Poemas neste tema
Cultura e Tradição
Stella Leonardos
Dois Temas para Debret
I
Pequeno príncipe, via
preso às janelas do Paço
o Rio onde já vivia.
Ah ser livre em mais espaço!
Das janelas via o largo
e, no largo, o chafariz.
Além do largo, o horizonte
— horizonte longilargo
de larguíssimo matiz.
Salpicados dágua doce,
os negros vinham cantando,
carregados de barris.
"Ei ê, qui foi, na fonte.
Ei ê, qui foi, na fonte.
Sinhora me disse
qui foi na fonte,
qui foi na fonte
Sinhora me disse
qui foi na fonte
com dois barri:
qui foi na fonte Sinhora me disse
com dois barri.
Ee ê ei ê."
E do cais e da baía
pescadores aportavam
nos barcos de maresia
contando aos ventos e às gentes
grandes pescas de baleia.
Se negros, afrocantavam
no ritmo de arpão afiado
e vozes de maré cheia:
"Mara, mara mdimba, auê ia ia auê,
mdimba urira,
mara, mara mdimba, auê ia ia auê".
Salpicando-se do sal
e do sol mares braveza.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro da Abolição: poesia. São Paulo: Melhoramentos, 1986
Pequeno príncipe, via
preso às janelas do Paço
o Rio onde já vivia.
Ah ser livre em mais espaço!
Das janelas via o largo
e, no largo, o chafariz.
Além do largo, o horizonte
— horizonte longilargo
de larguíssimo matiz.
Salpicados dágua doce,
os negros vinham cantando,
carregados de barris.
"Ei ê, qui foi, na fonte.
Ei ê, qui foi, na fonte.
Sinhora me disse
qui foi na fonte,
qui foi na fonte
Sinhora me disse
qui foi na fonte
com dois barri:
qui foi na fonte Sinhora me disse
com dois barri.
Ee ê ei ê."
E do cais e da baía
pescadores aportavam
nos barcos de maresia
contando aos ventos e às gentes
grandes pescas de baleia.
Se negros, afrocantavam
no ritmo de arpão afiado
e vozes de maré cheia:
"Mara, mara mdimba, auê ia ia auê,
mdimba urira,
mara, mara mdimba, auê ia ia auê".
Salpicando-se do sal
e do sol mares braveza.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro da Abolição: poesia. São Paulo: Melhoramentos, 1986
1 189
Armindo Trevisan
Poema-Granadino XI
Psiu! Entortaram
o beiço que herdamos
sem cachimbo de um pilão
e de uma erva do mato.
Pajé deu de comer
na mão aos passarinhos,
e a Anchieta.
Uma cruz ruminou
a alma implumada.
Psiu! Entortaram
o coração deste país.
Quem amolecerá o bronze
da pele que era nossa?
Entortaram até a língua.
A cor deu de aleitar-se,
o mameluco chupou
o polegar por descuido.
Qualquer coisa é preciso
para encher de aroma,
de som,
o padre-nosso esquecido.
Fiquem onde ficarem
os galões de Rondon.
Igaçabas e cascavéis
são nossos.
É preciso desentortar
a pancada que mugiu
no cérebro desta terra.
E fazer da ciência
como cauim o delírio
de provetas e guindastes,
iluminação e portos.
Não se desentorte errado
o sangue! Sangue é vento
que vem de todo lado.
Respire-o quem puder,
e fique mais corado.
Desentorte-se o vesgo
de um fuzil amargo,
o dinheiro pago
pelo dizer
sim ao passado.
E outra vez
desentorte-se o não,
que é tino de mundo
logo depois da criação.
E se alguém souber
de um destino mais terreal,
fale grosso que a língua
que temos é de algodão.
Se falarmos como pudermos,
seremos o que quisermos.
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
o beiço que herdamos
sem cachimbo de um pilão
e de uma erva do mato.
Pajé deu de comer
na mão aos passarinhos,
e a Anchieta.
Uma cruz ruminou
a alma implumada.
Psiu! Entortaram
o coração deste país.
Quem amolecerá o bronze
da pele que era nossa?
Entortaram até a língua.
A cor deu de aleitar-se,
o mameluco chupou
o polegar por descuido.
Qualquer coisa é preciso
para encher de aroma,
de som,
o padre-nosso esquecido.
Fiquem onde ficarem
os galões de Rondon.
Igaçabas e cascavéis
são nossos.
É preciso desentortar
a pancada que mugiu
no cérebro desta terra.
E fazer da ciência
como cauim o delírio
de provetas e guindastes,
iluminação e portos.
Não se desentorte errado
o sangue! Sangue é vento
que vem de todo lado.
Respire-o quem puder,
e fique mais corado.
Desentorte-se o vesgo
de um fuzil amargo,
o dinheiro pago
pelo dizer
sim ao passado.
E outra vez
desentorte-se o não,
que é tino de mundo
logo depois da criação.
E se alguém souber
de um destino mais terreal,
fale grosso que a língua
que temos é de algodão.
Se falarmos como pudermos,
seremos o que quisermos.
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
923
Fontoura Xavier
XI - Toledo
Toledo, a mística imperial Toledo.
Têmpera de aço e fé, cujo segredo
Guarda consigo, avulta no horizonte,
esbatida no píncaro de um monte.
Afigura-se, vendo-a, ver defronte
A agonia de morte de um rochedo
Que o Tejo enlaça violento e tredo
Como a serpente de Laocoonte.
Santos e sombras são-lhe os habitantes,
Santos de Greco, sombras de Cervantes:
Ao Conde d'Orgaz luz um resplendor.
Cristo depõe perante um tribunal,
O cavalo de Cid El Campeador
Ajoelha à porta de uma catedral!...
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
Têmpera de aço e fé, cujo segredo
Guarda consigo, avulta no horizonte,
esbatida no píncaro de um monte.
Afigura-se, vendo-a, ver defronte
A agonia de morte de um rochedo
Que o Tejo enlaça violento e tredo
Como a serpente de Laocoonte.
Santos e sombras são-lhe os habitantes,
Santos de Greco, sombras de Cervantes:
Ao Conde d'Orgaz luz um resplendor.
Cristo depõe perante um tribunal,
O cavalo de Cid El Campeador
Ajoelha à porta de uma catedral!...
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
1 108
Ronald de Carvalho
Advertência
Europeu!
Nos tabuleiros de xadrez da tua aldeia,
na tua casa de madeira, pequenina, coberta de hera,
na tua casa de pinhões e beirais, vigiada por filas de cercas
[paralelas, com trepadeiras moles balançando
[e florindo;
na tua sala de jantar, junto do fogão de azulejos, cheirando a
[resina de pinheiro e faia,
na tua sala de jantar, em que os teus avós leram a Bíblia e
[discutiram casamentos, colheitas e enterros,
entre as tuas arcas bojudas e pretas, com lãs felpudas e linhos
[encardidos, colares, gravuras, papéis
[graves e moedas roubadas ao inútil
[maravilhoso;
diante do teu riacho, mais antigo que as Cruzadas, desse teu
[riacho serviçal, que engorda trutas e
[carpas;
Europeu!
Em frente da tua paisagem, dessa tua paisagem com estradas,
[quintalejos, campanários e burgos, que
[cabe toda na bola de vidro do teu
[jardim;
diante dessas tuas árvores que conheces pelo nome- o carvalho
[do açude, o choupo do ferreiro, a tília
[da ponte — que conheces pelo nome
[como os teus cães, os teus jumentos e as
[tuas vacas;
Europeu! filho da obediência, da economia e do bom senso,
tu não sabes o que é ser Americano!
Ah! os tumultos do nosso sangue temperado em saltos e disparadas
[sobre pampas, savanas, planaltos,
[caatingas onde estouram boiadas tontas,
[onde estouram batuques de cascos, tropel
[de patas, torvelinho de chifres!
Alegria virgem das voltas que o laço dá na coxilha verde,
Alegria virgem de rios-mares, enxurradas, planícies cósmicas,
[picos e grimpas, terras livres, ares livres,
[florestas sem lei!
Alegria de inventar, de descobrir, de correr!
Alegria de criar o caminho com a planta do pé!
Europeu!
Nessa maré de massas informes, onde as raças e as línguas se
[dissolvem,
o nosso espírito áspero e ingênuo flutua sobre as cousas, sobre
[todas as cousas divinamente rudes, onde
[bóia a luz selvagem do dia americano!
Publicado no livro Toda a América (1926).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.187-188. (Manancial, 44
Nos tabuleiros de xadrez da tua aldeia,
na tua casa de madeira, pequenina, coberta de hera,
na tua casa de pinhões e beirais, vigiada por filas de cercas
[paralelas, com trepadeiras moles balançando
[e florindo;
na tua sala de jantar, junto do fogão de azulejos, cheirando a
[resina de pinheiro e faia,
na tua sala de jantar, em que os teus avós leram a Bíblia e
[discutiram casamentos, colheitas e enterros,
entre as tuas arcas bojudas e pretas, com lãs felpudas e linhos
[encardidos, colares, gravuras, papéis
[graves e moedas roubadas ao inútil
[maravilhoso;
diante do teu riacho, mais antigo que as Cruzadas, desse teu
[riacho serviçal, que engorda trutas e
[carpas;
Europeu!
Em frente da tua paisagem, dessa tua paisagem com estradas,
[quintalejos, campanários e burgos, que
[cabe toda na bola de vidro do teu
[jardim;
diante dessas tuas árvores que conheces pelo nome- o carvalho
[do açude, o choupo do ferreiro, a tília
[da ponte — que conheces pelo nome
[como os teus cães, os teus jumentos e as
[tuas vacas;
Europeu! filho da obediência, da economia e do bom senso,
tu não sabes o que é ser Americano!
Ah! os tumultos do nosso sangue temperado em saltos e disparadas
[sobre pampas, savanas, planaltos,
[caatingas onde estouram boiadas tontas,
[onde estouram batuques de cascos, tropel
[de patas, torvelinho de chifres!
Alegria virgem das voltas que o laço dá na coxilha verde,
Alegria virgem de rios-mares, enxurradas, planícies cósmicas,
[picos e grimpas, terras livres, ares livres,
[florestas sem lei!
Alegria de inventar, de descobrir, de correr!
Alegria de criar o caminho com a planta do pé!
Europeu!
Nessa maré de massas informes, onde as raças e as línguas se
[dissolvem,
o nosso espírito áspero e ingênuo flutua sobre as cousas, sobre
[todas as cousas divinamente rudes, onde
[bóia a luz selvagem do dia americano!
Publicado no livro Toda a América (1926).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.187-188. (Manancial, 44
2 655
Stella Leonardos
Romance do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos
..."para o fim dos fiéis venerarem a Santa Cruz,
e pela mesma razão: e pela grande devoção que
tem a Santíssima Imagem do Senhor de Matto-
sinhos"...
Petição de Feliciano Mendes
Por ali verdes congonhas
arvoravam ver de folhas
rumorejando no campo:
— Falta tanto, tanto ainda.
Por ali, verde "kõ gõi".!
Arvorando verdes folhas
que curam males do corpo,
verdes congonhas-do-campo.
Veio um dia um mineirante
por nome de Feliciano
e Mendes por sobrenome.
Sofria. Mal misterioso.
Quem sabe se o bom Jesus,
Ele mesmo, o curaria?
Veio o milagre. Curou-se
e saiu de romaria.
Ficaram verdes congonhas
arvorando ver de folhas
rumorejantes no campo:
— Falta tanto, tanto ainda.
— Pelo amor do bom Jesus!
Bom Jeus do Matosinhos.
Esmolas para o santuário
do Bom Jesus nestas Minas! —
e moedas pingocaindo
nos embornais do pedinte.
— Vinde! Vinde carapina
e pedreiro! Sois benvindos.
Vinde, vinde entalhadores!
Que o santuário fique lindo.
Por ali verdes congonhas
arvorando verdes folhas
rumorejaram no campo:
— Falta tanto, tanto. Ainda
Até que veio um mineiro
por nome Antônio Francisco,
Lisboa por sobrenome
Plantou-se nas cercanias.
E na certa o bom Jesus,
Ele mesmo, o inspiraria
Ainda hoje Congonhas
relembra arvorar de folhas
rumorejando no campo:
— Aleijadinho, benvindo!
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
e pela mesma razão: e pela grande devoção que
tem a Santíssima Imagem do Senhor de Matto-
sinhos"...
Petição de Feliciano Mendes
Por ali verdes congonhas
arvoravam ver de folhas
rumorejando no campo:
— Falta tanto, tanto ainda.
Por ali, verde "kõ gõi".!
Arvorando verdes folhas
que curam males do corpo,
verdes congonhas-do-campo.
Veio um dia um mineirante
por nome de Feliciano
e Mendes por sobrenome.
Sofria. Mal misterioso.
Quem sabe se o bom Jesus,
Ele mesmo, o curaria?
Veio o milagre. Curou-se
e saiu de romaria.
Ficaram verdes congonhas
arvorando ver de folhas
rumorejantes no campo:
— Falta tanto, tanto ainda.
— Pelo amor do bom Jesus!
Bom Jeus do Matosinhos.
Esmolas para o santuário
do Bom Jesus nestas Minas! —
e moedas pingocaindo
nos embornais do pedinte.
— Vinde! Vinde carapina
e pedreiro! Sois benvindos.
Vinde, vinde entalhadores!
Que o santuário fique lindo.
Por ali verdes congonhas
arvorando verdes folhas
rumorejaram no campo:
— Falta tanto, tanto. Ainda
Até que veio um mineiro
por nome Antônio Francisco,
Lisboa por sobrenome
Plantou-se nas cercanias.
E na certa o bom Jesus,
Ele mesmo, o inspiraria
Ainda hoje Congonhas
relembra arvorar de folhas
rumorejando no campo:
— Aleijadinho, benvindo!
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
1 132
Mafalda Veiga
O Nome do Sal
Traz-me de novo a memória de outros dias
Ter raiz nas romarias
Nas danças, nas cantorias
Na forma de se espraiar de um sonho errante
Em terra vasta e distante
Procurando o sal
Sinto voltar a saudade na cumprida
De palavras e vontades
De gestos e ansiedades
Das coisas que ainda não há mas que já estão
Na forma da nossa mão
Procurando o sal
Ah que os mares abertos fossem ventos
Fossem caravelas
Novos sonhos conquistando
Ah que o céu descubra rumos nossos
Nossas estrelas
Navegando
Molha-se a alma no suor da descoberta
Na pulsação da terra
De sonho e de pão repleta
A raiz outra vez a rebentar
Nova terra, novo mar
Procurando o sal
Seja de novo o impulso de viver
Para além de ir aguentando
E às cegas ir caminhando
Porque o dia tem cor do que é preciso
E pulsa no chão que eu piso
O sangue de Portugal
Ah que os mares abertos fossem ventos
Fossem caravelas
Novos sonhos conquistando
Ah que o céu descubra rumos nossos
Nossas estrelas
Navegando
Ter raiz nas romarias
Nas danças, nas cantorias
Na forma de se espraiar de um sonho errante
Em terra vasta e distante
Procurando o sal
Sinto voltar a saudade na cumprida
De palavras e vontades
De gestos e ansiedades
Das coisas que ainda não há mas que já estão
Na forma da nossa mão
Procurando o sal
Ah que os mares abertos fossem ventos
Fossem caravelas
Novos sonhos conquistando
Ah que o céu descubra rumos nossos
Nossas estrelas
Navegando
Molha-se a alma no suor da descoberta
Na pulsação da terra
De sonho e de pão repleta
A raiz outra vez a rebentar
Nova terra, novo mar
Procurando o sal
Seja de novo o impulso de viver
Para além de ir aguentando
E às cegas ir caminhando
Porque o dia tem cor do que é preciso
E pulsa no chão que eu piso
O sangue de Portugal
Ah que os mares abertos fossem ventos
Fossem caravelas
Novos sonhos conquistando
Ah que o céu descubra rumos nossos
Nossas estrelas
Navegando
1 038
Mafalda Veiga
Lenda de Uma Cigana
A lenda de uma cigana
Adormecida ao relento
Que perdeu a caravana
Por seguir o pensamento
Tem dias que anda pairando
Nos rumos do mundo
Tem dias que anda rolando
Nas presas do tempo
Diz a lenda que a cigana
Pelo caminho onde viera
O xaile tinha perdido
E um vagabundo o trouxera
Sacudindo o pó e as mágoas
Como se a cor acordasse
Num abraço dançou com ela
Antes que o vento a roubasse
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
No silêncio mal se ouviam
Dançar descalços na areia
Numa noite quase fria
Estava a lua quase cheia
E pra rasgarem o escuro
Ou fugir à solidão
Ataram corpos cansados
Na sombra vaga do chão
Quando o sol entorna o dia
Ficara o xaile esquecido
E os passos da cigana
Já o vento tinha escondido
Ficou só o vagabundo
Resgatando uma ilusão
Com a alma amordaçada
Na palma da mão
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
Adormecida ao relento
Que perdeu a caravana
Por seguir o pensamento
Tem dias que anda pairando
Nos rumos do mundo
Tem dias que anda rolando
Nas presas do tempo
Diz a lenda que a cigana
Pelo caminho onde viera
O xaile tinha perdido
E um vagabundo o trouxera
Sacudindo o pó e as mágoas
Como se a cor acordasse
Num abraço dançou com ela
Antes que o vento a roubasse
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
No silêncio mal se ouviam
Dançar descalços na areia
Numa noite quase fria
Estava a lua quase cheia
E pra rasgarem o escuro
Ou fugir à solidão
Ataram corpos cansados
Na sombra vaga do chão
Quando o sol entorna o dia
Ficara o xaile esquecido
E os passos da cigana
Já o vento tinha escondido
Ficou só o vagabundo
Resgatando uma ilusão
Com a alma amordaçada
Na palma da mão
Só o vento nos roda a saia
Só o vento nos faz dançar
Nos confunde os passos na areia
Muda o rumo às águas do mar
1 259
Mafalda Veiga
Fonte dos Deuses
A lua dança na mata
Até despontar o dia
Andam ninfas na cascata
E os deuses em romaria
E os bravos guerreiro mouros
Cravam lanças ao luar
Pra afugentar maus agouros
Como a fonte a transbordar
Rio aberto, quase mar
Acaba todo o sossego
Inundada a pradaria
Se os deuses contam segredos
E água vem que não devi
E os bravos guerreiros
Cravam lanças ao luar
Pra afugentar maus agouros
Como a fonte a transbordar
Rio aberto, quase mar
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
Cantaria à luz do fogo
Se me fosse perdoado
Pelos deuses todo o sonho
Toda a falta de cuidado
Mas nem sempre acorda a chama
Onde a noite é demorada
Enquanto os deuses recolhem
Água em fonte transbordada
Luz em noite enluarada
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
Toco na lira dos deuses
Pela margem da ribeira
É esse o riso dos deuses
E das caraças da feira
Dias de amor nunca esquecem
Tirando algum que esqueceu
Quando os deuses enlouquecem
E arrancam estrelas do céu
E deixam noites de breu
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
Até despontar o dia
Andam ninfas na cascata
E os deuses em romaria
E os bravos guerreiro mouros
Cravam lanças ao luar
Pra afugentar maus agouros
Como a fonte a transbordar
Rio aberto, quase mar
Acaba todo o sossego
Inundada a pradaria
Se os deuses contam segredos
E água vem que não devi
E os bravos guerreiros
Cravam lanças ao luar
Pra afugentar maus agouros
Como a fonte a transbordar
Rio aberto, quase mar
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
Cantaria à luz do fogo
Se me fosse perdoado
Pelos deuses todo o sonho
Toda a falta de cuidado
Mas nem sempre acorda a chama
Onde a noite é demorada
Enquanto os deuses recolhem
Água em fonte transbordada
Luz em noite enluarada
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
Toco na lira dos deuses
Pela margem da ribeira
É esse o riso dos deuses
E das caraças da feira
Dias de amor nunca esquecem
Tirando algum que esqueceu
Quando os deuses enlouquecem
E arrancam estrelas do céu
E deixam noites de breu
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
1 158
Bocage
Preside o neto da rainha Ginga
"Preside o neto da rainha Ginga
À corja vil, aduladora, insana.
Traz sujo moço amostras de chanfana,
Em copos desiguais se esgota a pinga.
Vem pão, manteiga e chá, tudo à catinga;
Masca farinha a turba americana;
E o oragotango a corda à banza abana,
Com gesto e visagens de mandinga.
Um bando de comparsas logo acode
Do fofo Conde ao novo Talaveiras;
Improvisa berrando o rouco bode.
Aplaudem de contínuo as frioleiras
Belmiro em ditirambo, o ex-frade em ode.
Eis aqui de Lereno as quartas-feiras."
À corja vil, aduladora, insana.
Traz sujo moço amostras de chanfana,
Em copos desiguais se esgota a pinga.
Vem pão, manteiga e chá, tudo à catinga;
Masca farinha a turba americana;
E o oragotango a corda à banza abana,
Com gesto e visagens de mandinga.
Um bando de comparsas logo acode
Do fofo Conde ao novo Talaveiras;
Improvisa berrando o rouco bode.
Aplaudem de contínuo as frioleiras
Belmiro em ditirambo, o ex-frade em ode.
Eis aqui de Lereno as quartas-feiras."
2 794
Felipe Vianna
POESIA À POESIA
Rosas, amor, morte, vida,
São as armas da poesia.
Poesia hoje não lida,
Poesia hoje esquecida.
Poesia é um discurso,
Um discurso com muito som.
Se seu ritmo é bonito
É de alguém com muito dom.
Poesia é cultura,
É beleza, é arte pura.
Canto dos pássaros,
Pérola dos poetas.
Na vida das poesias
Tantas vidas se passaram,
Estas vidas já se foram
Mas nas poesias ficaram.
Tão bela quanto a rosa
A poesia ainda é,
Mas hoje, totalmente esquecida
Na conquista da mulher.
Já vou aos poucos findando
Esta poesia de dor,
Dor da ausência da arte
Na presença de um amor.
13/04/1991
São as armas da poesia.
Poesia hoje não lida,
Poesia hoje esquecida.
Poesia é um discurso,
Um discurso com muito som.
Se seu ritmo é bonito
É de alguém com muito dom.
Poesia é cultura,
É beleza, é arte pura.
Canto dos pássaros,
Pérola dos poetas.
Na vida das poesias
Tantas vidas se passaram,
Estas vidas já se foram
Mas nas poesias ficaram.
Tão bela quanto a rosa
A poesia ainda é,
Mas hoje, totalmente esquecida
Na conquista da mulher.
Já vou aos poucos findando
Esta poesia de dor,
Dor da ausência da arte
Na presença de um amor.
13/04/1991
620
Manuel Machado
Cantares
Vinho, sentimentos, guitarra e poesia
fazem os cantares da pátria minha.
Cantares...
Quem disse cantares disse Andaluzia.
À sombra fresca da velha parreira,
um moço dedilha a guitarra...
Cantares...
Algo que acaricia e algo que dilacera
"A nota aguda" que canta e o "baixo que chora...
E o tempo calado se vai hora após hora.
Cantares...
São marcas fatais da raça moura.
Não importa a vida, que já está perdida,
e, depois de tudo, que é isso, a vida?...
Cantares...
Cantando a dor, a dor se esquece.
Mãe, dor, sorte, dor, mãe, morte,
olhos pretos, negros, e negra a sorte...
Cantares...
Neles a alma da alma se verte.
Cantares. Cantares da pátria minha,
quem disse cantares disse Andaluzia.
Cantares...
Não tem mais notas a guitarra minha.
fazem os cantares da pátria minha.
Cantares...
Quem disse cantares disse Andaluzia.
À sombra fresca da velha parreira,
um moço dedilha a guitarra...
Cantares...
Algo que acaricia e algo que dilacera
"A nota aguda" que canta e o "baixo que chora...
E o tempo calado se vai hora após hora.
Cantares...
São marcas fatais da raça moura.
Não importa a vida, que já está perdida,
e, depois de tudo, que é isso, a vida?...
Cantares...
Cantando a dor, a dor se esquece.
Mãe, dor, sorte, dor, mãe, morte,
olhos pretos, negros, e negra a sorte...
Cantares...
Neles a alma da alma se verte.
Cantares. Cantares da pátria minha,
quem disse cantares disse Andaluzia.
Cantares...
Não tem mais notas a guitarra minha.
1 243
Angela Santos
Amor e Sotaque
Tem um
modo de você saber
aquelas coisas
que as palavras complicam
ao jeito doce que você me ensinou,
com minhas mãos,
meus quadris
minhas coxas,
minha boca,
meu sexo extático
se diluindo no seu
como é fácil dizer: amor.
E nesse cocktail
de línguas e sotaques
coco e pitangas
caipiras e fado,
negros e brancos
ourixás, samba e axé
Pessoa e Quintana
Verde vermelho
Azul amarelo.
Nós
no final misturando ainda
tu com você.
modo de você saber
aquelas coisas
que as palavras complicam
ao jeito doce que você me ensinou,
com minhas mãos,
meus quadris
minhas coxas,
minha boca,
meu sexo extático
se diluindo no seu
como é fácil dizer: amor.
E nesse cocktail
de línguas e sotaques
coco e pitangas
caipiras e fado,
negros e brancos
ourixás, samba e axé
Pessoa e Quintana
Verde vermelho
Azul amarelo.
Nós
no final misturando ainda
tu com você.
1 082
Mauricio Segall
Venham admirar
Venham,
venham admirar
o mais recente monumento
neoclássico da civilização ocidental
Não tenham medo nem receio
das alvas chaminés marítimas,
vigilantes sentinelas avançadas
que vomitam os rugidos do boulez electrônico.
Atravessem ousadamente
o happening programado
vasto pátio de milagres,
repleto de artistas amadores,
profissionais do subemprego
(não esqueçam a moedinha, por favor)
e adentrem a queixada
do mais recente dos molochs.
Tranquilizem-se com as criancinhas
virgens, puras e rosadas
armadilhas inocentes
entrevistas nas provetas
dos ascéticos e desinfetados
ateliers de cria-cria-criatividade.
Venham, venham ser moídos
pela recepção glacial toda sorrisos
deglutidos pelas entranhas desnudas
e expelidos pelas peristálticas tripas de vidro
do mais novo monstro sagrado da arte
sorvedouro metálico
das multidões famintas
de verbo e cor
de som e espetáculo.
Transatlântico multicolorido
circo travestido
novo templo de aço
digerindo tecnologicamente
séculos de sensibilidade
e anos de orçamento.
Cultura nuclear instantânea
para os telespectadores
extasiados com a prestidigitação
arquitetônica do futuro
inserida a golpes de fórceps
entre os velhos tetos de paris.
Ah! Que saudades dos Halles
sacrificados no altar da especulação,
cujo imenso buraco desnudo
nos faz chorar a má-fé dos homens.
Centro Beaubourg-Pompidou
fruto da megalomania furiosa,
ditadura da nova moda,
agencia central da arte
igreja dos novos templos
ritual da nova liturgia,
computador maldito
piscando eternamente
anunciando a nova
e duradoura alienação.
venham admirar
o mais recente monumento
neoclássico da civilização ocidental
Não tenham medo nem receio
das alvas chaminés marítimas,
vigilantes sentinelas avançadas
que vomitam os rugidos do boulez electrônico.
Atravessem ousadamente
o happening programado
vasto pátio de milagres,
repleto de artistas amadores,
profissionais do subemprego
(não esqueçam a moedinha, por favor)
e adentrem a queixada
do mais recente dos molochs.
Tranquilizem-se com as criancinhas
virgens, puras e rosadas
armadilhas inocentes
entrevistas nas provetas
dos ascéticos e desinfetados
ateliers de cria-cria-criatividade.
Venham, venham ser moídos
pela recepção glacial toda sorrisos
deglutidos pelas entranhas desnudas
e expelidos pelas peristálticas tripas de vidro
do mais novo monstro sagrado da arte
sorvedouro metálico
das multidões famintas
de verbo e cor
de som e espetáculo.
Transatlântico multicolorido
circo travestido
novo templo de aço
digerindo tecnologicamente
séculos de sensibilidade
e anos de orçamento.
Cultura nuclear instantânea
para os telespectadores
extasiados com a prestidigitação
arquitetônica do futuro
inserida a golpes de fórceps
entre os velhos tetos de paris.
Ah! Que saudades dos Halles
sacrificados no altar da especulação,
cujo imenso buraco desnudo
nos faz chorar a má-fé dos homens.
Centro Beaubourg-Pompidou
fruto da megalomania furiosa,
ditadura da nova moda,
agencia central da arte
igreja dos novos templos
ritual da nova liturgia,
computador maldito
piscando eternamente
anunciando a nova
e duradoura alienação.
817
Cora Coralina
O Passado
O
salão da frente recende a cravo.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
"Clube Literário Goiano".
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.
Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.
Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.
D. Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.
O Passado...
Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?
Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
Que vale para eles o sobrado?
Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?...
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas...
Que importam?
E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do passado.
salão da frente recende a cravo.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
"Clube Literário Goiano".
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.
Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.
Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.
D. Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.
O Passado...
Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?
Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
Que vale para eles o sobrado?
Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?...
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas...
Que importam?
E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do passado.
3 103
Regina Souza Vieira
Árvore de Frutos
Cheiras
ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.
Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.
No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.
Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!
ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.
Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.
No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.
Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!
867
Silvaney Paes
Brasil - Portugal
Um Dom
Um Dom de Pedro
Um tal D. Pedro
Num Ipiranga Português
Mais também Tupí na raça
Diziam Gritava
Um Dom
Um Dom de Pedro
Um tal D.Pedro
Mais que Gritava?
Grita Morte
Grito que Libertava
Um Dom
Um Dom de Pedro
Um Tal D. Pedro
Mas morreu?
Não. Só libertara.
Rompeu.
Um Dom
Um Dom de Pedro
Um tal D. Pedro
E Porque Rompeu
E não morreu?
Viu num futuro.
Um Dom
Um Dom de Pedro
Um tal D. Pedro
Mais que achou haver de Novo?
La no Futuro......
Irmãos de Novo.
Um Dom
Um Dom de Pedro
Um D. PEDRO
Um Dom de Pedro
Um tal D. Pedro
Num Ipiranga Português
Mais também Tupí na raça
Diziam Gritava
Um Dom
Um Dom de Pedro
Um tal D.Pedro
Mais que Gritava?
Grita Morte
Grito que Libertava
Um Dom
Um Dom de Pedro
Um Tal D. Pedro
Mas morreu?
Não. Só libertara.
Rompeu.
Um Dom
Um Dom de Pedro
Um tal D. Pedro
E Porque Rompeu
E não morreu?
Viu num futuro.
Um Dom
Um Dom de Pedro
Um tal D. Pedro
Mais que achou haver de Novo?
La no Futuro......
Irmãos de Novo.
Um Dom
Um Dom de Pedro
Um D. PEDRO
939
Silvaney Paes
Desculpas
De uma
Flor do Lácio
Que de Bilac foi bela
De TI e de VÓS inculta era
Em meu poema feito de pressa.
De uma língua Linda e singela
Em que Camões, somente expressa.
Esplendida, bela, por mim impura.
Em meu poema feito de pressa
De muito ouvir a voz materna
Amou Drummond tão rude e bela
Mais que de mim desconhecida, fera.
Em um poema feito de pressa.
De esplendor e sepultura
Fui com Ti amada, injusta.
Mais não VÓS nega o amor e a ternura
Em meu poema feito de pressa
Flor do Lácio
Que de Bilac foi bela
De TI e de VÓS inculta era
Em meu poema feito de pressa.
De uma língua Linda e singela
Em que Camões, somente expressa.
Esplendida, bela, por mim impura.
Em meu poema feito de pressa
De muito ouvir a voz materna
Amou Drummond tão rude e bela
Mais que de mim desconhecida, fera.
Em um poema feito de pressa.
De esplendor e sepultura
Fui com Ti amada, injusta.
Mais não VÓS nega o amor e a ternura
Em meu poema feito de pressa
700
Reinaldo Ferreira
Oh! tarde de sábado britânica
Oh! tarde de sábado britânica,
Poema da rotina,
Prodígio do bem-estar...
Eu, que donde vou, latino e desgrenhado,
Intenso, irregular,
Apenas sei a vibração e o desânimo
(O sol excessivo e a sombra opaca),
Olho-te no deslumbramento
De quem se banha
E se deslumbra
Em penumbra.
Poema da rotina,
Prodígio do bem-estar...
Eu, que donde vou, latino e desgrenhado,
Intenso, irregular,
Apenas sei a vibração e o desânimo
(O sol excessivo e a sombra opaca),
Olho-te no deslumbramento
De quem se banha
E se deslumbra
Em penumbra.
1 909
Rosemberg Cariry
Tambor de Criola
São Luiz. Luzir da lua.
Entre ruínas — fogueiras.
Os olhinhos de São Benedito
abençoando seus filhos,
tão pobrezinhos, tão simples,
que de dia até se matam
de trabalhar, de rezar,
mas de noite... deixa está!
São anjos belos, orixás,
são músculos e rebeldia,
batucando os tambores
que reacendem nos deuses
as luxúrias adormecidas
A lua bem que espia
e levanta a sua saia,
tecendo rendas nas águas
que se derramam na areia.
Sem vergonha, espia...
Os homens mais do que homens
são ritmo, fôlego, tesão,
entre as pernas o tambor,
nervo duro e inquieto,
descomunal em tamanho,
que se anuncia em batuque
virando pelo avesso
a face da outra face
do que é religião.
Matracas desesperadas
quebram os selos do pudor
para que os corpos se liberem
e urrem feito uma onça
nas cachoeiras do cio.
Entre ruínas — fogueiras.
Os olhinhos de São Benedito
abençoando seus filhos,
tão pobrezinhos, tão simples,
que de dia até se matam
de trabalhar, de rezar,
mas de noite... deixa está!
São anjos belos, orixás,
são músculos e rebeldia,
batucando os tambores
que reacendem nos deuses
as luxúrias adormecidas
A lua bem que espia
e levanta a sua saia,
tecendo rendas nas águas
que se derramam na areia.
Sem vergonha, espia...
Os homens mais do que homens
são ritmo, fôlego, tesão,
entre as pernas o tambor,
nervo duro e inquieto,
descomunal em tamanho,
que se anuncia em batuque
virando pelo avesso
a face da outra face
do que é religião.
Matracas desesperadas
quebram os selos do pudor
para que os corpos se liberem
e urrem feito uma onça
nas cachoeiras do cio.
1 322
Ricardo Gonçalves
O Batuque
Vagas constelações de pirilampos
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
1 059
Patrícia Moreira
Romantismo lítero-musical
O professor e pesquisador Aleilton Fonseca foi buscar nas páginas da literatura romântica do século XIX os elementos para compor o livro Enredo romântico, música ao fundo, no qual analisa a presença das manifestações lúdico-musicais na ficção urbana do Romantismo. Lançado pela editora Sette Letras, o livro foi elaborado a partir da tese de mestrado do autor, defendida na Universidade Federal da Paraíba, em 1992. O estudo se propõe a mostrar como o rendimento dos fatos musicais interferem no desenvolvimento das tramas romanescas e como os escritores da época representavam a vida musical com o intuito de valorizar determinados gêneros de origem européia como modelos ideais para a nossa cultura.
O estudo concentra-se na análise de obras de autores como Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e Manuel Antonio de Almeida, destacando a dicotomia entre música culta e música vulgar, presente no ambiente cultural da época e reproduzida na literatura. No século XIX, o Brasil se dividia entre a produção musical calcada nos padrões europeus e a que se desenvolvia nos meios populares sob a influência espontânea das tradições indígenas e, sobretudo, africanas. Os romances urbanos e de costumes de autores como Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, são ricos em referências às manifestações lúdico-musicais da burguesia imperial, enquanto Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, se volta para a representação das camadas mais pobres e, conseqüentemente, registra manifestações diferentes daquelas dos salões.
Manifestações lúdico-musicais
da burguesia
imperial
Existia uma
interrelação
entre os
gêneros
musicais.
Narrativa- "Almeida mostra que as manifestações populares eram colocadas no espaço da desordem social, incorporando à narrativa urbana os modelos populares desprezados pela cultura oficial e considerados vadiagem, malandragem, caso de polícia", revela Aleilton Fonseca. Memórias de um sargento de milícias mostra a atuação do Major Vidigal e seus granadeiros para acabar ou proibir festas e prender os seus participantes. Enredo romântico, música ao fundo, não se limita, no entanto, a simplesmente registrar as abordagens literárias das manifestações lúdico-musicais da época. O autor vai mais longe ao sustentar que, apesar do preconceito em relação às manifestações populares, existia uma interrelação entre os gêneros musicais.
Havia apropriação e certa adequação de gêneros de uma camada social por outra."Muitos músicos transitavam nos dois espaços, tocando a música certa nos lugares adequados, mas sempre aclimatando, adaptando alguma coisa", ilustra Aleilton Fonseca. Ele cita como exemplo a dança do lundu, que por muito tempo foi combatida, mas gerou o que se batizou de lundu-canção para piano, atendendo mais ao gosto da elite. A forte influência do modelo cultural europeu sobre a elite brasileira do século XIX, remontava, segundo o pesquisador, ao período colonial, sendo posteriormente reforçada pela chegada do rei Dom João VI, em 1808.
Com a vinda da corte portuguesa, o ambiente cultural de Lisboa, fortemente inspirado nas tendências ditadas pelos salões parisienses foi fielmente reproduzido no Brasil. "Dom João VI procurou, dentro do possível, reproduzir as condições culturais de Lisboa. Ele construíu um teatro lírico, criou a capela imperial, contratou a famosa Missão Artística para prover a corte brasileira de modelos a serem seguidos e reproduzidos", revela Aleiton Fonseca. Na tentativa de se aproximar da corte, os brasileiros mais abastados aderiram com facilidade à nova ordem cultural, fazendo com que o padrão trazido de Portugal passasse a ser reconhecido como o único correto e oficial, relegando as manifestações locais, de cunho popular, ao isolamento e à marginalidade. A dicotomia entre música culta e música "vulgar", enquanto referencial de classe, riqueza e poder, predominaria por todo o século XIX. Na literatura, a presença das manifestações lúdico-musicais ocorre enquanto elemento de contextualização. Os autores procuraram recriar nos romances o ambiente social da época. Enredo Romântico, música de fundo, além de desvendar o universo musical que marcou o século XIX pelo seu caráter interdisciplinar, oferece um amplo panorama histórico ao correlacionar literatura, cultura e sociedade.
(in A Tarde, Caderno Cultural, 11/01/97)
Leia obra poética de Aleiton Fonseca
O estudo concentra-se na análise de obras de autores como Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e Manuel Antonio de Almeida, destacando a dicotomia entre música culta e música vulgar, presente no ambiente cultural da época e reproduzida na literatura. No século XIX, o Brasil se dividia entre a produção musical calcada nos padrões europeus e a que se desenvolvia nos meios populares sob a influência espontânea das tradições indígenas e, sobretudo, africanas. Os romances urbanos e de costumes de autores como Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, são ricos em referências às manifestações lúdico-musicais da burguesia imperial, enquanto Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, se volta para a representação das camadas mais pobres e, conseqüentemente, registra manifestações diferentes daquelas dos salões.
Manifestações lúdico-musicais
da burguesia
imperial
Existia uma
interrelação
entre os
gêneros
musicais.
Narrativa- "Almeida mostra que as manifestações populares eram colocadas no espaço da desordem social, incorporando à narrativa urbana os modelos populares desprezados pela cultura oficial e considerados vadiagem, malandragem, caso de polícia", revela Aleilton Fonseca. Memórias de um sargento de milícias mostra a atuação do Major Vidigal e seus granadeiros para acabar ou proibir festas e prender os seus participantes. Enredo romântico, música ao fundo, não se limita, no entanto, a simplesmente registrar as abordagens literárias das manifestações lúdico-musicais da época. O autor vai mais longe ao sustentar que, apesar do preconceito em relação às manifestações populares, existia uma interrelação entre os gêneros musicais.
Havia apropriação e certa adequação de gêneros de uma camada social por outra."Muitos músicos transitavam nos dois espaços, tocando a música certa nos lugares adequados, mas sempre aclimatando, adaptando alguma coisa", ilustra Aleilton Fonseca. Ele cita como exemplo a dança do lundu, que por muito tempo foi combatida, mas gerou o que se batizou de lundu-canção para piano, atendendo mais ao gosto da elite. A forte influência do modelo cultural europeu sobre a elite brasileira do século XIX, remontava, segundo o pesquisador, ao período colonial, sendo posteriormente reforçada pela chegada do rei Dom João VI, em 1808.
Com a vinda da corte portuguesa, o ambiente cultural de Lisboa, fortemente inspirado nas tendências ditadas pelos salões parisienses foi fielmente reproduzido no Brasil. "Dom João VI procurou, dentro do possível, reproduzir as condições culturais de Lisboa. Ele construíu um teatro lírico, criou a capela imperial, contratou a famosa Missão Artística para prover a corte brasileira de modelos a serem seguidos e reproduzidos", revela Aleiton Fonseca. Na tentativa de se aproximar da corte, os brasileiros mais abastados aderiram com facilidade à nova ordem cultural, fazendo com que o padrão trazido de Portugal passasse a ser reconhecido como o único correto e oficial, relegando as manifestações locais, de cunho popular, ao isolamento e à marginalidade. A dicotomia entre música culta e música "vulgar", enquanto referencial de classe, riqueza e poder, predominaria por todo o século XIX. Na literatura, a presença das manifestações lúdico-musicais ocorre enquanto elemento de contextualização. Os autores procuraram recriar nos romances o ambiente social da época. Enredo Romântico, música de fundo, além de desvendar o universo musical que marcou o século XIX pelo seu caráter interdisciplinar, oferece um amplo panorama histórico ao correlacionar literatura, cultura e sociedade.
(in A Tarde, Caderno Cultural, 11/01/97)
Leia obra poética de Aleiton Fonseca
1 056
Júlio Maciel
Jacarecanga
Rebelde e forte, aqui, outrora se implantava
A taba indiana — aqui, onde a alma lua cheia,
Pródiga, a derramar em cachões a luz fiava,
— Agora a estes casais a fachada clareia.
Quanta vez trom de inúbia, entrechocar de clava
Não vibrou pelo azul que sobre mim se arqueia!
Praia! o tropel da tribo em correria brava
Quanta vez não sentiste a sacudir-te a areia!
E embora tu, Passado, a lenda antiga escondas,
Eu sei que o amor também floriu aqui: — no treno
Da aragem, no marulho eloqüente das ondas, —
Parece-me inda escuto, em meio à noite clara,
— O selvagem rumor dos beijos de Moreno
E as falas de paixão da meiga Tabajara!
A taba indiana — aqui, onde a alma lua cheia,
Pródiga, a derramar em cachões a luz fiava,
— Agora a estes casais a fachada clareia.
Quanta vez trom de inúbia, entrechocar de clava
Não vibrou pelo azul que sobre mim se arqueia!
Praia! o tropel da tribo em correria brava
Quanta vez não sentiste a sacudir-te a areia!
E embora tu, Passado, a lenda antiga escondas,
Eu sei que o amor também floriu aqui: — no treno
Da aragem, no marulho eloqüente das ondas, —
Parece-me inda escuto, em meio à noite clara,
— O selvagem rumor dos beijos de Moreno
E as falas de paixão da meiga Tabajara!
1 084
Hermes Vieira
Trovador da Roça
Eu sou fio do alto do sertão
Fui vaquêro e tombém fui caçadôr.
Na viola, chorando no meu peito,
No terrêro, ao luá, fui trovadô.
Muitos tôros bravio na caatinga
Com o aboio sereno eu dominei;
Muitos brabo e rebelde coração,
Na viola, ao luá, eu conquistei.
Muitos tigre valente, na floresta,
Abati cum certêra pontaria;
Muitas fera de saia de argudão
Dominei cum as minhas canturia.
Té qui um dia, caçando num forró,
Atirei bem no zói de meu afeto;
Desse tiro hoje vejo im meu redó
Quinze fio e noventa e nove neto.
Fui vaquêro e tombém fui caçadôr.
Na viola, chorando no meu peito,
No terrêro, ao luá, fui trovadô.
Muitos tôros bravio na caatinga
Com o aboio sereno eu dominei;
Muitos brabo e rebelde coração,
Na viola, ao luá, eu conquistei.
Muitos tigre valente, na floresta,
Abati cum certêra pontaria;
Muitas fera de saia de argudão
Dominei cum as minhas canturia.
Té qui um dia, caçando num forró,
Atirei bem no zói de meu afeto;
Desse tiro hoje vejo im meu redó
Quinze fio e noventa e nove neto.
1 065
Hélio Simões
Duas Cidades
Séculos caminharam sobre a pedra
O muro enegreceu.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
Guimarães é a pia batismal
e o castelo roqueiro.
Aqui nasceu Afonso, o príncipe, Primeiro
e ao designo de Deus que tudo impele
nasceu com ele
Portugal.
Séculos caminharam sobre a pedra
o muro enegreceu...
Brasília é o crisma. Novo
anseio de fé ardendo no planalto,
confirmação de um povo
no seu destino alto.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
O muro enegreceu.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
Guimarães é a pia batismal
e o castelo roqueiro.
Aqui nasceu Afonso, o príncipe, Primeiro
e ao designo de Deus que tudo impele
nasceu com ele
Portugal.
Séculos caminharam sobre a pedra
o muro enegreceu...
Brasília é o crisma. Novo
anseio de fé ardendo no planalto,
confirmação de um povo
no seu destino alto.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
887