Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Antero de Quental
Voz do outono
Ouve tu, meu cansado coracao,
O que te diz a voz da Natureza:
- Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em asperrima solidao,
Ter gemido, ainda infante, sobre o chao
Frio e cruel da mais cruel devesa,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berco da ilusao!
Mais valera a tua alma visionaria,
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba varia,
(Sem ver uma so flor das mil, que amaste,)
Com odio e raiva e dor - que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!> -
O que te diz a voz da Natureza:
- Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em asperrima solidao,
Ter gemido, ainda infante, sobre o chao
Frio e cruel da mais cruel devesa,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berco da ilusao!
Mais valera a tua alma visionaria,
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba varia,
(Sem ver uma so flor das mil, que amaste,)
Com odio e raiva e dor - que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!> -
2 232
Paula Nei
De Viagem
Voa, minha alma, voa pelos ares
Como um trapo de nuvem flutuante!
Vai perdida, sozinha e soluçante,
Distende as tuas asas sobre os mares!
Leva contigo os lânguidos cismares
Que um dia acalentaste, delirante,
Como acalenta o vento roçagante
A copa verde-negra dos palmares.
Atira tudo isso aos pés de Deus!
Lá onde brilha a luz e estão os céus
E virgens mil coroadas de verbenas.
Isto que já brilhou como uma estrela,
A Deus, dirás, só pertenceu a ela,
Corpo de anjo, coração de hiena.
Como um trapo de nuvem flutuante!
Vai perdida, sozinha e soluçante,
Distende as tuas asas sobre os mares!
Leva contigo os lânguidos cismares
Que um dia acalentaste, delirante,
Como acalenta o vento roçagante
A copa verde-negra dos palmares.
Atira tudo isso aos pés de Deus!
Lá onde brilha a luz e estão os céus
E virgens mil coroadas de verbenas.
Isto que já brilhou como uma estrela,
A Deus, dirás, só pertenceu a ela,
Corpo de anjo, coração de hiena.
910
Olegário Mariano
O Enamorado das Rosas
Toda manhã, ao sol, cabelo ao vento,
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.
Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.
Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.
Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.
Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.
Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.
Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.
1 377
Olegário Mariano
Kremme
Foi um dia de kremesse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.
Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.
E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?
Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.
— Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
— Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.
E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.
Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.
Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.
Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.
E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?
Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.
— Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
— Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.
E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.
Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.
Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.
1 442
Natalício Barroso
De manhã eu sei que o sol vai morrer
De manhã eu sei que o sol vai morrer
depois das dezoito horas.
Mas não me apavoro.
Ele pode morrer antes, se quiser.
Há muito tempo que a minha vida é uma sucessão de expectativas.
Nenhuma delas realizada.
Por isso espero o sol morrer depois das dezoito horas
e ele morre.
Uma tarde, quando o sol era uma estrela cadente,
eu pedi para uma bailarina nascer no lugar da lua.
Mas não nasceu.
Primeiro porque nenhuma bailarina vai nascer no lugar da lua.
Depois porque, se nascesse, não seria uma bailarina.
Mas uma deusa. Eu ri. Não porque fosse impossível
uma deusa nascer no lugar da lua.
Mas porque as deusas não nascem mais.
Elas se afogaram nos Lusíadas e nunca mais emergiram.
Estão lá, no fundo de um poema,
presas às barbas e aos cabelos de Netuno.
Camões que o diga. Ele que teceu
os raios de luar no rosto de Netuno
e deu-lhe o nome de Vasco da Gama.
depois das dezoito horas.
Mas não me apavoro.
Ele pode morrer antes, se quiser.
Há muito tempo que a minha vida é uma sucessão de expectativas.
Nenhuma delas realizada.
Por isso espero o sol morrer depois das dezoito horas
e ele morre.
Uma tarde, quando o sol era uma estrela cadente,
eu pedi para uma bailarina nascer no lugar da lua.
Mas não nasceu.
Primeiro porque nenhuma bailarina vai nascer no lugar da lua.
Depois porque, se nascesse, não seria uma bailarina.
Mas uma deusa. Eu ri. Não porque fosse impossível
uma deusa nascer no lugar da lua.
Mas porque as deusas não nascem mais.
Elas se afogaram nos Lusíadas e nunca mais emergiram.
Estão lá, no fundo de um poema,
presas às barbas e aos cabelos de Netuno.
Camões que o diga. Ele que teceu
os raios de luar no rosto de Netuno
e deu-lhe o nome de Vasco da Gama.
1 005
Matheus Tonello
Eclipse Solar
Foi num dia límpido de verão
Que tudo chegou ao seu fim
Tendo o Sol como testemunha
Você disse: -Eu não te quero pra mim!
Neste dia, as pombas não voaram para o sul
O vento parou de soprar ao norte
O dia perdeu todo seu encanto
Para mim, só restou a morte.
O Sol neste dia se escondeu por completo
E logo cessou de brilhar
Se escondeu por trás da formosa Lua
E em prantos, pôs-se inteiramente a chorar!
Que tudo chegou ao seu fim
Tendo o Sol como testemunha
Você disse: -Eu não te quero pra mim!
Neste dia, as pombas não voaram para o sul
O vento parou de soprar ao norte
O dia perdeu todo seu encanto
Para mim, só restou a morte.
O Sol neste dia se escondeu por completo
E logo cessou de brilhar
Se escondeu por trás da formosa Lua
E em prantos, pôs-se inteiramente a chorar!
1 316
Mario Ribeiro Martins
Qual dos Dois?
Abandonou-me a vida displicente,
fria, calada, sem medo e sem dó...
Aquela cuja vida tão somente,
era meu coração, o meu Jacó.
Agora, eu subo os montes tristemente,
olho o rico passado, como Jó...
Ouço as desilusões na minha frente,
que gritam com desprezo: SIGA SÓ.
Como seguir assim sem coração?
pois eu o dei com tanta devoção,
com tanta devoção que não pensei.
Ó montanhas, ó gritos, ó passado,
respondei-me: FUI EU ABANDONADO?
OU TIVE O PARAÍSO E REJEITEI?
fria, calada, sem medo e sem dó...
Aquela cuja vida tão somente,
era meu coração, o meu Jacó.
Agora, eu subo os montes tristemente,
olho o rico passado, como Jó...
Ouço as desilusões na minha frente,
que gritam com desprezo: SIGA SÓ.
Como seguir assim sem coração?
pois eu o dei com tanta devoção,
com tanta devoção que não pensei.
Ó montanhas, ó gritos, ó passado,
respondei-me: FUI EU ABANDONADO?
OU TIVE O PARAÍSO E REJEITEI?
964
Marly de Oliveira
Perdi a capacidade de assombro
Perdi a capacidade de assombro
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.
1 408
Maria Inês Gambogi
Nem a palavra amor
Patrocínio, 1978
Nem a palavra amor
sendo pronunciada
sem obstância, o amor.
Nem o seu nome
consegui pronunciar
que tão só nossos corpos
revimos
Reduzi a costume
o que eu sentia de nosso
devendo, pensei, abandonar.
Reduziu o cerne
a uma situação inominável
a um anterior defeito de prosa.
Neste volume me aguardou em reações comuns.
Opressa e devagarinho
comecei a limpar o fato
tornando a sala passiva.
Nem a palavra amor
sendo pronunciada
sem obstância, o amor.
Nem o seu nome
consegui pronunciar
que tão só nossos corpos
revimos
Reduzi a costume
o que eu sentia de nosso
devendo, pensei, abandonar.
Reduziu o cerne
a uma situação inominável
a um anterior defeito de prosa.
Neste volume me aguardou em reações comuns.
Opressa e devagarinho
comecei a limpar o fato
tornando a sala passiva.
701
Millôr Fernandes
Obstinação dos Outros
Deixamos de beber
E em cada esquina
Abriram um novo bar.
Abandonamos o fumo;
Passam homens, crianças
E navios
A fumar.
A rua, como nunca, está cheia de mulheres
Jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.
E em cada esquina
Abriram um novo bar.
Abandonamos o fumo;
Passam homens, crianças
E navios
A fumar.
A rua, como nunca, está cheia de mulheres
Jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.
1 047
Manuel J. Reis
sem título
Havia
um menino
que procurava
a estrela
mais clara da noite.
E encontrou
na noite
a forma mais clara
da dor.
um menino
que procurava
a estrela
mais clara da noite.
E encontrou
na noite
a forma mais clara
da dor.
740
Mário Donizete Massari
Muito pouco
Todo sonho é pouco
Todo esforço é pouco
— para vivermos esta vida.
O poeta
derrama seus versos
na avenida,
São versos tristes.
Ele (como qualquer pessoa)
sabe
que o nada é tudo
perante o povo
e que o pouco é tudo
que se consegue.
E ele grita seus versos
para um mundo
louco e sem ouvidos.
Todo esforço é pouco
— para vivermos esta vida.
O poeta
derrama seus versos
na avenida,
São versos tristes.
Ele (como qualquer pessoa)
sabe
que o nada é tudo
perante o povo
e que o pouco é tudo
que se consegue.
E ele grita seus versos
para um mundo
louco e sem ouvidos.
939
Mário Donizete Massari
Nada a dizer
O que dizer das mãos,
se os dedos inágeis
já não tecem paixões
O que dizer dos
braços
se foi num abraço
que te perdi
Restará talvez
o que dizer de nós
do que tentamos ser
Vã tentativa,
diluída
na expectativa
de se conhecer
se os dedos inágeis
já não tecem paixões
O que dizer dos
braços
se foi num abraço
que te perdi
Restará talvez
o que dizer de nós
do que tentamos ser
Vã tentativa,
diluída
na expectativa
de se conhecer
589
Mário Donizete Massari
Fragmento
de estrelas
e o silêncio da noite
há de espargir lágrimas
de meus olhos
Poderei eu ver as estrelas?
Triste será a noite com certeza
pois feriu-me a poesia do amor
Quão belo seria a noite
e as estrelas
se não me faltasse
esse fragmento de vida
e o silêncio da noite
há de espargir lágrimas
de meus olhos
Poderei eu ver as estrelas?
Triste será a noite com certeza
pois feriu-me a poesia do amor
Quão belo seria a noite
e as estrelas
se não me faltasse
esse fragmento de vida
951
Mário Donizete Massari
Alma de menino
Luzes brilham nesse labirinto
dizia o menino:
— Vês as estrelas?
E a noite sorria
vendo a alegria
Dizia o menino:
— Vês as estrelas?
Sim, eu via
dizia o menino
(eu não via)
logo é dia.
Vês as estrelas
e eu sorria
enquanto esperava
chegar outro dia.
dizia o menino:
— Vês as estrelas?
E a noite sorria
vendo a alegria
Dizia o menino:
— Vês as estrelas?
Sim, eu via
dizia o menino
(eu não via)
logo é dia.
Vês as estrelas
e eu sorria
enquanto esperava
chegar outro dia.
914
Manuel Botelho de Oliveira
Comparações no Rigor de Anarda
Quando Anarda me desdenha
afetos de um coração,
é diamante Anarda? não,
não diamante, porque é penha:
penha não, porque se empenha,
qual áspid seu rigor forte;
áspid não, que tem por sorte
ser qual tigre na crueza:
tigre não, que na fereza
tem todo o império da Morte.
afetos de um coração,
é diamante Anarda? não,
não diamante, porque é penha:
penha não, porque se empenha,
qual áspid seu rigor forte;
áspid não, que tem por sorte
ser qual tigre na crueza:
tigre não, que na fereza
tem todo o império da Morte.
1 899
Marta Gonçalves
Morreram as Videiras na Quinta
I
Jogávamos vôlei na beira da tarde
o cabelo era louro o dolmã verde.
Amava o verde da veste. Havia cheiro
de maçã. Havia amor pelo moço de dolmã.
II
Os pássaros em muitas tardes se foram.
Vieram anos de silêncio. Celas de solidão
e medo. Março secou o mar a areia cobriu
palavras. A giesta formou sangue no fim da noite.
III
As árvores verdes marcaram o tempo
marcaram o cansaço o temor da morte.
IV
A música chegava quebrada nas montanhas.
A poesia era o uivo do lobo no amanhecer.
V
Chegaste trazendo o sol nos olhos.
Lembrei o moço de dolmã. Lembrei
o verde crucificado. Lembrei os corpos
enterrados em valas profundas.
VI
Viste com o beijo nos lábios. Nas mãos
o afeto. Havia água cobrindo a febre.
Habitava o verde-oliva nas manhãs.
Verde pântano no porto da alma.
VII
Quando vi a patente em seu casaco,
quando vi o sangue dos meus irmãos
nos porões, morreram as videiras na quinta.
Parti
não entendeste minha ida.
Eras bom e o céu escuro
vestia verdevestia verde.
Jogávamos vôlei na beira da tarde
o cabelo era louro o dolmã verde.
Amava o verde da veste. Havia cheiro
de maçã. Havia amor pelo moço de dolmã.
II
Os pássaros em muitas tardes se foram.
Vieram anos de silêncio. Celas de solidão
e medo. Março secou o mar a areia cobriu
palavras. A giesta formou sangue no fim da noite.
III
As árvores verdes marcaram o tempo
marcaram o cansaço o temor da morte.
IV
A música chegava quebrada nas montanhas.
A poesia era o uivo do lobo no amanhecer.
V
Chegaste trazendo o sol nos olhos.
Lembrei o moço de dolmã. Lembrei
o verde crucificado. Lembrei os corpos
enterrados em valas profundas.
VI
Viste com o beijo nos lábios. Nas mãos
o afeto. Havia água cobrindo a febre.
Habitava o verde-oliva nas manhãs.
Verde pântano no porto da alma.
VII
Quando vi a patente em seu casaco,
quando vi o sangue dos meus irmãos
nos porões, morreram as videiras na quinta.
Parti
não entendeste minha ida.
Eras bom e o céu escuro
vestia verdevestia verde.
918
Marta Gonçalves
Mar Interior
O veleiro se perde no mar. No mastro,
cicatrizes do rosto. Espero a maré.
A volta da vela branca purificando
os olhos.
No horizonte o azul estagnado.
A ternura do tempo das amêndoas.
O beijo ficou além da geografia
e crucificou o lábio seco.
Sou marinheira do cansaço, da aceitação.
O desamor toma conta do mar interior.
Salgo a retina na água verde. O vazio
contorna os dedos. Dedos esquecidos do calor.
O que existe além dos nossos olhos?
Uma flor branca esperando o branco dente.
O exílio se alonga e a vida é cardume.
Há de chegar o vento. A imensidão dos anos.
Pouso da terra.
cicatrizes do rosto. Espero a maré.
A volta da vela branca purificando
os olhos.
No horizonte o azul estagnado.
A ternura do tempo das amêndoas.
O beijo ficou além da geografia
e crucificou o lábio seco.
Sou marinheira do cansaço, da aceitação.
O desamor toma conta do mar interior.
Salgo a retina na água verde. O vazio
contorna os dedos. Dedos esquecidos do calor.
O que existe além dos nossos olhos?
Uma flor branca esperando o branco dente.
O exílio se alonga e a vida é cardume.
Há de chegar o vento. A imensidão dos anos.
Pouso da terra.
1 164
Marco Antônio Rosa
Pobre Aristóteles
Nunca conheci,
por mais que
me esforçasse,
quem tivesse
alma tão bela
quanto a própria face.
por mais que
me esforçasse,
quem tivesse
alma tão bela
quanto a própria face.
932
Mariana Angélica de Andrade
Já Não!
Desse amor por ti quebrado,
Desse amor nem eu já sei!
L.M. Palmeirim
Amei-te muito! Que importa
Dizê-lo agora, se morta
É a chama que senti?…
Sendo tu quea a apagaste…
Podes ver quanto eu sofri!…
Mas já não sofro; se ainda
A essa loucura finda
Alguma lembrança dou,
É bendizendo o destino
Que ao errante peregrino
Melhor apontou!…
Saudades, que tive outrora,
Murcharam todas; agora
Jazem desfeitas em pó!…
Bem sabes que nunca minto;
Pois olha que por ti sinto…
Ódio não! Desprezo só!…
Sentir ódio era mesquinho!
Segue pois o teu caminho,
Segue-o, triste, até ao fim ;
Tê-lo-ás amargurado…
Mas, feliz, ou desgraçado,
Não te recordes de mim!
Desse amor nem eu já sei!
L.M. Palmeirim
Amei-te muito! Que importa
Dizê-lo agora, se morta
É a chama que senti?…
Sendo tu quea a apagaste…
Podes ver quanto eu sofri!…
Mas já não sofro; se ainda
A essa loucura finda
Alguma lembrança dou,
É bendizendo o destino
Que ao errante peregrino
Melhor apontou!…
Saudades, que tive outrora,
Murcharam todas; agora
Jazem desfeitas em pó!…
Bem sabes que nunca minto;
Pois olha que por ti sinto…
Ódio não! Desprezo só!…
Sentir ódio era mesquinho!
Segue pois o teu caminho,
Segue-o, triste, até ao fim ;
Tê-lo-ás amargurado…
Mas, feliz, ou desgraçado,
Não te recordes de mim!
1 125
Marcelo Almeida de Oliveira
Chega! De novo
Desculpa, amor, mas hoje não vou te amar,
nem vou deixar minha cabeça se encher de você,
segurem as garrafas porque não vou tomar,
seda e veludo também pode esquecer.
Porque hoje quero saber a verdade.
Já estou cançado de rir sem saber o porquê.
Que o ópio que pelos meus ouvidos entra
só me deixe entorpecido quando permitir;
e que a cobra que encanta da caixa
não me enfeitice com seus olhos argibi.
Mais um bufão vai tirar a fantasia,
mais uma vaia na pequena platéia descontente.
nem vou deixar minha cabeça se encher de você,
segurem as garrafas porque não vou tomar,
seda e veludo também pode esquecer.
Porque hoje quero saber a verdade.
Já estou cançado de rir sem saber o porquê.
Que o ópio que pelos meus ouvidos entra
só me deixe entorpecido quando permitir;
e que a cobra que encanta da caixa
não me enfeitice com seus olhos argibi.
Mais um bufão vai tirar a fantasia,
mais uma vaia na pequena platéia descontente.
609
Mário Hélio
29-IX(Choro e luz)
num dia de festa de muita alegria
lavei meus sonhos na velha pia
e tive medo de quem sorria
e do segredo de quem morria
mas era festa de só um dia
já não bastava tanta agonia?
eu precisava da tal fatia
de choro e luz de fantasia
mas a batalha era que ardia
a sarça ardente na mente fria
meu ser uma linha já que seguia
seu próprio passo de travessia
e para longe do espaço ia
e até bastante cedo descobria
não era amor o que se amou um dia
era outra alegria que irônica ria
era o nome do bicho que verônica via
que me espantava mas não fugia
que me matava mas nãomorria
era outra alegria... e é triste toda alegria
lavei meus sonhos na velha pia
e tive medo de quem sorria
e do segredo de quem morria
mas era festa de só um dia
já não bastava tanta agonia?
eu precisava da tal fatia
de choro e luz de fantasia
mas a batalha era que ardia
a sarça ardente na mente fria
meu ser uma linha já que seguia
seu próprio passo de travessia
e para longe do espaço ia
e até bastante cedo descobria
não era amor o que se amou um dia
era outra alegria que irônica ria
era o nome do bicho que verônica via
que me espantava mas não fugia
que me matava mas nãomorria
era outra alegria... e é triste toda alegria
888
Geraldo Lyra
Perdão para Meu Pai!
Meu pai pagou bem caro uma aventura
com jovem que não tinha virgindade,
pois, quando a "conheceu", toda a cidade
sabia que não era mulher pura ...
O genitor da tal, por crueldade,
contratou pistoleiros de alma dura:
— pegado de surpresa, um que o segura
e outro que o esfaqueia sem piedade ...
Pelo resto da vida deformado,
sofreu motejos e os filhos, também,
mesmo sem terem culpa do pecado...
Mas, quem de uma moiçola enjeita as graças?
— E eu, agora, respondo que — ninguém,
apesar das piores das desgraças!!!
com jovem que não tinha virgindade,
pois, quando a "conheceu", toda a cidade
sabia que não era mulher pura ...
O genitor da tal, por crueldade,
contratou pistoleiros de alma dura:
— pegado de surpresa, um que o segura
e outro que o esfaqueia sem piedade ...
Pelo resto da vida deformado,
sofreu motejos e os filhos, também,
mesmo sem terem culpa do pecado...
Mas, quem de uma moiçola enjeita as graças?
— E eu, agora, respondo que — ninguém,
apesar das piores das desgraças!!!
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