Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Maria Isabel
A hora vazia
Onde as humildes palavras
Que ingenuamente disseste?
Onde os gestos dos teus braços
Nascidos para enlaçar?
Cansaste. O sol do deserto
Secou tua alma de fonte.
Morreu nos dedos do inútil
A tua frágil canção.
Não mais ouvirás soluços,
Não mais na noite deserta
Descobrirás desesperos.
Corpos virão sobre as ondas,
Diante dos teus olhos secos.
Houve uma voz nos teus lábios
Quente e viva. Quando foi?
Hoje a fadiga, hoje o sono.
Hoje, trágica e vazia,
A hora de contemplar.
Que ingenuamente disseste?
Onde os gestos dos teus braços
Nascidos para enlaçar?
Cansaste. O sol do deserto
Secou tua alma de fonte.
Morreu nos dedos do inútil
A tua frágil canção.
Não mais ouvirás soluços,
Não mais na noite deserta
Descobrirás desesperos.
Corpos virão sobre as ondas,
Diante dos teus olhos secos.
Houve uma voz nos teus lábios
Quente e viva. Quando foi?
Hoje a fadiga, hoje o sono.
Hoje, trágica e vazia,
A hora de contemplar.
794
Fernando Tavares Rodrigues
Construção
Construir-te
verso a verso
Tijolo a tijolo de saudade.
Palácio que supuz noutra cidade,
Conquista que sofreu um vento adverso.
Cristal que me cegou quando te quis,
Luxúria do teu corpo onde não estive.
E só faltou que tu fosses feliz
Nesse intervalo breve em que te tive....
verso a verso
Tijolo a tijolo de saudade.
Palácio que supuz noutra cidade,
Conquista que sofreu um vento adverso.
Cristal que me cegou quando te quis,
Luxúria do teu corpo onde não estive.
E só faltou que tu fosses feliz
Nesse intervalo breve em que te tive....
1 147
António Botto
Canções
Pedir
amparo a alguém é uma loucura.
Pedir amor,
Também nada resolve – e para quê?
O amor corre – e em seus próprios movimentos
Isola-se, e de tudo parece que descrê;
E quando vem dizer-nos que é verdade,
Vê-se a mentira
Em que ele a rir afirma o que não vê.
amparo a alguém é uma loucura.
Pedir amor,
Também nada resolve – e para quê?
O amor corre – e em seus próprios movimentos
Isola-se, e de tudo parece que descrê;
E quando vem dizer-nos que é verdade,
Vê-se a mentira
Em que ele a rir afirma o que não vê.
2 926
Angela Santos
Inércia
Como
onda que se tivesse desfeito
sem mais regressar à maré
olho-me…
estendida na praia em que me desfiz
Nem um desejo macula a limpidez
do vazio
sinto-me movimento mecânico
que algo anima,
mas será que vibra ?
Não sei porque se desfaz a gente
e se cansa em nós a vida
quando o sol está a pino
e é pleno Verão ainda.
onda que se tivesse desfeito
sem mais regressar à maré
olho-me…
estendida na praia em que me desfiz
Nem um desejo macula a limpidez
do vazio
sinto-me movimento mecânico
que algo anima,
mas será que vibra ?
Não sei porque se desfaz a gente
e se cansa em nós a vida
quando o sol está a pino
e é pleno Verão ainda.
1 412
Millôr Fernandes
Obstinação dos Outros
Deixamos
de beber
E em cada esquina
Abriram um novo bar.
Abandonamos o fumo;
Passam homens, crianças
E navios
A fumar.
A rua, como nunca, está cheia de mulheres
Jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.
de beber
E em cada esquina
Abriram um novo bar.
Abandonamos o fumo;
Passam homens, crianças
E navios
A fumar.
A rua, como nunca, está cheia de mulheres
Jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.
1 334
Regina Souza Vieira
Para Quando
Para quando o fim desta mania
De acreditar em sonhos acordados
Impossíveis?
Para quando a manhã de sol
Para quando o nunca
Seja ontem?
Para quando o amanhã
O despertar
Do sempre?
De acreditar em sonhos acordados
Impossíveis?
Para quando a manhã de sol
Para quando o nunca
Seja ontem?
Para quando o amanhã
O despertar
Do sempre?
893
Ana Cristina Cesar
Psicografia
Também eu
saio á revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo(não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de Ter visto.
saio á revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo(não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de Ter visto.
3 612
Hugo Pires
Milénio
Por dois mil calhaus subi,
Tropeçando nas suas arestas áridas.
Dois mil socalcos escavei,
Rasgando a terra com as minhas mãos.
Duas mil videiras plantei,
Regando seus pés com a minha esperança.
Dois mil frutos colhi,
E de seu sumo vinho fiz,
E em dois mil litros de desilusão,
Mergulhei enfim sem salvação.
Tropeçando nas suas arestas áridas.
Dois mil socalcos escavei,
Rasgando a terra com as minhas mãos.
Duas mil videiras plantei,
Regando seus pés com a minha esperança.
Dois mil frutos colhi,
E de seu sumo vinho fiz,
E em dois mil litros de desilusão,
Mergulhei enfim sem salvação.
1 071
Silvaney Paes
Sega
Sega
Pela manhã
Menor que ti
Me viu o Sol
Não teus olhos
E se rasgou a poesia da Noite
Passada
Mais não finda
Viva ainda
Apenas não lida
Passou
Rugiu
Mais não se viu
Fugiu
E de ti
Poesia
Apenas cega
Esdrúxula
Sem métrica
Silêncio e vela
De nova era
Do nascer já cega
E pôr saber já negas
Esse amar barrela
E te fazes apenas.
Pela manhã
Menor que ti
Me viu o Sol
Não teus olhos
E se rasgou a poesia da Noite
Passada
Mais não finda
Viva ainda
Apenas não lida
Passou
Rugiu
Mais não se viu
Fugiu
E de ti
Poesia
Apenas cega
Esdrúxula
Sem métrica
Silêncio e vela
De nova era
Do nascer já cega
E pôr saber já negas
Esse amar barrela
E te fazes apenas.
1 018
André Aquino
Em Construção
Ela anda
pela rua distraída
Não sabe que lá fora está perdida
Que não importa para onde vá
Já não existe mais saída.
Mora com um homem sabido
Que pensa que sabe tudo
Mas também está perdido
Quando ela pergunta, ele fica mudo.
Eles têm um filho de madeira
Para combinar com a mobília da sala
Ele chora porque quer mamadeira
Mas nem todo dia é sexta-feira
Eles têm uma filha de pano
Que corre pela casa o dia inteiro
Mas ela nunca fez parte de nenhum plano
Deveria ter escorrido junto com a água pelo ralo
E depois pelo cano
O amor deles é feito de papel
Ela parece ser inocente
Uma mulher como outra qualquer
Sem passado, sem futuro, vivendo no presente
Distante anos-luz da realidade.
Todos estão sempre cansados
Ele gosta de garotas mais novas
Como todos homens casados
Não se importa em ser ridículo
Querem apenas se sentir longe
Da sua morte e das suas covas.
As páginas continuam a ser viradas
Vidas perdidas e corações partidos
A história não tem fim
Está sempre em construção
pela rua distraída
Não sabe que lá fora está perdida
Que não importa para onde vá
Já não existe mais saída.
Mora com um homem sabido
Que pensa que sabe tudo
Mas também está perdido
Quando ela pergunta, ele fica mudo.
Eles têm um filho de madeira
Para combinar com a mobília da sala
Ele chora porque quer mamadeira
Mas nem todo dia é sexta-feira
Eles têm uma filha de pano
Que corre pela casa o dia inteiro
Mas ela nunca fez parte de nenhum plano
Deveria ter escorrido junto com a água pelo ralo
E depois pelo cano
O amor deles é feito de papel
Ela parece ser inocente
Uma mulher como outra qualquer
Sem passado, sem futuro, vivendo no presente
Distante anos-luz da realidade.
Todos estão sempre cansados
Ele gosta de garotas mais novas
Como todos homens casados
Não se importa em ser ridículo
Querem apenas se sentir longe
Da sua morte e das suas covas.
As páginas continuam a ser viradas
Vidas perdidas e corações partidos
A história não tem fim
Está sempre em construção
435
Susana Pestana
Espaços
As minhas
lágrimas partiram-se
No entendimento da vida.
Quebrou-se a inocência na minha alma.
Hoje vivo na angústia de ter o conhecimento
De nunca me ter sentido amada.
Estou mergulhada na fúria
De perceber o absurdo do desespero
Destes temporais da vida.
Subo suavemente esquecida
nas escadas amanhecidas
Sem sentir os instalados na minha vida.
lágrimas partiram-se
No entendimento da vida.
Quebrou-se a inocência na minha alma.
Hoje vivo na angústia de ter o conhecimento
De nunca me ter sentido amada.
Estou mergulhada na fúria
De perceber o absurdo do desespero
Destes temporais da vida.
Subo suavemente esquecida
nas escadas amanhecidas
Sem sentir os instalados na minha vida.
945
Mariana Ianelli
Nostálgico
Tornas
às festas passadas
Com o jeito de quem velou
E pretendeu à risca uma prece difícil.
O perigo te apaixona tanto
Que num ímpeto frio por mudanças
Tu te fazes rebelde querendo outras vidas.
E para quê...
Logo voltas a tuas saudades antigas,
A teu largo acervo de ossos.
Porque és o teu regresso,
Nas tuas buscas iludidas
E no teu desamor.
às festas passadas
Com o jeito de quem velou
E pretendeu à risca uma prece difícil.
O perigo te apaixona tanto
Que num ímpeto frio por mudanças
Tu te fazes rebelde querendo outras vidas.
E para quê...
Logo voltas a tuas saudades antigas,
A teu largo acervo de ossos.
Porque és o teu regresso,
Nas tuas buscas iludidas
E no teu desamor.
851
Reinaldo Ferreira
Epitáfio a um capricho morto
Amei
Não QUEM busquei,
Mas o que achei.
O mesmo acaso
Que nos cruzou,
Nos separou.
Assim
O fim
Estava em mim,
Túmulo e berço
Do sempre engano
Paronde vou.
Não QUEM busquei,
Mas o que achei.
O mesmo acaso
Que nos cruzou,
Nos separou.
Assim
O fim
Estava em mim,
Túmulo e berço
Do sempre engano
Paronde vou.
1 977
Reinaldo Ferreira
Olhos iguais, outro olhar
Olhos iguais, outro olhar,
Silêncios da mesma voz,
Memória vaga e lunar
Do sol que fôssemos nós...
Assim erramos incertos,
Juntos, distantes, cansados,
Mordendo o pó nos desertos
Onde houve relvas e prados.
E a Vida escoa-se, enquanto
O tempo, alheio à vontade,
Deslisa, remoto pranto
Duma tranquila orfandade.
Silêncios da mesma voz,
Memória vaga e lunar
Do sol que fôssemos nós...
Assim erramos incertos,
Juntos, distantes, cansados,
Mordendo o pó nos desertos
Onde houve relvas e prados.
E a Vida escoa-se, enquanto
O tempo, alheio à vontade,
Deslisa, remoto pranto
Duma tranquila orfandade.
1 822
V. de Araújo
Persuasão
Não venhas me dizer
que o amor é verde ou azul.
Quem disse que o amor tem cor?!
Deixa de ser besta, maria,
e verás que a fantasia
só vai te fazer chorar.
Desperta-te, abre os olhos,
cai na real, maria!
que o amor é verde ou azul.
Quem disse que o amor tem cor?!
Deixa de ser besta, maria,
e verás que a fantasia
só vai te fazer chorar.
Desperta-te, abre os olhos,
cai na real, maria!
852
Sebastião Corrêa
Se Assim Fosse
Se a dura sorte me apontasse, um dia,
Outro destino, a mim, outra ventura,
E me arrancasse desta vida escura,
Outra seria, então, minha alegria.
Se o coração de quem meus passos guia,
Compreendesse a extensão desta amargura,
Talvez sentisse a mesma desventura
Que às vezes sinto, em transes de agonia.
Se essa visão querida, que meus olhos
Viram, tivesse o coração humano,
Um coração que conhecesse o amor,
Certo, me não teria entre os abrolhos,
Nem eu padeceria o desengano,
No exílio escuro a que me trouxe a dor.
Outro destino, a mim, outra ventura,
E me arrancasse desta vida escura,
Outra seria, então, minha alegria.
Se o coração de quem meus passos guia,
Compreendesse a extensão desta amargura,
Talvez sentisse a mesma desventura
Que às vezes sinto, em transes de agonia.
Se essa visão querida, que meus olhos
Viram, tivesse o coração humano,
Um coração que conhecesse o amor,
Certo, me não teria entre os abrolhos,
Nem eu padeceria o desengano,
No exílio escuro a que me trouxe a dor.
734
Sânzio de Azevedo
Soneto
Já que buscas um sonho e não o alcanças,
pastor de enganos, cala a tua avena!
Foram-se todas as ovelha mansas
que conduzias na manhã serena...
Da tua terra fértil mas pequena
tirou-te um dia a sede das andanças!
Partiste, então; mas nessa idade amena
tangias um rebanho de esperanças!
Hoje, nas tardes tristes e vermelhas,
anda a apascentar outras ovelhas,
e estás perdido de intranqüilidades...
Buscas (não vês?) um bem que não existe;
e nem percebes que vagueias, triste,
conduzindo um rebanho de saudades...
pastor de enganos, cala a tua avena!
Foram-se todas as ovelha mansas
que conduzias na manhã serena...
Da tua terra fértil mas pequena
tirou-te um dia a sede das andanças!
Partiste, então; mas nessa idade amena
tangias um rebanho de esperanças!
Hoje, nas tardes tristes e vermelhas,
anda a apascentar outras ovelhas,
e estás perdido de intranqüilidades...
Buscas (não vês?) um bem que não existe;
e nem percebes que vagueias, triste,
conduzindo um rebanho de saudades...
1 125
Madi
Tudo Muda, Tudo Cansa
Tudo Muda, Tudo Cansa
Aos poucos,
os longos anos de amor tudo muda
Aos poucos,
também, tudo cansa
À conta-gotas,
lá se foi o que era doce
Aí, a cama fica estreita
Aí, você sonha em ter uma só para você
Daí, as noites de amor são só de vez em quando
Aos poucos,
os longos anos de amor tudo muda
Aos poucos,
também, tudo cansa
À conta-gotas,
lá se foi o que era doce
Aí, a cama fica estreita
Aí, você sonha em ter uma só para você
Daí, as noites de amor são só de vez em quando
869
Madi
Vai Embora
Vai Embora
Quando o amor vai embora
o coração aperta e fica de luto
Fica partido
Fica estreito
e dói
Na hora, os olhos quedam
E mesmo assim nada adianta,
nada impede, nada segura o amor
quando quer ir embora
O amor vai
e nunca mais volta
Foi cedo
Passada a dor,
olhos e coração ficam secos
Depois disso,
aprende-se a amar que é uma beleza
Quando o amor vai embora
o coração aperta e fica de luto
Fica partido
Fica estreito
e dói
Na hora, os olhos quedam
E mesmo assim nada adianta,
nada impede, nada segura o amor
quando quer ir embora
O amor vai
e nunca mais volta
Foi cedo
Passada a dor,
olhos e coração ficam secos
Depois disso,
aprende-se a amar que é uma beleza
899
Madi
O Passar das Horas
O Passar das Horas
São 23h55 de um sábado 28 de dezembro de um ano qualquer
O meu amor por ti nasceu num ano bissexto
Há horas você foi embora
e para me distrair fui à livraria comprar poemas
Os últimos de Drummond
Há horas você foi embora
e não tem poema que me console
Tenho andado frágil,
sensível,
chorando à toa,
mostrando o coração
A minha versão atual não é moderna
Visto a roupagem do desgaste
e, sem fazer questão do meu resgate, vou ainda mais longe:
me ofereço como quem oferece rosas num mercado ambulante,
sem promover contra você rebelião ou levante
São 23h55 de um sábado 28 de dezembro de um ano qualquer
O meu amor por ti nasceu num ano bissexto
Há horas você foi embora
e para me distrair fui à livraria comprar poemas
Os últimos de Drummond
Há horas você foi embora
e não tem poema que me console
Tenho andado frágil,
sensível,
chorando à toa,
mostrando o coração
A minha versão atual não é moderna
Visto a roupagem do desgaste
e, sem fazer questão do meu resgate, vou ainda mais longe:
me ofereço como quem oferece rosas num mercado ambulante,
sem promover contra você rebelião ou levante
899
Rogério Bessa
Do Canto VI:
Ao Redor do Homem:
A Ilha Busca da Síntese, Sua Dialética
diariamente o homem
caminha para a certeza,
quando eventualidades
não o tomem de surpresa.
homem que faz da vida
o seu surreal panar
não se nutre de ambrosia,
mas de carrapicho e urtiga.
o homem vive a sua viagem,
faz seu sonho desilusão,
melodia suas exéquias
na ânsia busca de pão.
A Ilha Busca da Síntese, Sua Dialética
diariamente o homem
caminha para a certeza,
quando eventualidades
não o tomem de surpresa.
homem que faz da vida
o seu surreal panar
não se nutre de ambrosia,
mas de carrapicho e urtiga.
o homem vive a sua viagem,
faz seu sonho desilusão,
melodia suas exéquias
na ânsia busca de pão.
863
João Quental
Aurora
"vôo sem pássaro dentro"
(Adolfo Casais Monteiro)
Não há dinheiro, vai-te embora, porque o telefone
não toca, alta madrugada? sei acordaria a famí1ia
que cavou um buraco na noite e não pode ser
incomodada mesmo que às vezes a fumaça histérica do
cigarro torne o nosso sono rancoroso dúbio estivemos
a conversar não adiantou nada novidades?
Não há dinheiro pois não venha quando quiser
amo-te com decepção nem tive o que olhei
em teus olhos resgatados, vírgulas para os amores,
assim não virão roer todos ao mesmo tempo
e o que peço é alguma coisa o que é eu não sei.
Não há dinheiro se o antes foi velho e o
depois pacífica compreensão difícil conhecer-te
os desejos de cegueira em cegueira permaneço
inocente esta raiva contra quem perguntaria
estamos aqui mas a vigília cansa dirige?
Vai, adormece logo, quantas vezes será
preciso dizer-te não sairei mais estou feliz
vigiarei ainda a porta a tranca não foi esquecida
desaconselho, qualquer, rancores, dorme, anos
gastei esperando, reuniu meus papéis velhos.
Vai, onde puseste as mãos nasceu logo
um segredo indócil quantas tardes lerás
essas bobagens boa literatura aqui no
canto da estante deves tentar o mundo
se vinga a gratidão teu prazer não é o meu.
Vai, ver-se doido é um despropósito e
não chegaremos a nos divertir sempre alguém
aparece sem dúvida cansaço homenagens constantes
ao mesmo deus assíduo irei só mas espero
concluir algo nem que seja fim nem que durma.
Não há noite que não acabe em
um final nada impede os finais a
escuridão é prévia mas não interessa
povoamos, cálculo puro, de civilizadas estrelas
os olhos desse pássaro morto em viagem.
(1989)
(Adolfo Casais Monteiro)
Não há dinheiro, vai-te embora, porque o telefone
não toca, alta madrugada? sei acordaria a famí1ia
que cavou um buraco na noite e não pode ser
incomodada mesmo que às vezes a fumaça histérica do
cigarro torne o nosso sono rancoroso dúbio estivemos
a conversar não adiantou nada novidades?
Não há dinheiro pois não venha quando quiser
amo-te com decepção nem tive o que olhei
em teus olhos resgatados, vírgulas para os amores,
assim não virão roer todos ao mesmo tempo
e o que peço é alguma coisa o que é eu não sei.
Não há dinheiro se o antes foi velho e o
depois pacífica compreensão difícil conhecer-te
os desejos de cegueira em cegueira permaneço
inocente esta raiva contra quem perguntaria
estamos aqui mas a vigília cansa dirige?
Vai, adormece logo, quantas vezes será
preciso dizer-te não sairei mais estou feliz
vigiarei ainda a porta a tranca não foi esquecida
desaconselho, qualquer, rancores, dorme, anos
gastei esperando, reuniu meus papéis velhos.
Vai, onde puseste as mãos nasceu logo
um segredo indócil quantas tardes lerás
essas bobagens boa literatura aqui no
canto da estante deves tentar o mundo
se vinga a gratidão teu prazer não é o meu.
Vai, ver-se doido é um despropósito e
não chegaremos a nos divertir sempre alguém
aparece sem dúvida cansaço homenagens constantes
ao mesmo deus assíduo irei só mas espero
concluir algo nem que seja fim nem que durma.
Não há noite que não acabe em
um final nada impede os finais a
escuridão é prévia mas não interessa
povoamos, cálculo puro, de civilizadas estrelas
os olhos desse pássaro morto em viagem.
(1989)
788
João Luiz Pacheco Mendes
Reversão de Expectativa
Você me deixou com trauma,
E um filme pro Brian De Palma.
Bato na cama,
rolam em flash-back
cenas daquela transa
em que estávamos de pileque.
Ou risco isto da lembrança,
ou me arrisco numa vingança.
Esboço um plano seqüência noir:
eu vestida para matar,
dedo no gatilho,
fecho os olhos e disparo.
Mas antes de ouvir o tiro
me dá um estalo.
Entrego então meu único vintém
para alguém
fazer um haver outro final
(de repente, um musical...):
você voltando pra mim
sorrindo beijos. FADE IN.
E um filme pro Brian De Palma.
Bato na cama,
rolam em flash-back
cenas daquela transa
em que estávamos de pileque.
Ou risco isto da lembrança,
ou me arrisco numa vingança.
Esboço um plano seqüência noir:
eu vestida para matar,
dedo no gatilho,
fecho os olhos e disparo.
Mas antes de ouvir o tiro
me dá um estalo.
Entrego então meu único vintém
para alguém
fazer um haver outro final
(de repente, um musical...):
você voltando pra mim
sorrindo beijos. FADE IN.
966
Heitor Lima
Cinzas
A última brasa ardeu na cinza adusta:
Tudo passou, tudo se fez em poeira...
E na minha alma, que o abandono assusta,
Morre a luz da esperança derradeira.
O amor mais casto, a aspiração mais justa
Têm a desilusão para fronteira...
Um momento de sonho às vezes custa
O sacrifício da existência inteira!
Chama efêmera, o amor! Baldado surto,
A glória! Ah! coração mesquinho e raso...
Ah! pensamento presumido e curto...
E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,
— Tudo se perderá no mesmo ocaso
E se confundirá na mesma ruína.
Tudo passou, tudo se fez em poeira...
E na minha alma, que o abandono assusta,
Morre a luz da esperança derradeira.
O amor mais casto, a aspiração mais justa
Têm a desilusão para fronteira...
Um momento de sonho às vezes custa
O sacrifício da existência inteira!
Chama efêmera, o amor! Baldado surto,
A glória! Ah! coração mesquinho e raso...
Ah! pensamento presumido e curto...
E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,
— Tudo se perderá no mesmo ocaso
E se confundirá na mesma ruína.
1 010