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Poemas neste tema

Casa e Lar

Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Prelúdios

1
Recuo diante de uma coisa que se arrasta de lado pela
tempestade de neve.
Fragmento do que está para vir.
Uma parede esboroando-se. Uma coisa sem olhos. Rija.
Um rosto de dentes.
Uma parede solitária. Ou é uma casa que ali está
embora a não consiga ver?
O futuro … um exército de casas vazias
tacteando o caminho pela neve que cai. 

2
Duas verdades aproximam-se uma da outra. Uma vem de dentro,
outra de fora,
e onde se encontram é possível ter um indício
de nós.

O homem que vê o que está para acontecer grita desvairado
“Alto!
Seja o que for, desde que não tenha de me conhecer a mim mesmo.”

E há um barco que se quer amarrar à terra – insiste mesmo
aqui –
de facto insistirá ainda milhares de vezes.

Da escuridão dos bosques surge um longo arpão,
irrompe pela janela aberta
entre os convidados que aquecem dançando.

3
O apartamento onde vivi metade da minha vida tem de ficar vazio. Já não tem nada. A âncora tem
de subir – apesar do peso da tristeza, é o apartamento mais leve de toda a cidade. A verdade não
precisa de nenhuma mobília. A minha vida fechou agora um grande círculo e voltou ao ponto de
partida: uma sala vazia. Coisas que nela vivi tornam-se visíveis nas paredes iguais a pinturas
egípcias, murais duma câmara funerária. Imagens esbatendo-se devido a uma luz excessiva. As
janelas mais largas. O apartamento vazio é um grande telescópio apontado ao céu. É silencioso
como um ritual Quaker. Tudo o que podes escutar são as pombas nas traseiras, o arrulhar delas.
702
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Ajudando o Velho

hoje eu estava na fila do banco
quando um cara velho à minha frente
deixou seus óculos caírem (por sorte, dentro do
estojo)
e ao se abaixar para pegá-los
pude ver como aquilo era difícil para
ele
e eu disse, “espere, deixa que eu
pego...”
mas assim que apanhei
ele deixou cair sua bengala
uma bengala linda, negra e
encerada
e eu lhe devolvi os óculos
e então fui apanhar a bengala
amparando o velho
enquanto lhe devolvia sua bengala.
ele não dizia nada,
apenas sorriu pra mim.
então se virou para
frente
fiquei atrás dele esperando
minha vez.

A casa onde eu morava nessa época tinha algumas qualidades. Uma das mais bacanas era o quarto, pintado de um azul muito escuro. Esse azul muito escuro oferecia um abrigo para muitas ressacas, algumas delas suficientemente brutais para matar um homem, sobretudo numa época em que eu engolia as pílulas que as pessoas me davam sem me preocupar em perguntar o que eram. Algumas noites eu sabia que, se adormecesse, morreria. Ficava dando voltas sozinho a noite toda, do quarto ao banheiro e do banheiro à cozinha, passando pela sala da frente. Abria e fechava a geladeira, repetidas vezes. Abria e fechava as torneiras. Ia ao banheiro e abria e fechava as torneiras. Dava descargas na privada. Puxava as orelhas. Inspirava e expirava. Depois, quando o sol saía, eu sabia que estava salvo. Aí dormia com as paredes azuis azuis azuis, curando-me.
Outra característica da casa eram as batidas à porta, de mulheres desagradáveis, às três ou quatro horas da manhã. Certamente não eram damas de grande encanto, mas tendo uma mente meio idiota eu achava que de algum modo elas me traziam aventura. A verdade mesmo é que a maioria delas não tinha outro lugar para ir. E gostavam do fato de que havia bebida e de que eu não fazia muita força pra ir pra cama com elas.
Evidentemente, depois que conheci Sarah, essa parte do meu estilo de vida mudou bastante.
Aquele bairro, nos arredores da Carlton Way, perto da Avenida Western, também mudava. Antes era quase todo de classe média branca, mas os problemas políticos na América Central e em outras partes do mundo haviam trazido um outro tipo de indivíduo para a área. Os homens eram geralmente baixos, escuros ou morenos claros, geralmente jovens. Havia esposas, filhos, irmãos, primos, amigos. Começaram a inundar os apartamentos e pátios. Viviam muitos num mesmo apartamento, e eu era um dos poucos brancos que restavam no complexo em torno do pátio.
As crianças corriam de um lado para outro, subiam e desciam a ajardinada alamedazinha do pátio. Pareciam todas entre os dois e os sete anos. Não tinham bicicletas nem brinquedos. Raramente se viam as esposas. Ficavam dentro de casa, escondidas. Muitos dos homens também permaneciam trancados. Não era bom deixar o senhorio saber quantas pessoas moravam numa única unidade. Os únicos homens que se viam eram os inquilinos legais. Pelo menos eles pagavam os aluguéis. Como sobreviviam, não se sabia. Os homens eram pequenos, magros, calados, sérios. A maioria sentava-se de camiseta nos degraus das varandas, um pouco caídos para a frente, uma vez ou outra fumando cigarros. Sentavam-se nos degraus das varandas durante horas, imóveis. Às vezes compravam carros muito velhos em sucatas e os dirigiam devagar pelo bairro. Não tinham seguro para o carro nem carteira de motorista, e rodavam com placas vencidas. A maioria dos carros tinha freios ruins. Os homens quase nunca paravam no sinal da esquina, e muitas vezes não respeitavam o sinal vermelho, mas havia poucos acidentes. Alguma coisa cuidava deles.
Após um tempo, os carros quebravam mas meus novos vizinhos não os abandonavam na rua. Faziam-nos subir as alamedas e os estacionavam diante de suas portas. Primeiro trabalhavam no motor. Tiravam o capô, e o motor enferrujava-se na chuva. Depois punham o carro sobre cepos e tiravam as rodas. Levavam-nas para dentro de casa e as mantinham lá, para que não as roubassem durante a noite.
Quando eu vivia lá, havia duas filas de carros no pátio, assentados em cepos. Os homens sentavam-se imóveis em suas varandas, de camiseta. Às vezes eu balançava a cabeça ou acenava para eles. Jamais retribuíam. Aparentemente, não compreendiam nem liam os avisos de despejo que arrancavam, mas eu os via examinando os jornais de L.A. Eram estoicos e resistentes porque, comparadas com o lugar de onde vinham, as coisas agora eram fáceis.
Bem, deixa pra lá. Meu consultor de impostos sugerira que eu comprasse uma casa, e assim, para mim, não se tratava na verdade de uma “fuga branca” diante dos invasores. Embora, quem sabe? Eu notara que, toda vez que me mudara em Los Angeles, no correr dos anos, toda mudança fora sempre para o Norte ou o Oeste.
Finalmente, após algumas semanas de busca da casa, encontramos a certa. Após a entrada, as prestações mensais chegavam a 789,81 dólares. Tinha uma enorme sebe na frente, na rua, e o pátio também ficava na frente, de modo que a casa ficava recuada no terreno. Parecia um lugar danado de bom pra gente se esconder. Tinha até uma escada, um andar de cima com um quarto, banheiro e o que iria se tornar minha sala de trabalho. E haviam deixado lá uma mesa velha, uma coisa enorme, feia e velha. Agora, décadas depois, eu era um escritor que tinha uma mesa. Sim, senti o temor, o temor de me tornar igual a eles. Pior, eu tinha uma encomenda para escrever um argumento. Estaria condenado e amaldiçoado, estaria para ser sugado até o fim? Não achava que seria assim. Mas será que alguém acha, algum dia?
Sarah e eu transferimos nossos poucos bens para lá.
O grande momento chegou. Pus a máquina de escrever em cima da mesa, encaixei uma folha de papel e bati nas teclas. A máquina ainda funcionava. E havia bastante espaço para um cinzeiro, o rádio e a garrafa. Não deixem ninguém convencê-los de outra coisa. A vida começa aos 65.
– Hollywood
1 267
Charles Bukowski

Charles Bukowski

15H16 e Trinta Segundos…

aqui sou em suposição um grande poeta
e eu sonolento no meio da tarde
aqui estou consciente de que a morte é um grande touro
avançando contra mim
e eu sonolento no meio da tarde
aqui estou consciente das guerras e dos homens lutando no ringue
e estou consciente da boa comida e do vinho e das boas mulheres
e eu sonolento no meio da tarde
consciente do amor de uma mulher
e eu sonolento no meio da tarde,
me inclino na direção da luz solar por trás de uma cortina amarela
me pergunto onde foram parar as moscas de verão
me lembro da mais que sangrenta morte de Hemingway
e eu sonolento no meio da tarde.
algum dia não estarei sonolento no meio da tarde
algum dia escreverei um poema que trará vulcões
às montanhas lá fora
mas por ora sigo sonolento no meio da tarde
e alguém me pergunta, “Bukowski, que horas são?”
e eu respondo, “15h16 e trinta segundos”.
me sinto culpado, odioso, inútil,
demente, me sinto
sonolento no meio da tarde,
estão bombardeando as igrejas, o.k., isto está bem,
as crianças montam seus pôneis no parque, o.k., isto está bem,
as bibliotecas estão repletas de milhares de livros doutos,
há uma música dentro do rádio mais próximo
e eu sonolento no meio da tarde,
tenho esta tumba dentro de mim que diz,
ah, deixa que os outros façam, deixa que eles vençam,
me deixa dormir,
a sabedoria está no escuro
varrendo o escuro como vassouras,
vou para onde foram as moscas de verão,
tente me agarrar.

Assim, lá estava eu, com mais de 65 anos, procurando minha primeira casa. Lembro-me de que meu pai praticamente hipotecou sua vida inteira para comprar uma casa. Ele me disse: “Escute, eu vou pagar a vida inteira por uma casa, e quando eu morrer você ficará com essa casa, e durante a vida inteira você pagará por uma casa, e quando morrer deixará duas casas pra seu filho. Com isso são duas casas. Depois seu filho...”
Todo esse processo me parecia terrivelmente lento: casa por casa, morte por morte. Dez gerações, dez casas. Depois, bastaria uma só pessoa para perder todas elas no jogo ou queimar tudo com um fósforo e sair correndo pela rua abaixo com os bagos num balde de colher frutas.
Agora eu procurava uma casa que na verdade não queria, e ia escrever um argumento que na verdade não queria escrever. Começava a perder o controle e compreendia isso, mas parecia incapaz de reverter o processo.
A primeira corretora em que paramos foi em Santa Mônica. Chamava-se Imobiliária Século Vinte. Ora, isso é que era ser moderno.
– Posso ajudá-lo?
– Queremos comprar uma casa – eu disse.
O cara jovem apenas virou a cabeça para um lado e continuou desviando o olhar. Passou-se um minuto. Dois minutos.
– Vamos embora – eu disse a Sarah.
Voltamos ao carro e ligamos o motor.
– Que foi aquilo? – perguntou Sarah.
– Ele não queria fazer negócio com a gente. Deu uma avaliada e achou que éramos indigentes, sem valor. Achou que a gente ia desperdiçar o tempo dele.
– Mas não é verdade.
– Talvez não, mas a coisa toda me fez sentir como se eu estivesse coberto de lodo.
Eu dirigia o carro, mal sabendo aonde ia.
De alguma forma, aquilo doera. Claro, eu estava de ressaca e precisava de uma barbeada, e sempre usara roupas que de algum modo pareciam não me assentar bem, e talvez todos aqueles anos de pobreza me houvessem dado uma certa aparência. Mas não achava sensato julgar uma pessoa pela aparência externa daquele jeito. Eu preferiria muito mais julgar uma pessoa pelo jeito de ela agir e falar.
– Nossa – dei uma risada –, talvez ninguém nos venda uma casa.
– Aquele cara era um idiota – disse Sarah.
– A Imobiliária Século Vinte é uma das maiores redes do estado.
– O cara era um idiota – ela repetiu.
Eu ainda me sentia diminuído. Talvez fosse mesmo meio babaca. Só sabia bater à máquina – às vezes.
Passávamos por uma área de colinas.
– Onde estamos? – perguntei.
– Topanga Canyon – respondeu Sarah.
– Este lugar parece fodido.
– É legal, a não ser pelas inundações, pelos incêndios e tipos neo-hippies fracassados.
Então eu vi o anúncio: PORTO DOS MACACOS. Era um bar. Encostei e saltamos. Havia um monte de motos na frente. Às vezes chamavam as motos de porcos.
Entramos. Estava cheio pra burro. Caras de blusão de couro. Caras usando echarpes imundas. Alguns tinham cicatrizes no rosto. Outros, barbas que não cresciam lá muito bem. A maioria de olhos azul-claros, redondos e apáticos. Sentavam-se muito quietos, como se estivessem ali há semanas.
Pegamos dois tamboretes.
– Duas cervejas – eu disse. – Qualquer coisa engarrafada.
O garçom afastou-se.
Vieram as cervejas e Sarah e eu tomamos uma golada.
Então percebi um rosto projetado para a frente ao longo do balcão, encarando a gente. Um rosto muito gordo, com um toque de imbecil. Era um jovem de cabelos e barba de um vermelho sujo, mas de sobrancelhas branquíssimas. O lábio inferior pendia como se um peso invisível o puxasse para baixo, retorcido, deixando ver o interior úmido e espumante.
– Chinaski – ele disse –, filho da puta, é CHINASKI!
Eu fiz um pequeno aceno, depois olhei em frente.
– Um de meus leitores – disse a Sarah.
– Oh oh – ela disse.
– Chinaski – ouvi outra voz à direita.
– Chinaski – mais outra.
Um uísque surgiu à minha frente. Ergui-o.
– Obrigado, companheiros!
E emborquei-o.
– Vá com calma – disse Sarah. – Você se conhece. Não vamos sair daqui nunca.
O garçom trouxe outro uísque. Era um carinha com o rosto cheio de manchas vermelho escuro. Parecia mais mau do que qualquer outro ali dentro. Apenas ficava ali, me encarando.
– Chinaski – disse –, o maior escritor do mundo.
– Se você insiste – eu disse, e ergui o copo de uísque.
Depois passei-o para Sarah, que o emborcou.
Ela tossiu um pouco e depositou o copo.
– Só bebi esse pra salvar você.
Um pequeno grupo se formava aos poucos atrás da gente.
– Chinaski. Chinaski. Filho da puta... Li todos os seus livros. TODOS OS SEUS LIVROS!... Posso te dar um pontapé na bunda, Chinaski... Escuta, Chinaski, seu pau ainda sobe? Chinaski, Chinaski, posso ler um de meus poemas pra você?
Paguei ao garçom, descemos dos tamboretes e nos dirigimos para a porta. Tornei a notar os blusões de couro, a suavidade dos rostos e a sensação de que não havia muita alegria ou audácia em nenhum deles. Faltava totalmente alguma coisa nos pobres sujeitos, e alguma coisa em mim doeu, apenas por um instante, e senti vontade de abraçá-los, consolá-los e beijá-los como um Dostoiévski, mas sabia que isso no fim não levaria a nada, a não ser ao ridículo e à humilhação, para mim mesmo e para eles. De algum modo, o mundo tinha ido longe demais, e a bondade espontânea jamais poderia ser tão fácil. Era algo por que teríamos de tornar a batalhar.
Eles nos seguiram até o lado de fora.
– Chinaski, Chinaski... Quem é sua bela dama? Você não merece ela, cara!... Entre, Chinaski, fique e beba com a gente! Seja legal, vá! Seja como sua literatura, Chinaski! Não seja um chato!
Tinham razão, é claro. Entramos no carro, liguei o motor e passamos devagar por entre eles, que se amontoavam à nossa volta, cedendo aos poucos, alguns jogando beijos, outros me mostrando o dedão, uns poucos batendo nas janelas. Atravessamos.
Chegamos à estrada e fomos em frente.
– Então – disse Sarah –, aqueles são os seus leitores?
– A maioria deles, creio.
– Será que ninguém inteligente lê você?
– Espero que sim.
Continuamos rodando sem dizer nada. Depois Sarah perguntou:
– Em que está pensando?
– Dennis Body.
– Dennis Body? Quem é?
– Era meu único amigo na escola primária. Imagino o que terá acontecido com ele.
– Hollywood
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Morte do Pai

Minha mãe morrera um ano antes. Uma semana após a morte de meu pai, eu estava na casa dele, sozinho. Era em Arcadia, e o mais perto que eu chegara daquela casa em algum tempo fora ao passar pela autoestrada a caminho de Santa Anita.
Eu era desconhecido para os vizinhos. O funeral acabara, e eu me dirigi à pia, enchi um copo d’água, bebi-o, depois saí.
Sem saber que outra coisa fazer, peguei a mangueira, abri a água e comecei a aguar os arbustos. Cortinas correram enquanto eu estava parado no gramado da frente. Depois eles começaram a sair de suas casas. Uma mulher veio do outro lado da rua.
– Você é Henry? – ela me perguntou.
Respondi-lhe que era Henry.
– Conhecíamos seu pai há anos.
Aí o marido aproximou-se.
– Conhecemos sua mãe também – ele disse.
Eu me curvei e fechei a mangueira.
– Não querem entrar? – perguntei.
Eles se apresentaram como Tom e Nellie Miller, e entramos em casa.
– Você é a cara do seu pai.
– É, é o que me dizem.
Sentamo-nos e ficamos olhando uns para os outros.
– Oh – disse a mulher –, ele tinha tantos quadros. Devia gostar de quadros.
– É, gostava, né?
– Eu adoro aquele quadro do moinho no pôr do sol.
– Pode ficar com ele.
– Oh, posso?
A campainha tocou. Eram os Gibsons. Eles me disseram que também tinham sido vizinhos de meu pai durante anos.
– Você é a cara do seu pai – disse a sra. Gibson.
– Henry nos deu o quadro do moinho.
– Isso é ótimo. Eu adoro aquele quadro do cavalo azul.
– Pode ficar com ele, sra. Gibson.
– Oh, não está falando sério.
– Sim, está tudo bem.
A campainha tornou a tocar, e outro casal entrou. Deixei a porta entreaberta. Logo um homem enfiou a cabeça.
– Eu sou Doug Hudson. Minha esposa está no cabeleireiro.
– Entre, sr. Hudson.
Outros chegaram, a maioria aos pares. Começaram a circular pela casa.
– Vai vender a casa?
– Acho que vou.
– É um bairro adorável.
– Estou vendo.
– Oh, eu adoro aquela moldura, mas não gosto do quadro.
– Leve a moldura.
– Mas que vou fazer com o quadro?
– Jogue no lixo. – Olhei em volta. – Se alguém vir um quadro que goste, por favor, leve.
Pegaram. Em breve as paredes estavam nuas.
– Você precisa dessas cadeiras?
– Não, na verdade, não.
Passantes entravam da rua, nem todos se davam o trabalho de se apresentar.
– E o sofá? – perguntou alguém em voz muito alta. – Você quer?
– Não quero o sofá – eu disse.
Levaram o sofá, depois a mesa do café da manhã e as cadeiras.
– Tem uma torradeira aí, não tem, Henry?
Levaram a torradeira.
– Não precisa dos pratos, precisa?
– Não.
– E a prataria?
– Não.
– E a chaleira e o liquidificador?
– Levem.
Uma das senhoras abriu um armário na varanda dos fundos.
– E todas essas frutas em conserva? Você jamais vai poder comer tudo isso.
– Tudo bem, peguem todos um pouco. Mas tentem dividir igualmente.
– Oh, eu quero os morangos!
– Oh, eu quero os figos!
– Oh, eu quero a geleia!
As pessoas saíam e voltavam, trazendo outras consigo.
– Escuta, tem uma garrafa de uísque aqui no armário! Você bebe, Henry?
– Deixe o uísque.
A casa estava ficando lotada. A descarga do banheiro funcionou. Alguém derrubou um copo da pia e quebrou-o.
– É melhor ficar com esse aspirador, Henry. Pode usar ele em seu apartamento.
– Tudo bem, vou ficar.
– Ele tinha umas ferramentas de jardinagem na garagem. E elas?
– Não, é melhor eu ficar com essas.
– Dou quinze dólares pelas ferramentas de jardinagem.
– Tudo bem.
Ele me deu quinze dólares e eu lhe dei a chave da garagem. Em breve se podia ouvi-lo rolando o aparador de grama para sua casa no outro lado da rua.
– Você não devia ter vendido todo aquele equipamento a ele por quinze dólares, Henry. Valia muito mais.
Não respondi.
– E o carro? Já tem quatro anos.
– Acho que vou ficar com o carro.
– Dou cinquenta dólares por ele.
– Acho que vou ficar com o carro.
Alguém enrolou o tapete da sala da frente. Depois disso, começaram a perder o interesse. Em breve restavam apenas três ou quatro, depois foram-se todos. Deixaram-me a mangueira do jardim, a cama, a geladeira e o fogão, e um rolo de papel higiênico.
Saí e fechei a porta da garagem. Dois meninos passaram de patins. Pararam quando eu fechava as portas da garagem.
– Está vendo aquele cara?
– Estou.
– O pai dele morreu.
Foram em frente. Eu peguei a mangueira, abri a torneira e comecei a aguar as rosas.
– Numa fria
1 249
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Invasão

eu não sabia que
havia algo
no closet
embora em certas noites
meu sono fosse
interrompido por estranhos
sons retumbantes
mas
sempre achei
que fossem
leves
terremotos.

o closet era
o que ficava
no fim do corredor
e
raramente era
usado.

o curioso
para mim
era que
os gatos
(eu tinha
4)
pareciam estar
deixando
enormes
excrementos
pela casa
(e eles eram
domesticados).

então
os gatos
desapareceram
um por
um
mas os excrementos
frescos
continuaram
aparecendo.

foi certa noite
enquanto eu
lia as
cotações
da bolsa de valores
que eu
ergui a cabeça

e
lá estava
o
leão
no vão da porta
do quarto.

eu estava
na cama
acomodado
em
alguns
travesseiros
e bebendo um
chocolate
quente.

ora
ninguém
acreditaria
num leão
em um
quarto –
pelo menos
não
numa cidade
de algum
tamanho.

portanto
fiquei apenas
olhando para o
leão
sem
acreditar
muito.

então
ele se virou e
desceu a
escada.

eu
o segui –
uns bons
cinco metros
atrás –
segurando firme meu
taco de beisebol
numa
das mãos
e minha
faca de lâmina curta
na
outra.

observei o
leão descendo a
escada
e depois
atravessando a sala
da frente

ele parou
diante das grandes
portas
deslizantes
de vidro recozido
que davam para o
pátio e a
rua.

elas estavam
fechadas.

o leão
emitiu um
rosnado
impaciente

e
saltou através do
vidro
estilhaçando a porta
para entrar na
noite.

eu me sentei
no sofá
no
escuro
ainda incapaz
de acreditar
naquilo
que eu
vira.

então
escutei
um grito
de tão extremo
sofrimento e
terror
que
por um
momento
não consegui
nem
ver
nem respirar nem
compreender.

eu me levantei,
voltei para
me entrincheirar
no
quarto
e o que vi foram
3 pequenos
filhotes de leão
tropeçando
escada
abaixo –
felinos
fofos
e diabólicos.

enquanto a
mãe
retornava
pela
noite e pela
porta de vidro
estilhaçada

meio arrastando
meio carregando
um homem
ensanguentado
ao longo do
tapete
deixando um
rastro
vermelho

os filhotes
se precipitaram
em frente
e a
lua
entrou na casa
para iluminar
o
turbilhonante
banquete.
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