Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Herberto Helder
Os Cães Gerais Ladram Às Luas Que Lavram
os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora,
mas a gota de água treme e brilha,
não uses as unhas senão nas linhas mais puras,
e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia
e de fogo,
e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,
e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível
contra a turva sede da matilha,
com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, o ar cego:
e queres apenas
aquela gota viva entre as unhas,
enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros
à procura do ouro
mas a gota de água treme e brilha,
não uses as unhas senão nas linhas mais puras,
e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia
e de fogo,
e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,
e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível
contra a turva sede da matilha,
com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, o ar cego:
e queres apenas
aquela gota viva entre as unhas,
enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros
à procura do ouro
1 198
Herberto Helder
Não, Obrigado, Estou Bem, Nada de Novo,
não, obrigado, estou bem, nada de novo,
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou até se era eu o
destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre tantas violências
de sangue que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira tanto sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado — e o sangue corre e escorre dentro e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
— a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou até se era eu o
destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre tantas violências
de sangue que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira tanto sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado — e o sangue corre e escorre dentro e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
— a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
1 016
Herberto Helder
A Noite Que No Corpo Eu Tanto Tempo Trouxe
a noite que no corpo eu tanto tempo trouxe, setembro, o estio,
pálpebras seladas, unhas, e o sangue por baixo e em cima a faca
com que se talha a mão e a frase um pouco longa sangra,
e consta que no verso e reverso da língua se está mais vivo,
assim o súbito nos abra,
nos puxe, digo eu, aos sorvedouros do sono,
e seus estados e obras,
eu que sou isento, digo, que me devore um buraco ou fora ou dentro,
ou galáctico, ou uma pontada no coração tão de repente,
se alguém se vai embora não sei de onde para onde,
se se murmura: que toda a gente morre de si: ou agora ou
um pouco mais tarde, o que está certo
como qualquer mistério:
água quebrando os dedos até às pontas quando se escreve
de uma ponta à outra sobre as riscas do papel cantante,
mais coisa menos coisa, pequena coisa, ou: riacho frio, sorve-o a areia,
e acaba ali, como esta curta ária aqui tão perto do comêço
de seu esperançoso esperanto tanto quanto
já sabe alguém que aqui se capitula,
e abre este capítulo:
que tudo acaba: canção, talento, alento, papel, esferográfica,
alguma coisa movida a estrangeiro longínquo,
coisa fora do sistema, e mete medo,
e não é a beleza,
não é um rosto que estremeça junto ao nosso rosto,
e o pretexto é sempre este:
orvalho
pálpebras seladas, unhas, e o sangue por baixo e em cima a faca
com que se talha a mão e a frase um pouco longa sangra,
e consta que no verso e reverso da língua se está mais vivo,
assim o súbito nos abra,
nos puxe, digo eu, aos sorvedouros do sono,
e seus estados e obras,
eu que sou isento, digo, que me devore um buraco ou fora ou dentro,
ou galáctico, ou uma pontada no coração tão de repente,
se alguém se vai embora não sei de onde para onde,
se se murmura: que toda a gente morre de si: ou agora ou
um pouco mais tarde, o que está certo
como qualquer mistério:
água quebrando os dedos até às pontas quando se escreve
de uma ponta à outra sobre as riscas do papel cantante,
mais coisa menos coisa, pequena coisa, ou: riacho frio, sorve-o a areia,
e acaba ali, como esta curta ária aqui tão perto do comêço
de seu esperançoso esperanto tanto quanto
já sabe alguém que aqui se capitula,
e abre este capítulo:
que tudo acaba: canção, talento, alento, papel, esferográfica,
alguma coisa movida a estrangeiro longínquo,
coisa fora do sistema, e mete medo,
e não é a beleza,
não é um rosto que estremeça junto ao nosso rosto,
e o pretexto é sempre este:
orvalho
569
Herberto Helder
Do Tamanho da Mão Faço-Lhes o Poema da Minha Vida
do tamanho da mão faço-lhes o poema da minha vida, agudo e espesso,
pois aproveitou do que seria mênstruo,
e crepita agora,
o poema das mães conjuntas quando, ainda analfabetos,
procuramos as putas futuras,
e estremecemos às vezes de sacra folia,
trançados entre as coxas,
debaixo das bocas habilíssimas,
límpidos, loucos,
e são linhas sem tropeço, de osso, nervo, sangue, sopro
^e qual a matéria, e a razão, e a coesão, a força interna do capítulo do
assombro?
dans 1’ivresse,
e então penso: isto é assim:
da exacerbada cantiga das mães a gente tem
o movimento que imita a terra com seus elementos, seus ministérios
do tempo, a aguarrás, o sal grosso, a tinta das rosas
— e é tudo quanto se pode aprender até que a noite venha e desfaça,
a noite amarga
pois aproveitou do que seria mênstruo,
e crepita agora,
o poema das mães conjuntas quando, ainda analfabetos,
procuramos as putas futuras,
e estremecemos às vezes de sacra folia,
trançados entre as coxas,
debaixo das bocas habilíssimas,
límpidos, loucos,
e são linhas sem tropeço, de osso, nervo, sangue, sopro
^e qual a matéria, e a razão, e a coesão, a força interna do capítulo do
assombro?
dans 1’ivresse,
e então penso: isto é assim:
da exacerbada cantiga das mães a gente tem
o movimento que imita a terra com seus elementos, seus ministérios
do tempo, a aguarrás, o sal grosso, a tinta das rosas
— e é tudo quanto se pode aprender até que a noite venha e desfaça,
a noite amarga
1 030
Herberto Helder
Que Um Punhado de Ouro Fulgure No Escuso
que um punhado de ouro fulgure no escuso do mundo,
agora, antes que as palavras desapareçam,
que a palavra firmada brilhe,
porque tive também a força,
porque tive a graça e a desgraça,
porque fui e vim a andar entre muralhas de água,
espuma e grande perigo da razão e da vida,
e cheguei lá,
sobrevivente ao desastre das artes,
o louco,
o roído pelo coração adentro,
com lágrimas que me arrefeciam a cara depois de a lavrarem toda,
e já não acreditava na verdade e na realeza da forma,
nem movia a boca,
a testa,
a mão esquerda,
até que me levaram por cima das massas de água e de iodo,
rumo aos infernos que já em vida conhecera,
talvez uma braçada de rosas de inomináveis raças,
talvez um feixe de cardos,
talvez um botão simples todo cerrado sobre si mesmo,
talvez soprasse uma brisa como um nome nisso que era agora
minha língua nenhuma, sal de água grossa,
gosto agraz na boca,
um só nome para a terra toda
agora, antes que as palavras desapareçam,
que a palavra firmada brilhe,
porque tive também a força,
porque tive a graça e a desgraça,
porque fui e vim a andar entre muralhas de água,
espuma e grande perigo da razão e da vida,
e cheguei lá,
sobrevivente ao desastre das artes,
o louco,
o roído pelo coração adentro,
com lágrimas que me arrefeciam a cara depois de a lavrarem toda,
e já não acreditava na verdade e na realeza da forma,
nem movia a boca,
a testa,
a mão esquerda,
até que me levaram por cima das massas de água e de iodo,
rumo aos infernos que já em vida conhecera,
talvez uma braçada de rosas de inomináveis raças,
talvez um feixe de cardos,
talvez um botão simples todo cerrado sobre si mesmo,
talvez soprasse uma brisa como um nome nisso que era agora
minha língua nenhuma, sal de água grossa,
gosto agraz na boca,
um só nome para a terra toda
985
Herberto Helder
Ele Que Tinha Ouvido Absoluto Para As Músicas
ele que tinha ouvido absoluto para as músicas sumptuosas do verso
livre
ouvia a cada nó de sílaba
um silêncio de morte
livre
ouvia a cada nó de sílaba
um silêncio de morte
1 168
Herberto Helder
Um Dia Destes Tenho o Dia Inteiro Para Morrer
um dia destes tenho o dia inteiro para morrer,
espero que me não doa,
um dia destes em todas as partes do corpo,
onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
um dia inteiro para morrer completamente,
quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
o dom — que é um toque fundo na ferida da inteligência:
oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
:escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas linhas
espero que me não doa,
um dia destes em todas as partes do corpo,
onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
um dia inteiro para morrer completamente,
quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
o dom — que é um toque fundo na ferida da inteligência:
oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
:escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas linhas
1 042
Herberto Helder
Já Não Tenho Mão Com Que Escreva Nem Lâmpada
já não tenho mão com que escreva nem lâmpada,
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada a nada:
e acautela a tua dor que se não torne académica
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada a nada:
e acautela a tua dor que se não torne académica
711
Herberto Helder
Um Quarto Dos Poemas É Imitação Literária
um quarto dos poemas é imitação literária,
outro quarto é ainda imitação mas já irónica e colérica,
outro quarto é das labaredas da inquisição à volta,
outro quarto, o quarto, o que falta, é por causa da magnificência do mundo,
o quinto quarto absurdo é o das quatro patas cortadas,
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
como se fosse tão frio que cortasse até ao osso,
o imo do próprio nome assim metido na pedra,
tanto que ninguém sabia de quem era,
porque ficou todo dentro e não se via de fora:
nem o suor nem o sangue nem o sopro
outro quarto é ainda imitação mas já irónica e colérica,
outro quarto é das labaredas da inquisição à volta,
outro quarto, o quarto, o que falta, é por causa da magnificência do mundo,
o quinto quarto absurdo é o das quatro patas cortadas,
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
como se fosse tão frio que cortasse até ao osso,
o imo do próprio nome assim metido na pedra,
tanto que ninguém sabia de quem era,
porque ficou todo dentro e não se via de fora:
nem o suor nem o sangue nem o sopro
1 271
Herberto Helder
¿E a Música, a Música, Quando, Como, Em Que Termos
e a música, a música, quando, como, em que termos extremos
a ouvirei eu,
e ela me salvará da perda da terra, águas que a percorrem,
tão primeiras para o corpo mergulhado,
magníficas,
desmoronadas,
marítimas,
e que eu desapareça na luz delas —
só música ao mesmo tempo nos instrumentos todos,
curto poema completo,
com o autor cá fora salvo no derradeiro instante
numa poalha luminosa ?
a ouvirei eu,
e ela me salvará da perda da terra, águas que a percorrem,
tão primeiras para o corpo mergulhado,
magníficas,
desmoronadas,
marítimas,
e que eu desapareça na luz delas —
só música ao mesmo tempo nos instrumentos todos,
curto poema completo,
com o autor cá fora salvo no derradeiro instante
numa poalha luminosa ?
991
Herberto Helder
Escrevi Um Curto Poema Trémulo E Severo
escrevi um curto poema trémulo e severo,
sete ou nove linhas,
e a densa delicadeza dessas linhas
era cortada por uma ferida cega,
mas aquilo que o alimentava e unia
— fundo, devastador, incompreensível —
nem eu sabia o que era:
talvez a técnica atenção da morte
vigiasse arte tão breve, tão furtiva
sete ou nove linhas,
e a densa delicadeza dessas linhas
era cortada por uma ferida cega,
mas aquilo que o alimentava e unia
— fundo, devastador, incompreensível —
nem eu sabia o que era:
talvez a técnica atenção da morte
vigiasse arte tão breve, tão furtiva
1 141
Herberto Helder
Profano, Prático, Público, Político, Presto
profano, prático, público, político, presto, profundo, precário,
improvável poema,
contudo
nem eu estava à espera dos bárbaros que viriam devastar a terra,
porque éramos inocentes,
nós que só queríamos silêncio,
e a voz diria que se fosse preciso traziam Deus,
e é sim possível que trouxessem qualquer espectáculo com cristos nus e saltimbancos de feira,
e paus vermelhos,
paus amarelos,
paus virgens com linho ou algodão pintado,
paus compridos com petúnias como borboletas:
e eu achava inadmissível,
e tinha a meio da minha própria linguagem a dor sozinha em que súbito se repara,
e de que o poema se faz carregado e quente,
e não explicava nada,
e lá vinham os bárbaros como no episódio de Alexandria,
mais uma vez depois de Cavafis,
incendiada pelos soldados de César e do califa Ornar,
por franceses e ingleses e todos os outros bárbaros,
por todos os incapazes da medida intrínseca,
a densa meditação que conduz ao poema puro,
e nunca, nunca mais a paixão,
e então o centro mesmo do mundo é o centro de Alexandria,
livros, música, mão calígrafa movendo-se ainda,
olhos fechados víamos atrás das pálpebras a nossa vida ardente e muda e lenta,
e a carne desde o imo desfazia-se num soluço,
magoada, humana,
alexandrina,
e o mundo era pequeno,
mais pequeno com certeza que um poema de um verso único,
universo:
oh nunca mais quero viver no mundo!
improvável poema,
contudo
nem eu estava à espera dos bárbaros que viriam devastar a terra,
porque éramos inocentes,
nós que só queríamos silêncio,
e a voz diria que se fosse preciso traziam Deus,
e é sim possível que trouxessem qualquer espectáculo com cristos nus e saltimbancos de feira,
e paus vermelhos,
paus amarelos,
paus virgens com linho ou algodão pintado,
paus compridos com petúnias como borboletas:
e eu achava inadmissível,
e tinha a meio da minha própria linguagem a dor sozinha em que súbito se repara,
e de que o poema se faz carregado e quente,
e não explicava nada,
e lá vinham os bárbaros como no episódio de Alexandria,
mais uma vez depois de Cavafis,
incendiada pelos soldados de César e do califa Ornar,
por franceses e ingleses e todos os outros bárbaros,
por todos os incapazes da medida intrínseca,
a densa meditação que conduz ao poema puro,
e nunca, nunca mais a paixão,
e então o centro mesmo do mundo é o centro de Alexandria,
livros, música, mão calígrafa movendo-se ainda,
olhos fechados víamos atrás das pálpebras a nossa vida ardente e muda e lenta,
e a carne desde o imo desfazia-se num soluço,
magoada, humana,
alexandrina,
e o mundo era pequeno,
mais pequeno com certeza que um poema de um verso único,
universo:
oh nunca mais quero viver no mundo!
1 077
Herberto Helder
Como Distinguir o Mau Ladrão do Bom Ladrão
Heinrich von Kleist versus Johann Wolfgangvon Goethe
como distinguir o mau ladrão do bom ladrão? o mau ladrão
rouba a cinza e o bom ladrão rouba o fogo
como saber se é fogo ou cinza o que há à mão do roubo?
será que a cinza é só cinzenta e o fogo roubado queima até ao osso?
o fogo é posto ali para ser roubado pelos loucos,
a cinza é posta às portas do carnaval para espalhar no rosto,
para saber-se de quem foram a mão e o rosto do roubo,
e há isto: quem tem a mão queimada tem em tudo fogo posto,
obra, vida e corpo,
e no fundo da mão do outro não há nada, mesmo na mão cheia de ouro
(ou nela sobretudo)
como distinguir o mau ladrão do bom ladrão? o mau ladrão
rouba a cinza e o bom ladrão rouba o fogo
como saber se é fogo ou cinza o que há à mão do roubo?
será que a cinza é só cinzenta e o fogo roubado queima até ao osso?
o fogo é posto ali para ser roubado pelos loucos,
a cinza é posta às portas do carnaval para espalhar no rosto,
para saber-se de quem foram a mão e o rosto do roubo,
e há isto: quem tem a mão queimada tem em tudo fogo posto,
obra, vida e corpo,
e no fundo da mão do outro não há nada, mesmo na mão cheia de ouro
(ou nela sobretudo)
1 106
Herberto Helder
Nada Pode Ser Mais Complexo Que Um Poema
nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora
1 367
Alice Vieira
Precisa-se de poetas na América Latina
precisa-se de poetas na América Latina
precisa-se de poetas como precisa-se de vermute
fuzis de assalto
precisa-se de poetas na América Latina
precisa-se de poetas para
matar a fome com a ambivalência
de repulsivos moluscos bivalves
precisa-se de poetas na América Latina
com carta de apresentação
aos caudilhos precisa-se
quando a única via for
quando a corda no pescoço
servir de arrimo
precisa-se de poetas na América Latina
precisa-se de poetas como se um Sol anguloso
partisse
o edifício de fogo da ruína
precisa-se de poetas como precisa-se de vermute
fuzis de assalto
precisa-se de poetas na América Latina
precisa-se de poetas para
matar a fome com a ambivalência
de repulsivos moluscos bivalves
precisa-se de poetas na América Latina
com carta de apresentação
aos caudilhos precisa-se
quando a única via for
quando a corda no pescoço
servir de arrimo
precisa-se de poetas na América Latina
precisa-se de poetas como se um Sol anguloso
partisse
o edifício de fogo da ruína
661
Herberto Helder
As Metáforas
Trata-se de uma metáfora.
Compreenda-se que escrevo para explicar: que se trata de uma tumultuosa, desavinda multidão de metáforas encerradas numa única metáfora.
Que tem, esta, o ar complacente de apresentar uma imagem exemplar do mundo.
Duvido deste mundo, desta imagem — a metáfora que a escrita foi conseguindo no seu dinamismo interno e obscuro.
Alguém falou de duas mulheres realizando a virtude do espaço através de uma peça de roupa, um grande lençol branco, que desdobravam, pegando cada uma delas numa ponta.
Penso no espaço até me doer a cabeça.
É como este papel branco, o lençol idiomático, latejando, tremendo nas intenções das mãos — delas, que tremem das intenções inspiradas na experiência e na aspiração.
Repare-se no espaço.
Eu poderia abandoná-lo, a esse espaço — mas que seria de nós?
Porque os outros talvez esperem numa ponta do espaço.
Observe-se que há luz, e essa luz se moveu de uma treva cujo simples pensamento nos faz estremecer, aos que estiveram à espera, a mim que me tinha de salvar de um crime qualquer, talvez daquele momento anterior às primeiras linhas das cosmogonias — o caos precedente aos livros sagrados, para onde se trasladou a instauração do estilo — a aparição do espaço.
É certo que falo das plantas, dos animais, do homem e da mulher — disso que se conseguiu: a idade.
A sofreguidão, a vigília desesperada, o sono onde o corpo sem defesa é trabalhado pelo sobressalto interior.
Mas explico-me bem?
Temos de recorrer às fábulas laterais, ao que não foi, ou foi por uma razão independente — nota-se que, para a criação do espaço, se fala sobretudo do medo?
Se falo de mim, movendo-me para todos os lados, esperando inspirações, consultando as coisas, inventando espelhos para um rosto que se perdeu em enredos que não podem ser violados — se me engano em pequenos apólogos, pequenas fábulas, registos acessórios — não me terei perdido no espaço?
Porque o labirinto, veja-se, só é espaço para a boa contabilidade das emoções e pensamentos, se se tem a chave dele, se ele deixou de ser um labirinto.
Atente-se nos antigos: apresentavam um espaço.
Havia uma cronologia e hierarquia de seres, coisas, factos — convergiam todos, numa ordem, para a metáfora una, viva e real do mundo, que eles depois percorriam, estendendo lençóis, edificando casas, dizendo: pátria.
Escrevo um livro, estou a falar de nós — nós que nos esperamos, homens, por dilatar, com os poderes da emissão e da receptividade, os pontos imóveis onde apenas estávamos a ter atenção, expectativa.
Acontece-me este espanto: que as paisagens existem e que sou um homem diante de paisagens.
Então, não sei.
Primeiro: porquê, as paisagens?
Depois: porquê, diante?
E como: paisagens e diante?
E isto é que seria o essencial para o espaço.
Afirma-se que se compreende o fragmento, os fragmentos.
Diz-se mesmo: não há fragmentos.
Diz-se: não há tempo.
O que há é um sentido da idade — e diz-se que idade é já um sentido de espaço, de organização, como quem afirmasse que a comunicação estava estabelecida e, com ela, a unidade e o amor.
Sabem? — é bom ver dormir uma pessoa.
Assim, de fora, respirando devagar, os olhos fechados, a cabeça inclinada — tudo nela refluindo para aquele centro único do sono — desapareceu de nós o alarme, a dúvida, a confusão: eis a unidade.
Mas eu não assisto ao meu próprio sono, nem se pode oferecer o nosso próprio sono — ele pode apenas ser colhido por outrem, de passagem, por acaso.
Não é assim que se instaura um espaço.
Devo ter conhecimento da minha unidade.
O que eu percorro são as mortes, levo às costas todos os meus cadáveres.
E o que explico é isto: estamos inquietos, porque atingimos uma verdade insuportável — a metáfora, arquitectada sobre uma higiene dos sentimentos e acontecimentos, já não pode ser erguida para segurança da linguagem, para segurança de pessoas e bens.
Para o espaço.
Temos pequenas metáforas, temos uma colecção.
Tentamos a factura do círculo, com a ideia de que uma identificação do princípio com o fim possa encerrar o cumprimento do ser, a totalidade da vida — a sabedoria.
Em seguida olhamos, como se isso fosse o espaço e pudéssemos ser, nós os vagabundos, o exemplo do nascimento, desenvolvimento e preenchimento.
Ele dizia, Poe, (na Filosofia da Composição?) que só havia poemas curtos, ligados por aplicação, por partes mortas, num poema longo.
É isto.
Depois, ficar numa ilha, assistindo (e participando talvez nela) à acumulação de imagens — significa que se criou um espaço, ganhou uma perspectiva, se estendeu um lençol (essa ideia do Deguy!) sobre uma espécie de vazio, noite, desabitação, de solidão?
Começo a descobrir a verdadeira tristeza.
Tristeza quer dizer: ser obrigado a recorrer a qualquer coisa como a gratuidade, e enchê-la de uma súbita comoção.
Não creiam que alguém se possa salvar.
Não há uma verdadeira metáfora humana — um estilo.
Às vezes não durmo, para poder imaginar o meu sono.
Compreendo então como o destino do espírito é a tristeza.
Mas a tristeza apenas nos dá inteligência.
E então voltamo-nos para a contemplação das imagens do mundo, e ficamos com uma imagem.
Metemo-la numa garrafa e atiramo-la ao mar.
Algures, alguém recolhe a garrafa, lê a imagem e, como tinha feito o mesmo que nós, não entende o nosso conhecimento da tristeza.
Pensa: quem terá recolhido a minha imagem?
E compreende só, e mais uma vez, o seu próprio conhecimento da tristeza.
Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade.
As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído.
E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso.
E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas e, neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom.
E então a gente ama as mitologias delas.
À parte isso, o lugar era horrível.
As pessoas chiavam como os ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se.
Diziam: boa tarde, boa noite.
E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam.
Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente.
Tenho medo — diziam.
E depois amavam-se depressa, e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite.
Isto era uma parte da vida delas, e era uma das regiões (comovedoras) da sua humanidade, e o que é humano é terrível e possui uma espécie de palpitante e ambígua beleza.
E então a gente ama isto, porque a gente é humana, e amar é que é bom, e compreender, claro, etc.
E no tal lugar, de manhã, as pessoas acordavam.
Bom dia, bom dia.
E desatavam a correr.
É o meu inferno, é o meu paraíso, vai ser bom, vai ser terrível, está a crescer, faz-se homem.
E a gente então comove-se, e apoia, e ama.
Está mais gordo, mais magro.
E o lugar começa a ser cada vez mais um lugar, com as casas de várias cores, as árvores, e as leis, e a política.
Porque é preciso mudar o inferno, cheira mal, cortaram a água, as pessoas ganham pouco — e que fizeram da dignidade humana? — as reivindicações são legítimas.
Não queremos este inferno.
Dêem-nos um pequeno paraíso humano.
Bom dia, como está?
Mal, obrigado.
Pois eu ontem estive a falar com ela, e ela disse: sou uma mulher honesta.
E eu então fui para o emprego e trabalhei, e agora tenho algum dinheiro, e vou alugar uma casa decente, e o nosso filho há-de ser alguém na vida.
E então a gente ama, porque isto é a verdadeira vida, palpita bestialmente ali, isto é que é a realidade, e todos juntos, e abaixo a exploração do homem pelo homem.
E era horrível.
Ouvimos dizer que, numa delas, o pequeno inferno começou a aumentar por dentro, e ela pôs-se silenciosa e passava os dias a olhar para as flores, até que elas secavam, e ficava somente a jarra com os caules secos e a água podre.
Mas o silêncio tornava-se tão impenetrável que os gritos dos outros, e a solícita ternura, e a piedade em pânico — batiam ali e resvalavam.
E então a beleza florescia naquele rosto, uma beleza fria e quieta, e o rosto tinha uma luz especial que vinha de dentro, como a luz do deserto, e aquilo não era humano — diziam as pessoas.
E temos medo — pensavam.
E o ruído delas caminhava para trás, e as casas amorteciam-se ao pé dos jardins, mas é preciso continuar a viver.
E havia o progresso.
Eu tenho aqui, meus senhores, uma revolução.
Desejam examinar?
Por este lado, se fazem favor.
Aí à direita.
Muito bem.
Não é uma boa revolução?
Bem, compreende.
Claro, é uma belíssima revolução.
E é barata?
Uma revolução barata!?
Não, senhor, esta é uma verdadeira revolução.
Algumas vidas, alguns sacrifícios, alguns anos, algumas.
É um bocado cara.
Mas de boa qualidade, isso.
E o rosto, que se perdera, que possivelmente caíra do corpo e rolara debaixo das cadeiras, o rosto?
Lembra-se?
Como foi que ficou assim?
Não sei: tinha uma luz.
Sim, lembro-me: parecia uma flor que apodrecesse friamente.
Era horrível.
Boa noite.
E ela trazia um vestido de seda branca, e nesse dia fazia dezoito anos, e estava queimada do sol, e era do signo da Balança, e tomou os comprimidos todos, e acabou-se.
Não compreendo.
E julgas tu que eu compreendo?
Quem pode compreender?
Ela era a própria força, aquela irradiante virtude da alegria, aquele fulgor radical…, compreendes?
Sim, sim.
Tinha um vestido de seda, e era nova, e então acabou-se.
Para diante, para diante.
Não se deve parar.
Enforquem-nos, a esses malditos banqueiros.
Este vai ter trinta e cinco andares, será o mais alto da cidade.
Por pouco tempo, julgo eu.
Como?
Sim, vão construir um com trinta e seis, ali à frente.
Remodelemos o ensino.
Cantemos esta pequena canção que fala da flor da tília.
Bebamos um pouco.
E o outro, o outro, o que viu Deus, quando caminhava para o emprego?!
Isto, imaginem, às 8 h. e 45 m. de uma manhã de março.
Uma partida.
Uma partida de Deus?
Boa piada.
Não amará Deus essas maliciosas surpresas?
Um pequeno Deus folgazão?
Folgazão?!
Ele ficou doido.
Começou a gritar e a fugir.
Que Deus vinha atrás dele.
E depois?
Bem, lá construíram o prédio com trinta e seis andares, e o outro ficou em segundo lugar.
Isto é o trabalho do homem: pedra sobre pedra.
É belo.
Vamos amar isto?
Vamos, é humano, é do homem.
E então as crianças cresceram todas, e andavam de um lado para outro, e iam fazendo pela vida — como elas próprias diziam.
E então as condições sociais?
Sim, melhoraram muito.
Mas uma delas começou a beber, e depois o coração estoirou, e dela ficou apenas para os outros uma memória incómoda.
Parece que sim, que tinha demasiada imaginação, e levaram-na ao médico, e ele disse: aguente-se, e ela não se aguentou.
Era uma criança.
Não, não, nessa altura já tinha crescido, bebia pelo menos um litro de brandy por dia.
Nada mau, para uma antiga criança.
A verdade é que era uma criança, e não se aguentou, quando o médico disse: aguente-se.
E as ruas são tão tristes.
Precisam de mais luz.
Mas nesta, por exemplo, já puseram mais luz, e mesmo assim é triste.
É até mais triste do que as outras.
Estou tão triste.
Vamos para férias, para o pequeno paraíso.
Contaram-me que ele tinha uma alegria tão grande que não podia aguentar um copo na mão: quebrava-o com a força dos dedos, com a grande força da sua alegria.
Era um ser excepcional.
Depois foi-se embora, e até já desconfiavam dele, e ele embarcou, e talvez não houvesse lugar na terra para ele.
E onde está?
Mas era uma alegria bárbara, uma vocação terrível.
Partiu.
E agora chove, e vamos para casa, e tomamos chá, e comemos aqueles bolos de que tu gostas.
E depois, e depois?
Ele era belo e tremendo, com aquela sua alegria, e não tinha medo, e só a vibração interior da sua alegria fazia com que os copos se partissem entre os dedos.
Foi-se embora.
A milhares de quilómetros de distância, eu olhava num jornal as mãos do criminoso.
No outro hemisfério — enquanto era outono e o ar muito limpo estava colocado sobre as árvores vazias.
A lisa e fixa luz dava um relevo cruel às mãos brancas.
Acima delas, o rosto virava-se para o lado, e quase que era somente uma nódoa escura.
Mas na América, em volta da prisão, erguia-se uma nova noite — e turnos sucessivos de polícia interrogavam o homem.
No jardim grave, uma folha de plátano caía sobre as mãos assassinas.
Uma folha fria, que afastei com as minhas próprias mãos — e então essas minhas mãos, depois de a folha cair do jornal, tocavam a imagem (unicamente a rígida e branca imagem) das mãos do assassino.
As minhas mãos estavam quentes: eram umas doces mãos humanas — e a fotografia do homem, das suas mãos por baixo da cabeça escamoteada: a fotografia.
Outono: tempo de espera.
Que é que se espera?
As coisas dormem, depois hão-de aparecer em alíneas diferentes, com cem rostos, as coisas talvez todas inúteis.
É um jardim para exemplo, onde seguro um jornal que fala de tudo com uma espécie de turbulenta ignorância.
Bom lugar, bom instrumento para todos os equívocos: os meus, os da América.
Posso estar só, para um grande e tortuoso pacto por cima das leis, dos países, da simples justiça das gentes.
Na América, há uma estupenda ferocidade à volta do criminoso e do seu crime.
Ele está cercado, e as suas mãos cheias de culpa recuam, com o crime, diante da ferocidade americana.
Trata-se afinal, segundo parece, de um problema complicado: política.
Então o assassino revela-se mais patético, ele, com o seu crime tão agudo, procurando defender ainda as mãos carregadas, no meio da gente feroz.
O momento do crime já lá foi — o impulso, o instrumento, o gesto.
E a vítima, também.
Ficaram as mãos.
Afasto o jornal.
Como é?
A pessoa que se assume, com um crime.
E a polícia cheirando, os espertos cães cheios de faro.
As folhas tapam tudo, vedam-me o conhecimento do tempo a trabalhar sobre o mundo.
Talvez aconteça um grande milagre nas nossas vidas.
A terra está sempre a dar bons exemplos.
Alguma gente anda atenta a essas coisas.
Outra gente, porém, está completamente só, sem exemplos — e então procura realizar o exemplo mais extremo.
Quando se pensa nisso, não há nada a fazer.
Merda, diz-se, isto é um grande exemplo.
E a terra está por baixo, com o outono.
A terra vem em todos os manuais, como um acontecimento histórico.
Mas a mim, realmente, só me interessam os crimes.
E então apenas sei que ele está tremendamente só nos Estados Unidos.
Que isto de ser assassino não é brincadeira nenhuma.
Ele foi até ao fim, esse homem de cabeça em forma de nódoa e as mãos em primeiro plano, saturadas de um exemplo desesperadamente decisivo.
Os polícias cercam-no, farejando e abanando a cauda — e ele, só com o crime, vira a cabeça, desenvolve, mostra, recolhe as mãos, fá-las voltar à intimidade do próprio crime.
De modo que tudo aquilo se torna uma só coisa comovente, ameaçada e inexpugnável — a solidão.
Uma consequência, o movimento mesmo do acto — a pessoa com a sua força terrível, para a frente.
Isto, na América, onde os polícias se vão multiplicar em todas as direcções e pessoas.
Depois, no jardim (e ainda suficientemente de dia), a cara aparece melhor na 2.ª edição.
O jornal mostra que o homem tem um ligeiro sorriso ambíguo, que eu acho inteligente bastante para as mãos, estas sempre em bom plano.
Estou com o assassino, e todo o meu calor de homem se insere no problema, e a multidão americana roda um pouco sobre si mesma, sofre uma pequena deslocação e, confusa, esbarra no extraordinário sorriso do assassino, que a minha adesão torna mais sábio ainda.
Tudo isto para proteger as mãos — espantoso sinal, agora, do único acto, aquele pelo qual se ganham toda a culpa e solidão.
Entretanto, foram descobertas mais provas.
E o homem sorri — leve, alto — tremendamente ascético na sua culpa.
O céu vai escurecendo, vê-se menos no jornal a maneira como o sorriso se dirige aos Estados Unidos, e por isso posso supor, ou adivinhar, a sua verdadeira profundeza.
A raiz do sorriso é a mesma raiz das mãos.
É, primeiro, o acto — e, depois, a própria vocação humana (até que enfim aparecida) para realizar um acto espantosamente completo.
E as poucas palavras que se conhecem do criminoso aumentam a sombria gravidade do acto, tornam-no perfeitamente denso, esférico, acabado.
E é quando, ao outro dia, continuando a ser outono e a haver a mesma luz parada e polida para ver as novas fotografias e notícias, é quando o criminoso encontra o seu próprio assassino.
Incrível.
Ao princípio, tomo o caso como um fantástico folhetim.
Foi deste modo: ao transferir-se o criminoso de uma prisão para outra, um homem destacou-se do meio dos jornalistas e, atirando-se para a frente, disparou-lhe um tiro no coração.
Há fotografias.
Vê-se tudo muito bem.
Como direi?
Há na história, evidentemente, certo barroquismo e precipitação que talvez possamos chamar — americanos.
No entanto, não sei de história mais conforme com as leis da excepção.
Com o seu escandaloso imprevisto, está implacavelmente certa, do princípio ao fim.
Pela minha parte, reconheço que as mãos da fotografia prenderam o seu velho acto criminoso e ficaram para sempre com a força enigmática que as inspirou.
Reconheço ainda que o sorriso tocou os limites da significação e que a frase — não fui eu que matei, estou inocente — dita desde o começo e levada, inteira, para dentro do silêncio, pode ficar como o melhor esforço de equívoco.
E vêde como os Estados Unidos se desdobram em todos os sentidos da confusão.
Tenho de afastar do jornal muitas folhas de plátano, enquanto o meu amor abrange crime, solidão e silêncio, como se fossem uma só coisa: um limite, espécie de milagre ou extremo exemplo.
A minha solidão também cresce, à espera do seu crime e da sua heróica (ou irónica) dignidade.
Porque nunca se sabe bem se nos merecemos a nós mesmos.
Levanto-me do banco, atravesso o jardim, e tenho na minha frente uma cidade que desejaria fazer saltar a cargas de dinamite.
Numa noite do mês de março, estava o tempo esplêndido, olhei para as minhas mãos, e vi uma nódoa branca.
Compreendam-me.
Eu era um homem sereno, emocionalmente próspero, digamos, sem entretanto me entregar à dissipação.
Convivia com muita gente e podia fazer com que me amassem.
Claro, não amava ninguém, mas a minha vida era como que atravessada diariamente por um calor tranquilo e ligeiro.
E então vi de repente que tinha uma nódoa branca na mão direita.
Gosto da mão direita um pouco mais que da outra, pois tenho aquela ideia tradicional de que ela é um nobre instrumento da obra e está ligada superiormente ao espírito.
Além desta, eu possuía muitas outras ideias em que o espírito, a serenidade e a sabedoria constituíam uma espécie de centros vitais.
É isso: tinha o meu tempo, a memória e o futuro bem arrumados.
Achava-me, de certo modo, um indivíduo sem culpas, conhecendo algumas leis seguras, amando lentamente a terra e as estações.
Organizara mesmo um conjunto de aforismos, e acreditava na imparcialidade e — quem sabe? — talvez até acreditasse na justiça.
Havia de ter um dia um talhão de rosas e ser-lhes-ia dedicado.
Rosas tornam o espírito condescendente e vagaroso e dão aos gestos uma grave e amável subtileza.
Tinha esse projecto, o das rosas, certamente.
Mas estava sentado a ler, e então vi uma nódoa esbranquiçada na base do polegar da mão direita.
Pensei primeiro que fosse da luz, depois imaginei que alguma substância deixara ali a sua marca.
Mas não era, porque desloquei a mão e a mancha permanecia no mesmo sítio.
E quando a esfreguei com o polegar da mão esquerda, não se alterou, nem de leve.
Que pensar?
Devia ser, então, qualquer coisa como irritação de pele, um eczema branco.
Bem.
Eu tinha um grande equilíbrio interior e, embora aquele sinal no meu prezado corpo (na mão direita) me inquietasse um pouco, havia tudo o mais onde a serenidade se me garantira.
O livro era mesmo excelente e o mês de março sem chuva é dos que mais aprecio.
Quanto ao resto, é óbvio que eu desprezava — embora com gentileza e rectidão — as pessoas que estavam, ou entravam, ou saíam da minha vida.
Um homem de certa cultura e inteligência, cepticismo manso, uma esparsa ternura sem compromisso pelos seres e coisas.
Apoiava-me uma grande tradição.
Contudo, mais tarde, quando me fui deitar, ao colocar a mão sobre a cobertura da cama, notei que a mancha crescera.
Abrangia agora toda a base do dedo, fazendo uma espécie de grosseiro anel.
Lembro-me de que levantei a cabeça, um pouco de lado, e olhei para a janela onde as cortinas brancas estremeciam.
Vinha da rua, de um jardim próximo, um cheiro de cravos, suponho.
Ouvi também a voz de alguém, uma voz baixa de que só apanhei duas ou três palavras desligadas que, de súbito, me pareceram espantosas.
Mas eram palavras banais, talvez sobre o tempo, os cravos, a noite, sei lá.
A minha mão tremia, também me lembro, e a noite acumulou-se de repente dentro daquele instante único.
Estive à beira do pânico, mas olhei tudo de novo à minha volta e senti que vivia no lugar que eu próprio escolhera, e que eu era um homem coordenado com os meus dias, compreendendo bem que a minha força não estava ao alcance da maioria das pessoas.
Pensei nelas, nas pessoas, e achei belos, ainda que fáceis, os seus rostos e movimentos, e pensei que gostavam de mim, sem me exigirem demasiado.
Depois deitei-me e dormi, tendo decidido ir ao médico um desses dias, a ver do que se tratava aquela pequena mancha.
Durante a noite, tive um sonho incómodo, onde apareciam altas escadas de pedra, do cimo das quais eu fazia um imperceptível sinal de despedida a alguém que se encontrava em baixo, no último degrau.
Atravessei portas que se fechavam depois da minha passagem, sem que lhes tocasse.
Por fim, senti-me cair de um telhado que lentamente se inclinava, fazendo-me rolar até ao beiral.
No fundo, estava um pântano, e eu mergulhei nele.
No sonho, tinha a mão direita presa e fechada como sobre um punhado de brasas.
E então acordei e acendi a luz.
A mancha crescera e uma outra, ainda mais viva, apanhava-me quase toda a palma da mão.
Foi assim que os novos dias invadiram a minha vida, e eram dias sombrios e ardentes, enquanto as manchas iam cobrindo toda a mão, avançando já pelo pulso acima.
Não era ainda o medo, mas as minhas leis vacilaram e comecei a esconder a mão e a aproximar-me mais das outras pessoas.
Quanto ao médico que pensara consultar, tive de bani-lo, pois cada vez menos desejava saber o que eram precisamente as manchas brancas.
A mão ganhara uma insólita nobreza, outra, uma nobreza nova, terrível.
Ela, que me dera antes o sentido do exemplo criador, a mão humanista — perdera o seu talento de ser hábil e construtora, e era agora a mão dramática, proibida entre os homens, subversiva.
Sabia que ela se vingava, com a sua anunciação de um inédito sentido trágico, do quanto representara em dignidade plácida e inteligência sobre a desordem.
Arranjei uma luva, e esta terceira mão, de pelica, caminhava sem jeito, mas intacta, com a sua pureza artificial, nos objectos e movimentos.
Cheguei a possuir um pequeno talento de pelica.
Mas aproximava-me mais e mais das outras pessoas, e tinha com elas conversas ardentes e instáveis.
Começava a amá-las com aflição e a achar tremendamente belos os seus rostos, as palavras, as mãos com que, surpreendidas, tocavam na minha luva.
Em casa, punha-me a escutar o rumor dos vizinhos, os seus passos pelos quartos, as frases mais altas, as canções que trauteavam.
Ia para a janela, por detrás das cortinas, e tremia de emoção ao ver o movimento das ruas.
A mancha, porém, alastrava.
Já atingira um terço do antebraço e era cada vez mais branca.
A carne do polegar parecia tornar-se levemente esponjosa.
A mão esquerda principiara também a ser tocada e, uma manhã, descobri no meio da testa uma ligeira mancha circular, do tamanho de uma pequena moeda.
Ah, foi rápida a propagação.
Da raiz dos testículos subia já o florescimento maldito, enquanto nas mãos e no rosto as manchas aumentavam sempre.
Agora eu só saía à noite, a ocultas, comprando em lugares escusos alguma coisa para comer.
E o meu amor pelas pessoas também crescia, varado por singular violência e fraqueza, um pânico, uma melancolia enormes.
Um dia comprei uma garrafa de aguardente, e embebedei-me no meu quarto.
Despi-me todo, e eu era branco e repugnante.
Haviam-me caído as sobrancelhas e os pêlos do púbis e, um pouco por toda a parte, a carne tornara-se porosa como sabugo.
E então vi em mim, no meio da bebedeira, certa beleza tenebrosa, uma maldição pela qual me apaixonei.
Adormeci nu, sobre o soalho, chorando de tortuosa alegria.
Tornou-se forçoso afastar-me dos outros.
Poderia eu, acaso, meter-me inteiro dentro de uma grande luva de pelica, arranjar um talento artificial de pelica com todo o meu tamanho?
Porque era já notório o estado em que me achava.
O meu amor pelos outros, não obstante, desenvolvia-se sempre.
E só de imaginar que nas casas, nas ruas, debaixo do sol, ao vento que lhes agitava os cabelos — as pessoas andavam, corriam, falavam e sorriam e riam — só de imaginá-lo, ficava com os olhos húmidos.
Amava-as, com a maior profundeza, amava-as muito.
Nu, diante do alto espelho, tocava devagar no corpo e sentia vómitos.
Transformara-me num réptil branco e inconsistente.
Contudo, penso às vezes que não era, nem é, uma doença física, algo como lepra ou coisa assim.
Talvez o meu corpo esteja como dantes, limpo e vivo.
Talvez a lepra me tenha atacado noutro sítio, numa zona terrivelmente mais importante.
Talvez entre o amor e o mundo haja uma chaga pior, onde nem mesmo se espere esquecer ou fugir.
Os poetas interessam-se.
O amor dos mitos, dos lugares sobrecarregados.
O amor das alusões, símbolos e signos.
Os poetas interessam-se pelas crianças.
Isso — aperta a loucura contra ti, debaixo da gabardina — desce.
As cabeças já não são partes nobres das aventuras do corpo, não as envolvem as folhas que brotavam de uma grande tensão — a tremenda voltagem das imaginações.
Desce ao metropolitano — a isto que te é dado como figuração de um inferno sem maravilha.
Os poetas interessam-se pelos rostos.
São rostos esbulhados — os destes habitantes da semana.
Fazem uma vida com boa caligrafia, eles — e acabou-se.
Vão e voltam.
Uma pequena demência nos olhos?
Talvez.
Alguma coisa escapou aos dias — alguma coisa.
O corpo move-se no inferno debaixo.
A ti comove-te o silêncio por onde os corpos se deslocam com os minúsculos olhos intraduzíveis.
O silêncio esmagado pelos comboios, e logo restituído.
Um silêncio móvel, ameaçado, instável.
Aperta a gabardina.
Possuis uma alta voltagem — tu sim, poeta inédito.
Vemos que te interessas.
Lá tens as imagens turbulentas, a vertigem do silêncio interior.
Moves-te, comoves-te, desenvolves-te.
Apertas contra ti a tua loucura — e o olhar é o de um poeta inédito.
Tens uns belos olhos perscrutadores, fixos e aterrorizados.
Andas com uma graça implacável — sim, sim, incómoda.
Sente-se o circuito electromagnético em volta da cabeça.
Não tocar — perigo de morte.
Tal a terrível delicadeza do teu espírito, a força de anjo.
Tens outro ritmo.
Ainda te não calibraram.
És inédito, forte, doloroso.
Interessas-te pelas crianças.
Vemos isso quando os teus olhos tocam no rapazinho de onze anos, no fim da carruagem, e fogem, e voltam de novo para ele.
Interessas-te por onze anos, por essa estranha debilidade que os outros curam, o ritmo secreto da vacilação.
A tua loucura bate de áspero entusiasmo.
Tens uma perigosa ciência — sabes?
É que vês, revês, prevês, tresvês.
Andas para a frente e para trás, páras e corres, e ficas tenso ouvindo e vendo, com a loucura toda a trabalhar.
És sensível — demoníaco.
É quase impossível estares à altura dos teus dons.
Mas esforças-te — vê-se.
Trabalhas, trabalhas.
E de súbito és muito inteligente, alcanças tudo, ficas com o poder de te fascinares de uma ponta à outra do talento.
Um poeta como tu interessa-se pelos onze anos, pela criança.
Vê como o rapazinho sai nesta estação, e atravessa o cais.
Que pensas daquela forma de andar?
Ele oscila, parece um pêndulo, e a sua cara é triste, ele não percebe nada, não percebe a sua dor, e caminha rente às paredes do metro.
Tu percebes.
O teu ofício é perceber.
Amas.
Que pensas daquela forma de andar?
Sim, sim.
Que doçura trágica, não é?
Percebes a ambiguidade?
Se percebes.
Vê: fez qualquer coisa terrível, teve a sua grande força.
Agora está surpreendido.
Não sabia que a tinha, à força, e depois ficou com o medo da sua força maior que ele.
Vai dizer-te isso, aos onze anos, no seu ritmo, na sua linguagem suspensa e atemorizada.
Vai dizer: sabe?
E tu, tu — como tu sabes.
Segue-o.
Vemos como apanhaste o ritmo dele.
Pareces um lobo apaixonado, tens toda a esfaimada doçura de um lobo.
Pisas os passos dele, a pista insegura.
Já andas como ele, andas com onze anos, numa atenção obsessiva.
E a doçura do teu rosto, a sua velocidade amarga e calorosa.
Desce ao inferno, e vê: encontras um rosto tecido de novo, a macia textura de uma matéria quase virgem — encontras o teu enigma.
Nas escadas rolantes, quase sobre ele, aspiras o perfume da sua cabeleira de rapazinho.
Como tu o amas.
O perfume enche o teu silêncio todo.
Não, nem respiras.
Não te mexes.
Ficas cego.
Sabemos como te entregas, tão redescoberto, ao mais profundo terror.
Tens a ciência disso tudo.
É a tua profissão.
Reconhecer, instalar, ligar os contactos, mergulhar na alegria monstruosa.
És diabolicamente inédito.
A vida toda muito devagar.
E quando a boca do metropolitano vos puser — a ele, a esse espectáculo que estiveste prestes a denominar, mas ainda não; e a ti, seguidor trémulo, mestre e discípulo de um «eu» irreparável — quando, quando.
Sim, na praça quando, sob as árvores negras, no meio das temperaturas baixas — tudo construído para o exercício da piedade escandalosa.
Quando o abordares, e ele disser que sim ao magistério da tua idade enganadora, saída do anonimato para a vacilação, o pavor urbano dele.
Estou só, diz ele, mas.
Etc.
Tu compreendes.
Sabes que ele também já tinha o seu silêncio, e do silêncio nascia um incomportável sofrimento, e uma força.
E agora falas muito, e diriges a força dele e a sua fraqueza, e colocas tudo num lugar extraordinariamente seguro, ao que parece, e dizes: vamos tomar outra vez o metro, tenho o meu carro no outro lado da cidade.
Reparaste como os onze anos olharam para ti?
Não sabem que hão-de fazer, os onze anos, com o amor que nasceu neles, agora que saíste completamente do anonimato e és tão real, tão pessoal, tão próximo, tão corrítmico.
Ele vai — estamos mesmo a ver que vai, e o seu modo de andar é curiosamente mais seguro e o teu é menos seguro — vê-se.
Os poetas interessam-se e as crianças interessam-se — e isso é um pacto.
Demasiado pesada, a vossa festa.
Lado a lado pelas ruas, vendo a festa silenciosa, um pouco vergados ao peso de uma alegria tão difícil.
A quatro mãos.
Continua, continua.
Tens uma nova maneira de ver os rostos imóveis sobre os corpos excessivamente móveis, e os olhos ligeiramente alucinados.
Uma nova maneira de conceber a tua própria loucura, de andar com ela, de parar e seguir e respirar com ela.
Sim, um modo especial, nesta tarde, de te aproximares da tua sonâmbula solidão, e encontrares o ponto onde ela de súbito se torna expansiva e ardente, e abrange o ocasional discípulo, o pretexto, o objecto da mais trémula memória.
Cuidado com a memória.
Tu interessas-te.
Ama-la demais.
E a paixão?
És um operário da paixão.
Observamos a demoníaca inteligência de gestos, quando falas ao rapazinho.
O teu amor é lento e veloz — centrípeto, centrífugo.
Como aprendeste.
E que importam os rostos, senão como oscilante fundo para o teu milagroso rosto, esse sensível e atormentado rosto de criança, viajando pelos túneis, de uma ponta à outra da cidade que trabalha noutra coisa, descansa de outro trabalho, ou se prepara para uma estranha musa.
Sabes em que se inspiram eles, os trabalhadores desta cidade?
Nada te importa, a não ser o teu amor — vê-se.
E de novo sobes umas escadas, e a criança sorri, e tu pareces sonhar e vacilas na luz interior, e mais uma vez acreditas, e de repente é como se amasses a tua extensa vida obscura.
E já no carro dizes: vamos pelo meio das árvores.
E guias em direcção ao parque.
Vês tudo muito bem: as árvores negras, o céu brusco e mercurial e a íntima imobilidade do instante.
Sabemos: tremes, quando o rapazinho diz que quer andar sob as árvores, pisando as folhas podres.
Ele sai, caminha, abaixa-se para apanhar uma folha.
E que significa isso, apanhar a folha?
E ergue-se, e continua a andar.
Apanhou a folha como quem encontrou uma coisa perdida, como se tivesse achado a significação de uma palavra confusa no labirinto dos dicionários.
Que tremes e sufocas, sim.
É a embriaguez, o amor lancinante, a memória, a piedade, a sufocação da alegria.
Sim, é a dor — a força da tua presença.
Tens medo.
Interessas-te muito pelas emoções, sabemos.
E vês a solidão impossível da criança apanhando a folha, o distraído empenhamento dela, a frágil nuca.
Repara naquela forma de andar.
Parece que desejarias dizer o que é aquela forma de andar, mas a piedade não tem palavras, a tua piedade.
A loucura dos teus olhos confunde-se com a embriagada piedade dos teus olhos, e tremes.
E então sais do carro e aproximas-te dos onze anos, e vês cada vez mais dolorosamente a forma como eles caminham, os onze anos, sobre as folhas podres, e a imagem violenta da tua obscura vida sobe do fundo — sem perdão, sem nome.
Fechas os olhos — vacilas apavorado.
Páras, o vento refresca a tua cabeça negra, o teu pensamento negro, o teu coração negro.
Páras — maneira única de ficar apenas à porta dos crimes.
Espelho negro.
Vê-se que sabes tudo, que esgotaste a tua difícil ciência.
Há sempre uma cidade onde anoitece.
Mas haverá algum perdão para o homem perdido que a percorre, parando nas praças a decifrar os obeliscos, ou fechando os olhos nos jardins para respirar o perfume confuso e virgem das plantas e da terra húmida, ou ainda estacando na faixa central das avenidas por onde sobem e descem os automóveis e se desenvolve, em cadeia, o jogo obsessivo dos sinais luminosos?
É um homem que caminha até encontrar o rio como algo muito antigo, anterior às vozes e ao trabalho e à cólera e ao amor dos habitantes.
No rio é que vê como há um movimento verdadeiro, e sabe então que ele próprio, perdido por um momento, está muito mais perdido do que supunha: corre também, assim quase imperceptivelmente, reflectindo o que logo se desfaz.
E depois regressa ao centro da capital anoitecida e, erguendo a cabeça, tem a revelação veloz dos enormes edifícios de vidro e metal.
Estou perdido, e as pessoas são de repente arrastadas para os subúrbios, por uma secreta força centrífuga, que o apanha a ele também.
As casas engolem-nas.
Acendem-se e apagam luzes, as cortinas movem-se com a subtileza dos tecidos calmos.
Nas casas, alguém emudece, absorvido por uma lenta domesticidade.
Pensa-se como as cadeiras são inconcebivelmente imóveis e as pessoas se ajustam às cadeiras.
Nunca mais terei paz?, e de súbito a temperatura é baixa, uma árvore tremula na brisa, as casas movem-se subtilmente para uma distância ainda maior: os outros.
E imagina-se isto: estão sentados em volta de uma mesa, as mãos sobem e descem, levanta-se um rosto devagar, e a voz diz: sim, hoje, e o ritmo reorganiza-se em torno desta nova ideia, e o tema destas vidas é esse dia referido — hoje — que se estende para trás e para diante, com as múltiplas imagens rudimentares.
A ele, o que o queima é a inspiração demoníaca.
Talvez espere um dia caminhar sobre as águas, recuperar tudo, chegar junto à esfinge que existe à entrada de todos os lugares e destituí-la de poderes, pela decifração dos enigmas.
Que pode desejar um homem perdido senão ganhar a ciência e a glória?
Para ele, só é possível a salvação completa.
É por isso que este homem caminha sempre e encontra aquele sítio onde o tempo todo se fez espaço: coisa exterior, matéria.
Há uma sinagoga construída e reconstruída desde a fundação da cidade até ao século em que toda a gente está agora a viver, como se viver fosse hoje; e há a ponte romana; a fortaleza árabe; o paço medieval; o palácio renascentista; o convento filipino; o marquês de Pombal; o pequeno teatro arte-nova; a secunda metade do século vinte.
É o tempo.
Mas este tempo é ainda aberto pelos dois lados: e há nele o começo de tudo, e o fim.
Como se subir os degraus de pedra, entrar e sair das ruas estreitas, aparecer nas praças fosse uma aventura não só através do tempo, mas para fora dele: como se fosse consumir o tempo, assumi-lo.
No alto do terrível sentimento de liberdade, o homem pensa que alguém disse: sim, hoje — e é a este tema alheio que ele de repente se devota: ah, uma tarefa simples, uma pessoa, o amor, o comércio, as virtudes e os crimes de todos os dias, do dia de hoje.
Mas sim, sim — existe alguém nesta cidade onde anoiteceu.
Só que é preciso percorrer o pretexto.
São vinte metros talvez, ou trinta, ou o medo que está no fundo da vertigem silenciosa onde a fala se prepara, com as suas quentes e graves curvas, a arguta energia da sedução.
Vamos falar, erguer da treva tumultuosa as nossas antiquíssimas imagens, a espera e a esperança?
Dir-te-ei quem sou, houve um tempo, tive um sonho, lembro-me do teu rosto, a tua voz já existia.
E ele atravessa a rua, passando pelo tempo, de pedra em pedra, com um cigarro na mão para pedir lume ao cigarro alheio, que brilha no outro lado, ao cimo dos três degraus.
Vai ser assim: dá-me lume, por favor?, e o cigarro encostar-se-á ao seu, o lume passará de um para outro, de uma pessoa para outra pessoa, e então, no meio da eternidade deserta, será sim o dia de hoje.
Mas a noite é imensa, quer dizer: a noite do lugar e do tempo, a noite da nossa solidão — é imensa, e apenas um pequeno órgão vivo palpita algures, vibra rapidamente, e amortece-se, e desaparece.
Então, uma vez mais a noite se levanta de nós, e o que estremece é a carne, a nossa, cega e desamparada — mas fremente na sua cegueira e desamparo.
Sabes que estás só? — pergunta a carne à carne —, sabes que a noite se ergueu de ti, como se fosses o seu próprio e único talento, e que esse talento te cerca como uma atmosfera, o morto clima que transportas em ti, de um lado para outro, ao longo das pedras, ao longo de todos os lugares do homem?
Ela sabe, ou pelo menos sabe que sabe.
E é demasiado.
Por isso, olha e espera.
E vê de novo a brasa que estremece na escuridão como uma planta que crescesse e florescesse na terra negra, ou um animal cujo calor abrisse uma brecha no tempo frio.
A carne embriaga-se com imprecisas metáforas de salvação — que salvação?! — com um movimento subterrâneo de analogias, e ele diz: vou pedir-lhe lume.
Vai através do bairro múltiplo, o tempo que o escuro abafou, e então é como se fosse fora do tempo, ou dentro de todo o tempo, à procura do lume para o seu cigarro.
Eles construíram e os anos destruíram, e eles reconstruíram as coisas gastas e construíram outras novas.
Que é isto?
Quer dizer que a carne renasce, e é essa a tarefa?
A noite vem sempre, mas talvez trabalhem também de noite.
Às vezes ouvem-se as picaretas e os martelos, à distância, durante certas noites.
E depois é manhã, e apercebemo-nos de que existe uma coisa nova, um corpo que se organiza para o dia, e isso foi um secreto trabalho nocturno.
Eles acreditam, então — será verdade que ousam acreditar?
Pode-se avançar nas trevas.
Uma, duas vezes, foi-nos indicada uma luz fugitiva — e depois sabemos.
Talvez ainda mais nítida, a topografia marcou-se na nossa cegueira, e então caminhamos, caminha ele com o seu cigarro por acender, a sua perseguição ao fogo.
Não é uma admirável virtude do fogo, não será até um milagroso talento das trevas que, aqui e ali, durante um segundo, o fogo abra a sua pequena rosa trémula, e o homem possa respirar na cega atmosfera dos séculos?
É — eis que ele o diz para si, com uma força maior do que ele próprio, o inventado poder da sua vertiginosa, momentânea fé.
Caminha pelos anos pétreos, com os pés a decifrarem o empedrado e os degraus do bairro.
Ouve os próprios passos, porque sempre ouviu as pancadas do coração — por aí é que reconhece estar vivo, embora isso seja violento demais e demasiado precipitado para a verdadeira harmonia que, possivelmente, seria o estar vivo.
Mas respira, isso sim, o sangue corre pelas veias e artérias, corrompe-se e purifica-se dentro da confusa massa da sua dor de homem, e anda, ele anda, sobe, desce.
Contudo, os passos que ouve, como se fossem as pancadas fortes do seu sangue, parecem distanciar-se.
Pára.
E os passos continuam, afastando-se.
Mais longe, aparece a brasa do cigarro.
O outro foge.
Porque foge?
Que medo inspira assim o desejo do conhecimento, ou o desejo do amor?
É a caça?
Existem aqui o desígnio, o jogo, o ritual — e a alegria bárbara e o primitivo pânico da caça?
Porque o amor é mortal (o amor é mortal?).
Talvez se adivinhe que sim, e obscuramente se saiba que é mortal o conhecimento.
Talvez seja isso o que melhor se conheça do conhecimento — a sua natureza mortal.
Os passos do outro fogem pelo tempo fora, ouvem-se — embaraçados e rápidos — perdendo-se nas escadas, pelas ruas ondulantes, sob os arcos.
Um momento ecoam no meio de uma praça, o cigarro brilha, forma-se uma súbita coroa de silêncio.
Haveria palavras para dizer, a antiquíssima súplica do perseguidor: porque foges?
Mas não haveria resposta.
Ou seria: tenho medo, ou então: é o jogo.
Contudo, não se sabe bem o que acontece, por isso não haveria resposta.
Medo?, porquê medo?, dir-se-ia, jogo, que espécie de jogo?
E as palavras nunca mais acabariam.
Não mais existiria este silêncio no qual, ofegantes, sabemos com tanta dor que ainda estamos vivos.
Por isso é que andamos, agora com todas as artes da caça, devagar, depressa, silenciosamente, cercando a presa.
Amo-te — diríamos nós, no exacto instante de lhe cravar o punhal no meio do peito.
E depois desejaríamos que se fizesse luz, uma grande luz branca, o sol, para vermos o sangue correr e, possivelmente, afogar a nossa boca no sangue amado.
Para conhecermos tudo, até ao fundo e até ao fim.
Porque o amor e o conhecimento são as artes do crime.
Tenho um ramo de flores para ti, diz o amante: são flores venenosas.
Mas toda a gente sabe isto: ninguém deseja nada do amor.
É o tema eleito das palavras.
Eis a razão por que o outro está escondido na praça, ao meio da qual existe um largo fontanário, com a sua rodada taça de pedra, de onde transborda uma água silenciosa e dormente.
A brasa do cigarro marca uma curva no ar e cai na água.
É um indício.
Ele está ali, bem perto.
Mas depois tudo será mais difícil.
Porque será a perseguição declarada, sem o pretexto de pedir lume.
Também não haverá já a indicação do lume, no meio da noite — o sinal de que ali está a pessoa, viva, fumando, respirando, tremendo.
Porque foges?, e enquanto, no mais secreto da sua aflição, ele o pergunta, corre em direcção ao fontanário e quase esbarra com o outro.
Sentem-se, mútuos, únicos, arfam no escuro da praça, a treva treme levemente na água adormecida.
Mas ele diz (e quem sabe se isso é absurdo?) diz: lume, e o outro escapa-se, e põe-se a correr em volta do fontanário.
Os sapatos chapinham na água e a ele, que já começou a persegui-lo, correndo também em torno da taça de pedra, chapinhando do mesmo modo na água vazada, ocorre-lhe um insólito pensamento: caminhamos sobre as águas.
Então abranda um pouco a corrida, inclina o corpo para a direita, e mete a mão na água da taça.
É um ruído novo, virgem, e o contacto da sua carne com a água faz nascer em si uma confusa alegria, o sentido de uma festa natural, o desejo de morrer ali, agora, triunfalmente.
E o outro? — o outro foge, e como não abrandou o passo, nem mergulhou a mão na água, nem pensou (supõe-se) na alegria de uma festa mortal, o outro adiantou-se, e já se encontra no lado oposto do fontanário.
E é ágil, essa criatura sem nome, o ser que se ama, aquele que se persegue e a quem se deseja conhecer, para suplicar lume, ou voz, ou vida, ou sangue, ou sabe-se lá o quê.
Corre depressa demais.
E andando em círculo, chapinhando sempre na água, e às vezes pensando ainda: caminhamos sobre as águas, ele sente, súbito, que o outro avançou bastante.
Treme de medo, porque o outro avançou tanto que já ultrapassou o ponto onde, com o ponto onde ele se encontra, formava os extremos do diâmetro do círculo.
E isto significa: o outro é agora o perseguidor.
E, como avança cada vez mais, torna-se cada vez mais no perseguidor, e ele no perseguido.
Talvez o outro pense: porque foges?, e lhe queira pedir a sua voz, o seu amor, o seu sangue.
É quando sente perto da nuca a respiração do outro.
Tem tempo apenas para desviar-se, correr para a esquerda, atravessar a praça e meter por uma ruela negra.
Mas, parando um instante, ouve os passos do outro na sua direcção.
E então foge através do bairro, do tempo, de pedra em pedra, com o seu pavor de animal perseguido, ouvindo o bater implacável dos pés do outro.
Haveria palavras para ouvir, a antiquíssima súplica do perseguidor: porque foges?
E que poderia ele dizer?: tenho medo?
Não se sabe bem o que acontece.
As palavras nunca mais acabariam, enredar-se-iam umas nas outras, seria um jogo mortal.
Não mais haveria a suspensão do irremediável, esta espécie de silêncio na beira do crime, no qual sabemos, com dor, que ainda estamos vivos.
Ele foge.
Quem sabe se a noite terá fim?
Compreenda-se que escrevo para explicar: que se trata de uma tumultuosa, desavinda multidão de metáforas encerradas numa única metáfora.
Que tem, esta, o ar complacente de apresentar uma imagem exemplar do mundo.
Duvido deste mundo, desta imagem — a metáfora que a escrita foi conseguindo no seu dinamismo interno e obscuro.
Alguém falou de duas mulheres realizando a virtude do espaço através de uma peça de roupa, um grande lençol branco, que desdobravam, pegando cada uma delas numa ponta.
Penso no espaço até me doer a cabeça.
É como este papel branco, o lençol idiomático, latejando, tremendo nas intenções das mãos — delas, que tremem das intenções inspiradas na experiência e na aspiração.
Repare-se no espaço.
Eu poderia abandoná-lo, a esse espaço — mas que seria de nós?
Porque os outros talvez esperem numa ponta do espaço.
Observe-se que há luz, e essa luz se moveu de uma treva cujo simples pensamento nos faz estremecer, aos que estiveram à espera, a mim que me tinha de salvar de um crime qualquer, talvez daquele momento anterior às primeiras linhas das cosmogonias — o caos precedente aos livros sagrados, para onde se trasladou a instauração do estilo — a aparição do espaço.
É certo que falo das plantas, dos animais, do homem e da mulher — disso que se conseguiu: a idade.
A sofreguidão, a vigília desesperada, o sono onde o corpo sem defesa é trabalhado pelo sobressalto interior.
Mas explico-me bem?
Temos de recorrer às fábulas laterais, ao que não foi, ou foi por uma razão independente — nota-se que, para a criação do espaço, se fala sobretudo do medo?
Se falo de mim, movendo-me para todos os lados, esperando inspirações, consultando as coisas, inventando espelhos para um rosto que se perdeu em enredos que não podem ser violados — se me engano em pequenos apólogos, pequenas fábulas, registos acessórios — não me terei perdido no espaço?
Porque o labirinto, veja-se, só é espaço para a boa contabilidade das emoções e pensamentos, se se tem a chave dele, se ele deixou de ser um labirinto.
Atente-se nos antigos: apresentavam um espaço.
Havia uma cronologia e hierarquia de seres, coisas, factos — convergiam todos, numa ordem, para a metáfora una, viva e real do mundo, que eles depois percorriam, estendendo lençóis, edificando casas, dizendo: pátria.
Escrevo um livro, estou a falar de nós — nós que nos esperamos, homens, por dilatar, com os poderes da emissão e da receptividade, os pontos imóveis onde apenas estávamos a ter atenção, expectativa.
Acontece-me este espanto: que as paisagens existem e que sou um homem diante de paisagens.
Então, não sei.
Primeiro: porquê, as paisagens?
Depois: porquê, diante?
E como: paisagens e diante?
E isto é que seria o essencial para o espaço.
Afirma-se que se compreende o fragmento, os fragmentos.
Diz-se mesmo: não há fragmentos.
Diz-se: não há tempo.
O que há é um sentido da idade — e diz-se que idade é já um sentido de espaço, de organização, como quem afirmasse que a comunicação estava estabelecida e, com ela, a unidade e o amor.
Sabem? — é bom ver dormir uma pessoa.
Assim, de fora, respirando devagar, os olhos fechados, a cabeça inclinada — tudo nela refluindo para aquele centro único do sono — desapareceu de nós o alarme, a dúvida, a confusão: eis a unidade.
Mas eu não assisto ao meu próprio sono, nem se pode oferecer o nosso próprio sono — ele pode apenas ser colhido por outrem, de passagem, por acaso.
Não é assim que se instaura um espaço.
Devo ter conhecimento da minha unidade.
O que eu percorro são as mortes, levo às costas todos os meus cadáveres.
E o que explico é isto: estamos inquietos, porque atingimos uma verdade insuportável — a metáfora, arquitectada sobre uma higiene dos sentimentos e acontecimentos, já não pode ser erguida para segurança da linguagem, para segurança de pessoas e bens.
Para o espaço.
Temos pequenas metáforas, temos uma colecção.
Tentamos a factura do círculo, com a ideia de que uma identificação do princípio com o fim possa encerrar o cumprimento do ser, a totalidade da vida — a sabedoria.
Em seguida olhamos, como se isso fosse o espaço e pudéssemos ser, nós os vagabundos, o exemplo do nascimento, desenvolvimento e preenchimento.
Ele dizia, Poe, (na Filosofia da Composição?) que só havia poemas curtos, ligados por aplicação, por partes mortas, num poema longo.
É isto.
Depois, ficar numa ilha, assistindo (e participando talvez nela) à acumulação de imagens — significa que se criou um espaço, ganhou uma perspectiva, se estendeu um lençol (essa ideia do Deguy!) sobre uma espécie de vazio, noite, desabitação, de solidão?
Começo a descobrir a verdadeira tristeza.
Tristeza quer dizer: ser obrigado a recorrer a qualquer coisa como a gratuidade, e enchê-la de uma súbita comoção.
Não creiam que alguém se possa salvar.
Não há uma verdadeira metáfora humana — um estilo.
Às vezes não durmo, para poder imaginar o meu sono.
Compreendo então como o destino do espírito é a tristeza.
Mas a tristeza apenas nos dá inteligência.
E então voltamo-nos para a contemplação das imagens do mundo, e ficamos com uma imagem.
Metemo-la numa garrafa e atiramo-la ao mar.
Algures, alguém recolhe a garrafa, lê a imagem e, como tinha feito o mesmo que nós, não entende o nosso conhecimento da tristeza.
Pensa: quem terá recolhido a minha imagem?
E compreende só, e mais uma vez, o seu próprio conhecimento da tristeza.
Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade.
As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído.
E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso.
E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas e, neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom.
E então a gente ama as mitologias delas.
À parte isso, o lugar era horrível.
As pessoas chiavam como os ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se.
Diziam: boa tarde, boa noite.
E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam.
Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente.
Tenho medo — diziam.
E depois amavam-se depressa, e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite.
Isto era uma parte da vida delas, e era uma das regiões (comovedoras) da sua humanidade, e o que é humano é terrível e possui uma espécie de palpitante e ambígua beleza.
E então a gente ama isto, porque a gente é humana, e amar é que é bom, e compreender, claro, etc.
E no tal lugar, de manhã, as pessoas acordavam.
Bom dia, bom dia.
E desatavam a correr.
É o meu inferno, é o meu paraíso, vai ser bom, vai ser terrível, está a crescer, faz-se homem.
E a gente então comove-se, e apoia, e ama.
Está mais gordo, mais magro.
E o lugar começa a ser cada vez mais um lugar, com as casas de várias cores, as árvores, e as leis, e a política.
Porque é preciso mudar o inferno, cheira mal, cortaram a água, as pessoas ganham pouco — e que fizeram da dignidade humana? — as reivindicações são legítimas.
Não queremos este inferno.
Dêem-nos um pequeno paraíso humano.
Bom dia, como está?
Mal, obrigado.
Pois eu ontem estive a falar com ela, e ela disse: sou uma mulher honesta.
E eu então fui para o emprego e trabalhei, e agora tenho algum dinheiro, e vou alugar uma casa decente, e o nosso filho há-de ser alguém na vida.
E então a gente ama, porque isto é a verdadeira vida, palpita bestialmente ali, isto é que é a realidade, e todos juntos, e abaixo a exploração do homem pelo homem.
E era horrível.
Ouvimos dizer que, numa delas, o pequeno inferno começou a aumentar por dentro, e ela pôs-se silenciosa e passava os dias a olhar para as flores, até que elas secavam, e ficava somente a jarra com os caules secos e a água podre.
Mas o silêncio tornava-se tão impenetrável que os gritos dos outros, e a solícita ternura, e a piedade em pânico — batiam ali e resvalavam.
E então a beleza florescia naquele rosto, uma beleza fria e quieta, e o rosto tinha uma luz especial que vinha de dentro, como a luz do deserto, e aquilo não era humano — diziam as pessoas.
E temos medo — pensavam.
E o ruído delas caminhava para trás, e as casas amorteciam-se ao pé dos jardins, mas é preciso continuar a viver.
E havia o progresso.
Eu tenho aqui, meus senhores, uma revolução.
Desejam examinar?
Por este lado, se fazem favor.
Aí à direita.
Muito bem.
Não é uma boa revolução?
Bem, compreende.
Claro, é uma belíssima revolução.
E é barata?
Uma revolução barata!?
Não, senhor, esta é uma verdadeira revolução.
Algumas vidas, alguns sacrifícios, alguns anos, algumas.
É um bocado cara.
Mas de boa qualidade, isso.
E o rosto, que se perdera, que possivelmente caíra do corpo e rolara debaixo das cadeiras, o rosto?
Lembra-se?
Como foi que ficou assim?
Não sei: tinha uma luz.
Sim, lembro-me: parecia uma flor que apodrecesse friamente.
Era horrível.
Boa noite.
E ela trazia um vestido de seda branca, e nesse dia fazia dezoito anos, e estava queimada do sol, e era do signo da Balança, e tomou os comprimidos todos, e acabou-se.
Não compreendo.
E julgas tu que eu compreendo?
Quem pode compreender?
Ela era a própria força, aquela irradiante virtude da alegria, aquele fulgor radical…, compreendes?
Sim, sim.
Tinha um vestido de seda, e era nova, e então acabou-se.
Para diante, para diante.
Não se deve parar.
Enforquem-nos, a esses malditos banqueiros.
Este vai ter trinta e cinco andares, será o mais alto da cidade.
Por pouco tempo, julgo eu.
Como?
Sim, vão construir um com trinta e seis, ali à frente.
Remodelemos o ensino.
Cantemos esta pequena canção que fala da flor da tília.
Bebamos um pouco.
E o outro, o outro, o que viu Deus, quando caminhava para o emprego?!
Isto, imaginem, às 8 h. e 45 m. de uma manhã de março.
Uma partida.
Uma partida de Deus?
Boa piada.
Não amará Deus essas maliciosas surpresas?
Um pequeno Deus folgazão?
Folgazão?!
Ele ficou doido.
Começou a gritar e a fugir.
Que Deus vinha atrás dele.
E depois?
Bem, lá construíram o prédio com trinta e seis andares, e o outro ficou em segundo lugar.
Isto é o trabalho do homem: pedra sobre pedra.
É belo.
Vamos amar isto?
Vamos, é humano, é do homem.
E então as crianças cresceram todas, e andavam de um lado para outro, e iam fazendo pela vida — como elas próprias diziam.
E então as condições sociais?
Sim, melhoraram muito.
Mas uma delas começou a beber, e depois o coração estoirou, e dela ficou apenas para os outros uma memória incómoda.
Parece que sim, que tinha demasiada imaginação, e levaram-na ao médico, e ele disse: aguente-se, e ela não se aguentou.
Era uma criança.
Não, não, nessa altura já tinha crescido, bebia pelo menos um litro de brandy por dia.
Nada mau, para uma antiga criança.
A verdade é que era uma criança, e não se aguentou, quando o médico disse: aguente-se.
E as ruas são tão tristes.
Precisam de mais luz.
Mas nesta, por exemplo, já puseram mais luz, e mesmo assim é triste.
É até mais triste do que as outras.
Estou tão triste.
Vamos para férias, para o pequeno paraíso.
Contaram-me que ele tinha uma alegria tão grande que não podia aguentar um copo na mão: quebrava-o com a força dos dedos, com a grande força da sua alegria.
Era um ser excepcional.
Depois foi-se embora, e até já desconfiavam dele, e ele embarcou, e talvez não houvesse lugar na terra para ele.
E onde está?
Mas era uma alegria bárbara, uma vocação terrível.
Partiu.
E agora chove, e vamos para casa, e tomamos chá, e comemos aqueles bolos de que tu gostas.
E depois, e depois?
Ele era belo e tremendo, com aquela sua alegria, e não tinha medo, e só a vibração interior da sua alegria fazia com que os copos se partissem entre os dedos.
Foi-se embora.
A milhares de quilómetros de distância, eu olhava num jornal as mãos do criminoso.
No outro hemisfério — enquanto era outono e o ar muito limpo estava colocado sobre as árvores vazias.
A lisa e fixa luz dava um relevo cruel às mãos brancas.
Acima delas, o rosto virava-se para o lado, e quase que era somente uma nódoa escura.
Mas na América, em volta da prisão, erguia-se uma nova noite — e turnos sucessivos de polícia interrogavam o homem.
No jardim grave, uma folha de plátano caía sobre as mãos assassinas.
Uma folha fria, que afastei com as minhas próprias mãos — e então essas minhas mãos, depois de a folha cair do jornal, tocavam a imagem (unicamente a rígida e branca imagem) das mãos do assassino.
As minhas mãos estavam quentes: eram umas doces mãos humanas — e a fotografia do homem, das suas mãos por baixo da cabeça escamoteada: a fotografia.
Outono: tempo de espera.
Que é que se espera?
As coisas dormem, depois hão-de aparecer em alíneas diferentes, com cem rostos, as coisas talvez todas inúteis.
É um jardim para exemplo, onde seguro um jornal que fala de tudo com uma espécie de turbulenta ignorância.
Bom lugar, bom instrumento para todos os equívocos: os meus, os da América.
Posso estar só, para um grande e tortuoso pacto por cima das leis, dos países, da simples justiça das gentes.
Na América, há uma estupenda ferocidade à volta do criminoso e do seu crime.
Ele está cercado, e as suas mãos cheias de culpa recuam, com o crime, diante da ferocidade americana.
Trata-se afinal, segundo parece, de um problema complicado: política.
Então o assassino revela-se mais patético, ele, com o seu crime tão agudo, procurando defender ainda as mãos carregadas, no meio da gente feroz.
O momento do crime já lá foi — o impulso, o instrumento, o gesto.
E a vítima, também.
Ficaram as mãos.
Afasto o jornal.
Como é?
A pessoa que se assume, com um crime.
E a polícia cheirando, os espertos cães cheios de faro.
As folhas tapam tudo, vedam-me o conhecimento do tempo a trabalhar sobre o mundo.
Talvez aconteça um grande milagre nas nossas vidas.
A terra está sempre a dar bons exemplos.
Alguma gente anda atenta a essas coisas.
Outra gente, porém, está completamente só, sem exemplos — e então procura realizar o exemplo mais extremo.
Quando se pensa nisso, não há nada a fazer.
Merda, diz-se, isto é um grande exemplo.
E a terra está por baixo, com o outono.
A terra vem em todos os manuais, como um acontecimento histórico.
Mas a mim, realmente, só me interessam os crimes.
E então apenas sei que ele está tremendamente só nos Estados Unidos.
Que isto de ser assassino não é brincadeira nenhuma.
Ele foi até ao fim, esse homem de cabeça em forma de nódoa e as mãos em primeiro plano, saturadas de um exemplo desesperadamente decisivo.
Os polícias cercam-no, farejando e abanando a cauda — e ele, só com o crime, vira a cabeça, desenvolve, mostra, recolhe as mãos, fá-las voltar à intimidade do próprio crime.
De modo que tudo aquilo se torna uma só coisa comovente, ameaçada e inexpugnável — a solidão.
Uma consequência, o movimento mesmo do acto — a pessoa com a sua força terrível, para a frente.
Isto, na América, onde os polícias se vão multiplicar em todas as direcções e pessoas.
Depois, no jardim (e ainda suficientemente de dia), a cara aparece melhor na 2.ª edição.
O jornal mostra que o homem tem um ligeiro sorriso ambíguo, que eu acho inteligente bastante para as mãos, estas sempre em bom plano.
Estou com o assassino, e todo o meu calor de homem se insere no problema, e a multidão americana roda um pouco sobre si mesma, sofre uma pequena deslocação e, confusa, esbarra no extraordinário sorriso do assassino, que a minha adesão torna mais sábio ainda.
Tudo isto para proteger as mãos — espantoso sinal, agora, do único acto, aquele pelo qual se ganham toda a culpa e solidão.
Entretanto, foram descobertas mais provas.
E o homem sorri — leve, alto — tremendamente ascético na sua culpa.
O céu vai escurecendo, vê-se menos no jornal a maneira como o sorriso se dirige aos Estados Unidos, e por isso posso supor, ou adivinhar, a sua verdadeira profundeza.
A raiz do sorriso é a mesma raiz das mãos.
É, primeiro, o acto — e, depois, a própria vocação humana (até que enfim aparecida) para realizar um acto espantosamente completo.
E as poucas palavras que se conhecem do criminoso aumentam a sombria gravidade do acto, tornam-no perfeitamente denso, esférico, acabado.
E é quando, ao outro dia, continuando a ser outono e a haver a mesma luz parada e polida para ver as novas fotografias e notícias, é quando o criminoso encontra o seu próprio assassino.
Incrível.
Ao princípio, tomo o caso como um fantástico folhetim.
Foi deste modo: ao transferir-se o criminoso de uma prisão para outra, um homem destacou-se do meio dos jornalistas e, atirando-se para a frente, disparou-lhe um tiro no coração.
Há fotografias.
Vê-se tudo muito bem.
Como direi?
Há na história, evidentemente, certo barroquismo e precipitação que talvez possamos chamar — americanos.
No entanto, não sei de história mais conforme com as leis da excepção.
Com o seu escandaloso imprevisto, está implacavelmente certa, do princípio ao fim.
Pela minha parte, reconheço que as mãos da fotografia prenderam o seu velho acto criminoso e ficaram para sempre com a força enigmática que as inspirou.
Reconheço ainda que o sorriso tocou os limites da significação e que a frase — não fui eu que matei, estou inocente — dita desde o começo e levada, inteira, para dentro do silêncio, pode ficar como o melhor esforço de equívoco.
E vêde como os Estados Unidos se desdobram em todos os sentidos da confusão.
Tenho de afastar do jornal muitas folhas de plátano, enquanto o meu amor abrange crime, solidão e silêncio, como se fossem uma só coisa: um limite, espécie de milagre ou extremo exemplo.
A minha solidão também cresce, à espera do seu crime e da sua heróica (ou irónica) dignidade.
Porque nunca se sabe bem se nos merecemos a nós mesmos.
Levanto-me do banco, atravesso o jardim, e tenho na minha frente uma cidade que desejaria fazer saltar a cargas de dinamite.
Numa noite do mês de março, estava o tempo esplêndido, olhei para as minhas mãos, e vi uma nódoa branca.
Compreendam-me.
Eu era um homem sereno, emocionalmente próspero, digamos, sem entretanto me entregar à dissipação.
Convivia com muita gente e podia fazer com que me amassem.
Claro, não amava ninguém, mas a minha vida era como que atravessada diariamente por um calor tranquilo e ligeiro.
E então vi de repente que tinha uma nódoa branca na mão direita.
Gosto da mão direita um pouco mais que da outra, pois tenho aquela ideia tradicional de que ela é um nobre instrumento da obra e está ligada superiormente ao espírito.
Além desta, eu possuía muitas outras ideias em que o espírito, a serenidade e a sabedoria constituíam uma espécie de centros vitais.
É isso: tinha o meu tempo, a memória e o futuro bem arrumados.
Achava-me, de certo modo, um indivíduo sem culpas, conhecendo algumas leis seguras, amando lentamente a terra e as estações.
Organizara mesmo um conjunto de aforismos, e acreditava na imparcialidade e — quem sabe? — talvez até acreditasse na justiça.
Havia de ter um dia um talhão de rosas e ser-lhes-ia dedicado.
Rosas tornam o espírito condescendente e vagaroso e dão aos gestos uma grave e amável subtileza.
Tinha esse projecto, o das rosas, certamente.
Mas estava sentado a ler, e então vi uma nódoa esbranquiçada na base do polegar da mão direita.
Pensei primeiro que fosse da luz, depois imaginei que alguma substância deixara ali a sua marca.
Mas não era, porque desloquei a mão e a mancha permanecia no mesmo sítio.
E quando a esfreguei com o polegar da mão esquerda, não se alterou, nem de leve.
Que pensar?
Devia ser, então, qualquer coisa como irritação de pele, um eczema branco.
Bem.
Eu tinha um grande equilíbrio interior e, embora aquele sinal no meu prezado corpo (na mão direita) me inquietasse um pouco, havia tudo o mais onde a serenidade se me garantira.
O livro era mesmo excelente e o mês de março sem chuva é dos que mais aprecio.
Quanto ao resto, é óbvio que eu desprezava — embora com gentileza e rectidão — as pessoas que estavam, ou entravam, ou saíam da minha vida.
Um homem de certa cultura e inteligência, cepticismo manso, uma esparsa ternura sem compromisso pelos seres e coisas.
Apoiava-me uma grande tradição.
Contudo, mais tarde, quando me fui deitar, ao colocar a mão sobre a cobertura da cama, notei que a mancha crescera.
Abrangia agora toda a base do dedo, fazendo uma espécie de grosseiro anel.
Lembro-me de que levantei a cabeça, um pouco de lado, e olhei para a janela onde as cortinas brancas estremeciam.
Vinha da rua, de um jardim próximo, um cheiro de cravos, suponho.
Ouvi também a voz de alguém, uma voz baixa de que só apanhei duas ou três palavras desligadas que, de súbito, me pareceram espantosas.
Mas eram palavras banais, talvez sobre o tempo, os cravos, a noite, sei lá.
A minha mão tremia, também me lembro, e a noite acumulou-se de repente dentro daquele instante único.
Estive à beira do pânico, mas olhei tudo de novo à minha volta e senti que vivia no lugar que eu próprio escolhera, e que eu era um homem coordenado com os meus dias, compreendendo bem que a minha força não estava ao alcance da maioria das pessoas.
Pensei nelas, nas pessoas, e achei belos, ainda que fáceis, os seus rostos e movimentos, e pensei que gostavam de mim, sem me exigirem demasiado.
Depois deitei-me e dormi, tendo decidido ir ao médico um desses dias, a ver do que se tratava aquela pequena mancha.
Durante a noite, tive um sonho incómodo, onde apareciam altas escadas de pedra, do cimo das quais eu fazia um imperceptível sinal de despedida a alguém que se encontrava em baixo, no último degrau.
Atravessei portas que se fechavam depois da minha passagem, sem que lhes tocasse.
Por fim, senti-me cair de um telhado que lentamente se inclinava, fazendo-me rolar até ao beiral.
No fundo, estava um pântano, e eu mergulhei nele.
No sonho, tinha a mão direita presa e fechada como sobre um punhado de brasas.
E então acordei e acendi a luz.
A mancha crescera e uma outra, ainda mais viva, apanhava-me quase toda a palma da mão.
Foi assim que os novos dias invadiram a minha vida, e eram dias sombrios e ardentes, enquanto as manchas iam cobrindo toda a mão, avançando já pelo pulso acima.
Não era ainda o medo, mas as minhas leis vacilaram e comecei a esconder a mão e a aproximar-me mais das outras pessoas.
Quanto ao médico que pensara consultar, tive de bani-lo, pois cada vez menos desejava saber o que eram precisamente as manchas brancas.
A mão ganhara uma insólita nobreza, outra, uma nobreza nova, terrível.
Ela, que me dera antes o sentido do exemplo criador, a mão humanista — perdera o seu talento de ser hábil e construtora, e era agora a mão dramática, proibida entre os homens, subversiva.
Sabia que ela se vingava, com a sua anunciação de um inédito sentido trágico, do quanto representara em dignidade plácida e inteligência sobre a desordem.
Arranjei uma luva, e esta terceira mão, de pelica, caminhava sem jeito, mas intacta, com a sua pureza artificial, nos objectos e movimentos.
Cheguei a possuir um pequeno talento de pelica.
Mas aproximava-me mais e mais das outras pessoas, e tinha com elas conversas ardentes e instáveis.
Começava a amá-las com aflição e a achar tremendamente belos os seus rostos, as palavras, as mãos com que, surpreendidas, tocavam na minha luva.
Em casa, punha-me a escutar o rumor dos vizinhos, os seus passos pelos quartos, as frases mais altas, as canções que trauteavam.
Ia para a janela, por detrás das cortinas, e tremia de emoção ao ver o movimento das ruas.
A mancha, porém, alastrava.
Já atingira um terço do antebraço e era cada vez mais branca.
A carne do polegar parecia tornar-se levemente esponjosa.
A mão esquerda principiara também a ser tocada e, uma manhã, descobri no meio da testa uma ligeira mancha circular, do tamanho de uma pequena moeda.
Ah, foi rápida a propagação.
Da raiz dos testículos subia já o florescimento maldito, enquanto nas mãos e no rosto as manchas aumentavam sempre.
Agora eu só saía à noite, a ocultas, comprando em lugares escusos alguma coisa para comer.
E o meu amor pelas pessoas também crescia, varado por singular violência e fraqueza, um pânico, uma melancolia enormes.
Um dia comprei uma garrafa de aguardente, e embebedei-me no meu quarto.
Despi-me todo, e eu era branco e repugnante.
Haviam-me caído as sobrancelhas e os pêlos do púbis e, um pouco por toda a parte, a carne tornara-se porosa como sabugo.
E então vi em mim, no meio da bebedeira, certa beleza tenebrosa, uma maldição pela qual me apaixonei.
Adormeci nu, sobre o soalho, chorando de tortuosa alegria.
Tornou-se forçoso afastar-me dos outros.
Poderia eu, acaso, meter-me inteiro dentro de uma grande luva de pelica, arranjar um talento artificial de pelica com todo o meu tamanho?
Porque era já notório o estado em que me achava.
O meu amor pelos outros, não obstante, desenvolvia-se sempre.
E só de imaginar que nas casas, nas ruas, debaixo do sol, ao vento que lhes agitava os cabelos — as pessoas andavam, corriam, falavam e sorriam e riam — só de imaginá-lo, ficava com os olhos húmidos.
Amava-as, com a maior profundeza, amava-as muito.
Nu, diante do alto espelho, tocava devagar no corpo e sentia vómitos.
Transformara-me num réptil branco e inconsistente.
Contudo, penso às vezes que não era, nem é, uma doença física, algo como lepra ou coisa assim.
Talvez o meu corpo esteja como dantes, limpo e vivo.
Talvez a lepra me tenha atacado noutro sítio, numa zona terrivelmente mais importante.
Talvez entre o amor e o mundo haja uma chaga pior, onde nem mesmo se espere esquecer ou fugir.
Os poetas interessam-se.
O amor dos mitos, dos lugares sobrecarregados.
O amor das alusões, símbolos e signos.
Os poetas interessam-se pelas crianças.
Isso — aperta a loucura contra ti, debaixo da gabardina — desce.
As cabeças já não são partes nobres das aventuras do corpo, não as envolvem as folhas que brotavam de uma grande tensão — a tremenda voltagem das imaginações.
Desce ao metropolitano — a isto que te é dado como figuração de um inferno sem maravilha.
Os poetas interessam-se pelos rostos.
São rostos esbulhados — os destes habitantes da semana.
Fazem uma vida com boa caligrafia, eles — e acabou-se.
Vão e voltam.
Uma pequena demência nos olhos?
Talvez.
Alguma coisa escapou aos dias — alguma coisa.
O corpo move-se no inferno debaixo.
A ti comove-te o silêncio por onde os corpos se deslocam com os minúsculos olhos intraduzíveis.
O silêncio esmagado pelos comboios, e logo restituído.
Um silêncio móvel, ameaçado, instável.
Aperta a gabardina.
Possuis uma alta voltagem — tu sim, poeta inédito.
Vemos que te interessas.
Lá tens as imagens turbulentas, a vertigem do silêncio interior.
Moves-te, comoves-te, desenvolves-te.
Apertas contra ti a tua loucura — e o olhar é o de um poeta inédito.
Tens uns belos olhos perscrutadores, fixos e aterrorizados.
Andas com uma graça implacável — sim, sim, incómoda.
Sente-se o circuito electromagnético em volta da cabeça.
Não tocar — perigo de morte.
Tal a terrível delicadeza do teu espírito, a força de anjo.
Tens outro ritmo.
Ainda te não calibraram.
És inédito, forte, doloroso.
Interessas-te pelas crianças.
Vemos isso quando os teus olhos tocam no rapazinho de onze anos, no fim da carruagem, e fogem, e voltam de novo para ele.
Interessas-te por onze anos, por essa estranha debilidade que os outros curam, o ritmo secreto da vacilação.
A tua loucura bate de áspero entusiasmo.
Tens uma perigosa ciência — sabes?
É que vês, revês, prevês, tresvês.
Andas para a frente e para trás, páras e corres, e ficas tenso ouvindo e vendo, com a loucura toda a trabalhar.
És sensível — demoníaco.
É quase impossível estares à altura dos teus dons.
Mas esforças-te — vê-se.
Trabalhas, trabalhas.
E de súbito és muito inteligente, alcanças tudo, ficas com o poder de te fascinares de uma ponta à outra do talento.
Um poeta como tu interessa-se pelos onze anos, pela criança.
Vê como o rapazinho sai nesta estação, e atravessa o cais.
Que pensas daquela forma de andar?
Ele oscila, parece um pêndulo, e a sua cara é triste, ele não percebe nada, não percebe a sua dor, e caminha rente às paredes do metro.
Tu percebes.
O teu ofício é perceber.
Amas.
Que pensas daquela forma de andar?
Sim, sim.
Que doçura trágica, não é?
Percebes a ambiguidade?
Se percebes.
Vê: fez qualquer coisa terrível, teve a sua grande força.
Agora está surpreendido.
Não sabia que a tinha, à força, e depois ficou com o medo da sua força maior que ele.
Vai dizer-te isso, aos onze anos, no seu ritmo, na sua linguagem suspensa e atemorizada.
Vai dizer: sabe?
E tu, tu — como tu sabes.
Segue-o.
Vemos como apanhaste o ritmo dele.
Pareces um lobo apaixonado, tens toda a esfaimada doçura de um lobo.
Pisas os passos dele, a pista insegura.
Já andas como ele, andas com onze anos, numa atenção obsessiva.
E a doçura do teu rosto, a sua velocidade amarga e calorosa.
Desce ao inferno, e vê: encontras um rosto tecido de novo, a macia textura de uma matéria quase virgem — encontras o teu enigma.
Nas escadas rolantes, quase sobre ele, aspiras o perfume da sua cabeleira de rapazinho.
Como tu o amas.
O perfume enche o teu silêncio todo.
Não, nem respiras.
Não te mexes.
Ficas cego.
Sabemos como te entregas, tão redescoberto, ao mais profundo terror.
Tens a ciência disso tudo.
É a tua profissão.
Reconhecer, instalar, ligar os contactos, mergulhar na alegria monstruosa.
És diabolicamente inédito.
A vida toda muito devagar.
E quando a boca do metropolitano vos puser — a ele, a esse espectáculo que estiveste prestes a denominar, mas ainda não; e a ti, seguidor trémulo, mestre e discípulo de um «eu» irreparável — quando, quando.
Sim, na praça quando, sob as árvores negras, no meio das temperaturas baixas — tudo construído para o exercício da piedade escandalosa.
Quando o abordares, e ele disser que sim ao magistério da tua idade enganadora, saída do anonimato para a vacilação, o pavor urbano dele.
Estou só, diz ele, mas.
Etc.
Tu compreendes.
Sabes que ele também já tinha o seu silêncio, e do silêncio nascia um incomportável sofrimento, e uma força.
E agora falas muito, e diriges a força dele e a sua fraqueza, e colocas tudo num lugar extraordinariamente seguro, ao que parece, e dizes: vamos tomar outra vez o metro, tenho o meu carro no outro lado da cidade.
Reparaste como os onze anos olharam para ti?
Não sabem que hão-de fazer, os onze anos, com o amor que nasceu neles, agora que saíste completamente do anonimato e és tão real, tão pessoal, tão próximo, tão corrítmico.
Ele vai — estamos mesmo a ver que vai, e o seu modo de andar é curiosamente mais seguro e o teu é menos seguro — vê-se.
Os poetas interessam-se e as crianças interessam-se — e isso é um pacto.
Demasiado pesada, a vossa festa.
Lado a lado pelas ruas, vendo a festa silenciosa, um pouco vergados ao peso de uma alegria tão difícil.
A quatro mãos.
Continua, continua.
Tens uma nova maneira de ver os rostos imóveis sobre os corpos excessivamente móveis, e os olhos ligeiramente alucinados.
Uma nova maneira de conceber a tua própria loucura, de andar com ela, de parar e seguir e respirar com ela.
Sim, um modo especial, nesta tarde, de te aproximares da tua sonâmbula solidão, e encontrares o ponto onde ela de súbito se torna expansiva e ardente, e abrange o ocasional discípulo, o pretexto, o objecto da mais trémula memória.
Cuidado com a memória.
Tu interessas-te.
Ama-la demais.
E a paixão?
És um operário da paixão.
Observamos a demoníaca inteligência de gestos, quando falas ao rapazinho.
O teu amor é lento e veloz — centrípeto, centrífugo.
Como aprendeste.
E que importam os rostos, senão como oscilante fundo para o teu milagroso rosto, esse sensível e atormentado rosto de criança, viajando pelos túneis, de uma ponta à outra da cidade que trabalha noutra coisa, descansa de outro trabalho, ou se prepara para uma estranha musa.
Sabes em que se inspiram eles, os trabalhadores desta cidade?
Nada te importa, a não ser o teu amor — vê-se.
E de novo sobes umas escadas, e a criança sorri, e tu pareces sonhar e vacilas na luz interior, e mais uma vez acreditas, e de repente é como se amasses a tua extensa vida obscura.
E já no carro dizes: vamos pelo meio das árvores.
E guias em direcção ao parque.
Vês tudo muito bem: as árvores negras, o céu brusco e mercurial e a íntima imobilidade do instante.
Sabemos: tremes, quando o rapazinho diz que quer andar sob as árvores, pisando as folhas podres.
Ele sai, caminha, abaixa-se para apanhar uma folha.
E que significa isso, apanhar a folha?
E ergue-se, e continua a andar.
Apanhou a folha como quem encontrou uma coisa perdida, como se tivesse achado a significação de uma palavra confusa no labirinto dos dicionários.
Que tremes e sufocas, sim.
É a embriaguez, o amor lancinante, a memória, a piedade, a sufocação da alegria.
Sim, é a dor — a força da tua presença.
Tens medo.
Interessas-te muito pelas emoções, sabemos.
E vês a solidão impossível da criança apanhando a folha, o distraído empenhamento dela, a frágil nuca.
Repara naquela forma de andar.
Parece que desejarias dizer o que é aquela forma de andar, mas a piedade não tem palavras, a tua piedade.
A loucura dos teus olhos confunde-se com a embriagada piedade dos teus olhos, e tremes.
E então sais do carro e aproximas-te dos onze anos, e vês cada vez mais dolorosamente a forma como eles caminham, os onze anos, sobre as folhas podres, e a imagem violenta da tua obscura vida sobe do fundo — sem perdão, sem nome.
Fechas os olhos — vacilas apavorado.
Páras, o vento refresca a tua cabeça negra, o teu pensamento negro, o teu coração negro.
Páras — maneira única de ficar apenas à porta dos crimes.
Espelho negro.
Vê-se que sabes tudo, que esgotaste a tua difícil ciência.
Há sempre uma cidade onde anoitece.
Mas haverá algum perdão para o homem perdido que a percorre, parando nas praças a decifrar os obeliscos, ou fechando os olhos nos jardins para respirar o perfume confuso e virgem das plantas e da terra húmida, ou ainda estacando na faixa central das avenidas por onde sobem e descem os automóveis e se desenvolve, em cadeia, o jogo obsessivo dos sinais luminosos?
É um homem que caminha até encontrar o rio como algo muito antigo, anterior às vozes e ao trabalho e à cólera e ao amor dos habitantes.
No rio é que vê como há um movimento verdadeiro, e sabe então que ele próprio, perdido por um momento, está muito mais perdido do que supunha: corre também, assim quase imperceptivelmente, reflectindo o que logo se desfaz.
E depois regressa ao centro da capital anoitecida e, erguendo a cabeça, tem a revelação veloz dos enormes edifícios de vidro e metal.
Estou perdido, e as pessoas são de repente arrastadas para os subúrbios, por uma secreta força centrífuga, que o apanha a ele também.
As casas engolem-nas.
Acendem-se e apagam luzes, as cortinas movem-se com a subtileza dos tecidos calmos.
Nas casas, alguém emudece, absorvido por uma lenta domesticidade.
Pensa-se como as cadeiras são inconcebivelmente imóveis e as pessoas se ajustam às cadeiras.
Nunca mais terei paz?, e de súbito a temperatura é baixa, uma árvore tremula na brisa, as casas movem-se subtilmente para uma distância ainda maior: os outros.
E imagina-se isto: estão sentados em volta de uma mesa, as mãos sobem e descem, levanta-se um rosto devagar, e a voz diz: sim, hoje, e o ritmo reorganiza-se em torno desta nova ideia, e o tema destas vidas é esse dia referido — hoje — que se estende para trás e para diante, com as múltiplas imagens rudimentares.
A ele, o que o queima é a inspiração demoníaca.
Talvez espere um dia caminhar sobre as águas, recuperar tudo, chegar junto à esfinge que existe à entrada de todos os lugares e destituí-la de poderes, pela decifração dos enigmas.
Que pode desejar um homem perdido senão ganhar a ciência e a glória?
Para ele, só é possível a salvação completa.
É por isso que este homem caminha sempre e encontra aquele sítio onde o tempo todo se fez espaço: coisa exterior, matéria.
Há uma sinagoga construída e reconstruída desde a fundação da cidade até ao século em que toda a gente está agora a viver, como se viver fosse hoje; e há a ponte romana; a fortaleza árabe; o paço medieval; o palácio renascentista; o convento filipino; o marquês de Pombal; o pequeno teatro arte-nova; a secunda metade do século vinte.
É o tempo.
Mas este tempo é ainda aberto pelos dois lados: e há nele o começo de tudo, e o fim.
Como se subir os degraus de pedra, entrar e sair das ruas estreitas, aparecer nas praças fosse uma aventura não só através do tempo, mas para fora dele: como se fosse consumir o tempo, assumi-lo.
No alto do terrível sentimento de liberdade, o homem pensa que alguém disse: sim, hoje — e é a este tema alheio que ele de repente se devota: ah, uma tarefa simples, uma pessoa, o amor, o comércio, as virtudes e os crimes de todos os dias, do dia de hoje.
Mas sim, sim — existe alguém nesta cidade onde anoiteceu.
Só que é preciso percorrer o pretexto.
São vinte metros talvez, ou trinta, ou o medo que está no fundo da vertigem silenciosa onde a fala se prepara, com as suas quentes e graves curvas, a arguta energia da sedução.
Vamos falar, erguer da treva tumultuosa as nossas antiquíssimas imagens, a espera e a esperança?
Dir-te-ei quem sou, houve um tempo, tive um sonho, lembro-me do teu rosto, a tua voz já existia.
E ele atravessa a rua, passando pelo tempo, de pedra em pedra, com um cigarro na mão para pedir lume ao cigarro alheio, que brilha no outro lado, ao cimo dos três degraus.
Vai ser assim: dá-me lume, por favor?, e o cigarro encostar-se-á ao seu, o lume passará de um para outro, de uma pessoa para outra pessoa, e então, no meio da eternidade deserta, será sim o dia de hoje.
Mas a noite é imensa, quer dizer: a noite do lugar e do tempo, a noite da nossa solidão — é imensa, e apenas um pequeno órgão vivo palpita algures, vibra rapidamente, e amortece-se, e desaparece.
Então, uma vez mais a noite se levanta de nós, e o que estremece é a carne, a nossa, cega e desamparada — mas fremente na sua cegueira e desamparo.
Sabes que estás só? — pergunta a carne à carne —, sabes que a noite se ergueu de ti, como se fosses o seu próprio e único talento, e que esse talento te cerca como uma atmosfera, o morto clima que transportas em ti, de um lado para outro, ao longo das pedras, ao longo de todos os lugares do homem?
Ela sabe, ou pelo menos sabe que sabe.
E é demasiado.
Por isso, olha e espera.
E vê de novo a brasa que estremece na escuridão como uma planta que crescesse e florescesse na terra negra, ou um animal cujo calor abrisse uma brecha no tempo frio.
A carne embriaga-se com imprecisas metáforas de salvação — que salvação?! — com um movimento subterrâneo de analogias, e ele diz: vou pedir-lhe lume.
Vai através do bairro múltiplo, o tempo que o escuro abafou, e então é como se fosse fora do tempo, ou dentro de todo o tempo, à procura do lume para o seu cigarro.
Eles construíram e os anos destruíram, e eles reconstruíram as coisas gastas e construíram outras novas.
Que é isto?
Quer dizer que a carne renasce, e é essa a tarefa?
A noite vem sempre, mas talvez trabalhem também de noite.
Às vezes ouvem-se as picaretas e os martelos, à distância, durante certas noites.
E depois é manhã, e apercebemo-nos de que existe uma coisa nova, um corpo que se organiza para o dia, e isso foi um secreto trabalho nocturno.
Eles acreditam, então — será verdade que ousam acreditar?
Pode-se avançar nas trevas.
Uma, duas vezes, foi-nos indicada uma luz fugitiva — e depois sabemos.
Talvez ainda mais nítida, a topografia marcou-se na nossa cegueira, e então caminhamos, caminha ele com o seu cigarro por acender, a sua perseguição ao fogo.
Não é uma admirável virtude do fogo, não será até um milagroso talento das trevas que, aqui e ali, durante um segundo, o fogo abra a sua pequena rosa trémula, e o homem possa respirar na cega atmosfera dos séculos?
É — eis que ele o diz para si, com uma força maior do que ele próprio, o inventado poder da sua vertiginosa, momentânea fé.
Caminha pelos anos pétreos, com os pés a decifrarem o empedrado e os degraus do bairro.
Ouve os próprios passos, porque sempre ouviu as pancadas do coração — por aí é que reconhece estar vivo, embora isso seja violento demais e demasiado precipitado para a verdadeira harmonia que, possivelmente, seria o estar vivo.
Mas respira, isso sim, o sangue corre pelas veias e artérias, corrompe-se e purifica-se dentro da confusa massa da sua dor de homem, e anda, ele anda, sobe, desce.
Contudo, os passos que ouve, como se fossem as pancadas fortes do seu sangue, parecem distanciar-se.
Pára.
E os passos continuam, afastando-se.
Mais longe, aparece a brasa do cigarro.
O outro foge.
Porque foge?
Que medo inspira assim o desejo do conhecimento, ou o desejo do amor?
É a caça?
Existem aqui o desígnio, o jogo, o ritual — e a alegria bárbara e o primitivo pânico da caça?
Porque o amor é mortal (o amor é mortal?).
Talvez se adivinhe que sim, e obscuramente se saiba que é mortal o conhecimento.
Talvez seja isso o que melhor se conheça do conhecimento — a sua natureza mortal.
Os passos do outro fogem pelo tempo fora, ouvem-se — embaraçados e rápidos — perdendo-se nas escadas, pelas ruas ondulantes, sob os arcos.
Um momento ecoam no meio de uma praça, o cigarro brilha, forma-se uma súbita coroa de silêncio.
Haveria palavras para dizer, a antiquíssima súplica do perseguidor: porque foges?
Mas não haveria resposta.
Ou seria: tenho medo, ou então: é o jogo.
Contudo, não se sabe bem o que acontece, por isso não haveria resposta.
Medo?, porquê medo?, dir-se-ia, jogo, que espécie de jogo?
E as palavras nunca mais acabariam.
Não mais existiria este silêncio no qual, ofegantes, sabemos com tanta dor que ainda estamos vivos.
Por isso é que andamos, agora com todas as artes da caça, devagar, depressa, silenciosamente, cercando a presa.
Amo-te — diríamos nós, no exacto instante de lhe cravar o punhal no meio do peito.
E depois desejaríamos que se fizesse luz, uma grande luz branca, o sol, para vermos o sangue correr e, possivelmente, afogar a nossa boca no sangue amado.
Para conhecermos tudo, até ao fundo e até ao fim.
Porque o amor e o conhecimento são as artes do crime.
Tenho um ramo de flores para ti, diz o amante: são flores venenosas.
Mas toda a gente sabe isto: ninguém deseja nada do amor.
É o tema eleito das palavras.
Eis a razão por que o outro está escondido na praça, ao meio da qual existe um largo fontanário, com a sua rodada taça de pedra, de onde transborda uma água silenciosa e dormente.
A brasa do cigarro marca uma curva no ar e cai na água.
É um indício.
Ele está ali, bem perto.
Mas depois tudo será mais difícil.
Porque será a perseguição declarada, sem o pretexto de pedir lume.
Também não haverá já a indicação do lume, no meio da noite — o sinal de que ali está a pessoa, viva, fumando, respirando, tremendo.
Porque foges?, e enquanto, no mais secreto da sua aflição, ele o pergunta, corre em direcção ao fontanário e quase esbarra com o outro.
Sentem-se, mútuos, únicos, arfam no escuro da praça, a treva treme levemente na água adormecida.
Mas ele diz (e quem sabe se isso é absurdo?) diz: lume, e o outro escapa-se, e põe-se a correr em volta do fontanário.
Os sapatos chapinham na água e a ele, que já começou a persegui-lo, correndo também em torno da taça de pedra, chapinhando do mesmo modo na água vazada, ocorre-lhe um insólito pensamento: caminhamos sobre as águas.
Então abranda um pouco a corrida, inclina o corpo para a direita, e mete a mão na água da taça.
É um ruído novo, virgem, e o contacto da sua carne com a água faz nascer em si uma confusa alegria, o sentido de uma festa natural, o desejo de morrer ali, agora, triunfalmente.
E o outro? — o outro foge, e como não abrandou o passo, nem mergulhou a mão na água, nem pensou (supõe-se) na alegria de uma festa mortal, o outro adiantou-se, e já se encontra no lado oposto do fontanário.
E é ágil, essa criatura sem nome, o ser que se ama, aquele que se persegue e a quem se deseja conhecer, para suplicar lume, ou voz, ou vida, ou sangue, ou sabe-se lá o quê.
Corre depressa demais.
E andando em círculo, chapinhando sempre na água, e às vezes pensando ainda: caminhamos sobre as águas, ele sente, súbito, que o outro avançou bastante.
Treme de medo, porque o outro avançou tanto que já ultrapassou o ponto onde, com o ponto onde ele se encontra, formava os extremos do diâmetro do círculo.
E isto significa: o outro é agora o perseguidor.
E, como avança cada vez mais, torna-se cada vez mais no perseguidor, e ele no perseguido.
Talvez o outro pense: porque foges?, e lhe queira pedir a sua voz, o seu amor, o seu sangue.
É quando sente perto da nuca a respiração do outro.
Tem tempo apenas para desviar-se, correr para a esquerda, atravessar a praça e meter por uma ruela negra.
Mas, parando um instante, ouve os passos do outro na sua direcção.
E então foge através do bairro, do tempo, de pedra em pedra, com o seu pavor de animal perseguido, ouvindo o bater implacável dos pés do outro.
Haveria palavras para ouvir, a antiquíssima súplica do perseguidor: porque foges?
E que poderia ele dizer?: tenho medo?
Não se sabe bem o que acontece.
As palavras nunca mais acabariam, enredar-se-iam umas nas outras, seria um jogo mortal.
Não mais haveria a suspensão do irremediável, esta espécie de silêncio na beira do crime, no qual sabemos, com dor, que ainda estamos vivos.
Ele foge.
Quem sabe se a noite terá fim?
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Herberto Helder
Os Ritmos 2
Por acidente: fui ter ao inferno.
Eu passeava à hora mais movimentada, na parte baixa da cidade.
Era a minha cidade, a cidade onde vivo, de que tão bem conheço as ruas e casas, os labirintos, os nomes, a secreta matemática dos fluxos e refluxos, as temperaturas.
Não é preciso ser estrangeiro — tomar comboios ou aviões, atravessar as águas.
O inferno é o último segredo do nosso conhecimento quotidiano.
A multidão andava de um lado para outro, era primavera.
A luz varria o ar.
Eu olhava as pessoas envolvidas exaltantemente por essa luz pura.
Pensava no corpo das pessoas, a alegria fervia dentro dos corpos — via-se isso.
A alegria passava de dentro dos corpos para fora, para os vestidos e fatos — e as ruas e prédios pareciam levitar.
Eu procurava palavras, para oferecer às alegrias das coisas, e uma palavra para a geral alegria do mundo.
Estava a olhar uma mulher, segui-a um pouco pela rua principal da cidade, vi-a desaparecer numa tabacaria.
Hesitei, parei à porta, estive a examinar as revistas expostas na entrada.
Via a mancha branca da mulher, lá dentro, junto ao balcão.
Pensava nos nomes.
Ocorriam-me: Corpo — Idade do Ouro — Liberdade.
De repente, eu recuperara a inocência.
Pensei: o saber doloroso dos anos, as mortes dia a dia, a profundeza das noites onde se acumularam todos os silêncios desembocam aqui, quase inexplicavelmente, nesta inocência que me faz tremer.
Nas capas das revistas havia cores explosivas, primitivas.
As letras saltavam como pequenos animais cheios de respiração e circulações de sangue.
Entrei na tabacaria e surpreendi-me por lá não ver a mulher.
Pensei: saiu sem que eu desse por isso.
Mas eu já perdera a inocência.
É assim: por uma distracção, por querer olhar para todos os lados da inocência, a gente perde a inocência.
Comprei cigarros, saí.
Mas as capas das revistas já não eram as mesmas.
Estavam mortas e sobre elas respirava agora ferozmente um alfabeto sombrio e indecifrável.
Salvação, pensei, preciso salvar-me, preciso ressuscitar no meio desta cidade branca, elevar-me aos nomes justos, ao conhecimento dos corpos ambulatórios.
Mas aquela rua não era já a rua principal da cidade de que eu conhecia a matemática e a meteorologia, as imagens e os altos sons vivos.
Andei pela rua, olhando os rostos desconhecidos, e as vozes diziam palavras de uma língua estrangeira.
Em que cidade de que país deambulava um homem perdido, de súbito órfão dos seres e das coisas, dos vocabulários e gestos — órfão do seu contexto diário?
E voltei atrás, procurando a mesma tabacaria, uma referência no caos — um ponto sólido neste espaço inimigo.
Mas já nada reconhecia, e a tabacaria em que entrei era diferente da outra.
Ao fundo havia uma porta onde me pareceu ver escrita, na minha língua, a palavra: ENTRE.
E então entrei.
Atravessei um corredor, desci escadas, percorri novos corredores, e uma exaltação maligna obrigava-me a um enredamento cada vez mais desesperado em escadas e corredores.
Sim, os labirintos sempre me fascinaram.
E de novo a alegria, mas agora uma espécie de alegria negra, brotava não sei de que obscuros lugares da minha já grande idade.
Porque, pensando, eu era velho, velho, os meus anos acumulavam-se num tempo indeciso, e estavam cheios de coisas monstruosas.
Encontrava-me eu então num subterrâneo de pedra, cercado de prateleiras onde se alinhavam muitos recipientes de forma rectangular.
Nesse instante revelou-se-me o verdadeiro silêncio.
Não aquela pausa feita para se reconhecer o valor da voz que parou ou que se erguerá, mas um silêncio sem vozes antes ou depois: o silêncio.
Contudo, alguma coisa riscava esse silêncio.
Parecia-me o ruído de pequenas rodas metálicas no chão de pedra.
Uma enfermeira empurrava um carrinho de criança e, quando se aproximou de mim, vi que sobre o carrinho estava colocado um recipiente igual aos que se encontravam nas prateleiras.
Um ser inqualificável metido em gelo, ele próprio uma vaga forma azulada, congelada, com escamas, uma espécie de peixe.
Estava na caixa rectangular.
Apenas a cabeça fora relativamente salvaguardada.
Tinha guelras, sim, e a boca era uma boca de peixe desesperado — uma boca que quisesse falar, não pudesse falar.
A boca abria-se e fechava-se, sim, como a de um peixe fora de água, as guelras batiam.
Procuravam o idioma, a água.
Alguma coisa fora salvaguardada.
Era uma cabeça quase humana.
Havia o cabelo, os olhos aterrorizados, a testa nobre dos homens.
E então gritei: não — gritei: não, não.
Porque eu sabia: aquilo era a loucura.
Com uma facilidade extraordinária, a mulher levantou o recipiente do carrinho e arrumou-o numa prateleira.
Agora chegavam enfermeiras de todos os lados, empurrando carrinhos.
Ouvia-se o bater das bocas e das guelras dos peixes.
Eu procurava fugir, mas estava cercado pelos muros de pedra, não havia portas.
Via aqueles paralelepípedos de gelo em que seres fusiformes batiam a boca sem voz.
Não, não.
Mas uma das enfermeiras solicitava-me doce e energicamente.
Era persuasiva, a enfermeira.
E eu meti-me dentro do recipiente onde a água principiava a gelar.
O meu corpo transformava-se no de um peixe, sentia escamas nascerem na carne, formarem-se dentro de mim e rebentarem para fora, duras, frias, azuladas, insensíveis.
A intensidade do corpo diminuía, diminuía.
Mal o sentia, agora.
Não, pensava ainda, mas a carne mergulhara no gelo, e eu não tinha braços e pernas, nem tinha coxas, nem pénis, nem ventre, nem peito.
Só a cabeça saía do pescoço de gelo, a boca batia desalmadamente, sem linguagem.
Eu estava morto, e toda a antiga intensidade das mãos, dos pés, do sexo e do coração — todo o fogo dos órgãos trepidantes subira à cabeça.
Eu estava morto, mas atrozmente vivo pela cabeça — pensando a uma velocidade terrível, com força, com muita força.
Encerrado num subterrâneo, numa caixa de gelo, batendo a boca de peixe, sem um só nome para a louca e brutal multiplicidade dos pensamentos, com toda a minha delirante inteligência, sob o doce sorriso de uma enfermeira antisséptica.
Eu passeava à hora mais movimentada, na parte baixa da cidade.
Era a minha cidade, a cidade onde vivo, de que tão bem conheço as ruas e casas, os labirintos, os nomes, a secreta matemática dos fluxos e refluxos, as temperaturas.
Não é preciso ser estrangeiro — tomar comboios ou aviões, atravessar as águas.
O inferno é o último segredo do nosso conhecimento quotidiano.
A multidão andava de um lado para outro, era primavera.
A luz varria o ar.
Eu olhava as pessoas envolvidas exaltantemente por essa luz pura.
Pensava no corpo das pessoas, a alegria fervia dentro dos corpos — via-se isso.
A alegria passava de dentro dos corpos para fora, para os vestidos e fatos — e as ruas e prédios pareciam levitar.
Eu procurava palavras, para oferecer às alegrias das coisas, e uma palavra para a geral alegria do mundo.
Estava a olhar uma mulher, segui-a um pouco pela rua principal da cidade, vi-a desaparecer numa tabacaria.
Hesitei, parei à porta, estive a examinar as revistas expostas na entrada.
Via a mancha branca da mulher, lá dentro, junto ao balcão.
Pensava nos nomes.
Ocorriam-me: Corpo — Idade do Ouro — Liberdade.
De repente, eu recuperara a inocência.
Pensei: o saber doloroso dos anos, as mortes dia a dia, a profundeza das noites onde se acumularam todos os silêncios desembocam aqui, quase inexplicavelmente, nesta inocência que me faz tremer.
Nas capas das revistas havia cores explosivas, primitivas.
As letras saltavam como pequenos animais cheios de respiração e circulações de sangue.
Entrei na tabacaria e surpreendi-me por lá não ver a mulher.
Pensei: saiu sem que eu desse por isso.
Mas eu já perdera a inocência.
É assim: por uma distracção, por querer olhar para todos os lados da inocência, a gente perde a inocência.
Comprei cigarros, saí.
Mas as capas das revistas já não eram as mesmas.
Estavam mortas e sobre elas respirava agora ferozmente um alfabeto sombrio e indecifrável.
Salvação, pensei, preciso salvar-me, preciso ressuscitar no meio desta cidade branca, elevar-me aos nomes justos, ao conhecimento dos corpos ambulatórios.
Mas aquela rua não era já a rua principal da cidade de que eu conhecia a matemática e a meteorologia, as imagens e os altos sons vivos.
Andei pela rua, olhando os rostos desconhecidos, e as vozes diziam palavras de uma língua estrangeira.
Em que cidade de que país deambulava um homem perdido, de súbito órfão dos seres e das coisas, dos vocabulários e gestos — órfão do seu contexto diário?
E voltei atrás, procurando a mesma tabacaria, uma referência no caos — um ponto sólido neste espaço inimigo.
Mas já nada reconhecia, e a tabacaria em que entrei era diferente da outra.
Ao fundo havia uma porta onde me pareceu ver escrita, na minha língua, a palavra: ENTRE.
E então entrei.
Atravessei um corredor, desci escadas, percorri novos corredores, e uma exaltação maligna obrigava-me a um enredamento cada vez mais desesperado em escadas e corredores.
Sim, os labirintos sempre me fascinaram.
E de novo a alegria, mas agora uma espécie de alegria negra, brotava não sei de que obscuros lugares da minha já grande idade.
Porque, pensando, eu era velho, velho, os meus anos acumulavam-se num tempo indeciso, e estavam cheios de coisas monstruosas.
Encontrava-me eu então num subterrâneo de pedra, cercado de prateleiras onde se alinhavam muitos recipientes de forma rectangular.
Nesse instante revelou-se-me o verdadeiro silêncio.
Não aquela pausa feita para se reconhecer o valor da voz que parou ou que se erguerá, mas um silêncio sem vozes antes ou depois: o silêncio.
Contudo, alguma coisa riscava esse silêncio.
Parecia-me o ruído de pequenas rodas metálicas no chão de pedra.
Uma enfermeira empurrava um carrinho de criança e, quando se aproximou de mim, vi que sobre o carrinho estava colocado um recipiente igual aos que se encontravam nas prateleiras.
Um ser inqualificável metido em gelo, ele próprio uma vaga forma azulada, congelada, com escamas, uma espécie de peixe.
Estava na caixa rectangular.
Apenas a cabeça fora relativamente salvaguardada.
Tinha guelras, sim, e a boca era uma boca de peixe desesperado — uma boca que quisesse falar, não pudesse falar.
A boca abria-se e fechava-se, sim, como a de um peixe fora de água, as guelras batiam.
Procuravam o idioma, a água.
Alguma coisa fora salvaguardada.
Era uma cabeça quase humana.
Havia o cabelo, os olhos aterrorizados, a testa nobre dos homens.
E então gritei: não — gritei: não, não.
Porque eu sabia: aquilo era a loucura.
Com uma facilidade extraordinária, a mulher levantou o recipiente do carrinho e arrumou-o numa prateleira.
Agora chegavam enfermeiras de todos os lados, empurrando carrinhos.
Ouvia-se o bater das bocas e das guelras dos peixes.
Eu procurava fugir, mas estava cercado pelos muros de pedra, não havia portas.
Via aqueles paralelepípedos de gelo em que seres fusiformes batiam a boca sem voz.
Não, não.
Mas uma das enfermeiras solicitava-me doce e energicamente.
Era persuasiva, a enfermeira.
E eu meti-me dentro do recipiente onde a água principiava a gelar.
O meu corpo transformava-se no de um peixe, sentia escamas nascerem na carne, formarem-se dentro de mim e rebentarem para fora, duras, frias, azuladas, insensíveis.
A intensidade do corpo diminuía, diminuía.
Mal o sentia, agora.
Não, pensava ainda, mas a carne mergulhara no gelo, e eu não tinha braços e pernas, nem tinha coxas, nem pénis, nem ventre, nem peito.
Só a cabeça saía do pescoço de gelo, a boca batia desalmadamente, sem linguagem.
Eu estava morto, e toda a antiga intensidade das mãos, dos pés, do sexo e do coração — todo o fogo dos órgãos trepidantes subira à cabeça.
Eu estava morto, mas atrozmente vivo pela cabeça — pensando a uma velocidade terrível, com força, com muita força.
Encerrado num subterrâneo, numa caixa de gelo, batendo a boca de peixe, sem um só nome para a louca e brutal multiplicidade dos pensamentos, com toda a minha delirante inteligência, sob o doce sorriso de uma enfermeira antisséptica.
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Alice Vieira
Carta ao Pai
eu e meu pai temos em comum o gosto pelas fortalezas afirmativas
a certeza incontornável que se dá num átimo
de enorme poder concentracionário
o que significa que eu e meu pai temos em comum (uma farmácia)
o que significa que o meu pai
essa semana quer o uísque mais caro e reina sobre esta terra
e na semana que vem quer o projétil mais caro para
mirar delicadamente no epicentro da cabeça
o meu pai não sabe que o corpo é iniludível o corpo
tem sempre razão e, portanto, não se preocupe, pai
quando estivermos atônitos em queda livre
ou atados à areia bruta que mora
no fundo do buraco negro ou de algum outro
acidente cósmico muito denso e oclusivo
embalado a vácuo poço sem fundo e apneia originária
quando de repente pensarmos: “daqui não há
homem que se levante”, não se preocupe
– é aí que mora a linguagem
a certeza incontornável que se dá num átimo
de enorme poder concentracionário
o que significa que eu e meu pai temos em comum (uma farmácia)
o que significa que o meu pai
essa semana quer o uísque mais caro e reina sobre esta terra
e na semana que vem quer o projétil mais caro para
mirar delicadamente no epicentro da cabeça
o meu pai não sabe que o corpo é iniludível o corpo
tem sempre razão e, portanto, não se preocupe, pai
quando estivermos atônitos em queda livre
ou atados à areia bruta que mora
no fundo do buraco negro ou de algum outro
acidente cósmico muito denso e oclusivo
embalado a vácuo poço sem fundo e apneia originária
quando de repente pensarmos: “daqui não há
homem que se levante”, não se preocupe
– é aí que mora a linguagem
927
José Maria Cançado
Rumo à estação da ficção suprema
Que vêm fazer aqui
os lilases de abril de tom eliot
nos poros da estática estouradaça
da caixa de som do rap e do xote?
esse mantra do abril anglicano
na sirene ligada da língua saturno e onano
do rapper e seu programa de paupéria e glória
do terceiro-urbano?
Personas e máscaras dos poetas
do mundo inteiro, uni-vos
e no mesmo passo desuni-vos
no despaisado da vossa condição e lilases:
Tal qual a zona liberada,
num palco da periferia do Brasil,
como a composição de um novo terno
e de um vasto mundo conato,
por tom eliot, seu pelo lilás pentecostal,
e o sujeito marrento no palco,
se a realidade não escreve
nem jamais escreveu,
ela ensaia uma ficção suprema,
entrar e sair do seu lugar nos livros,
e realizar-se no destino emancipado do poema.
os lilases de abril de tom eliot
nos poros da estática estouradaça
da caixa de som do rap e do xote?
esse mantra do abril anglicano
na sirene ligada da língua saturno e onano
do rapper e seu programa de paupéria e glória
do terceiro-urbano?
Personas e máscaras dos poetas
do mundo inteiro, uni-vos
e no mesmo passo desuni-vos
no despaisado da vossa condição e lilases:
Tal qual a zona liberada,
num palco da periferia do Brasil,
como a composição de um novo terno
e de um vasto mundo conato,
por tom eliot, seu pelo lilás pentecostal,
e o sujeito marrento no palco,
se a realidade não escreve
nem jamais escreveu,
ela ensaia uma ficção suprema,
entrar e sair do seu lugar nos livros,
e realizar-se no destino emancipado do poema.
563
Herberto Helder
Os Prólogos
Sou o Autor, diz o Autor, e aproxima-se das pessoas que estão simplesmente a assistir e lhe deixam, a ele, a solidão incólume.
Boa-noite.
E as pessoas que assistem são estátuas com cabelo, um sorriso talvez — com esse ar ambíguo das estátuas: branco, fatal, atónito.
As estátuas não têm amor nem adivinhação.
Estão cravadas nas poltronas e nada fazem por esse Autor repentinamente aparecido no meio de sombras e luzes.
Contudo, esperemos ao menos que não sejam os «juízes».
São majores, advogados, comerciantes, professores.
Estátuas sentadas.
Estava ali a pensar, há pouco, para que serve aparecer.
(Ele refere-se, evidentemente, a um momento teatral anterior, que pode desenhar-se desta maneira:
O pano sobe.
A cena encontra-se na obscuridade.
Três panejamentos negros cobrem o fundo e os lados do palco.
A um canto, ao fundo, de preferência à esquerda, está um homem sentado numa poltrona de couro.
Fuma.
Tem ao lado um cinzeiro de pé alto.
Nada mais existe no palco.
O homem expele o fumo com força, uma última vez, e atira o cigarro para o cinzeiro.
Ergue-se devagar.
As luzes aumentam de intensidade sem, no entanto, iluminarem francamente a cena.)
Não serve para nada, continua, a menos.
Levanta um dedo, e todo o corpo como que se precipita para o alto desse jacto de energia.
A menos que se execute um milagre.
E toda a sala permaneceria muda e à margem da (miraculosa) solidão, se o Demónio, que passava pelos corredores, não tivesse encontrado a porta entreaberta e, espreitando, não dissesse: um milagre?
Sim, responde o Autor, um pequeno milagre.
Aqui é o lugar da malícia do Demónio.
Pequeno?, pergunta.
Então o Autor diz que tentará explicar.
Massas de sombra e de luz esperam atrás dele.
O espaço onde se encontra hesita entre vários, inconcluídos pensamentos.
Nem a temperatura, a pressão, a humidade se fixaram.
Eu apareço como exemplificador — mostro o estilo, o exemplo.
Um operário em fato-macaco levanta um dos panos laterais e introduz em cena meio corpo.
Pergunta: começa-se?
Ainda não, responde o Autor, estou a explicar umas coisas.
Quando acabar, chame, diz o operário, e desaparece.
Senhores militares, estudantes, médicos — minhas senhoras — meus senhores — ides assistir a um acto simbólico.
É esse o milagre, o pequeno?, pergunta o Demónio no fundo da sala.
Sim, é esse — e é pequeno.
Bate palmas, e entram alguns operários.
Agora?, perguntam.
Os operários saem e voltam com uma carpete, cadeiras, pequenas mesas e o mais que possa interessar para que surja uma sala-de-estar segundo a convenção.
Um momento, interrompe o Autor.
E os operários conservam-se a um canto, pacientemente à espera de poderem arrumar os móveis e objectos.
Eu ia pedir-vos, senhoras, senhores, para aceitardes o direito de poder imaginar a acção um pouco como quisésseis.
O que aqui se passar poderia passar-se noutro sítio qualquer, com pessoas diferentes e de maneira diversa.
Mete pessoas?, pergunta o Demónio.
Não haverá sempre pessoas?, não estaremos por acaso — tu, eu — bloqueados, sufocados, esmagados por pessoas? — há sempre pessoas.
E as pessoas estão em baixo, sorrindo, olhando — talvez, talvez.
Enfim, procuro defender o meu símbolo, apesar de tudo.
Podeis começar, senhores operários.
E para vós, senhoras, senhores, que simplesmente assistis, vou fazer, enquanto eles dão a este espaço o aspecto concreto da realidade, um pequeno truque de prestidigitação.
Uma coisa poética, pela qual procurarei dar a impressão de que repito o acto iluminante do Génesis.
É o milagre?, perguntam impertinentemente do fundo da sala.
Um milagre que não é precisamente uma arbitrariedade.
Os poetas arrogam-se o direito de recomeçar o mundo.
Aqui principia o mundo, se é verdade que pode principiar em qualquer parte e tempo.
E então arregaça as mangas do casaco como um prestidigitador de circo.
Mostra as mãos, de um lado e de outro.
Nada na manga, diz o Demónio.
Com efeito, nada na manga.
Dirige-se para os panejamentos negros que puxa, e caem, deixando à vista as paredes com estantes de livros, quadros, retratos de família, etc.
Bonito, não é?
Fiat lux!
E a luz fez-se.
Olha subtilmente para as estátuas, enquanto ao fundo rebenta uma gargalhada.
Depressa, diz para os operários, esta gente espera a acção.
A acção, não é?
Pois claro.
Onde estão as portas?
Uma para comunicar com o resto da casa.
Isto é a sala-de-estar de uma família.
Ora é preciso que as pessoas entrem e saiam.
Que vivam por toda a parte, por causa da verosimilhança.
Gosto muito da verosimilhança.
E outra, outra porta para fora.
Porque podem chamar de fora, da noite, do vento, e a pessoa por quem chamam poderá querer sair.
Estavam mal as pessoas, se o Criador.
Com a licença de todos, o Criador aqui sou eu.
Se o Criador, dizia, lhes não desse uma porta.
É tudo?, pergunta o Demónio.
Tudo, sim.
E o milagre?
Bem, o milagre.
Nada há a acrescentar, senão talvez que as pessoas que simplesmente assistem nunca se movem, porventura jamais se moverão.
Talvez nem mesmo sorriam, ou olhem.
Estão sentadas, vamo-lo supor.
Sentadas e hirtas, e se calhar não chegam a compreender que é para elas tudo o que se faça.
A paixão forma-se, cresce, desloca-se à sua frente.
Alguém se esgota à sua frente — o caloroso prestidigitador, sob a ironia de um demónio devoluto, emprestado pelas fábulas.
Escreve-se.
Há as nuvens, as árvores, as cores, as temperaturas.
Há o espaço.
É preciso encontrar a nossa relação com o espaço.
Fazer escultura.
Escultura: objecto.
Objectos para a criação de espaço, espelhos para a criação de imagens, pessoas para a criação de silêncio.
Objectos para a criação de espelhos para a criação de pessoas para a criação de espaço para a criação de imagens para a criação de silêncio.
Objectos para a criação de silêncio.
Temos enfim o silêncio: é uma autobiografia.
É algo que se conquista à força de palavras.
Pode-se morrer, depois, quero dizer.
Um amigo: quando já sabemos como viver estamos prontos para a morte.
Estou descontente.
Há primavera, verão, outono e inverno — no espaço.
Começa assim o Ricardo III:
Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York;
And all the clouds that lourd’d upon our house
In the deep bosom of the Ocean buried.
Now are our brows with victorious wreaths;
Our bruised arms hung up for monuments;
Our stern alarums changed to merry meetings;
Our dreadful marches to delightful measures.
Gloucester não é feito para estes tempos de paz, os jogos voluptuosos, os delicados labirintos da beleza.
É monstruoso.
Why, I, in this weak piping time of peace,
Have no delight to pass away the time,
Unless to see my shadow in the sun
And descant on mine own deformity.
E ele realizará uma autobiografia activa, uma sufocante acumulação de crimes.
Uma soma de cadáveres.
Um cadáver ele mesmo, acto V, cena V.
É o silêncio dele.
Estou descontente.
Eis o inverno do meu descontentamento.
Autobiografia.
Denominação: dominação das coisas.
O amor e a palavra são belos crimes — e imperdoáveis.
E quem pode amar o crime senão o criminoso e, por vezes, devido a um ainda mais raro talento, a sua vítima?
O autobiógrafo é a vítima do seu crime.
Melhor verdade, porém, é que a única graça concedida ao criminoso é o seu próprio crime.
Estou só: escrevo.
A alegria de escrever.
A temperatura, a velocidade, a cor das palavras — a maneira.
Latejam e respiram.
Dormem e despertam — andam.
Olham para a nossa ciência e para a nossa inocência.
Amam-nos.
Descobrir o seu sistema de cristalização, ver como a luz se refracta através delas.
As montanhas deslocam-se, pela energia das palavras, aparecem pessoas, animais, girassóis, plantas negras, lugares negros — e o sol, pela energia das palavras, cria-se o silêncio, pela energia das palavras.
année par année sont des années sans années
pas par pas sont des pas sans pas
Uma notícia de jornal: uma estátua em granito, com mais de 2 metros de altura e pesando meia tonelada, desequilibrou-se e tombou sobre o escultor que a tinha feito, esmagando-o.
Porque não é assim: o homem pesa 60 toneladas, mede 22 metros de altura e 24 de largura, e ocupa uma superfície de 70 metros quadrados — é em aço inoxidável.
Escrever é perigoso.
(…)
Sim — no entanto, já me disseram isso: que eu devia ser paciente.
E os que mo disseram foram tão pacientes, pelo seu lado, que apodreceram.
Quanto a mim, tenho pressa.
Porque eu penso que vou morrer, e então como posso ser paciente?
Gostaria de escrever o livro de que tenho medo, mas os meus dias, afinal longos, são ameaçados pela esterilidade.
Nada disto é fácil.
Suporto mal a carga das experiências e inexperiências: um homem, bela fábula também para apodrecer, e (desta vez) depressa.
A minha convicção era esta: eu esgotara a cidade.
Então fiz a mala e dirigi-me para o norte.
O norte era um espaço organizado segundo outras regras, de certo modo opostas às da cidade esgotada.
A experiência que possa ou julgue ter apresenta-me o norte como um estilo ao mesmo tempo rigoroso e livre, onde as primeiras qualidades são talvez a verdade, a pureza e o esforço.
A minha vida na cidade orientava-se pelo princípio da dissipação.
O facto que eu fugia de admitir, isto é: que o livro me perseguia, o livro aterrador que eu aspirava escrever, para que fosse a minha purificação — seria colocado, o livro, o facto, seria colocado, no norte, numa nova perspectiva.
Sim.
Já me não equilibrava nas linhas do antigo estilo.
Havia peste na cidade.
Suponho que um perfeito desamor se estabelecera entre mim e os dias.
Repugnavam-me as casas brancas, a cal martelada pelo sol, e o rio — as grandes águas pesadamente luminosas.
Era a peste.
Mas a peste não é só esta face quente e branca que confunde o poder e a delicadeza dos pensamentos.
O sul comporta as noites aparentemente plácidas, de que os dias vazios são uma ambígua anunciação, onde um furor sensual empurra à embriaguez, à alegria dramática — exigência de atingir depressa os limites.
Eu vacilava então entre diversas pistas, convencido de que o ardor me guiaria ao melhor lugar, quero dizer: à exaltação mais alta.
Onde me conduzia o livro, o tema, aquela perseguição?
Que espécie de morte me vigiava — terrível e salvadora?
Em pequenos escritos de uma crueldade minuciosa mas lateral, eu fazia perguntas, e do outro lado aparecia o norte, com a fascinação da sua luz imóvel.
Era a sua fábula o que eu deveria aprender: descobrir o seu prestígio inocente.
E nessa fixa claridade desabrochariam os meus obscuros bestiários — o livro.
(…)
O livro, o livro.
Nos dias nevoentos fecho as janelas, acendo a luz forte, e deito-me no tapete.
Leio ou penso.
Ou então fumo, enquanto as camadas de silêncio se sobrepõem, e as mais pesadas descem e as mais leves se tornam pesadas, até ser impossível destruir o silêncio.
É fascinante, debaixo de uma luz que brilha tanto.
Lá fora, a terra — a terra das criaturas que se aproximam umas das outras, se tocam e falam.
O silêncio é sólido, iluminado por cima, aquecido pelos lados.
Durante seis meses fumo e leio, estendido no tapete.
Depois chega o verão, e subo à montanha, e vou para o mar.
Rebento de sol e água, do odor a terra quente e agulhas de pinheiro.
Estou tremendamente forte.
Bebo vinho.
Uma noite começo a escrever.
Tenho uma memória: nada foi esquecido.
Vem adequado agora a um vivo sentido de expressão.
Feliz, eu caminho para o esgotamento, nesses terríveis dias da fecundidade.
As pessoas perdem o nome, os acontecimentos libertam-se do seu movimento centrífugo: fica um núcleo cerrado de significações.
Inspiro-me na minha alegria, na morte acumulada.
Vivo sobre um doloroso e minucioso sentimento de masculinidade — como se isso fosse uma doença.
Poderei dizê-lo: inspiro-me no que é uma força e uma terrífica fragilidade, diante da lembrança e do esquecimento.
Depois: um ritmo, uma libertação.
Há dentro da gaveta uma rima de folhas escritas de ambos os lados.
Escrevi-as para os sombrios tempos do esgotamento.
Eu sou — e ali está a minha prova.
Dias, dias, noites inteiras — sobre o tapete, enquanto a chuva, o sol, o vento, o mundo.
Tempo consumido por uma tranquilidade imóvel.
Mas o bolbo fermenta.
Começo a andar em volta do quarto e a sair do quarto.
Sim, sim, digo eu, sim.
Ando de um quarto para outro, fechando portas, voltando atrás para abrir portas.
Depois paro e fumo diante das janelas.
Eu, diante da noite, com as mãos cobertas de sangue.
Eu, cheio de medo.
Irrisória medida pessoal: comida, urina, fezes, esperma, suor.
As unhas e os cabelos que crescem.
E a noite adiante, atrás, por cima.
Uma distância avassaladora e inóspita.
Desamor, crueldade, sensibilidade na criatura, na estranha criatura coroada com a sua comida e as suas fezes.
E sangue nas mãos, não há lágrimas — masculinidade, podridão fria.
Os papéis são um motor, trabalhando ininterruptamente; os papéis trabalham pelos dias dentro e no meio da noite.
Um tremendo motor.
Acordo de madrugada para ouvir a trepidação do motor.
Comunica-se à mesa, e da mesa ao soalho, às paredes, e a toda a casa.
É uma força espantosa.
Divago pela casa, bêbado de hesitação, dissipo-me em passos, mergulho em sonos brutais.
Uma manhã, caminho debaixo de árvores frias.
A terra trabalha à minha volta, interior e silenciosa, o mar vibra sob um céu extenuantemente liso.
Enfrento este calmo sonho do mundo, eu — o homem exaltado.
O meu poder é profundo e obscuro.
E então canto.
É uma canção essencial, ingénua — desalojada dos labirintos da ciência.
Empunho essa arma inocente, atravesso com ela meu ser dúbio, o vocabulário das contradições.
Sim, sim, penso eu, sim.
Talvez a alegria comece nesta terrível purificação.
Vieram ter comigo à noite, numa rua deserta, e disseram: porque fizeste isso?
Pareceu-me reconhecê-los, reconhecer-lhes os rostos implacáveis de ressuscitados, e a voz, aquela voz triste e violenta de quem irrompeu do tempo e violou a sua qualidade mortal.
Pensei: quem sou eu para que me ataquem as vozes?
E o sangue vacilou na minha carne, as mãos tremeram, e a minha boca estava gelada.
Porque eu sabia quem era — conhecia-me.
Que fiz eu?, perguntei, e eles olhavam-me com a sua terrível melancolia.
Vieram ter comigo numa rua de não sei que cidade, e quem sabe se eu era puro?
Tinham caras ferozes e dolorosas, e queriam conhecer a razão por que eu fizera aquilo.
Olhei em volta — e apenas uma noite sufocada pelo nevoeiro, o rumor apenas do vento arrastando papéis velhos pelas ruas.
Era uma vez um lugar — pensei — onde os pássaros apanhavam insectos e os cravavam nos espinhos dos cardos selvagens.
Era uma vez uns pássaros que cantavam, enquanto os insectos agonizavam enterrados em espinhos brancos e duros.
O seu canto era belo.
E então, voltando-me para aqueles rostos amargos e cruéis, perguntei: quereis cantar?
E eles sorriram, como quem sabe, e disseram: porque fizeste isso?
Serei um inocente? — isto, só isto o que me acudiu.
E pus-me a andar, enquanto eles me seguiam quase sem ruído pelo meio do nevoeiro.
De súbito, percebi que eu nada sabia, nada, que a minha ciência era inane, e me limpava de toda a culpa.
Estremeci de alegria e parei voltando-me para eles, e perguntei, radiante: que fiz eu?
Um deles avançou para mim e passou a mão direita pelo meu rosto, numa carícia leve e, ao mesmo tempo, investigadora.
Recordei todo o tempo inútil que vivera, e aquilo que opusera ao mundo, e pensei: como hei-de morrer, com que espécie de amor, de louvor, hei-de eu morrer?
Já sabia então toda a profundeza do meu crime, e como o meu espírito era frágil e cruel.
Terei cantado alguma vez? — perguntei, e aquele que avançara até mim recuou para o grupo, e todos me olhavam.
Ignoro em que cidade pode o nevoeiro correr assim pelas ruas, e deixar à volta dos rostos um espaço branco onde uma luz difusa trema longamente, como se não houvesse tempo e o peso incalculável das presenças fosse irremovível.
Vieram ter comigo nessa inexplicável cidade e, enquanto o nevoeiro passava, olhavam-me implacavelmente, conhecendo o meu medo, o ponto instável onde inocência e crime se equilibravam no meu coração, e disseram: porque fizeste isso?
Eu sorri.
Decerto, comecei a dizer.
E de novo reparei que os rostos escapavam ao nevoeiro, quase brilhando na massa escura e gelada da noite.
E o meu rosto, brilharia ele também, estaria como que suspenso na noite, seria um rosto implacável?
Como recusar que eu sempre me preparara para a morte do mesmo modo que se prepara uma vingança?
Decerto, disse sorrindo, decerto houve um erro qualquer, porque eu não posso ser procurado.
E recomecei imediatamente a andar.
Sim, isto é um lugar, isto é uma noite, mas há outros lugares e outros tempos.
Há uma libertação, algures, num tempo que não sei, mas que existe.
E eles seguiam-me, e tanto fazia que eu caminhasse depressa como devagar, porque se mantinham à mesma distância.
Ando à procura da minha velocidade, mas o que é isto, que é procurar a sua própria velocidade, se aparecem vozes com uma pergunta fora do tempo e dos lugares?
Há um erro, gritei, e enfrentei-os, há um erro, um erro.
E então um deles avançou para mim e passou a ponta dos dedos pela minha boca.
E não sei se eram os dedos que tremiam ou se era a minha boca, e não sei porque tremeriam os dedos ou tremeria a boca.
Ele afastou-se devagar, e eu perguntei: que fiz eu?
As ondas de nevoeiro abraçavam as figuras imóveis e o vento arrastava jornais velhos.
Os rostos continuavam a palpitar no ar frio.
Um dia chegará a luz.
Um dia correrão as águas, e as plantas sairão das trevas com a chama branca das suas flores, e alguém louvará o renascimento da vida.
Um dia o homem estará nu e inocente.
Então reconheci os seus rostos atrozes de ressuscitados, e aquela voz que irrompia do tempo e violava a sua qualidade mortal, para dizer: porque fizeste isso?
Quem sou eu para que as vozes me ataquem?
Porque fizeste isso? porque fizeste isso? porque fizeste isso?
Ah, um pouco de paz, um dia de paz, apenas um dia, para que saiba ao menos a qualidade da minha culpa.
E um deles avançou e deu-me um beijo no rosto, e depois recuou, e depois recomecei a minha caminhada sem propósito, e depois senti que a face me queimava no sítio do beijo, como uma chaga.
Era uma rua enorme, estreita e varrida pelo nevoeiro húmido.
Eles andavam atrás de mim, quase sem ruído.
Talvez a inocência seja mesmo a minha verdadeira vocação.
Que espécie de ciência terão eles, para fazerem tal pergunta?
Era uma vez um lugar onde pássaros terríveis cantavam inspirados pela agonia dos insectos.
O seu canto era de uma beleza inocente e parecia louvar a própria vida.
Há um erro, disse eu, e parei para olhar as caras brancas e amargas.
Quereis cantar?, perguntei, quereis alimentar-vos da minha inocência?
Então um deles destacou-se do grupo e veio para mim, cambaleando como um ferido, e depois tomou-me as duas mãos nas suas e levou-as lenta e apaixonadamente aos lábios, e comecei a chorar em silêncio, enquanto as minhas mãos ficavam entregues àquele beijo de um amor terrível.
Porque fizeste isso?, perguntaram os outros, dirigindo-se a mim.
E os seus rostos eram implacáveis.
O que estava junto de mim abandonou-me docemente as mãos e voltou para o grupo.
Disse: porque fizeste isso?
Um dia chegará a primavera, num lugar longe daqui, haverá homens e mulheres para louvar a vida, pensei eu.
E, virando-me para eles, perguntei: que fiz eu?
Ah, vieram ter comigo à noite, numa rua deserta, e pareceu-me reconhecê-los, reconhecer-lhes os rostos implacáveis de ressuscitados, e a voz, aquela voz triste e violenta de quem irrompeu do tempo e violou a sua qualidade mortal.
Porque fizeste isso?, perguntavam.
Mas nem eu avaliava bem a verdade da minha culpa ou da minha inocência, nem conhecia que espécie de sabedoria era a deles.
E caminhava pela cidade cheia de nevoeiro, e eles seguiam-me e às vezes beijavam-me apaixonadamente as mãos, e eu dizia: que fiz eu?
Se acaso eu pudesse pensar na morte, isso era como uma vingança, e parecia que eles sabiam tudo.
De nada servia que eu protestasse existir um erro.
Mostravam-me o seu amor demoníaco, e acusavam-me até eu sentir que tudo vacilava dentro de mim.
Talvez agonizássemos todos e todos nós esperássemos cantar, movidos pela agonia alheia, talvez estivéssemos ligados por insondáveis tramas de inocência e culpa, e as vozes fossem um obscuro esforço de libertação.
Eu parava e dizia: mas que fiz eu?
E um deles avançava para mim e encostava o seu rosto ao meu e afastava-se.
E depois eles perguntavam: porque fizeste isso?
Quem sabe?, talvez fosse muito rudimentar toda a nossa sabedoria de crime e inocência, e o amor e o medo enchessem o nosso coração, e assim caminhássemos pelas trevas com os rostos brilhando ao alto — dolorosos, implacáveis e doces, doces.
Boa-noite.
E as pessoas que assistem são estátuas com cabelo, um sorriso talvez — com esse ar ambíguo das estátuas: branco, fatal, atónito.
As estátuas não têm amor nem adivinhação.
Estão cravadas nas poltronas e nada fazem por esse Autor repentinamente aparecido no meio de sombras e luzes.
Contudo, esperemos ao menos que não sejam os «juízes».
São majores, advogados, comerciantes, professores.
Estátuas sentadas.
Estava ali a pensar, há pouco, para que serve aparecer.
(Ele refere-se, evidentemente, a um momento teatral anterior, que pode desenhar-se desta maneira:
O pano sobe.
A cena encontra-se na obscuridade.
Três panejamentos negros cobrem o fundo e os lados do palco.
A um canto, ao fundo, de preferência à esquerda, está um homem sentado numa poltrona de couro.
Fuma.
Tem ao lado um cinzeiro de pé alto.
Nada mais existe no palco.
O homem expele o fumo com força, uma última vez, e atira o cigarro para o cinzeiro.
Ergue-se devagar.
As luzes aumentam de intensidade sem, no entanto, iluminarem francamente a cena.)
Não serve para nada, continua, a menos.
Levanta um dedo, e todo o corpo como que se precipita para o alto desse jacto de energia.
A menos que se execute um milagre.
E toda a sala permaneceria muda e à margem da (miraculosa) solidão, se o Demónio, que passava pelos corredores, não tivesse encontrado a porta entreaberta e, espreitando, não dissesse: um milagre?
Sim, responde o Autor, um pequeno milagre.
Aqui é o lugar da malícia do Demónio.
Pequeno?, pergunta.
Então o Autor diz que tentará explicar.
Massas de sombra e de luz esperam atrás dele.
O espaço onde se encontra hesita entre vários, inconcluídos pensamentos.
Nem a temperatura, a pressão, a humidade se fixaram.
Eu apareço como exemplificador — mostro o estilo, o exemplo.
Um operário em fato-macaco levanta um dos panos laterais e introduz em cena meio corpo.
Pergunta: começa-se?
Ainda não, responde o Autor, estou a explicar umas coisas.
Quando acabar, chame, diz o operário, e desaparece.
Senhores militares, estudantes, médicos — minhas senhoras — meus senhores — ides assistir a um acto simbólico.
É esse o milagre, o pequeno?, pergunta o Demónio no fundo da sala.
Sim, é esse — e é pequeno.
Bate palmas, e entram alguns operários.
Agora?, perguntam.
Os operários saem e voltam com uma carpete, cadeiras, pequenas mesas e o mais que possa interessar para que surja uma sala-de-estar segundo a convenção.
Um momento, interrompe o Autor.
E os operários conservam-se a um canto, pacientemente à espera de poderem arrumar os móveis e objectos.
Eu ia pedir-vos, senhoras, senhores, para aceitardes o direito de poder imaginar a acção um pouco como quisésseis.
O que aqui se passar poderia passar-se noutro sítio qualquer, com pessoas diferentes e de maneira diversa.
Mete pessoas?, pergunta o Demónio.
Não haverá sempre pessoas?, não estaremos por acaso — tu, eu — bloqueados, sufocados, esmagados por pessoas? — há sempre pessoas.
E as pessoas estão em baixo, sorrindo, olhando — talvez, talvez.
Enfim, procuro defender o meu símbolo, apesar de tudo.
Podeis começar, senhores operários.
E para vós, senhoras, senhores, que simplesmente assistis, vou fazer, enquanto eles dão a este espaço o aspecto concreto da realidade, um pequeno truque de prestidigitação.
Uma coisa poética, pela qual procurarei dar a impressão de que repito o acto iluminante do Génesis.
É o milagre?, perguntam impertinentemente do fundo da sala.
Um milagre que não é precisamente uma arbitrariedade.
Os poetas arrogam-se o direito de recomeçar o mundo.
Aqui principia o mundo, se é verdade que pode principiar em qualquer parte e tempo.
E então arregaça as mangas do casaco como um prestidigitador de circo.
Mostra as mãos, de um lado e de outro.
Nada na manga, diz o Demónio.
Com efeito, nada na manga.
Dirige-se para os panejamentos negros que puxa, e caem, deixando à vista as paredes com estantes de livros, quadros, retratos de família, etc.
Bonito, não é?
Fiat lux!
E a luz fez-se.
Olha subtilmente para as estátuas, enquanto ao fundo rebenta uma gargalhada.
Depressa, diz para os operários, esta gente espera a acção.
A acção, não é?
Pois claro.
Onde estão as portas?
Uma para comunicar com o resto da casa.
Isto é a sala-de-estar de uma família.
Ora é preciso que as pessoas entrem e saiam.
Que vivam por toda a parte, por causa da verosimilhança.
Gosto muito da verosimilhança.
E outra, outra porta para fora.
Porque podem chamar de fora, da noite, do vento, e a pessoa por quem chamam poderá querer sair.
Estavam mal as pessoas, se o Criador.
Com a licença de todos, o Criador aqui sou eu.
Se o Criador, dizia, lhes não desse uma porta.
É tudo?, pergunta o Demónio.
Tudo, sim.
E o milagre?
Bem, o milagre.
Nada há a acrescentar, senão talvez que as pessoas que simplesmente assistem nunca se movem, porventura jamais se moverão.
Talvez nem mesmo sorriam, ou olhem.
Estão sentadas, vamo-lo supor.
Sentadas e hirtas, e se calhar não chegam a compreender que é para elas tudo o que se faça.
A paixão forma-se, cresce, desloca-se à sua frente.
Alguém se esgota à sua frente — o caloroso prestidigitador, sob a ironia de um demónio devoluto, emprestado pelas fábulas.
Escreve-se.
Há as nuvens, as árvores, as cores, as temperaturas.
Há o espaço.
É preciso encontrar a nossa relação com o espaço.
Fazer escultura.
Escultura: objecto.
Objectos para a criação de espaço, espelhos para a criação de imagens, pessoas para a criação de silêncio.
Objectos para a criação de espelhos para a criação de pessoas para a criação de espaço para a criação de imagens para a criação de silêncio.
Objectos para a criação de silêncio.
Temos enfim o silêncio: é uma autobiografia.
É algo que se conquista à força de palavras.
Pode-se morrer, depois, quero dizer.
Um amigo: quando já sabemos como viver estamos prontos para a morte.
Estou descontente.
Há primavera, verão, outono e inverno — no espaço.
Começa assim o Ricardo III:
Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York;
And all the clouds that lourd’d upon our house
In the deep bosom of the Ocean buried.
Now are our brows with victorious wreaths;
Our bruised arms hung up for monuments;
Our stern alarums changed to merry meetings;
Our dreadful marches to delightful measures.
Gloucester não é feito para estes tempos de paz, os jogos voluptuosos, os delicados labirintos da beleza.
É monstruoso.
Why, I, in this weak piping time of peace,
Have no delight to pass away the time,
Unless to see my shadow in the sun
And descant on mine own deformity.
E ele realizará uma autobiografia activa, uma sufocante acumulação de crimes.
Uma soma de cadáveres.
Um cadáver ele mesmo, acto V, cena V.
É o silêncio dele.
Estou descontente.
Eis o inverno do meu descontentamento.
Autobiografia.
Denominação: dominação das coisas.
O amor e a palavra são belos crimes — e imperdoáveis.
E quem pode amar o crime senão o criminoso e, por vezes, devido a um ainda mais raro talento, a sua vítima?
O autobiógrafo é a vítima do seu crime.
Melhor verdade, porém, é que a única graça concedida ao criminoso é o seu próprio crime.
Estou só: escrevo.
A alegria de escrever.
A temperatura, a velocidade, a cor das palavras — a maneira.
Latejam e respiram.
Dormem e despertam — andam.
Olham para a nossa ciência e para a nossa inocência.
Amam-nos.
Descobrir o seu sistema de cristalização, ver como a luz se refracta através delas.
As montanhas deslocam-se, pela energia das palavras, aparecem pessoas, animais, girassóis, plantas negras, lugares negros — e o sol, pela energia das palavras, cria-se o silêncio, pela energia das palavras.
année par année sont des années sans années
pas par pas sont des pas sans pas
Uma notícia de jornal: uma estátua em granito, com mais de 2 metros de altura e pesando meia tonelada, desequilibrou-se e tombou sobre o escultor que a tinha feito, esmagando-o.
Porque não é assim: o homem pesa 60 toneladas, mede 22 metros de altura e 24 de largura, e ocupa uma superfície de 70 metros quadrados — é em aço inoxidável.
Escrever é perigoso.
(…)
Sim — no entanto, já me disseram isso: que eu devia ser paciente.
E os que mo disseram foram tão pacientes, pelo seu lado, que apodreceram.
Quanto a mim, tenho pressa.
Porque eu penso que vou morrer, e então como posso ser paciente?
Gostaria de escrever o livro de que tenho medo, mas os meus dias, afinal longos, são ameaçados pela esterilidade.
Nada disto é fácil.
Suporto mal a carga das experiências e inexperiências: um homem, bela fábula também para apodrecer, e (desta vez) depressa.
A minha convicção era esta: eu esgotara a cidade.
Então fiz a mala e dirigi-me para o norte.
O norte era um espaço organizado segundo outras regras, de certo modo opostas às da cidade esgotada.
A experiência que possa ou julgue ter apresenta-me o norte como um estilo ao mesmo tempo rigoroso e livre, onde as primeiras qualidades são talvez a verdade, a pureza e o esforço.
A minha vida na cidade orientava-se pelo princípio da dissipação.
O facto que eu fugia de admitir, isto é: que o livro me perseguia, o livro aterrador que eu aspirava escrever, para que fosse a minha purificação — seria colocado, o livro, o facto, seria colocado, no norte, numa nova perspectiva.
Sim.
Já me não equilibrava nas linhas do antigo estilo.
Havia peste na cidade.
Suponho que um perfeito desamor se estabelecera entre mim e os dias.
Repugnavam-me as casas brancas, a cal martelada pelo sol, e o rio — as grandes águas pesadamente luminosas.
Era a peste.
Mas a peste não é só esta face quente e branca que confunde o poder e a delicadeza dos pensamentos.
O sul comporta as noites aparentemente plácidas, de que os dias vazios são uma ambígua anunciação, onde um furor sensual empurra à embriaguez, à alegria dramática — exigência de atingir depressa os limites.
Eu vacilava então entre diversas pistas, convencido de que o ardor me guiaria ao melhor lugar, quero dizer: à exaltação mais alta.
Onde me conduzia o livro, o tema, aquela perseguição?
Que espécie de morte me vigiava — terrível e salvadora?
Em pequenos escritos de uma crueldade minuciosa mas lateral, eu fazia perguntas, e do outro lado aparecia o norte, com a fascinação da sua luz imóvel.
Era a sua fábula o que eu deveria aprender: descobrir o seu prestígio inocente.
E nessa fixa claridade desabrochariam os meus obscuros bestiários — o livro.
(…)
O livro, o livro.
Nos dias nevoentos fecho as janelas, acendo a luz forte, e deito-me no tapete.
Leio ou penso.
Ou então fumo, enquanto as camadas de silêncio se sobrepõem, e as mais pesadas descem e as mais leves se tornam pesadas, até ser impossível destruir o silêncio.
É fascinante, debaixo de uma luz que brilha tanto.
Lá fora, a terra — a terra das criaturas que se aproximam umas das outras, se tocam e falam.
O silêncio é sólido, iluminado por cima, aquecido pelos lados.
Durante seis meses fumo e leio, estendido no tapete.
Depois chega o verão, e subo à montanha, e vou para o mar.
Rebento de sol e água, do odor a terra quente e agulhas de pinheiro.
Estou tremendamente forte.
Bebo vinho.
Uma noite começo a escrever.
Tenho uma memória: nada foi esquecido.
Vem adequado agora a um vivo sentido de expressão.
Feliz, eu caminho para o esgotamento, nesses terríveis dias da fecundidade.
As pessoas perdem o nome, os acontecimentos libertam-se do seu movimento centrífugo: fica um núcleo cerrado de significações.
Inspiro-me na minha alegria, na morte acumulada.
Vivo sobre um doloroso e minucioso sentimento de masculinidade — como se isso fosse uma doença.
Poderei dizê-lo: inspiro-me no que é uma força e uma terrífica fragilidade, diante da lembrança e do esquecimento.
Depois: um ritmo, uma libertação.
Há dentro da gaveta uma rima de folhas escritas de ambos os lados.
Escrevi-as para os sombrios tempos do esgotamento.
Eu sou — e ali está a minha prova.
Dias, dias, noites inteiras — sobre o tapete, enquanto a chuva, o sol, o vento, o mundo.
Tempo consumido por uma tranquilidade imóvel.
Mas o bolbo fermenta.
Começo a andar em volta do quarto e a sair do quarto.
Sim, sim, digo eu, sim.
Ando de um quarto para outro, fechando portas, voltando atrás para abrir portas.
Depois paro e fumo diante das janelas.
Eu, diante da noite, com as mãos cobertas de sangue.
Eu, cheio de medo.
Irrisória medida pessoal: comida, urina, fezes, esperma, suor.
As unhas e os cabelos que crescem.
E a noite adiante, atrás, por cima.
Uma distância avassaladora e inóspita.
Desamor, crueldade, sensibilidade na criatura, na estranha criatura coroada com a sua comida e as suas fezes.
E sangue nas mãos, não há lágrimas — masculinidade, podridão fria.
Os papéis são um motor, trabalhando ininterruptamente; os papéis trabalham pelos dias dentro e no meio da noite.
Um tremendo motor.
Acordo de madrugada para ouvir a trepidação do motor.
Comunica-se à mesa, e da mesa ao soalho, às paredes, e a toda a casa.
É uma força espantosa.
Divago pela casa, bêbado de hesitação, dissipo-me em passos, mergulho em sonos brutais.
Uma manhã, caminho debaixo de árvores frias.
A terra trabalha à minha volta, interior e silenciosa, o mar vibra sob um céu extenuantemente liso.
Enfrento este calmo sonho do mundo, eu — o homem exaltado.
O meu poder é profundo e obscuro.
E então canto.
É uma canção essencial, ingénua — desalojada dos labirintos da ciência.
Empunho essa arma inocente, atravesso com ela meu ser dúbio, o vocabulário das contradições.
Sim, sim, penso eu, sim.
Talvez a alegria comece nesta terrível purificação.
Vieram ter comigo à noite, numa rua deserta, e disseram: porque fizeste isso?
Pareceu-me reconhecê-los, reconhecer-lhes os rostos implacáveis de ressuscitados, e a voz, aquela voz triste e violenta de quem irrompeu do tempo e violou a sua qualidade mortal.
Pensei: quem sou eu para que me ataquem as vozes?
E o sangue vacilou na minha carne, as mãos tremeram, e a minha boca estava gelada.
Porque eu sabia quem era — conhecia-me.
Que fiz eu?, perguntei, e eles olhavam-me com a sua terrível melancolia.
Vieram ter comigo numa rua de não sei que cidade, e quem sabe se eu era puro?
Tinham caras ferozes e dolorosas, e queriam conhecer a razão por que eu fizera aquilo.
Olhei em volta — e apenas uma noite sufocada pelo nevoeiro, o rumor apenas do vento arrastando papéis velhos pelas ruas.
Era uma vez um lugar — pensei — onde os pássaros apanhavam insectos e os cravavam nos espinhos dos cardos selvagens.
Era uma vez uns pássaros que cantavam, enquanto os insectos agonizavam enterrados em espinhos brancos e duros.
O seu canto era belo.
E então, voltando-me para aqueles rostos amargos e cruéis, perguntei: quereis cantar?
E eles sorriram, como quem sabe, e disseram: porque fizeste isso?
Serei um inocente? — isto, só isto o que me acudiu.
E pus-me a andar, enquanto eles me seguiam quase sem ruído pelo meio do nevoeiro.
De súbito, percebi que eu nada sabia, nada, que a minha ciência era inane, e me limpava de toda a culpa.
Estremeci de alegria e parei voltando-me para eles, e perguntei, radiante: que fiz eu?
Um deles avançou para mim e passou a mão direita pelo meu rosto, numa carícia leve e, ao mesmo tempo, investigadora.
Recordei todo o tempo inútil que vivera, e aquilo que opusera ao mundo, e pensei: como hei-de morrer, com que espécie de amor, de louvor, hei-de eu morrer?
Já sabia então toda a profundeza do meu crime, e como o meu espírito era frágil e cruel.
Terei cantado alguma vez? — perguntei, e aquele que avançara até mim recuou para o grupo, e todos me olhavam.
Ignoro em que cidade pode o nevoeiro correr assim pelas ruas, e deixar à volta dos rostos um espaço branco onde uma luz difusa trema longamente, como se não houvesse tempo e o peso incalculável das presenças fosse irremovível.
Vieram ter comigo nessa inexplicável cidade e, enquanto o nevoeiro passava, olhavam-me implacavelmente, conhecendo o meu medo, o ponto instável onde inocência e crime se equilibravam no meu coração, e disseram: porque fizeste isso?
Eu sorri.
Decerto, comecei a dizer.
E de novo reparei que os rostos escapavam ao nevoeiro, quase brilhando na massa escura e gelada da noite.
E o meu rosto, brilharia ele também, estaria como que suspenso na noite, seria um rosto implacável?
Como recusar que eu sempre me preparara para a morte do mesmo modo que se prepara uma vingança?
Decerto, disse sorrindo, decerto houve um erro qualquer, porque eu não posso ser procurado.
E recomecei imediatamente a andar.
Sim, isto é um lugar, isto é uma noite, mas há outros lugares e outros tempos.
Há uma libertação, algures, num tempo que não sei, mas que existe.
E eles seguiam-me, e tanto fazia que eu caminhasse depressa como devagar, porque se mantinham à mesma distância.
Ando à procura da minha velocidade, mas o que é isto, que é procurar a sua própria velocidade, se aparecem vozes com uma pergunta fora do tempo e dos lugares?
Há um erro, gritei, e enfrentei-os, há um erro, um erro.
E então um deles avançou para mim e passou a ponta dos dedos pela minha boca.
E não sei se eram os dedos que tremiam ou se era a minha boca, e não sei porque tremeriam os dedos ou tremeria a boca.
Ele afastou-se devagar, e eu perguntei: que fiz eu?
As ondas de nevoeiro abraçavam as figuras imóveis e o vento arrastava jornais velhos.
Os rostos continuavam a palpitar no ar frio.
Um dia chegará a luz.
Um dia correrão as águas, e as plantas sairão das trevas com a chama branca das suas flores, e alguém louvará o renascimento da vida.
Um dia o homem estará nu e inocente.
Então reconheci os seus rostos atrozes de ressuscitados, e aquela voz que irrompia do tempo e violava a sua qualidade mortal, para dizer: porque fizeste isso?
Quem sou eu para que as vozes me ataquem?
Porque fizeste isso? porque fizeste isso? porque fizeste isso?
Ah, um pouco de paz, um dia de paz, apenas um dia, para que saiba ao menos a qualidade da minha culpa.
E um deles avançou e deu-me um beijo no rosto, e depois recuou, e depois recomecei a minha caminhada sem propósito, e depois senti que a face me queimava no sítio do beijo, como uma chaga.
Era uma rua enorme, estreita e varrida pelo nevoeiro húmido.
Eles andavam atrás de mim, quase sem ruído.
Talvez a inocência seja mesmo a minha verdadeira vocação.
Que espécie de ciência terão eles, para fazerem tal pergunta?
Era uma vez um lugar onde pássaros terríveis cantavam inspirados pela agonia dos insectos.
O seu canto era de uma beleza inocente e parecia louvar a própria vida.
Há um erro, disse eu, e parei para olhar as caras brancas e amargas.
Quereis cantar?, perguntei, quereis alimentar-vos da minha inocência?
Então um deles destacou-se do grupo e veio para mim, cambaleando como um ferido, e depois tomou-me as duas mãos nas suas e levou-as lenta e apaixonadamente aos lábios, e comecei a chorar em silêncio, enquanto as minhas mãos ficavam entregues àquele beijo de um amor terrível.
Porque fizeste isso?, perguntaram os outros, dirigindo-se a mim.
E os seus rostos eram implacáveis.
O que estava junto de mim abandonou-me docemente as mãos e voltou para o grupo.
Disse: porque fizeste isso?
Um dia chegará a primavera, num lugar longe daqui, haverá homens e mulheres para louvar a vida, pensei eu.
E, virando-me para eles, perguntei: que fiz eu?
Ah, vieram ter comigo à noite, numa rua deserta, e pareceu-me reconhecê-los, reconhecer-lhes os rostos implacáveis de ressuscitados, e a voz, aquela voz triste e violenta de quem irrompeu do tempo e violou a sua qualidade mortal.
Porque fizeste isso?, perguntavam.
Mas nem eu avaliava bem a verdade da minha culpa ou da minha inocência, nem conhecia que espécie de sabedoria era a deles.
E caminhava pela cidade cheia de nevoeiro, e eles seguiam-me e às vezes beijavam-me apaixonadamente as mãos, e eu dizia: que fiz eu?
Se acaso eu pudesse pensar na morte, isso era como uma vingança, e parecia que eles sabiam tudo.
De nada servia que eu protestasse existir um erro.
Mostravam-me o seu amor demoníaco, e acusavam-me até eu sentir que tudo vacilava dentro de mim.
Talvez agonizássemos todos e todos nós esperássemos cantar, movidos pela agonia alheia, talvez estivéssemos ligados por insondáveis tramas de inocência e culpa, e as vozes fossem um obscuro esforço de libertação.
Eu parava e dizia: mas que fiz eu?
E um deles avançava para mim e encostava o seu rosto ao meu e afastava-se.
E depois eles perguntavam: porque fizeste isso?
Quem sabe?, talvez fosse muito rudimentar toda a nossa sabedoria de crime e inocência, e o amor e o medo enchessem o nosso coração, e assim caminhássemos pelas trevas com os rostos brilhando ao alto — dolorosos, implacáveis e doces, doces.
664
Rodrigo Emílio
PREFA(S)CIO II
De entre todos os motivos
porque sulco os loucos trilhos
de extermínio
em que me abismo,
sobressaem, sempre vivos:
os meus livros,
os meus filhos
e o fascínio
do fascismo.
porque sulco os loucos trilhos
de extermínio
em que me abismo,
sobressaem, sempre vivos:
os meus livros,
os meus filhos
e o fascínio
do fascismo.
949
Herberto Helder
De Antemão 2
Que lhe estendas os dedos aos dedos: lhe devolvas
o sangue, Como as estrelas duplas
duplamente
se dão força,
E fique assim — astro grande estanque
cosido em sangue: e a luz
obturada,
E então no seu pneuma luminoso:
um astro cheio, Coração: astéria: carne
de olaria pulsando, O espasmo
da mão às vezes
se arranca aos recessos da cabeça um relâmpago,
Ou se retira ao braço o movimento
pela musa do sexo, Ou à vertigem se retira
o rasgão do ar
na dança,
Assim a estrela com dois membros
cravados recebendo
o tremor do mundo, E toda essa
massa peristáltica esmaga
a argila táctil: um pequeno músculo
convulso no fundo de água:
um troço de sangue nas costas, Que lhe passes
pelas roupas e a nudez
as tuas armas, Ou lhe ponhas no escuro
um incêndio:
e te ilumines dele, E a tua cara se faça
miraculada
à combustão, E entres rutilante por uma porta
para outra porta, Essa porta que dê
para uma porta de ti própria,
A mão ateando a escrita que se desloca
brilha direita,
Toca-te toda: tocas no chão
através dela, A terra
treme
quando lhe tocas, Tudo
se transmite e transforma,
A gangrena é uma força, Tu és a raiz dele,
Estás dentro
da luz de fora, Como o choque
sísmico
da estrela
o sangue, Como as estrelas duplas
duplamente
se dão força,
E fique assim — astro grande estanque
cosido em sangue: e a luz
obturada,
E então no seu pneuma luminoso:
um astro cheio, Coração: astéria: carne
de olaria pulsando, O espasmo
da mão às vezes
se arranca aos recessos da cabeça um relâmpago,
Ou se retira ao braço o movimento
pela musa do sexo, Ou à vertigem se retira
o rasgão do ar
na dança,
Assim a estrela com dois membros
cravados recebendo
o tremor do mundo, E toda essa
massa peristáltica esmaga
a argila táctil: um pequeno músculo
convulso no fundo de água:
um troço de sangue nas costas, Que lhe passes
pelas roupas e a nudez
as tuas armas, Ou lhe ponhas no escuro
um incêndio:
e te ilumines dele, E a tua cara se faça
miraculada
à combustão, E entres rutilante por uma porta
para outra porta, Essa porta que dê
para uma porta de ti própria,
A mão ateando a escrita que se desloca
brilha direita,
Toca-te toda: tocas no chão
através dela, A terra
treme
quando lhe tocas, Tudo
se transmite e transforma,
A gangrena é uma força, Tu és a raiz dele,
Estás dentro
da luz de fora, Como o choque
sísmico
da estrela
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Herberto Helder
Ii L
Leia-se esta paisagem da direita para a esquerda e vice-versa
e de baixo para cima.
Saltem-se as linhas alvoroçadas sob os olhos.
Quem leia, se ler, aprenda:
alguém anda sobre as águas,
alguém branco, nu, pedra de ouro na boca, braços abertos.
As águas atravessam os espelhos.
Leia-se à luz que vem das águas.
A espuma é a pressa das águas que atravessam.
Aprenda à força da luz da espuma:
esta ciência é ver com o corpo o corpo iluminado.
E enquanto atravessa, andando sobre as águas
que o iluminam,
a membrana de si próprio, espelho até ao cabelo
frio, que entre,
lendo-se,
através, para o escuro, largo nos braços,
a pancada a fogo instantâneo no meio dos olhos.
E então a luz une-se a toda a volta e cai
no abismo dos espelhos.
e de baixo para cima.
Saltem-se as linhas alvoroçadas sob os olhos.
Quem leia, se ler, aprenda:
alguém anda sobre as águas,
alguém branco, nu, pedra de ouro na boca, braços abertos.
As águas atravessam os espelhos.
Leia-se à luz que vem das águas.
A espuma é a pressa das águas que atravessam.
Aprenda à força da luz da espuma:
esta ciência é ver com o corpo o corpo iluminado.
E enquanto atravessa, andando sobre as águas
que o iluminam,
a membrana de si próprio, espelho até ao cabelo
frio, que entre,
lendo-se,
através, para o escuro, largo nos braços,
a pancada a fogo instantâneo no meio dos olhos.
E então a luz une-se a toda a volta e cai
no abismo dos espelhos.
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Matilde Campilho
Não É Cair: É Voar Com Estilo
I was going to right to a poem but then I didn’t. A week ago I wrote to you a tiny telegram que dizia: “I’ll be home soon! Do not cry princess.” Foi duro pra caramba essa distância, mas é bom saber que você se fez rainha e que o afastamento de dois corpos a muito contribuiu para isso. Doeu, mas foi. E os santos padroeiros ajudaram. Sebastião, Antônio, Jorge e as multidões revolucionárias que andam ascabuçadas com a crise econômica. Às vezes, penso na fazendo do meu pai. É como aquela imagem do rosto do tigre que me vem as barbas, mas depois passa. Também escuto as canções do Tim Maia, mas nada resolve muito bem. Só sei da fazenda do pai, da fronha do tigre, do choro do mendigo e… vá lá vai. Já é lucaraça. Fiz-me poeta para dizeres okay. “Don’t you understand?” Como dizia o rapaz na chuva: “Don’t you?”. Isto não ouviria comigo, esquece! Alguns monges andam procurando mirra nas extremidades dos grãos da terra, mas já sabemos que isso é um valente estado de ilusão. Ou então é fé, sabe se lá. Tu deves saber. Tu sabes muito sobre escavação e horas são. Esta noite escrevi outro sério pedido de casamento, mas acho que já não vais na conversa. Faz tripas coração, mas sei muito bem que me amas pelos olhinhos e nunca pelas coisas que um dia morrem de podres, zonas internas e tal. Poemas. Bá. Andas bem empenhado em saber porque raios é que escrevo em inglês, mas nem eu sei. Deve ser só mais fácil mentir à estrangeiro. Desde que este da poesia era tudo verdade, mas não sei não. Também achei que o amor tinha muito menos mutação que um plátano e agora fica aqui sentado na minha fazenda assistindo a transição das estações. Alguém fez disso uma enorme ilusão. E olha que nem sei o que é a morte. My bad or my luck. Os olhos da avó ainda são azuis. Está tudo igual naquela sala é só puxar os sofás um pouco mais pra frente. É da crise, sei lá. Europa não parece querer ter outra palavra. Vi que na cidade o homem se suspende a troco de dinheiro e que fica na praça por horas e horas. Faz uns cento e tal euros por mês. Saudade do Rio all, my friend. Saudade de tudo aqui que a gente foi um dia, mas agora só existem os poemas. A mentira dos poemas. E a tradução dos poemas feitas por heróis que julgam, sei lá, amar a história que já morreu. Guarda nuns sessenta mil. Pode ser que te dê sorte.
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