Poemas neste tema
Corpo
Elisa Lucinda
Escolha
Eu te amo como um colibri resistente
incansável beija-flor que sou
batedora renitente de asas
viciada no mel que me dás depois que atravesso o deserto.
Pingas na minha boca umas gotas poucas
do que nem é uma vacina.
Eu uma mulher, uma ave, uma menina…
Assim chacinas o meu tempo de eremita:
quebras a bengala onde me apoiei, rasgas minhas meias
as que vestiram meus pés
quando caminhei as areias.
Eu te amo como quem esquece tudo
diante de um beijo:
as inúmeras horas desbeijadas
os terríveis desabraços
os dolorosos desencaixes
que meu corpo sofreu longe do seu.
Elejo sempre o encontro
Ele é o ponto do crochê.
Penélope invertida
nada começo de novo
nada desmancho
nada volto
Teço um novo tecido de amor eterno
a cada olhar seu de afeto
não ligo para nada que doeu.
Só para o que deixou de doer tenho olhos.
Cega do infortúnio
pesco os peixes dos nossos encaixes
pesco as gozadas
as confissões de amor
as palavras fundas de prazer
as esculturas astecas que nos fixam
na história dos dias
Eu te amo.
De todos os nossos montes
fico com as encostas
De todas as nossas indagações
fico com as respostas
De todas as nossas destilairias
fico com as alegrias
De todos os nossos natais
fico com as bonecas
De todos os nossos cardumes
as moquecas.
incansável beija-flor que sou
batedora renitente de asas
viciada no mel que me dás depois que atravesso o deserto.
Pingas na minha boca umas gotas poucas
do que nem é uma vacina.
Eu uma mulher, uma ave, uma menina…
Assim chacinas o meu tempo de eremita:
quebras a bengala onde me apoiei, rasgas minhas meias
as que vestiram meus pés
quando caminhei as areias.
Eu te amo como quem esquece tudo
diante de um beijo:
as inúmeras horas desbeijadas
os terríveis desabraços
os dolorosos desencaixes
que meu corpo sofreu longe do seu.
Elejo sempre o encontro
Ele é o ponto do crochê.
Penélope invertida
nada começo de novo
nada desmancho
nada volto
Teço um novo tecido de amor eterno
a cada olhar seu de afeto
não ligo para nada que doeu.
Só para o que deixou de doer tenho olhos.
Cega do infortúnio
pesco os peixes dos nossos encaixes
pesco as gozadas
as confissões de amor
as palavras fundas de prazer
as esculturas astecas que nos fixam
na história dos dias
Eu te amo.
De todos os nossos montes
fico com as encostas
De todas as nossas indagações
fico com as respostas
De todas as nossas destilairias
fico com as alegrias
De todos os nossos natais
fico com as bonecas
De todos os nossos cardumes
as moquecas.
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1
Castro Alves
Os Perfumes
A. L.
O sândalo é o perfume das mulheres de Estambul,
e das huris do profeta; como as borboletas,
que se alimentam do mel, a mulher do Oriente
vive com as gotas dessa essência divina.
J. DE ALENCAR
O Perfume é o invólucro invisível,
Que encerra as formas da mulher bonita.
Bem como a salamandra em chamas vive,
Entre perfumes a sultana habita.
Escrínio aveludado onde se guarda
— Colar de pedras — a beleza esquiva,
Espécie de crisálida, onde mora
A borboleta dos salões — a Diva.
Alma das flores — quando as flores morrem,
Os perfumes emigram para as belas,
Trocam lábios de virgens — por boninas,
Trocam lírios — por seios de donzelas!
E ali — silfos travessos, traiçoeiros
Voam cantando em lânguido compasso
Ocultos nesses cálices macios
Das covinhas de um rosto ou dum regaço.
Vós, que não entendeis a lenda oculta,
A linguagem mimosa dos aromas,
De Madalena a urna olhais apenas
Como um primor de orientais redomas;
E não vedes que ali na mirra e nardo
Vai toda a crença da Judia loura...
E que o óleo, que lava os pés do Cristo,
É uma reza também da pecadora.
Por mim eu sei que há confidências ternas,
Um poema saudoso, angustiado,
Se uma rosa de há muito emurchecida,
Rola acaso de um livro abandonado.
O espírito talvez dos tempos idos
Desperta ali como invisível nume...
E o poeta murmura suspirando:
"Bem me lembro... era este o seu perfume!"
E que segredo não revela acaso
De uma mulher a predileta essência?
Ora o cheiro é lascivo e provocante!
Ora casto, infantil, como a inocência!
Ora propala os sensuais anseios
Dalcova de Ninon ou Margarida,
Ora o mistério divinal do leito,
Onde sonha Cecília adormecida.
Aqui, na magnólia de Celuta
Lambe a solta madeixa, que se estira.
Unge o bronze do dorso da cabocla,
E o mármore do corpo da Hetaíra.
É que o perfume denuncia o espírito
Que sob as formas feminis palpita...
Pois como a salamandra em chamas vive,
Entre perfumes a mulher habita.
O sândalo é o perfume das mulheres de Estambul,
e das huris do profeta; como as borboletas,
que se alimentam do mel, a mulher do Oriente
vive com as gotas dessa essência divina.
J. DE ALENCAR
O Perfume é o invólucro invisível,
Que encerra as formas da mulher bonita.
Bem como a salamandra em chamas vive,
Entre perfumes a sultana habita.
Escrínio aveludado onde se guarda
— Colar de pedras — a beleza esquiva,
Espécie de crisálida, onde mora
A borboleta dos salões — a Diva.
Alma das flores — quando as flores morrem,
Os perfumes emigram para as belas,
Trocam lábios de virgens — por boninas,
Trocam lírios — por seios de donzelas!
E ali — silfos travessos, traiçoeiros
Voam cantando em lânguido compasso
Ocultos nesses cálices macios
Das covinhas de um rosto ou dum regaço.
Vós, que não entendeis a lenda oculta,
A linguagem mimosa dos aromas,
De Madalena a urna olhais apenas
Como um primor de orientais redomas;
E não vedes que ali na mirra e nardo
Vai toda a crença da Judia loura...
E que o óleo, que lava os pés do Cristo,
É uma reza também da pecadora.
Por mim eu sei que há confidências ternas,
Um poema saudoso, angustiado,
Se uma rosa de há muito emurchecida,
Rola acaso de um livro abandonado.
O espírito talvez dos tempos idos
Desperta ali como invisível nume...
E o poeta murmura suspirando:
"Bem me lembro... era este o seu perfume!"
E que segredo não revela acaso
De uma mulher a predileta essência?
Ora o cheiro é lascivo e provocante!
Ora casto, infantil, como a inocência!
Ora propala os sensuais anseios
Dalcova de Ninon ou Margarida,
Ora o mistério divinal do leito,
Onde sonha Cecília adormecida.
Aqui, na magnólia de Celuta
Lambe a solta madeixa, que se estira.
Unge o bronze do dorso da cabocla,
E o mármore do corpo da Hetaíra.
É que o perfume denuncia o espírito
Que sob as formas feminis palpita...
Pois como a salamandra em chamas vive,
Entre perfumes a mulher habita.
4 948
1
Castro Alves
O Nadador
E-Lo que ao rio arroja-se.
As vagas bipartiram-se;
Mas rijas contraíram-se
Por sobre o nadador...
Depois sentreabre lúgubre
Um círculo simbólico...
É o riso diabólico
Do pego zombador!
Mas não! Do abismo — indômito
Surge-me um rosto pálido,
Como o Netuno esquálido,
Que amaina a crina ao mar;
Fita o batel longínquo
Na sombra do crepúsculo...
Rasga com férreo músculo
O rio par a par,
Vagas! Dalilas pérfidas!
Moças, que abris um túmulo,
Quando do amor no cúmulo
Fingis nos abraçar!
O nadador intrépido
Vos toca as tetas cérulas...
E após — zombando — as pérolas
Vos quebra do colar.
Vagas! Curvai-vos tímidas!
Abri fileiras pávidas
Às mãos possantes, ávidas
Do nadador audaz!...
Belo, de força olímpica
— Soltos cabelos úmidos —
Braços hercúleos, túmidos...
o rei dos vendavais!
Mas ai! Lá ruge próxima
A correnteza hórrida,
Como da zona tórrida
A boicininga a urrar...
É lá que o rio indômito,
Como o corcel da Ucrânia,
Rincha a saltar de insânia,
Freme e se atira ao mar.
Tremeste? Não! Quimporta-te
Da correnteza o estríduío?
Se ao longe vês teu ídolo,
Ao longe irás também...
Salta à garupa úmida
Deste corcel titânico...
— Novo Mazeppa oceânico —
Além! além! além!...
As vagas bipartiram-se;
Mas rijas contraíram-se
Por sobre o nadador...
Depois sentreabre lúgubre
Um círculo simbólico...
É o riso diabólico
Do pego zombador!
Mas não! Do abismo — indômito
Surge-me um rosto pálido,
Como o Netuno esquálido,
Que amaina a crina ao mar;
Fita o batel longínquo
Na sombra do crepúsculo...
Rasga com férreo músculo
O rio par a par,
Vagas! Dalilas pérfidas!
Moças, que abris um túmulo,
Quando do amor no cúmulo
Fingis nos abraçar!
O nadador intrépido
Vos toca as tetas cérulas...
E após — zombando — as pérolas
Vos quebra do colar.
Vagas! Curvai-vos tímidas!
Abri fileiras pávidas
Às mãos possantes, ávidas
Do nadador audaz!...
Belo, de força olímpica
— Soltos cabelos úmidos —
Braços hercúleos, túmidos...
o rei dos vendavais!
Mas ai! Lá ruge próxima
A correnteza hórrida,
Como da zona tórrida
A boicininga a urrar...
É lá que o rio indômito,
Como o corcel da Ucrânia,
Rincha a saltar de insânia,
Freme e se atira ao mar.
Tremeste? Não! Quimporta-te
Da correnteza o estríduío?
Se ao longe vês teu ídolo,
Ao longe irás também...
Salta à garupa úmida
Deste corcel titânico...
— Novo Mazeppa oceânico —
Além! além! além!...
1 971
1
Antonio Roberval Miketen
Mendes and the Bullfight in the Round
To yield silk for silk,
millimeter by millimeter,
the petal-like tissue
to the finest needles.
To weave, weave, weave,
weave the bull in pink,
without yielding the very terrain
of the matador.
In the smothness of the silk,
in the cutting edge of a glimpse,
to slide over the sword
the purity of fire.
To retain the fate of the bull,
to feel the vein on the fingertip,
to bring the leather close to the body
without a flip of fear.
With the thinness of the needle,
even if the blood chills,
retain the dark rose
on the petal-like skin.
In the bullfight in the round,
to spill blood and salt,
weaving a rose
of fatal red color.
Millimeter by millimeter,
to yield, yield, yieid,
to yield until the very minute
when feeling that death has come.
millimeter by millimeter,
the petal-like tissue
to the finest needles.
To weave, weave, weave,
weave the bull in pink,
without yielding the very terrain
of the matador.
In the smothness of the silk,
in the cutting edge of a glimpse,
to slide over the sword
the purity of fire.
To retain the fate of the bull,
to feel the vein on the fingertip,
to bring the leather close to the body
without a flip of fear.
With the thinness of the needle,
even if the blood chills,
retain the dark rose
on the petal-like skin.
In the bullfight in the round,
to spill blood and salt,
weaving a rose
of fatal red color.
Millimeter by millimeter,
to yield, yield, yieid,
to yield until the very minute
when feeling that death has come.
929
1
Antônio Massa
A Teia da Vida
Renda bordada
tecida no ventre
envolvendo em seus nós
o corpo do homem
rede fechada
que liberta a face
humana e insigne
em busca do outro
no jogo de laço
as almas se encontram
e a cama de gato
as une em uma
seu contorno único
é palco de paz
incoercível e sã
inconcebível e adversa
o equilíbrio fibra
nas raízes desse todo
que caminha gloriosamente
sobre o tênue fio da vida
tecida no ventre
envolvendo em seus nós
o corpo do homem
rede fechada
que liberta a face
humana e insigne
em busca do outro
no jogo de laço
as almas se encontram
e a cama de gato
as une em uma
seu contorno único
é palco de paz
incoercível e sã
inconcebível e adversa
o equilíbrio fibra
nas raízes desse todo
que caminha gloriosamente
sobre o tênue fio da vida
1 445
1
Marcial
EPIGRAMAS
I, 24 - A COTA
Com quem te não banhaste, não convidas nunca,
E só nos balneários teus convivas buscas.
A mim me perguntava como nunca o fora:
E agora sei que, nu, não pude encher-te os olhos.
Com quem te não banhaste, não convidas nunca,
E só nos balneários teus convivas buscas.
A mim me perguntava como nunca o fora:
E agora sei que, nu, não pude encher-te os olhos.
1 101
1
Társis Schwald
Puta suja
Queimo minhas mãos que sentiram teu corpo
Mas o gosto é eterno
Pode queimar minhas roupas
Lamber minhas botas
Beber meu leite
Queimaria minhas mãos que te tocaram?
Que amarram teu corpo e surram tua pele negra e doce
Quero sentir o horror disso e algumas vezes não tenho lágrimas
Preciso voltar para meu pai
Sentir o arrependimento
Subir me arrastando,
Mas tua pele não me deixa – é uma sede que não se mede
Tua dor foi acordada
Tua boca negra é minha
Tuas pernas me sugam
Me devoram e me findam
Mas o gosto é eterno
Pode queimar minhas roupas
Lamber minhas botas
Beber meu leite
Queimaria minhas mãos que te tocaram?
Que amarram teu corpo e surram tua pele negra e doce
Quero sentir o horror disso e algumas vezes não tenho lágrimas
Preciso voltar para meu pai
Sentir o arrependimento
Subir me arrastando,
Mas tua pele não me deixa – é uma sede que não se mede
Tua dor foi acordada
Tua boca negra é minha
Tuas pernas me sugam
Me devoram e me findam
1 589
1
Antônio Brasileiro
Banquete Ilúdico
Quando me chegam, subitamente,
quarenta inspirações atropelando-se
descubro que meus ombros são tão frágeis,
tão frágeis são meus ombros:
mas não destroça de todo esse meu corpo
e espírito a avalanche de imagens, não destroça
— tão frágil sou. mas humilde.
E recomeço,
sábio como os que sabem, recomeço. E caio.
Toda a vida é inovação e surpresa, aí de nós.
quarenta inspirações atropelando-se
descubro que meus ombros são tão frágeis,
tão frágeis são meus ombros:
mas não destroça de todo esse meu corpo
e espírito a avalanche de imagens, não destroça
— tão frágil sou. mas humilde.
E recomeço,
sábio como os que sabem, recomeço. E caio.
Toda a vida é inovação e surpresa, aí de nós.
1 268
1
Paulo Montalverne
Cartografia
Deixe que meus versos
Acariciem teu pescoço
Para que cada palavra de minha boca
Busque os segredos profundos de tua pele.
Em verbos e adjetivos
Mapearei a geometria de tuas formas
Delirando entre sonhos e verdades
E desejos
E loucuras
E vivências.
Entre o toque da caneta no papel
E o de minha língua em tua língua
Vai uma distância tão curta
Que escala alguma representará.
Derrubando fronteiras
Com rios de prosa e versejar
Traçarei meandros de corpos em corpos
Estremecendo as atmosferas de nossos toques.
E quando o último verso meu
Escorregar de tuas pernas
Eu me afastarei
E contemplarei
Cada linha eterna de tua beleza,
Eternamente gravadas em mim.
E saberei não haver distância
Entre minhas palavras e tua boca.
Acariciem teu pescoço
Para que cada palavra de minha boca
Busque os segredos profundos de tua pele.
Em verbos e adjetivos
Mapearei a geometria de tuas formas
Delirando entre sonhos e verdades
E desejos
E loucuras
E vivências.
Entre o toque da caneta no papel
E o de minha língua em tua língua
Vai uma distância tão curta
Que escala alguma representará.
Derrubando fronteiras
Com rios de prosa e versejar
Traçarei meandros de corpos em corpos
Estremecendo as atmosferas de nossos toques.
E quando o último verso meu
Escorregar de tuas pernas
Eu me afastarei
E contemplarei
Cada linha eterna de tua beleza,
Eternamente gravadas em mim.
E saberei não haver distância
Entre minhas palavras e tua boca.
1 437
1
Paul Groussac Mendes
Naquele apartamento
(Para Darci Quinha Castro)
À noite tarde, tarde noite,
Em transe de açoite
Naquele apartamento,
Eu te amei em tormento
Teus seios sob blusa carmesim
Pontudos me diziam sim;
Tua boca ávida, seca de prazer
Engoliu-me a ponto de jazer
Tuas gostosas coxas quentes
Enlaçavam-me em frementes
Amarras do trepar,
Já na iminência de gozar...
Arranquei tua calcinha, quinha
Senti a delícia de tua castanhinha
Quando em frenesi meu falo
Adentrou tuas entranhas em calo
Renasci e acalmei o teu desejo,
Que mesmo agora ainda vejo
E sinto o ardor, o sugar, o morder,
O mamar, o beijar, o penetrar, o foder...
À noite tarde, tarde noite,
Em transe de açoite
Naquele apartamento,
Eu te amei em tormento
Teus seios sob blusa carmesim
Pontudos me diziam sim;
Tua boca ávida, seca de prazer
Engoliu-me a ponto de jazer
Tuas gostosas coxas quentes
Enlaçavam-me em frementes
Amarras do trepar,
Já na iminência de gozar...
Arranquei tua calcinha, quinha
Senti a delícia de tua castanhinha
Quando em frenesi meu falo
Adentrou tuas entranhas em calo
Renasci e acalmei o teu desejo,
Que mesmo agora ainda vejo
E sinto o ardor, o sugar, o morder,
O mamar, o beijar, o penetrar, o foder...
847
1
Notívaga Noturna
Carinho da igual
Eu quero mais é um carinho da igual.
Beber dessa doçura ímpar feminina-letal.
Trocar tocando seios que se bicam, magnéticos.
Saborear teus cheiros de menina, elétricos.
Eu quero mais é essa doçura sem igual.
Derreter nesses carinhos não homem-sexuais.
Beijar trocando línguas que se roçam, nirvanescas.
Acariciar tua púbis de menina – e sonhar, quixotesca.
Eu quero mais é esse prazer indizível que é teu prazer também.
Esse trocar de iguais tão diferentes de tudo – e tão bom.
Essa magia incandescente que só nasce de pólos-poros-peles iguais,
Que se tocam-retocam-retrocam criando amor.
Eu quero mais é beber dessa magia de nós duas,
Nuas e eternas,
Ternamente nuas,
Virando uma.
Criando mel-de-vida.
Fabricando amor.
Beber dessa doçura ímpar feminina-letal.
Trocar tocando seios que se bicam, magnéticos.
Saborear teus cheiros de menina, elétricos.
Eu quero mais é essa doçura sem igual.
Derreter nesses carinhos não homem-sexuais.
Beijar trocando línguas que se roçam, nirvanescas.
Acariciar tua púbis de menina – e sonhar, quixotesca.
Eu quero mais é esse prazer indizível que é teu prazer também.
Esse trocar de iguais tão diferentes de tudo – e tão bom.
Essa magia incandescente que só nasce de pólos-poros-peles iguais,
Que se tocam-retocam-retrocam criando amor.
Eu quero mais é beber dessa magia de nós duas,
Nuas e eternas,
Ternamente nuas,
Virando uma.
Criando mel-de-vida.
Fabricando amor.
1 009
1
António Aragão
A virgem
um avião em teus seios desocupados
um guindaste em tua boca alerta
um passo de arco-íris corre
teu pulso – dá-me teu bilhete
oh como voo te gosto de viajar!
um motor faz entre tuas coxas
hossana! é sangue o côncavo do teu lugar
um guindaste em tua boca alerta
um passo de arco-íris corre
teu pulso – dá-me teu bilhete
oh como voo te gosto de viajar!
um motor faz entre tuas coxas
hossana! é sangue o côncavo do teu lugar
1 428
1
Michelangelo
AL COR DI ZOLFO
Um coração de enxofre, a carne estopa,
e de bem seca lenha o atro seio,
alma sem qualquer norte, alma sem freio,
desejo pronto que ao prazer não poupa,
cegueiras da razão tão fraca e louca,
e quanto o mundo é de ciladas cheio-
não é grã maravilha, se um anseio
a chama atiça a tão ardente roupa.
E as Artes belas que, do céu consigo
se alguém as traz, a Natureza enfreia,
se a força aplica em toda a parte e logo...
Se como tal nasci, se à Arte eu sigo,
entregue o coração ao que o incendeia,
culpa será de quem me deu ao fogo.
e de bem seca lenha o atro seio,
alma sem qualquer norte, alma sem freio,
desejo pronto que ao prazer não poupa,
cegueiras da razão tão fraca e louca,
e quanto o mundo é de ciladas cheio-
não é grã maravilha, se um anseio
a chama atiça a tão ardente roupa.
E as Artes belas que, do céu consigo
se alguém as traz, a Natureza enfreia,
se a força aplica em toda a parte e logo...
Se como tal nasci, se à Arte eu sigo,
entregue o coração ao que o incendeia,
culpa será de quem me deu ao fogo.
1 367
1
Abus Novas
Deus sabe que ninguém tem
Deus sabe que ninguém tem
instrumento igual ao meu:
venham medi-lo e hão-de ver
o tesouro que El me deu.
Tomai-o – isso! – na mão:
é meu timbre de valor.
Quem o gosto lhe descobre
sucumbe de temo ardor.
Tão alto como um pilar
(como um pilar não encolhe)
visto ao longe na distância
de qualquer lado que se olhe.
Venham pegar, e apertá-lo
com força na vossa mão.
E levai-o à vossa tenda,
entre onde os montes estão.
Sede vós a lá guardá-lo
com vossa mão cuidadosa.
Vede quanto ergue a cabeça
como bandeira orgulhosa!
Nem dareis por sua entrada,
tão corajoso ele avança!
Jamais pende como a vela
quando o vento se descansa.
Que el seja asa da panela
entre as pernas escondida,
tão vazia desde o fundo
até à borda cingida.
Venham ver a maravilha
que logo se ergue tão pronta!
Tão rara e tão portentosa,
tão rica de bens sem conta!
E vejam como endurece
tão forte e tão magistral:
E coluna dura e longa
de uma força sem igual.
Se quereis pega segura,
ou colher que bem remexa,
outra melhor não tereis
para panelas sem queixa.
Pegai nesta – que ela esteja
na vossa panela ardente,
lá onde só um instrumento
haverá que vos contente!
Nem sonhais – amores –
o gosto que vos dará tal espada,
mesmo em panela de cobre
ou de prata chapeada.
instrumento igual ao meu:
venham medi-lo e hão-de ver
o tesouro que El me deu.
Tomai-o – isso! – na mão:
é meu timbre de valor.
Quem o gosto lhe descobre
sucumbe de temo ardor.
Tão alto como um pilar
(como um pilar não encolhe)
visto ao longe na distância
de qualquer lado que se olhe.
Venham pegar, e apertá-lo
com força na vossa mão.
E levai-o à vossa tenda,
entre onde os montes estão.
Sede vós a lá guardá-lo
com vossa mão cuidadosa.
Vede quanto ergue a cabeça
como bandeira orgulhosa!
Nem dareis por sua entrada,
tão corajoso ele avança!
Jamais pende como a vela
quando o vento se descansa.
Que el seja asa da panela
entre as pernas escondida,
tão vazia desde o fundo
até à borda cingida.
Venham ver a maravilha
que logo se ergue tão pronta!
Tão rara e tão portentosa,
tão rica de bens sem conta!
E vejam como endurece
tão forte e tão magistral:
E coluna dura e longa
de uma força sem igual.
Se quereis pega segura,
ou colher que bem remexa,
outra melhor não tereis
para panelas sem queixa.
Pegai nesta – que ela esteja
na vossa panela ardente,
lá onde só um instrumento
haverá que vos contente!
Nem sonhais – amores –
o gosto que vos dará tal espada,
mesmo em panela de cobre
ou de prata chapeada.
421
1
Lília Chaves
Vem morrer vivendo nos meus braços
Vem morrer vivendo nos meus braços
Preenche com meu colo teus espaços
Do avesso do meu não, faz o teu sim
Vem poetar de amor dentro de mim
Grita o aroma rubro do desejo em flor
Perde teu gosto fulvo desta pele em cor
Pensa nas sombras de gemidos vãos
E faze de meus lábios tuas mãos
Sente meu toque no teu toque exangue
Vive meu gozo em teu próprio sangue
Dá-me teu beijo para que eu afague
Dá-me teus olhos para que eu me afogue
Teu pensamento onde minhalma cabe
E que meu corpo no teu corpo acabe
Preenche com meu colo teus espaços
Do avesso do meu não, faz o teu sim
Vem poetar de amor dentro de mim
Grita o aroma rubro do desejo em flor
Perde teu gosto fulvo desta pele em cor
Pensa nas sombras de gemidos vãos
E faze de meus lábios tuas mãos
Sente meu toque no teu toque exangue
Vive meu gozo em teu próprio sangue
Dá-me teu beijo para que eu afague
Dá-me teus olhos para que eu me afogue
Teu pensamento onde minhalma cabe
E que meu corpo no teu corpo acabe
860
1
Paulo Netho
Seus seios
Seus seios são o caminho que todos anseiam
eles são fartas tetas por onde a existência se fortifica
seus seios não são a loucura plus
eles não são nada mas são tudo
firmes e belos eles apontam
para o sol de todos os dias
criatura do criador
obra prima no oásis
de nós mesmos
seus enlouquecem
quando desatam da alça do sutiã
eles são como a aurora
surgindo para além do previsível
e irremediável
seus seios eis a lírica mais perfeita
num tempo de imperfeições.
eles são fartas tetas por onde a existência se fortifica
seus seios não são a loucura plus
eles não são nada mas são tudo
firmes e belos eles apontam
para o sol de todos os dias
criatura do criador
obra prima no oásis
de nós mesmos
seus enlouquecem
quando desatam da alça do sutiã
eles são como a aurora
surgindo para além do previsível
e irremediável
seus seios eis a lírica mais perfeita
num tempo de imperfeições.
1 196
1
Rômulo do Amaral Filho
Sibilo
Sibilo me lembra serpente
Serpente me lembra bote
Bote me lembra picada
Picada me lembra veneno
Veneno me lembra teu beijo
Teu beijo me lembra desejo
Desejo me lembra amor
Amor me lembra prazer
Prazer me lembra teu corpo
Teu corpo me lembra sonhar
Sonhar me lembra te amar
Te amar lembra
Morrer de paixão
Serpente me lembra bote
Bote me lembra picada
Picada me lembra veneno
Veneno me lembra teu beijo
Teu beijo me lembra desejo
Desejo me lembra amor
Amor me lembra prazer
Prazer me lembra teu corpo
Teu corpo me lembra sonhar
Sonhar me lembra te amar
Te amar lembra
Morrer de paixão
1 056
1
J. G. de Araújo Jorge
Razões de amor
I
Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria...
Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...
Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar...
Gosto de tua voz, tranqüila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...
Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...
Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...
II
Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;
de teu ventre – uma enseada
– porto sem cais e sem mar –
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;
– do teu corpo só de alvuras
– das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...
Gosto de ti
desesperadamente;
gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
– gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...
Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria...
Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...
Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar...
Gosto de tua voz, tranqüila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...
Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...
Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...
II
Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;
de teu ventre – uma enseada
– porto sem cais e sem mar –
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;
– do teu corpo só de alvuras
– das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...
Gosto de ti
desesperadamente;
gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
– gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...
2 702
1
Douglas Mondo
Eros
Sou preferido filho de Vênus
sinta minha libido molhada
que procura sua fenda imaculada
e inocula prazer feito veneno
Sou língua, enorme ou lingüeta
sou falus, penetro e me calo
no calor da sua rósea buceta
sou macho, falo com meu talo
Ouça trovões do poeta guerreiro
provoco a ira ou o desejo com ardor
sou um deus fruto da deusa do amor
Beba, sou deleite jorrando e engula
mate a sede, sou corpo na sua gula
quero, profano e arrombo, sou Eros
sinta minha libido molhada
que procura sua fenda imaculada
e inocula prazer feito veneno
Sou língua, enorme ou lingüeta
sou falus, penetro e me calo
no calor da sua rósea buceta
sou macho, falo com meu talo
Ouça trovões do poeta guerreiro
provoco a ira ou o desejo com ardor
sou um deus fruto da deusa do amor
Beba, sou deleite jorrando e engula
mate a sede, sou corpo na sua gula
quero, profano e arrombo, sou Eros
1 006
1
Maria Teresa Horta
Gozo III
Põe meu amor
teu preceito
teu pénis
meu pão tão cedo
de vestir e de enfeitar
espasmos tomados por dentro
e guarnecer o deitar
daquilo que vou gemendo
Meu amor
por me habitares
com jeito de teu
invento
ou com raiva
de gritares
quando te monto e me fendo
teu preceito
teu pénis
meu pão tão cedo
de vestir e de enfeitar
espasmos tomados por dentro
e guarnecer o deitar
daquilo que vou gemendo
Meu amor
por me habitares
com jeito de teu
invento
ou com raiva
de gritares
quando te monto e me fendo
3 621
1
Julieta Lima
Ele
Ele
Agarra-me os cabelos
Morde-me os braços
Beija-me os dedos
E não me diz nada
Não me toca sequer.
Mas para eu me sentir amada
E me sentir mulher
Bastam-me os seus olhos...
Até que eu solte de mim
O cio da fera
Que ando a mascarar de branca asa
E o arraste por fim
Sem pudor sem roupa
Para a minha casa!
Agarra-me os cabelos
Morde-me os braços
Beija-me os dedos
E não me diz nada
Não me toca sequer.
Mas para eu me sentir amada
E me sentir mulher
Bastam-me os seus olhos...
Até que eu solte de mim
O cio da fera
Que ando a mascarar de branca asa
E o arraste por fim
Sem pudor sem roupa
Para a minha casa!
864
1
Paulo Montalverne
Homenagem
Ah, o pecado!
Viva o pecado
Que esconde em si
A mais casta virtude.
Pequemos todos, então,
Pois a alternativa
É sermos todos pequenos e vãos.
Deixemos correr
Mãos sobre nádegas
E olhares incestuosos
Sobre nossas próprias amantes.
Degolemos padres e pastores
(que também pecam, só que pecam
escondidos)
Pelo horror de terem inventado
As velhas beatas que nunca souberam
pecar.
E pequemos sem culpa
Porque culpa e pecado
Não sabem dançar um maxixe,
Só valsas vienenses.
Quando muito!
O pecado é belo,
Fulgurante e molhado;
Feito para ser deliciado
Como outra língua em nossa boca.
Fiquemos apenas com a angústia
Do pecado mal feito
Ou do jamais cumprido.
Pequemos o aqui e no agora
O pecado doce
Da quase-castidade abandonada.
Sem o pecado
Não acredito na sinceridade de Deus.
Viva o pecado
Que esconde em si
A mais casta virtude.
Pequemos todos, então,
Pois a alternativa
É sermos todos pequenos e vãos.
Deixemos correr
Mãos sobre nádegas
E olhares incestuosos
Sobre nossas próprias amantes.
Degolemos padres e pastores
(que também pecam, só que pecam
escondidos)
Pelo horror de terem inventado
As velhas beatas que nunca souberam
pecar.
E pequemos sem culpa
Porque culpa e pecado
Não sabem dançar um maxixe,
Só valsas vienenses.
Quando muito!
O pecado é belo,
Fulgurante e molhado;
Feito para ser deliciado
Como outra língua em nossa boca.
Fiquemos apenas com a angústia
Do pecado mal feito
Ou do jamais cumprido.
Pequemos o aqui e no agora
O pecado doce
Da quase-castidade abandonada.
Sem o pecado
Não acredito na sinceridade de Deus.
895
1
Fernando Correia Pina
O affair Clinton – moral da história
Se um dia, menina, fores achada
chupando o duro membro masculino
e se alguém exclamar – grande mamada!
não cores nem lamentes teu destino.
Cita antes a doutrina dimanada
do Congresso americano, como um hino -
não há o sexo oral, o broche é nada,
um contacto, talvez, mas pequenino...
E deixa-os lá dizer – olha a brochista!
ou olhar-te de soslaio com ar trocista
ou fingir que não te vêem, por maldade
porque a lusa moral é uma pindérica
comparada com a verdade da América
onde tudo é questão de oralidade.
chupando o duro membro masculino
e se alguém exclamar – grande mamada!
não cores nem lamentes teu destino.
Cita antes a doutrina dimanada
do Congresso americano, como um hino -
não há o sexo oral, o broche é nada,
um contacto, talvez, mas pequenino...
E deixa-os lá dizer – olha a brochista!
ou olhar-te de soslaio com ar trocista
ou fingir que não te vêem, por maldade
porque a lusa moral é uma pindérica
comparada com a verdade da América
onde tudo é questão de oralidade.
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