Poemas neste tema
Literatura e Palavras
António Diniz da Cruz e Silva
Ignorância e mau saber
[...]Pois se francês não foi, replica Lara,
Como monsieur lhe chamam?
Cum sorriso
Lhe torna o padre-mestre: Não se admire,
Que isto está sucedendo a cada passo;
Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo
Se tratam de monsieurs os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e, como é moda,
A quisemos seguir: e sobre tudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.
De tanto peso, pois, lhe volve o Lara,
É, padre jubilado, porventura
O saber francês que disso alarde
Fazer quisessem vossas reverências?
Por acaso sem esse sacramento
Não podiam salvar-se e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês para mim o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.
Não diga, senhor, tal; que, neste tempo,
Ó tempos, ó costumes! Diz o padre,
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar, ver, senhor, como um pascácio
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar nas ciências mais profundas
Sem que lhes escape a santa teologia,
Alta ciência aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Scoto,
Aos Bacónios, aos Lulos e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós, sem limite, vai grassando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa português casta linguagem,
Que em tantas traduções corre envasada
(traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas!
Ah! Se as marmóreas campas levantando
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões que com a pena
Ou com a espada e lança a pátria honraram,
Os vossos ideotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos ridículos autores
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito certamente pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhas modas afrontavam
Segunda vez de pejo morreriam.
Como monsieur lhe chamam?
Cum sorriso
Lhe torna o padre-mestre: Não se admire,
Que isto está sucedendo a cada passo;
Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo
Se tratam de monsieurs os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e, como é moda,
A quisemos seguir: e sobre tudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.
De tanto peso, pois, lhe volve o Lara,
É, padre jubilado, porventura
O saber francês que disso alarde
Fazer quisessem vossas reverências?
Por acaso sem esse sacramento
Não podiam salvar-se e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês para mim o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.
Não diga, senhor, tal; que, neste tempo,
Ó tempos, ó costumes! Diz o padre,
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar, ver, senhor, como um pascácio
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar nas ciências mais profundas
Sem que lhes escape a santa teologia,
Alta ciência aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Scoto,
Aos Bacónios, aos Lulos e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós, sem limite, vai grassando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa português casta linguagem,
Que em tantas traduções corre envasada
(traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas!
Ah! Se as marmóreas campas levantando
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões que com a pena
Ou com a espada e lança a pátria honraram,
Os vossos ideotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos ridículos autores
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito certamente pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhas modas afrontavam
Segunda vez de pejo morreriam.
830
António Diniz da Cruz e Silva
A francesia
Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo
Se tratam de Monsieur os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e como é moda,
A quisemos seguir, e sobretudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.
- De tanto peso pois (lhe volve o Lara)
É, padre jubilado, porventura
O saber o francês, que disso alarde
Fazer quisessem Vossas Reverências?
Por acaso, sem esse sacramento,
Não podiam salvar-se, e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês, para mim, o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.
- Não diga, senhor, tal! Que neste tempo
(Ó tempos, ó costumes! diz o padre)
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar! ver, senhor, como um pascácio,
De francês com dois dedos, se abalança
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar das ciências mais profundas,
Sem que lhe escape a santa teologia,
Alta ciência, aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Sesto,
Aos Bacónios, aos Lélios, e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós sem limite vai lavrando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa portuguesa, casta linguagem,
Que em tantas traduções anda envasada
(Traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas.
Ah! Se as marmóreas campas levantando,
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões, que com a pena
Ou com a espada e lança, a pátria ornaram,
Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos autores;
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito, certamente, pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhos modos afrontaram,
Segunda vez de pejo morreriam...
Mas eles têm desculpa. A negra fome
Os míseros mortais a mais obriga.
Sem saber o que escrevem, escrevendo
Buscam dela o remédio; e como logram
Os fins de seus intentos, o que escrevem
Seja ou não português, isso que monta?
Quem desculpa não tem, nem a merece,
É quem vedar-lho deve, e não lho veda...
Se tratam de Monsieur os Portugueses.
Isto, senhor, é moda, e como é moda,
A quisemos seguir, e sobretudo
Mostrar ao mundo que francês sabemos.
- De tanto peso pois (lhe volve o Lara)
É, padre jubilado, porventura
O saber o francês, que disso alarde
Fazer quisessem Vossas Reverências?
Por acaso, sem esse sacramento,
Não podiam salvar-se, e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro
Que o francês, para mim, o mesmo monta
Que a língua dos selvagens botocudos.
- Não diga, senhor, tal! Que neste tempo
(Ó tempos, ó costumes! diz o padre)
O saber o francês é saber tudo.
É pasmar! ver, senhor, como um pascácio,
De francês com dois dedos, se abalança
Perante os homens doutos e sisudos,
A falar das ciências mais profundas,
Sem que lhe escape a santa teologia,
Alta ciência, aos claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Sesto,
Aos Bacónios, aos Lélios, e a mim próprio.
Desta audácia, senhor, deste descoco,
Que entre nós sem limite vai lavrando,
Quem mais sente as terríveis consequências
É a nossa portuguesa, casta linguagem,
Que em tantas traduções anda envasada
(Traduções que merecem ser queimadas!)
Em mil termos e frases galicanas.
Ah! Se as marmóreas campas levantando,
Saíssem dos sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os antigos
Lusitanos varões, que com a pena
Ou com a espada e lança, a pátria ornaram,
Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos autores;
(Como se a bela e fértil língua nossa,
Primogénita filha da latina,
Precisasse de estranhos atavios!)
Súbito, certamente, pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala ou Moçambique;
Até que, já por fim desenganados
Que eram em Portugal, que portugueses
Eram também os que costumes, língua,
Por tão estranhos modos afrontaram,
Segunda vez de pejo morreriam...
Mas eles têm desculpa. A negra fome
Os míseros mortais a mais obriga.
Sem saber o que escrevem, escrevendo
Buscam dela o remédio; e como logram
Os fins de seus intentos, o que escrevem
Seja ou não português, isso que monta?
Quem desculpa não tem, nem a merece,
É quem vedar-lho deve, e não lho veda...
780
Thomas Brasch
Seis sentenças sobre Sofia
1.
Em Hamburgo vive a filha de um milionário em um quarto minúsculo e de seu ventre quente ainda me lembro.
2.
Ele era macio sob a blusa branca.
3.
Houvesse me casado com ela e com o dinheiro de seu pai, não escreveria poemas sobre ela, mas em vez disso estaria meditando sobre as formas poéticas do século XXI.
4.
Melhor: eu me lembro de seu ventre quente.
5.
Sofia, eu havia, Sofia, menina rica, Sofia, te imaginado mais fria.
6.
Em Hamburgo vive a filha de um milionário com um engenheiro de som em seu quarto minúsculo e de seu ventre e de sua conta bancária ainda me lembro.
Em Hamburgo vive a filha de um milionário em um quarto minúsculo e de seu ventre quente ainda me lembro.
2.
Ele era macio sob a blusa branca.
3.
Houvesse me casado com ela e com o dinheiro de seu pai, não escreveria poemas sobre ela, mas em vez disso estaria meditando sobre as formas poéticas do século XXI.
4.
Melhor: eu me lembro de seu ventre quente.
5.
Sofia, eu havia, Sofia, menina rica, Sofia, te imaginado mais fria.
6.
Em Hamburgo vive a filha de um milionário com um engenheiro de som em seu quarto minúsculo e de seu ventre e de sua conta bancária ainda me lembro.
1 088
H.C. Artmann
querida idolatrada
querida idolatrada orquídeanil prima ballerina
de chemnitz a missiones poughkeepsie u.r.s.s. recommandé
à senhora eu envio esta carta de amor
para que possa encaixá-la em seu lac de cygne
como um pássaro sibilante a mais a migrar
na pejada concha do céu junino da ômegabóboda
no recém-restaurado átrio da sinfônica do estado aleluia
eu sou em verdade um sem-vergonha um sacropândego
um heitor vira-copos a patinar campinas
por ousar dirigir esta carta a seu pas
de deux
mas eu nada exijo não eu tão-só peço-lhe
que aceite as pérolas que lanço a seus corpos
todos os seus sonhos misericordiosa sra.! saúdo-a! sua bença!
minha filiforminha escrita à pena minha carta em claro
minha extraordinária orig. pat. insígniaficante
como nada mais peço-lhe que a aceite como
um homem de princípios um rolls royce 59 uma ferrari 60
polidactilocomotiva a engatinhar para las vegas tou-tou
tou-tou tou-tou
uma banheira sob-medida no maksoud em são paulo
um swing em pub& cócegas em núcleos ricos de novela
em alphaville em estilo casa-grande-e-bengala do eng. arq.
e urbanista komudyabusxamavaoblableblufu-
lanim
e caso tudo isso não lhe chegue aos pés pois seja
ainda
uma diva radiante em sua próxima performance
a 23 deste 19h30 em ponto horário de brasília
merda merda merda
e uma ovação entre 69 cortinas e chuva de
rosas champagne
deus sobre os montes! o que deveria nem tudo
e que por certo nem tudo será minha epistolazinha
minha clara-neve
minha belíssima
minha fofa
minha tu tu
minha toda toda papoulacreponizada
via aérea par avion luftpost u.a.m.
no trajeto entre aa& bee
(tradução de Ricardo Domeneck)
de chemnitz a missiones poughkeepsie u.r.s.s. recommandé
à senhora eu envio esta carta de amor
para que possa encaixá-la em seu lac de cygne
como um pássaro sibilante a mais a migrar
na pejada concha do céu junino da ômegabóboda
no recém-restaurado átrio da sinfônica do estado aleluia
eu sou em verdade um sem-vergonha um sacropândego
um heitor vira-copos a patinar campinas
por ousar dirigir esta carta a seu pas
de deux
mas eu nada exijo não eu tão-só peço-lhe
que aceite as pérolas que lanço a seus corpos
todos os seus sonhos misericordiosa sra.! saúdo-a! sua bença!
minha filiforminha escrita à pena minha carta em claro
minha extraordinária orig. pat. insígniaficante
como nada mais peço-lhe que a aceite como
um homem de princípios um rolls royce 59 uma ferrari 60
polidactilocomotiva a engatinhar para las vegas tou-tou
tou-tou tou-tou
uma banheira sob-medida no maksoud em são paulo
um swing em pub& cócegas em núcleos ricos de novela
em alphaville em estilo casa-grande-e-bengala do eng. arq.
e urbanista komudyabusxamavaoblableblufu-
lanim
e caso tudo isso não lhe chegue aos pés pois seja
ainda
uma diva radiante em sua próxima performance
a 23 deste 19h30 em ponto horário de brasília
merda merda merda
e uma ovação entre 69 cortinas e chuva de
rosas champagne
deus sobre os montes! o que deveria nem tudo
e que por certo nem tudo será minha epistolazinha
minha clara-neve
minha belíssima
minha fofa
minha tu tu
minha toda toda papoulacreponizada
via aérea par avion luftpost u.a.m.
no trajeto entre aa& bee
(tradução de Ricardo Domeneck)
1 012
Orides Fontela
Cisne
Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
- a presença do cisne?
Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e - humana -
é esplendor memória
e sangue.
E
resta
não o cisne: a
palavra
- a palavra mesmo
cisne.
do livro Alba (1983)
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
- a presença do cisne?
Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e - humana -
é esplendor memória
e sangue.
E
resta
não o cisne: a
palavra
- a palavra mesmo
cisne.
do livro Alba (1983)
1 799
Florbela Espanca
Para quê?
Ao velho amigo João
Para que ser o musgo do rochedo
Ou urze atormentada da montanha?
Se a arranca a ansiedade e o medo
E este enleio e esta angústia estranha
E todo este feitiço e este enredo
Do nosso próprio peito? E é tamanha
E tão profunda a gente que o segredo
Da vida como um grande mar nos banha?
Pra que ser asa quando a gente voa
De que serve ser cântico se entoa
Toda a canção de amor do Universo?
Para que ser altura e ansiedade,
Se se pode gritar uma Verdade
Ao mundo vão nas sílabas dum verso?
Para que ser o musgo do rochedo
Ou urze atormentada da montanha?
Se a arranca a ansiedade e o medo
E este enleio e esta angústia estranha
E todo este feitiço e este enredo
Do nosso próprio peito? E é tamanha
E tão profunda a gente que o segredo
Da vida como um grande mar nos banha?
Pra que ser asa quando a gente voa
De que serve ser cântico se entoa
Toda a canção de amor do Universo?
Para que ser altura e ansiedade,
Se se pode gritar uma Verdade
Ao mundo vão nas sílabas dum verso?
1 945
Rose Ausländer
Não te contenhas
Que
a cada instante
Deus viva e morra
sabe
o que o inspira
Por toda parte
cresce uma árvore
na qual
a bela serpente
enrosca-se
Tu conheces
a maçã-palavra
Sejamos mortais
façamos o proibido
Não
te contenhas
Verweile nicht
Dass
jeden Augenblick
Gott stirbt und lebt
weiss
der ihn einatmet
Überall
wächst ein Baum
um den
die schöne Schlange
sich windet
Du kennst
das Apfelwort
Lass uns tödlich sein
Verbotenes tun
Verweile nicht
a cada instante
Deus viva e morra
sabe
o que o inspira
Por toda parte
cresce uma árvore
na qual
a bela serpente
enrosca-se
Tu conheces
a maçã-palavra
Sejamos mortais
façamos o proibido
Não
te contenhas
Verweile nicht
Dass
jeden Augenblick
Gott stirbt und lebt
weiss
der ihn einatmet
Überall
wächst ein Baum
um den
die schöne Schlange
sich windet
Du kennst
das Apfelwort
Lass uns tödlich sein
Verbotenes tun
Verweile nicht
877
Yu Xuanji
Deixando-se levar
Nenhum laço me prende; sempre livre,
vou sem destino, leve entre as paragens
Nuvens se abrem entre lua e rio,
amarras frouxas, barco em pleno mar
No Templo Liang,1tanger o alaúde,
no pavilhão recita-se o poema
Ter por abrigo as grutas de bambus
e nas veredas, pedras companheiras
Preciosos são o pardal, a andorinha
São ar a prata e o ouro, seus castelos
A primavera oferta verde o vinho,2
à noite a lua aquieta-se à janela
O passo estanca à fonte transparente
e em seu espelho, à imagem, deixo o grampo
Na cama, ébria, os livros me rodeiam
Cabelo aliso ao pente, enfim levanto-me
vou sem destino, leve entre as paragens
Nuvens se abrem entre lua e rio,
amarras frouxas, barco em pleno mar
No Templo Liang,1tanger o alaúde,
no pavilhão recita-se o poema
Ter por abrigo as grutas de bambus
e nas veredas, pedras companheiras
Preciosos são o pardal, a andorinha
São ar a prata e o ouro, seus castelos
A primavera oferta verde o vinho,2
à noite a lua aquieta-se à janela
O passo estanca à fonte transparente
e em seu espelho, à imagem, deixo o grampo
Na cama, ébria, os livros me rodeiam
Cabelo aliso ao pente, enfim levanto-me
1 159
Luís Miguel Nava
Em Sintra
As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
1 374
Rose Ausländer
A heranca II
É chegada a hora
de repartir a herança
toma
a maçã
mortal
e
a palavra
imortal
Das Erbe II
Es ist an der Zeit
das Erbe zu verteilen
nimm
den sterblichen
Apfel
und
das unsterbliche
Wort
de repartir a herança
toma
a maçã
mortal
e
a palavra
imortal
Das Erbe II
Es ist an der Zeit
das Erbe zu verteilen
nimm
den sterblichen
Apfel
und
das unsterbliche
Wort
854
Heiner Müller
Lamento do historiador
No quarto livro dos ANNALES Tácito queixa-se
Pela duração do tempo de paz, mal interrompido
Por disputas fronteiriças pueris, com a descrição
Das quais precisa contentar-se, cheio
De inveja de seus predecessores
Que tiveram à disposição guerras-mamute
Com imperadores à frente, exigindo uma Roma
Sempre maior, povos subjugados, reis cativos
Revoltas e crises de estado: material dos bons.
E Tácito desculpa-se junto a seus leitores.
Eu, por minha vez, dois mil anos depois dele,
Não preciso desculpar-me e não posso
Queixar-me da falta de bom material.
(tradução de Ricardo Domeneck)
Pela duração do tempo de paz, mal interrompido
Por disputas fronteiriças pueris, com a descrição
Das quais precisa contentar-se, cheio
De inveja de seus predecessores
Que tiveram à disposição guerras-mamute
Com imperadores à frente, exigindo uma Roma
Sempre maior, povos subjugados, reis cativos
Revoltas e crises de estado: material dos bons.
E Tácito desculpa-se junto a seus leitores.
Eu, por minha vez, dois mil anos depois dele,
Não preciso desculpar-me e não posso
Queixar-me da falta de bom material.
(tradução de Ricardo Domeneck)
963
Barrie Phillip Nichol
Poema do segundo livro deThe Martyrology
santo do sem-nome
santo de ósculos
teus lábios estão sobre mim
dentágil& gargolhada
vozes terminais na sala-de-estar
enfermo de cama na tristeza
saí porta afora aquela última vez& disse
esvaí-me em sangue por palavras pela boca
adiante:
tenta escrever o poema em que respiro
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
saint of no-names
saint of kisses
your lips are on me
sharp-tooth & giggle-eye
final voices in the living room
sick in bed with grief
walked out the door that last time & told you
bled my mouth dry for words
later:
try to write the poem i breathe in
(from Martyrology 2)
432
Kenneth Koch
Um trem pode esconder outro
Um trem pode esconder outro
(sinal num cruzamento de trem no Quênia)
Num poema uma linha pode esconder outra linha,
Como num cruzamento, um trem pode esconder outro trem
Isto é, se você está esperando para atravessar
Os trilhos, espere ao menos um momento depois que
O primeiro trem tiver partido. Também ao ler
Espere até você ter lido a linha seguinte –
Só então é seguro prosseguir a leitura.
Numa família uma irmã pode ocultar outra,
Então, quando você estiver paquerando uma delas, é melhor ter todas à vista
Caso contrário, ao descobrir uma você pode já estar amando outra
Se você é mulher, um pai ou um irmão podem esconder
O homem que você esperou para amar
Assim, sempre em frente a uma coisa, a outra
Como as palavras à frente dos objetos, sentimentos e idéias.
Um desejo pode esconder outro. E a reputação de alguém
Pode esconder a reputação de outro. Um cão pode ocultar
Outro num gramado, e se você consegue fugir do primeiro não necessariamente está a salvo
Um lilás pode esconder outro e então vários lilases e na Via Ápia uma sepultura
Pode esconder uma quantidade de outras sepulturas. No amor, uma censura pode esconder outra,
Uma pequena queixa pode esconder outra enorme.
Uma injustiça pode esconder outra – um colono pode esconder outro
Um uniforme vermelho gritante, outro e, outro, uma coluna inteira. Um banho pode apagar outro banho
Como quando depois de tomar banho você sai na chuva
Uma idéia pode esconder outra: A vida é simples
Esconder a vida é incrivelmente complexo, como na prosa de Gertrude Stein
Uma linha esconde outra e é outra ao mesmo tempo. E no laboratório
Uma invenção pode esconder outra invenção,
Uma noite pode esconder outra, uma sombra, um ninho de sombras
Um vermelho escuro, ou um azul, ou um púrpura – esta é uma pintura
Feita depois de Matisse. Alguém espera nos trilhos até que eles tenham passado,
Esses duplos escondidos ou, às vezes, parecidos. Um gêmeo idêntico
Pode esconder o outro. E pode mesmo haver mais ali! O obstetra
Olha para o Valley of the Var. Eu e minha mulher vivíamos ali, mas
Uma vida escondeu outra vida. Então ela se foi e eu fiquei.
Uma mãe agitada esconde a filha desengonçada. A filha por sua vez esconde
Sua própria filha agitada. Elas estão em
Uma estação de trem e a filha está carregando uma bolsa
Tão maior que a bolsa da mãe que acaba por escondê-la com êxito.
Ao se oferecer para carregar a bolsa da filha, vê-se confrontando pela mãe
E obrigado a carregar sua bolsa também. Alguém que pede carona
Pode esconder outra pessoa de propósito e uma xícara de café
Outra até que a pessoa fique ultra agitada. Um amor pode esconder outro amor ou o mesmo amor
Como quando “eu te amo” soa muito falso e encontra-se um
Amor melhor à espreita, como quando “estou cheio de dúvidas”
Esconde “tenho certeza de apenas uma coisa e é isso”
E também um sonho pode esconder outro como todos sabem, sempre. No Jardim do Éden
Adão e Eva podem esconder os verdadeiros Adão e Eva.
Jerusalém pode esconder outra Jerusalém.
Quando você chega a algo, pare para deixá-lo passar
Só então você poderá ver o que mais há ali. Em casa, não importa onde,
Caminhos internos apresentam perigo também; uma memória
Certamente esconde outra, de que fala aquela memória,
Como uma sucessão eterna para trás de entidades contempladas. Ao terminar de ler Uma viagem sentimental procure ao seu redor o Tristam Shandy, e veja se ele
Ainda está na estante, ele deve estar, e estará ainda mais forte
E mais denso e, conseqüentemente, tão escondido como Santa Maria Maggiore
Deve estar escondida por igrejas similares em Roma. Uma calçada
Pode esconder outra, como quando você adormece ali, e
Uma canção pode esconder outra canção: por exemplo “Stardust”
Esconde “What have they done to the Rain?” Ou vice-versa. Uma batida no andar de cima
Esconde o batuque da percussão. Um amigo pode esconder o outro, você se senta
[ao pé de uma árvore
Com um amigo e quando você se levanta para ir embora encontra outro
Com quem você teria preferido passar as horas conversando. Um professor,
Um médico, um êxtase, uma doença, uma mulher, um homem
Podem esconder outro. Pare para deixar o primeiro passar.
Você pensa Agora é seguro passar e então você é atropelado pelo seguinte.
Pode ser importante
Ter esperado pelo menos um momento para ver o que já estava ali.
(tradução de Marília Garcia,
publicada originalmente na revistaInimigo Rumor n. 20)
1 418
Tite de Lemos
áspera Prisma lápice cria'anza
áspera Prisma lápice cria'anza
la flecsa sena pied ah! senz' aPap
a imagignota iu velo, cino, manza
lar a mañan lefeu los fus deh lap
? ah , ssim, Uz prism a sphera vossos olhos
des fhh' olhamsse çus brutos vanall'ar
y oyo loero siam lahor come si molhan
as cquerras infinitamente du vagar
os músculos extrêmeros a musa
quem trouxe o ver a nua nau a única
rainha do oceano acolhedor e fundo
nozes loslazos vozla te enlaçassem
eu sou teu caçador e eu sou a tua casa
e si un undécimo varvar das Portas
: prisma. Ver
la flecsa sena pied ah! senz' aPap
a imagignota iu velo, cino, manza
lar a mañan lefeu los fus deh lap
? ah , ssim, Uz prism a sphera vossos olhos
des fhh' olhamsse çus brutos vanall'ar
y oyo loero siam lahor come si molhan
as cquerras infinitamente du vagar
os músculos extrêmeros a musa
quem trouxe o ver a nua nau a única
rainha do oceano acolhedor e fundo
nozes loslazos vozla te enlaçassem
eu sou teu caçador e eu sou a tua casa
e si un undécimo varvar das Portas
: prisma. Ver
821
Bob Cobbing
Este é um poema quadrado
Este é um poema quadrado.
Este poema é um quadrado.
É um poema este quadrado?
Este quadrado é um poema,
Este quadrado é. Um poema
É um poema – este quadrado.
Este é um quadrado-poema.
Um quadrado-poema é este
Poema. Este é um quadrado.
Um poema quadrado é este
Quadrado. Este é um poema,
este é. Um quadrado-poema.
985
Tite de Lemos
um último poema é uma fragata
um último poema é uma fragata
avizinhando-se do cais do porto
uma canção que nos consola e mata
alegremente o coração já morto
lembra-me gypsies, margaridas; chuvas
ressurreições. A brisa bruxa acorda
as donzelas princesas e as viúvas
senhoras dos seus mestres e seus corpos
os adeuses têm gosto de suspiros
são doces brevidades souvenirs
ursinhos de pelúcia esquecimentos.
Quando nos visitar a inconhecida
visitante estaremos, longe, ausentes
e ao mesmo tempo sempre, sempre, aqui.
.
.
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avizinhando-se do cais do porto
uma canção que nos consola e mata
alegremente o coração já morto
lembra-me gypsies, margaridas; chuvas
ressurreições. A brisa bruxa acorda
as donzelas princesas e as viúvas
senhoras dos seus mestres e seus corpos
os adeuses têm gosto de suspiros
são doces brevidades souvenirs
ursinhos de pelúcia esquecimentos.
Quando nos visitar a inconhecida
visitante estaremos, longe, ausentes
e ao mesmo tempo sempre, sempre, aqui.
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750
Pierre Albert-Birot
Fox Film
Ele vem a cavalo dos primórdios do mundo e enfim chega até nós
Seu sorriso brilhante como uma prata nova aparece antes de tudo
Abril antecede maio logo dois sorrisos que se olham formam uma ogiva
Zimmm... ele cruza as cidades atravessa a vida como um golpe de címbalos
Quatro sóis o iluminam por isso não há sombra que o persiga por detrás
Tudo se torna transparente o diabo é triste e gostaria de se matar
Todas as pequenas idéias se tornaram monumentos depois ele as esquece
O Mundo é grátis para os Poetas esses pais do Espaço e do Tempo
A gente deixa pra lá essa figura animal esse uniforme fashion que nos disfarça
E nos tornamos puros como um O os outros os outros estão fazendo fotos
Em nome do Pai eles que se entendam os que não têm nada a perder
Oh oh oh oh oh oh não se meta entre meus versos se você tem medo do fogo
Eles não servem para os que precisam que os dias se interliguem pelas noites
Os nomes que vestem as coisas ficaram no dicionário e tudo surgiu
As coisas então eram apenas nomes é inútil aprender a geografia
Antigamente havia cidades que se chamavam Moscou Melbourne ou Paris
(tradução de Marília Garcia, publicada no número impresso de estreia daModo de Usar & Co.)
663
Décio Pignatari
Escova
Plexiglás e nylon, da leve lucidez de
tua cútis, esses sessenta geisers se
levantam, podados a duralumínio, as
raízes translúcidas a nu na transparência – e
do cristal ao leite, os úberes capilares ex-
traem ou emitem a luz em extrato? es-
pelho escalpelado por dentro, refletindo o
avesso mais claro que o direito
pensas (em íons) o
obscuro exterior que te dá luz? perdes o
invisível palpável na poeira do uso? o
hábito da boca com
boqueira derrui o teu plexo glorioso de
nervos apolíneos, como os estalamitites-tites
brinquedos de carbonato aliciando luz em
escrínios de vácuo, espeleologia do
inútil adorável, de Vaucluse? pedra-ume
de angústia-standard, adstringindo o
espaço-luz, digesto cotidiano de um gesto ex-
perto, com louçanias de belle-époque, o
tracoma ofende o monopólio guloso de
estrita economia, apanágio malthus-
estrutural do teu sossego?
(teus es
pelhos por dentro) em linhas-d´água lique-
fazes as dúvidas, e enquanto o mundo passa, tu
és e bela, mas se mais de bilhão não
apreciam sequer os objetos concretos (pão) da
metáfora para te usar lindamente, só o
eterno te assegura a vida, ó
volúpia ótico –
manual, comestível epidérmico de
luxos módicos de alcovas-leoas de
invencível dentição, os teus ca-
belos têm o brilho perfeito das
calvícies do gênio, mas se o rigor conduz à
qualidade, 1/2 mundo está aquém de
tua água organizada e dura, lastro de
cristal de muitas fomes – ignorantes do
apetite verbal.
1 279
Amiri Baraka
Em memória do rádio
Quem já parou pra pensar na divindade de Lamont Cranston?
(Só Jack Kerouac, que eu saiba: & eu.
Já vocês é provável estavam na WCBS ou na Kate Smith,
Ou em algo igualmente sem graça.)
Que posso dizer?
É melhor se apaixonar e perder
Que passar linóleo nas suas salas de estar?
Sou um sábio ou algo do tipo?
Mandrake e o truque hipnótico da semana?
(Lembrem, não tenho os poderes de cura de Oral Roberts …..
Não posso, como F.J. Sheen, te dar salvação & dinheiro!
Não posso sequer te mandar prum satori na câmara de gás
[como Hitler ou Goody Knight
& Amor é quase a morte
Mais duas letras/ e o que dá?
A morte, além do mais
Quem entende isso?
Eu é que não ia querer andar nessa corda bamba.
Sábado de manhã a gente ouvia o Lanterna Vermelha e sua turma
[submarina.
Às 11, Faz de Conta/ & a gente fazia/& eu, o poeta, ainda faço,
[Graças a Deus!
O que ele dizia mesmo (já transformado, seguro & invisível & os
[descrentes não podiam tacar pedras?) “Heh, heh, heh,
Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens?
[O Sombra sabe.”
(tradução de Dirceu Villa)
Nota do tradutor:
Lamont Cranston era a identidade secreta do Sombra, herói das HQs e do rádio na década de 1940.
WCBS: Rádio nova-iorquina.
Kate Smith (1907 – 1986) foi uma cantora típica da era do rádio, veiculada pela rede CBS na década de 1940.
Oral Roberts: Evangelista televisivo dos EUA.
F.J. Sheen: Bispo norte-americano. O primeiro pregador televisivo a se tornar famoso.
Satori: “Iluminação”, termo do zen budismo.
Goodwin Knight (1896 – 1970), do Partido Republicano, foi governador da Califórnia na década de 1960, e praticou, como uma porção de outros, a pena de morte em câmara de gás, incluindo um episódio famoso, em que tentou deter uma execução: seu telefonema chegou dois minutos atrasado. Baraka pode estar jogando com o trocadilho sonoro do nome do governador, que poderia ser ouvido como good night, ou seja, “boa noite”.
Red Lantern, programa de rádio da década de 1940 que contava aventuras marinhas.
Let’s Pretend, programa de rádio da CBS, década de 1940.
"(...) o Sombra sabe": essa era a frase inicial do programa, e a frase que diziam sobre o Sombra nas HQs.
:
In Memory of Radio
Amiri Baraka
Who has ever stopped to think of the divinity of Lamont Cranston?
(Only jack Kerouac, that I know of: & me.
The rest of you probably had on WCBS and Kate Smith,
Or something equally unattractive.)
What can I say?
It is better to haved loved and lost
Than to put linoleum in your living rooms?
Am I a sage or something?
Mandrake's hypnotic gesture of the week?
(Remember, I do not have the healing powers of Oral Roberts...
I cannot, like F. J. Sheen, tell you how to get saved & rich!
I cannot even order you to the gaschamber satori like Hitler or Goddy Knight)
& love is an evil word.
Turn it backwards/see, see what I mean?
An evol word. & besides
who understands it?
I certainly wouldn't like to go out on that kind of limb.
Saturday mornings we listened to the Red Lantern & his undersea folk.
At 11, Let's Pretend
& we did
& I, the poet, still do. Thank God!
What was it he used to say (after the transformation when he was safe
& invisible & the unbelievers couldn't throw stones?) "Heh, heh, heh.
Who knows what evil lurks in the hearts of men? The Shadow knows."
O, yes he does
O, yes he does
An evil word it is,
This Love.
772
Pierre Albert-Birot
Nada
Ai perdoe as quatro letras a mais
Nem mesmo nada
E já é demais
Haveria que começar a História
Antes de seu começo
Creiamos que ela de fato começou
No branco a preceder este nada
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Rien
Pierre Albert-Birot
Oh pardon c´est quatre lettres de trop
Pas même rien
Et c´est encore trop
Il faudrait commencer l´Histoire
Avant son commencement
Qu´on veuille bien croire qu´elle commence en effet
Dans le blanc qui precède ce rien
763
Heiner Müller
Olhar estranho: despedida de Berlim
De minha cela perante a folha em branco
Na cabeça um drama para plateia nenhuma
Surdos os vencedores os vencidos mudos
Sobre a cidade estranha um olhar estranho
Cinza-amarelas passam as nuvens sobre mim
Branco-cinza cagam as pombas sobre Berlim
:
Fremder Blick: Abschied von Berlin
Aus meiner Zelle vor dem leeren Blatt
Im Kopf ein Drama für kein Publikum
Taub sind die Sieger die Besiegten stumm
Ein fremder Blick auf eine fremde Stadt
Graugelb die Wolken ziehn am Fenster hin
Weißgrau die Tauben scheißen auf Berlin
Na cabeça um drama para plateia nenhuma
Surdos os vencedores os vencidos mudos
Sobre a cidade estranha um olhar estranho
Cinza-amarelas passam as nuvens sobre mim
Branco-cinza cagam as pombas sobre Berlim
:
Fremder Blick: Abschied von Berlin
Aus meiner Zelle vor dem leeren Blatt
Im Kopf ein Drama für kein Publikum
Taub sind die Sieger die Besiegten stumm
Ein fremder Blick auf eine fremde Stadt
Graugelb die Wolken ziehn am Fenster hin
Weißgrau die Tauben scheißen auf Berlin
1 034
Leonardo Martinelli
Sweet Lou Reed
Sattelite's gone up to the skies
things like that drive me out of my mind
I watched for a little while
I like to watch things on TV
("Sattelite of Love", 1972)
I. Wild Intro 6:6
Fora de si: Lou Reed
no tranco da heroína
há dias sem comer
remoendo a visão
da planície lunar
diante da TV
II. Portrait of the Artist as a Young Fan 2:5:7
Na década de setenta
enquanto Lou patinava
pelas ruas de Manhattan
torrando pacos de dólares
em seringas e michês
o poeta era um garoto
forçado a ler e escrever
enquanto engolia a escória
da América, via satélite
sentado, em frente à TV
III. Cyber Code 3:4:5
Em noventa e dois
(vinte anos depois)
Lou aparecia
num show da turnê
Zoo TV, cantando
"Sattelite of Love" –
Bono Vox ao centro
do palco, Lou Reed
num telão acima,
ao vivo e a cores –
para milhões de
telespectadores.
(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)
things like that drive me out of my mind
I watched for a little while
I like to watch things on TV
("Sattelite of Love", 1972)
I. Wild Intro 6:6
Fora de si: Lou Reed
no tranco da heroína
há dias sem comer
remoendo a visão
da planície lunar
diante da TV
II. Portrait of the Artist as a Young Fan 2:5:7
Na década de setenta
enquanto Lou patinava
pelas ruas de Manhattan
torrando pacos de dólares
em seringas e michês
o poeta era um garoto
forçado a ler e escrever
enquanto engolia a escória
da América, via satélite
sentado, em frente à TV
III. Cyber Code 3:4:5
Em noventa e dois
(vinte anos depois)
Lou aparecia
num show da turnê
Zoo TV, cantando
"Sattelite of Love" –
Bono Vox ao centro
do palco, Lou Reed
num telão acima,
ao vivo e a cores –
para milhões de
telespectadores.
(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)
632
Bob Cobbing
poética do barulho doméstico
poética do barulho doméstico
tecido do dia-a-dia
uma língua silenciosa soando
um olho esquadrinhando
não terá uma duração uma página em branco
barulho ou silêncio
nós a articulamos com os olhos
pele polifônica de evento
em reservatórios da siderúrgica do significado
delir ativo do senso comum existente
interrogando fronteiras convencionais
por gesto e postura
por predisposição e por manipulação
humanos em sociedade como enxame coloquial
amorfia de indefinição comunitária
populações multiplicidades territórios
a parte feminina da linguagem
candidatas num concurso de beleza
corpus de sua obra
reprodução do eu preferencial
gosto aspirante
no mercado das palavras
desorientação erode ao redor como um abismo
o barulho sobrecarrega
(tradução de Ricardo Domeneck)
565
Leonardo Martinelli
Três torres, dois séculos, um dia
A primeira tornou-se mito
ao servir de suporte à loucura
de um poeta farto dos homens
a não ser por certa Susette
falecida quatro anos antes
dele abrir seu prontuário
no manicômio de Tübingen
em 11 de setembro de 1806
As outras chamavam-se Gêmeas
cravadas no centro de Manhattan
bombeando usura aos quatro cantos
da Terra – ainda estariam lá
não fora um tresloucado
do Extremo Oriente Médio
explodir ambas de uma vez
em 11 de setembro de 2001
(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)
ao servir de suporte à loucura
de um poeta farto dos homens
a não ser por certa Susette
falecida quatro anos antes
dele abrir seu prontuário
no manicômio de Tübingen
em 11 de setembro de 1806
As outras chamavam-se Gêmeas
cravadas no centro de Manhattan
bombeando usura aos quatro cantos
da Terra – ainda estariam lá
não fora um tresloucado
do Extremo Oriente Médio
explodir ambas de uma vez
em 11 de setembro de 2001
(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)
640