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Poemas neste tema

Consciência e autoconhecimento

Mário Hélio

Mário Hélio

12 - II(Farol)

antes hera um pedaço de sombra num traço de sol
que se movia nas estepes silhueta de tal curupira
que o tempo esqueceu
escutava cantigas solenes poemas do céu
um golpe de risalegria tem pena de mim.

que tudo era um retrato de sombras não ousei dizer
que o meu amor era maior do que deus não ousei dizer.
e o vento bate bátega calçada
lá fora ainda haja passarada saiba cantar.
erantes o mormaço do que eu via um fragmento dar
uma flor menor do que a flor da flor no pomar
curupiraraponga risonho cão
coisas que o tempo ignorou e o esquecimento esqueceu
lição da morte que morreu imprevisto histórias de mefisto
em versiprosa
pausa
pousa num galho
retalho darvoredo devastado
resta esta réstia e a dor

herantes umolhar sobracidade porcimademim
tenta se libertar liberdade fugir como se ocultasse
o culto no obsclaro
como se a visão visse a si mesma
e as janelas namorassem outras janelas
mas o elemento não ousa em seu turbilhão de coisas.
meu amor é maior do que o amor habanera
se achará impossível o possível visivelin
coleção de rastros o infinito é maior que o infinito
o perdão se compadece do perdão mas não se perdoa
ouvirá o som o sumo o sim
o belo mais belo que a beleza
correnteza aventureza
o bem melhor do que o bem
narcisista a feiúra
não tem remédio pro seu tédio a cura
grande prisma
imagens fantasiosas liames figurações
a justiça é imparcial injustiça
certo erro berro trissura tristura
terá medo a coragem
o cansaço da mesa descansa.

neste ponto do espaço haves conversam
o irracional é racional no espaço deste ponto
a relação é relativa tudo é falso
o princípio em si mesmo é um fim
séculos de procura facha de treva na relvaga
alaquem uma forma amorfa

um acontecimento inesperado
está sendo aguardado por todos
as cadeiras do escritório têm sua própria dança
o neutro se anula o banal se fortalece
o mistério é mais misterioso do que o mistério
não existe mal mais maléfico do que o bem
ermotem toteminca antesera um pio sagrado
o passado passou para o passado
a gravidade repousa na antigravidade.
os cemitério são ermitérios e cassinos
os hinos sacros são canções profanas
deus é maior do que deus
neste pântano do espaço
contemplo o alcoice convento conventilho
a tarde rosna um diversion é igual a uma lousa
e tudo enfim é tudo a mesma coisa.

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Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

Breves palavras sobre a poética deAntonio Massa

Antônio Massa me faz senti-lo como uma espécie de poeta do desencanto, no tocante ao seu canto e suas queixas sobre a condição humana. O poema Cartesianos é o mais expressivo dos versos que eu li. Nele o racionalismo é ponto de partida, e dentro do qual está, com toda a clareza, uma grande queixa, uma ode, um hino e, finalmente um manifesto pela liberdade, a liberdade que exigiria romper com os laços do convencionalismo racionalista das coisas institucionalizadas. Importa pois, sair das formas geométricas dentro das quais estamos perdidos, engradados, resignados a um teorema.
O racionalismo, então pré-racionalismo, com Santo Agostinho, em "A Cidade de Deus", estava assim expresso, no século III : "Intelligas ut creda; credi ut intelligas"( Ver para crer, crer para compreender). Mas tarde o santo diria " Se eu me engano é porque sou, pois quem não se engana não é" , num rompante próprio dos padres filósofos, da filosofia patrística que procurava explicar Deus não mais à luz dos dogmas e sim de um entendimento racional. René Descartes, século XIV, retoma as perquirições agostinianas e, com o " Penso, logo existo" ( Cogito, ergo sum ), passa à história como o criador do racionalismo, face aos seus conhecimentos das ciências matemáticas...
O racionalismo, portanto, foi apenas a busca das dimensões reais das coisas, quando a humanidade ainda se debatia entre a mitologia, a religião e as ciências. E não poderia ter nada a ver com convencionalismo, muito mais um categoria sócio-político e elemento fundamental das sociedades humanas que nos contiveram em números, datas, e um código de obrigações, forçando a que o poeta, angustiado, afirme em "Firma Reconhecida", com todos tons e matizes da alma que busca o sentido do existir, do homem que busca um papel humano, ou humanístico:

Está tudo no papel
e em todos os papéis
homens carimbados
buscando papel de gente.

Mas Antonio Massa, em Cartesianos, abre fogo contra o racionalismo
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos.
E segue :
Nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto.

E prossegue falando das nossas preocupações sobre quantos raios o sol emite ou de quantos pelos há na pubis; da nossa incapacidade de separarmos o homem do lobisomen que há dentro de nós, insensível e incapaz de conceder, conceber, perdoar, empreender, etc, no tocante a certas necessidades e relações entre seres humanos, por vezes não institucionalizadas e por isto estranhas e condenadas...
Num crescendo, Antonio Massa pretende dar por encerrada sua queixa quando nos afirma:
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta ?

Quando imagino que o poema lembra uma ode á liberdade, lembro-me de Max Nordau, que escreveu sobre as mentiras convencionais do século XX. E até mesmo de Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que desteta os que se escondem por detrás de uma estrela e não lutam pela terra...
Quando tudo parece estar finalizando, então, Antonio Massa dá uma receita de como encerar o homem, na verdade a sua vaiade, o seu egoismo, a sua pretendida identidade, no fundo mesmo a sua caricatura, em Instruções para se Encerar um Homem. E depois de muitas peripécias chega ao topo do homem, a cabeça, afirmando:
Ao chegar ao topo,
deve-se abrir a caixa
e sujar o homem com seu
conteúdo
e quando
depois de ofuscada a cera
teremos um homem perfeito.

...o que o poeta parece nos querer dizer, que o brilho, o polimento dado no homem tanto pode ser efêmero como necessário, por vezes, que a caricatura do homem que somos e temos sido é algo incômodo.
Mas quando menos se espera que o tema está terminado Antonio Massa nos informa, em Não há vagas, que o homem continua procurando vagas ( espaço ) em todos os lugares:
...nas casas, nas mágoas
no ofício de gente
no prato do irmão.

...nos muros , na arte
e nos arremates
de vida e de sorte.

...apesar de tudo, numa fatalidade dramática, se não estiver enganado. Mas agora um certo "darwinismo social" toma conta do tema do poeta
porque, feliz ou felizmente

...os senhores da Ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno.

...impedindo-nos mesmo de uma morte tranquila...
O que há de belo nos poetas e nas poesias são as suas afirmativas e negativas, as suas contraposições metafísicas, mas, de repente, a espiral dialética que lhes permitem sair no outro lado do túnel.
Continuo acreditando no Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que às vezes é preciso termos o caos dentro de nós para darmos à luz uma estrela cintilante.
Pode ter sido, não sei, o caos que Antonio Massa vê em torno do homem o motivo para que ele desse ao mundo a sua estrela cintilante, sob forma de poesia.
Quem sabe,finalmente, e também, não lhe moveu, inconscientemente, a alma de Gonçalves Dias, o poeta guerreiro que o convocou para não se intimidar diante do mundo e do homem, ordenando-lhe denunciar as prefigurações do ente que está mais próximo dele mesmo e sobre o qual ele tem algumas dúvidas...
O mundo é assim mesmo, meu caro poeta. Mas apesar de tudo estaremos sempre a sair do outro lado do túnel. E você saiu, com sua poesia, apesar das "dores do mundo", do melancólico mas extraordinário Schopenhauer...
Quando Nietzsche, do "Ecce Homo", trata do homem no tocante à "vontade do advento" nos afirma, categoricamente: "...aquilo que não o aniquila, torna-o bem mais forte..."
O advento da poesia, em sua vida, meu caro poeta, é a sua estrela cintilante.
Vá em frente...
Luiz Nogueira Barros

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Luis Germano Graal

Luis Germano Graal

Saber

Saber
Conhecer
Desvendar os segredos
É o peso maior
A tarefa mais triste
A pior parte
Da missão
Saber os segredos é um peso
Tão grande
Que às vezes melhor
Seria
Morrer
Mas agora que chegamos
Tão perto
Do fim
E restam pouquíssimos de nós
Morrer
Não é mais
Um sonho
Ou um medo
Ou um desejo
Morrer pode ser amanhã
Morrer
Pode ser hoje
Quem será o próximo
Não sabemos
Nem adianta saber
É um segredo
Talvez o único a não sabermos
O próximo podemos ser
Eu
Podemos ser ele
Ou ela
O próximo seremos o próximo
A morrer

A forma
A face
O modo
A vestimenta
Que a morte usará
Também não sabemos
Pode ser a fome
Que nos atormenta
Nos fere
Nos morde
E ainda assim alguns de nós
Continuamos vivos
Também pode ser a sede
Não temos água doce
Não temos vinho
Não temos garrafa
E a água do mar
Salga nossos lábios
Obriga-nos a vomitar
Pra depois sentirmos ainda mais sede
A morte poderá vir
Como um outro peixe
Ou como uma outra sereia
A cantar
E encantar
Ela poderá chegar magnificamente
Acompanhada
Por algumas mortezinhas menores
Infantas
Petizes
Pode ainda vir indesejada
Pelo eleito
Ou também sonhada
Acarinhada
Querida
Por quem de decerto
Também pode a morte não chegar
Ela gosta de seduzir
Agir
Igual à mulher fatal
Que atiça o desejo
Dá uma mão
Pra logo tirar
Mostra o tornozelo
O sonho da perna
Mas logo dá um piparote
E o fulano acorda
A morte pode agir assim
E alguém ser o seduzido
O amante
O fulano
O homem que se atira n’água
E dentro d’água se encontra
Com ela, a mulher
Fatal
Finalmente fora da redoma
Essa dona
Do amor
Essa filha
Da primeira serpente
Essa mulher
Que só nos oferece duas escolhas
Entre sermos escravos seus
E esperarmos
Sua chamada
Ou sermos senhores
E partirmos
Ao seu encontro.

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Leão Júnior

Leão Júnior

Tempo Tempo

certifique-se de que o tempo
não goza, em seu cabedal,
o saber de um tempo argüido:
seu irônico juízo
no que investiga retorna
e o que investiga é retorno
do que então se parodia

do que então potencializa
um saber examinar-se
no outro que está do outro
sem imagem conferida
mas que pressupõe ao pôr
radicais inexistências
sob metódico senso
de crítica e de raciocínio

para então comprometer
a base — seu fundamento —
do círculo que vira dia
que se vive sem teoria

o que lhe permite ser tempo
é não contar sua história
é não ter sequer história
é ser o avesso da história

a própria falta — seu ser
de insuportável sentido —
satura de perdas a vida
e a explode como história

aí é preciso viver
de sobrevida aparente
nas sobras do apalavrado
reconduzido ao vazio

e nesta sede excluída
do homem desprende-se o tempo
demolindo o quê de si
sobrevive em seus sistemas

que permanecem percursos
de quebras fendas rupturas

são como um não-rio
os afluentes do tempo
(faz flutuar periódicas
minas de água parada)

que cai por brutas clivagens
como evidências sem fala
ou conflui estimulando
econômicas miragens

que precipitam o invisível
nas influências do visto
e trazem a forma adiante
das margens que nos espiam

sem olhar antecipando
múltiplos fluxos sem rio

é de poesia que
o tempo se alimenta
de sua força estratégica
sua premente ameaça

pois quanto mais fortifica
com mais defesas desata
e obriga ao tempo o adiante
de formas desmoronadas

obriga a viagem das horas
às suas fronteiras perdidas
a descobrir demasiados
possíveis de não rendição

mal começada a jornada
chegam arquitetos do não

tem o passado uma fome
do retomo do que falta
fome de raiz-além
desse longo ignorado

e rumina arruinando
a forma não digerida

tem a fome de uma espera
por horizonte não vindo
se morde o passo do onde
se gera a fome do tempo

enquanto rumina o presente
escape por entre os dentes

quando céu e terra se fizeram uno
o grande tempo moldou todas as coisas
de uma só vez

aos homens transmitiu a técnica
de não esperar

nenhum posterior, absoluto ou relativo
se pressupôs:
a consciência das clepisidras e das ampulhetas
desapareceu

perderam-se as sucessões e os recortes
irreversivelmente

o grande tempo fundiu os homens
na geografia do outro
e já não houve marcas de propriedade
e já não houve Estados

quando céu e terra se fizeram uno
o presente pôde ser lembrado

os configurados do tempo
marinheiros e megáricos
na volta não viram a margem
fazer porto no outro lado

fazer com poucos relógios
este contorno marinho
por lençóis curvos de água
canais de vida ou de linho

(mil canais de travessia
não chegam ao tempo visado
se o ângulo em que se projetam
não vaga em tua memória

se não te apreendem no agora
rasgos de incertos indícios)

a paciência da tribo
faz que dorme
faz que sonhem seus conceitos vagos
com cristais

quase nada extrai da falta
de origem ou fim

a paciência da tribo
retira-se do tempo com malas e bagagens
e põe-se a salvo
como duração e morte

quase nada deixa
de sua imprópria matéria
sem horizonte indagado

a paciência da tribo não se acaba
talvez porque seu puro escape
dispense o eterno
como os cristais às datas

no instante do bote
o tempo masca
não marcha
como os cadetes do colégio militar

a cobra-macha do tempo
não bate os calcanhares que não tem
nem se perfila ou bate continência

a cobra-marcha do tempo apenas rumina
o seu azul pairado
sobre alas, sobre balas.

no instante exato do bote
a cobra do tempo fuma
e o verde desfile dos passos para sempre
passa

como uma falta de ser
se imagina desejada
ou quanto a letra se quer
mais lida se mais apagada
a consciência propaga
sua força de abafada
que mal ultrapassa a falha
escandaliza o que falta

e perturba porque gasta
a razão da ultrapassagem
ao propagar o querer
doutras forças sufocadas
que mais apagadas se avivam
como letras desejadas
de uma escrita em que falta
tua imagem recortada

tua vida recordada
Por um apagado de charge

o único tempo é o tempo
que fora de si inexiste
como existe o que expulsa
de sua reserva incontente

expulsa do homem o ganho
ou pior, contabiliza
sua fome de um ser tempo
de ter no tempo o seu prumo

e este homem sem divisas
quer do tempo seu insumo
cobra incentivos e lucros
por vida a mais de consumo

mas o tempo acerta o trato
desconhecendo o rumo

quem rói de ti os fantasmas
de que se cobre a razão
lendo o antes da memória
que escapa à imaginação

que examina pela falta
as marcas da contradição
que ousa escritos vazios
sobre raspas predatórias

quem desconcentra a razão
para firmá-la no instável
como solta resistência
que se faz tão maleável

que nenhuma norma nova
fixa a ferida da margem

a tinta encarnada do teu
manuscrito sem história
se entranha na letra como
palavra arrancada à traça

se entranha em calar dobrado
como história dos silêncios
que a letra arranca aos pedaços
desta carne de azurado

a tinta dos manuscritos
come a tua mão pesada
com gratos garfos que vexam
o menos papel do prato

para abrir com suas chaves
o trauma de novos achados

escrevo palavras que calam
o meu objeto é o tempo
não fala

mas guarda em si monumentos
que sem vestígios
abalam

e o seu mudo testamento
fende infinito o fragmento
que age

escrevo à margem do efeito
leitor da ávida ausência
que apaga

e não consulto memórias
meu dicionário é o átimo
que indaga

deixa se possível um oco
para que o tempo arrebente
tuas mordaças sem corpo
o teu silêncio de ovo

teu fio sem interior
que tece os teus desenlaces
com mordidas ou amarras
famintas da tua nudez

derrama o rigor do silêncio
na veia oblíqua do novo

os tempos geraram os tempos
que geram de si os tempos
que geram os tempos de novo
como uma trama bastarda

os laços de parentesco
perdido no que se ligam
tecem o mito e a fenda

saber de que é feito o tempo
desses tempos sem história
é ter por familiares
homônimos desconhecidos

que no entanto evoluem
no seu poder de expurgar
incógnitas biografias

nos interiores das bibliotecas
o teu vizinho vive os anos vinte
um de meia-idade atrás de ti
parte uma galáxia

nos interiores da rua
cada palavra circula
com reais multiplicados

pelos becos mais dispersos
das páginas e
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