Poemas neste tema
Corpo
Susana Pestana
Mãos Ocultas
Os meus
dedos tocaram-te...
Mas não conseguiram decifrar
Nesta terra molhada, já cultivada
Mãos audaciosas e faladas.
Sou preta, com um frio branco nas veias
Navego entre os mares abertos,
Palavras, perseguidas e calmas.
Sou mulher, de rosto velho e novo
És uma criação abandonada e minha.
Despi-te nas ruas dos limites.
Cavalo branco sem garras...
Mulher de língua mística,
Convidei-te numa inocência vendida.
Amarrei-te às escondidas da vida
Adormeceste no meu berço crescido.
Estou nua, no desespero dos sonhos.
Vieste sufocando os meus mares...
Nos campos bandidos e naufragados
Quero fugir a esse milagre comum!
Quero amar-te sozinha.
dedos tocaram-te...
Mas não conseguiram decifrar
Nesta terra molhada, já cultivada
Mãos audaciosas e faladas.
Sou preta, com um frio branco nas veias
Navego entre os mares abertos,
Palavras, perseguidas e calmas.
Sou mulher, de rosto velho e novo
És uma criação abandonada e minha.
Despi-te nas ruas dos limites.
Cavalo branco sem garras...
Mulher de língua mística,
Convidei-te numa inocência vendida.
Amarrei-te às escondidas da vida
Adormeceste no meu berço crescido.
Estou nua, no desespero dos sonhos.
Vieste sufocando os meus mares...
Nos campos bandidos e naufragados
Quero fugir a esse milagre comum!
Quero amar-te sozinha.
980
Jazzim
Poema I
Surge
de dentro teu perfume
aninha-se em minhas veias
nadando até tornar-se coração,
rim, aorta, fígado, pulmão
Todo o oxigênio tem fórmula
de teu corpo colado ao meu
química instantânea do desejo
de dentro teu perfume
aninha-se em minhas veias
nadando até tornar-se coração,
rim, aorta, fígado, pulmão
Todo o oxigênio tem fórmula
de teu corpo colado ao meu
química instantânea do desejo
788
Reinaldo Ferreira
Rosa, a mulata, desperta
Rosa, a mulata, desperta
Com os morcegos, à hora
Em que a Lua, nódoa, incerta
E sem vulto, no céu aflora.
E Vénus, mito propício
Que em seu destino decide,
Convoca as filhas do Vício
Ao culto a que ela preside.
Com os morcegos, à hora
Em que a Lua, nódoa, incerta
E sem vulto, no céu aflora.
E Vénus, mito propício
Que em seu destino decide,
Convoca as filhas do Vício
Ao culto a que ela preside.
2 023
Victor Silva
Sacrilégio
Morreu. Brilha na alcova um círio fumarento:
Nua, solto o cabelo, inteiriçada e fria,
Dentro do esquife como um ídolo agourento
Resplandece ao fulgor de acesa pedraria.
O olhar gelado exala um fluido luarento ...
Arde em rolos o incenso; estruge a ventania;
É noite; a neve cai... e um triste encantamento
Circula na mudez da câmara sombria.
Chego, mudo, a tremer, do seu féretro junto,
Desvaira-me o esplendor dessa carne querida,
Seduz-me a tentação do seu corpo defunto...
E o mesmo ardente anelo, o mesmo ideal transporte,
Toda a louca paixão com que eu a amei na vida
Sinto-a com o mesmo ardor na volúpia da morte...
Nua, solto o cabelo, inteiriçada e fria,
Dentro do esquife como um ídolo agourento
Resplandece ao fulgor de acesa pedraria.
O olhar gelado exala um fluido luarento ...
Arde em rolos o incenso; estruge a ventania;
É noite; a neve cai... e um triste encantamento
Circula na mudez da câmara sombria.
Chego, mudo, a tremer, do seu féretro junto,
Desvaira-me o esplendor dessa carne querida,
Seduz-me a tentação do seu corpo defunto...
E o mesmo ardente anelo, o mesmo ideal transporte,
Toda a louca paixão com que eu a amei na vida
Sinto-a com o mesmo ardor na volúpia da morte...
865
Rossini Corrêa
Soneto da Arte Poética
Como escrever um soneto antológico,
se o sentimento não for meritório?
Tem, o poema, seu universo biológico,
sobre a fronteira deste território
verbal, que arquiteta o vôo mágico
do sonho, com plumas vestindo o azul.
Mas, sem coração e sem cérebro, trágico
será o soneto, estre cruzeiro sem sul.
— Se o poema é escrito com palavra,
a boca há de sentir gosto de sangue
e a mão há de pensar a sua lavra...
Do trapézio do verbo quedará exangue,
todo aquele que, à procura do infinito,
no promontório, canto, viva em grito.
se o sentimento não for meritório?
Tem, o poema, seu universo biológico,
sobre a fronteira deste território
verbal, que arquiteta o vôo mágico
do sonho, com plumas vestindo o azul.
Mas, sem coração e sem cérebro, trágico
será o soneto, estre cruzeiro sem sul.
— Se o poema é escrito com palavra,
a boca há de sentir gosto de sangue
e a mão há de pensar a sua lavra...
Do trapézio do verbo quedará exangue,
todo aquele que, à procura do infinito,
no promontório, canto, viva em grito.
1 001
Mário Linhares
Festim Romano
Festim romano. Nero assiste, repoltreado
Lassamente no toro ebúrneo em que se inclina,
Ao deboche brutal das heteras e, a um lado,
Canta uma escrava ao som de uma gusla em surdina.
Aos acentos febris de uma ária fescenina,
Requebrando os quadris em lúbrico bailado,
As cortesãs, em coro, a taça cristalina
Erguem, em brinde à Carne e apoteose ao Pecado.
Referve a orgia... E Nero, às vibrações da lira,
Canta obscena canção e, no esto em que delira,
O vinho, em fogo, inflama o seu rosto sangüíneo.
E Popéia, saudando o imperador de Roma,
Entre as aclamações dos convivas, assoma,
Ébria e nua, a tombar de triclínio em triclínio.
Lassamente no toro ebúrneo em que se inclina,
Ao deboche brutal das heteras e, a um lado,
Canta uma escrava ao som de uma gusla em surdina.
Aos acentos febris de uma ária fescenina,
Requebrando os quadris em lúbrico bailado,
As cortesãs, em coro, a taça cristalina
Erguem, em brinde à Carne e apoteose ao Pecado.
Referve a orgia... E Nero, às vibrações da lira,
Canta obscena canção e, no esto em que delira,
O vinho, em fogo, inflama o seu rosto sangüíneo.
E Popéia, saudando o imperador de Roma,
Entre as aclamações dos convivas, assoma,
Ébria e nua, a tombar de triclínio em triclínio.
832
Madi
Tempo de Umidade
Tempo de Umidade
Há um leite que transborda morno,
suficiente e consistente em mim
Meu leite é farto
Não seco e nem disfarço
o tempo de umidade
Todo dia, em tempo integral,
meu leite escorre
E de umas manhãs para cá
a fonte deu para doer
Há um leite que transborda morno,
suficiente e consistente em mim
Meu leite é farto
Não seco e nem disfarço
o tempo de umidade
Todo dia, em tempo integral,
meu leite escorre
E de umas manhãs para cá
a fonte deu para doer
908
Ieda Estergilda
Sensações
O que vai nascer me provoca
ternura e náusea
o que vai nascer soca
minhas entranhas e aumenta
as expectativas.
o que sei dele, do esperado
é meu corpo se abrindo para lhe dar lugar
pesando, com seu corpo dentro.
o que vai nascer vive
em leito de água e silêncio
nada sabe do que se fala e trama cá fora
o que vai nascer não sabe
forma-se a cada dia para o dia de ser entre nós.
ternura e náusea
o que vai nascer soca
minhas entranhas e aumenta
as expectativas.
o que sei dele, do esperado
é meu corpo se abrindo para lhe dar lugar
pesando, com seu corpo dentro.
o que vai nascer vive
em leito de água e silêncio
nada sabe do que se fala e trama cá fora
o que vai nascer não sabe
forma-se a cada dia para o dia de ser entre nós.
962
João Quental
Cartas
Para Alejandra Pizarnick
1.
Tua rosa é rosa.
A nossa, quem poderá dizer?
Não é o problema: são as palavras.
2.
Algumas palavras são tão preciosas
como distinguir nosso nome
entre duas pessoas que murmuram.
3.
Frio é o lugar onde se forma o pensamento.
Entre gestos elementares, um jardim inacessível.
Frias eram as horas.
4.
É triste possuir um corpo e não possuí-lo.
Nevoada, triste quando você sorri.
E quando não.
5.
quando a noite estiver em minha memória
minha memória será noite]
6.
Uma mulher de noites.
Flutuar e escolher. Exí1io estranho.
7.
Golpeando à esmo - inadequada enquanto música.
(1987)
1.
Tua rosa é rosa.
A nossa, quem poderá dizer?
Não é o problema: são as palavras.
2.
Algumas palavras são tão preciosas
como distinguir nosso nome
entre duas pessoas que murmuram.
3.
Frio é o lugar onde se forma o pensamento.
Entre gestos elementares, um jardim inacessível.
Frias eram as horas.
4.
É triste possuir um corpo e não possuí-lo.
Nevoada, triste quando você sorri.
E quando não.
5.
quando a noite estiver em minha memória
minha memória será noite]
6.
Uma mulher de noites.
Flutuar e escolher. Exí1io estranho.
7.
Golpeando à esmo - inadequada enquanto música.
(1987)
762
Emiliano Perneta
De um Fauno
Ah! quem me dera, quando passa em meu caminho
Juno! com seu andar de névoa que flutua,
Poder despi-la dessa túnica de linho...
E vê-la nua! Eu só compreendo estátua nua!
Nua! essa corça nua é branca, e é como a Lua...
Ser eu Apolo! embriagá-la do meu vinho!
Porém se estendo no ar os meus braços, recua,
Esquiva a dama apressa o passo miudinho...
A dama foge, não deseja que eu avance...
Meu desejo, porém, é um gamo. De relance,
Vendo-a, corre a querer sugar-lhe o claro mel...
Despe-a; carrega-a, assim, despida, para o leito...
E, nua, em flor, bem como um sátiro perfeito,
Sobre o feno viola essa Virgem cruel!
Juno! com seu andar de névoa que flutua,
Poder despi-la dessa túnica de linho...
E vê-la nua! Eu só compreendo estátua nua!
Nua! essa corça nua é branca, e é como a Lua...
Ser eu Apolo! embriagá-la do meu vinho!
Porém se estendo no ar os meus braços, recua,
Esquiva a dama apressa o passo miudinho...
A dama foge, não deseja que eu avance...
Meu desejo, porém, é um gamo. De relance,
Vendo-a, corre a querer sugar-lhe o claro mel...
Despe-a; carrega-a, assim, despida, para o leito...
E, nua, em flor, bem como um sátiro perfeito,
Sobre o feno viola essa Virgem cruel!
2 060
Danilo Melo
Náuseas
Saltitante entre as marquises
O desespero revelado de cada dia
Aqui jaz a substância humana
Armazenada em programas de computador
E a carne meus amigos,
A carne finge que é bela.
Crônicas do massacre urbano e livre
O amor enlatado e vendido com etiquetas de 1a qualidade
Aqui descreve-se a moral do ocidente escrita em boas maneiras.
Promíscua continua a poesia procurando a existência
Deserto é o coração, o homem permanece cheio
Todo o cosmo ri de mim quando faço poemas
minha linguagem é de um mundo atrasado
Preocupado eternamente com a morte, em vez da vida.
Sente-se fome de si, e náusea.
O desespero revelado de cada dia
Aqui jaz a substância humana
Armazenada em programas de computador
E a carne meus amigos,
A carne finge que é bela.
Crônicas do massacre urbano e livre
O amor enlatado e vendido com etiquetas de 1a qualidade
Aqui descreve-se a moral do ocidente escrita em boas maneiras.
Promíscua continua a poesia procurando a existência
Deserto é o coração, o homem permanece cheio
Todo o cosmo ri de mim quando faço poemas
minha linguagem é de um mundo atrasado
Preocupado eternamente com a morte, em vez da vida.
Sente-se fome de si, e náusea.
421
Everaldo Moreira Verás
Descer
A noite foi toda de desordem.
Tu sangravas o suor sedento
que vinha das entranhas de mim.
E a boca engolia o beijo
como se isso fosse o último adeus.
Os seios ardiam (pudins de morango)
e eu os devorei ansiosamente homem
temendo chegar a madrugada.
Percorri teu corpo quase em chamas
minha cabeça parecia um rolo compressor.
E fui descendo
descendo
descendo
até enlouquecer na entrada daquele túnel vivo.
Nunca, nunca um homem desceu tanto!
Tu sangravas o suor sedento
que vinha das entranhas de mim.
E a boca engolia o beijo
como se isso fosse o último adeus.
Os seios ardiam (pudins de morango)
e eu os devorei ansiosamente homem
temendo chegar a madrugada.
Percorri teu corpo quase em chamas
minha cabeça parecia um rolo compressor.
E fui descendo
descendo
descendo
até enlouquecer na entrada daquele túnel vivo.
Nunca, nunca um homem desceu tanto!
863
Fontoura Xavier
Pomo do Mal
Dimanam do teu corpo as grandes digitales,
Os filtros da lascívia e o sensualismo bruto!
Tudo que em ti revive é torpe e dissoluto,
Tu és a encarnação da síntese dos males.
No entanto, toda a vez que o seio te perscruto,
A transbordar de amor como o prazer de um cálix
Assalta-me um desejo, ó glória das Onfales!
— Morder-te o coração como se morde um fruto!
Então, se dentro dele um mal que à dor excite
Conténs de mais que o pomo estéril do Asfaltite,
Eu beberia a dor nos estos do delírio!...
E podias-me ouvir, excêntrico, medonho,
Como um canto de morte ao ritmo dum sonho,
O poema da carne a dobres de martírio!...
Os filtros da lascívia e o sensualismo bruto!
Tudo que em ti revive é torpe e dissoluto,
Tu és a encarnação da síntese dos males.
No entanto, toda a vez que o seio te perscruto,
A transbordar de amor como o prazer de um cálix
Assalta-me um desejo, ó glória das Onfales!
— Morder-te o coração como se morde um fruto!
Então, se dentro dele um mal que à dor excite
Conténs de mais que o pomo estéril do Asfaltite,
Eu beberia a dor nos estos do delírio!...
E podias-me ouvir, excêntrico, medonho,
Como um canto de morte ao ritmo dum sonho,
O poema da carne a dobres de martírio!...
1 279
Everaldo Moreira Verás
Possessão
Me lembro quando tua mão pousou sobre minha mão.
O quarto, no escuro, tinha sido a cela escolhida.
A madrugada branca nos disse
que nunca mais o dia raiava.
Aí,
te apertei contra mim,
o lençol quente nos uniu.
Na rua, a luz do poste marcava, no chão,
a hora estranha de esquecer a fuga.
Baixinho murmurei o teu segredo
e a voz era doce mentira de amor.
Então,
entrei no teu corpo virgem
a tua alma me possui depois,
quase chuvamente mulher.
O quarto, no escuro, tinha sido a cela escolhida.
A madrugada branca nos disse
que nunca mais o dia raiava.
Aí,
te apertei contra mim,
o lençol quente nos uniu.
Na rua, a luz do poste marcava, no chão,
a hora estranha de esquecer a fuga.
Baixinho murmurei o teu segredo
e a voz era doce mentira de amor.
Então,
entrei no teu corpo virgem
a tua alma me possui depois,
quase chuvamente mulher.
912
Ferro do Lago
Canção Pagã
Os meus olhos caíram
sobre o teu corpo
numa bênção pagã
ungida de desejos.
O meu coração pulsa
no seio das montanhas.
Arde em chamas o gelo
dos círculos polares.
Hirtas, as árvores
despiram-se das folhas,
que o vento varreu
com meus cinco sentidos.
Lateja o meu sangue
nas veias dos regatos.
O sol cobriu o rosto
com o sudário dos nimbos.
No lago plúmbeo
bóia o teu corpo,
bóia entre espumas.
sobre o teu corpo
numa bênção pagã
ungida de desejos.
O meu coração pulsa
no seio das montanhas.
Arde em chamas o gelo
dos círculos polares.
Hirtas, as árvores
despiram-se das folhas,
que o vento varreu
com meus cinco sentidos.
Lateja o meu sangue
nas veias dos regatos.
O sol cobriu o rosto
com o sudário dos nimbos.
No lago plúmbeo
bóia o teu corpo,
bóia entre espumas.
931
Flexa Ribeiro
Crucificação
Forrado de cristal quero nosso aposento.
Abertas num perfume, orquídeas solitárias.
Subindo em espiral, como o meu Sentimento,
duma caçoila estranha, as essências mais várias...
Quatro esfinges a olhar, vagas e funerárias...
Um Cristo de marfim, visionário e sangrento.
Quase apagado o som de aveludadas árias,
através dos cristais, trazidas pelo vento...
E de tons de violeta uma luz o ilumina:
ambiente sensual, espiritualizado
à emoção virginal que me prende e domina...
Sobre lâmina de ouro — em formato de lira —
se estende o Corpo em flor, macio e perfumado,
em que todo o meu ser se alucina e delira!
Abertas num perfume, orquídeas solitárias.
Subindo em espiral, como o meu Sentimento,
duma caçoila estranha, as essências mais várias...
Quatro esfinges a olhar, vagas e funerárias...
Um Cristo de marfim, visionário e sangrento.
Quase apagado o som de aveludadas árias,
através dos cristais, trazidas pelo vento...
E de tons de violeta uma luz o ilumina:
ambiente sensual, espiritualizado
à emoção virginal que me prende e domina...
Sobre lâmina de ouro — em formato de lira —
se estende o Corpo em flor, macio e perfumado,
em que todo o meu ser se alucina e delira!
721
Alfredo Castro
A Dança dos Sete Véus
O tetrarca pediu disfarçando, de leve,
Um desejo, com voz, de enternecida, rouca,
Que Salomé, movendo o corpo airoso e breve,
Dançasse. Estava triste, e era a graça bem pouca.
Envolta em sete véus alvíssimos, de neve,
Ela, a judia, põe-se a dançar, como louca...
E, a cada evolução que o seu corpo descreve,
Como uma estranha flor, dos seus véus se destouca.
Em meneios gentis, a princesa, que gira,
Tira o primeiro véu, tira o segundo, tira
O terceiro, e outro mais, mais outro, e outro, ainda...
Quando o véu derradeiro ela, afinal, arranca,
Estaca. Aos olhos reais, Salomé, na mais franca
Nudez, mostra-se então, provocadora e linda.
Um desejo, com voz, de enternecida, rouca,
Que Salomé, movendo o corpo airoso e breve,
Dançasse. Estava triste, e era a graça bem pouca.
Envolta em sete véus alvíssimos, de neve,
Ela, a judia, põe-se a dançar, como louca...
E, a cada evolução que o seu corpo descreve,
Como uma estranha flor, dos seus véus se destouca.
Em meneios gentis, a princesa, que gira,
Tira o primeiro véu, tira o segundo, tira
O terceiro, e outro mais, mais outro, e outro, ainda...
Quando o véu derradeiro ela, afinal, arranca,
Estaca. Aos olhos reais, Salomé, na mais franca
Nudez, mostra-se então, provocadora e linda.
1 109
Cândido Rolim
Resíduos
a lágrima é um ápice
a réstia um âmbito
a morte é um ritmo
o corpo uma oferenda
o beijo é uma núpcia
efêmera
a réstia um âmbito
a morte é um ritmo
o corpo uma oferenda
o beijo é uma núpcia
efêmera
978
Carlos D’Alge
Re-invenção do Corpo
O corpo perdido precisa ser re-inventado
para que de se possa fazer o instrumento
com que cantar no ermo já instaurado.
Quem sabe se uma lira, qual o pastor antigo
que do osso da coxa, do que restou do filho amado,
fez o objeto para celebrar o corpo imolado.
O corpo não é apenas a carícia que afaga,
a amena enseada, o útero procurado, a quieta rua,
o repouso consentido, a desbravada plaga.
O corpo se transforma às vezes em fino aço,
em lâmina que fere sem deixar traço,
em riso que se esconde e se insinua,
O corpo é um ser em constante mutação,
zéfiro, borrasca, tempestade, cantochão.
O corpo perdido entre algas e brumas,
entre sinuosas, ínvias e obscuras fragas,
precisa ser re-criado entre paredes seladas
que abafem segredos, murmúrios e escumas.
Talvez fazer da costela mais saliente
um arco com que brandir o travo violino
ou a possível lira e escondê-la no cimo
da árvore onde repousa o corpo fremente.
Corpo ser móbil, móvel e serpentário,
úmido, fugidio, escampado sacrário.
para que de se possa fazer o instrumento
com que cantar no ermo já instaurado.
Quem sabe se uma lira, qual o pastor antigo
que do osso da coxa, do que restou do filho amado,
fez o objeto para celebrar o corpo imolado.
O corpo não é apenas a carícia que afaga,
a amena enseada, o útero procurado, a quieta rua,
o repouso consentido, a desbravada plaga.
O corpo se transforma às vezes em fino aço,
em lâmina que fere sem deixar traço,
em riso que se esconde e se insinua,
O corpo é um ser em constante mutação,
zéfiro, borrasca, tempestade, cantochão.
O corpo perdido entre algas e brumas,
entre sinuosas, ínvias e obscuras fragas,
precisa ser re-criado entre paredes seladas
que abafem segredos, murmúrios e escumas.
Talvez fazer da costela mais saliente
um arco com que brandir o travo violino
ou a possível lira e escondê-la no cimo
da árvore onde repousa o corpo fremente.
Corpo ser móbil, móvel e serpentário,
úmido, fugidio, escampado sacrário.
375
Carlyle Martins
A Ninfa
No bosque silencioso em que se inflama
o alto sol e onde as árvores em torno
Se condensam, formando implexa rama,
Passa um corpo de Ninfa, esbelto e morno.
É noite. Um luar de opala se derrama...
Nas clareiras, a Ninfa, — excelso adorno — ,
Teme um Sátiro audaz, de olhar em chama,
Que a persegue dos lagos no contorno.
Corre a Ninfa sutil no ermo do bosque
Através da intrincada ramaria,
Embora o mato às pernas se lhe enrosque,
Fugindo ao capro, célere recua:
— Do olhar mostrando a fulva pedraria
E o sereno esplendor da carne nua.
o alto sol e onde as árvores em torno
Se condensam, formando implexa rama,
Passa um corpo de Ninfa, esbelto e morno.
É noite. Um luar de opala se derrama...
Nas clareiras, a Ninfa, — excelso adorno — ,
Teme um Sátiro audaz, de olhar em chama,
Que a persegue dos lagos no contorno.
Corre a Ninfa sutil no ermo do bosque
Através da intrincada ramaria,
Embora o mato às pernas se lhe enrosque,
Fugindo ao capro, célere recua:
— Do olhar mostrando a fulva pedraria
E o sereno esplendor da carne nua.
2 079
Antônio de Godói
Do Mês de Maria
O sagrado esplendor de curvas cinzeladas
No relevo imortal do corpo alabastrino!
(Maio é todo um cendal de violetas dobradas...
Roçam asas no azul adelgaçado e fino...)
Rosto feito a buril de espumas congeladas
Na redoma de luz de um luar opalino!
(Reflorescem rosais... nas noites consteladas
Erra um doce rumor de citara e violino...)
Ó Senhora, de olhar claro e puro de Santa,
Virgem pura do Céu que minha alma quebranta
(A brisa corre, o ambiente é fresco, o sol não arde.)
Dá-me o fulgor que bóia em teu olhar tristonho,
Para assim clarear a noite do meu Sonho...
(Vão cantando no azul as citaras da tarde... )
No relevo imortal do corpo alabastrino!
(Maio é todo um cendal de violetas dobradas...
Roçam asas no azul adelgaçado e fino...)
Rosto feito a buril de espumas congeladas
Na redoma de luz de um luar opalino!
(Reflorescem rosais... nas noites consteladas
Erra um doce rumor de citara e violino...)
Ó Senhora, de olhar claro e puro de Santa,
Virgem pura do Céu que minha alma quebranta
(A brisa corre, o ambiente é fresco, o sol não arde.)
Dá-me o fulgor que bóia em teu olhar tristonho,
Para assim clarear a noite do meu Sonho...
(Vão cantando no azul as citaras da tarde... )
806
Américo Facó
Os Sátiros
De corpos nus, por entre a espessa mata, o bando
Dos Sátiros se interna em constante procura:
Ora um se adianta, além, na intrincada espessura,
E ora outro mais se afasta — olhos fitos, buscando...
Esse, que tem no lábio o rubescente e brando
E esplêndido frescor de uma fruta madura,
Abre o lábio a sorrir... Vendo aquele a frescura
De uma corrente, bebe a água que vai rolando...
Soa ao longe um rumor! o ardente bando, à espreita,
Aquieta-se. E por fim, loiras, nuas, aflantes;
Vêm as Ninfas, a rir, descuidosas, sem vê-los...
E os Sátiros, que à sombra esperavam na estreita
Passagem, de repente erguem-se, — e os mais amantes
As prendem, lhes cingindo a cintura e os cabelos...
Dos Sátiros se interna em constante procura:
Ora um se adianta, além, na intrincada espessura,
E ora outro mais se afasta — olhos fitos, buscando...
Esse, que tem no lábio o rubescente e brando
E esplêndido frescor de uma fruta madura,
Abre o lábio a sorrir... Vendo aquele a frescura
De uma corrente, bebe a água que vai rolando...
Soa ao longe um rumor! o ardente bando, à espreita,
Aquieta-se. E por fim, loiras, nuas, aflantes;
Vêm as Ninfas, a rir, descuidosas, sem vê-los...
E os Sátiros, que à sombra esperavam na estreita
Passagem, de repente erguem-se, — e os mais amantes
As prendem, lhes cingindo a cintura e os cabelos...
1 398
Cláudio Alex
Não sou arroz, eu não!
Eu não sou arroz, não, meu amor!
Te esforçaras para faze-lo,
mas escorregarei, sempre
pela saída impossível,
pela janela que parecia fechada.
E te sacudirei com força,
te revirarei por dentro
cairás sempre deitada na cama
e eu te terei.
Não sou arroz, eu não
nunca terás a certeza
completa de que sou
todo teu, por mais que eu diga
que eu afirme, ficara sempre
uma pontinha de duvida
de toda essa certeza.
Saberás que sou teu,
saberás que me tens,
mas temeras sempre
aquela saída oculta
que possa parecer uma porta
por onde eu
poderei desaparecer
por trás dela.
E me amaras loucamente
e me desejaras ter dentro de ti
porque quando estiver ali dentro,
envolvido no jogo da paixão terás
todas certezas.
Mas em outra hora, não terás tantas certezas,
e por essa razão fazer amor comigo
será mais imprescindível
do que com qualquer outra pessoa,
entregar-te-á com mais força
com maior afinco, porque
será quando terás a certeza
que me tens.
Nunca te acharas dona da situação
por completo, poderei te surpreender
com algo inimaginável.
Abalarei teu excesso de confiança.
E eu te virarei do avesso,
e te farei mulher
como ninguém jamais
te fez ou fará.
Desconfiaras sempre que te sentir confiante,
e aprenderas a extrair do teu homem
cada gota de prazer, que é tua e que é minha.
Porque assim ficaras mais nua e serás
possuída de todas as maneiras.
E gostaras de sê-lo.
Eu não sou arroz, eu não.
Eu te darei o antepasto,
o primeiro prato,
o segundo,
e te darei,
para deliciar,
a sobremesa.
Depois te regarei
de licor.
Aprenderas a não
acreditar que dominas.
Mesmo dominando
não terás certeza.
Porque no momento
seguinte eu posso
virar o jogo e ter toda.
Mas sempre tente me dominar,
finja que me tens na tuas mãos,
e ao mesmo tempo terás e não me terás.
Me saberás teu no intimo,
mas não terás confiança de di-lo
de boca cheia.
Eu, absolutamente, amor
não sou arroz, nem mesmo armário,
nunca serei uma mediocridade cotidiana.
Serei sempre um homem, digno da mulher és,
mas que só eu saberei, porque só eu sei faze-la.
Serei um homem digno de ter um filho contigo,
e desejaras muito este filho, porque também terás
um pouco mais de certeza de que serei teu.
E um dia, fora do espaço e do tempo,
saberás que eu sou desse jeito,
porque...
... bem, hoje não te darei certezas.
Terás que obte-las.
Hoje é segredo.
Te esforçaras para faze-lo,
mas escorregarei, sempre
pela saída impossível,
pela janela que parecia fechada.
E te sacudirei com força,
te revirarei por dentro
cairás sempre deitada na cama
e eu te terei.
Não sou arroz, eu não
nunca terás a certeza
completa de que sou
todo teu, por mais que eu diga
que eu afirme, ficara sempre
uma pontinha de duvida
de toda essa certeza.
Saberás que sou teu,
saberás que me tens,
mas temeras sempre
aquela saída oculta
que possa parecer uma porta
por onde eu
poderei desaparecer
por trás dela.
E me amaras loucamente
e me desejaras ter dentro de ti
porque quando estiver ali dentro,
envolvido no jogo da paixão terás
todas certezas.
Mas em outra hora, não terás tantas certezas,
e por essa razão fazer amor comigo
será mais imprescindível
do que com qualquer outra pessoa,
entregar-te-á com mais força
com maior afinco, porque
será quando terás a certeza
que me tens.
Nunca te acharas dona da situação
por completo, poderei te surpreender
com algo inimaginável.
Abalarei teu excesso de confiança.
E eu te virarei do avesso,
e te farei mulher
como ninguém jamais
te fez ou fará.
Desconfiaras sempre que te sentir confiante,
e aprenderas a extrair do teu homem
cada gota de prazer, que é tua e que é minha.
Porque assim ficaras mais nua e serás
possuída de todas as maneiras.
E gostaras de sê-lo.
Eu não sou arroz, eu não.
Eu te darei o antepasto,
o primeiro prato,
o segundo,
e te darei,
para deliciar,
a sobremesa.
Depois te regarei
de licor.
Aprenderas a não
acreditar que dominas.
Mesmo dominando
não terás certeza.
Porque no momento
seguinte eu posso
virar o jogo e ter toda.
Mas sempre tente me dominar,
finja que me tens na tuas mãos,
e ao mesmo tempo terás e não me terás.
Me saberás teu no intimo,
mas não terás confiança de di-lo
de boca cheia.
Eu, absolutamente, amor
não sou arroz, nem mesmo armário,
nunca serei uma mediocridade cotidiana.
Serei sempre um homem, digno da mulher és,
mas que só eu saberei, porque só eu sei faze-la.
Serei um homem digno de ter um filho contigo,
e desejaras muito este filho, porque também terás
um pouco mais de certeza de que serei teu.
E um dia, fora do espaço e do tempo,
saberás que eu sou desse jeito,
porque...
... bem, hoje não te darei certezas.
Terás que obte-las.
Hoje é segredo.
745
Álvaro Viana
Eu
Eu tenho amor pelo meu tipo feio,
Esguio e magro, muito magro e alto.
Às vezes fico embevecido e creio
Que o meu semblante é de terroso asfalto.
E noite adentro sonho um lago e em meio
Às águas calmas que em meu sonho exalto,
Vejo entre os astros, a mim próprio alheio,
O meu perfil tristonho de pernalto.
Entre os dois céus iguais em que me perco,
De um grande amor pelo meu Ser me cerco
Abrindo as asas deste Ideal que é meu.
E assim perdido na quimera, absorto,
Espera pela paz, depois de morto,
Quem nunca soube para quê nasceu.
Esguio e magro, muito magro e alto.
Às vezes fico embevecido e creio
Que o meu semblante é de terroso asfalto.
E noite adentro sonho um lago e em meio
Às águas calmas que em meu sonho exalto,
Vejo entre os astros, a mim próprio alheio,
O meu perfil tristonho de pernalto.
Entre os dois céus iguais em que me perco,
De um grande amor pelo meu Ser me cerco
Abrindo as asas deste Ideal que é meu.
E assim perdido na quimera, absorto,
Espera pela paz, depois de morto,
Quem nunca soube para quê nasceu.
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