Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Fernanda dos Santos
Pingo dagua
Esbarra ,
Cai ,
Derrama ,
pinga ,
pinga ,
pinga .
Poça ,
muda ,
estática .
Vento sopra ,
ginga ,
ginga ,
ginga .
Felpuda ,
branca ,
áspera ,
suga ,
sug ,
su ...
Cai ,
Derrama ,
pinga ,
pinga ,
pinga .
Poça ,
muda ,
estática .
Vento sopra ,
ginga ,
ginga ,
ginga .
Felpuda ,
branca ,
áspera ,
suga ,
sug ,
su ...
1 049
Fernando Guedes
A Flor
Intercepção globular
No ponto infinitamente repetido
a existência cessa
em cada instante.
Aqui. No caule ou na folha,
no golpe da enxada,
em mim ou em ti,
no lento mover da roda, no fruto,
construí a cidade.
Ceifaras no campo todo o dia
e de noite vieste ao meu encontro.
Entre o que foi e o que será
alterou-se o número
e a posição do movimento.
Nas ruas desertas
furtivos espreitam os velhos
pelos óculos das portas.
Viram-te chegar,
sabem a cor dos teus olhos
e vão dizer que és pura,
quando for meio-dia,
junto à porta grande da cidade.
Não importa que sejas estrangeira
— sou eu tua nação.
Procurei-te entre as casas,
na roda movente,
entre os grãos de milho torturado;
passei o bosque, o rio,
adormecida te encontrei
no espaço absoluto,
no vazio sempre pronto a mais vazio,
e, crescidos, teus cabelos eram um rebanho de cabras
deixando a planície.
Sete rosas marcam tua vida,
dispostas em losangos, dois losangos:
seis flores úmidas, uma de bondade,
brancas, flores brancas.
Quem te encontrar saberá
que existe um corpo existindo na distância,
fora de nós,
para lá de Andrômeda,
contemporâneo do passado,
permanente na sucessão ilimitada e necessária,
uniformemente transeunte.
No ponto infinitamente repetido
a existência cessa
em cada instante.
Aqui. No caule ou na folha,
no golpe da enxada,
em mim ou em ti,
no lento mover da roda, no fruto,
construí a cidade.
Ceifaras no campo todo o dia
e de noite vieste ao meu encontro.
Entre o que foi e o que será
alterou-se o número
e a posição do movimento.
Nas ruas desertas
furtivos espreitam os velhos
pelos óculos das portas.
Viram-te chegar,
sabem a cor dos teus olhos
e vão dizer que és pura,
quando for meio-dia,
junto à porta grande da cidade.
Não importa que sejas estrangeira
— sou eu tua nação.
Procurei-te entre as casas,
na roda movente,
entre os grãos de milho torturado;
passei o bosque, o rio,
adormecida te encontrei
no espaço absoluto,
no vazio sempre pronto a mais vazio,
e, crescidos, teus cabelos eram um rebanho de cabras
deixando a planície.
Sete rosas marcam tua vida,
dispostas em losangos, dois losangos:
seis flores úmidas, uma de bondade,
brancas, flores brancas.
Quem te encontrar saberá
que existe um corpo existindo na distância,
fora de nós,
para lá de Andrômeda,
contemporâneo do passado,
permanente na sucessão ilimitada e necessária,
uniformemente transeunte.
1 015
Flávio Sátiro Fernandes
O Ponto de Cem Réis
O Ponto de Cem Réis
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
804
Flávio Sátiro Fernandes
Toilette
1. Quem garante
que ao escovar os dentes
eu não esteja
escovando a alma?
Não sinto
o sabor de menta
ou de clorofila.
Muito menos
o hexaclorofeno.
Na boca,
apenas,
o gosto dos sonhos
da noite insone.
2. Uma mão
lava a outra
e as duas
(em concha)
lavam o desgosto.
3. O pincel,
o creme,
a espuma a se espalhar
na face descoberta.
O gesto ritual
de retirar
da têmporas
a espuma.
A lâmina afiada
a deslizar
em meu disfarce oculto.
4. O pente põe
bem comportados
os fantasmas
negros e brancos
do pesadelo de ontem.
Até que a noite
volte a confundi-los.
que ao escovar os dentes
eu não esteja
escovando a alma?
Não sinto
o sabor de menta
ou de clorofila.
Muito menos
o hexaclorofeno.
Na boca,
apenas,
o gosto dos sonhos
da noite insone.
2. Uma mão
lava a outra
e as duas
(em concha)
lavam o desgosto.
3. O pincel,
o creme,
a espuma a se espalhar
na face descoberta.
O gesto ritual
de retirar
da têmporas
a espuma.
A lâmina afiada
a deslizar
em meu disfarce oculto.
4. O pente põe
bem comportados
os fantasmas
negros e brancos
do pesadelo de ontem.
Até que a noite
volte a confundi-los.
908
Moacyr Felix
Poema quase Explicação
Luzes cortam a noite básica
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
1 301
Fernando Batinga de Mendonça
Tempo
é difícil
definir
o meu tempo:
desenhos
de fome
nas paredes
velhos meninos,
de manhã
poetas
à noite
nos quartéis.
é difícil
definir
o meu tempo:
homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais
definir
o meu tempo:
desenhos
de fome
nas paredes
velhos meninos,
de manhã
poetas
à noite
nos quartéis.
é difícil
definir
o meu tempo:
homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais
974
Fernando Braga
Longe Noturno
Meus olhos emigraram para São Luís
minha cidade pavorosamente triste,
onde um meio de céu esconde o rosto
de Deus das vidraças da planície.
Vim aqui tornar-me em arbusto
onde sou o argonauta deste verde.
Morto pão esquecido sobre a mesa
foi minha ceia incrivelmente tarda.
Noturno vinho em resto abandonado
ferve-me o corpo hipertencialmente
reto, nesta noite sem data dalguma
safra onde me disponho não mais sentir-me.
minha cidade pavorosamente triste,
onde um meio de céu esconde o rosto
de Deus das vidraças da planície.
Vim aqui tornar-me em arbusto
onde sou o argonauta deste verde.
Morto pão esquecido sobre a mesa
foi minha ceia incrivelmente tarda.
Noturno vinho em resto abandonado
ferve-me o corpo hipertencialmente
reto, nesta noite sem data dalguma
safra onde me disponho não mais sentir-me.
268
Fernando Batinga de Mendonça
As Palavras
1.
nas pedras gerais
no centro da praça,
reúno as palavras
sentado no chão.
procuro um sentido
de ferro e cimento,
na mesma palavra
um outro vestido:
2.
um novo momento.
nas pedras gerais
no centro da praça,
reúno as palavras
sentado no chão.
procuro um sentido
de ferro e cimento,
na mesma palavra
um outro vestido:
2.
um novo momento.
849
Fábio Afonso de Almeida
Édrio
Uma sombra entra no bar
Cabelos escorridos, terno barato
Olhos empapuçados e perdidos
Måos que escondem vil tremor
Dentes trincados de medo
E o gesto disfarçado, casual.
O gole. E o corpo arrepia-se numa gastura
Treme da cabeça aos pés. Os olhos inchados voltam para fora
Os olhos piscam ante o sol forte da rua
Em frente ås torres brancas
Da catedral...
Cidade maldita!
Duas torres e um rosto macilento, eu vejo
O jardim sujo em frente, os ônibus, a multidåo
Ah! A química branca e frenética!
Maldita! Maldita!
Escadas de mármore dançando ao sol
Tempo bêbado, ângulos estranhos
Cadedrais tortas da vida.
O solítário sorri dois dentes apenas
Monumental ironia. Escarnece do mundo
E a escadaria se contorce, subindo...
Alguém entende? A catedral tonta
Da cidade maldita. Os insetos da rua
Correm em fuga incerta.
A dor de Deus bebe o mundo.
Cabelos escorridos, terno barato
Olhos empapuçados e perdidos
Måos que escondem vil tremor
Dentes trincados de medo
E o gesto disfarçado, casual.
O gole. E o corpo arrepia-se numa gastura
Treme da cabeça aos pés. Os olhos inchados voltam para fora
Os olhos piscam ante o sol forte da rua
Em frente ås torres brancas
Da catedral...
Cidade maldita!
Duas torres e um rosto macilento, eu vejo
O jardim sujo em frente, os ônibus, a multidåo
Ah! A química branca e frenética!
Maldita! Maldita!
Escadas de mármore dançando ao sol
Tempo bêbado, ângulos estranhos
Cadedrais tortas da vida.
O solítário sorri dois dentes apenas
Monumental ironia. Escarnece do mundo
E a escadaria se contorce, subindo...
Alguém entende? A catedral tonta
Da cidade maldita. Os insetos da rua
Correm em fuga incerta.
A dor de Deus bebe o mundo.
932
Elisa Lucinda
Au Gratin
Fumo um cigarro fino
Como um palito
O calor do Rio é ridículo
Calor de chuva enrustida
Calor do céu oprimido
De inferno mar resolvido
Que não sabe se queima esse cara
Ou o assa ao ponto
Um calor filho da puta
Um calor de estufa
E eu sem nem ser judia
Sofro aos pouquinhos
Sofro esse zé pagodinho
Ardo nesse pecado que não cometi
Nesse forno onde me meti
Por uma apimentada dica
De um nordestino
Que me mostrou uma placa citada, tinhosa:
"CIDADE MARAVILHOSA"
Eu vim.
Como um palito
O calor do Rio é ridículo
Calor de chuva enrustida
Calor do céu oprimido
De inferno mar resolvido
Que não sabe se queima esse cara
Ou o assa ao ponto
Um calor filho da puta
Um calor de estufa
E eu sem nem ser judia
Sofro aos pouquinhos
Sofro esse zé pagodinho
Ardo nesse pecado que não cometi
Nesse forno onde me meti
Por uma apimentada dica
De um nordestino
Que me mostrou uma placa citada, tinhosa:
"CIDADE MARAVILHOSA"
Eu vim.
2 026
Adriano Espínola
Táxi
ou poema de amor passageiro
At the violet hour, when the eyes and back
turn upward from the desk, when the human engine waits
like a taxi throbbing waiting...
T.S. Eliot ("The waste land", 215-217)
Depois de tirar e enrolar no bolso minha gravata colorida;
depois do pique, atravessando ruas & portas,
bebendo a luz da tarde refletida em caras que nunca mais verei;
depois da ginástica bancária,
dos trambiques dados,
dos chopes na esquina;
de ter avistado as chapinhas de cerveja encravadas no asfalto
e o poema alucinado e cínico,
inscrito no corpo crivado de signos & senhas;
depois disso tudo:
de ter esquecido o dia,
sentir-me refeito e repleto, pronto para outra,
- me vejo aqui parado, esperando,
com o olhar atento, ansioso,
como se pela primeira vez,
à beira da calçada ou à beira de mim,
como se de repente
não pudesse perder o que exatamente não sei
nem saberia...
...TÁXI!
Êiii!... Aqui!
(Dou com a mão)
TUDO COMEÇA SUBITAMENTE ONDE ESTOU
- Ó Fortaleza, multidão de portas e postes batendo com sua luz
adolescente no olho da eternidade!
Fortaleza de 300 mil bocas ardentes como o sol,
famintas de amor e tragos de farinha.
Fortaleza de prédios mal-acabados, espetando a noite furiosa e redonda.
Fortaleza, avenida de neon, deslizando para todos os desejos.
Fortaleza, Bezerra de Menezes, seis mãos indo e voltando,
e uma dor viajando, num só sentido, no banco traseiro de um táxi,
para onde vamos?
Fortaleza, solidão escamosa, suor noturno, revelação.
EU TE PERCORRO
Eu, fiapo da mente de Deus que um dia avistei,
caminhando, sim, com o Universo inteiro,
que era sua própria cabeça iluminada,
pensando estrelas e galáxias
e as mais recôndidas nebulosas...
- Quem mais saberia disso?
(Este Táxi,
a rua rolando rente,
os telhados correndo, pensos, de um lado e outro,
a lata de lixo solitária,
as árvores caladas,
rostos e estrelas entrevistos da janela,
teu corpo passageiro,
tudo isso à tua frente ou dentro de ti,
que passa ou permanece no teu olhar-vida,
é o pensamento infinito de Deus
girando suas formas no espaço,
borbulhando mínimo e visível,
invisível e total,
surgindo
e desaparecendo,
transformando-se e ressurgindo
nas neuras insondáveis do tempo.)
Ó pensamento rugoso de Deus sobre os muros!
Sílabas soltas que são papéis pelas calçadas;
palavras, pés que transitam apressados
ruas, frases repentinas;
dias como sentenças cortando /
a cidade indiferente:
relâmpagos de sentido cruzando
o corpo
dentro da noite
dilacerantes
metáforas
dilaceradas
Balbucios
Orações entrecortadas
Gagueira fluente de tudo
- Ó áspera Linguagem em que viajamos sedentos de tradução!
No banco traseiro do carro, vamos nós, Moema e eu,
beijando já seus lábios levemente rachados
pelo sol da praia.
E porque em qualquer esquina posso me acabar
numa trombada,
e por certo sua dor será igual à minha,
{a alma espremida por entre ferragens}
- não importa onde,
você bem pode me entender, Steve,
lá na distante 175, Flower Rd., em Huntington, NY.
Ou se passo as mãos nas coxas de Moema
e percebo, excitado,
o tesão maior de Deus movendo as estrelas e todas as coisas,
você também me compreende, Affonso,
no alto de um edifício em Ipanema,
recitando Nietzsche, "a emoção é a vitória contra o tédio",
enquanto compõe para o JB a última crônica carnavalesca
da Nova República.
E você, metaleiro anônimo, lá de Cajazeiras, na Paraíba,
que não pôde ir ao Rock in Rio
curtir o Whitesnakes, o Queen, o heavymetal,
mas viu na TV,
e ficou ferido da maior solidão sonora do mundo,
- você também me entende, ó meu, no teu silêncio.
........................................................
Ok, minha filha, vamos nós,
zanzando neste Táxi muito louco,
por dentro da cidade,
rodando e girando,
girando e rodando
por aí, sempre.
Sim, passageiros somos,
turistas do instante.
Make it new, say. Sei.
Por isso, sinta minha língua afiada
sussurrando no teu ouvido,
enquanto dedilho sobre tua calcinha
uma ode que Arquíloco não fez
para sua esquiva Neóbula,
de cabeleira fugaz como essa noite.
Ah, tua mão direita, ávida borboleta esmaltada!
Sim, a mais pura sabedoria nasce do amor
entre um homem e uma mulher.
(Claro, há homovariações da verdade. Que importa?)
Os lábios ardentes, tocando-se, sabem mais;
abraçados, os corpos, idênticos ou não,
conhecem mais. Mais - o que seja: oh!
- fisgada de Deus adorando (de qualquer forma)
suas criaturas.
Confira o lance:
toda sabedoria passa pela carne;
toda iluminação atravessa os sentidos;
toda visão viaja pelo corpo,
- ponte de sangue sensitivo entre o céu e a terra,
vertigem da consciência esbarrando
nas paredes das costelas,
pequeno cais nervoso de todas as sensações
à beira do nada
- oceano calado te espreitando,
as amarras do corpo
partindo-se a cada minuto
do porto de si mesmo...
E eu aqui, sábio com as mãos entre tuas coxas,
soprando ávido
no teu ouvido
a lição luminosa:
sessenta e nove
E tua língua veloz: love
love
logos.
Mais depressa!
Direto para um motel na Praia do Futuro.
Por cima de tudo:
buracos,
quebra-molas,
pedras,
calçadas,
transeuntes,
principalmente por cima desta hora que atravesso
com um estremecimento súbito das portas e da alma.
Porque tudo é tremor, companheiro.
A vida treme onde bate - no centro ou nas bordas: - não importa.
Minha mão treme tocando de leve os peitos de Moema;
o carro treme transitando por entre trilhos e temores;
as luzes de neon estremecem ao golpear rostos súbitos pelas calçadas;
a avenida treme sob pneus e pensamentos sobressaltados;
a cidade toda estremece subindo pelos edifícios,
sacudida por ondas e gestos na maré das ruas;
treme a noite com suas estrelas pulsando solidão e distância.
Ruge e estremece a Via Láctea
feito um animal ferido (Ursa Maior?)
fugindo pelo infinito,
sangrando luz e abismos
por onde passa...
Porque o frio espreita
e o silêncio devora,
ESTREMECEMOS TODOS
a cada instante,
homens -
máquinas -
coisas -
com os músculos,
as fibras
e a febre dos circuitos
- em cruel expectativa...
Em frente, o Mercado São Sebastião
- fim e começo da avenida,
entrada e saída desta hora indiferente,
correndo pela pista de sentido duplo para o infinito.
Mercado São Sebastião por onde passo:
- bagaços de laranja, cascas de banana,
tocos de cigarro, papéis e jornais sujos,
rolando pelas coxias da lembrança.
Tudo ali - solto - gestos desgarrados do tempo.
Eu te penetro, suburbano labirinto, por entre acres
balcões, sentindo a respiração ofegante
das alfaces e frutas
- sobre minha pele -
querendo juntas docemente apodrecer ali.
E ver por trás das balanças homens de camiseta
At the violet hour, when the eyes and back
turn upward from the desk, when the human engine waits
like a taxi throbbing waiting...
T.S. Eliot ("The waste land", 215-217)
Depois de tirar e enrolar no bolso minha gravata colorida;
depois do pique, atravessando ruas & portas,
bebendo a luz da tarde refletida em caras que nunca mais verei;
depois da ginástica bancária,
dos trambiques dados,
dos chopes na esquina;
de ter avistado as chapinhas de cerveja encravadas no asfalto
e o poema alucinado e cínico,
inscrito no corpo crivado de signos & senhas;
depois disso tudo:
de ter esquecido o dia,
sentir-me refeito e repleto, pronto para outra,
- me vejo aqui parado, esperando,
com o olhar atento, ansioso,
como se pela primeira vez,
à beira da calçada ou à beira de mim,
como se de repente
não pudesse perder o que exatamente não sei
nem saberia...
...TÁXI!
Êiii!... Aqui!
(Dou com a mão)
TUDO COMEÇA SUBITAMENTE ONDE ESTOU
- Ó Fortaleza, multidão de portas e postes batendo com sua luz
adolescente no olho da eternidade!
Fortaleza de 300 mil bocas ardentes como o sol,
famintas de amor e tragos de farinha.
Fortaleza de prédios mal-acabados, espetando a noite furiosa e redonda.
Fortaleza, avenida de neon, deslizando para todos os desejos.
Fortaleza, Bezerra de Menezes, seis mãos indo e voltando,
e uma dor viajando, num só sentido, no banco traseiro de um táxi,
para onde vamos?
Fortaleza, solidão escamosa, suor noturno, revelação.
EU TE PERCORRO
Eu, fiapo da mente de Deus que um dia avistei,
caminhando, sim, com o Universo inteiro,
que era sua própria cabeça iluminada,
pensando estrelas e galáxias
e as mais recôndidas nebulosas...
- Quem mais saberia disso?
(Este Táxi,
a rua rolando rente,
os telhados correndo, pensos, de um lado e outro,
a lata de lixo solitária,
as árvores caladas,
rostos e estrelas entrevistos da janela,
teu corpo passageiro,
tudo isso à tua frente ou dentro de ti,
que passa ou permanece no teu olhar-vida,
é o pensamento infinito de Deus
girando suas formas no espaço,
borbulhando mínimo e visível,
invisível e total,
surgindo
e desaparecendo,
transformando-se e ressurgindo
nas neuras insondáveis do tempo.)
Ó pensamento rugoso de Deus sobre os muros!
Sílabas soltas que são papéis pelas calçadas;
palavras, pés que transitam apressados
ruas, frases repentinas;
dias como sentenças cortando /
a cidade indiferente:
relâmpagos de sentido cruzando
o corpo
dentro da noite
dilacerantes
metáforas
dilaceradas
Balbucios
Orações entrecortadas
Gagueira fluente de tudo
- Ó áspera Linguagem em que viajamos sedentos de tradução!
No banco traseiro do carro, vamos nós, Moema e eu,
beijando já seus lábios levemente rachados
pelo sol da praia.
E porque em qualquer esquina posso me acabar
numa trombada,
e por certo sua dor será igual à minha,
{a alma espremida por entre ferragens}
- não importa onde,
você bem pode me entender, Steve,
lá na distante 175, Flower Rd., em Huntington, NY.
Ou se passo as mãos nas coxas de Moema
e percebo, excitado,
o tesão maior de Deus movendo as estrelas e todas as coisas,
você também me compreende, Affonso,
no alto de um edifício em Ipanema,
recitando Nietzsche, "a emoção é a vitória contra o tédio",
enquanto compõe para o JB a última crônica carnavalesca
da Nova República.
E você, metaleiro anônimo, lá de Cajazeiras, na Paraíba,
que não pôde ir ao Rock in Rio
curtir o Whitesnakes, o Queen, o heavymetal,
mas viu na TV,
e ficou ferido da maior solidão sonora do mundo,
- você também me entende, ó meu, no teu silêncio.
........................................................
Ok, minha filha, vamos nós,
zanzando neste Táxi muito louco,
por dentro da cidade,
rodando e girando,
girando e rodando
por aí, sempre.
Sim, passageiros somos,
turistas do instante.
Make it new, say. Sei.
Por isso, sinta minha língua afiada
sussurrando no teu ouvido,
enquanto dedilho sobre tua calcinha
uma ode que Arquíloco não fez
para sua esquiva Neóbula,
de cabeleira fugaz como essa noite.
Ah, tua mão direita, ávida borboleta esmaltada!
Sim, a mais pura sabedoria nasce do amor
entre um homem e uma mulher.
(Claro, há homovariações da verdade. Que importa?)
Os lábios ardentes, tocando-se, sabem mais;
abraçados, os corpos, idênticos ou não,
conhecem mais. Mais - o que seja: oh!
- fisgada de Deus adorando (de qualquer forma)
suas criaturas.
Confira o lance:
toda sabedoria passa pela carne;
toda iluminação atravessa os sentidos;
toda visão viaja pelo corpo,
- ponte de sangue sensitivo entre o céu e a terra,
vertigem da consciência esbarrando
nas paredes das costelas,
pequeno cais nervoso de todas as sensações
à beira do nada
- oceano calado te espreitando,
as amarras do corpo
partindo-se a cada minuto
do porto de si mesmo...
E eu aqui, sábio com as mãos entre tuas coxas,
soprando ávido
no teu ouvido
a lição luminosa:
sessenta e nove
E tua língua veloz: love
love
logos.
Mais depressa!
Direto para um motel na Praia do Futuro.
Por cima de tudo:
buracos,
quebra-molas,
pedras,
calçadas,
transeuntes,
principalmente por cima desta hora que atravesso
com um estremecimento súbito das portas e da alma.
Porque tudo é tremor, companheiro.
A vida treme onde bate - no centro ou nas bordas: - não importa.
Minha mão treme tocando de leve os peitos de Moema;
o carro treme transitando por entre trilhos e temores;
as luzes de neon estremecem ao golpear rostos súbitos pelas calçadas;
a avenida treme sob pneus e pensamentos sobressaltados;
a cidade toda estremece subindo pelos edifícios,
sacudida por ondas e gestos na maré das ruas;
treme a noite com suas estrelas pulsando solidão e distância.
Ruge e estremece a Via Láctea
feito um animal ferido (Ursa Maior?)
fugindo pelo infinito,
sangrando luz e abismos
por onde passa...
Porque o frio espreita
e o silêncio devora,
ESTREMECEMOS TODOS
a cada instante,
homens -
máquinas -
coisas -
com os músculos,
as fibras
e a febre dos circuitos
- em cruel expectativa...
Em frente, o Mercado São Sebastião
- fim e começo da avenida,
entrada e saída desta hora indiferente,
correndo pela pista de sentido duplo para o infinito.
Mercado São Sebastião por onde passo:
- bagaços de laranja, cascas de banana,
tocos de cigarro, papéis e jornais sujos,
rolando pelas coxias da lembrança.
Tudo ali - solto - gestos desgarrados do tempo.
Eu te penetro, suburbano labirinto, por entre acres
balcões, sentindo a respiração ofegante
das alfaces e frutas
- sobre minha pele -
querendo juntas docemente apodrecer ali.
E ver por trás das balanças homens de camiseta
2 925
Eunaldo Costa
Olha aquela negra
Olha aquela negra, turbeculosa,
Estendida nas grama úmidas do canteiro do jardim.
A chuva e o vento caindo-lhe no corpo
Cansado da vida dos becos.
- Seu nome ?
- Pouco importa,
- Poderia ser Carlota
- ou outro qualquer.
Naquela negra, seminua, enferma,
Abandonada, o mundo só não sujou
A sua alma, que conserva a pureza inicial.
Nesta hora tardia da noite
O sono fechou as pálpebras da cidade,
Mas existem alguns olhos abertos
Vendo as luzes descendo sobre a negra
Que agoniza junto às rosas do canteiro do jardim.
Estendida nas grama úmidas do canteiro do jardim.
A chuva e o vento caindo-lhe no corpo
Cansado da vida dos becos.
- Seu nome ?
- Pouco importa,
- Poderia ser Carlota
- ou outro qualquer.
Naquela negra, seminua, enferma,
Abandonada, o mundo só não sujou
A sua alma, que conserva a pureza inicial.
Nesta hora tardia da noite
O sono fechou as pálpebras da cidade,
Mas existem alguns olhos abertos
Vendo as luzes descendo sobre a negra
Que agoniza junto às rosas do canteiro do jardim.
1 086
Emílio Burlamaqui
Ninguém
Saio à rua, ninguém fala comigo.
Entretanto, descuidado, não falo com ninguém.
Volto à casa, ninguém deixou recado.
Porém já é tarde, durmo, esqueço,
E não telefono para ninguém.
No cais, o lenço de ninguém se agita
Enquanto entre nós a distância se faz.
E eu, estranhamente, fico olhando o mar,
Sem atinar, sem acenar,
Sem adeus.
O trem chega, a distância se desfaz.
E, no meio de uma multidão indistinta
Que não me diz mais nada,
Distingo ninguém tentando me dizer alguma coisa.
Apesar disso, passo apressado sem escutar
Aquilo que ninguém queria me contar.
Por que será então que,
Mesmo eu não correspondendo a tanta fidelidade
E a tão exato desvelo,
A presença de ninguém persiste assim
Tão intensa e tão densa
Junto a mim?
Será que, qual ave preta
E tal como noutra história,
Ninguém se afastará de mim
Nunca mais?
Entretanto, descuidado, não falo com ninguém.
Volto à casa, ninguém deixou recado.
Porém já é tarde, durmo, esqueço,
E não telefono para ninguém.
No cais, o lenço de ninguém se agita
Enquanto entre nós a distância se faz.
E eu, estranhamente, fico olhando o mar,
Sem atinar, sem acenar,
Sem adeus.
O trem chega, a distância se desfaz.
E, no meio de uma multidão indistinta
Que não me diz mais nada,
Distingo ninguém tentando me dizer alguma coisa.
Apesar disso, passo apressado sem escutar
Aquilo que ninguém queria me contar.
Por que será então que,
Mesmo eu não correspondendo a tanta fidelidade
E a tão exato desvelo,
A presença de ninguém persiste assim
Tão intensa e tão densa
Junto a mim?
Será que, qual ave preta
E tal como noutra história,
Ninguém se afastará de mim
Nunca mais?
854
Egito Gonçalves
Sitiados
Esta cidade é a última cidade...
Os muros derruídos estão cercados:
Os canhões troam através dos mapas.
Nossa imagem, revelada pelas montras,
Passeia pelas ruas de mãos dadas...
Somos a última trincheira valiosa.
Unidos, trituramos os assaltos
E renovamos o cristal da esperança.
Os ruídos emolduram-te o sorriso,
Pura mensagem, prenhe de um futuro
Isolado de poeiras e de lágrimas.
Os muros derruídos estão cercados:
Os canhões troam através dos mapas.
Nossa imagem, revelada pelas montras,
Passeia pelas ruas de mãos dadas...
Somos a última trincheira valiosa.
Unidos, trituramos os assaltos
E renovamos o cristal da esperança.
Os ruídos emolduram-te o sorriso,
Pura mensagem, prenhe de um futuro
Isolado de poeiras e de lágrimas.
1 713
Edmundo de Bettencourt
A Máquina Prisioneira
A máquina acabava o dia a mastigar
e aos poucos os dentes lhe caíam
perdendo-se na espuma do ar negro,
ondulante, da fábrica.
Um desejo insubmisso
de cercar os átomos gigantes
vinha encher um braço
donde surgia um corpo
lacerado
sangrento!
e donde surgia um braço
cheio de sangue novo
que libertava a máquina!
A sorrir desdentada
a máquina adormecia...
e aos poucos os dentes lhe caíam
perdendo-se na espuma do ar negro,
ondulante, da fábrica.
Um desejo insubmisso
de cercar os átomos gigantes
vinha encher um braço
donde surgia um corpo
lacerado
sangrento!
e donde surgia um braço
cheio de sangue novo
que libertava a máquina!
A sorrir desdentada
a máquina adormecia...
984
Donizete Galvão
Diante de Uma Fotografia
Para Celso Alves Cruz
O Tietê não é o Neva.
E nada no Curtume
lembra a sua Peter.
Galpões de fábricas
estendem-se sem rigor,
sem história ou forma.
Sucessão de chaminés,
caos de telhas de zinco.
Este é o lugar da cadela esquálida,
dos trens que gemem no subúrbio,
dos peões vestidos de azul e graxa,
dormindo ao meio-dia na calçada.
Na fila do almoço, o rebanho todo
estende suas bandejas de plástico.
Há fuligem nas janelas, nos olhos,
na sola dos sapatos. Nos cérebros.
Anna, as sereias do Báltico
não cantam aqui suas cantigas.
No mar das impossibilidades,
deixaram-me uma fotografia.
Vejo você - estrangeiríssima.
A curta franja dos cabelos.
O nariz forte. O desenho da boca.
A mão pousada no pescoço
que Modigliani um dia desenhou.
E no olhar felino, cinza-claro,
pressinto paixão e dor contida.
Anna Ahkmátova.
poeta de nome inventado,
lança sobre mim o claro raio
dos teus olhos líquidos,
para que minha alma não vire pedra.
Não quero morrer de sede,
sem ouvir a voz da língua.
O Tietê não é o Neva.
E nada no Curtume
lembra a sua Peter.
Galpões de fábricas
estendem-se sem rigor,
sem história ou forma.
Sucessão de chaminés,
caos de telhas de zinco.
Este é o lugar da cadela esquálida,
dos trens que gemem no subúrbio,
dos peões vestidos de azul e graxa,
dormindo ao meio-dia na calçada.
Na fila do almoço, o rebanho todo
estende suas bandejas de plástico.
Há fuligem nas janelas, nos olhos,
na sola dos sapatos. Nos cérebros.
Anna, as sereias do Báltico
não cantam aqui suas cantigas.
No mar das impossibilidades,
deixaram-me uma fotografia.
Vejo você - estrangeiríssima.
A curta franja dos cabelos.
O nariz forte. O desenho da boca.
A mão pousada no pescoço
que Modigliani um dia desenhou.
E no olhar felino, cinza-claro,
pressinto paixão e dor contida.
Anna Ahkmátova.
poeta de nome inventado,
lança sobre mim o claro raio
dos teus olhos líquidos,
para que minha alma não vire pedra.
Não quero morrer de sede,
sem ouvir a voz da língua.
1 020
Clóvis Ramos
São Luís
I
Em São Luís há sobradões, ermidas
que lembram do passado o tempo nobre,
a beleza sem par, que não se encobre
no silêncio das coisas esquecidas.
Pelas ruas estreitas e avenidas,
quanta história de amor! Basta se dobre
uma esquina e, de novo, rico ou pobre,
vibram no coração doces feridas!
Ah! tudo em São Luís vira poesia
na saudade que vem, terna saudade,
que nos maltrata e nos alivia!
E sonhando um amor, espero, ainda,
rever a terra da felicidade,
que tanto quero, com ternura infinda.
II
Estou em São Luís e, novamente,
cantarola em meu peito um amor antigo.
Digo num verso comovido e ardente,
tudo o que sinto como meu castigo.
Por uma rua ensolarada sigo
e meu pensar, talvez, ninguém pressente.
Ahi meu sonho de amor, que ainda persigo!
Ai! saudade que fere ferozmente!
Pelas praças, que flores perfumosas!
O sol as beija como beija as rosas
dos lábios da mulher que se quer bem.
São Luís é a cidade da ternura...
Em cada canto um sonho meu perdura,
perdura, em cada canto, o olhar de alguém.
Em São Luís há sobradões, ermidas
que lembram do passado o tempo nobre,
a beleza sem par, que não se encobre
no silêncio das coisas esquecidas.
Pelas ruas estreitas e avenidas,
quanta história de amor! Basta se dobre
uma esquina e, de novo, rico ou pobre,
vibram no coração doces feridas!
Ah! tudo em São Luís vira poesia
na saudade que vem, terna saudade,
que nos maltrata e nos alivia!
E sonhando um amor, espero, ainda,
rever a terra da felicidade,
que tanto quero, com ternura infinda.
II
Estou em São Luís e, novamente,
cantarola em meu peito um amor antigo.
Digo num verso comovido e ardente,
tudo o que sinto como meu castigo.
Por uma rua ensolarada sigo
e meu pensar, talvez, ninguém pressente.
Ahi meu sonho de amor, que ainda persigo!
Ai! saudade que fere ferozmente!
Pelas praças, que flores perfumosas!
O sol as beija como beija as rosas
dos lábios da mulher que se quer bem.
São Luís é a cidade da ternura...
Em cada canto um sonho meu perdura,
perdura, em cada canto, o olhar de alguém.
1 128
Carlos Queirós
Varina
Ó Varina, passa,
Passa tu primeiro...
Que és a flor da raça,
A mais séria graça
Do pais inteiro!
Teu orgulho seja
Sonora fanfarra,
Zimbório de igreja!
Que logo te veja
Quem entra na barra.
Lisboa, esquecida
Que é porto de mar,
Fica esclarecida
E reconhecida
Se te vê passar.
Dá-lhe a tua graça
Clássica e sadia,
Ó Varina, passa...
Na noite da raça
Teu pregão faz dia!
Vê que toda a gente
Ao ver-te, sorri.
Não sabe o que sente,
Mas fica contente
De olhar para ti.
E sobre o que pensa
Quem te vê passar,
Eterna, suspensa,
Acena a imensa
Presença do Mar!
Passa tu primeiro...
Que és a flor da raça,
A mais séria graça
Do pais inteiro!
Teu orgulho seja
Sonora fanfarra,
Zimbório de igreja!
Que logo te veja
Quem entra na barra.
Lisboa, esquecida
Que é porto de mar,
Fica esclarecida
E reconhecida
Se te vê passar.
Dá-lhe a tua graça
Clássica e sadia,
Ó Varina, passa...
Na noite da raça
Teu pregão faz dia!
Vê que toda a gente
Ao ver-te, sorri.
Não sabe o que sente,
Mas fica contente
De olhar para ti.
E sobre o que pensa
Quem te vê passar,
Eterna, suspensa,
Acena a imensa
Presença do Mar!
2 592
Daniel Loureiro
Pra Bom Enten
Em São Paulo o silêncio é vácuo
Em regime militar o silêncio é lei
No campo onde vivi o silêncio é doce
Na bagunça da minha cabeça
o silêncio não existe mais.
Olha a luz
é uma ilusão
Olha o homem
estruturação
Olha a vida
com avidez
Olha o tiro!
e ele ficou ali, estirado.
no enterro
acenderam piras
donde ele renasceu
das próprias cinzas querendo ficar por ali.
Ah! e também havia flores
sempre participantes
das pantes e frantes.
Você me entende
pois pra bom enten
Mas não há bom enten
só há nós e os nós do amor
Tão cantado
Tão falado
Tão pensado
Tão desejado
Tão esquecido
Tão desprezado
Tanta hipocrisia
e a crise ia
continua indo
acho que ligaram na tomada
e tomaram de mim o baú
de cujo fundo saía minha tia
a contar suas histórias...
Mas agora não tenho tempo
se é que alguém tem tempo
O tempo é que tem a gente
bem na palma da mão
e dentre os dedos
Escorri como areia
e as veias inchadas
mostravam cansaço
e o esforço do braço
no espancamento cruel
Sorrindo
Sorri e fui indo
Sorriso lindo
de te ter no meu pensamento
debaixo da janela
no peitoril da sacada
te vejo apoiada
na minha vida
se apóia na minha vida
Em regime militar o silêncio é lei
No campo onde vivi o silêncio é doce
Na bagunça da minha cabeça
o silêncio não existe mais.
Olha a luz
é uma ilusão
Olha o homem
estruturação
Olha a vida
com avidez
Olha o tiro!
e ele ficou ali, estirado.
no enterro
acenderam piras
donde ele renasceu
das próprias cinzas querendo ficar por ali.
Ah! e também havia flores
sempre participantes
das pantes e frantes.
Você me entende
pois pra bom enten
Mas não há bom enten
só há nós e os nós do amor
Tão cantado
Tão falado
Tão pensado
Tão desejado
Tão esquecido
Tão desprezado
Tanta hipocrisia
e a crise ia
continua indo
acho que ligaram na tomada
e tomaram de mim o baú
de cujo fundo saía minha tia
a contar suas histórias...
Mas agora não tenho tempo
se é que alguém tem tempo
O tempo é que tem a gente
bem na palma da mão
e dentre os dedos
Escorri como areia
e as veias inchadas
mostravam cansaço
e o esforço do braço
no espancamento cruel
Sorrindo
Sorri e fui indo
Sorriso lindo
de te ter no meu pensamento
debaixo da janela
no peitoril da sacada
te vejo apoiada
na minha vida
se apóia na minha vida
809
Corrêa da Silva
Poema do Garoto Anônimo
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
Garoto que nasce nos quartos miseráveis dos cortiços
e que fica analfabeto,
por não ter um livro para estudar...
Garoto que não conhece o pai, não sabe o seu nome
e que é filho de uma dessa mulheres pálidas e tristes;
mulheres magras e maltrapilhas;
mulheres que tossem muito
e que têm as mãos calejadas de tanto trabalhar...
Garoto de "cabelo de espeta-goiaba",
camisa de meia listrada
e calça de riscado bem grosso...
Garoto que não tem nem cubos
e nem patins
nem bicicletas
e nem trens de ferro para brincar...
E que esquecido do resto do mundo,
fica, horas inteiras, sentado nas calçadas,
"pixando" castanhas para as "borrocas";
jogando "marta" para dar bolos...
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
Garoto que brinca nas velhas praças,
sob a luz tranqüila das estrelas,
o "Ganzola", o "Leitão Queimado" e o "Boca de Forno"...
Garoto que com os seus "alçapões" e as suas "baladeiras"
é o terror da passarada do Apicum e da Quinta do Barão...
Garoto que às vezes vira pintor
e doido de alegria,
longamente,
arbitrariamente,
desenha com carvão calungas
gozadíssimos
nos muros caiados de novo
ou então risca de giz
os lindos azulejos dos sobradões coloniais...
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
Garoto que rouba frutas
dos quintais dos vizinhos e dos tabuleiros dos vendedores,
para matar a fome que o atormenta...
Garoto que, "sem querer", quebra com uma pedrada
a vidraça do bangalô do dr. Fulano de Tal
e depois, guinchando
assobiando
vaiando,
corre,
foge,
desaparece,
mal surge à esquina o primeiro guarda...
Garoto que, nos estribos de todos os bondes,
trepa e salta,
até um dia — coitado! — perder as pernas...
Garoto que não tem medo da lama
e descalço,
molhado,
tremendo de frio,
tira caranguejo
na Camboa do Mato e na Fonte do Bispo...
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
Garoto que nasce nos quartos miseráveis dos cortiços
e que fica analfabeto,
por não ter um livro para estudar...
Garoto que não conhece o pai, não sabe o seu nome
e que é filho de uma dessa mulheres pálidas e tristes;
mulheres magras e maltrapilhas;
mulheres que tossem muito
e que têm as mãos calejadas de tanto trabalhar...
Garoto de "cabelo de espeta-goiaba",
camisa de meia listrada
e calça de riscado bem grosso...
Garoto que não tem nem cubos
e nem patins
nem bicicletas
e nem trens de ferro para brincar...
E que esquecido do resto do mundo,
fica, horas inteiras, sentado nas calçadas,
"pixando" castanhas para as "borrocas";
jogando "marta" para dar bolos...
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
Garoto que brinca nas velhas praças,
sob a luz tranqüila das estrelas,
o "Ganzola", o "Leitão Queimado" e o "Boca de Forno"...
Garoto que com os seus "alçapões" e as suas "baladeiras"
é o terror da passarada do Apicum e da Quinta do Barão...
Garoto que às vezes vira pintor
e doido de alegria,
longamente,
arbitrariamente,
desenha com carvão calungas
gozadíssimos
nos muros caiados de novo
ou então risca de giz
os lindos azulejos dos sobradões coloniais...
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
Garoto que rouba frutas
dos quintais dos vizinhos e dos tabuleiros dos vendedores,
para matar a fome que o atormenta...
Garoto que, "sem querer", quebra com uma pedrada
a vidraça do bangalô do dr. Fulano de Tal
e depois, guinchando
assobiando
vaiando,
corre,
foge,
desaparece,
mal surge à esquina o primeiro guarda...
Garoto que, nos estribos de todos os bondes,
trepa e salta,
até um dia — coitado! — perder as pernas...
Garoto que não tem medo da lama
e descalço,
molhado,
tremendo de frio,
tira caranguejo
na Camboa do Mato e na Fonte do Bispo...
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
770
Chagas Val
Poema 10
A vida reinventada
na cidade onde achei
o caminho do meu sonho,
o carinho de seu povo,
a face amiga das ruas
me saudando e me levando
a percorrê-las, fruí-las
nesta suave harmonia,
neste abraço inaugural
do evento em que minha alma
se debruça sobre o tempo
e bebo a água das fontes
e me banho neste mar,
minha sede que sacio
mergulhando o tempo fundo
de um rio invisível
cujas águas transparentes
são o sangue dos escravos
ou o leite das crianças,
seios tépidos de mulheres,
negras bocas a sugar
e seus corpos, nus, esbeltos,
delineiam-se no escuro,
formas belas e serenas,
curvas danças se desenham
sobre o solo do passado,
áureos brandos sons de sinos,
silhuetas da memória
na estória de quem canta
a cidade que nasceu
e cresceu verde-luares,
suas claras mãos de moça
neste abraço comovido.
na cidade onde achei
o caminho do meu sonho,
o carinho de seu povo,
a face amiga das ruas
me saudando e me levando
a percorrê-las, fruí-las
nesta suave harmonia,
neste abraço inaugural
do evento em que minha alma
se debruça sobre o tempo
e bebo a água das fontes
e me banho neste mar,
minha sede que sacio
mergulhando o tempo fundo
de um rio invisível
cujas águas transparentes
são o sangue dos escravos
ou o leite das crianças,
seios tépidos de mulheres,
negras bocas a sugar
e seus corpos, nus, esbeltos,
delineiam-se no escuro,
formas belas e serenas,
curvas danças se desenham
sobre o solo do passado,
áureos brandos sons de sinos,
silhuetas da memória
na estória de quem canta
a cidade que nasceu
e cresceu verde-luares,
suas claras mãos de moça
neste abraço comovido.
1 302
Daniel Loureiro
Homem-Televisão
Me desalento entre as brumas do pensamento
E de novo acho que não sou bem eu
Essas imagens sempre me passam
Mesmo que eu queira mudar de canal
Antenas não tenho sou todo antena
Recebo influências do mundo emissor
Diante de evidências é fácil afirmar
Cada vez mais sou comum televisor
Meus tímpanos se fecham e me traem sempre
Ando na voltagem da rotina
Fora da caixa visões não me prendem
Parece que algo nunca anda bem
eu
não sou mais EU
mas às vezes me vêm lembranças
da ex-vida orgânica
hoje vivo aqui
fico assim ligado
sempre antenado
no mesmo canal
Por mais que eu tente
me levante ou sente
As minhas opiniões
São estatística de pesquisa de audiência.
E de novo acho que não sou bem eu
Essas imagens sempre me passam
Mesmo que eu queira mudar de canal
Antenas não tenho sou todo antena
Recebo influências do mundo emissor
Diante de evidências é fácil afirmar
Cada vez mais sou comum televisor
Meus tímpanos se fecham e me traem sempre
Ando na voltagem da rotina
Fora da caixa visões não me prendem
Parece que algo nunca anda bem
eu
não sou mais EU
mas às vezes me vêm lembranças
da ex-vida orgânica
hoje vivo aqui
fico assim ligado
sempre antenado
no mesmo canal
Por mais que eu tente
me levante ou sente
As minhas opiniões
São estatística de pesquisa de audiência.
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