Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Natália Correia
Guerra santa
Não estou aqui para que Deus me ignore
mas nem por isso lhe sere solícita
em loa e laudes cada vez que morde
meu coração.Não gosto da visita.
Também dispenso que me seja Cristo.
Os meus erros na cruz não são remíveis.
Acertam no Espírito,Pai e Filho
manifestados são só varas e cíveis.
Piedade ganhar em tais instâncias
não vale a quem se atira ao impossível.
Iluminada a alma por dez lâmpadas
a ideia só concebe o inconcebível.
Chamais-me chama? Explico: em corpo ardido
anulo o osso até que transpareço.
Descriando-me, em cinza me unifico
com a vontade pura do começo.
Assim vos queima a minha língua ardente
e frequentais-me o lume.Mas da festa
saís gorados.Não sabeis ser hóspedes
da santidade que não se manifesta.
de O Dilúvio e a Pomba(1979)
mas nem por isso lhe sere solícita
em loa e laudes cada vez que morde
meu coração.Não gosto da visita.
Também dispenso que me seja Cristo.
Os meus erros na cruz não são remíveis.
Acertam no Espírito,Pai e Filho
manifestados são só varas e cíveis.
Piedade ganhar em tais instâncias
não vale a quem se atira ao impossível.
Iluminada a alma por dez lâmpadas
a ideia só concebe o inconcebível.
Chamais-me chama? Explico: em corpo ardido
anulo o osso até que transpareço.
Descriando-me, em cinza me unifico
com a vontade pura do começo.
Assim vos queima a minha língua ardente
e frequentais-me o lume.Mas da festa
saís gorados.Não sabeis ser hóspedes
da santidade que não se manifesta.
de O Dilúvio e a Pomba(1979)
1 627
Vitorino Nemésio
Casa do Ser
A língua é a casa do Ser.
Holderlin e Heidegger
Língua,Casa do Ser que lá não mora,
E,se chama,não está por morador,
Que só em nós o verbo se demora
Como sombra de sol e eco de amor.
Abrigo sim,porém sem tecto,fora
De torre ou porta,os muros no interior:
Assim a Casa essente rompe à aurora
Para se incendiar com o sol-pôr.
É a noite o seu rápido alicerce,
Enquanto Casa,que não Ser(aéreo
O que nem isso é,ia eu dizer
No hábito verbal que corta cerce
A hastilha do jardim da Casa,etéreo
Mensageiro de fogo.Pode ser).
de O Verbo E A Morte
Holderlin e Heidegger
Língua,Casa do Ser que lá não mora,
E,se chama,não está por morador,
Que só em nós o verbo se demora
Como sombra de sol e eco de amor.
Abrigo sim,porém sem tecto,fora
De torre ou porta,os muros no interior:
Assim a Casa essente rompe à aurora
Para se incendiar com o sol-pôr.
É a noite o seu rápido alicerce,
Enquanto Casa,que não Ser(aéreo
O que nem isso é,ia eu dizer
No hábito verbal que corta cerce
A hastilha do jardim da Casa,etéreo
Mensageiro de fogo.Pode ser).
de O Verbo E A Morte
2 400
Luiza Neto Jorge
Noite-Pétala
Posso estar aquieu posso
estar aqui perfeitamente pobreum círio me acendi
espora agudao vento ritmo negro
assassinou-oposso estar aqui-o musgo é lento como a
sombra-e sei de cor a voz cega das canções(viola de
silêncio acorda-me)que eu posso estar aqui
perfeitamente pedrainsonee um longo segredo
impessoalbordando a minha solidão.
estar aqui perfeitamente pobreum círio me acendi
espora agudao vento ritmo negro
assassinou-oposso estar aqui-o musgo é lento como a
sombra-e sei de cor a voz cega das canções(viola de
silêncio acorda-me)que eu posso estar aqui
perfeitamente pedrainsonee um longo segredo
impessoalbordando a minha solidão.
1 506
Theodore Roethke
The Waking
The Waking
I wake to sleep, and take my waking slow.
I feel my fate in what I cannot fear.
I learn by going where I have to go.
We think by feeling. What is there to know?
I hear my being dance from ear to ear.
I wake to sleep, and take my waking slow.
Of those so close beside me, which are you?
God bless the Ground! I shall walk softly there,
And learn by going where I have to go.
Light takes the Tree; but who can tell us how?
The lowly worm climbs up a winding stair;
I wake to sleep, and take my waking slow.
Great Nature has another thing to do
To you and me, so take the lively air,
And, lovely, learn by going where to go.
This shaking keeps me steady. I should know.
What falls away is always. And is near.
I wake to sleep, and take my waking slow.
I learn by going where I have to go.
I wake to sleep, and take my waking slow.
I feel my fate in what I cannot fear.
I learn by going where I have to go.
We think by feeling. What is there to know?
I hear my being dance from ear to ear.
I wake to sleep, and take my waking slow.
Of those so close beside me, which are you?
God bless the Ground! I shall walk softly there,
And learn by going where I have to go.
Light takes the Tree; but who can tell us how?
The lowly worm climbs up a winding stair;
I wake to sleep, and take my waking slow.
Great Nature has another thing to do
To you and me, so take the lively air,
And, lovely, learn by going where to go.
This shaking keeps me steady. I should know.
What falls away is always. And is near.
I wake to sleep, and take my waking slow.
I learn by going where I have to go.
1 288
Luís Miguel Nava
Sem outro intuito
Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.
1 762
Luís Miguel Nava
A noite
A noite veio de dentro, começou a
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
1 517
Jorge Melícias
Trespassa a hegemonia da sombra
Trespassa a hegemonia da sombra
e descobrirás o ocluso
coração da luz.
O negro é apenas a cor
onde todas as cores repousam.
Não interrogues o dia
sobre a miríade de tons em que ele se imprime.
Procura a penumbra
e ela responder-te-á
com todo o contraste que lhe está negado.
de O Tempo de Foaron(1996)
e descobrirás o ocluso
coração da luz.
O negro é apenas a cor
onde todas as cores repousam.
Não interrogues o dia
sobre a miríade de tons em que ele se imprime.
Procura a penumbra
e ela responder-te-á
com todo o contraste que lhe está negado.
de O Tempo de Foaron(1996)
813
Luís Miguel Nava
O céu
O céu
Assoam-se-me à alma,quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.
Assoam-se-me à alma,quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.
2 231
Daniel Faria
Há uma palavra pessoa
Há uma palavra pessoa
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida
E nela dizer-se posso existir.
Só posso viver cabendo nela.
Habito-a
Como Jonas o grande peixe.
Ela pronuncia-me
Traz-me em viagem do nada para o silêncio-exemplifico-o com a luz
de um homem que ressuscita-sustenta-me
Como o jejum alimentado em Nínive
Mas também posso ser um vaso para ela
-um vaso não,outra coisa qualquer que não consigo
comparar às coisas da terra-um lugar tão verdadeiro
Que mesmo a luz em suas praças,pátios e alpendres
Só imprecisamente é capaz de assinalar
E como salva a cinza em Nínive espalhando-se
Eu posso propagá-la
E posso amá-la até me transformar.
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida
E nela dizer-se posso existir.
Só posso viver cabendo nela.
Habito-a
Como Jonas o grande peixe.
Ela pronuncia-me
Traz-me em viagem do nada para o silêncio-exemplifico-o com a luz
de um homem que ressuscita-sustenta-me
Como o jejum alimentado em Nínive
Mas também posso ser um vaso para ela
-um vaso não,outra coisa qualquer que não consigo
comparar às coisas da terra-um lugar tão verdadeiro
Que mesmo a luz em suas praças,pátios e alpendres
Só imprecisamente é capaz de assinalar
E como salva a cinza em Nínive espalhando-se
Eu posso propagá-la
E posso amá-la até me transformar.
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
1 897
Antonin Artaud
Qui suis-je?
Qui suis-je?
Doù je viens?
Je suis Antonin Artaud
et que je le dise
comme je sais le dire
immédiatement
vous verrez mon corps actuel
voler en éclats
et se ramasser
sous dix mille aspects
notoires
un corps neuf
où vous ne pourrez
plus jamais
moublier.
Doù je viens?
Je suis Antonin Artaud
et que je le dise
comme je sais le dire
immédiatement
vous verrez mon corps actuel
voler en éclats
et se ramasser
sous dix mille aspects
notoires
un corps neuf
où vous ne pourrez
plus jamais
moublier.
2 051
Ana Cristina Cesar
Psicografia
Psicografia
Tambem eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
Tambem eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
1 578
Daniel Faria
Portanto farei uma escada no coração
Portanto farei uma escada no coração
E pelos degraus subirei da minha casa
Até bater com o pensamento no altíssimo
Apagarei os passos e o cérebro como um rasto no deserto
Sempre atento como a águia quando fixa o sol
Sem pestanejar.
Farei portanto a escada no deserto para fixar
A luz.
Da minha casa subirei sem palavra
Em silêncio,portanto,pisando o coração.
de Dos Líquidos (2000)
E pelos degraus subirei da minha casa
Até bater com o pensamento no altíssimo
Apagarei os passos e o cérebro como um rasto no deserto
Sempre atento como a águia quando fixa o sol
Sem pestanejar.
Farei portanto a escada no deserto para fixar
A luz.
Da minha casa subirei sem palavra
Em silêncio,portanto,pisando o coração.
de Dos Líquidos (2000)
2 322
Natália Correia
Do sentimento trágico da vida
Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.
Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.
Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.
Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.
E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.
Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.
Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.
Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.
E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.
2 948
Alejandra Pizarnik
En esta noche, en este mundo
A Martha Isabel Moia
en esta noche en este mundo
las palabras del sueño de la infancia de la muerta
nunca es eso lo que uno quiere decir
la lengua natal castra
la lengua es un órgano de conocimiento
del fracaso de todo poema
castrado por su propia lengua
que es el órgano de la re-creación
del re-conocimiento
pero no el de la re-surrección
de algo a modo de negación
de mi horizonte de maldoror con su perro
y nada es promesa
entre lo decible
que equivale a mentir
(todo lo que se puede decir es mentira)
el resto es silencio
sólo que el silencio no existe
no
las palabras
no hacen el amor
hacen la ausencia
si digo agua ¿beberé?
si digo pan ¿comeré?
en esta noche en este mundo
extraordinario silencio el de esta noche
lo que pasa con el alma es que no se ve
lo que pasa con la mente es que no se ve
lo que pasa con el espíritu es que no se ve
¿de dónde viene esta conspiración de invisibilidades?
ninguna palabra es visible
en esta noche en este mundo
las palabras del sueño de la infancia de la muerta
nunca es eso lo que uno quiere decir
la lengua natal castra
la lengua es un órgano de conocimiento
del fracaso de todo poema
castrado por su propia lengua
que es el órgano de la re-creación
del re-conocimiento
pero no el de la re-surrección
de algo a modo de negación
de mi horizonte de maldoror con su perro
y nada es promesa
entre lo decible
que equivale a mentir
(todo lo que se puede decir es mentira)
el resto es silencio
sólo que el silencio no existe
no
las palabras
no hacen el amor
hacen la ausencia
si digo agua ¿beberé?
si digo pan ¿comeré?
en esta noche en este mundo
extraordinario silencio el de esta noche
lo que pasa con el alma es que no se ve
lo que pasa con la mente es que no se ve
lo que pasa con el espíritu es que no se ve
¿de dónde viene esta conspiración de invisibilidades?
ninguna palabra es visible
1 879
Carlos Felipe Moisés
Tradicão Reencontrada
Lirismo e antilirismo em João Cabral
Foi em 1966, logo após A educação pela pedra, que João Cabral pela primeira vez prometeu parar de escrever, sob a alegação de que esgotara o veio e não tinha mais o que dizer. Foi preciso aguardar até 1975, quando Museu de tudo quebrou a promessa --em seguida refeita e de novo rompida, com A escola das facas, em 1980. Na abertura desta coletânea, um bilhete em versos, ao editor, declara: "Eis mais um livro (fio que o último)". Em seguida os intervalos diminuem: Auto do frade, 1984; Agrestes, 1985; Crime na Calle Relator, 1987; Sevilha andando, 1989 --sempre entremeados de entrevistas em que a mesma promessa é refeita para ser descumprida. Que enigmas esconderá a inusitada atitude?
Uma explicação possível é que o poeta exige de si bem mais do que seus leitores o fazem. Seu exacerbado rigor, além da própria idade (Cabral é de 1920), o levam a declarar-se exaurido e desistente, a cada novo livro. É o preço que paga por ter levado sua poesia a tão altas paragens. A fama é implacável: a mesma devoção com que o lemos nos leva a esperar que ele se recupere, para que possamos fruir, sem cessar, sua energia criadora. Mas continua a intrigar a promessa tantas vezes firmada quantas desmentida. Talvez se oculte aí uma das chaves que permitirá compreender o sentido de sua trajetória poética e humana. Antes de aventar outras explicações, convido o leitor a deter comigo a atenção em Crime na Calle Relator, marcadamente característico do último Cabral.
A exemplo do que vinha ocorrendo desde Museu de tudo, não se trata de um livro "vertebrado", isto é, composto a partir de um plano geral de estruturação. É uma recolha mais ou menos arbitrária de poemas avulsos, "não chega ao vertebrado/ que deve entranhar qualquer livro:/ é depósito do que aí está", dizia o poeta na abertura da coletânea de 1975. Em entrevista concedida no ano seguinte, como que para atenuar a severidade da autocrítica, ele esclarece, referindo-se a Museu de tudo: "Fiz o que todos os poetas fazem: escrevi, escrevi e publiquei o livro. Por isso ele é menos rigoroso como concepção geral, mas não creio que se possa dizer o mesmo quanto à concepção do verso".
A avaliação é correta e aplica-se também aos livros posteriores, como este Crime na Calle Relator. Aqui João Cabral utiliza uniformemente um só padrão métrico, o octossilábico, de rimas ora toantes, ora consoantes, realizando um esforço de disciplina e contenção invulgar na moderna poesia da língua. Mas isso não é novidade. O leitor habituado à poesia cabralina conhece de longa data sua aversão à "espontaneidade". Não são novidade também a extrema concisão e o discurso elíptico, que obrigam o leitor a uma cerrada atenção, sob pena de perder o fio do que se diz, sempre sutil, velado, escondido nas entrelinhas.
Considere-se por exemplo o poema intitulado "A sevilhana que não se sabia" (composição aliás reproduzida na coletânea mais recente, Sevilha andando), cujos versos iniciais
Quando queria dá-la a ver
ou queria dá-la a se ver
ei-lo então incapaz de todo:
nada sabe dizer de novo
soam herméticos, ou ao menos dúbios, à primeira leitura. "Dá-la a ver" entende-se: dar a ver a sevilhana, "que não se sabia", como informa o título. Mas quem o "queria"? Bem, por ora não importa; alguém o queria, quem quer que seja, que não a própria sevilhana. E "dá-la a ver" a quem? Ao corrigir o primeiro verso, o segundo introduz um "se" gerador de inevitável ambigüidade. Permitindo que a sevilhana seja vista, por qualquer observador, esse alguém também se vê a si próprio. A ambigüidade, decorrente da elisão dos pronomes retos e da similitude de formas verbais e pronomes oblíquos, para as duas pessoas, estende-se por todo o longo poema, composto de quatro conjuntos simétricos de dez dísticos. ("Eu tenho mania de simetria", confessará o poeta em entrevista recente.) A ambigüidade só ao final se esclarece, entre parênteses: "não fosse ele homem do Nordeste".
Isso nos obriga a reler o poema, cientes agora de que esse alguém que queria dar a ver a sevilhana é o próprio poeta (que também "não se sabia"?), imiscuído em seu motivo literário desde o primeiro verso --o que também não chega a ser surpresa. Mesmo que não se tivesse dado conta antes, até o leitor menos atento já o sabia, desde as "Dúvidas apócrifas de Mariane Moore", esclarecedor poema de Agrestes, que assim principia:
Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?
Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?
Crime na Calle Relator não escapa à regra: é uma sucessão de poemas que "falam de coisas", poemas descritivos e narrativos, expediente em que o autor vem insistindo há muitos anos. O recenseamento dos seus motivos não parece ser, de imediato, revelador: a neta que leva um gole de cachaça à avó no leito de morte; a sevilhana que é Sevilha sem o saber; a suicida que conduz uma tartaruga pelas ruas; três viúvas que conversam interminavelmente a propósito das filhas artistas; um ferrageiro de Carmona que explica a diferença entre ferro fundido e ferro forjado; o psiquiatra; o leito de lama do Parnamirim, em Recife; outra vez Sevilha, e assim por diante. O resultado é um colorido mosaico de tipos humanos --dramatis personae que povoam cenários variados, sempre em clima de estranheza, nonsense, magia.
Foi em 1966, logo após A educação pela pedra, que João Cabral pela primeira vez prometeu parar de escrever, sob a alegação de que esgotara o veio e não tinha mais o que dizer. Foi preciso aguardar até 1975, quando Museu de tudo quebrou a promessa --em seguida refeita e de novo rompida, com A escola das facas, em 1980. Na abertura desta coletânea, um bilhete em versos, ao editor, declara: "Eis mais um livro (fio que o último)". Em seguida os intervalos diminuem: Auto do frade, 1984; Agrestes, 1985; Crime na Calle Relator, 1987; Sevilha andando, 1989 --sempre entremeados de entrevistas em que a mesma promessa é refeita para ser descumprida. Que enigmas esconderá a inusitada atitude?
A exemplo do que vinha ocorrendo desde Museu de tudo, não se trata de um livro "vertebrado", isto é, composto a partir de um plano geral de estruturação. É uma recolha mais ou menos arbitrária de poemas avulsos, "não chega ao vertebrado/ que deve entranhar qualquer livro:/ é depósito do que aí está", dizia o poeta na abertura da coletânea de 1975. Em entrevista concedida no ano seguinte, como que para atenuar a severidade da autocrítica, ele esclarece, referindo-se a Museu de tudo: "Fiz o que todos os poetas fazem: escrevi, escrevi e publiquei o livro. Por isso ele é menos rigoroso como concepção geral, mas não creio que se possa dizer o mesmo quanto à concepção do verso".
A avaliação é correta e aplica-se também aos livros posteriores, como este Crime na Calle Relator. Aqui João Cabral utiliza uniformemente um só padrão métrico, o octossilábico, de rimas ora toantes, ora consoantes, realizando um esforço de disciplina e contenção invulgar na moderna poesia da língua. Mas isso não é novidade. O leitor habituado à poesia cabralina conhece de longa data sua aversão à "espontaneidade". Não são novidade também a extrema concisão e o discurso elíptico, que obrigam o leitor a uma cerrada atenção, sob pena de perder o fio do que se diz, sempre sutil, velado, escondido nas entrelinhas.
Considere-se por exemplo o poema intitulado "A sevilhana que não se sabia" (composição aliás reproduzida na coletânea mais recente, Sevilha andando), cujos versos iniciais
Quando queria dá-la a ver
ou queria dá-la a se ver
ei-lo então incapaz de todo:
nada sabe dizer de novo
soam herméticos, ou ao menos dúbios, à primeira leitura. "Dá-la a ver" entende-se: dar a ver a sevilhana, "que não se sabia", como informa o título. Mas quem o "queria"? Bem, por ora não importa; alguém o queria, quem quer que seja, que não a própria sevilhana. E "dá-la a ver" a quem? Ao corrigir o primeiro verso, o segundo introduz um "se" gerador de inevitável ambigüidade. Permitindo que a sevilhana seja vista, por qualquer observador, esse alguém também se vê a si próprio. A ambigüidade, decorrente da elisão dos pronomes retos e da similitude de formas verbais e pronomes oblíquos, para as duas pessoas, estende-se por todo o longo poema, composto de quatro conjuntos simétricos de dez dísticos. ("Eu tenho mania de simetria", confessará o poeta em entrevista recente.) A ambigüidade só ao final se esclarece, entre parênteses: "não fosse ele homem do Nordeste".
Isso nos obriga a reler o poema, cientes agora de que esse alguém que queria dar a ver a sevilhana é o próprio poeta (que também "não se sabia"?), imiscuído em seu motivo literário desde o primeiro verso --o que também não chega a ser surpresa. Mesmo que não se tivesse dado conta antes, até o leitor menos atento já o sabia, desde as "Dúvidas apócrifas de Mariane Moore", esclarecedor poema de Agrestes, que assim principia:
Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?
Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?
Crime na Calle Relator não escapa à regra: é uma sucessão de poemas que "falam de coisas", poemas descritivos e narrativos, expediente em que o autor vem insistindo há muitos anos. O recenseamento dos seus motivos não parece ser, de imediato, revelador: a neta que leva um gole de cachaça à avó no leito de morte; a sevilhana que é Sevilha sem o saber; a suicida que conduz uma tartaruga pelas ruas; três viúvas que conversam interminavelmente a propósito das filhas artistas; um ferrageiro de Carmona que explica a diferença entre ferro fundido e ferro forjado; o psiquiatra; o leito de lama do Parnamirim, em Recife; outra vez Sevilha, e assim por diante. O resultado é um colorido mosaico de tipos humanos --dramatis personae que povoam cenários variados, sempre em clima de estranheza, nonsense, magia.
1 113
Carlos Figueiredo
Fosse o hálito dos tigres
Fosse o hálito dos tigres
bálsamo
e reconciliasse
a carne pântana
que recobre como fios de amianto
esse interior em que vive
estrangeiro de si mesmo
isso que parece ser o ser humano
E findasse esse exílio
bálsamo
e reconciliasse
a carne pântana
que recobre como fios de amianto
esse interior em que vive
estrangeiro de si mesmo
isso que parece ser o ser humano
E findasse esse exílio
810
Adriana Sampaio
Rebelião
Rebelião
Se existem outras dimensões
Por que não em mim?
Absorventes, inerentes
Sem nenhuma proporção.
Não há dicotomia
Entre o fogo que sufoca
E o ar que oxigena
Quando um se espraia
Através da existência do outro.
Convivência,
Nem sempre tão passiva
Entre beatitude e depravação
Contradições complemmentares
De sentimento e razão.
Sintagmas e paradigmas
Tesão e tédio
Tudo passando por portas de comunicação,
Pelos dez por cento de mente
Que ansiando pela lógica
Permitem-nos transpassar desordenadamente
Ao menos três dimensões.
Se existem outras dimensões
Por que não em mim?
Absorventes, inerentes
Sem nenhuma proporção.
Não há dicotomia
Entre o fogo que sufoca
E o ar que oxigena
Quando um se espraia
Através da existência do outro.
Convivência,
Nem sempre tão passiva
Entre beatitude e depravação
Contradições complemmentares
De sentimento e razão.
Sintagmas e paradigmas
Tesão e tédio
Tudo passando por portas de comunicação,
Pelos dez por cento de mente
Que ansiando pela lógica
Permitem-nos transpassar desordenadamente
Ao menos três dimensões.
967
Carlos Figueiredo
Estranha Desordem
Sou um jogo de espelhos
e a morte não irá interromper isso.
Apenas
o vinho poderá embaçar um pouco
todas as imagens.
Vivi uma vida estranha.
E haviam sempre uns olhares,
uns detalhes,
uma coisa que era realmente estranha.
Era tudo tão rápido, eu era tão pálido
e as pessoas viviam
dizendo
"você faz o que você quer"
E eu queria. Mas também com todas aquelas
lanchonetes
e ainda queriam que eu fosse desses
que entendem e vivem tudo isso
e moram em apartamentos
e vêem televisão e fumam cigarros.
(cont.)
Eu buscava uma luz,
o pé dentro do sapato,
tudo muito normal,
só que era mesmo, realmente, uma coisa estranha.
Eu era um triste, um simples
queria era pegar, tocar, mais
era tocar,um jeito,
Queria era que as coisas chegassem
com um barulho dágua
bem com um jeito
realmente não dá para explicar.
Depois, eu sei que tudo é muito resumível
e haviam sempre as coisas,
os números,
e as pessoas ficavam
olhando umas para as outras
explicando
como se somam as frações,
É claro que algo sempre escapava
e ficava vagando
pelo meio da sala,
desconfortável.
e a morte não irá interromper isso.
Apenas
o vinho poderá embaçar um pouco
todas as imagens.
Vivi uma vida estranha.
E haviam sempre uns olhares,
uns detalhes,
uma coisa que era realmente estranha.
Era tudo tão rápido, eu era tão pálido
e as pessoas viviam
dizendo
"você faz o que você quer"
E eu queria. Mas também com todas aquelas
lanchonetes
e ainda queriam que eu fosse desses
que entendem e vivem tudo isso
e moram em apartamentos
e vêem televisão e fumam cigarros.
(cont.)
Eu buscava uma luz,
o pé dentro do sapato,
tudo muito normal,
só que era mesmo, realmente, uma coisa estranha.
Eu era um triste, um simples
queria era pegar, tocar, mais
era tocar,um jeito,
Queria era que as coisas chegassem
com um barulho dágua
bem com um jeito
realmente não dá para explicar.
Depois, eu sei que tudo é muito resumível
e haviam sempre as coisas,
os números,
e as pessoas ficavam
olhando umas para as outras
explicando
como se somam as frações,
É claro que algo sempre escapava
e ficava vagando
pelo meio da sala,
desconfortável.
952
Adriana Sampaio
Auto-Suficiência
Auto-Suficiência
Procuro outra ótica
Um ângulo de 180 graus
Para observar
As flechas que lanço
Em todas as direções.
Estou atrás de novas sensações
Que me permitam
Mais vida e menos perplexidade.
Como bom entendedor
Sem meias palavras
E isso basta!
Procuro outra ótica
Um ângulo de 180 graus
Para observar
As flechas que lanço
Em todas as direções.
Estou atrás de novas sensações
Que me permitam
Mais vida e menos perplexidade.
Como bom entendedor
Sem meias palavras
E isso basta!
977
Wallace Stevens
MONTANHA DE JULHO
Nós vivemos numa constelação
De retalho e retinir de sons,
E não num mundo uno, nas coisas ditas
Acuradamente em música ou fala,
Como em piano ou página de poesia -
pensadores sem pensamentos últimos
Num cosmos sempre e sempre incipiente,
Como, ao se subir uma montanha,
Vermont reúne seus vários pedaços.
(Tradução
de João Moura Jr. )
De retalho e retinir de sons,
E não num mundo uno, nas coisas ditas
Acuradamente em música ou fala,
Como em piano ou página de poesia -
pensadores sem pensamentos últimos
Num cosmos sempre e sempre incipiente,
Como, ao se subir uma montanha,
Vermont reúne seus vários pedaços.
(Tradução
de João Moura Jr. )
1 012
Wallace Stevens
A POESIA É UMA FORÇA DESTRUTIVA
Isto é que é a miséria,
Nada Ter no coração.
É Ter ou nada.
É uma coisa Ter,
Um leão, um boi no seu peito,
Senti-la respirando ali.
Corazón, cachorro bravo,
Bezerro, urso de pernas tortas,
Ele prova seu sangue, não cospe.
É como um homem
No corpo de uma fera violenta.
São seus os músculos dela...
O leão dorme ao sol.
O nariz entre as patas.
Ela pode matar um homem.
Nada Ter no coração.
É Ter ou nada.
É uma coisa Ter,
Um leão, um boi no seu peito,
Senti-la respirando ali.
Corazón, cachorro bravo,
Bezerro, urso de pernas tortas,
Ele prova seu sangue, não cospe.
É como um homem
No corpo de uma fera violenta.
São seus os músculos dela...
O leão dorme ao sol.
O nariz entre as patas.
Ela pode matar um homem.
1 269
Nuno Guimarães
Pela Escrita
Através dela somos divididos
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
1 280
Natália Correia
Véspera do Prodígio
Além do
sol, além do Sete-Estrelo
Uma última Tule me subentende.
O caminho pra mim não sei. Sabe-lo
Será ciência que a morrer se aprende?
Passo ou sou? Deuses, quem quebra o selo?
Quando entro em mim outrem me surpreende
Que um génio zombador tem por modelo.
Onde o esquivo lar desse duende?
Seja quem for o eu que em mim recluso
Alheio fado cumpre, é vácuo o uso
Que do Dom de pensar em vão fazemos.
Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.
sol, além do Sete-Estrelo
Uma última Tule me subentende.
O caminho pra mim não sei. Sabe-lo
Será ciência que a morrer se aprende?
Passo ou sou? Deuses, quem quebra o selo?
Quando entro em mim outrem me surpreende
Que um génio zombador tem por modelo.
Onde o esquivo lar desse duende?
Seja quem for o eu que em mim recluso
Alheio fado cumpre, é vácuo o uso
Que do Dom de pensar em vão fazemos.
Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.
1 973
Renier Dias Pereira
Êxtase
Êxtase
É mesmo uma coisa mágicavezes em que me perco falandosozinho ( uma arte ninho )
não são palavras imensas, sãolivres e refletem numcaminho gargalhada
o manifesto é para emocionar,uma emoção recíproca uma certa alogicidade ( a calçada do crime )
a priori um surrealismo extasianteuma magia só compreendida pelosfamintos - ousadia
a vida é para sempre ( me diga )o coração não pulsa mais, o soltoma seu lugar. espero a certeza de um golpe feliz.
É mesmo uma coisa mágicavezes em que me perco falandosozinho ( uma arte ninho )
não são palavras imensas, sãolivres e refletem numcaminho gargalhada
o manifesto é para emocionar,uma emoção recíproca uma certa alogicidade ( a calçada do crime )
a priori um surrealismo extasianteuma magia só compreendida pelosfamintos - ousadia
a vida é para sempre ( me diga )o coração não pulsa mais, o soltoma seu lugar. espero a certeza de um golpe feliz.
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