Poemas neste tema
Dor e Desespero
Afonso Lopes de Almeida
A Alma da Tempestade
Filho, marido, pai, — toda a trindade
Do seu amor — o Mar pôde perdê-los...
Noite de vendaval: escuridade,
Relâmpagos, trovões, atros novelos
De nuvens, fragor de ondas, atropelos
De ventos... E ela olhava a imensidade
Encharcadas as roupas e os cabelos,
Na praia, em pé, hirta na tempestade.
E ainda hoje ela uiva as maldições e as pragas,
Louca, gênio, de um ódio ingênuo e mau,
No concerto dos ventos e das vagas.
Misturam-se-lhe os lúgubres lamentos
Na noite negra, ao troar dos raios, ao
Quebrar das ondas, ao gemer dos ventos!
Do seu amor — o Mar pôde perdê-los...
Noite de vendaval: escuridade,
Relâmpagos, trovões, atros novelos
De nuvens, fragor de ondas, atropelos
De ventos... E ela olhava a imensidade
Encharcadas as roupas e os cabelos,
Na praia, em pé, hirta na tempestade.
E ainda hoje ela uiva as maldições e as pragas,
Louca, gênio, de um ódio ingênuo e mau,
No concerto dos ventos e das vagas.
Misturam-se-lhe os lúgubres lamentos
Na noite negra, ao troar dos raios, ao
Quebrar das ondas, ao gemer dos ventos!
1 060
1
César William
Sufocação
Uns me afogam
inundam-me de fantasias.
Outros me cortam o sorriso,
Rompendo-me os dias.
E assim vou balbuciando
Com meus versos pródigos.
Sinto o que os outros sentem
O que não me deixaram sentir
E assim vou levando a vida
Sem deixar me permitir...
Outros me sepultam
Sem antes deixar que eu nasça
E assim vou levando (a vida)
— No cemitério ou na praça —
inundam-me de fantasias.
Outros me cortam o sorriso,
Rompendo-me os dias.
E assim vou balbuciando
Com meus versos pródigos.
Sinto o que os outros sentem
O que não me deixaram sentir
E assim vou levando a vida
Sem deixar me permitir...
Outros me sepultam
Sem antes deixar que eu nasça
E assim vou levando (a vida)
— No cemitério ou na praça —
787
1
Roberto Pontes
Chula da Rendeira
Na ponta dos teus dez dedos
tem uma perna de fio
de fio feito de nata
e bilros que vão batendo
a toada da matraca.
A cada passe um ponto
A cada ponto uma peça
uma angústia, um susto, um sarro
a flor seca da alvorada
e a tristeza em cada venda.
Em todo canto mil olhos
olhos postos na almofada
neles fervem pesadelos
neles moram sonhos pardos
das almas dos miseráveis.
Na renda moureja um anjo
em luta contra os maus fados
que têm nome de gente
a dureza dos diamantes
e o dorso nu das navalhas.
Zumbindo nos teus ouvidos
um diabo chamado fome
reúne seus comandados
e atiça seus humores
pra que não resistas tanto.
Pedaço da própria pele
quem disse merece preço?
Da rendeira faz-se uso
pois renda é pra ser trocada
por um pouco de sobejo.
Tem uma perna de fio
sem um pingo de beleza
nem ao menos como aquela
de uma teia de aranha
na ponta dos teus dez dedos.
(De Verbo Encarnado. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996)
tem uma perna de fio
de fio feito de nata
e bilros que vão batendo
a toada da matraca.
A cada passe um ponto
A cada ponto uma peça
uma angústia, um susto, um sarro
a flor seca da alvorada
e a tristeza em cada venda.
Em todo canto mil olhos
olhos postos na almofada
neles fervem pesadelos
neles moram sonhos pardos
das almas dos miseráveis.
Na renda moureja um anjo
em luta contra os maus fados
que têm nome de gente
a dureza dos diamantes
e o dorso nu das navalhas.
Zumbindo nos teus ouvidos
um diabo chamado fome
reúne seus comandados
e atiça seus humores
pra que não resistas tanto.
Pedaço da própria pele
quem disse merece preço?
Da rendeira faz-se uso
pois renda é pra ser trocada
por um pouco de sobejo.
Tem uma perna de fio
sem um pingo de beleza
nem ao menos como aquela
de uma teia de aranha
na ponta dos teus dez dedos.
(De Verbo Encarnado. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996)
986
1
Pedro Kilkerry
Amor volat
Não, não é comigo que ele nasceu... A sua asa
Só a um tempo ruflou desse modo, tamanho!
Bateu-me o coração... E outro não sei que, estranho,
Rudamente o rasgou como o seu bico em brasa...
Entrou-mo todo, enfim, como quem entra em casa
E em meu sangue, a cantar, fez de um boêmio no banho!
Oh! Que pássaro mau! E eu nunca mais o apanho!
Vês: estou velho já. Treme-me o passo, e atrasa...
Olha-me bem, no peito, o rubro ninho aberto!
Hoje fúnebre, a piar, uma estrige ao telhado
E o meu seio vazio! e o meu leito deserto!
E vivo só por ver, como curvo aqui fico,
Esse pássaro voar largamente, um bocado
de músculos pingando a levar-me no bico!
Só a um tempo ruflou desse modo, tamanho!
Bateu-me o coração... E outro não sei que, estranho,
Rudamente o rasgou como o seu bico em brasa...
Entrou-mo todo, enfim, como quem entra em casa
E em meu sangue, a cantar, fez de um boêmio no banho!
Oh! Que pássaro mau! E eu nunca mais o apanho!
Vês: estou velho já. Treme-me o passo, e atrasa...
Olha-me bem, no peito, o rubro ninho aberto!
Hoje fúnebre, a piar, uma estrige ao telhado
E o meu seio vazio! e o meu leito deserto!
E vivo só por ver, como curvo aqui fico,
Esse pássaro voar largamente, um bocado
de músculos pingando a levar-me no bico!
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1
Fernando Py
Sextina 2
A Cyro Pimentel
A vida me anoitece
de sofrê-la no açoite
e vivê-la vazio
da beleza que a tece
— mudo me faço e noite
cego surdo e sombrio.
O futuro é sombrio
quando a alma anoitece
e me engolfo na noite
e me entrego ao açoite
— voltas que a vida tece
nesse abismo vazio.
De coração vazio
escondo-me em sombrio
casulo que me tece
a vida que anoitece
a alma ao pleno açoite
que me oferece a noite.
Faço-me a própria noite
e em minhalma o vazio
silêncio lembra o açoite
latejante sombrio
da idade que anoitece
— fiação que me tece.
Pois tudo que me tece
lembra a pedra da noite
no peito que anoitece
— a alma sente o vazio
desse peso sombrio
à maneira de açoite.
Claro nítido açoite
é o que a vida me tece
extraindo o sombrio
refugo dessa noite
— deixa na alma o vazio
do corpo que anoitece.
Este açoite anoitece
e me tece vazio
no sombrio da noite.
A vida me anoitece
de sofrê-la no açoite
e vivê-la vazio
da beleza que a tece
— mudo me faço e noite
cego surdo e sombrio.
O futuro é sombrio
quando a alma anoitece
e me engolfo na noite
e me entrego ao açoite
— voltas que a vida tece
nesse abismo vazio.
De coração vazio
escondo-me em sombrio
casulo que me tece
a vida que anoitece
a alma ao pleno açoite
que me oferece a noite.
Faço-me a própria noite
e em minhalma o vazio
silêncio lembra o açoite
latejante sombrio
da idade que anoitece
— fiação que me tece.
Pois tudo que me tece
lembra a pedra da noite
no peito que anoitece
— a alma sente o vazio
desse peso sombrio
à maneira de açoite.
Claro nítido açoite
é o que a vida me tece
extraindo o sombrio
refugo dessa noite
— deixa na alma o vazio
do corpo que anoitece.
Este açoite anoitece
e me tece vazio
no sombrio da noite.
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1
Mário Hélio
25-V(A angústia)
a angústia é um barco
a angústia é um porto
a angústia é uma semente
na mente da carne do homem
louco que morre sem saber
a angústia é um homem
excessivamente morto
a angústia é um porto
a angústia é uma semente
na mente da carne do homem
louco que morre sem saber
a angústia é um homem
excessivamente morto
607
1
Manuel Geraldo
Memória I
Barco de fumo
Cérebros e ventres
Napalm e capim
Gatilho de arma
Espoleta e granada
Crâneos desfeitos
Vomitar de náuseas
Capim em fogo
Homens e gritos
Estoiros e rajadas
Vómitos de sangue
Alienação de um povo
Barco de fumo
Voltar à terra
Nascer de novo
Cérebros e ventres
Napalm e capim
Gatilho de arma
Espoleta e granada
Crâneos desfeitos
Vomitar de náuseas
Capim em fogo
Homens e gritos
Estoiros e rajadas
Vómitos de sangue
Alienação de um povo
Barco de fumo
Voltar à terra
Nascer de novo
986
1
Manuel Geraldo
Memória II
E à tarde
Os soldados voltavam
Traziam feridas
E balas a menos
Traziam memórias
De sonhos traídos
Traziam fadigas
De corpos caídos
Nos sacos e rostos
Traziam o regresso
Traziam memórias
Soldados sem armas
Voltavam em transe
Não eram os mesmos
Os soldados voltavam
Traziam feridas
E balas a menos
Traziam memórias
De sonhos traídos
Traziam fadigas
De corpos caídos
Nos sacos e rostos
Traziam o regresso
Traziam memórias
Soldados sem armas
Voltavam em transe
Não eram os mesmos
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1
Lucy Teixeira
Elegia Fundamental
Metamorfose,
os fundamentos de tua lógica
são cimentados de lâminas vivas,
Voraz, Vastíssima, cujos pé não vejo,
as tuas normas
em que ventre ou motor se organizaram?,
pura dilaceração continuada.
Obsessão cantando o seu nome ininterrupto,
nunca verei a tua face,
negra e fulgurante,
vagarosa e veloz,
impiedosa coisa inabalável
que me namora a coisa mais esplêndida;
ainda não, prestidigitadora,
a divertir-se já com o que me foi
suave raiz cujo perfume queimo
neste campo onde se luta uma lembrança.
Começa o teu sigilado festim,
enquanto as correias do ar,
sustentam o pavilhão onde ficamos
cada vez menos acariciados
e gradualmente aturdidos.
Começa o teu discurso, dragão,
e cresta, e cresta
onde em nós é que dói.
.........................................................
Pela manhã
ergue-se o ervatário
indo colher no campo
vagas ervas medicinais.
Colhe a luz do teu sorriso,
plantador cujas mãos,
cobertas de anéis de areia
agora possuem a Terra.
os fundamentos de tua lógica
são cimentados de lâminas vivas,
Voraz, Vastíssima, cujos pé não vejo,
as tuas normas
em que ventre ou motor se organizaram?,
pura dilaceração continuada.
Obsessão cantando o seu nome ininterrupto,
nunca verei a tua face,
negra e fulgurante,
vagarosa e veloz,
impiedosa coisa inabalável
que me namora a coisa mais esplêndida;
ainda não, prestidigitadora,
a divertir-se já com o que me foi
suave raiz cujo perfume queimo
neste campo onde se luta uma lembrança.
Começa o teu sigilado festim,
enquanto as correias do ar,
sustentam o pavilhão onde ficamos
cada vez menos acariciados
e gradualmente aturdidos.
Começa o teu discurso, dragão,
e cresta, e cresta
onde em nós é que dói.
.........................................................
Pela manhã
ergue-se o ervatário
indo colher no campo
vagas ervas medicinais.
Colhe a luz do teu sorriso,
plantador cujas mãos,
cobertas de anéis de areia
agora possuem a Terra.
1 225
1
Manuel Geraldo
Memória III
Pardas
as noites
Bazucas rasantes
Uivos de medo
Palhotas queimadas
Silêncios vaiados
Rajadas em fúria
Velhos crianças
De corpos varados
as noites
Bazucas rasantes
Uivos de medo
Palhotas queimadas
Silêncios vaiados
Rajadas em fúria
Velhos crianças
De corpos varados
843
1
Leila Cristina de Carvalho
Paradoxo
Meu coração partiu-se
Em duas partes iguais
Uma chora loucamente
Outra ri docemente
Uma é névoa negra
Outra nuvem cor-de-rosa
Uma é ferida que sangra
Outra riacho manso
Uma fez-se noite eterna
Outra repousa em silêncio.
Em duas partes iguais
Uma chora loucamente
Outra ri docemente
Uma é névoa negra
Outra nuvem cor-de-rosa
Uma é ferida que sangra
Outra riacho manso
Uma fez-se noite eterna
Outra repousa em silêncio.
945
1
Gláucia Lemos
Poema Para o Atormentado Silêncio
Que rei me colherá deste silêncio
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?
Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?
Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?
Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?
Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...
23.06.96
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?
Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?
Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?
Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?
Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...
23.06.96
1 140
1
Júlia Cortines
A Vingança de Cambises
Disseram — diz o rei a Prexaspes — que o vinho
Sobe presto à cabeça em denso torvelinho
De vapores, e a febre, o delírio produz,
Que irradiam no olhar uma sinistra luz.
Ou, pouco a pouco, pelo organismo se entorna,
Qual onda de torpor, voluptuosa e morna?
Disseram; e tu tens a ousadia de vir
Em face de teu rei palavras repetir
De estultos, e afirmar que o vinho afrouxa braços
Que fazem, como os meus, os reinos em pedaços?
Ao contrário; verás; (e bêbado entesou
No arco a flecha) porém é preciso que aponte
Um alvo; — o coração de teu filho.
E atirou,
Da criança, que nele o doce olhar fitava,
— Olhar que o etéreo azul do infinito espelhava, —
Varando lado a lado o peito e o coração.
E o pai disse, curvando humildemente a fronte:
— "Nem de Apolo é mais firme e mais certeira a mão."
Sobe presto à cabeça em denso torvelinho
De vapores, e a febre, o delírio produz,
Que irradiam no olhar uma sinistra luz.
Ou, pouco a pouco, pelo organismo se entorna,
Qual onda de torpor, voluptuosa e morna?
Disseram; e tu tens a ousadia de vir
Em face de teu rei palavras repetir
De estultos, e afirmar que o vinho afrouxa braços
Que fazem, como os meus, os reinos em pedaços?
Ao contrário; verás; (e bêbado entesou
No arco a flecha) porém é preciso que aponte
Um alvo; — o coração de teu filho.
E atirou,
Da criança, que nele o doce olhar fitava,
— Olhar que o etéreo azul do infinito espelhava, —
Varando lado a lado o peito e o coração.
E o pai disse, curvando humildemente a fronte:
— "Nem de Apolo é mais firme e mais certeira a mão."
477
1
Lígia Diniz
Por Isso
Por não me dares nada
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
876
1
Cynara Novaes
Ausência
Partida
ida
parte que fica
parte que vai
Afinal quem sofre?
Quem parte
ou quem fica
com a parte
de quem vai?
ida
parte que fica
parte que vai
Afinal quem sofre?
Quem parte
ou quem fica
com a parte
de quem vai?
916
1
Castro Alves
A Mãe do Cativo
Le Christ à Nazareth, atix jours de son enfance
Jouait avec Ia croix, symbole de sa mort;
Mère du Polonais! quil apprene davance
A combattre et braver les outrages du Sort.
Quil couve dans son sein sa colère et sa joie
Qu’il ses discours prudents distillent le venin,
Comme un aime obscur que son coeur se reploie
À terre, à deux genoux, quil rampe comme un nain
(Mickiewicz - A Mãe Polaca)
Ó mãe do cativo! que alegre balanças
A rede que ataste nos galhos da selva!
Melhor tu farias se à pobre criança
Cavasses a cova por baixo da relva.
Ó mãe do cativo! que fias à noite
As roupas do filho na choça da palha!
Melhor tu farias se ao pobre pequeno
Tecesses o pano da branca mortalha.
Misérrima! E ensinas ao triste menino
Que existem virtudes e crimes no mundo
E ensinas ao filho que seja brioso,
Que evite dos vícios o abismo profundo ...
E louca, sacodes nesta alma, inda em trevas,
O raio da esprança... Cruel ironia!
E ao pássaro mandas voar no infinito,
Enquanto que o prende cadeia sombria! ...
II
Ó Mãe! não despertes estalma que dorme,
Com o verbo sublime do Mártir da Cruz!
O pobre que rola no abismo sem termo
Pra quhá de sondá-lo... Que morra sem luz.
Não vês no futuro seu negro fadário,
Ó cega divina que cegas de amor?!
Ensina a teu filho - desonra, misérias,
A vida nos crimes - a morte na dor.
Que seja covarde... que marche encurvado...
Que de homem se torne sombrio reptíl.
Nem core de pejo, nem trema de raiva
Se a face lhe cortam com o látego vil.
Arranca-o do leito... seu corpo habitue-se
Ao frio das noites, aos raios do sol.
Na vida - só cabe-lhe a tanga rasgada!
Na morte - só cabe-lhe o roto lençol.
Ensina-o que morda... mas pérfido oculte-se
Bem como a serpente por baixo da chã
Que impávido veja seus pais desonrados,
Que veja sorrindo mancharem-lhe a irmã.
Ensina-lhe as dores de um fero trabalho...
Trabalho que pagam com pútrido pão.
Depois que os amigos açoite no tronco...
Depois que adormeça coo sono de um cão.
Criança - não trema dos transes de um mártir!
Mancebo - não sonhe delírios de amor!
Marido - que a esposa conduza sorrindo
Ao leito devasso do próprio senhor! ...
São estes os cantos que deves na terra
Ao mísero escravo somente ensinar.
Ó Mãe que balanças a rede selvagem
Que ataste nos troncos do vasto palmar.
III
Ó Mãe do cativo, que fias à noite
À luz da candeia na choça de palha!
Embala teu filho com essas cantigas...
Ou tece-lhe o pano da branca mortalha.
Jouait avec Ia croix, symbole de sa mort;
Mère du Polonais! quil apprene davance
A combattre et braver les outrages du Sort.
Quil couve dans son sein sa colère et sa joie
Qu’il ses discours prudents distillent le venin,
Comme un aime obscur que son coeur se reploie
À terre, à deux genoux, quil rampe comme un nain
(Mickiewicz - A Mãe Polaca)
Ó mãe do cativo! que alegre balanças
A rede que ataste nos galhos da selva!
Melhor tu farias se à pobre criança
Cavasses a cova por baixo da relva.
Ó mãe do cativo! que fias à noite
As roupas do filho na choça da palha!
Melhor tu farias se ao pobre pequeno
Tecesses o pano da branca mortalha.
Misérrima! E ensinas ao triste menino
Que existem virtudes e crimes no mundo
E ensinas ao filho que seja brioso,
Que evite dos vícios o abismo profundo ...
E louca, sacodes nesta alma, inda em trevas,
O raio da esprança... Cruel ironia!
E ao pássaro mandas voar no infinito,
Enquanto que o prende cadeia sombria! ...
II
Ó Mãe! não despertes estalma que dorme,
Com o verbo sublime do Mártir da Cruz!
O pobre que rola no abismo sem termo
Pra quhá de sondá-lo... Que morra sem luz.
Não vês no futuro seu negro fadário,
Ó cega divina que cegas de amor?!
Ensina a teu filho - desonra, misérias,
A vida nos crimes - a morte na dor.
Que seja covarde... que marche encurvado...
Que de homem se torne sombrio reptíl.
Nem core de pejo, nem trema de raiva
Se a face lhe cortam com o látego vil.
Arranca-o do leito... seu corpo habitue-se
Ao frio das noites, aos raios do sol.
Na vida - só cabe-lhe a tanga rasgada!
Na morte - só cabe-lhe o roto lençol.
Ensina-o que morda... mas pérfido oculte-se
Bem como a serpente por baixo da chã
Que impávido veja seus pais desonrados,
Que veja sorrindo mancharem-lhe a irmã.
Ensina-lhe as dores de um fero trabalho...
Trabalho que pagam com pútrido pão.
Depois que os amigos açoite no tronco...
Depois que adormeça coo sono de um cão.
Criança - não trema dos transes de um mártir!
Mancebo - não sonhe delírios de amor!
Marido - que a esposa conduza sorrindo
Ao leito devasso do próprio senhor! ...
São estes os cantos que deves na terra
Ao mísero escravo somente ensinar.
Ó Mãe que balanças a rede selvagem
Que ataste nos troncos do vasto palmar.
III
Ó Mãe do cativo, que fias à noite
À luz da candeia na choça de palha!
Embala teu filho com essas cantigas...
Ou tece-lhe o pano da branca mortalha.
2 800
1
Castro Alves
Prometeu
Ó mon auguste mère, et vous enveloppe de la commune lumière, divin éther, voyez quels injustes tourments on me fait souffrir.
Qui compatit à cette grande souffrance, qui sapproche du rocher désert où se tord Prométhée? Quelques pauvres filles, pieds nus.
ÉSQUILO
Inda arrogante e forte, o olhar no sol cravado,
Sublime no sofrer, vencido — não domado,
Na última agonia arqueja Prometeu.
O Cáucaso é seu cepo; é seu sudário o céu,
Como um braço de algoz, que em sangueira se nutre,
Revolve-lhe as entranhas o pescoço do abutre.
Pra as iras lhe sustar... corta o raio a amplidão
E em correntes de luz prende, amarra o Titão.
Agonia sublime! ... E ninguém nesta hora
Consola aquela dor, naquela angústia chora.
Ai! por cúmlo de horror!... O Oriente golfa a luz,
No Olímpo brinca o amor por entre os seios nus.
De tirso em punho o bando das lúbricas bacantes,
Correm montanha e val em danças delirantes.
E ao gigante caído... a terra e o céu (rivais!...)
Prantos lascivos dão... suor de bacanais.
Mas não! Quando arquejante em hórrido granito
Se estorce Prometeu, gigantesco precito,
Vós, Nereidas gentis, meigas filhas do mar!
O oceano lhe trazeis... pra em prantos derramar...
Povo! povo infeliz! Povo, mártir eterno,
Tu és do cativeiro o Prometeu moderno...
Enlaça-te no poste a cadeia das Leis,
O pescoço do abutre é o cetro dos maus reis.
Para tais dimensões, pra músculos tão grandes,
Era pequeno o Cáucaso... amarram-te nos Andes.
E enquanto, tu, Titão, sangrento arcas aí,
O século da luz olha... caminha... ri...
Mas não! mártir divino, Encélado tombado!
Junto ao Calvário teu, por todos desprezado,
A musa do poeta irá — filha do mar —
O oceano de sua alma ... em cantos derramar ...
Qui compatit à cette grande souffrance, qui sapproche du rocher désert où se tord Prométhée? Quelques pauvres filles, pieds nus.
ÉSQUILO
Inda arrogante e forte, o olhar no sol cravado,
Sublime no sofrer, vencido — não domado,
Na última agonia arqueja Prometeu.
O Cáucaso é seu cepo; é seu sudário o céu,
Como um braço de algoz, que em sangueira se nutre,
Revolve-lhe as entranhas o pescoço do abutre.
Pra as iras lhe sustar... corta o raio a amplidão
E em correntes de luz prende, amarra o Titão.
Agonia sublime! ... E ninguém nesta hora
Consola aquela dor, naquela angústia chora.
Ai! por cúmlo de horror!... O Oriente golfa a luz,
No Olímpo brinca o amor por entre os seios nus.
De tirso em punho o bando das lúbricas bacantes,
Correm montanha e val em danças delirantes.
E ao gigante caído... a terra e o céu (rivais!...)
Prantos lascivos dão... suor de bacanais.
Mas não! Quando arquejante em hórrido granito
Se estorce Prometeu, gigantesco precito,
Vós, Nereidas gentis, meigas filhas do mar!
O oceano lhe trazeis... pra em prantos derramar...
Povo! povo infeliz! Povo, mártir eterno,
Tu és do cativeiro o Prometeu moderno...
Enlaça-te no poste a cadeia das Leis,
O pescoço do abutre é o cetro dos maus reis.
Para tais dimensões, pra músculos tão grandes,
Era pequeno o Cáucaso... amarram-te nos Andes.
E enquanto, tu, Titão, sangrento arcas aí,
O século da luz olha... caminha... ri...
Mas não! mártir divino, Encélado tombado!
Junto ao Calvário teu, por todos desprezado,
A musa do poeta irá — filha do mar —
O oceano de sua alma ... em cantos derramar ...
1 830
1
Castro Alves
AS TREVAS
(Traduzido de Lord Byron)
A meu amigo, o DR. Franco Meireles,
inspirado tradutor das "Melodias Hebraicas".
Tive um sonho que em tudo não foi sonho!...
O sol brilhante se apagava: e os astros,
Do eterno espaço na penumbra escura,
Sem raios, e sem trilhos, vagueavam.
A terra fria balouçava cega
E tétrica no espaço ermo de lua.
A manhã ia, vinha... e regressava...
Mas não trazia o dia! Os homens pasmos
Esqueciam no horror dessas ruínas
Suas paixões: E as almas conglobadas
Gelavam-se num grito de egoísmo
Que demandava "luz". Junto às fogueiras
Abrigavam-se. . . e os tronos e os palácios,
Os palácios dos reis, o albergue e a choça
Ardiam por fanais. Tinham nas chamas
As cidades morrido. Em torno às brasas
Dos seus lares os homens se grupavam,
Pra à vez extrema se fitarem juntos.
Feliz de quem vivia junto às lavas
Dos vulcões sob a tocha alcantilada!
Hórrida esprança acalentava o mundo!
As florestas ardiam! ... de hora em hora
Caindo seapagavam; crepitando,
Lascado otronco desabava em cinzas.
E tudo... tudo as trevas envolviam.
As frontesao clarão da luz doente
Tinham do inferno o aspecto... quando às vezes
As faíscas das chamas borrifavam-nas.
Uns, de bruços no chão, tapando os olhos
Choravam. Sobre as mãos cruzadas — outros —
Firmando a barba, desvairados riam.
Outros correndo à toa procuravam
O ardente pasto pra funéreas piras.
Inquietos, no esgar do desvario,
Os olhos levantavam pra o céu torvo,
Vasto sudário do universo — espectro —,
E após em terra se atirando em raivas,
Rangendo os dentes, blásfemos, uivavam!
Lúgubre grito os pássaros selvagens
Soltavam, revoando espavoridos
Num vôo tonto coas inúteis asas!
As feras stavam mansas e medrosas!
As víboras rojando senroscavam
Pelos membros dos homens, sibilantes,
Mas sem veneno... a fome lhes matavam!
E a guerra, que um momento sextinguira,
De novo se fartava. Só com sangue
Comprava-se o alimento, e após à parte
Cada um se sentava taciturno,
Pra fartar-se nas trevas infinitas!
Já não havia amor! ... O mundo inteiro
Era um só pensamento, e o pensamento
Era a morte sem glória e sem detença!
O estertor da fome apascentava-se
Nas entranhas ... Ossada ou carne pútrida
Ressupino, insepulto era o cadáver.
Mordiam-se entre si os moribundos
Mesmo os cães se atiravam sobre os donos,
Todos exceto um só... que defendia
O cadáver do seu, contra os ataques
Dos pássaros, das feras e dos homens,
Até que a fome os extinguisse, ou fossem
Os dentes frouxos saciar algures!
Ele mesmo alimento não buscava ...
Mas, gemendo num uivo longo e triste,
Morreu lambendo a mão, que inanimada
Já não podia lhe pagar o afeto.
Faminta a multidão morrera aos poucos.
Escaparam dous homens tão-somente
De uma grande cidade. E se odiavam.
... Foi junto dos tições quase apagados
De um altar, sobre o qual se amontoaram
Sacros objetos pra um profano uso,
Que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas
Reunindo nas mãos frias de espectros,
De seus sopros exaustos ao bafejo
Uma chama irrisória produziram! ...
Ao clarão que tremia sobre as cinzas
Olharam-se e morreram dando um grito.
Mesmo da própria hediondez morreram,
Desconhecendo aquele em cuja fronte
Traçara a fome o nome de Duende!
O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida,
Populosa tornou-se numa massa
Sem estações, sem árvores, sem erva.
Sem verdura, sem homens e sem vida,
Caos de morte, inanimada argila!
Calaram-se o Oceano, o rio, os lagos!
Nada turbava a solidão profunda!
Os navios no mar apodreciam
Sem marujos! os mastros desabando
Dormiam sobre o abismo, sem que ao menos
Uma vaga na queda alevantassem,
Tinham morrido as vagas! e jaziam
As marés no seu túmulo... antes delas
A lua que as guiava era já morta!
No estagnado céu murchara o vento;
Esvaíram-se as nuvens. E nas trevas
Era só trevas o universo inteiro.
A meu amigo, o DR. Franco Meireles,
inspirado tradutor das "Melodias Hebraicas".
Tive um sonho que em tudo não foi sonho!...
O sol brilhante se apagava: e os astros,
Do eterno espaço na penumbra escura,
Sem raios, e sem trilhos, vagueavam.
A terra fria balouçava cega
E tétrica no espaço ermo de lua.
A manhã ia, vinha... e regressava...
Mas não trazia o dia! Os homens pasmos
Esqueciam no horror dessas ruínas
Suas paixões: E as almas conglobadas
Gelavam-se num grito de egoísmo
Que demandava "luz". Junto às fogueiras
Abrigavam-se. . . e os tronos e os palácios,
Os palácios dos reis, o albergue e a choça
Ardiam por fanais. Tinham nas chamas
As cidades morrido. Em torno às brasas
Dos seus lares os homens se grupavam,
Pra à vez extrema se fitarem juntos.
Feliz de quem vivia junto às lavas
Dos vulcões sob a tocha alcantilada!
Hórrida esprança acalentava o mundo!
As florestas ardiam! ... de hora em hora
Caindo seapagavam; crepitando,
Lascado otronco desabava em cinzas.
E tudo... tudo as trevas envolviam.
As frontesao clarão da luz doente
Tinham do inferno o aspecto... quando às vezes
As faíscas das chamas borrifavam-nas.
Uns, de bruços no chão, tapando os olhos
Choravam. Sobre as mãos cruzadas — outros —
Firmando a barba, desvairados riam.
Outros correndo à toa procuravam
O ardente pasto pra funéreas piras.
Inquietos, no esgar do desvario,
Os olhos levantavam pra o céu torvo,
Vasto sudário do universo — espectro —,
E após em terra se atirando em raivas,
Rangendo os dentes, blásfemos, uivavam!
Lúgubre grito os pássaros selvagens
Soltavam, revoando espavoridos
Num vôo tonto coas inúteis asas!
As feras stavam mansas e medrosas!
As víboras rojando senroscavam
Pelos membros dos homens, sibilantes,
Mas sem veneno... a fome lhes matavam!
E a guerra, que um momento sextinguira,
De novo se fartava. Só com sangue
Comprava-se o alimento, e após à parte
Cada um se sentava taciturno,
Pra fartar-se nas trevas infinitas!
Já não havia amor! ... O mundo inteiro
Era um só pensamento, e o pensamento
Era a morte sem glória e sem detença!
O estertor da fome apascentava-se
Nas entranhas ... Ossada ou carne pútrida
Ressupino, insepulto era o cadáver.
Mordiam-se entre si os moribundos
Mesmo os cães se atiravam sobre os donos,
Todos exceto um só... que defendia
O cadáver do seu, contra os ataques
Dos pássaros, das feras e dos homens,
Até que a fome os extinguisse, ou fossem
Os dentes frouxos saciar algures!
Ele mesmo alimento não buscava ...
Mas, gemendo num uivo longo e triste,
Morreu lambendo a mão, que inanimada
Já não podia lhe pagar o afeto.
Faminta a multidão morrera aos poucos.
Escaparam dous homens tão-somente
De uma grande cidade. E se odiavam.
... Foi junto dos tições quase apagados
De um altar, sobre o qual se amontoaram
Sacros objetos pra um profano uso,
Que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas
Reunindo nas mãos frias de espectros,
De seus sopros exaustos ao bafejo
Uma chama irrisória produziram! ...
Ao clarão que tremia sobre as cinzas
Olharam-se e morreram dando um grito.
Mesmo da própria hediondez morreram,
Desconhecendo aquele em cuja fronte
Traçara a fome o nome de Duende!
O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida,
Populosa tornou-se numa massa
Sem estações, sem árvores, sem erva.
Sem verdura, sem homens e sem vida,
Caos de morte, inanimada argila!
Calaram-se o Oceano, o rio, os lagos!
Nada turbava a solidão profunda!
Os navios no mar apodreciam
Sem marujos! os mastros desabando
Dormiam sobre o abismo, sem que ao menos
Uma vaga na queda alevantassem,
Tinham morrido as vagas! e jaziam
As marés no seu túmulo... antes delas
A lua que as guiava era já morta!
No estagnado céu murchara o vento;
Esvaíram-se as nuvens. E nas trevas
Era só trevas o universo inteiro.
5 521
1
Bulhão Pato
A Mãe e o Filho Morto
A pobre da mãe cuidava
Que o filhinho inda vivia,
E nos braços o apertavas
O coração que batia
Era o dela, e não do filho,
Que já do sono da morte
Havia instantes dormia.
Olhei, e fiquei absorto
Na dor daquela mulher
Que tinha, sem o saber,
Nos braços o filho morto!
Rezava, e do fundo dalma!
Enquanto a infeliz rezava
O pobre infante esfria
Quando gelado o sentira,
O grito que ela soltou,
Meu Deus! — que dor expressou!
Pensei então: a mulher,
Para alcançar o perdão
De quantos crimes tiver,
Na fervorosa oração,
Basta que Possa dizer:
"Tive um filhinho, Senhor,
E o filho do meu amor
Nos braços o vi morrer!"
Que o filhinho inda vivia,
E nos braços o apertavas
O coração que batia
Era o dela, e não do filho,
Que já do sono da morte
Havia instantes dormia.
Olhei, e fiquei absorto
Na dor daquela mulher
Que tinha, sem o saber,
Nos braços o filho morto!
Rezava, e do fundo dalma!
Enquanto a infeliz rezava
O pobre infante esfria
Quando gelado o sentira,
O grito que ela soltou,
Meu Deus! — que dor expressou!
Pensei então: a mulher,
Para alcançar o perdão
De quantos crimes tiver,
Na fervorosa oração,
Basta que Possa dizer:
"Tive um filhinho, Senhor,
E o filho do meu amor
Nos braços o vi morrer!"
1 229
1
Almeida Garrett
Víbora
Como a víbora gerado,
No coração se formou
Este amor amaldiçoado
Que à nascença o espedaçou.
Para ele nascer morri;
E em meu cadáver nutrido,
Foi a vida que eu perdi
A vida que tem vivido.
No coração se formou
Este amor amaldiçoado
Que à nascença o espedaçou.
Para ele nascer morri;
E em meu cadáver nutrido,
Foi a vida que eu perdi
A vida que tem vivido.
3 100
1
Alexandre de Gusmão
A Júpiter Supremo Deus do Olimpo
Númen que tens do mundo o regimento,
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniqüidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer que um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, se isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniqüidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer que um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, se isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
1 527
1
Alexandre Marino
Represa
Meu coração
é duro e forte como a represa
que segura as águas da correnteza
como eu seguro esta ferida
se vem a sede
e o amor quer inundar o meu deserto
a represa explode linda e dolorida
sem saber se é errado ou certo
minha barragem
abre-se às águas do meu canto
e a violência do amor que espuma
mata a sede e também me afoga
e a paisagem
assustada com a enchente que ressoa
não consegue vedar meu coração
por mais que a ferida doa.
é duro e forte como a represa
que segura as águas da correnteza
como eu seguro esta ferida
se vem a sede
e o amor quer inundar o meu deserto
a represa explode linda e dolorida
sem saber se é errado ou certo
minha barragem
abre-se às águas do meu canto
e a violência do amor que espuma
mata a sede e também me afoga
e a paisagem
assustada com a enchente que ressoa
não consegue vedar meu coração
por mais que a ferida doa.
2 700
1
Álvares de Azevedo
Perdoa-me, Visão dos meus Amores
Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando! ...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
Se a ti ergui meus olhos suspirando! ...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
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