Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Luiz Guimarães
Metamorfose
Meu coração repleto de esplendores
Como as grutas fantásticas do Oriente,
Será digno de ti. Por ti somente
Foi que eu junquei meu coração de flores.
Por ti despi-o das passadas cores,
Por ti sequei a lágrima pungente,
Que gotejava como o orvalho ardente,
Silenciosa sobre as minhas dores!
Entra. Percorre estes vergéis risonhos,
Calca a sorrir a terra umedecida
Onde palpita o mundo dos meus sonhos.
Fica, porém, atenta e prevenida;
Hás-de ouvir, muitas vezes, os medonhos
E surdos ais de uma ilusão perdida.
Como as grutas fantásticas do Oriente,
Será digno de ti. Por ti somente
Foi que eu junquei meu coração de flores.
Por ti despi-o das passadas cores,
Por ti sequei a lágrima pungente,
Que gotejava como o orvalho ardente,
Silenciosa sobre as minhas dores!
Entra. Percorre estes vergéis risonhos,
Calca a sorrir a terra umedecida
Onde palpita o mundo dos meus sonhos.
Fica, porém, atenta e prevenida;
Hás-de ouvir, muitas vezes, os medonhos
E surdos ais de uma ilusão perdida.
781
Lucília Cândida Sobrinho
Tempo de Ilusões
As nuvens passam
Como passam as desilusões.
Na vida há marcas do tempo
E o tempo acelera seu passo,
Levando consigo as doces ilusões —
Quimeras navegam
No mar revolto
Do meu ardente desejo.
Vejo quimeras e nuvens
Envolvendo a lembrança
Da volúpia do teu beijo.
Como passam as desilusões.
Na vida há marcas do tempo
E o tempo acelera seu passo,
Levando consigo as doces ilusões —
Quimeras navegam
No mar revolto
Do meu ardente desejo.
Vejo quimeras e nuvens
Envolvendo a lembrança
Da volúpia do teu beijo.
889
Mário Hélio
7- VII (Confidência)
tua sombra persegue-me a todo instante,
visita-me no instante da demora.
não sabe que é sombra e breve o instante
e a eternidade é só uma demora.
mas tua sombra não descansa
e dança mansa e inquieta sobre mim,
mas avança tão sutil e tanto avança
que eu pressinto que voa sobre mim.
o meu protesto enfim é de esperar-te
por amar-te talvez? não sei se o amor
não é pura paixão de esperar-te
ou desespero de amar-te sem amor.
não sei talvez em que profundo abismo
lancei-me, enlacei-me, doido cego já sem asas,
mas o sonho de tê-las já é o abismo,
as tuas garras, águia, arrancaram-me as asas.
visita-me no instante da demora.
não sabe que é sombra e breve o instante
e a eternidade é só uma demora.
mas tua sombra não descansa
e dança mansa e inquieta sobre mim,
mas avança tão sutil e tanto avança
que eu pressinto que voa sobre mim.
o meu protesto enfim é de esperar-te
por amar-te talvez? não sei se o amor
não é pura paixão de esperar-te
ou desespero de amar-te sem amor.
não sei talvez em que profundo abismo
lancei-me, enlacei-me, doido cego já sem asas,
mas o sonho de tê-las já é o abismo,
as tuas garras, águia, arrancaram-me as asas.
936
Luiz Lopes Sobrinho
Ciúmes
Não é que o amor que nos meus olhos vista,
Tão cheio de ternura, ardendo em chamas,
Que inda implora, aos céus, num pranto triste,
O teu amor, ao ver que me não amas,
Já se tenha acabado! Ainda existe!
Desgraçado de mim... Tu mais me inflamas,
Com tua indiferença, pois partiste,
Deixando o meu amor, envolto em tramas!
E se hoje, acabrunhado, ando fugindo
De tua doce presença — agora amarga,
Pela tristeza que me vai ferindo,
É só porque, já não suporto ver-te
Passar, da vida, pela estrada larga
Unida àquele que me fez perder-te!
Tão cheio de ternura, ardendo em chamas,
Que inda implora, aos céus, num pranto triste,
O teu amor, ao ver que me não amas,
Já se tenha acabado! Ainda existe!
Desgraçado de mim... Tu mais me inflamas,
Com tua indiferença, pois partiste,
Deixando o meu amor, envolto em tramas!
E se hoje, acabrunhado, ando fugindo
De tua doce presença — agora amarga,
Pela tristeza que me vai ferindo,
É só porque, já não suporto ver-te
Passar, da vida, pela estrada larga
Unida àquele que me fez perder-te!
866
Tomáz Kim
Antes da Metralha
Antes da metralha e do dedo da morte...
Antes dum corpo jovem, anônimo,
apodrecer, esquecido, à chuva...
Ou singrar, boiando, nas águas mansas...
Ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece...
Um adeus longo e triste
aos poemas amontoados no fundo da gaveta
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem mistério...
Um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!
Antes dum corpo jovem, anônimo,
apodrecer, esquecido, à chuva...
Ou singrar, boiando, nas águas mansas...
Ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece...
Um adeus longo e triste
aos poemas amontoados no fundo da gaveta
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem mistério...
Um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!
1 192
Lúcio José Gusman
A segunda canção desesperada
"Sobre mi corazón llueven frías corolas.Oh sentina de escombros, feroz cueva de náufragos!"(Pablo Neruda - La canción desesperada)
Tua lembrança povoa as horas tristes
da noite desesperançada em que estou.
Em moldura de ébano e estampa de cristal
povoa minhas horas tua figura de fada e de ternura.
Meu coração, deserdado a golpes de punhal,
teima em bater descompassado e exangue.
Em ti se acumularam expectativas e anseios,
de ti alçaram vôo graves sonhos e ilusões candentes.
Eras o renascer de minha alma, a minha vida,
meu despertar em meio à solidão que desampara.
Qual bandeira em paragem inóspita e inculta,
teu corpo me penetrou vazando as corolas dos meus sentidos.
Viajantes das estradas iluminadas das quimeras incendidas,
juntos alcançamos os umbrais dos páramos do amor.
Oh! Os lábios mordiscados, os corpos entrelaçados
em instantes de ternura e sublime obsessão.
Oh! Obsessão crivada de desejos incontidos,
brotados das profundezas intangíveis do amor inacabado!
Ternura suavemente sussurrada a meia luz,
por entre os alvos dentes de tua arcada faiscante e bela.
Tua beleza etérea permanece como o melhor presente,
doce recordação que fere e mata a uma só vez.
Tua presença me retrocede à florida campina dos sonhos,
levando-nos lado a lado além do fato e do desejo.
Esse meu desejo de ti e esse teu desejo de mim
se eternizaram na paz e na luz que tu me deste.
Quantas lágrimas se secaram nos arcos dos teus retesados ombros,
quanto riso agasalhado em teu colo alvo e macio!
Ter na, encantadora, menina e fada - única - ,
os brilhos dos teus olhos meigos se cravaram no meu dentro.
Em mim havia sede, fome, solidão e mágoa:
foste a água, o fruto, a companhia suave e a alegria.
Agora, há uma estrela ascendente irradiante em sua luz,
e, bem perto, uma nave sem rumo cercada de portos inseguros.
Deuses, que embalastes os sonhos de tantos amantes,
dizei-me, ó deuses, a que inferno o abandonado chegará!
Abelardo e Heloísa, Quixote e Dulcinéia, Romeu e Julieta,
por que sugastes todo o néctar da flor do amor corrrespondido?
Mistério. É noite. No dentro e no fora. Mistério e noite.
Sigo caminhando, a cruz do desencanto cravada no meu peito.
Apesar, a menina-que-veio-dos-céus, a fada-ternura,
terá sempre vindo dos céus, será sempre a fada ternura.
Linda, linda, terna e meiga, fada-menina
à procura do amor que te falhei em dar...
Tua lembrança povoa as horas tristes
da noite desesperançada em que estou.
Em moldura de ébano e estampa de cristal
povoa minhas horas tua figura de fada e de ternura.
Meu coração, deserdado a golpes de punhal,
teima em bater descompassado e exangue.
Em ti se acumularam expectativas e anseios,
de ti alçaram vôo graves sonhos e ilusões candentes.
Eras o renascer de minha alma, a minha vida,
meu despertar em meio à solidão que desampara.
Qual bandeira em paragem inóspita e inculta,
teu corpo me penetrou vazando as corolas dos meus sentidos.
Viajantes das estradas iluminadas das quimeras incendidas,
juntos alcançamos os umbrais dos páramos do amor.
Oh! Os lábios mordiscados, os corpos entrelaçados
em instantes de ternura e sublime obsessão.
Oh! Obsessão crivada de desejos incontidos,
brotados das profundezas intangíveis do amor inacabado!
Ternura suavemente sussurrada a meia luz,
por entre os alvos dentes de tua arcada faiscante e bela.
Tua beleza etérea permanece como o melhor presente,
doce recordação que fere e mata a uma só vez.
Tua presença me retrocede à florida campina dos sonhos,
levando-nos lado a lado além do fato e do desejo.
Esse meu desejo de ti e esse teu desejo de mim
se eternizaram na paz e na luz que tu me deste.
Quantas lágrimas se secaram nos arcos dos teus retesados ombros,
quanto riso agasalhado em teu colo alvo e macio!
Ter na, encantadora, menina e fada - única - ,
os brilhos dos teus olhos meigos se cravaram no meu dentro.
Em mim havia sede, fome, solidão e mágoa:
foste a água, o fruto, a companhia suave e a alegria.
Agora, há uma estrela ascendente irradiante em sua luz,
e, bem perto, uma nave sem rumo cercada de portos inseguros.
Deuses, que embalastes os sonhos de tantos amantes,
dizei-me, ó deuses, a que inferno o abandonado chegará!
Abelardo e Heloísa, Quixote e Dulcinéia, Romeu e Julieta,
por que sugastes todo o néctar da flor do amor corrrespondido?
Mistério. É noite. No dentro e no fora. Mistério e noite.
Sigo caminhando, a cruz do desencanto cravada no meu peito.
Apesar, a menina-que-veio-dos-céus, a fada-ternura,
terá sempre vindo dos céus, será sempre a fada ternura.
Linda, linda, terna e meiga, fada-menina
à procura do amor que te falhei em dar...
1 005
Leonardo de Leo Gama
Saudação a Afrodite
Teu amor de proveta quer te mascararsábio patético palhaçoquem diz não vai aprender a voarsou loucotolomas quem diz nunca soube amaro sanguemajestosamente coaguladoheroínabom vinhoembriaga deuses fúteisque só se ocupam em cagarse considera viver um desafiodrogue-se com a monotonia de dias bizarrosamematequeimemas não te esqueças de pingar teu colíriopequepecar é divinofurte para sentirdoce cheiro proibidoamecomatrepesiga teu ponto para o infinitonão falesintacuspateu sangue com toda melo-burocracianão há sons para amornem palavras para vidaseja ateuolha teus minutos docemente escuros através do vidrotodo cúpido nasce mortosete badaladas do sinoa jaulaescancaradaabstrato em evidênciaamorrancoródioinvejaLobos-cordeiros sabem olhar com indiferença
1 821
Tânia Regina
Amor Impossível
Hoje você está impassível
tornando o nosso amor
Algo tão impossível
que nem em sonho
Podemos mais sonhar...
Nossos pensamentos impelidos
contra o tempo
Mostrando o quanto
é grande nossas diferenças
nossa idade, nossa cabeça...
Eu então fico aqui nessa melancolia
Espraiando-me pela praia
Sendo tocada pela maviosa água
Matizada pelo toque em meu corpo...
Não sei se tenho forças pra continuar
Só saberei se tentar
Se tento posso perder
Se não chego a tentar
nunca saberei se não arriscar...
Apenas fico na esperança
De que algum dia
Você olhe para trás
E veja com alegria
O que você deixou passar
Todos aqueles dias...
tornando o nosso amor
Algo tão impossível
que nem em sonho
Podemos mais sonhar...
Nossos pensamentos impelidos
contra o tempo
Mostrando o quanto
é grande nossas diferenças
nossa idade, nossa cabeça...
Eu então fico aqui nessa melancolia
Espraiando-me pela praia
Sendo tocada pela maviosa água
Matizada pelo toque em meu corpo...
Não sei se tenho forças pra continuar
Só saberei se tentar
Se tento posso perder
Se não chego a tentar
nunca saberei se não arriscar...
Apenas fico na esperança
De que algum dia
Você olhe para trás
E veja com alegria
O que você deixou passar
Todos aqueles dias...
938
Valéry Larbaud
Descuido
Mergulhei por descuido teus olhos
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.
818
Valéry Larbaud
Mise au Point
Deixou teu gesto ali
nenhuma rosa,
delicadeza e não ser,
nenhum suspiro,
silêncio e resposta.
E a lua nenhuma
grita a lembrança esquecida
de teu nenhum sorriso.
Frios cristais, no entanto,
que guardam vinhos de sangue,
não são teus olhos, ainda.
nenhuma rosa,
delicadeza e não ser,
nenhum suspiro,
silêncio e resposta.
E a lua nenhuma
grita a lembrança esquecida
de teu nenhum sorriso.
Frios cristais, no entanto,
que guardam vinhos de sangue,
não são teus olhos, ainda.
984
José Eustáquio da Silva
Tive
vou assim sem rumo
chutando pedras pelo caminho
tenho lenço e documento
só não tenho pra onde ir
já tive ao menos um amor
que chutava pedras comigo
hoje me restam apenas as pedras
apenas as pedras...
frias pedras...
chutando pedras pelo caminho
tenho lenço e documento
só não tenho pra onde ir
já tive ao menos um amor
que chutava pedras comigo
hoje me restam apenas as pedras
apenas as pedras...
frias pedras...
1 037
Luís António Cajazeira Ramos
Breu em Chamas
A não ser pelo fato de ser
meu melhor amigo, você
não me conhece. Ninguém me conhece.
Mas cê está tão perto!
Desde ontem que o olho há horas para sempre,
e você nem percebe o quanto estou distante...
eu dentro de meu próprio ventre.
São quilômetros de distâncias milimétricas
que nos separam,
eu e meu ventre,
do mais próximo sol poente de um olhar apaixonado.
E eu não vejo mais emoções
dentro de qualquer ventre,
pois o amor, pouco provável, esqueceu o caminho,
deitou em minha cama e dormiu,
fazendo uma fogueira de todas as minhas veleidades.
meu melhor amigo, você
não me conhece. Ninguém me conhece.
Mas cê está tão perto!
Desde ontem que o olho há horas para sempre,
e você nem percebe o quanto estou distante...
eu dentro de meu próprio ventre.
São quilômetros de distâncias milimétricas
que nos separam,
eu e meu ventre,
do mais próximo sol poente de um olhar apaixonado.
E eu não vejo mais emoções
dentro de qualquer ventre,
pois o amor, pouco provável, esqueceu o caminho,
deitou em minha cama e dormiu,
fazendo uma fogueira de todas as minhas veleidades.
927
José Eustáquio da Silva
Passou
desfiz todas as minhas ilusões
e as atirei no precipício profundo
da minha realidade
estraçalhei os teus olhos de diamante
devolvendo-te os teus olhos
de um ser humano qualquer
te despi de todos os áureos vestidos
que em sonho te dei
e te fiz novamente nua
apaguei toda poesia que derramei inutilmente
nos poemas feitos em tua homenagem
e quase chorei...
(ou será que chorei?)
abri os olhos para o mundo
e me deixei libertar
enfim, te esqueci...
hoje, vivendo o alívio de tão árduo tormento
ando pelos jardins da vida
colhendo as rosas da minha liberdade
sem temer os espinhos da tua existência
e as atirei no precipício profundo
da minha realidade
estraçalhei os teus olhos de diamante
devolvendo-te os teus olhos
de um ser humano qualquer
te despi de todos os áureos vestidos
que em sonho te dei
e te fiz novamente nua
apaguei toda poesia que derramei inutilmente
nos poemas feitos em tua homenagem
e quase chorei...
(ou será que chorei?)
abri os olhos para o mundo
e me deixei libertar
enfim, te esqueci...
hoje, vivendo o alívio de tão árduo tormento
ando pelos jardins da vida
colhendo as rosas da minha liberdade
sem temer os espinhos da tua existência
1 030
J. Ribamar Matos
Silêncio
Pouco te importa o meu sofrer insano
e que eu viva, afinal, como hoje vivo,
nessa angústia de pássaro cativo,
a andar de desengano em desengano!
Já não tenho ilusões nem mais me engano
com a minha existência sem motivo,
pois não creio em, depois, ver redivivo
o vigor de outros tempos, espartano.
Ver-me-ás, entretanto, silencioso e mudo,
nem um lamento de meu lábio triste
ouvirás nunca mais, depois de tudo!
Calado e triste há de me ver agora,
sem o vigor de quando tu surgiste,
tecendo versos pela vida a fora...
e que eu viva, afinal, como hoje vivo,
nessa angústia de pássaro cativo,
a andar de desengano em desengano!
Já não tenho ilusões nem mais me engano
com a minha existência sem motivo,
pois não creio em, depois, ver redivivo
o vigor de outros tempos, espartano.
Ver-me-ás, entretanto, silencioso e mudo,
nem um lamento de meu lábio triste
ouvirás nunca mais, depois de tudo!
Calado e triste há de me ver agora,
sem o vigor de quando tu surgiste,
tecendo versos pela vida a fora...
1 037
Horácio Dídimo
As Casas
após longa espera
nada aconteceu
as casas continuaram baixas
tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações
nada aconteceu
as casas continuaram baixas
tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações
1 325
Hidemasa Mekaru
Haicai
recaída punk
o ácido do cotidiano
corrói o meu sonho
feito sal na lesma
hoje
estou feito
gato escaldado
na cumeeira do tédio
o ácido do cotidiano
corrói o meu sonho
feito sal na lesma
hoje
estou feito
gato escaldado
na cumeeira do tédio
932
Flávio Villa-Lobos
Desencontro
Tantas mentiras dissemos um
ao outro
querendo esconder a verdade
que nos atinge.
Pertencemos a mesma sina
cantamos a mesma música
somos o vértice
da mesma esquina.
Paira no ar um certo
desvario
(depois de tua enésima partida)
e me faz pensar
como a vida
é cheia de lugares vazios,
de tolos pensamentos,
de horas mal vividas.
ao outro
querendo esconder a verdade
que nos atinge.
Pertencemos a mesma sina
cantamos a mesma música
somos o vértice
da mesma esquina.
Paira no ar um certo
desvario
(depois de tua enésima partida)
e me faz pensar
como a vida
é cheia de lugares vazios,
de tolos pensamentos,
de horas mal vividas.
847
Gabriel Archanjo de Mendonça
Desencanto
O sonho realizado
acomodou-se preguiçosamente
na lua da rede
e foi cuidar
por tempo de sesta
na digestão burguesa.
Que o sonho futuro
por mais que sonhado
não passe de sonho.
acomodou-se preguiçosamente
na lua da rede
e foi cuidar
por tempo de sesta
na digestão burguesa.
Que o sonho futuro
por mais que sonhado
não passe de sonho.
863
Gaitano Antonaccio
Versos Finais
Meus poemas são doces notas do nosso amor
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..
Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...
Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...
Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...
Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,
Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo
Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...
Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..
Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...
Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...
Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...
Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,
Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo
Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...
Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...
1 075
Gabriel Archanjo de Mendonça
Segredo
Eu quis depositar o meu segredo
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
915
Felipe Sampaio
Duas Faces
Morri duas vezes.
Duas faces desiguais.
Estranho...
Eu que procurei-as.
O primeiro rosto era lindo,
Singelamente único e terno.
Engraçado...
Um rosto que tinha tudo
Para me dar a vida,
Uma nova vida.
Mas me negou,
Me magoou,
Me matou.
Senti ali o fardo melancólico
De ser reduzido
Ao mais ínfimo ser.
"Formigas, levem-me!"
Fujo,
Atravesso a porta
E escolho um segundo rosto.
Basta um.
Encho-me de coragem.
A morte vem a 4 rodas.
Um rosto agora desconhecido,
Inocente e amedrontado
Que passa por cima de mim
E compreensivelmente foje.
Esquisito...
Agora ele é quem foge,
Enquanto ali eu fico
Mais uma vez
Sentido um peso
Em minhas costas,
Enquanto espero que o primeiro rosto,
Terrivelmente belo,
Vá até a mim
E ao menos chore.
01/06/97
Duas faces desiguais.
Estranho...
Eu que procurei-as.
O primeiro rosto era lindo,
Singelamente único e terno.
Engraçado...
Um rosto que tinha tudo
Para me dar a vida,
Uma nova vida.
Mas me negou,
Me magoou,
Me matou.
Senti ali o fardo melancólico
De ser reduzido
Ao mais ínfimo ser.
"Formigas, levem-me!"
Fujo,
Atravesso a porta
E escolho um segundo rosto.
Basta um.
Encho-me de coragem.
A morte vem a 4 rodas.
Um rosto agora desconhecido,
Inocente e amedrontado
Que passa por cima de mim
E compreensivelmente foje.
Esquisito...
Agora ele é quem foge,
Enquanto ali eu fico
Mais uma vez
Sentido um peso
Em minhas costas,
Enquanto espero que o primeiro rosto,
Terrivelmente belo,
Vá até a mim
E ao menos chore.
01/06/97
370
Moacyr Felix
Sentimento Clássico
Pisados, os olhos com que pisaste
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
1 306
Elielson Rodrigues
A Volta
Hoje estás de volta,
amanhã estarás morta,
ainda és a mesma menina inerme,
desgrenhada, cefalia de verme.
Pensamentos infantis,
Homicídio impune,
o universo te maldiz,
mas te torna imune.
Não tentes me enganar,
tua sedução pra mim é monturo,
Impetuosamente quero te matar,
falta-me eloqüência no que juro.
O que outrora me iludia,
agora é esterco, rio.
te quero no inferno sua vadia,
esse prazer não renuncio.
amanhã estarás morta,
ainda és a mesma menina inerme,
desgrenhada, cefalia de verme.
Pensamentos infantis,
Homicídio impune,
o universo te maldiz,
mas te torna imune.
Não tentes me enganar,
tua sedução pra mim é monturo,
Impetuosamente quero te matar,
falta-me eloqüência no que juro.
O que outrora me iludia,
agora é esterco, rio.
te quero no inferno sua vadia,
esse prazer não renuncio.
1 023
Manoel Elias Filho
Restos
Do amor intensoNa calada da noiteDo fogo do sexoSobraram restosVestígios, marcas.Do encontroSobrou a fuga.Da sociedadeRestou a insegurançaDo ser humanoRestou pedaçosTrapos de um serDivisão, confusão.Que da verdadeRestou a mentira.Que da razãoRestou a loucura.E da realidadeRestou a fantasiaPedaços de mimRestos de vocêSobras de todosRestos do mundo.
933