Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Antônio Barreto
Por Motivo de Mudança
Oferece-se
em liquidação
e por necessária deposição de armas
o cheiro absurdo das máquinas
nenhuma fonte
nenhum vôo
de ave livre sobre as cidades
Oferece-se
a preços módicos
e absoluta falta de outros motivos
o carbono das noites
que foram escritas no peito
onde alguém se esqueceu
de ficar
O abandono de velhas músicas
um álbum de fotografias
um dicionário insonte
e uma folha em branco
Por não ter mais o que malhar
oferece-se
apenas o carvão das oficinas
e um coração que já não molda
o aço
nem mais rebate
nas bigornas
Oferece-se, enfim, por motivo de mudança,
a gaiola das metáforas
o poleiro das imagens
e a porta das palavras
(a chave escondida no fundo do espelho)
E por último, por falta de endereço,
— o poeta mudou de ramo —
oferece-se
dez musas mal cantadas
o pistilo dos deuses
o alçapão dos demônios
e o alpiste dos anjos.
In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.33-34. Poema integrante da série Revelações do Abismo
em liquidação
e por necessária deposição de armas
o cheiro absurdo das máquinas
nenhuma fonte
nenhum vôo
de ave livre sobre as cidades
Oferece-se
a preços módicos
e absoluta falta de outros motivos
o carbono das noites
que foram escritas no peito
onde alguém se esqueceu
de ficar
O abandono de velhas músicas
um álbum de fotografias
um dicionário insonte
e uma folha em branco
Por não ter mais o que malhar
oferece-se
apenas o carvão das oficinas
e um coração que já não molda
o aço
nem mais rebate
nas bigornas
Oferece-se, enfim, por motivo de mudança,
a gaiola das metáforas
o poleiro das imagens
e a porta das palavras
(a chave escondida no fundo do espelho)
E por último, por falta de endereço,
— o poeta mudou de ramo —
oferece-se
dez musas mal cantadas
o pistilo dos deuses
o alçapão dos demônios
e o alpiste dos anjos.
In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.33-34. Poema integrante da série Revelações do Abismo
1 344
Edgar Allan Poe
Bridal Ballad
The ring is on my hand,
And the wreath is on my brow;
Satin and jewels grand
Are all at my command,
And many a rood of land
And I am happy now.
And my lord he loves me well;
But, when first he breathed his vow,
I felt my bosom swell—
And the voice seemed his who fell
For the words rang as a knell,
In the battle down the dell,
And who is happy now.
But he spoke to re-assure me,
And he kissed my pallid brow,
While a reverie came o'er me,
And to the church-yard bore me,
And I sighed to him before me,
"Oh, I am happy now!"
And thus the words were spoken,
And this the plighted vow,
And, though my faith be broken,
And, though my heart be broken,
Behold the golden token
That proves me happy now!
Would God I could awaken!
For I dream I know not how!
And my soul is sorely shaken
Lest an evil step be taken,—--
Lest the dead who is forsaken
May not be happy now.
1837
And the wreath is on my brow;
Satin and jewels grand
Are all at my command,
And many a rood of land
And I am happy now.
And my lord he loves me well;
But, when first he breathed his vow,
I felt my bosom swell—
And the voice seemed his who fell
For the words rang as a knell,
In the battle down the dell,
And who is happy now.
But he spoke to re-assure me,
And he kissed my pallid brow,
While a reverie came o'er me,
And to the church-yard bore me,
And I sighed to him before me,
"Oh, I am happy now!"
And thus the words were spoken,
And this the plighted vow,
And, though my faith be broken,
And, though my heart be broken,
Behold the golden token
That proves me happy now!
Would God I could awaken!
For I dream I know not how!
And my soul is sorely shaken
Lest an evil step be taken,—--
Lest the dead who is forsaken
May not be happy now.
1837
1 469
Fernando Pessoa
Quarta: D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL
Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;
Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;
Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.
5 473
Edgar Allan Poe
Song
I saw thee on thy bridal day —
When a burning blush came o'er thee,
Though happiness around thee lay,
The world all love before thee:
And in thine eye a kindling light
(Whatever it might be)
Was all on Earth my aching sight
Of Loveliness could see.
That blush, perhaps, was maiden shame —
As such it well may pass —
Though its glow hath raised a fiercer flame
In the breast of him, alas!
Who saw thee on that bridal day,
When that deep blush would come o'er thee,
Though happiness around thee lay,
The world all love before thee.
1845
When a burning blush came o'er thee,
Though happiness around thee lay,
The world all love before thee:
And in thine eye a kindling light
(Whatever it might be)
Was all on Earth my aching sight
Of Loveliness could see.
That blush, perhaps, was maiden shame —
As such it well may pass —
Though its glow hath raised a fiercer flame
In the breast of him, alas!
Who saw thee on that bridal day,
When that deep blush would come o'er thee,
Though happiness around thee lay,
The world all love before thee.
1845
1 231
Edgar Allan Poe
To M
O! I care not that my earthly lot
Hath little of Earth in it,
That years of love have been forgot
In the fever of a minute:
I heed not that the desolate
Are happier, sweet, than I,
But that you meddle with my fate
Who am a passer by.
It is not that my founts of bliss
Are gushing — strange! with tears—
Or that the thrill of a single kiss
Hath palsied many years—
'Tis not that the flowers of twenty springs
Which have wither'd as they rose
Lie dead on my heart-strings
With the weight of an age of snows.
Not that the grass— O! may it thrive!
On my grave is growing or grown—
But that, while I am dead yet alive
I cannot be, lady, alone.
1828
Hath little of Earth in it,
That years of love have been forgot
In the fever of a minute:
I heed not that the desolate
Are happier, sweet, than I,
But that you meddle with my fate
Who am a passer by.
It is not that my founts of bliss
Are gushing — strange! with tears—
Or that the thrill of a single kiss
Hath palsied many years—
'Tis not that the flowers of twenty springs
Which have wither'd as they rose
Lie dead on my heart-strings
With the weight of an age of snows.
Not that the grass— O! may it thrive!
On my grave is growing or grown—
But that, while I am dead yet alive
I cannot be, lady, alone.
1828
1 164
Paulo Leminski
quatro dias sem te ver
quatro dias sem te ver
e não mudaste nada
falta açúcar na limonada
me perdi da minha namorada
nadei nadei e não dei em nada
sempre o mesmo poeta de bosta
perdendo tempo com a humanidade
e não mudaste nada
falta açúcar na limonada
me perdi da minha namorada
nadei nadei e não dei em nada
sempre o mesmo poeta de bosta
perdendo tempo com a humanidade
3 158
Cruz e Sousa
VÃO ARREBATAMENTO
Últimos Sonetos
Partes um dia das Curiosidades
do teu ser singular, partes em busca
de almas irmãs, cujo esplendor ofusca
as celestes, divinas claridades.
Rasgas terras e céus, imensidades,
dos perigos da Vida a vaga brusca,
queima-te o sol que na Amplidão corusca
e consola-te a lua das saudades.
Andas por toda a parte, em toda a parte
a sedução das almas a falar-te,
como da Terra luminosos marcos.
E a sorrir e a gemer e soluçando
ah! sempre em busca de almas vais andando
mas em vez delas encontrando charcos!
Partes um dia das Curiosidades
do teu ser singular, partes em busca
de almas irmãs, cujo esplendor ofusca
as celestes, divinas claridades.
Rasgas terras e céus, imensidades,
dos perigos da Vida a vaga brusca,
queima-te o sol que na Amplidão corusca
e consola-te a lua das saudades.
Andas por toda a parte, em toda a parte
a sedução das almas a falar-te,
como da Terra luminosos marcos.
E a sorrir e a gemer e soluçando
ah! sempre em busca de almas vais andando
mas em vez delas encontrando charcos!
1 380
Álvares de Azevedo
ESPERANÇAS
Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte
Oh! si elle m'eût aimé...
ALFRED DE VIGNY, Chatterton
Se a ilusão de minh'alma foi mentida
E, leviana, da árvore da vida,
As flores desbotei...
Se por sonhos do amor de uma donzela
Imolei meu porvir e o ser por ela
Em prantos esgotei...
Se a alma consumi na dor que mata
E banhei de uma lágrima insensata
A última esperança,
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como dos mares pela noite infinda
A estrela da bonança!
Como nas folhas do Missal do templo
Os mistérios de Deus em ti contemplo
E na tu'alma os sinto!
Às vezes, delirante, se eu maldigo
As esperanças que sonhei contigo,
Perdoa-me, que minto!
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como do peito a aspiração infinda
Que me influi o viver...
E como a nuvem de azulado incenso...
Como eu amo esse afeto único, imenso
Que me fará morrer!
Rompeste a alva túnica luzente
Que eu doirava por ti de amor demente
E aromei de abusões...
Deste-me em troco lágrimas aspérrimas...
Ah! que morreram a sangrar misérrimas
As minhas ilusões!
Nos encantos das fadas da ventura
Podes dormir ao sol da formosura
Sempre bela e feliz!
Irmã dos anjos, sonharei contigo:
A alma a quem negaste o último abrigo
Chora... não te maldiz!
Chora e sonha e espera: a negra sina
Talvez no céu se apague em purpurina
Alvorada de amor...
E eu acorde no céu num teu abraço
E repouse tremendo em teu regaço
Teu pobre sonhador!
Primeira Parte
Oh! si elle m'eût aimé...
ALFRED DE VIGNY, Chatterton
Se a ilusão de minh'alma foi mentida
E, leviana, da árvore da vida,
As flores desbotei...
Se por sonhos do amor de uma donzela
Imolei meu porvir e o ser por ela
Em prantos esgotei...
Se a alma consumi na dor que mata
E banhei de uma lágrima insensata
A última esperança,
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como dos mares pela noite infinda
A estrela da bonança!
Como nas folhas do Missal do templo
Os mistérios de Deus em ti contemplo
E na tu'alma os sinto!
Às vezes, delirante, se eu maldigo
As esperanças que sonhei contigo,
Perdoa-me, que minto!
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como do peito a aspiração infinda
Que me influi o viver...
E como a nuvem de azulado incenso...
Como eu amo esse afeto único, imenso
Que me fará morrer!
Rompeste a alva túnica luzente
Que eu doirava por ti de amor demente
E aromei de abusões...
Deste-me em troco lágrimas aspérrimas...
Ah! que morreram a sangrar misérrimas
As minhas ilusões!
Nos encantos das fadas da ventura
Podes dormir ao sol da formosura
Sempre bela e feliz!
Irmã dos anjos, sonharei contigo:
A alma a quem negaste o último abrigo
Chora... não te maldiz!
Chora e sonha e espera: a negra sina
Talvez no céu se apague em purpurina
Alvorada de amor...
E eu acorde no céu num teu abraço
E repouse tremendo em teu regaço
Teu pobre sonhador!
2 081
Felipe Larson
A CILADA
Não diga nada pra mudar a situação
É uma cilada sob a minha condição
O seu defeito, eu mostro a solução
O que tem feito é complicação
Eu dou carrinho
Eu te corrijo
Eu te viro do avesso
Eu te dou abrigo
Não vá pensar
Que isso é compaixão
Não vá errar
Pra jogar tudo fora então
Não vem julgar
O meu coração
E me mostrar
Que meu amor foi em vão
É uma cilada sob a minha condição
O seu defeito, eu mostro a solução
O que tem feito é complicação
Eu dou carrinho
Eu te corrijo
Eu te viro do avesso
Eu te dou abrigo
Não vá pensar
Que isso é compaixão
Não vá errar
Pra jogar tudo fora então
Não vem julgar
O meu coração
E me mostrar
Que meu amor foi em vão
997
Luís Vianna
RECEITUÁRIO ARCAICO
Sabes o que é um filtro?
Uma beberagem certa
Para este amor indeciso
Ver se desperta.
Tentei macumbaria,
Reza certa;
Para ver se a magia
Te cerca.
Nada adiantou.
Estais com outro.
Mas eu estou feliz;
Tua felicidade me vale ouro.
06/07/1998
Uma beberagem certa
Para este amor indeciso
Ver se desperta.
Tentei macumbaria,
Reza certa;
Para ver se a magia
Te cerca.
Nada adiantou.
Estais com outro.
Mas eu estou feliz;
Tua felicidade me vale ouro.
06/07/1998
839
Felipe Larson
I´M GOING DOWN
Eu quero ter, alguém pra mim
Ai vem você e pisa em mim
Eu não tô legal
O nosso prazer chegou ao fim
Difícil dizer, mas espero teu sim
Isso é tão normal
Mas quando tudo mudar
Você vai notar
Que eu to ficando mal
Quando a chuva chegar
E o tempo passar
I´m going down!
Por sua causa, no que me meti
Não tenho alma, pois a vendi
Eu não fiz por mal
Mas quando tudo mudar
Você vai notar
Eu to ficando mal
Mas quando tudo sumir
A estrela cair
Eu vou ficar legal
Ai vem você e pisa em mim
Eu não tô legal
O nosso prazer chegou ao fim
Difícil dizer, mas espero teu sim
Isso é tão normal
Mas quando tudo mudar
Você vai notar
Que eu to ficando mal
Quando a chuva chegar
E o tempo passar
I´m going down!
Por sua causa, no que me meti
Não tenho alma, pois a vendi
Eu não fiz por mal
Mas quando tudo mudar
Você vai notar
Eu to ficando mal
Mas quando tudo sumir
A estrela cair
Eu vou ficar legal
767
Felipe Vianna
RIO CORRENTE
Marília, Marília,
Meu primeiro amor,
Wagner assim me questionou:
- Por que deixaste o teu amor?
Se eu fosse tu,
Casava com ela.
Respondi-lhe sem pestanejo:
- Se eu fosse eu,
Também casaria com ela, mas,
Ela não é mais ela.
25/05/2001
Meu primeiro amor,
Wagner assim me questionou:
- Por que deixaste o teu amor?
Se eu fosse tu,
Casava com ela.
Respondi-lhe sem pestanejo:
- Se eu fosse eu,
Também casaria com ela, mas,
Ela não é mais ela.
25/05/2001
660
Felipe Larson
BELA ELÉTRICA APRENDIZ
O teu sorriso
O teu destino
Me diz com não te amar?
O teu segredo?
Teve algum beijo?
Me diz como não te desejar?
Te dei a rosa
Te dei a vida
Você não soube aproveitar
Agora chora
Não vejo a hora
De isso tudo terminar
Agora liga
Nem desperdiça
Solta a verdade no ar
Mas não tem volta
Vê se você se toca
Pra depois não se machucar
O teu destino
Me diz com não te amar?
O teu segredo?
Teve algum beijo?
Me diz como não te desejar?
Te dei a rosa
Te dei a vida
Você não soube aproveitar
Agora chora
Não vejo a hora
De isso tudo terminar
Agora liga
Nem desperdiça
Solta a verdade no ar
Mas não tem volta
Vê se você se toca
Pra depois não se machucar
1 007
Felipe Larson
GAROTA DE PROMESSA
Não me faça promessas
Que não irá cumprir
Eu não entro mais nessa
E depois partir
Já estive em seu mundo
De pura ilusão
Que me deixou confuso
E sem direção
Não me ligue mais
Nem chame meu nome
Já me machuquei de mais
Toda vez que some
Porque tem que ser assim
É o que quero saber
Você gosta de mim?
Fingiu não entender
Mas venha e responda
A pergunta que faço
Não, não me role
E nem me faz de gato e sapato
Que não irá cumprir
Eu não entro mais nessa
E depois partir
Já estive em seu mundo
De pura ilusão
Que me deixou confuso
E sem direção
Não me ligue mais
Nem chame meu nome
Já me machuquei de mais
Toda vez que some
Porque tem que ser assim
É o que quero saber
Você gosta de mim?
Fingiu não entender
Mas venha e responda
A pergunta que faço
Não, não me role
E nem me faz de gato e sapato
635
Homero Exposito
Laranjeira em flor
Era mais branda que a água
que a água branda
Era mais fresca que o rio,
laranjeira em flor
E nessa rua de estio,
rua perdida,
deixou um pedaço de vida
e se marchou
Primeiro há que saber sofrer,
depois amar, depois partir
e ao fim andar sem pensamento
Perfume de laranjeira em flor,
promessas vãs de um amor
que se escaparam no vento.
Depois, que importa do depois
Toda minha vida é o ontem
que me detém no passado
Eterna e velha juventude
que me há deixado acovardado
como um pássaro sem luz.
Que lhe haverão feito minhas mãos?
Que lhe haverão feito,
para me deixar no peito
tanta dor?
Dor de velho arvoredo
canção de esquina,
com um pedaço de vida,
laranjeira em flor
que a água branda
Era mais fresca que o rio,
laranjeira em flor
E nessa rua de estio,
rua perdida,
deixou um pedaço de vida
e se marchou
Primeiro há que saber sofrer,
depois amar, depois partir
e ao fim andar sem pensamento
Perfume de laranjeira em flor,
promessas vãs de um amor
que se escaparam no vento.
Depois, que importa do depois
Toda minha vida é o ontem
que me detém no passado
Eterna e velha juventude
que me há deixado acovardado
como um pássaro sem luz.
Que lhe haverão feito minhas mãos?
Que lhe haverão feito,
para me deixar no peito
tanta dor?
Dor de velho arvoredo
canção de esquina,
com um pedaço de vida,
laranjeira em flor
1 064
Juana de Ibarbourou
Implacável
E te dei o cheiro
De todas minhas dálias e narcos em flor.
E te dei o tesouro
Das fundas minas de meus sonhos de ouro.
E te dei mel,
Do favo moreno que finge minha pele.
E tudo te dei!
E como uma fonte generosa e viva para tua alma fui.
E tu, deus de pedra
Entre cujas mãos nem a hera cresce;
E tu deus de ferro
Ante cujas plantas velei como um cachorro,
Desdenhaste o ouro, o mel e o cheiro.
E agora retornas, mendigo de amor!
A buscar as dálias, a implorar o ouro,
A pedir de novo todo aquele tesouro!
Ouve, mendigo:
Agora que tu queres é que eu não quero,
Se o roseiral floresce,
É já para outro que em casulo cresce.
Vá embora, deus de pedra,
Sem fontes, sem dálias, sem mel, sem hera
Igual que uma estátua,
A quem Deus baixara do pedestal, por vaidade.
Vá embora, deus de ferro!
Que junto a outras plantas se há estendido o cachorro!
De todas minhas dálias e narcos em flor.
E te dei o tesouro
Das fundas minas de meus sonhos de ouro.
E te dei mel,
Do favo moreno que finge minha pele.
E tudo te dei!
E como uma fonte generosa e viva para tua alma fui.
E tu, deus de pedra
Entre cujas mãos nem a hera cresce;
E tu deus de ferro
Ante cujas plantas velei como um cachorro,
Desdenhaste o ouro, o mel e o cheiro.
E agora retornas, mendigo de amor!
A buscar as dálias, a implorar o ouro,
A pedir de novo todo aquele tesouro!
Ouve, mendigo:
Agora que tu queres é que eu não quero,
Se o roseiral floresce,
É já para outro que em casulo cresce.
Vá embora, deus de pedra,
Sem fontes, sem dálias, sem mel, sem hera
Igual que uma estátua,
A quem Deus baixara do pedestal, por vaidade.
Vá embora, deus de ferro!
Que junto a outras plantas se há estendido o cachorro!
1 321
Alfonsina Storni
Dorme tranqüilo
Falaste a palavra que enamora
meus ouvidos. Já esqueceste? Bom.
Dorme tranqüilo, deve estar sereno
e charmoso o teu rosto a toda hora.
Quando encanta a boca sedutora
deve ser fresca, seu dizer ameno;
Para teu ofício de amante não é bom
o rosto ardido de quem muito chora.
Reclamam-te destinos mais gloriosos
que o de levar, entre os negros poços
das olheiras, o olhar em duelo.
Cobre de belas vítimas o solo!
Mais dano ao mundo fez a espada fátua
de algum bárbaro rei e tem estátua.
meus ouvidos. Já esqueceste? Bom.
Dorme tranqüilo, deve estar sereno
e charmoso o teu rosto a toda hora.
Quando encanta a boca sedutora
deve ser fresca, seu dizer ameno;
Para teu ofício de amante não é bom
o rosto ardido de quem muito chora.
Reclamam-te destinos mais gloriosos
que o de levar, entre os negros poços
das olheiras, o olhar em duelo.
Cobre de belas vítimas o solo!
Mais dano ao mundo fez a espada fátua
de algum bárbaro rei e tem estátua.
918
Alfonsina Storni
O Engano
Sou tua, Deus sabe porque, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.
Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.
Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator dono do papel.
Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.
Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.
Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator dono do papel.
Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.
1 515
Cida Villela
Decepção
Suave, serenamente,
Eu hoje acordei poesia.
Passei o meu dia versando você,
Olhava em seus olhos,
Distantes dos meus,
E a cada olhar,
Por demais atento,
Brotavam, em pensamento,
Versos que seriam seus.
Então desejei amar você.
Juntar palavras a te definir.
Mas antes que eu conseguisse
Definir-te em versos,
Com um simples gesto,
Mero falar,
Conseguiste de súbito
Meus versos quebrar
Eu hoje acordei poesia.
Passei o meu dia versando você,
Olhava em seus olhos,
Distantes dos meus,
E a cada olhar,
Por demais atento,
Brotavam, em pensamento,
Versos que seriam seus.
Então desejei amar você.
Juntar palavras a te definir.
Mas antes que eu conseguisse
Definir-te em versos,
Com um simples gesto,
Mero falar,
Conseguiste de súbito
Meus versos quebrar
1 144
Gisele Mazzonetto
Doce amargura
Amor bandido
Tempo perdido
Selva de pedra
Noites sem fim
Amo você e sempre foi assim
O amor no meu peito
Nunca vai ter fim
Você me adora
E me devora
E eu no meu canto
Espantando o pranto
Vivo aguardando o grande fim
Tempo perdido
Selva de pedra
Noites sem fim
Amo você e sempre foi assim
O amor no meu peito
Nunca vai ter fim
Você me adora
E me devora
E eu no meu canto
Espantando o pranto
Vivo aguardando o grande fim
809
Irene Gruss
Queridos pés
Teus queridos pés me fazem sofrer
teu grande pescoço e sua nuca inteligente
tuas orelhas
Todo teu maldito corpo
Todos seus gestos malditos e teus papéis
teu lenço desesperado e enorme
todo rasgado e perdido
Teus queridos pés que não amo
que foram embora de mim.
teu grande pescoço e sua nuca inteligente
tuas orelhas
Todo teu maldito corpo
Todos seus gestos malditos e teus papéis
teu lenço desesperado e enorme
todo rasgado e perdido
Teus queridos pés que não amo
que foram embora de mim.
475
Maysa
Ouça
Ouça, vá viver a sua vida com outro bem
Hoje eu já cansei de pra você não ser ninguém
O passado não foi o bastante para lhe compreender
Que o futuro seria bem grande só eu e você
Mas quando a lembrança
Como você for morar
E bem baixinho
De saudade você chorar
Vai lembrar que um dia existiu
Um alguém que só carinho pediu
E você fez questão de não dar
Fez questão de negar
Hoje eu já cansei de pra você não ser ninguém
O passado não foi o bastante para lhe compreender
Que o futuro seria bem grande só eu e você
Mas quando a lembrança
Como você for morar
E bem baixinho
De saudade você chorar
Vai lembrar que um dia existiu
Um alguém que só carinho pediu
E você fez questão de não dar
Fez questão de negar
1 071
Luiza Amélia de Queiroz
O homem não ama
Jamais o seu peito mais duro que o aço,
Palpita a não ser a louca ambição.
Supõe-se - orgulhoso - que é soberano,
Que todas as belas vassalas lhe são!
Mais falso que a brisa que as flores bafeja,
Se mil forem belas... a mil finge amar...
Assim um já disse, e assim fazem todos,
Embora não queiram jamais confessar,
Cruéis, como Nero, são todos os homens!
Ateiam as chamas de ardente paixão,
Depois... observam, sorrindo, os estragos...
E dizem, cobardes! que têm coração!!
(De Flores Incultas, 1875)
1 476