritaram pela porta aberta:
São suas
e da casa saem.
Não são minhas
não é meu o peso
que me escapa pela porta –
devolvi como resposta
como devolução definitiva.
por ela escaparam curiosas
crianças-criaturas-transeuntes
luminescentes tortas rebarbativas.
Gritaram pela porta aberta:
São suas
e da casa saem.
Não são minhas
não é meu o peso
que me escapa pela porta –
devolvi como resposta
como devolução definitiva.
731
Luci Collin
DE SOMBREAÇÃO
quando eu vivia na casa da rua anis
os cômodos e os exemplos eram imensos
calor abatumado na água-furtada
os insetos tergiversavam
e as rãs e os sorrisos eram de cristal holoédrico
uma mão regia os contratempos
os cometas eram inexplicáveis
as uvas de cera eram jacobinas
o amuo era sustado com água vegetomineral
elogio à lerdeza e à pantofagia
baralhando as notícias do jornal
um quelônio às vezes emergia da horta
para surpresa dos anões estáticos
para desespero da tia-avó manquitola
para a emoção do mamoneiro
quando viviam todos na casa e ainda eu
os genuflexórios levavam a alturas máximas
e eram temíveis as quedas e as vertigens súbitas
e eram temíveis as asas enferrujadas
e eram temíveis os olhos búricos
os sapatos haviam conhecido todas as ruas
as sacolas haviam carregado curiosos pesos
os compassos haviam desenhado todos os círculos
os ombros haviam acumulado elegias
eu dançava para que as acácias brotassem
eu dançava para que o doce desse ponto
eu dançava para que os vértices coincidissem
eu dançava pela alma dos afogados
me impressionavam as hagiografias
me impressionavam as vidas das criadas
a prataria escurecendo me impressionava
as joias na caixa me impressionavam muito
os dentes podres
a tabuada era um tratado de versificação
os espelhos tinham valsas embutidas
o tule sinonimizava voto e desejo
os desvãos do corpo eram grandezas incertas
e grudada nos rostos e colada às mãos e à pele
e às vozes mais delicadas mais desaplaudidas
ia insistia afincava
a aula magna do tempo
os cômodos e os exemplos eram imensos
calor abatumado na água-furtada
os insetos tergiversavam
e as rãs e os sorrisos eram de cristal holoédrico
uma mão regia os contratempos
os cometas eram inexplicáveis
as uvas de cera eram jacobinas
o amuo era sustado com água vegetomineral
elogio à lerdeza e à pantofagia
baralhando as notícias do jornal
um quelônio às vezes emergia da horta
para surpresa dos anões estáticos
para desespero da tia-avó manquitola
para a emoção do mamoneiro
quando viviam todos na casa e ainda eu
os genuflexórios levavam a alturas máximas
e eram temíveis as quedas e as vertigens súbitas
e eram temíveis as asas enferrujadas
e eram temíveis os olhos búricos
os sapatos haviam conhecido todas as ruas
as sacolas haviam carregado curiosos pesos
os compassos haviam desenhado todos os círculos
os ombros haviam acumulado elegias
eu dançava para que as acácias brotassem
eu dançava para que o doce desse ponto
eu dançava para que os vértices coincidissem
eu dançava pela alma dos afogados
me impressionavam as hagiografias
me impressionavam as vidas das criadas
a prataria escurecendo me impressionava
as joias na caixa me impressionavam muito
os dentes podres
a tabuada era um tratado de versificação
os espelhos tinham valsas embutidas
o tule sinonimizava voto e desejo
os desvãos do corpo eram grandezas incertas
e grudada nos rostos e colada às mãos e à pele
e às vozes mais delicadas mais desaplaudidas
ia insistia afincava
a aula magna do tempo
701
Renato Rezende
O Quarto
Aqui ficará a mesa,
e nessa gaveta
os novos poemas que escreverei;
aqui a vitrola
e os discos;
ali os livros,
a cama, a cadeira, a roupa,
a máquina de escrever.
Aqui (por quanto tempo?)
passará minha vida.
Boston, setembro 1990
e nessa gaveta
os novos poemas que escreverei;
aqui a vitrola
e os discos;
ali os livros,
a cama, a cadeira, a roupa,
a máquina de escrever.
Aqui (por quanto tempo?)
passará minha vida.
Boston, setembro 1990
734
Paulo Henriques Britto
VÉSPERA
No trivial do sanduíche a morte aguarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.
A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,
recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.
A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.
A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,
recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.
A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.
709
Paulo Henriques Britto
nenhum mistério - X
Dentro da noite por fim construída
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
727
Ricardo Aleixo
Mesmo esta, agora, é
Nunca pude escrever nem uma
única linha sobre as casas onde morei.
Nunca, para você ter uma idéia,
alguma delas amanheceu com
estrondos, fendas inexplicáveis ou um
gato degolado junto às rosas
e à pequena horta.
Eram casas, apenas. Estruturas,
antienigmas, pedras encimando
pedras. Mesmo esta, agora, é
uma mera máquina de signos –
demasiado gastos para que se extraia
dela, na melhor das hipóteses, mais
que uma outra (mera) máquina de
signos gastos.
única linha sobre as casas onde morei.
Nunca, para você ter uma idéia,
alguma delas amanheceu com
estrondos, fendas inexplicáveis ou um
gato degolado junto às rosas
e à pequena horta.
Eram casas, apenas. Estruturas,
antienigmas, pedras encimando
pedras. Mesmo esta, agora, é
uma mera máquina de signos –
demasiado gastos para que se extraia
dela, na melhor das hipóteses, mais
que uma outra (mera) máquina de
signos gastos.
742
Paulo Henriques Britto
X
Dentro da noite por fim construída
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
751
Cida Pedrosa
UM CERTO SOL SOBRE SÃO PAULO
para maria josé oiticica
o sol se põe em são paulo
a brisa rasteira
rasteja meus pés
que se põem entre o azul
e o mostarda do sofá da tua sala
o sol se põe
sob os aviões da planície
e eu
pássaro aceso
espero
nesta casa de marias
que voam nas asas da panair
o sol se põe sob são paulo
e eu
pássaro sem saída
grito
teu nome de ateu
são paulo anda à margem
à margem de mim
à margem de ti
à margem de nós
são paulo anda à margem do mar
e o pôr do sol voa mais alto
que as luzes de neon
o sol se põe em são paulo
a brisa rasteira
rasteja meus pés
que se põem entre o azul
e o mostarda do sofá da tua sala
o sol se põe
sob os aviões da planície
e eu
pássaro aceso
espero
nesta casa de marias
que voam nas asas da panair
o sol se põe sob são paulo
e eu
pássaro sem saída
grito
teu nome de ateu
são paulo anda à margem
à margem de mim
à margem de ti
à margem de nós
são paulo anda à margem do mar
e o pôr do sol voa mais alto
que as luzes de neon
809
Mailson Furtado Viana
a estante deslocou a sala
a estante deslocou a sala
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
663
Maria Lúcia Dal Farra
Artes
Evito rimas, recuso acrobacias
apenas do frugal me ocupo inteira:
tomo como medida o arame do varal
e entremeio nele (sensual, promíscua)
toalha de mesa com lençol.
A casa deságua no quintal,
alta se amolda aos ramos das mangueiras.
De quando em vez faz rumo, sai pra rua
(sem pelo) presa pela lua cheia
ou terna atrás de longe realejo.
Fica tudo quarando enquanto
cozinho ou vasculho a cumeeira
(esteio onde é mais vivo o espírito do meu pai)
e escapa das molduras uma aura, um certo enleio
com que apanho luz para as candeias,
com que canto funcionando este tear.
apenas do frugal me ocupo inteira:
tomo como medida o arame do varal
e entremeio nele (sensual, promíscua)
toalha de mesa com lençol.
A casa deságua no quintal,
alta se amolda aos ramos das mangueiras.
De quando em vez faz rumo, sai pra rua
(sem pelo) presa pela lua cheia
ou terna atrás de longe realejo.
Fica tudo quarando enquanto
cozinho ou vasculho a cumeeira
(esteio onde é mais vivo o espírito do meu pai)
e escapa das molduras uma aura, um certo enleio
com que apanho luz para as candeias,
com que canto funcionando este tear.
608
Maria Lúcia Dal Farra
Vida cava
Velho sofá de taquara da casa da Curuzu,
em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardar o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.
Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê –
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.
Ah que saudades desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!
em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardar o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.
Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê –
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.
Ah que saudades desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!
647
Paulo Teixeira
Mulher à janela
Ela queria tomar o partido do visível,
a visão como vela armada para a viagem,
tensa como a corda do arco
na suspensão do gesto inocente sobre a seta.
Debruçada, num ofício de corpo presente,
viu passar toda a blandícia na brisa.
Agora recolhe-se ao copo facetado
de que uma só face dá para o mundo
como a alma no azul escuro de um vitral,
o vinho quente no fundo de um cálice:
o quarto onde guarda o estojo da sua vida
com o sombreamento do dia no soalho.
Exasperada pela cintura de gelo da vidraça,
para onde declina lentamente a face,
estenderia o braço se o ser em cada coisa
lhe fosse dado tocar: o mundo
de que ela fosse mais que o alto-relevo
fixo para sempre na moldura da janela.
a visão como vela armada para a viagem,
tensa como a corda do arco
na suspensão do gesto inocente sobre a seta.
Debruçada, num ofício de corpo presente,
viu passar toda a blandícia na brisa.
Agora recolhe-se ao copo facetado
de que uma só face dá para o mundo
como a alma no azul escuro de um vitral,
o vinho quente no fundo de um cálice:
o quarto onde guarda o estojo da sua vida
com o sombreamento do dia no soalho.
Exasperada pela cintura de gelo da vidraça,
para onde declina lentamente a face,
estenderia o braço se o ser em cada coisa
lhe fosse dado tocar: o mundo
de que ela fosse mais que o alto-relevo
fixo para sempre na moldura da janela.
767
Paulo Teixeira
Paisagem de inverno com igreja
«Nem braçada de lenha ou polvorinho de chifre
assinalam à maneira de cascos o caminho.
Nem berro de animal ou som de corneta acústica
se ouvem no deserto que vai de mim ao vulto
das montanhas como velas enfunadas na bruma.
A terra mudamente foi lavada pela neve
que a noite ilumina com a luz de branca cambraia
ou linho. Descarnadas foram as peles
e passada a carne pelo fumeiro.
Todos beberam esse licor de pétalas maceradas
sentados na távola redonda do entardecer.
Mas nem a luz das candeias nas janelas
ou o vapor doce da comida me dizem,
enquanto um rosário fremente passa
nas mãos frias, “Vem”, “É aqui a tua casa”.»
assinalam à maneira de cascos o caminho.
Nem berro de animal ou som de corneta acústica
se ouvem no deserto que vai de mim ao vulto
das montanhas como velas enfunadas na bruma.
A terra mudamente foi lavada pela neve
que a noite ilumina com a luz de branca cambraia
ou linho. Descarnadas foram as peles
e passada a carne pelo fumeiro.
Todos beberam esse licor de pétalas maceradas
sentados na távola redonda do entardecer.
Mas nem a luz das candeias nas janelas
ou o vapor doce da comida me dizem,
enquanto um rosário fremente passa
nas mãos frias, “Vem”, “É aqui a tua casa”.»
533