Poemas neste tema
Cultura e Tradição
Ricardo Gonçalves
Serão
Noite; silêncio lúgubre e completo.
No rancho de paredes barreadas,
Uma velha caipira conta ao neto
Coisa de assombração e almas penadas.
Correm as lagartixas pelo teto,
E o pequeno, as pupilas dilatadas,
Ouve a história macabra do esqueleto,
Que foi visto a dançar pelas estradas.
Na rede, os olhos fitos na fogueira,
Uma bela morena feiticeira
Sonha com sapateados e fandangos.
Mas a velha se cala de repente,
Porque lá fora ouviu, distintamente,
Um soturno queixume de curiangos.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
No rancho de paredes barreadas,
Uma velha caipira conta ao neto
Coisa de assombração e almas penadas.
Correm as lagartixas pelo teto,
E o pequeno, as pupilas dilatadas,
Ouve a história macabra do esqueleto,
Que foi visto a dançar pelas estradas.
Na rede, os olhos fitos na fogueira,
Uma bela morena feiticeira
Sonha com sapateados e fandangos.
Mas a velha se cala de repente,
Porque lá fora ouviu, distintamente,
Um soturno queixume de curiangos.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 128
Maria Helena Nery Garcez
Gorjeios de Cá e de Lá
Tomemos uma bica, pá,
ou preferes um galão?
Depois, vamos ter à paragem,
façamos a bicha do autocarro,
obliteremos os módulos
que eles pagarão a portagem.
Isto está mesmo muito giro.
Leiamos O Morro dos Vendavais
assentados sobre o relvado
ou observemos os peões
que estão a refilar.
Será que estou mesmo na minha pátria, ó Soares?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988.
NOTA: O título parodia os versos "As aves, que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá.", da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
ou preferes um galão?
Depois, vamos ter à paragem,
façamos a bicha do autocarro,
obliteremos os módulos
que eles pagarão a portagem.
Isto está mesmo muito giro.
Leiamos O Morro dos Vendavais
assentados sobre o relvado
ou observemos os peões
que estão a refilar.
Será que estou mesmo na minha pátria, ó Soares?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988.
NOTA: O título parodia os versos "As aves, que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá.", da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
895
Cacaso
O Que É o Que É
Descoberto pelo português
emancipado pelo inglês
educado pelo francês
sócio menor do americano
mas o modelo é japonês...
In: CACASO. Grupo Escolar. Fotos de Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro. Rio de Janeiro: Mapa Filmes, 1974. (Frenesi). Poema integrante da série 3a. Lição: Dever de Caça
emancipado pelo inglês
educado pelo francês
sócio menor do americano
mas o modelo é japonês...
In: CACASO. Grupo Escolar. Fotos de Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro. Rio de Janeiro: Mapa Filmes, 1974. (Frenesi). Poema integrante da série 3a. Lição: Dever de Caça
4 660
Menotti del Picchia
Tarde Fazendeira
Tarde cabocla
com banzo de pretos nas sombras,
carícias de escravas mulatas
nas palmas dos longos coqueiros.
Um rouco ribombo de bombo
nos ecos; um trilo de estrídulos grilos
nas moitas; tarde cabocla
com um sol de miçangas, de gangas vermelhas
nos flancos das serras,
com um hálito fresco de folhas pisadas, de verdes pomares
pejados de frutas-de-conde, de mangas maduras,
com aros de lua nascente nos céus e nas águas,
tarde cabocla
com vagas preguiças de redes nas ramas,
com longos bocejos de luz nas encostas,
foi numa tarde como esta
que vieram ao mundo
os mestiços da raça...
Publicado no livro República dos Estados Unidos do Brasil: poema (1928). Poema integrante da série Paisagem.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.154. (Obras de Menotti del Picchia
com banzo de pretos nas sombras,
carícias de escravas mulatas
nas palmas dos longos coqueiros.
Um rouco ribombo de bombo
nos ecos; um trilo de estrídulos grilos
nas moitas; tarde cabocla
com um sol de miçangas, de gangas vermelhas
nos flancos das serras,
com um hálito fresco de folhas pisadas, de verdes pomares
pejados de frutas-de-conde, de mangas maduras,
com aros de lua nascente nos céus e nas águas,
tarde cabocla
com vagas preguiças de redes nas ramas,
com longos bocejos de luz nas encostas,
foi numa tarde como esta
que vieram ao mundo
os mestiços da raça...
Publicado no livro República dos Estados Unidos do Brasil: poema (1928). Poema integrante da série Paisagem.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.154. (Obras de Menotti del Picchia
1 935
Ribeiro Couto
Cantiga do Avô Português
O meu avô foi à caça
Na serra do Cubatão.
Mas, ano vem, ano passa,
Nunca volta do sertão.
Dizem que os índios são bravos.
Nem sempre as índias também!
Meu avô levou escravos
Com redes que embalam bem.
O bafo das noites quentes
Faz pensar noutros Brasis
Em que andam nossos parentes
Com outras índias gentis.
"A caça, que tempo dura?",
A minha mãe perguntei.
"Vai até a sepultura,
Porque é serviço de El-Rei."
Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Neto de Emigrante.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.38
Na serra do Cubatão.
Mas, ano vem, ano passa,
Nunca volta do sertão.
Dizem que os índios são bravos.
Nem sempre as índias também!
Meu avô levou escravos
Com redes que embalam bem.
O bafo das noites quentes
Faz pensar noutros Brasis
Em que andam nossos parentes
Com outras índias gentis.
"A caça, que tempo dura?",
A minha mãe perguntei.
"Vai até a sepultura,
Porque é serviço de El-Rei."
Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Neto de Emigrante.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.38
1 147
Ribeiro Couto
Festa na Bahia
Andorinha cantou é dia.
(Motivo popular.)
Cristo nasceu na Bahia.
(Motivo popular.)
Andorinha cantou é dia,
Cristo nasceu na Bahia.
Aqueles sábios das Escrituras
Já não gostavam de nós, eu sei.
Era o preconceito contra as misturas.
Índios e negros, raças impuras,
Que era aquilo, com portugueses de lei?
Andorinha passou contando
Que o Filho de Deus estava chegando.
Teve sempre de tudo na Bahia.
A gente querendo acha: acha porque ainda tem.
Mulheres, então, nem posso dizer as que havia!
Umas de pé descalço, outras com colar de pedraria,
Iaiá, cafuné, berenguendém.
No céu de coqueiros cantou a andorinha.
A cidade ficou sabendo: Nosso Senhor do Bonfim já vinha.
Houve de tudo na Bahia e de todas as cores,
Houve tudo que é bom e ainda há.
Risos de todos os dentes, braços de todos os odores,
Mulatas enfeitiçando padres e governadores,
Azeite-de-dendê, moqueca de peixe, vatapá.
Andorinha cantou é dia,
Cristo nasceu na Bahia.
Domingo eu vou lá.
Publicado no livro Cancioneiro de Dom Afonso (1939).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.27
(Motivo popular.)
Cristo nasceu na Bahia.
(Motivo popular.)
Andorinha cantou é dia,
Cristo nasceu na Bahia.
Aqueles sábios das Escrituras
Já não gostavam de nós, eu sei.
Era o preconceito contra as misturas.
Índios e negros, raças impuras,
Que era aquilo, com portugueses de lei?
Andorinha passou contando
Que o Filho de Deus estava chegando.
Teve sempre de tudo na Bahia.
A gente querendo acha: acha porque ainda tem.
Mulheres, então, nem posso dizer as que havia!
Umas de pé descalço, outras com colar de pedraria,
Iaiá, cafuné, berenguendém.
No céu de coqueiros cantou a andorinha.
A cidade ficou sabendo: Nosso Senhor do Bonfim já vinha.
Houve de tudo na Bahia e de todas as cores,
Houve tudo que é bom e ainda há.
Risos de todos os dentes, braços de todos os odores,
Mulatas enfeitiçando padres e governadores,
Azeite-de-dendê, moqueca de peixe, vatapá.
Andorinha cantou é dia,
Cristo nasceu na Bahia.
Domingo eu vou lá.
Publicado no livro Cancioneiro de Dom Afonso (1939).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.27
1 209
Ricardo Gonçalves
O Batuque
Vagas constelações de pirilampos
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 026
Menotti del Picchia
Língua Brasileira
O povo menino
no seu presepe de palmeiras
aguardou as oferendas de Natal.
A nau primeira
trouxe o Rei do Ocidente
que lhe deu o tesouro sem-par
do Cantar de Amigo,
dos Autos de Gil Vicente
e, depois, a epopéia de Camões.
No navio negreiro
veio o Melchior do mocambo
talhado em azeviche como um ídolo benguela,
com a oferta abracadabrante e gutural
dos monossílabos de cabala.
Nos transatlânticos e cargueiros,
o Rei Cosmopolita,
que tem as cores do arco-íris
e os ritmos de todos os idiomas,
trouxe-lhe o régio presente
das articulações universais.
Os três reis fizeram um acampamento das raças
e ensinaram o povo menino
a falar a língua misturada
de Babel e da América.
E assim nasceste,
ágil, acrobática, sonora, rica e fidalga,
ó minha língua brasileira!
Publicado no livro República dos Estados Unidos do Brasil: poema (1928). Poema integrante da série História.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.135-136. (Obras de Menotti del Picchia
no seu presepe de palmeiras
aguardou as oferendas de Natal.
A nau primeira
trouxe o Rei do Ocidente
que lhe deu o tesouro sem-par
do Cantar de Amigo,
dos Autos de Gil Vicente
e, depois, a epopéia de Camões.
No navio negreiro
veio o Melchior do mocambo
talhado em azeviche como um ídolo benguela,
com a oferta abracadabrante e gutural
dos monossílabos de cabala.
Nos transatlânticos e cargueiros,
o Rei Cosmopolita,
que tem as cores do arco-íris
e os ritmos de todos os idiomas,
trouxe-lhe o régio presente
das articulações universais.
Os três reis fizeram um acampamento das raças
e ensinaram o povo menino
a falar a língua misturada
de Babel e da América.
E assim nasceste,
ágil, acrobática, sonora, rica e fidalga,
ó minha língua brasileira!
Publicado no livro República dos Estados Unidos do Brasil: poema (1928). Poema integrante da série História.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.135-136. (Obras de Menotti del Picchia
2 365
Joaquim Manuel de Macedo
A Capela e o Recolhimento de N S Bom Parto
No século XVIII ajuntou-se à Capela de N. S. do Parto um notável apêndice que modificou não pouco a sua vida suave, modesta e sossegada.
Estevão Dias de oliveira deixara por sua morte uma avultada soma para se distribuir em benefício de sua alma, depois de satisfeitos alguns legados que dispusera.
Ah! Que regalo! Que mina de caroço para certos testamenteiros da nossa época! Mas o bispo D. Frei Antônio do desterro, fazendo-se então testamenteiro do legatário, e vendo cumpridas as disposições por este especificadas, aplicou, obtido para isso, o breve pontifício, mais de quarenta mil cruzados que ainda tinham ficado, à fundação de um recolhimento para asilo de mulheres não virgens que, deixando a perversidade do século, fossem ali reformar os costumes repreensíveis, trocando-os por santo e regular comportamento.
No ano de 1742 foi lançada a primeira pedra do estabelecimento, que em breve se mostrou pronto para receber e guardar não poucas arrependidas.
Mas não foram somente arrependidas que para o novo asilo entraram.
Duas classes de reclusas o povoaram. A primeira foi composta de algumas velhas e matronas, umas fugindo cansadas dos enganos do mundo, outras desprezadas pelo mundo delas cansado.
Eram as recolhidas voluntárias. A segunda constou de senhoras casadas e moças solteiras obrigadas a retirar-se para essa reclusão em castigo de faltas cometidas ou supostas faltas, e em punição de desobediência à vontade de seus pais.
Tratarei deste estabelecimento em relação ao segundo fim a que foi destinado. Esquecerei as recolhidas voluntárias, que estavam no seu direito, divorciando-se e separando-se do mundo. Faziam muito bem em esconder-se de um mundo de que não gostavam, e que provavelmente já não gostava delas. O que vou dizer não se entende, pois , com as voluntárias.
A segunda classe das recolhidas terá quase exclusiva menção neste passeio, que vai tocar muito perto nos direitos e na causa social do sexo feminino.
Creio que não havia inconveniência em obrigar a amar exclusivamente a Deus uma senhora casada eu tivesse amado demasiadamente a um próximo que não era o seu marido. Parece, porém, que alguns lamentáveis abusos misturaram no recolhimento esposas inocentes com esposas culpadas.
Sobretudo, julgaram as senhoras que era uma iniqüidade estabelecer-se uma reclusão para as esposas infiéis, onde não havia reclusão para os esposos infidelíssimos.
Devemos todos acreditar que o pensamento do bispo que fez construir aquele recolhimento era piedoso e santo. Mas certo é que os homens se aproveitaram do asilo para atormentar, como acabo de dizer, algumas inocentes, e castigar algumas culpadas senhoras, que por isso rogaram pragas ao velho e venerado prelado.
O bispo denominara acertadamente o asilo que levantara Recolhimento de N. S. do Parto. As senhoras, porém, em suas conversações particulares, davam-lhe o nome de recolhimento do desterro, não porque Antônio do Desterro se chamasse o prelado, mas porque um desterro foi considerado por elas aquele asilo.
E não eram somente as senhoras casadas que maldiziam do recolhimento, também as solteiras antipatizavam com ele, pois, sofismado o fim para se criara o asilo, encerravam-se ali meninas e moças ainda não casadas a pretexto de irem receber mo piedoso retiro educação moral e religioso.
É preciso dizer que o bispo D. Antônio do Desterro foi sempre pouco simpático ao belo sexo, e carregou com as culpas dos abusos a que deu lugar o Recolhimento do Parto.
Explicarei os motivos dessa falta de simpatia, e aposto que ainda atualmente as senhoras hão de achar muita razão às suas antepassadas.
D. Frei Antônio do Desterro, prelado distinto por suas virtudes e sabedoria, e pelo seu zelo, era tão simples e humilde eu, vestido de monge, conservava também a coroa regular, conformando-se com o mesmo rito no oficio divino. Severo consigo, justo, mas compassivo com todas as suas ovelhas, ativo fiscalizador do proceder dos párocos, mantenedor do culto, benfeitor das igrejas e conventos, e especialmente de mitra fluminense, que lhe deve, além de outros legados, o da chácara do Rio Comprido, que todos conhecem pelo nome de chácara do bispo, caiu, apesar de tudo isso, no desagrado das senhoras por um pecado de mau gosto e por um pecado de rabugem.
O pecado de mau gosto foi cometido pelo bispo, quando proibiu que aparecessem nas procissões da quaresma os penitentes de açoites e outras figuras que tornavam mais divertido o espetáculo religioso. Os penitentes de açoites, sobretudo, trajando ricos vestidos e açoitando-se ou fingindo açoitar-se, davam muita graça às procissões, apraziam às senhoras, e o prelado teve a idéia infeliz de acabar com aquela variedade de entretenimento.
O pecado de rabugem foi pior ainda. O bispo proibiu, sob pena de excomunhão maior, que os homens se reunissem nos adros e às portas das igrejas para verem entrar e cortejarem as belas devotas. Que estas falassem e conversassem com os homens nestes lugares. E que, enfim, fossem às igrejas por qualquer motivo desde o tanger de Ave-Maria até a hora matutina, executando-se desta última proibição unicamente as pobres que corressem às missas e confissões de madrugada.
Não discutirei a procedência das acusações que as senhoras faziam ao velho bispo, e pelas quais o consideravam rabugento e impertinente. Certo é, porém, que os abusos de que algumas foram vítimas depois da fundação do Recolhimento de N. S. do Parto deram até certo ponto justificado fundamento, não ao seu ressentimento contra o prelado, mas à sua inimizade ao asilo.
Se o piedoso e santo recolhimento abrisse as suas portas somente àquelas senhoras que voluntariamente fossem procurar o religioso retiro, não havia que dizer, ao menos naquele tempo. Se, além de recolhimento de velhas arrependidas, desvirtuado embora o pensamento que presidira à sua fundação, servisse para receber e educar meninas e jovens, havia muito o que louvar, uma vez que a educação fosse ali bem dirigida. Mas o asilo que se levantara foi mais do que isso, foi uma terrível ameaça de pedra e cal, tornou-se em uma espécie de casa de correção feminina, em uma espécie de cadeia que fazia medo não só às más esposas com às esposas de maus maridos, e também às moças solteiras filhas de pais enfezados, cabeçudos e prepotentes.
Realmente era uma questão muito grave que se decidira contra o belo sexo à custa dos quarenta mil cruzados do finado Estevão Dias de Oliveira.
Naquele tempo (no bom tempo), m grande número de casos o marido não era um consorte, era um senhor, e as moças casavam sem saber com quem, viam os noivos no dia do casamento, porque os pais tomavam pelos noivos e noivas o trabalho de enlaçar-lhes os corações sem consultá-los. O pai do noivo e o pai da noiva namoravam-se mutuamente com todos os preceitos e regras aritmética, e desde que se punham de acordo na discussão do dote, ficava resolvido que o rapaz e a rapariga se adoravam perdidamente, ainda que nunca se tivessem visto, e realizava-se o casamento.
Quantas uniões infelizes resultavam de semelhante prática pode-se bem calcular. Deviam por certo abundar os maridos tiranos e as mulheres vítimas, as mulheres infiéis e os maridos desgraçados, e verdadeiros purgatórios nas vidas que passavam muitos casais.
Está visto que era a mulher, o ente passivo, a senhora escrava, quem mais tinha de sofrer em tais circunstâncias sociais, e, sem o pensar, veio o bispo D. Antônio do Desterro acrescentar mais um tormento para as vítimas e as culpadas, fundando o Recolhimento do Parto.
Em um ou outro caso, sempre por exceção acontecia que alguma jovem mais esperta ou mais sonsinha chegava a amar algum mancebo sem licença do papai ou da mamãe, e tin
Estevão Dias de oliveira deixara por sua morte uma avultada soma para se distribuir em benefício de sua alma, depois de satisfeitos alguns legados que dispusera.
Ah! Que regalo! Que mina de caroço para certos testamenteiros da nossa época! Mas o bispo D. Frei Antônio do desterro, fazendo-se então testamenteiro do legatário, e vendo cumpridas as disposições por este especificadas, aplicou, obtido para isso, o breve pontifício, mais de quarenta mil cruzados que ainda tinham ficado, à fundação de um recolhimento para asilo de mulheres não virgens que, deixando a perversidade do século, fossem ali reformar os costumes repreensíveis, trocando-os por santo e regular comportamento.
No ano de 1742 foi lançada a primeira pedra do estabelecimento, que em breve se mostrou pronto para receber e guardar não poucas arrependidas.
Mas não foram somente arrependidas que para o novo asilo entraram.
Duas classes de reclusas o povoaram. A primeira foi composta de algumas velhas e matronas, umas fugindo cansadas dos enganos do mundo, outras desprezadas pelo mundo delas cansado.
Eram as recolhidas voluntárias. A segunda constou de senhoras casadas e moças solteiras obrigadas a retirar-se para essa reclusão em castigo de faltas cometidas ou supostas faltas, e em punição de desobediência à vontade de seus pais.
Tratarei deste estabelecimento em relação ao segundo fim a que foi destinado. Esquecerei as recolhidas voluntárias, que estavam no seu direito, divorciando-se e separando-se do mundo. Faziam muito bem em esconder-se de um mundo de que não gostavam, e que provavelmente já não gostava delas. O que vou dizer não se entende, pois , com as voluntárias.
A segunda classe das recolhidas terá quase exclusiva menção neste passeio, que vai tocar muito perto nos direitos e na causa social do sexo feminino.
Creio que não havia inconveniência em obrigar a amar exclusivamente a Deus uma senhora casada eu tivesse amado demasiadamente a um próximo que não era o seu marido. Parece, porém, que alguns lamentáveis abusos misturaram no recolhimento esposas inocentes com esposas culpadas.
Sobretudo, julgaram as senhoras que era uma iniqüidade estabelecer-se uma reclusão para as esposas infiéis, onde não havia reclusão para os esposos infidelíssimos.
Devemos todos acreditar que o pensamento do bispo que fez construir aquele recolhimento era piedoso e santo. Mas certo é que os homens se aproveitaram do asilo para atormentar, como acabo de dizer, algumas inocentes, e castigar algumas culpadas senhoras, que por isso rogaram pragas ao velho e venerado prelado.
O bispo denominara acertadamente o asilo que levantara Recolhimento de N. S. do Parto. As senhoras, porém, em suas conversações particulares, davam-lhe o nome de recolhimento do desterro, não porque Antônio do Desterro se chamasse o prelado, mas porque um desterro foi considerado por elas aquele asilo.
E não eram somente as senhoras casadas que maldiziam do recolhimento, também as solteiras antipatizavam com ele, pois, sofismado o fim para se criara o asilo, encerravam-se ali meninas e moças ainda não casadas a pretexto de irem receber mo piedoso retiro educação moral e religioso.
É preciso dizer que o bispo D. Antônio do Desterro foi sempre pouco simpático ao belo sexo, e carregou com as culpas dos abusos a que deu lugar o Recolhimento do Parto.
Explicarei os motivos dessa falta de simpatia, e aposto que ainda atualmente as senhoras hão de achar muita razão às suas antepassadas.
D. Frei Antônio do Desterro, prelado distinto por suas virtudes e sabedoria, e pelo seu zelo, era tão simples e humilde eu, vestido de monge, conservava também a coroa regular, conformando-se com o mesmo rito no oficio divino. Severo consigo, justo, mas compassivo com todas as suas ovelhas, ativo fiscalizador do proceder dos párocos, mantenedor do culto, benfeitor das igrejas e conventos, e especialmente de mitra fluminense, que lhe deve, além de outros legados, o da chácara do Rio Comprido, que todos conhecem pelo nome de chácara do bispo, caiu, apesar de tudo isso, no desagrado das senhoras por um pecado de mau gosto e por um pecado de rabugem.
O pecado de mau gosto foi cometido pelo bispo, quando proibiu que aparecessem nas procissões da quaresma os penitentes de açoites e outras figuras que tornavam mais divertido o espetáculo religioso. Os penitentes de açoites, sobretudo, trajando ricos vestidos e açoitando-se ou fingindo açoitar-se, davam muita graça às procissões, apraziam às senhoras, e o prelado teve a idéia infeliz de acabar com aquela variedade de entretenimento.
O pecado de rabugem foi pior ainda. O bispo proibiu, sob pena de excomunhão maior, que os homens se reunissem nos adros e às portas das igrejas para verem entrar e cortejarem as belas devotas. Que estas falassem e conversassem com os homens nestes lugares. E que, enfim, fossem às igrejas por qualquer motivo desde o tanger de Ave-Maria até a hora matutina, executando-se desta última proibição unicamente as pobres que corressem às missas e confissões de madrugada.
Não discutirei a procedência das acusações que as senhoras faziam ao velho bispo, e pelas quais o consideravam rabugento e impertinente. Certo é, porém, que os abusos de que algumas foram vítimas depois da fundação do Recolhimento de N. S. do Parto deram até certo ponto justificado fundamento, não ao seu ressentimento contra o prelado, mas à sua inimizade ao asilo.
Se o piedoso e santo recolhimento abrisse as suas portas somente àquelas senhoras que voluntariamente fossem procurar o religioso retiro, não havia que dizer, ao menos naquele tempo. Se, além de recolhimento de velhas arrependidas, desvirtuado embora o pensamento que presidira à sua fundação, servisse para receber e educar meninas e jovens, havia muito o que louvar, uma vez que a educação fosse ali bem dirigida. Mas o asilo que se levantara foi mais do que isso, foi uma terrível ameaça de pedra e cal, tornou-se em uma espécie de casa de correção feminina, em uma espécie de cadeia que fazia medo não só às más esposas com às esposas de maus maridos, e também às moças solteiras filhas de pais enfezados, cabeçudos e prepotentes.
Realmente era uma questão muito grave que se decidira contra o belo sexo à custa dos quarenta mil cruzados do finado Estevão Dias de Oliveira.
Naquele tempo (no bom tempo), m grande número de casos o marido não era um consorte, era um senhor, e as moças casavam sem saber com quem, viam os noivos no dia do casamento, porque os pais tomavam pelos noivos e noivas o trabalho de enlaçar-lhes os corações sem consultá-los. O pai do noivo e o pai da noiva namoravam-se mutuamente com todos os preceitos e regras aritmética, e desde que se punham de acordo na discussão do dote, ficava resolvido que o rapaz e a rapariga se adoravam perdidamente, ainda que nunca se tivessem visto, e realizava-se o casamento.
Quantas uniões infelizes resultavam de semelhante prática pode-se bem calcular. Deviam por certo abundar os maridos tiranos e as mulheres vítimas, as mulheres infiéis e os maridos desgraçados, e verdadeiros purgatórios nas vidas que passavam muitos casais.
Está visto que era a mulher, o ente passivo, a senhora escrava, quem mais tinha de sofrer em tais circunstâncias sociais, e, sem o pensar, veio o bispo D. Antônio do Desterro acrescentar mais um tormento para as vítimas e as culpadas, fundando o Recolhimento do Parto.
Em um ou outro caso, sempre por exceção acontecia que alguma jovem mais esperta ou mais sonsinha chegava a amar algum mancebo sem licença do papai ou da mamãe, e tin
2 056
Henriqueta Lisboa
Lenda das Pedras Verdes
– Fernão Dias, Fernão Dias,
deixa a Uiara dormir!
Tem um sabor secular
ressoando dentro da noite,
a voz monótona do índio.
A Serra Resplandecente
fulge ao luar junto à lagoa.
Pela escada de Jacó
sobem e descem estrelas.
– Ai, Serra Resplandecente,
Lagoa Vupabuçu!
Tantos anos de procura
como é que os hei de perder!
– Fernão Dias, Fernão Dias,
deixa a Uiara dormir!
A vida da tribo está
no grande sono da Uiara.
O grande sono da Uiara
reside nos seus cabelos.
Seus cabelos eram de água,
tornaram-se em pedras verdes.
Voz de raça moribunda
Fernão Dias não escuta.
– Sete anos há que deixei
minha terra e meu sossego
em troca de uma esperança
que é meu respiro e bordão.
Da Serra da Mantiqueira
até o Rio Uaimi,
quantos montes, quantos vales
para descer e subir,
que de sombras e emboscadas
antes do raiar do dia!
Vem de mais longe, profunda,
a voz do índio recordando:
– Nas noites de lua cheia
quando a Uiara cantava
branca e linda, emoldurada
pelas ondas dos cabelos,
mais de um valente guerreiro
por ela se suicidava.
Foi então que Macachera
com prudência soube agir,
mandando Uiara dormisse
velada por sentinelas
um sono igual ao da pedra.
– Vós que velais o seu sono,
desembaraçai as armas!
Ah! esse canto escondido,
essa beleza roubada,
esses cabelos que brilham
com viva luz de esmeraldas!
Ser guerreiro, ser valente,
depois dormir para sempre
nos verdes braços da Uiara!
– Fernão Dias, Fernão Dias!
deixa a Uiara dormir!
Publicado no livro Madrinha Lua (1952)
LISBOA, Henriqueta. Obras completas: poesia geral: 1929-1983. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p. 214-216
deixa a Uiara dormir!
Tem um sabor secular
ressoando dentro da noite,
a voz monótona do índio.
A Serra Resplandecente
fulge ao luar junto à lagoa.
Pela escada de Jacó
sobem e descem estrelas.
– Ai, Serra Resplandecente,
Lagoa Vupabuçu!
Tantos anos de procura
como é que os hei de perder!
– Fernão Dias, Fernão Dias,
deixa a Uiara dormir!
A vida da tribo está
no grande sono da Uiara.
O grande sono da Uiara
reside nos seus cabelos.
Seus cabelos eram de água,
tornaram-se em pedras verdes.
Voz de raça moribunda
Fernão Dias não escuta.
– Sete anos há que deixei
minha terra e meu sossego
em troca de uma esperança
que é meu respiro e bordão.
Da Serra da Mantiqueira
até o Rio Uaimi,
quantos montes, quantos vales
para descer e subir,
que de sombras e emboscadas
antes do raiar do dia!
Vem de mais longe, profunda,
a voz do índio recordando:
– Nas noites de lua cheia
quando a Uiara cantava
branca e linda, emoldurada
pelas ondas dos cabelos,
mais de um valente guerreiro
por ela se suicidava.
Foi então que Macachera
com prudência soube agir,
mandando Uiara dormisse
velada por sentinelas
um sono igual ao da pedra.
– Vós que velais o seu sono,
desembaraçai as armas!
Ah! esse canto escondido,
essa beleza roubada,
esses cabelos que brilham
com viva luz de esmeraldas!
Ser guerreiro, ser valente,
depois dormir para sempre
nos verdes braços da Uiara!
– Fernão Dias, Fernão Dias!
deixa a Uiara dormir!
Publicado no livro Madrinha Lua (1952)
LISBOA, Henriqueta. Obras completas: poesia geral: 1929-1983. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p. 214-216
1 848
Paulo Setúbal
Volta ao Arraial
Pascoal Moreira torna ao arraial onde deixara a bagagem. Vinha amuado; vinha sucumbido. "Com este infeliz successo se encheu de grande dissabor o cabo da tropa Paschoal Moreira". A derrota lancetara fundo a vaidade do sertanista. Que fazer agora? Voltar? E voltar sem índios? Não! O orgulho caboclo de Pascoal Moreira não sofrerá jamais que ele volte a São Paulo de mãos vazias. E não voltará de fato. Os deuses fadaram o paulista para destinos magníficos. Que sina curiosa a do desbravador! Vêde:
Os bandeirantes, derrotados e murchos, têm, ao penetrarem no arraial, esta inesperada e vivíssima surpresa: são festivamente recebidos com gritos, estrondos de mosquete, ronqueiras, grossa barulhada! Que é aquilo? Que significam tão quentes júbilos? A boa-nova espalha-se instantaneamente:
— Ouro!
A peonada grita, e arremessa os chapéus, e baila, e está toda num ébrio fanfarreio de alegria.
— Ouro! Ouro!
Mas como? Onde? Pascoal Moreira, desta vez, quer saber os detalhes do acontecido. Manda buscar os peões para inteirar-se do que houve. Sabe então que os peões — "os que haviam ficado na bagage" — haviam resolvido, para matar o tempo, explorar as barrancas do Coxipó.
Eram as mesmas barrancas onde os dois moleques haviam dado com as primeiras oitavas. Principiaram eles o trabalho de manhãzinha. Mas não trabalharam muito tempo: duas horas após, com gritos de júbilo, toparam aqueles homens com riquíssima pinta de ouro. Que pinta soberba! Foi uma das maiores que já se achou no Brasil. Do chão bruto, como por milagre, jorrou logo, às mãos dos caboclos, larga manancial de ouro. Os bagageiros, por entre alegrias infrenes, atiraram-se então a um cavocar furioso: "huns achavam cem oitavas, outros meia libra, outros cincoenta oitavas, conforme o que cada um fez em cavar com as maons, que outros instrumentos de minerar não havia. . ."
Pascoal Moreira ouve e vê. O ouro — aquele ouro real, tangível, que ali reluz às mãos da peonada — esbraseia, afinal, o ânimo frio do povoador. Pascoal, tocado de súbito entusiasmo, sai também a mineirar. E logo, ao esbrugar os primeiros torrões, irrompe entre os bandeirantes o mesmo grito mágico:
— Ouro!
Que surpreendente colheita! Grãos e folhetas faíscam a rodo no cascalho. Basta dizer que "os que haviam acompanhado o Capitão Paschoal Moreira, mais aproveitados, assim como o mesmo Capitão, acharam cada um libra e meia de ouro..." Não podia haver, para a derrota sofrida com os Coxiponés, epílogo mais fascinante. O retorno ao arraial das bagagens, aquele doloroso retorno de vencidos, foi o lustre e a glória da bandeira.
Por isso, no sertão bravo do Coxipó, nessa noite, lá naquele humilde arraial improvisado, tão longe dos homens e do mundo, viveram aqueles toscos sertanejos a sua grande noite de sonho e febre. Não podiam dormir. E com razão! Todos eles, tontos de gozo, "cantavam victoria contra as fadigas da pobreza, davam-se huns aos outros parabens de suas fortunas, e, reciprocamente, offereciam-se laudencias de alegria".
Pascoal Moreira, no seu mísero rancho de sapé, podia enfim, bem merecidamente, descansar das suas longas e rudes fadigas de bandeirante. O paulista, é verdade, não conquistara o ambicionado Coxiponé: conquistara, o que é bem mais, as ruidosas minas do sertão.
Estava descoberto o ouro de Cuiabá.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 38-40. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
Os bandeirantes, derrotados e murchos, têm, ao penetrarem no arraial, esta inesperada e vivíssima surpresa: são festivamente recebidos com gritos, estrondos de mosquete, ronqueiras, grossa barulhada! Que é aquilo? Que significam tão quentes júbilos? A boa-nova espalha-se instantaneamente:
— Ouro!
A peonada grita, e arremessa os chapéus, e baila, e está toda num ébrio fanfarreio de alegria.
— Ouro! Ouro!
Mas como? Onde? Pascoal Moreira, desta vez, quer saber os detalhes do acontecido. Manda buscar os peões para inteirar-se do que houve. Sabe então que os peões — "os que haviam ficado na bagage" — haviam resolvido, para matar o tempo, explorar as barrancas do Coxipó.
Eram as mesmas barrancas onde os dois moleques haviam dado com as primeiras oitavas. Principiaram eles o trabalho de manhãzinha. Mas não trabalharam muito tempo: duas horas após, com gritos de júbilo, toparam aqueles homens com riquíssima pinta de ouro. Que pinta soberba! Foi uma das maiores que já se achou no Brasil. Do chão bruto, como por milagre, jorrou logo, às mãos dos caboclos, larga manancial de ouro. Os bagageiros, por entre alegrias infrenes, atiraram-se então a um cavocar furioso: "huns achavam cem oitavas, outros meia libra, outros cincoenta oitavas, conforme o que cada um fez em cavar com as maons, que outros instrumentos de minerar não havia. . ."
Pascoal Moreira ouve e vê. O ouro — aquele ouro real, tangível, que ali reluz às mãos da peonada — esbraseia, afinal, o ânimo frio do povoador. Pascoal, tocado de súbito entusiasmo, sai também a mineirar. E logo, ao esbrugar os primeiros torrões, irrompe entre os bandeirantes o mesmo grito mágico:
— Ouro!
Que surpreendente colheita! Grãos e folhetas faíscam a rodo no cascalho. Basta dizer que "os que haviam acompanhado o Capitão Paschoal Moreira, mais aproveitados, assim como o mesmo Capitão, acharam cada um libra e meia de ouro..." Não podia haver, para a derrota sofrida com os Coxiponés, epílogo mais fascinante. O retorno ao arraial das bagagens, aquele doloroso retorno de vencidos, foi o lustre e a glória da bandeira.
Por isso, no sertão bravo do Coxipó, nessa noite, lá naquele humilde arraial improvisado, tão longe dos homens e do mundo, viveram aqueles toscos sertanejos a sua grande noite de sonho e febre. Não podiam dormir. E com razão! Todos eles, tontos de gozo, "cantavam victoria contra as fadigas da pobreza, davam-se huns aos outros parabens de suas fortunas, e, reciprocamente, offereciam-se laudencias de alegria".
Pascoal Moreira, no seu mísero rancho de sapé, podia enfim, bem merecidamente, descansar das suas longas e rudes fadigas de bandeirante. O paulista, é verdade, não conquistara o ambicionado Coxiponé: conquistara, o que é bem mais, as ruidosas minas do sertão.
Estava descoberto o ouro de Cuiabá.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 38-40. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 252
Paulo Setúbal
A Veluda
(...)
As minas de Cuiabá morriam. O ouro fácil, que os lavageiros catavam à flor da terra, desaparecera. Só à custa de escavações profundas, com penosos tratos de água, conseguiam agora os mineiros arrancar do seio pedrento da terra o metal cobiçado. As catas dos ribeirões, os veios e os tabuleiros, isto é, as que ficavam nos veios da correnteza ou nos tabuleiros das margens, essas secaram de vez. O ouro, quando havia, era apenas nas grupiaras, que se encravavam nas encostas ásperas dos morros. Mas as grandes perfurações para topá-lo, a canalização da água até essas longes e íngremes encostas, eram obras tão difíceis e tão rudes, que as despesas com a lavagem não mais compensava a colheita dos grãos. Além de tais despesas, que eram tremendo sorvedouro, havia ainda o fisco. Ah, o fisco! Polvo fantástico, insaciável, Portugal constringia os mineiros, desalmadamente, com mil tentáculos de ferro, numa rede feroz de tributos insuportáveis. "Por mais engravecer os males de Cuyabá, D. Rodrigo Cezar, a pretexto de bem servir o seu Rei, armou um aparelho fiscal de ventosas, de tal maneira sugadoras, que, antes de findar o anno, a villa começou a definhar-se, derreada por tantos soffrimentos".
Principiou a decadência das minas. Um rancho, no Cuiabá, que, a princípio, custava a soma respeitável de 500 oitavas, passou a valer a bagatela de 50. Uma roça de mantimentos que se pagava 4.000 oitavas, passou a ser vendida por 100. A ruína das minas foi completa. Tornou-se preciso abandonar Cuiabá. Urgia buscar paragens mais rendosas.
Os irmãos Paes de Barros, Artur e Fernando, dois intrépidos sorocabanos, encabeçaram o movimento. Meteram-se eles, à frente de audaciosa entrada, pelo sertão adentro.
Lá foram.
De novo, na terra inóspita, o mesmo rol de sacrifícios pasmantes. As mesmas canseiras, o mesmo áspero romper matos, as mesmas fomes, as mesmas lutas com bugres, as mesmas febres malignas, a mesma tragédia cruciante do sertão. Nessa arrancada, como consigna a crônica, "toparam elles logo que baixaram a planície, com mattas virgens, de arvoredo muito elevado e corpulento, que, entrando a penetral-o, o foram apelidando de matto-grosso; e este nome de 'Matto-Grosso' é o nome que ainda hoje conserva todo aquelle districto".
Os paulistas, "venceram léguas e léguas daquella espessura", deram nas margens do Guaporé. Descobriram ouro aí. As minas de Vila-Bela principiaram, com abundância e estrondo, a jorrar o metal sonhado. "Partiu no mesmo anno monção desta villa para São Paulo com oito canoas, 140 pessoas e 80 arrobas de ouro, já vindo todo das minas de Matto-Grosso".
Novamente; ferretoados por cobiças insaciáveis, levas e levas de aventureiros, num rush febrento, rumaram a caminho das lavras novas. "No mesmo mez, despejou o povo da villa de Cuyabá para Matto-Grosso, em setenta e tantas canoas, rio abaixo, em que, foram melhor de mil e quinhentas pessoas". Com esse tremendo êxodo, em que, assim, numa só monção, seguiu para as longínquas e tentadoras minas tão densa caudal de mineiros, "se despovoou o Cuyabá, ficando sitios, cazas, lavras, tudo deserto. Restaram na villa apenas sete brancos, entre seculares e clerigos, e alguns carijós; de gente preta, só algum pagem que servia a seu senhor".
Mato Grosso! Vila Bela! Eis, por volta de 1734, o esbraseante eldorado que tentava todas as ambições. Paulistas para lá afluíram às chusmas. E baianos. E reinóis. E castelhanos. E gentes de toda a parte. Ia tudo, numa alucinação, atrás do ouro dos Paes de Barros.
(...)
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933). Segundo o autor, trata-se de "história verdadeira, ouvida na infância, ouvida repetidas vezes, com nomes e detalhes que lhe davam realce e autenticidade."
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 183-186. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
As minas de Cuiabá morriam. O ouro fácil, que os lavageiros catavam à flor da terra, desaparecera. Só à custa de escavações profundas, com penosos tratos de água, conseguiam agora os mineiros arrancar do seio pedrento da terra o metal cobiçado. As catas dos ribeirões, os veios e os tabuleiros, isto é, as que ficavam nos veios da correnteza ou nos tabuleiros das margens, essas secaram de vez. O ouro, quando havia, era apenas nas grupiaras, que se encravavam nas encostas ásperas dos morros. Mas as grandes perfurações para topá-lo, a canalização da água até essas longes e íngremes encostas, eram obras tão difíceis e tão rudes, que as despesas com a lavagem não mais compensava a colheita dos grãos. Além de tais despesas, que eram tremendo sorvedouro, havia ainda o fisco. Ah, o fisco! Polvo fantástico, insaciável, Portugal constringia os mineiros, desalmadamente, com mil tentáculos de ferro, numa rede feroz de tributos insuportáveis. "Por mais engravecer os males de Cuyabá, D. Rodrigo Cezar, a pretexto de bem servir o seu Rei, armou um aparelho fiscal de ventosas, de tal maneira sugadoras, que, antes de findar o anno, a villa começou a definhar-se, derreada por tantos soffrimentos".
Principiou a decadência das minas. Um rancho, no Cuiabá, que, a princípio, custava a soma respeitável de 500 oitavas, passou a valer a bagatela de 50. Uma roça de mantimentos que se pagava 4.000 oitavas, passou a ser vendida por 100. A ruína das minas foi completa. Tornou-se preciso abandonar Cuiabá. Urgia buscar paragens mais rendosas.
Os irmãos Paes de Barros, Artur e Fernando, dois intrépidos sorocabanos, encabeçaram o movimento. Meteram-se eles, à frente de audaciosa entrada, pelo sertão adentro.
Lá foram.
De novo, na terra inóspita, o mesmo rol de sacrifícios pasmantes. As mesmas canseiras, o mesmo áspero romper matos, as mesmas fomes, as mesmas lutas com bugres, as mesmas febres malignas, a mesma tragédia cruciante do sertão. Nessa arrancada, como consigna a crônica, "toparam elles logo que baixaram a planície, com mattas virgens, de arvoredo muito elevado e corpulento, que, entrando a penetral-o, o foram apelidando de matto-grosso; e este nome de 'Matto-Grosso' é o nome que ainda hoje conserva todo aquelle districto".
Os paulistas, "venceram léguas e léguas daquella espessura", deram nas margens do Guaporé. Descobriram ouro aí. As minas de Vila-Bela principiaram, com abundância e estrondo, a jorrar o metal sonhado. "Partiu no mesmo anno monção desta villa para São Paulo com oito canoas, 140 pessoas e 80 arrobas de ouro, já vindo todo das minas de Matto-Grosso".
Novamente; ferretoados por cobiças insaciáveis, levas e levas de aventureiros, num rush febrento, rumaram a caminho das lavras novas. "No mesmo mez, despejou o povo da villa de Cuyabá para Matto-Grosso, em setenta e tantas canoas, rio abaixo, em que, foram melhor de mil e quinhentas pessoas". Com esse tremendo êxodo, em que, assim, numa só monção, seguiu para as longínquas e tentadoras minas tão densa caudal de mineiros, "se despovoou o Cuyabá, ficando sitios, cazas, lavras, tudo deserto. Restaram na villa apenas sete brancos, entre seculares e clerigos, e alguns carijós; de gente preta, só algum pagem que servia a seu senhor".
Mato Grosso! Vila Bela! Eis, por volta de 1734, o esbraseante eldorado que tentava todas as ambições. Paulistas para lá afluíram às chusmas. E baianos. E reinóis. E castelhanos. E gentes de toda a parte. Ia tudo, numa alucinação, atrás do ouro dos Paes de Barros.
(...)
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933). Segundo o autor, trata-se de "história verdadeira, ouvida na infância, ouvida repetidas vezes, com nomes e detalhes que lhe davam realce e autenticidade."
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 183-186. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 256
Glauco Mattoso
Cansioneiro, 1977
viramundo vaila estrada violeiro
barravento ventania travessia disparada
arrastão veleiro saveiro jangadeiro canoeiro
caminhemos caminhando caminhada
andança chegança ponteio boiadeiro
berimbau arueira aruanda enluarada
opinião louvação cantador cirandeiro
banda sarabanda porta-estandarte batucada
incerteza insensatez inquietação
fracasso palhaço jurei errei sofri
antonico tico-tico maracangalha construção
rosa roda ronda bodas baby zambi
cadência decadência aquarela conceição
adalgisa amélia aurora irene geni
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
barravento ventania travessia disparada
arrastão veleiro saveiro jangadeiro canoeiro
caminhemos caminhando caminhada
andança chegança ponteio boiadeiro
berimbau arueira aruanda enluarada
opinião louvação cantador cirandeiro
banda sarabanda porta-estandarte batucada
incerteza insensatez inquietação
fracasso palhaço jurei errei sofri
antonico tico-tico maracangalha construção
rosa roda ronda bodas baby zambi
cadência decadência aquarela conceição
adalgisa amélia aurora irene geni
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
1 276
Glauco Mattoso
Tropicalista, 1999
Uma antropofagia, até tardia,
tornou a nossa música salada
de fruta, nacional ou importada,
naquela tropicália de alegria.
Sessenta foi a década do dia:
solar, viva na cor, iluminada.
Criou-se como não se cria nada.
Valia tudo e tudo, então, valia.
Caetano, Gil, Mutantes, circo e pão.
Modernantiga guarda, esquerdireita.
Barroco'n'roll. Mambossa. Rumbaião.
Eu era adolescente, e, certa feita,
senti num festival que uma canção
é letra, e tudo nela se aproveita.
In: MATTOSO, Glauco. Paulisseia ilhada: sonetos tópicos. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999.
tornou a nossa música salada
de fruta, nacional ou importada,
naquela tropicália de alegria.
Sessenta foi a década do dia:
solar, viva na cor, iluminada.
Criou-se como não se cria nada.
Valia tudo e tudo, então, valia.
Caetano, Gil, Mutantes, circo e pão.
Modernantiga guarda, esquerdireita.
Barroco'n'roll. Mambossa. Rumbaião.
Eu era adolescente, e, certa feita,
senti num festival que uma canção
é letra, e tudo nela se aproveita.
In: MATTOSO, Glauco. Paulisseia ilhada: sonetos tópicos. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999.
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Bruno de Menezes
Os Esponsais das Icamiabas - Lenda Amazônica, 1952
Vai ser a Grande Noite...
No lago Jaci-uaruá,
a lua reflete sortilégios de esplendor,
que, para as Icamiabas, é um rito de amor...
Quando a hora chegar
de seus breves esponsais,
querem estar purificadas
e serem desposadas
no mistério da selva,
enquanto a Lua brilhar...
Mergulhando os corpos ágeis,
de amorosas guerreiras,
no capitoso banho lustral,
que a "Mãe das Pedras Verdes"
lhes traga do seio das águas
os símbolos nupciais
no adeus do ante-manhã...
Lendários esponsais...
O esposo de uma noite irá voltar...
E, para que em seus anelos,
lembrança desse amor possa guardar,
num longo trancelim de seus cabelos,
a esposa Icamiaba dá-lhe o Muiraquitã...
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.495. (Lendo o Pará, 14
No lago Jaci-uaruá,
a lua reflete sortilégios de esplendor,
que, para as Icamiabas, é um rito de amor...
Quando a hora chegar
de seus breves esponsais,
querem estar purificadas
e serem desposadas
no mistério da selva,
enquanto a Lua brilhar...
Mergulhando os corpos ágeis,
de amorosas guerreiras,
no capitoso banho lustral,
que a "Mãe das Pedras Verdes"
lhes traga do seio das águas
os símbolos nupciais
no adeus do ante-manhã...
Lendários esponsais...
O esposo de uma noite irá voltar...
E, para que em seus anelos,
lembrança desse amor possa guardar,
num longo trancelim de seus cabelos,
a esposa Icamiaba dá-lhe o Muiraquitã...
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.495. (Lendo o Pará, 14
3 322
Bruno de Menezes
Maria D'Aparecida, 1963
Ai, ai, Brasil,
das gostosuras morenas!
Para que sapoti, Ângela Maria,
pó de canela, tanta
coisa apetecida,
se tens Maria D'Aparecida,
que os franceses recomendam:
"Regardez-la bien et retenez son nom"!
Ai, ai, Brasil,
de alma branca por dentro,
todo moreno por fora!
Pra que coco da Bahia,
se tens Maria D'Aparecida,
morena Iemanjá nascida
no areal da Guanabara?
Ai, ai, Brasil,
do canto do uirapuru,
de outros pássaros-feitiço!
Para que solos alados
de sabiás do poeta,
se tens Maria D'Aparecida,
que traz, na voz languescida,
moreno, dourado mel?
Ai, ai, Brasil,
de nossas brasileirinhas
que em Paris fazem cartaz!
Pra que café adoçado,
cheiroso, bom, que convida,
se tens Maria D'Aparecida,
das convivas a mais fina?
Ai, ai, Brasil,
da beleza, do talento,
como arte em "performance"!
Tudo isto sintonizado
na nossa brasileirinha
de alma em canção diluída,
Maria D'Aparecida!
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.528-529. (Lendo o Pará, 14)
NOTA: Último poema feito em Belém. Intérprete vocal de Villa-Lobos, W. Henrique e Ernani Braga, com seu programa "Brasil em Paris, Maria D'Aparecida se tornou, segundo os franceses, a mais parisiense dos brasileiros
das gostosuras morenas!
Para que sapoti, Ângela Maria,
pó de canela, tanta
coisa apetecida,
se tens Maria D'Aparecida,
que os franceses recomendam:
"Regardez-la bien et retenez son nom"!
Ai, ai, Brasil,
de alma branca por dentro,
todo moreno por fora!
Pra que coco da Bahia,
se tens Maria D'Aparecida,
morena Iemanjá nascida
no areal da Guanabara?
Ai, ai, Brasil,
do canto do uirapuru,
de outros pássaros-feitiço!
Para que solos alados
de sabiás do poeta,
se tens Maria D'Aparecida,
que traz, na voz languescida,
moreno, dourado mel?
Ai, ai, Brasil,
de nossas brasileirinhas
que em Paris fazem cartaz!
Pra que café adoçado,
cheiroso, bom, que convida,
se tens Maria D'Aparecida,
das convivas a mais fina?
Ai, ai, Brasil,
da beleza, do talento,
como arte em "performance"!
Tudo isto sintonizado
na nossa brasileirinha
de alma em canção diluída,
Maria D'Aparecida!
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.528-529. (Lendo o Pará, 14)
NOTA: Último poema feito em Belém. Intérprete vocal de Villa-Lobos, W. Henrique e Ernani Braga, com seu programa "Brasil em Paris, Maria D'Aparecida se tornou, segundo os franceses, a mais parisiense dos brasileiros
2 935
Pedro Nava
Noite de São João
A Mário de Andrade
São João São João
o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra
mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos
Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus
Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições
Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)
e o vento agudo
e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas
(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)
São João São João
e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira
São João São João
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
São João São João
o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra
mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos
Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus
Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições
Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)
e o vento agudo
e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas
(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)
São João São João
e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira
São João São João
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
2 280
Gilberto Mendonça Teles
Manifesto da Cozinha Goiana
A Waldomiro Bariani Ortêncio
4. O Trivial
Ah! o arroz com guariroba, o arroz maria-isabel!
o arroz-de-moça-pobre, o delícia, o casadinhos,
o arroz feito com suã, o fulvo arroz com pequi!
E o feijão frito e o pagão, feijão-caipira ou tropeiro,
tutu de arroz e feijão?
E a almôndega batida,
o angu-de-milho-e-quiabo? e o refogado-de-milho,
a cambuquira, o quibebe, o molho-pardo, a paçoca,
o escaldado-de-farinha-de-milho, a galinhada,
a frigideira-de-umbigo-de-bananeira, o cará,
a tigelada-de-queijo, de mamão verde e chuchu,
e o maxixe, o mangarito, as empadas-de-domingo,
carne-de-porco-na-lata, pamonha de todo jeito?
Tudo isso e mais a fome
da cidade e do sertão,
tudo isso e mais o gosto
da pimenta e do limão,
tudo isso, minha gente,
vai perdendo a tradição,
vai ficando na saudade,
na forma de algum refrão,
de algum discurso eficaz
que possa matar a fome
comendo apenas o nome
das comidas de Goiás.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 97. Poema integrante da série Sombras da Terra.
NOTA: Poema composto de 5 partes: 0. Prólogo; 1. Bichos; 2. Pássaros; 3. Peixes; 4. O Trivia
4. O Trivial
Ah! o arroz com guariroba, o arroz maria-isabel!
o arroz-de-moça-pobre, o delícia, o casadinhos,
o arroz feito com suã, o fulvo arroz com pequi!
E o feijão frito e o pagão, feijão-caipira ou tropeiro,
tutu de arroz e feijão?
E a almôndega batida,
o angu-de-milho-e-quiabo? e o refogado-de-milho,
a cambuquira, o quibebe, o molho-pardo, a paçoca,
o escaldado-de-farinha-de-milho, a galinhada,
a frigideira-de-umbigo-de-bananeira, o cará,
a tigelada-de-queijo, de mamão verde e chuchu,
e o maxixe, o mangarito, as empadas-de-domingo,
carne-de-porco-na-lata, pamonha de todo jeito?
Tudo isso e mais a fome
da cidade e do sertão,
tudo isso e mais o gosto
da pimenta e do limão,
tudo isso, minha gente,
vai perdendo a tradição,
vai ficando na saudade,
na forma de algum refrão,
de algum discurso eficaz
que possa matar a fome
comendo apenas o nome
das comidas de Goiás.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 97. Poema integrante da série Sombras da Terra.
NOTA: Poema composto de 5 partes: 0. Prólogo; 1. Bichos; 2. Pássaros; 3. Peixes; 4. O Trivia
2 636
Gilberto Mendonça Teles
Descrição
o sarro do saci
a farra do saci
o berro do saci
a guerra do saci
o birro do saci
a birra do saci
o gorro do saci
a p. do saci
o pulo do saci
a gula do saci
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 38. Poema integrante da série Sombras da Terra
a farra do saci
o berro do saci
a guerra do saci
o birro do saci
a birra do saci
o gorro do saci
a p. do saci
o pulo do saci
a gula do saci
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 38. Poema integrante da série Sombras da Terra
1 501
Gilberto Mendonça Teles
Estórias
1.
— Casião eu viajava distraído
na boquinha da noite.
O cavalo era aquele pedrês
que foi do compadre Quelemente,
que os ciganos roubaram.
Graças a Deus, nunca viajei armado.
Só o canivete solingen
de picar fumo.
Foi então que a canguçu apareceu
e logo desapareceu,
uivando fino,
já sem rabo entre as pernas.
2.
— Era no tempo da quaresma
e os cachorros latiam a noite inteira.
O homem cada dia ficava amarelo.
Não senhor, não era de medo, não.
Dizia-se que era de maleita.
Um dia a mulher encontrou ele
dormindo entre os porcos.
Era para curar a maleita,
o homem explicou.
Na sexta-feira-santa,
nem no chiqueiro estava mais.
Ainda de resguardo, a mulher foi dormir
na casa da mãe.
No caminho, surgiu um porco muito grande,
que andava em pé, feito um homem.
A mulher subiu num pé-de-pau, assustada.
O porco tentou alcançá-la com a boca,
mas só conseguiu mastigar as pontas
da flanela do menino.
No outro dia o marido voltou cedo:
tinha os dentes cheios de fiapos
de flanela vermelha.
(...)
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 74-75. Poema integrante da série Sombras da Terra.
NOTA: Poema composto de 4 parte
— Casião eu viajava distraído
na boquinha da noite.
O cavalo era aquele pedrês
que foi do compadre Quelemente,
que os ciganos roubaram.
Graças a Deus, nunca viajei armado.
Só o canivete solingen
de picar fumo.
Foi então que a canguçu apareceu
e logo desapareceu,
uivando fino,
já sem rabo entre as pernas.
2.
— Era no tempo da quaresma
e os cachorros latiam a noite inteira.
O homem cada dia ficava amarelo.
Não senhor, não era de medo, não.
Dizia-se que era de maleita.
Um dia a mulher encontrou ele
dormindo entre os porcos.
Era para curar a maleita,
o homem explicou.
Na sexta-feira-santa,
nem no chiqueiro estava mais.
Ainda de resguardo, a mulher foi dormir
na casa da mãe.
No caminho, surgiu um porco muito grande,
que andava em pé, feito um homem.
A mulher subiu num pé-de-pau, assustada.
O porco tentou alcançá-la com a boca,
mas só conseguiu mastigar as pontas
da flanela do menino.
No outro dia o marido voltou cedo:
tinha os dentes cheios de fiapos
de flanela vermelha.
(...)
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 74-75. Poema integrante da série Sombras da Terra.
NOTA: Poema composto de 4 parte
1 503
Gilberto Mendonça Teles
Caiporismo
Um dia um caipora, baixinho, gordo e nu,
montou num caititu e foi pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.
E logo todos os bichos se amoitaram e só
saíram aos cochichos, aproveitando o pó
da noite que tecia seu manto de jaó.
Mas um velho goiano (seis mortes, por aí)
arrumou seu jirau sobre um pé de pequi
e ficou escuitano jaó e juriti.
Esperava veado e só então deu fé
naquilo que a seu lado parecia de pé
e tinha o corpo todo seco que nem sapé.
Quem não teme o diabo e arreliado está
sabe bem que no cabo de sua faca só há
sangue de coisa ruim, cheiro de coisa má.
Com três golpes no umbigo matou o caipora.
Mas quando ia embora viu-se baixinho e nu
montando um caititu e indo pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 72. Poema integrante da série Sombras da Terra
montou num caititu e foi pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.
E logo todos os bichos se amoitaram e só
saíram aos cochichos, aproveitando o pó
da noite que tecia seu manto de jaó.
Mas um velho goiano (seis mortes, por aí)
arrumou seu jirau sobre um pé de pequi
e ficou escuitano jaó e juriti.
Esperava veado e só então deu fé
naquilo que a seu lado parecia de pé
e tinha o corpo todo seco que nem sapé.
Quem não teme o diabo e arreliado está
sabe bem que no cabo de sua faca só há
sangue de coisa ruim, cheiro de coisa má.
Com três golpes no umbigo matou o caipora.
Mas quando ia embora viu-se baixinho e nu
montando um caititu e indo pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 72. Poema integrante da série Sombras da Terra
1 906
Affonso Ávila
Ponte de Xavier
.& da talha de xavierdebrito
à talha de antôniofrancisco
.& do texto de xavierdasilva
ao texto de cláudiomanuel
.& da tortura de xavierotiradentes
à tortura do torturadodesconhecido
.&
Publicado no livro Cantaria barroca (1975).
In: ÁVILA, Affonso. Discurso da difamação do poeta: antologia. São Paulo: Summus, 1978. p. 71. (Palavra poética, 1
à talha de antôniofrancisco
.& do texto de xavierdasilva
ao texto de cláudiomanuel
.& da tortura de xavierotiradentes
à tortura do torturadodesconhecido
.&
Publicado no livro Cantaria barroca (1975).
In: ÁVILA, Affonso. Discurso da difamação do poeta: antologia. São Paulo: Summus, 1978. p. 71. (Palavra poética, 1
1 331
Stella Leonardos
Balada da Chica da Silva
Solo
"Jambá tuca rirá ô quê!
Coro
Jambá catussira rossequê
Solo
Rio, Rio."
— Meu pai, me conta da Chica
— a das estrelas dos antes
das catas de Serro Frio,
Sinhá de José Fernandes
o branco de desvario.
— De quem aquele navio
a um lago absurdo indagando?
Da nega Chica da Silva
Sinhá de José Fernandes.
Não há mar em Serro Frio
mas há, de sobra, diamante.
A nega sentiu capricho
navegante.
Jambá jambi jombô.
Chica da Silva
sonhou
De quem esses atavios
de estrelas não vistas dantes?
Da nega Chica da Silva
Sinhá de José Fernandes.
Não há corte em Serro Frio
mas há, de sobra, diamante.
A nega veste capricho
cintilante.
Jambá jombô jambi.
Chica da Silva
sorri
De quem o olhar de cobiça
e essas garras se ocultando,
ô nega Chica da Silva
sinhá de José Fernandes?
Do hóspede de Serro Frio
onde há, de sobra, diamante.
Do Conde vilão, capricho
vigilante.
Jambi jombô jambá.
Chica da Silva
sinhá.
De quem esses olhos-rios
de saudade rebrilhando?
Da nega Chica da Silva.
Levaram José Fernandes.
(Adeus Chica, e Serro Frio,
e contrato de diamante!)
Ai Chica chorando dia
de amante!
Jambá jambi jombô.
Chica da Silva
chorou.
— E depois: que houve com Chica,
sinhá de José Fernandes,
a nega de Serro Frio?
Será que o que andou chorando
é hoje estrela de rio?
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro da Abolição: poesia. São Paulo: Melhoramentos, 1986
"Jambá tuca rirá ô quê!
Coro
Jambá catussira rossequê
Solo
Rio, Rio."
— Meu pai, me conta da Chica
— a das estrelas dos antes
das catas de Serro Frio,
Sinhá de José Fernandes
o branco de desvario.
— De quem aquele navio
a um lago absurdo indagando?
Da nega Chica da Silva
Sinhá de José Fernandes.
Não há mar em Serro Frio
mas há, de sobra, diamante.
A nega sentiu capricho
navegante.
Jambá jambi jombô.
Chica da Silva
sonhou
De quem esses atavios
de estrelas não vistas dantes?
Da nega Chica da Silva
Sinhá de José Fernandes.
Não há corte em Serro Frio
mas há, de sobra, diamante.
A nega veste capricho
cintilante.
Jambá jombô jambi.
Chica da Silva
sorri
De quem o olhar de cobiça
e essas garras se ocultando,
ô nega Chica da Silva
sinhá de José Fernandes?
Do hóspede de Serro Frio
onde há, de sobra, diamante.
Do Conde vilão, capricho
vigilante.
Jambi jombô jambá.
Chica da Silva
sinhá.
De quem esses olhos-rios
de saudade rebrilhando?
Da nega Chica da Silva.
Levaram José Fernandes.
(Adeus Chica, e Serro Frio,
e contrato de diamante!)
Ai Chica chorando dia
de amante!
Jambá jambi jombô.
Chica da Silva
chorou.
— E depois: que houve com Chica,
sinhá de José Fernandes,
a nega de Serro Frio?
Será que o que andou chorando
é hoje estrela de rio?
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro da Abolição: poesia. São Paulo: Melhoramentos, 1986
1 435
Affonso Ávila
Anti-Sonetos Ouropretanos
I
da vila rica de ouro preto o ouro
do preito o ouro do pilar o ouro
do pórtico o ouro do púlpito o ouro
do paramento o ouro do pálio o ouro
do panteão o ouro do pacto o ouro
do percalço o ouro do perjúrio o ouro
do patíbulo o ouro do proscrito o ouro
do prêmio o ouro do palimpsesto o ouro
do pedágio o ouro do pecado o ouro
do pulha o ouro do podre o ouro
do polvo o ouro do puro o ouro
do pobre o ouro do povo o ouro
do poeta o ouro do peito o ouro
da rima rica de outro preto o ouro
II
a cidade da hera e de idade
a antiguidade de édito e de idade
a posteridade de efígie e de idade
a eternidade de essência e de idade
a majestade de espírito e de idade
a gravidade de espectro e de idade
a dignidade de ênfase e de idade
a imobilidade de enlevo e de idade
a obliquidade de eflúvio e de idade
a soledade de exílio e de idade
a fatalidade de exaustão e de idade
a castidade de espera e de idade
a carnalidade de efêmero e de idade
a cidade de eros e de idade
(...)
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 93-95. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Código de Minas
da vila rica de ouro preto o ouro
do preito o ouro do pilar o ouro
do pórtico o ouro do púlpito o ouro
do paramento o ouro do pálio o ouro
do panteão o ouro do pacto o ouro
do percalço o ouro do perjúrio o ouro
do patíbulo o ouro do proscrito o ouro
do prêmio o ouro do palimpsesto o ouro
do pedágio o ouro do pecado o ouro
do pulha o ouro do podre o ouro
do polvo o ouro do puro o ouro
do pobre o ouro do povo o ouro
do poeta o ouro do peito o ouro
da rima rica de outro preto o ouro
II
a cidade da hera e de idade
a antiguidade de édito e de idade
a posteridade de efígie e de idade
a eternidade de essência e de idade
a majestade de espírito e de idade
a gravidade de espectro e de idade
a dignidade de ênfase e de idade
a imobilidade de enlevo e de idade
a obliquidade de eflúvio e de idade
a soledade de exílio e de idade
a fatalidade de exaustão e de idade
a castidade de espera e de idade
a carnalidade de efêmero e de idade
a cidade de eros e de idade
(...)
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 93-95. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Código de Minas
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