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Poemas neste tema

Corpo

Gisela Rao

Gisela Rao

Motel Paradise

- Oi, eu sou o Adão...
- Adão?
- É, Adão, o Peladão...
- Ah, sei, já ouvi falar...
Eu sou a Eva...
- Minha costela tá doendo...
- Heim?
- Nada não, deixa para lá...
- Bom: vamos começar, né?
- Claro...
O que que eu faço?
- Ele não te ensinou?
- Nem...
- Ah, sei lá...
Eu acho que você põe a mão nesses dois
montinhos bicudos aqui em cima...
- Assim?
- É... Mas pode largar a maçã, se quiser...
- Ah, é, desculpe... Tô um pouco nervoso... E agora?
- Não tenho certeza, mas acho que você gruda o lugar
com que você fala no meu e mete esse negócio
vermelho molão lá dentro...
- Achim?
- Credo! Que bafo de onça...
- Desculpe... Peraí que eu vou mastigar umas pétalas de flor...
Nham, nham, nham... Melhorou?
- Melhorou...
- E agora?
- Sei lá... Tem certeza que Ele
não te disse?
- Disse... Disse que era para
você fazer carinho nesse treco
pendurado aqui que ele cresce...
- Nem morta! Eu tenho nojo...
Além do mais, eu também tenho medo. Sei lá de que
tamanho fica esse bicho...
- Precisa ficar com medo, não... Aposto que é menor
que certas coisinhas que você já viu por aí...
- Tá insinuando o que, heim, moleque?!?
- Tô falando dessa cobra asquerosa que não larga do
teu pé...
- Vai catar coquinho, cabeça de melão...
- Escuta aqui, ô, Maria Costela... Vamos começar
logo o serviço porque eu não tô a fim de agüentar
piripaque de mina fresca.
- Maria Costela é esse buraquinho que você tem aí atrás...
- Vai, abre logo essas pernas...
- Vê lá como fala, heim, Zé Parreira...
- Peraí... Peraí... Ó, o bicho cresceu, viu?
- Olha só... quem diria... E ficou duro pacas...
Ai... E se doer?
- Não dói, não...
- Tá bom, então manda pau...
- Taí, gostei... Vamos chamar o treco pendurado de pau!
- Legal... E ela?
- O buracão?
O buracão a gente chama de caverna peluda...

- Muito romântico...
- Arghhh!!!!
- Que foi?
- Tá tudo melado aí dentro!!!
Não vou meter meu "pau" aí nem que a
vaca tussa...
- Saco!
Vou reclamar com Ele..
Aliás, sabe o que eu acho? Acho que você é um
tremendo gayzão!!!
- Gayzão? Que que é isso?
- É homem que gosta de homem...
- Cadê o outro homem, burra?
- É mesmo, fica difícil ser gay por aqui...
- Nossa! Olha aquilo!!!
- O que?

Clunca!

- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!! Cafajeste!
Doeu viu...
- Relaxa, benzinho...
O pior já passou...
Olha, faz assim: quando eu for para cá,
você vai para lá... Quando eu for pra lá, você vem pra cá...
Tá bom?
- Tá...
- Então, vamos! Um, dois e...

Balança, balança, balança...

- Ai, Adão... Assim tá gostoso...
- Yes! Yes! Yes!
Hei! Para que serve esse negocinho aí em cima do
cavernão peludo?
- Não sei, mexe para ver...

Clica! Clica! Clica!

- Ai, mexe mais...
Não para! Não para! Não para!!!!!!!!!
- Não vo...vo... vo... vou... pa.. pa... pa...rar...
- Aaa...
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
- Ooo...
Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

Pausa

- Ai, meu Deus do Céu... O que foi isso?
- Não sei, mas para mim foi bom demais...
Foi bom para você?
- Se foi...
Senti uma coisa estranha...
- Como o que?
Como se estivesse... no PARAÍSO...
- Pode crê!

963
Vicente Franz Cecim

Vicente Franz Cecim

Àquele que dorme sem sono

Os teus corpos, Um de Carne e Outro de Sombra,

envolve em óleos

pois são dois, e o segundo é mais real

É preciso ver num sonho

a paisagem das verdades

onde insetos vêm pousar em nossas mãos

Há palavras que os homens não dizem

Há águas tão amargas,

filho,

que se recusam a devolver às fontes

as antigas possibilidades musicais da espécie

Mas as luas da febre

estão passando

sobre os lugares onde a sombra humana ainda irá passar

Um longo caminho não é sinal de eternidade

Ninguém ainda foi ouvir o silêncio das estrelas

E não ter colhido o mel,

a um murmúrio de distância dos teus lábios,

salgou ainda mais as colméias eternas

É lenta a economia daqueles que aqui esquecem o sabor do sal

E há uns que temem a queda das unhas no inverno,

e há outros que pararam a vida

numa estação vazia

É preciso ir à paisagem das verdades: Insetos

pousariam

em nossas mãos: Os ouvidos humanos

são cavernas escuras

Agora nascerão raízes,

quando esperavas asas

E quem sabe um dia virão frutos

para te dar ao leite coagulado,

suficiente é ter nascido

Suficiente é ser a sede, pois só por isso se obteve

a dádiva

dos lagos e da gota de veneno

e um oceano de lágrimas

para encher os olhos de ternura

O que tu sabes de ti?

Somente que já vai começando a desaceleração do vento

em teus cabelos

A menos que desças no caminho, para colher as

imagens

que foram caindo da nossa memória,

estás perdido

A menos que subas, ao avistar uma montanha de

homens

que foram virados do avesso, os ossos por fora,

a carne por dentro,

e te prostres em adoração ao pó,
v
em que esses homens se tornarão?

Chama o vento com o ar dos teus pulmões

por amor às cinzas

Estas perdido

Entre a festa para receber,

com festa humana,

e uma esperança de ferrugens

Sob os sons das estrelas,

uma esperança de ferrugens

é o que te fere a sombra

e estás perdido

A melhor coisa que fazes

e a pior, será parar a circulação contínua da máquina

Prova uma gota do nosso sangue,

e aceita, sorrindo,

que isso aconteceu,

que foram caindo da nossa memória

a polpa e a seiva, tingidas de vermelho

Um futuro de rodas que já não rodarão

para as colheitas do destino

Entrega o nosso trem ao delírio de uma floresta

virgem a cada dia

E a voz que te diz isso:

ao menos uma vez

teremos o ferro do nosso dispensável coração

Então, por que não semear de mãos vazias?

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