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Poemas neste tema

Dor e Desespero

Moacyr Felix

Moacyr Felix

Dois Poemas do Homem e sua Escolha

Revenir serait une chute écrasante.
Paul Éluard

I

Se em cada porto, longe, o verde alfombra
uma esperança, uma salgada brisa
para os pesados barcos sobre a sombra
toda feita de nadas, imprecisa
(mas devorando o peixe e o ar e o homem),
alastro as rubras aves do incorpóreo
pelo dorso desnudo de uma tarde
(que é esta parte de mim que eu vou queimando)
e insisto em que eles partam, vou deixando-os
acompanhados desta dor acesa
levar o aviso dos meus olhos, mar
e mar afora... Mas eu fico. E finco
na sombra irreversivelmente minha
a permanência — ciclo e madureza
dos troncos regravados pela chuva,
dos troncos que se cumprem sempre os mesmos,
imóveis, simplesmente se cumprindo
sob um pórtico de nuvens giratórias...

II

Destino. Que é o destino? Que fazer
contra estas sombras íntimas, tão minhas
como o tecido esquivo de mim próprio
preso em meus ossos, latejando um ser
de asas de sal mordendo um chão de ópio?
Ah, destino, oxalá não haja enganos
quando chegar nas pontas dessa teia
de gastos gestos lentos costurados
com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia
de escolhas acabadas, rosa quieta
a desmanchar-se em desenhados ventos,
ah, vida, não me vença a noite alerta
atrás do abismo
e que os abismos incendeia:
deixa eu colher no rosto um rosto certo
do tempo irreversível, som de areia
que já foi casa ou ponte, e não deserto...


Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).

In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.17-1
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Silvaney Paes

Silvaney Paes

Vieram me Dizer

Vieram
me dizer...
Que onde pisei e dancei
Nasceram apenas espinhos;
Que não respeitei o tempo,
Diziam eles,
Da semeadura dos sonhos;
Que a vida é uma semente de ilusão
E que a felicidade
Alcança melhor aos tolos;
Que descobriria,
À priori,
"Que nunca mais",
De regra, é pouco tempo,
E que ele escoa indiferente
A minha vaidade
Ou a outras pretensões humanas,
E que dito tempo é reto,
Mesmo parecendo cumprir um círculo,
Vicioso...

Vieram me dizer...
Que esta minha espinha,
Dagora arqueada,
Tinha a finalidade
De virar uma estrada
Asfaltada por mágoas,
Alento doutras almas;
Que cada castelo de sonho
E todas as pontes imaginárias,
Que ergui,
Ruiriam todas,
Mas na verdade elas nunca me abrigaram,
Nunca me levaram a lugar nenhum;
Que uma estrada é dispensável
Se não pode nos levar a um destino,
Mas ela pode servir para voltar um dia;
Que as lágrimas que eu possa ter chorado,
Tornaram-me mais leve
Depois de exausto,
E por isso não fiquei de todo prostrado,
Embora continue perdido...

Vieram me dizer...
Que essa fome de ir embora
Colocaria meu coração de joelhos,
Estão em carne viva;
Que de joelhos
Poderia erguer preces,
Mas acabei encontrando Deus,
Não no princípio,
Ao final de tudo,
Quando, aquilo que nunca tive.
Já me bastava para levantar;
Que não basta estar faminto
E ter diante de si o melhor manjar,
Careceria querer comer,
Pois cada qual sabe da dor de sua fome
Ou de suas feridas;
Que essa fome de vida me atormentaria,
E só seria consumida com o ar que respiro
E a luz que vislumbro,
E que embora seja ferida aberta,
Sangrando...
Seria o alento de viva dor,
Uma esperança de redenção
Que também carrego,
Ar, esperança...
Continuo esperando.

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