Poemas neste tema
Dor e Desespero
Vicente de Carvalho
Desiludida
Sou como a corça ferida
Que vai, sedenta e arquejante,
Gastando uns restos de vida
Em busca de água distante.
Bem sei que já me não ama,
E sigo, amorosa e aflita,
Essa voz que não me chama,
Esse olhar que não me fita.
E reconheço a loucura
Deste amor abandonado
Que se abre em flor, e procura
Viver de um sonho acabado;
E é como a corça ferida
Que vai, sedenta e arquejante,
Gastando uns restos de vida
Em busca da água distante.
Só, perdido no deserto,
Segue empós do seu carinho:
Vai se arrastando... e vai certo
Que morre pelo caminho.
Publicado no livro Rosa, Rosa de Amor: poema (1902).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Que vai, sedenta e arquejante,
Gastando uns restos de vida
Em busca de água distante.
Bem sei que já me não ama,
E sigo, amorosa e aflita,
Essa voz que não me chama,
Esse olhar que não me fita.
E reconheço a loucura
Deste amor abandonado
Que se abre em flor, e procura
Viver de um sonho acabado;
E é como a corça ferida
Que vai, sedenta e arquejante,
Gastando uns restos de vida
Em busca da água distante.
Só, perdido no deserto,
Segue empós do seu carinho:
Vai se arrastando... e vai certo
Que morre pelo caminho.
Publicado no livro Rosa, Rosa de Amor: poema (1902).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
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1
Odylo Costa Filho
Soneto 23
Miguel Hernandez
Como o touro nasci mas para o luto
e a dor, e como o touro estou marcado
por um ferro infernal no meu costado,
por varão na virilha com um fruto.
Como o touro parece diminuto
tudo a meu coração desmesurado
e do beijo em teu rosto enamorado
como o touro de amor sonho e disputo.
Como o touro só cresço no castigo,
a língua no meu sangue anda banhada,
trago ao pescoço um vendaval sonoro.
Como o touro te sigo e te persigo,
e deixas meu desejo numa espada
como o touro enganado, como o touro.
Poema integrante da série Poemas Traduzidos.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971.
NOTA: Tradução de poema de Miguel Hernandez
Como o touro nasci mas para o luto
e a dor, e como o touro estou marcado
por um ferro infernal no meu costado,
por varão na virilha com um fruto.
Como o touro parece diminuto
tudo a meu coração desmesurado
e do beijo em teu rosto enamorado
como o touro de amor sonho e disputo.
Como o touro só cresço no castigo,
a língua no meu sangue anda banhada,
trago ao pescoço um vendaval sonoro.
Como o touro te sigo e te persigo,
e deixas meu desejo numa espada
como o touro enganado, como o touro.
Poema integrante da série Poemas Traduzidos.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971.
NOTA: Tradução de poema de Miguel Hernandez
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1
Augusto dos Anjos
Hino à Dor
Dor, saúde dos seres que se fanam,
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam...
És suprema! Os meus átomos se ufanam
De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!
Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corpúsculos mágicos do tato
Prendo a orquestra de chamas que executas...
E, assim, sem convulsão que me alvoroce,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!
Publicado no livro Eu: poesias completas (1920). Poema integrante da série Outras Poesias.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.171. (Ensaios, 32
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam...
És suprema! Os meus átomos se ufanam
De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!
Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corpúsculos mágicos do tato
Prendo a orquestra de chamas que executas...
E, assim, sem convulsão que me alvoroce,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!
Publicado no livro Eu: poesias completas (1920). Poema integrante da série Outras Poesias.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.171. (Ensaios, 32
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1
Geir Campos
Poema-Bilhete
Amigo, este meu canto não é manso
nem de manso cantar seria a hora.
Reviro as páginas da História e vejo
que, se em cada uma existe alguém que chora,
razão de pranto mais que em todas elas
sobeja na que se rascunha agora:
com cães de armas por toda parte à espreita,
entre miras vacila e se apavora
o gado humano, sem saber se a luz
que se desdobra no horizonte é mais
reflexo de tarde ou clarão de aurora
ou mais fogo de bomba maquinada
por um gênio às avessas que decora
o alfabeto do inferno e que, por ele
bem soletrando a morte, a vida ignora...
Sabendo e amando a vida, o verso enrija-se
e o canto é como quem finca uma escora
contra o a-b-c do diabo, contra o cão
do gatilho suspenso, contra o fogo
que no céu se desdobre e ali não seja
reflexo de tarde ou clarão de aurora.
Publicado no livro Operário do canto (1959).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
nem de manso cantar seria a hora.
Reviro as páginas da História e vejo
que, se em cada uma existe alguém que chora,
razão de pranto mais que em todas elas
sobeja na que se rascunha agora:
com cães de armas por toda parte à espreita,
entre miras vacila e se apavora
o gado humano, sem saber se a luz
que se desdobra no horizonte é mais
reflexo de tarde ou clarão de aurora
ou mais fogo de bomba maquinada
por um gênio às avessas que decora
o alfabeto do inferno e que, por ele
bem soletrando a morte, a vida ignora...
Sabendo e amando a vida, o verso enrija-se
e o canto é como quem finca uma escora
contra o a-b-c do diabo, contra o cão
do gatilho suspenso, contra o fogo
que no céu se desdobre e ali não seja
reflexo de tarde ou clarão de aurora.
Publicado no livro Operário do canto (1959).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
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Moacyr Felix
Dois Poemas do Homem e sua Escolha
Revenir serait une chute écrasante.
Paul Éluard
I
Se em cada porto, longe, o verde alfombra
uma esperança, uma salgada brisa
para os pesados barcos sobre a sombra
toda feita de nadas, imprecisa
(mas devorando o peixe e o ar e o homem),
alastro as rubras aves do incorpóreo
pelo dorso desnudo de uma tarde
(que é esta parte de mim que eu vou queimando)
e insisto em que eles partam, vou deixando-os
acompanhados desta dor acesa
levar o aviso dos meus olhos, mar
e mar afora... Mas eu fico. E finco
na sombra irreversivelmente minha
a permanência — ciclo e madureza
dos troncos regravados pela chuva,
dos troncos que se cumprem sempre os mesmos,
imóveis, simplesmente se cumprindo
sob um pórtico de nuvens giratórias...
II
Destino. Que é o destino? Que fazer
contra estas sombras íntimas, tão minhas
como o tecido esquivo de mim próprio
preso em meus ossos, latejando um ser
de asas de sal mordendo um chão de ópio?
Ah, destino, oxalá não haja enganos
quando chegar nas pontas dessa teia
de gastos gestos lentos costurados
com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia
de escolhas acabadas, rosa quieta
a desmanchar-se em desenhados ventos,
ah, vida, não me vença a noite alerta
atrás do abismo
e que os abismos incendeia:
deixa eu colher no rosto um rosto certo
do tempo irreversível, som de areia
que já foi casa ou ponte, e não deserto...
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.17-1
Paul Éluard
I
Se em cada porto, longe, o verde alfombra
uma esperança, uma salgada brisa
para os pesados barcos sobre a sombra
toda feita de nadas, imprecisa
(mas devorando o peixe e o ar e o homem),
alastro as rubras aves do incorpóreo
pelo dorso desnudo de uma tarde
(que é esta parte de mim que eu vou queimando)
e insisto em que eles partam, vou deixando-os
acompanhados desta dor acesa
levar o aviso dos meus olhos, mar
e mar afora... Mas eu fico. E finco
na sombra irreversivelmente minha
a permanência — ciclo e madureza
dos troncos regravados pela chuva,
dos troncos que se cumprem sempre os mesmos,
imóveis, simplesmente se cumprindo
sob um pórtico de nuvens giratórias...
II
Destino. Que é o destino? Que fazer
contra estas sombras íntimas, tão minhas
como o tecido esquivo de mim próprio
preso em meus ossos, latejando um ser
de asas de sal mordendo um chão de ópio?
Ah, destino, oxalá não haja enganos
quando chegar nas pontas dessa teia
de gastos gestos lentos costurados
com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia
de escolhas acabadas, rosa quieta
a desmanchar-se em desenhados ventos,
ah, vida, não me vença a noite alerta
atrás do abismo
e que os abismos incendeia:
deixa eu colher no rosto um rosto certo
do tempo irreversível, som de areia
que já foi casa ou ponte, e não deserto...
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.17-1
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Paulo Leminski
KAI
Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.
De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.
A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.
De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.
A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.
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1
Paulo Leminski
Um homem com uma dor
um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante
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1
Paulo Leminski
Rosa Rilke Raimundo Correia
Uma pálpebra,
Mais uma, mais outras,
Enfim, dezenas
De pálpebras sobre pálpebras
Tentando fazer
Das minhas trevas
Alguma coisa a mais
Que lágrimas
Mais uma, mais outras,
Enfim, dezenas
De pálpebras sobre pálpebras
Tentando fazer
Das minhas trevas
Alguma coisa a mais
Que lágrimas
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1
Bocage
Ó trevas, que enlutais a Natureza
Ó trevas, que enlutais a Natureza,
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza;
Manes, surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plutão se goza,
Não aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que voz minha tristeza.
Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formosura.
Volvei, pois, sombras vãs, ao fogo eterno;
E, lamentando a minha desventura,
Movereis à piedade o mesmo Inferno.
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza;
Manes, surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plutão se goza,
Não aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que voz minha tristeza.
Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formosura.
Volvei, pois, sombras vãs, ao fogo eterno;
E, lamentando a minha desventura,
Movereis à piedade o mesmo Inferno.
2 224
1
Vladimir Maiakovski
CLAMO
Levantei-me como um atleta,
levei-o como um acrobata,
como se levam os candidatos ao comício,
como nas aldeias se toca a rebate nos dias de incêndio.
Clamava: "Aqui está, aqui! Tomai-o!"
Quando este corpanzil se punha a uivar, as donas disparando pelo pó, pelo barro ou pela neve, como um foguete fugiam de mim.
- "Para nós, algo um tanto menor, algo assim como um tango...
" Não posso levá-lo e carrego meu fardo. Quero arremessá-lo fora e sei, não o farei.
Os arcos de minhas costelas não resistem.
Sob a pressão range a caixa torácica.
levei-o como um acrobata,
como se levam os candidatos ao comício,
como nas aldeias se toca a rebate nos dias de incêndio.
Clamava: "Aqui está, aqui! Tomai-o!"
Quando este corpanzil se punha a uivar, as donas disparando pelo pó, pelo barro ou pela neve, como um foguete fugiam de mim.
- "Para nós, algo um tanto menor, algo assim como um tango...
" Não posso levá-lo e carrego meu fardo. Quero arremessá-lo fora e sei, não o farei.
Os arcos de minhas costelas não resistem.
Sob a pressão range a caixa torácica.
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1
Anna Akhmatova
Dedicatória
Diante dessa dor curvam-se os montes,
O Grande rio já não corre,
Mas são fortes as trancas das prisões,
E atrás delas os "covis de forçados"
E uma angústia mortal.
Para quem sopra a brisa leve,
A quem enternece o pôr-do-sol -
Não sabemos, por toda parte iguais,
Ouvimos só o hediondo estridor das chaves
E os passos pesados dos soldados.
Levantávamos como para a missa da manhã,
Íamos pela cidade embrutecida,
Nos víamos lá, mais exânimes que os mortos,
O sol mais baixo e mais nublado o Nieva,
Mas a esperança ainda cantando ao longe.
A sentença... E as lágrimas irrompem,
De todos já afastada,
A vida arrancada do coração aos gritos.
Derrubada de costas, brutalmente,
Mas ela anda... Cambaleia... Só...
Onde estão as amigas prisioneiras
Dos meus dois anos de inferno?
O que elas vêem na tormenta siberiana,
O que tremeluz no halo da lua?
A elas, meu adeus de despedida.
(Março 1940.)
O Grande rio já não corre,
Mas são fortes as trancas das prisões,
E atrás delas os "covis de forçados"
E uma angústia mortal.
Para quem sopra a brisa leve,
A quem enternece o pôr-do-sol -
Não sabemos, por toda parte iguais,
Ouvimos só o hediondo estridor das chaves
E os passos pesados dos soldados.
Levantávamos como para a missa da manhã,
Íamos pela cidade embrutecida,
Nos víamos lá, mais exânimes que os mortos,
O sol mais baixo e mais nublado o Nieva,
Mas a esperança ainda cantando ao longe.
A sentença... E as lágrimas irrompem,
De todos já afastada,
A vida arrancada do coração aos gritos.
Derrubada de costas, brutalmente,
Mas ela anda... Cambaleia... Só...
Onde estão as amigas prisioneiras
Dos meus dois anos de inferno?
O que elas vêem na tormenta siberiana,
O que tremeluz no halo da lua?
A elas, meu adeus de despedida.
(Março 1940.)
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1
Ricardo Miró
Amor?
Uma vaga inquietude; um misterioso
temor; como um feliz pressentimento;
um íntimo e reservado tormento;
uma pena que acaba em alvoroço
o sufocante nó de um soluço
perene na garganta; o sentimento
de uma dor que se acerca; o pensamento
cheio de luz, de júbilo, de gozo;
uma contradição funda e escura
que me enche a vida de amargura,
que mata toda luz e toda idéia,
que turba toda paz e toda alegria;
porém... senhor, que sabes minha agonia:
se tudo isso é amor, bendito seja!
temor; como um feliz pressentimento;
um íntimo e reservado tormento;
uma pena que acaba em alvoroço
o sufocante nó de um soluço
perene na garganta; o sentimento
de uma dor que se acerca; o pensamento
cheio de luz, de júbilo, de gozo;
uma contradição funda e escura
que me enche a vida de amargura,
que mata toda luz e toda idéia,
que turba toda paz e toda alegria;
porém... senhor, que sabes minha agonia:
se tudo isso é amor, bendito seja!
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César Vallejo
Os mensageiros negros
Há golpes na vida, tão fortes... eu não sei!
Golpes como o ódio de Deus; como se ante eles,
a ressaca de todo o sofrido
se estagna na alma... eu não sei!
São poucos; mas são... abrem poças escuras
no rosto mais feio e no lombo mais forte,
serão talvez os potros de bárbaros atilas;
os mensageiros negros que nos manda a morte.
São as quedas fundas dos cristos da alma,
de alguma fé adorável que o destino blasfema.
Esses golpes sanguinolentos são as crepitações
de algum pão que na porta do forno nos queima.
E o homem... pobre....pobre! Volta os olhos, como
quando por sobre o ombro nos chama uma palmada;
Volta os olhos loucos, todo o vivido
estagna-se, como charco de culpa, no olhar.
Há golpes na vida, tão fortes... eu não sei!
Golpes como o ódio de Deus; como se ante eles,
a ressaca de todo o sofrido
se estagna na alma... eu não sei!
São poucos; mas são... abrem poças escuras
no rosto mais feio e no lombo mais forte,
serão talvez os potros de bárbaros atilas;
os mensageiros negros que nos manda a morte.
São as quedas fundas dos cristos da alma,
de alguma fé adorável que o destino blasfema.
Esses golpes sanguinolentos são as crepitações
de algum pão que na porta do forno nos queima.
E o homem... pobre....pobre! Volta os olhos, como
quando por sobre o ombro nos chama uma palmada;
Volta os olhos loucos, todo o vivido
estagna-se, como charco de culpa, no olhar.
Há golpes na vida, tão fortes... eu não sei!
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1
Fernando Namora
Intervalo
Quando nasci,
em rendas e afagos
Os rouxinóis vinham com a aurora esperar a Primavera
Mas o seu canto
Emudeceu de espanto
Como se o meu choro os degolasse.
Minha mãe, nessa noite,
Sonhara com o aceno húmido de um lenço
Branco
Num dia de partida.
Ó Terra
eu cheguei e tu ficaste ainda.
Porque não estoiraste se foste iludida
em rendas e afagos
Os rouxinóis vinham com a aurora esperar a Primavera
Mas o seu canto
Emudeceu de espanto
Como se o meu choro os degolasse.
Minha mãe, nessa noite,
Sonhara com o aceno húmido de um lenço
Branco
Num dia de partida.
Ó Terra
eu cheguei e tu ficaste ainda.
Porque não estoiraste se foste iludida
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1
Silvaney Paes
Letargia
Já que vais partir...
Faças como o vento ao cair da tarde
Anunciando negra noite de tempestade,
Mas leva este meu coração contigo,
Pois ele nunca amou este abrigo
E por ti, levou-me ao engano,
Renegando ser parte de mim ao me trair.
.
Irei prantear mas não morrerei,
Murmurarei como o pinheiral,
Curvar-me-ei, mas levantarei
Depois que passares
E ante teus ruidosos festejos,
Verão outros, neles, teus enganos,
Pois não foste capaz de arrebentar a fibra
Desta minh’alma que embora triste,
Além de ti, resiste e vive.
Mas vendo que partiste por completo,
Haverei de dormir meu sono letárgico,
Amofinado pela minha dor
E parecerá infindo meu negro crepúsculo ,
Onde d’outros olhos, busco ocultar vida
Recobrindo-me sob completa apatia,
Para suportar o meu mais fustigado inverno.
Perderei folha por folha,
Vez que, serão elas fragmentos d’alma,
Mas serão também as mágoas
E recordações lavadas com lágrimas,
Para voltando-se os olhares, n’outro dia,
Na direção desta alma d’antes declarada finda,
Vejam-se espantados com minha nova aurora,
Que clamará por novo amor em outra primavera.
Faças como o vento ao cair da tarde
Anunciando negra noite de tempestade,
Mas leva este meu coração contigo,
Pois ele nunca amou este abrigo
E por ti, levou-me ao engano,
Renegando ser parte de mim ao me trair.
.
Irei prantear mas não morrerei,
Murmurarei como o pinheiral,
Curvar-me-ei, mas levantarei
Depois que passares
E ante teus ruidosos festejos,
Verão outros, neles, teus enganos,
Pois não foste capaz de arrebentar a fibra
Desta minh’alma que embora triste,
Além de ti, resiste e vive.
Mas vendo que partiste por completo,
Haverei de dormir meu sono letárgico,
Amofinado pela minha dor
E parecerá infindo meu negro crepúsculo ,
Onde d’outros olhos, busco ocultar vida
Recobrindo-me sob completa apatia,
Para suportar o meu mais fustigado inverno.
Perderei folha por folha,
Vez que, serão elas fragmentos d’alma,
Mas serão também as mágoas
E recordações lavadas com lágrimas,
Para voltando-se os olhares, n’outro dia,
Na direção desta alma d’antes declarada finda,
Vejam-se espantados com minha nova aurora,
Que clamará por novo amor em outra primavera.
917
1
Silvaney Paes
O Lago
Estranho
Lago!
Num lugar ermo,
Seco, triste, árido,
Feito de algo reluzente e claro
Onde a lua...
Na melancolia do sol à tarde,
Na solidão da noite,
Ou no desespero da madrugada
Chora uma dor,
Naquele lago.
Mais que dele não se bebe,
Apenas se consente o pranto,
Ao vê-lo como espelho de almas.
E que parecendo límpido,
É salobro, insalubre e amargo,
De certos gostos e desgostos,
Que de mim, de ti, de tantos...
Emprestamos nossas dores
Para àquele lago.
Onde não se pode mergulhar,
Por não haver fundo nem volta,
Só os profundos e obscuros sentimentos,
De todos os dilapidados,
Restos de almas quase mortas,
Que pulsam e agonizam,
Como a dor de meu peito,
Sendo então feito àquele lago.
De fragmentos de vidas e lágrimas.
Lago!
Num lugar ermo,
Seco, triste, árido,
Feito de algo reluzente e claro
Onde a lua...
Na melancolia do sol à tarde,
Na solidão da noite,
Ou no desespero da madrugada
Chora uma dor,
Naquele lago.
Mais que dele não se bebe,
Apenas se consente o pranto,
Ao vê-lo como espelho de almas.
E que parecendo límpido,
É salobro, insalubre e amargo,
De certos gostos e desgostos,
Que de mim, de ti, de tantos...
Emprestamos nossas dores
Para àquele lago.
Onde não se pode mergulhar,
Por não haver fundo nem volta,
Só os profundos e obscuros sentimentos,
De todos os dilapidados,
Restos de almas quase mortas,
Que pulsam e agonizam,
Como a dor de meu peito,
Sendo então feito àquele lago.
De fragmentos de vidas e lágrimas.
945
1
Silvaney Paes
Moribundo diante de um Padre
Conhecendo
mais à dor...
Dela, devo tirar-lhe pálidos goles de gozo
E delirar em derradeiros instantes de riso,
Para que vossas piedosas intenções
Restem guardadas para uma outra alma,
Alienada de vosso rabanho.
E desde já,
Abro mão de ocultas baixezas,
Pois que declaro, sempre desejei
Fosse a vossa hora antes da minha.
E nada podeis ofertar a este moribundo...
Haja que, de nada mais careço.
Como crer em vosso falhado Deus Cristão?
Ele já foi a ilusão temporã deste peregrino
E por isso fui falhado homem de falhada sorte,
Mas, se agora me falha teimosa fibra,
Que dantes conduzia ralo líquido em mim,
Não haverá de falhar-me a morte onde falhou-me a vida.
E careço somente nela crer por ora.
Se neste instante derradeiro,
Em achando que blasfemo contra vosso senhor,
Pois que, lhe encomende o somatório de minhas faltas
E que profira zangada sentença.
Já cumpri todas as penas,
Nos meus cotidianos infernos e purgatórios,
Bem diante de vossos cegos olhos e surdos ouvidos
mais à dor...
Dela, devo tirar-lhe pálidos goles de gozo
E delirar em derradeiros instantes de riso,
Para que vossas piedosas intenções
Restem guardadas para uma outra alma,
Alienada de vosso rabanho.
E desde já,
Abro mão de ocultas baixezas,
Pois que declaro, sempre desejei
Fosse a vossa hora antes da minha.
E nada podeis ofertar a este moribundo...
Haja que, de nada mais careço.
Como crer em vosso falhado Deus Cristão?
Ele já foi a ilusão temporã deste peregrino
E por isso fui falhado homem de falhada sorte,
Mas, se agora me falha teimosa fibra,
Que dantes conduzia ralo líquido em mim,
Não haverá de falhar-me a morte onde falhou-me a vida.
E careço somente nela crer por ora.
Se neste instante derradeiro,
Em achando que blasfemo contra vosso senhor,
Pois que, lhe encomende o somatório de minhas faltas
E que profira zangada sentença.
Já cumpri todas as penas,
Nos meus cotidianos infernos e purgatórios,
Bem diante de vossos cegos olhos e surdos ouvidos
711
1
Silvaney Paes
Apenas Cartas
Sumir
de ti
Já não mais posso.
E se mesmo assim de mim sumir
Já não suporto.
Desse amar que nunca vi
Já não mais posso.
De um sofrer que já senti
Não mais suporto
De não tocar o que não vi
Será que posso
Amar um sonho?
Não posso
Já não suporto.
Se não sumir de mim
Verás que posso.
Amar, amar somente posso
Pois sofrer sem ti
Já não suporto.
de ti
Já não mais posso.
E se mesmo assim de mim sumir
Já não suporto.
Desse amar que nunca vi
Já não mais posso.
De um sofrer que já senti
Não mais suporto
De não tocar o que não vi
Será que posso
Amar um sonho?
Não posso
Já não suporto.
Se não sumir de mim
Verás que posso.
Amar, amar somente posso
Pois sofrer sem ti
Já não suporto.
726
1
Silvaney Paes
Vieram me Dizer
Vieram
me dizer...
Que onde pisei e dancei
Nasceram apenas espinhos;
Que não respeitei o tempo,
Diziam eles,
Da semeadura dos sonhos;
Que a vida é uma semente de ilusão
E que a felicidade
Alcança melhor aos tolos;
Que descobriria,
À priori,
"Que nunca mais",
De regra, é pouco tempo,
E que ele escoa indiferente
A minha vaidade
Ou a outras pretensões humanas,
E que dito tempo é reto,
Mesmo parecendo cumprir um círculo,
Vicioso...
Vieram me dizer...
Que esta minha espinha,
Dagora arqueada,
Tinha a finalidade
De virar uma estrada
Asfaltada por mágoas,
Alento doutras almas;
Que cada castelo de sonho
E todas as pontes imaginárias,
Que ergui,
Ruiriam todas,
Mas na verdade elas nunca me abrigaram,
Nunca me levaram a lugar nenhum;
Que uma estrada é dispensável
Se não pode nos levar a um destino,
Mas ela pode servir para voltar um dia;
Que as lágrimas que eu possa ter chorado,
Tornaram-me mais leve
Depois de exausto,
E por isso não fiquei de todo prostrado,
Embora continue perdido...
Vieram me dizer...
Que essa fome de ir embora
Colocaria meu coração de joelhos,
Estão em carne viva;
Que de joelhos
Poderia erguer preces,
Mas acabei encontrando Deus,
Não no princípio,
Ao final de tudo,
Quando, aquilo que nunca tive.
Já me bastava para levantar;
Que não basta estar faminto
E ter diante de si o melhor manjar,
Careceria querer comer,
Pois cada qual sabe da dor de sua fome
Ou de suas feridas;
Que essa fome de vida me atormentaria,
E só seria consumida com o ar que respiro
E a luz que vislumbro,
E que embora seja ferida aberta,
Sangrando...
Seria o alento de viva dor,
Uma esperança de redenção
Que também carrego,
Ar, esperança...
Continuo esperando.
me dizer...
Que onde pisei e dancei
Nasceram apenas espinhos;
Que não respeitei o tempo,
Diziam eles,
Da semeadura dos sonhos;
Que a vida é uma semente de ilusão
E que a felicidade
Alcança melhor aos tolos;
Que descobriria,
À priori,
"Que nunca mais",
De regra, é pouco tempo,
E que ele escoa indiferente
A minha vaidade
Ou a outras pretensões humanas,
E que dito tempo é reto,
Mesmo parecendo cumprir um círculo,
Vicioso...
Vieram me dizer...
Que esta minha espinha,
Dagora arqueada,
Tinha a finalidade
De virar uma estrada
Asfaltada por mágoas,
Alento doutras almas;
Que cada castelo de sonho
E todas as pontes imaginárias,
Que ergui,
Ruiriam todas,
Mas na verdade elas nunca me abrigaram,
Nunca me levaram a lugar nenhum;
Que uma estrada é dispensável
Se não pode nos levar a um destino,
Mas ela pode servir para voltar um dia;
Que as lágrimas que eu possa ter chorado,
Tornaram-me mais leve
Depois de exausto,
E por isso não fiquei de todo prostrado,
Embora continue perdido...
Vieram me dizer...
Que essa fome de ir embora
Colocaria meu coração de joelhos,
Estão em carne viva;
Que de joelhos
Poderia erguer preces,
Mas acabei encontrando Deus,
Não no princípio,
Ao final de tudo,
Quando, aquilo que nunca tive.
Já me bastava para levantar;
Que não basta estar faminto
E ter diante de si o melhor manjar,
Careceria querer comer,
Pois cada qual sabe da dor de sua fome
Ou de suas feridas;
Que essa fome de vida me atormentaria,
E só seria consumida com o ar que respiro
E a luz que vislumbro,
E que embora seja ferida aberta,
Sangrando...
Seria o alento de viva dor,
Uma esperança de redenção
Que também carrego,
Ar, esperança...
Continuo esperando.
874
1
Silvaney Paes
Maldição
Que seja
esse amor de tantas partes
que nunca aches que já é todo teu
para que de mim nunca te apartes
pois procurando esses pedaços
precisará que te repartas
em tantas partes
que te encontraras perdida,
apenas para que eu te ache.
E serão minhas todas as tuas partes.
Que possa você medi-lo um dia
mesmo quando parecer tão desmedido,
trazendo uma medida a cada dia.
Mas que nunca saibas
se ele é desse ou daquele outro dia,
porque terás que buscá-lo
dia após dia,
tantos quantos forem nossos dias.
Que possas dele te aperceber na hora exata,
para não perde-lo
e que dele seja toda hora,
de longas e infinitas horas.
Seja daquela de chorar no gozo,
de êxtase e de riso
mas que seja também de outras horas
de sofrer na dor, no lamento ou no grito.
E que ele ocupe no teu peito a maior parte,
trazendo uma medida que de tão descomedida,
seja a maldição de todos os teus dias
fincando no teu peito tantas raízes,
que nunca poderás negá-lo.
E mesmo se o declarares como morto,
escutarás sempre o seu grito:
-Amor... ESTOU VIVO!
esse amor de tantas partes
que nunca aches que já é todo teu
para que de mim nunca te apartes
pois procurando esses pedaços
precisará que te repartas
em tantas partes
que te encontraras perdida,
apenas para que eu te ache.
E serão minhas todas as tuas partes.
Que possa você medi-lo um dia
mesmo quando parecer tão desmedido,
trazendo uma medida a cada dia.
Mas que nunca saibas
se ele é desse ou daquele outro dia,
porque terás que buscá-lo
dia após dia,
tantos quantos forem nossos dias.
Que possas dele te aperceber na hora exata,
para não perde-lo
e que dele seja toda hora,
de longas e infinitas horas.
Seja daquela de chorar no gozo,
de êxtase e de riso
mas que seja também de outras horas
de sofrer na dor, no lamento ou no grito.
E que ele ocupe no teu peito a maior parte,
trazendo uma medida que de tão descomedida,
seja a maldição de todos os teus dias
fincando no teu peito tantas raízes,
que nunca poderás negá-lo.
E mesmo se o declarares como morto,
escutarás sempre o seu grito:
-Amor... ESTOU VIVO!
1 001
1
Caetano Ximenes Aragão
Poema
João vivia no precisado
de pertences só os penduricalhos
Maria vivia no acontecido
de emprenhar todos os anos
Seus filhos viviam de morrer
sem saber, antes do tempo.
de pertences só os penduricalhos
Maria vivia no acontecido
de emprenhar todos os anos
Seus filhos viviam de morrer
sem saber, antes do tempo.
929
1
Rogaciano Leite Filho
Relógio
No tic-tac do tempo
o mundo passa.
Presa entre cordas
e correntes,
a mente se cala.
E a vida passa.
Sofrendo e morrendo
entre canhões e balas
o sangue se coalha.
E o tempo vai.
Correndo com fome
entre muros altos e duros
o homem se perde.
Mas, a vida passa.
o mundo passa.
Presa entre cordas
e correntes,
a mente se cala.
E a vida passa.
Sofrendo e morrendo
entre canhões e balas
o sangue se coalha.
E o tempo vai.
Correndo com fome
entre muros altos e duros
o homem se perde.
Mas, a vida passa.
1 206
1
Reinaldo Ferreira
Feliz do que é levado a enterrar
Feliz do que é levado a enterrar,
Tão indiferente como quem nasceu!
Feliz do que não soube desejar,
Feliz, bem mais feliz do que sou eu!
Feliz do que não riu para não chorar,
Feliz do que não teve e não perdeu!
Feliz do que não sofre se ficar,
Feliz do que partiu e não sofreu!
Feliz do que acha bela e vasta a terra!
Feliz do que acredita a fome, a guerra,
Terrores imaginários de crianças!
Feliz do que não ouve o mundo aos gritos,
Feliz! Felizes todos e benditos
Os que Deus fez iguais às pombas mansas
Tão indiferente como quem nasceu!
Feliz do que não soube desejar,
Feliz, bem mais feliz do que sou eu!
Feliz do que não riu para não chorar,
Feliz do que não teve e não perdeu!
Feliz do que não sofre se ficar,
Feliz do que partiu e não sofreu!
Feliz do que acha bela e vasta a terra!
Feliz do que acredita a fome, a guerra,
Terrores imaginários de crianças!
Feliz do que não ouve o mundo aos gritos,
Feliz! Felizes todos e benditos
Os que Deus fez iguais às pombas mansas
1 858
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