Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Daniel Gonçalves
a poesia veio ter comigo
a poesia veio ter comigo num dia de chuva
tinha o corpo molhado até à palavra mais ínfima
diria que era um dia triste
um dia para se morrer contra a janela do esquecimento
olhei para a poesia como quem fita o âmago de uma candeia acesa
mas no lugar da luz estava uma canção
no lugar da chama estava um bicho da seda
e dali saía o manto branco com que me vesti
aos poucos fui perdendo o frio
o sangue coagulado com a tristeza de haver apenas silêncio
comecei a acreditar no mistério do meu nome
na estrela que faz a noite parecer mais azul do que o mar
e com ele fui-me chamando para junto das flores e das pedras
como uma palavra acabada de caiar
enrolei-me na minha sombra
e esse casulo criou um verso para eu falar aos anjos
a partir desse dia nunca mais fiquei sozinho
e os anjos esses
apareceram com mais frequência à janela da minha casa
tinha o corpo molhado até à palavra mais ínfima
diria que era um dia triste
um dia para se morrer contra a janela do esquecimento
olhei para a poesia como quem fita o âmago de uma candeia acesa
mas no lugar da luz estava uma canção
no lugar da chama estava um bicho da seda
e dali saía o manto branco com que me vesti
aos poucos fui perdendo o frio
o sangue coagulado com a tristeza de haver apenas silêncio
comecei a acreditar no mistério do meu nome
na estrela que faz a noite parecer mais azul do que o mar
e com ele fui-me chamando para junto das flores e das pedras
como uma palavra acabada de caiar
enrolei-me na minha sombra
e esse casulo criou um verso para eu falar aos anjos
a partir desse dia nunca mais fiquei sozinho
e os anjos esses
apareceram com mais frequência à janela da minha casa
744
Helga Moreira
Anoitece em inferno
Anoitece em inferno a minha casa.
Fico com este começo de verso
a serenar a exaltação de não dizer nada.
Deixem-me com este sorriso a morrer
por uma sílaba mais real onde um verso
me sossegue
com unhas de lama e sangue,
como garras.
Anoitece em inferno a minha casa.
Fica a certeza de não ter fim o que
de inutilidades se basta,
ou apenas o instante em que,
por um verso, eu fui
à outra parte da casa.
Fico com este começo de verso
a serenar a exaltação de não dizer nada.
Deixem-me com este sorriso a morrer
por uma sílaba mais real onde um verso
me sossegue
com unhas de lama e sangue,
como garras.
Anoitece em inferno a minha casa.
Fica a certeza de não ter fim o que
de inutilidades se basta,
ou apenas o instante em que,
por um verso, eu fui
à outra parte da casa.
1 295
Matilde Campilho
Badland
Não sei se sou homem
já não sei se sou
homem
se sou besta
se tenho olhos azuis
ou mesmo se visto
camisa azul.
Também já não sei
se seguro um toco
meio ardido, aqui sentado
na esplanada desta cidade
cujo nome é Tavizkam.
Não sei se sobre meu ventre
foi depositada uma concha, há uns
1000 dias atrás.
Não sei se sou automático, se devo
trabalhar, pagar o revólver a prestações,
fazer remo, correr na calçada, usar
camisa esquadrinhada, escrever em
cedro esquadrinhado. Eu não sei
se possuo uma barca, se possuo
ossos que podem apodrecer
a qualquer hora. Eu não sei os nomes
dos poetas todos mas sei que os poetas
todos são os novos roqueiros. Eu não
sei, só sei que antes julguei que
os poetas eram escavadores.
Aquele amor
aquele que eu pensei
que se despedaçaria como
um meteorito no Minnesota
(uma coisa assim
estrondosa abusiva
gritante maravilhosa
estilhaço prolongado
cheio de uivos)
afinal caiu silencioso
como um aviãozinho de papel
passeando em Itaparica
em dia da apanha dos morangos.
Não sei se sou homem,
se sou mulher. Mas este
é o caminho do estio
e por perto passam os bois.
já não sei se sou
homem
se sou besta
se tenho olhos azuis
ou mesmo se visto
camisa azul.
Também já não sei
se seguro um toco
meio ardido, aqui sentado
na esplanada desta cidade
cujo nome é Tavizkam.
Não sei se sobre meu ventre
foi depositada uma concha, há uns
1000 dias atrás.
Não sei se sou automático, se devo
trabalhar, pagar o revólver a prestações,
fazer remo, correr na calçada, usar
camisa esquadrinhada, escrever em
cedro esquadrinhado. Eu não sei
se possuo uma barca, se possuo
ossos que podem apodrecer
a qualquer hora. Eu não sei os nomes
dos poetas todos mas sei que os poetas
todos são os novos roqueiros. Eu não
sei, só sei que antes julguei que
os poetas eram escavadores.
Aquele amor
aquele que eu pensei
que se despedaçaria como
um meteorito no Minnesota
(uma coisa assim
estrondosa abusiva
gritante maravilhosa
estilhaço prolongado
cheio de uivos)
afinal caiu silencioso
como um aviãozinho de papel
passeando em Itaparica
em dia da apanha dos morangos.
Não sei se sou homem,
se sou mulher. Mas este
é o caminho do estio
e por perto passam os bois.
946
Helga Moreira
Sempre acontece sempre
Sempre acontece sempre
em repetição nada serena
faço e desfaço um pouco
em lixo e roteiro o poema
que te envio. A ti primeiro.
Depois aquele parte
que não digo por pudor.
Isto é arte, apenas arte
apenas ódio, ou amor?
Já não distingo – ao que se chega!
um verso maior de um menor
alguns perfeitos. Que pena!
diz-me a voz interior
rasgo-os, levo-os à cena?
em repetição nada serena
faço e desfaço um pouco
em lixo e roteiro o poema
que te envio. A ti primeiro.
Depois aquele parte
que não digo por pudor.
Isto é arte, apenas arte
apenas ódio, ou amor?
Já não distingo – ao que se chega!
um verso maior de um menor
alguns perfeitos. Que pena!
diz-me a voz interior
rasgo-os, levo-os à cena?
611
Helga Moreira
Ao rimar dor com pensamento
Ao rimar dor com pensamento
escrevo ternura, afecto,
apenas quem me conceda
um gesto, mínimo gesto
um poeta não se assassina
ia dizer mas disto não entendes
é a superfície que pretendes
da coisa leve, pequenina
Isto é lama, são entranhas, é lixo,
chama, horror, precipício
que consome, enaltece, aflige
em tom maior, menor, e a verdade
capriche. Que em verdade digo:
de aqui em diante - apenas sigo
escrevo ternura, afecto,
apenas quem me conceda
um gesto, mínimo gesto
um poeta não se assassina
ia dizer mas disto não entendes
é a superfície que pretendes
da coisa leve, pequenina
Isto é lama, são entranhas, é lixo,
chama, horror, precipício
que consome, enaltece, aflige
em tom maior, menor, e a verdade
capriche. Que em verdade digo:
de aqui em diante - apenas sigo
1 015
Matilde Campilho
Época da Colheita de Lã
Faz hoje um ano e meio que inundaram o canal de Danesdale para dar passagem à procissão dos castores. Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa. Tenho-me recusado a falar sobre aquelas coisas habituais, como o coração de Deus, a corrida dos gaiatos, a visão macroscópica que incide sobre a dobra dos calções do atleta, o cílio do peixe preto que todos os dias roça o peito do mergulhador das manhãs, o resultado da partida de baseball no Connecticut ou a forma mais correcta de escrever baseball. Acho que o esporte é uma coisa reconfortante porque se realiza sempre sobre um solo fértil e também porque o posso abandonar a qualquer instante ou voltar a ele em qualquer instante. Fred ainda está vivo, ainda limpa o balcão do bar com o pano encardido e sei que sempre que regressar à cidade posso entrar no bar, sentar-me ao balcão e perguntar-lhe sobre a performance de Hank Aaron. Fred sabe tudo sobre o voo. Descobri inúmeros elementos transformadores da vontade, mas também não vou distender-me aqui em palavrões ou frases demasiado compostas só para encontrar um sentido no decorrer da sentença. O melhor pianista do país morreu esta tarde e tinha os cabelos iluminados de fogo. Sônia diz que ele fazia lembrar erupções de querubins no asfalto, Eric não para de chorar. A amendoeira do canal foi rasgada a canivete mas o desenho gravado não é de todo a tatuagem mais feia do mundo. Etc. Etc. Etc.
1 009
Matilde Campilho
Learning To Make Fire
Let’s go back into writing, Ed. No more broken bones and thrown out arrows. Quit, you and I, the wounded driving, the electric wet lanes, the shame of beards. There is no greater prince than the prince of solidity. I’ve been eating two apples a day: one at dawn and one in bed, as I watch the boats cast out the nets. Brilliant night visions, all made of fruit and fish. Flashlights make perfect compasses, kid. Rage doesn’t. I still keep your tapestry underneath the wooded bed, whenever the structure is moved the rug is taken with it. Sorry about the word rug, sorry about the misspelling of lessons, sorry for not telling you about the rain or the effects of rain and yells all mixed together. No greater doom. Get your stuff, Ed. Nature is distressingly perfect around here.
791
Pero da Ponte
Sueir'eanes, Nunca Eu Terrei
Sueir'Eanes, nunca eu terrei
que vós trobar nom entendedes bem,
pois entendestes, quando vos trobei,
que de trobar nom sabíades rem;
pero d'al nom sodes tam trobador,
mais o trobar ond'estades melhor:
entendedes quando vos troba alguém.
Entendestes um dia ant'el-rei
como vos meterom em um cantar
polo peior trobador que eu sei
- esto s'a vós nunca pode negar;
e por aquesto maravilho-m'eu
deste poder. Que demo vo-lo deu,
por vós assi entenderdes trobar?
Ca vos vi eu aqui mui gram sazom
e nom vos vi por trobador meter;
e ora nom vos trobam em razom
em que xi vos possa rem asconder,
se de mal trobador enmentam i,
que vós logo nom digades: - A mim
foi feit'aquel cantar de mal dizer.
que vós trobar nom entendedes bem,
pois entendestes, quando vos trobei,
que de trobar nom sabíades rem;
pero d'al nom sodes tam trobador,
mais o trobar ond'estades melhor:
entendedes quando vos troba alguém.
Entendestes um dia ant'el-rei
como vos meterom em um cantar
polo peior trobador que eu sei
- esto s'a vós nunca pode negar;
e por aquesto maravilho-m'eu
deste poder. Que demo vo-lo deu,
por vós assi entenderdes trobar?
Ca vos vi eu aqui mui gram sazom
e nom vos vi por trobador meter;
e ora nom vos trobam em razom
em que xi vos possa rem asconder,
se de mal trobador enmentam i,
que vós logo nom digades: - A mim
foi feit'aquel cantar de mal dizer.
735
Matilde Campilho
Rio de Janeiro — Lisboa
um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
1 007
Pero da Ponte
De Sueir'eanes Direi
De Sueir'Eanes direi
como lhe de trobar avém:
nõn'o baralha el mui bem
nem ar quer i mentes meter;
mais desto se pod'el gabar:
que, se m'eu faço bom cantar,
a ele mi o soio fazer.
Pero - cousa que eu bem sei -
nom sab'el muito de trobar,
mais em tod'aqueste logar
nom poss'eu trobador veer
tam venturad'e[m] ũa rem:
se algum cantar faz alguém,
de lhi mui cantado seer.
Ca lhi trobam em tam bom som
que nom poderiam melhor;
e por est'havemos sabor
de lhi sas cantigas cantar;
mais al vos quer'eu del dizer:
quem lh'aquesta manha tolher
bem assi o pode matar.
como lhe de trobar avém:
nõn'o baralha el mui bem
nem ar quer i mentes meter;
mais desto se pod'el gabar:
que, se m'eu faço bom cantar,
a ele mi o soio fazer.
Pero - cousa que eu bem sei -
nom sab'el muito de trobar,
mais em tod'aqueste logar
nom poss'eu trobador veer
tam venturad'e[m] ũa rem:
se algum cantar faz alguém,
de lhi mui cantado seer.
Ca lhi trobam em tam bom som
que nom poderiam melhor;
e por est'havemos sabor
de lhi sas cantigas cantar;
mais al vos quer'eu del dizer:
quem lh'aquesta manha tolher
bem assi o pode matar.
639
Pero da Ponte
Eu Digo Mal, Com'home Fodimalho
Eu digo mal, com'home fodimalho,
quanto mais posso daquestes fodidos
e trob'a eles e a seus maridos;
e um deles mi pôs mui grand'espanto:
topou comig'e sobraçou o manto
e quis em mi achantar o caralho.
Ando-lhes fazendo cobras e sões
quanto mais poss', e and'escarnecendo
daquestes putos que s'andam fodendo;
e um deles de noit[e] asseitou-me
e quis-me dar do caralh'[e] errou-me
e lançou, depós mim, os colhões.
quanto mais posso daquestes fodidos
e trob'a eles e a seus maridos;
e um deles mi pôs mui grand'espanto:
topou comig'e sobraçou o manto
e quis em mi achantar o caralho.
Ando-lhes fazendo cobras e sões
quanto mais poss', e and'escarnecendo
daquestes putos que s'andam fodendo;
e um deles de noit[e] asseitou-me
e quis-me dar do caralh'[e] errou-me
e lançou, depós mim, os colhões.
773
Matilde Campilho
Príncipe No Roseiral
Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.
1 250
Pero da Ponte
Sueir'eanes, Este Trobador
Sueir'Eanes, este trobador,
foi por jantar a cas d'um infançom
e jantou mal; mais el vingou-s'entom,
que ar hajam os outros del pavor,
e nom quis el a vendita tardar:
e, tanto que se partiu do jantar,
trobou-lhi mal, nunca vistes peior.
E no mundo nom sei eu trobador
de que s'home mais devesse temer
de x'el mui maas três cobras fazer,
ou quatro, a quem lhi maa barva for;
ca, des que vo-lh'el cae na razom,
maas três cobras, ou quatr'e o som,
de as fazer muit'é el sabedor.
E por esto nom sei no mundo tal
home que a el devess'a dizer
de nom, por lhi dar mui bem seu haver;
e a Sueir'Eanes nunca lhi fal
razom de quem el despagado vai,
em que lhi troba tam mal e tam lai,
per que o outro sempre lhi quer mal.
foi por jantar a cas d'um infançom
e jantou mal; mais el vingou-s'entom,
que ar hajam os outros del pavor,
e nom quis el a vendita tardar:
e, tanto que se partiu do jantar,
trobou-lhi mal, nunca vistes peior.
E no mundo nom sei eu trobador
de que s'home mais devesse temer
de x'el mui maas três cobras fazer,
ou quatro, a quem lhi maa barva for;
ca, des que vo-lh'el cae na razom,
maas três cobras, ou quatr'e o som,
de as fazer muit'é el sabedor.
E por esto nom sei no mundo tal
home que a el devess'a dizer
de nom, por lhi dar mui bem seu haver;
e a Sueir'Eanes nunca lhi fal
razom de quem el despagado vai,
em que lhi troba tam mal e tam lai,
per que o outro sempre lhi quer mal.
594
Pero da Ponte
Pero da Pont', E[M] Um Vosso Cantar
- Pero da Pont', e[m] um vosso cantar,
que vós ogano fezestes d'amor,
foste-vos i escudeiro chamar.
E dized'ora tant', ai trobador:
pois vos escudeiro chamastes i,
porque vos queixades ora de mi,
por meus panos, que vos nom quero dar?
- Afons'Anes, se vos en pesar,
tornade-vos a vosso fiador;
e de m'eu i escudeiro chamar,
e por que nom, pois escudeiro for?
E se peç'algo, vedes quant'há i:
nom podemos todos guarir assi
come vós, que guarides per lidar.
- Pero da Ponte, quem a mi veer
desta razom ou doutra cometer,
querrei-vo-lh'eu responder, se souber,
como trobador deve responder:
em nossa terra, se Deus me perdom,
a tod'o 'scudeiro que pede dom
as mais das gentes lhe chamam segrel.
- Afons'Anes, est'é meu mester,
e per esto dev'eu a guarecer
e per servir donas quanto poder;
mais ũa rem vos quero [eu] dizer:
em pedir algo nom dig'eu de nom,
a quem entendo que faço razom,
e alá lide quem lidar souber.
- Pero da Ponte, se Deus vos perdom,
nom faledes mais em armas, ca nom
vos está bem, esto sabe quem quer.
- Afons'Anes, filharei eu dom,
e lidade vós, ai cor de leom,
e faça quis cada quem seu mester.
que vós ogano fezestes d'amor,
foste-vos i escudeiro chamar.
E dized'ora tant', ai trobador:
pois vos escudeiro chamastes i,
porque vos queixades ora de mi,
por meus panos, que vos nom quero dar?
- Afons'Anes, se vos en pesar,
tornade-vos a vosso fiador;
e de m'eu i escudeiro chamar,
e por que nom, pois escudeiro for?
E se peç'algo, vedes quant'há i:
nom podemos todos guarir assi
come vós, que guarides per lidar.
- Pero da Ponte, quem a mi veer
desta razom ou doutra cometer,
querrei-vo-lh'eu responder, se souber,
como trobador deve responder:
em nossa terra, se Deus me perdom,
a tod'o 'scudeiro que pede dom
as mais das gentes lhe chamam segrel.
- Afons'Anes, est'é meu mester,
e per esto dev'eu a guarecer
e per servir donas quanto poder;
mais ũa rem vos quero [eu] dizer:
em pedir algo nom dig'eu de nom,
a quem entendo que faço razom,
e alá lide quem lidar souber.
- Pero da Ponte, se Deus vos perdom,
nom faledes mais em armas, ca nom
vos está bem, esto sabe quem quer.
- Afons'Anes, filharei eu dom,
e lidade vós, ai cor de leom,
e faça quis cada quem seu mester.
717
Pedro Amigo de Sevilha
Joam Baveca E Pero D'ambrõa
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa
começarom de fazer sa tençom,
e sairom-se logo da razom
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa;
e, porque x'a nom souberom seguir,
nunca quedarom pois em departir
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa.
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa
ar forom outra razom começar.
Sobre que houverom de pelejar
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa?
Sobre la terra de Ierusalém,
que diziam que sabiam mui bem
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa.
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa
ar departirom logo no Gram Cam;
e pelejarom sobr'esto de pram
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa,
dizend': - Ora veeremos quis qual é!
E leixei eu assi, per bõa fé,
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa.
começarom de fazer sa tençom,
e sairom-se logo da razom
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa;
e, porque x'a nom souberom seguir,
nunca quedarom pois em departir
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa.
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa
ar forom outra razom começar.
Sobre que houverom de pelejar
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa?
Sobre la terra de Ierusalém,
que diziam que sabiam mui bem
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa.
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa
ar departirom logo no Gram Cam;
e pelejarom sobr'esto de pram
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa,
dizend': - Ora veeremos quis qual é!
E leixei eu assi, per bõa fé,
Joam Baveca e Pero d'Ambrõa.
448
Pedro Amigo de Sevilha
Ai, Pedr'amigo, Vós Que Vos Teedes
- Ai, Pedr'Amigo, vós que vos teedes
por trobador, agora o verei
eno que vos ora preguntarei
e no recado que mi tornaredes:
nós que havemos mui bom rei por senhor,
e no-lo alhur fazem emperador,
dizede-mi ora quant'i entendedes.
- Joam Vaásquiz, pois me cometedes,
direi-vos eu quant'i entend'e sei:
pois nós havemos aquel melhor rei
que no mund'há, porque nom entendedes
que o seu prez e o seu valor
todo noss'é, pois emperador for?
O demo lev'o que vós i perdedes!
- Ai, Pedr'Amigo, eu nom perderia
em quant'el-rei podesse mais haver
em bõa terra e em gram poder,
ca quant'el mais houvesse, mais valria;
mais perde o rein'e vós perdedes i,
os que sem el ficaredes aqui,
pois que se el for d'Espanha sa via.
- Joam Vaásquiz, eu bem cuidaria
que o reino nom há por que perder
por el-rei nosso senhor mais valer,
ca rei do mund'é, se se vai sa via!
Valrá el mais, e nós [já] per el i;
de mais quis Deus que tem seu filh'aqui,
que se s'el for, aqui nos leixaria!
- Ai, Pedr'Amigo, pois vos já venci
desta tençom que vosco cometi,
nunca ar migo filhedes perfia.
- Joam Vaásquiz, sei que nom é 'ssi
desta tençom, ca errastes vós i
e dix'eu bem quanto dizer devia.
por trobador, agora o verei
eno que vos ora preguntarei
e no recado que mi tornaredes:
nós que havemos mui bom rei por senhor,
e no-lo alhur fazem emperador,
dizede-mi ora quant'i entendedes.
- Joam Vaásquiz, pois me cometedes,
direi-vos eu quant'i entend'e sei:
pois nós havemos aquel melhor rei
que no mund'há, porque nom entendedes
que o seu prez e o seu valor
todo noss'é, pois emperador for?
O demo lev'o que vós i perdedes!
- Ai, Pedr'Amigo, eu nom perderia
em quant'el-rei podesse mais haver
em bõa terra e em gram poder,
ca quant'el mais houvesse, mais valria;
mais perde o rein'e vós perdedes i,
os que sem el ficaredes aqui,
pois que se el for d'Espanha sa via.
- Joam Vaásquiz, eu bem cuidaria
que o reino nom há por que perder
por el-rei nosso senhor mais valer,
ca rei do mund'é, se se vai sa via!
Valrá el mais, e nós [já] per el i;
de mais quis Deus que tem seu filh'aqui,
que se s'el for, aqui nos leixaria!
- Ai, Pedr'Amigo, pois vos já venci
desta tençom que vosco cometi,
nunca ar migo filhedes perfia.
- Joam Vaásquiz, sei que nom é 'ssi
desta tençom, ca errastes vós i
e dix'eu bem quanto dizer devia.
677
Rui Queimado
Fiz Meu Cantar E Loei Mia Senhor
Fiz meu cantar e loei mia senhor,
mais de quantas outras donas eu vi;
e se por est'ham queixume de mi
as outras donas, ou mi ham desamor,
hajam de seu quem delas diga bem
e a quem façam muito mal por en:
ca bem assi faz a mim mia senhor,
a mais fremosa dona nem melhor
de quantas hoj'eu sei, per bõa fé.
E vejam que farám, ca já 'si é.
E se me por aquest'ham desamor,
hajam de seu quen'as lo', e entom
nunca lhes por en façam se mal nom:
ca nom faz a mim a minha melhor!
E se m'eu hei, de mi a loar, sabor,
nom ham por en por que se mi assanhar,
mais ar hajam de seu quen'as loar
e a quem hajam por en desamor,
com'a mim faz aquela que eu já
loarei sempr'e sei bem que nom há,
de fazer a mim bem, nẽum sabor.
Ca se m'algum bem quisesse fazer,
já que que[r] m'en fezera entender,
des quant'há que a filhei por senhor.
mais de quantas outras donas eu vi;
e se por est'ham queixume de mi
as outras donas, ou mi ham desamor,
hajam de seu quem delas diga bem
e a quem façam muito mal por en:
ca bem assi faz a mim mia senhor,
a mais fremosa dona nem melhor
de quantas hoj'eu sei, per bõa fé.
E vejam que farám, ca já 'si é.
E se me por aquest'ham desamor,
hajam de seu quen'as lo', e entom
nunca lhes por en façam se mal nom:
ca nom faz a mim a minha melhor!
E se m'eu hei, de mi a loar, sabor,
nom ham por en por que se mi assanhar,
mais ar hajam de seu quen'as loar
e a quem hajam por en desamor,
com'a mim faz aquela que eu já
loarei sempr'e sei bem que nom há,
de fazer a mim bem, nẽum sabor.
Ca se m'algum bem quisesse fazer,
já que que[r] m'en fezera entender,
des quant'há que a filhei por senhor.
585
Rui Queimado
Querri'agora Saber de Grado
Querri'agora saber de grado
d'um home que sei mui posfaçador,
[pois] de posfaçar há tam gram sabor,
se sab'ora el com'é posfaçado;
e pero sabe-o, a meu coidar
- e por en há coita de posfaçar
ca nom [vai] posfaçar endoado.
E poilo sabe, faz aguisado
de posfaçar, ca nunca vi peior:
ca, x['i] o deostam, el o melhor
faz, pois que já tal é seu pecado;
ca o deostam, que eu nunca vi
home no mundo, des quando naci,
en posfaçar e tam mal deostado.
Nom vos é el daquest'enartado,
ante tenh'eu que é bem sabedor
de posfaçar d'amig'e de senhor
e nom guardar nẽum home nado,
em posfaçar; e tenho-lhi por sem
de nom dizer de nẽum home bem,
ca dest'é el de todos bem guardado.
E diga, pois que disser, muito mal;
qual cho fezer, ó compadr', outro tal
lhi faz: por ende serás vingado.
d'um home que sei mui posfaçador,
[pois] de posfaçar há tam gram sabor,
se sab'ora el com'é posfaçado;
e pero sabe-o, a meu coidar
- e por en há coita de posfaçar
ca nom [vai] posfaçar endoado.
E poilo sabe, faz aguisado
de posfaçar, ca nunca vi peior:
ca, x['i] o deostam, el o melhor
faz, pois que já tal é seu pecado;
ca o deostam, que eu nunca vi
home no mundo, des quando naci,
en posfaçar e tam mal deostado.
Nom vos é el daquest'enartado,
ante tenh'eu que é bem sabedor
de posfaçar d'amig'e de senhor
e nom guardar nẽum home nado,
em posfaçar; e tenho-lhi por sem
de nom dizer de nẽum home bem,
ca dest'é el de todos bem guardado.
E diga, pois que disser, muito mal;
qual cho fezer, ó compadr', outro tal
lhi faz: por ende serás vingado.
662
Pedro Amigo de Sevilha
Lourenço Nom Mi Quer Creer
Lourenço nom mi quer creer,
pero que o conselho bem,
do que el nom sabe fazer;
e pero, se mi creess'en,
de três cousas, que bem direi,
podia per i com el-rei
e com outros bem guarecer.
E quero-lh'eu logo dizer
ũa antr'as cousas que el tem
que sabe melhor: e saber
podedes que nom sabe rem
trobar, ca trobador nom há
eno mundo, nem haverá,
a que s'el queira conhocer.
E bem com'el faz do trobar,
assi jura, se veess'i
Pero Sem com el[e] cantar
e Pero Bodin'outrossi
e quantos cantadores som:
por todos diz el ca nom
lhis quer end'avantada dar.
Ainda de seu citolar
vos direi eu quanto lh'oí:
diz que o nom podem passar
todos quantos andam aqui;
e por esto lhi conselh'eu
que leix'esto, que nom é seu,
em que lhi vam todos travar.
E eu que lh'o conselho dou
que leix'est'a que se filhou,
diz que ando pol'enganar!
pero que o conselho bem,
do que el nom sabe fazer;
e pero, se mi creess'en,
de três cousas, que bem direi,
podia per i com el-rei
e com outros bem guarecer.
E quero-lh'eu logo dizer
ũa antr'as cousas que el tem
que sabe melhor: e saber
podedes que nom sabe rem
trobar, ca trobador nom há
eno mundo, nem haverá,
a que s'el queira conhocer.
E bem com'el faz do trobar,
assi jura, se veess'i
Pero Sem com el[e] cantar
e Pero Bodin'outrossi
e quantos cantadores som:
por todos diz el ca nom
lhis quer end'avantada dar.
Ainda de seu citolar
vos direi eu quanto lh'oí:
diz que o nom podem passar
todos quantos andam aqui;
e por esto lhi conselh'eu
que leix'esto, que nom é seu,
em que lhi vam todos travar.
E eu que lh'o conselho dou
que leix'est'a que se filhou,
diz que ando pol'enganar!
564
Paio Soares de Taveirós
Donas, Veeredes a Prol Que Lhi Tem
Donas, veeredes a prol que lhi tem
de lhi saberem ca mi quer gram bem!
Par Deus, donas, bem podedes jurar
do meu amigo, que mi fez pesar;
mais Deus! E que cuida mi a gãar
de lhi saberem que mi quer gram bem?
Sofrer-lh'-ei eu de me chamar senhor
nos cantares que fazia d'amor;
mais enmentou-me todo com sabor
de lhi saberem que mi quer gram bem.
Foi-m'el em seus cantares enmentar;
vedes ora se me dev'a queixar!
Ca se nom quis meu amigo guardar
de lhi saberem que mi quer gram bem.
de lhi saberem ca mi quer gram bem!
Par Deus, donas, bem podedes jurar
do meu amigo, que mi fez pesar;
mais Deus! E que cuida mi a gãar
de lhi saberem que mi quer gram bem?
Sofrer-lh'-ei eu de me chamar senhor
nos cantares que fazia d'amor;
mais enmentou-me todo com sabor
de lhi saberem que mi quer gram bem.
Foi-m'el em seus cantares enmentar;
vedes ora se me dev'a queixar!
Ca se nom quis meu amigo guardar
de lhi saberem que mi quer gram bem.
626
Pedro Amigo de Sevilha
Par Deus, Amiga, Podedes Saber
- Par Deus, amiga, podedes saber
como podesse mandad'enviar
a meu amigo, que nom há poder
de falar mig', e morr'en com pesar?
E bem vos digo, se el morr'assi,
que nom viverei [já mais] des ali.
- Amiga, sei [eu] que nom pod'haver
meu amig'arte de migo falar,
e houv'eu art'e figi-lhe fazer
por outra dona um mui bom cantar;
e, pois por aquela dona trobou,
cada [que] quis, sempre migo falou.
- O meu amigo nom é trobador,
pero tam grand'é o bem que m'el quer
que filhará outra entendedor
e trobará, pois que lho eu disser;
mais, amiga, per quen'o saberá
que lho eu mando ou quem lho dirá?
- Eu, amiga, o farei sabedor
que tanto que el um cantar fezer
por outra dona, e pois por seu for,
que falará vosco quando quiser;
mais há mester de lho fazer el bem
creent', e vós nom o ceardes en.
- Amiga, per ceos é quant'eu hei
de mal, mais nunca o já cearei.
- Mester vos é, ca vo-lo entenderám,
se o ceardes, [e] guardar-vos-am.
como podesse mandad'enviar
a meu amigo, que nom há poder
de falar mig', e morr'en com pesar?
E bem vos digo, se el morr'assi,
que nom viverei [já mais] des ali.
- Amiga, sei [eu] que nom pod'haver
meu amig'arte de migo falar,
e houv'eu art'e figi-lhe fazer
por outra dona um mui bom cantar;
e, pois por aquela dona trobou,
cada [que] quis, sempre migo falou.
- O meu amigo nom é trobador,
pero tam grand'é o bem que m'el quer
que filhará outra entendedor
e trobará, pois que lho eu disser;
mais, amiga, per quen'o saberá
que lho eu mando ou quem lho dirá?
- Eu, amiga, o farei sabedor
que tanto que el um cantar fezer
por outra dona, e pois por seu for,
que falará vosco quando quiser;
mais há mester de lho fazer el bem
creent', e vós nom o ceardes en.
- Amiga, per ceos é quant'eu hei
de mal, mais nunca o já cearei.
- Mester vos é, ca vo-lo entenderám,
se o ceardes, [e] guardar-vos-am.
708
Pedro Amigo de Sevilha
Dizede, Madre, Por Que Me Metestes
- Dizede, madre, por que me metestes
em tal prisom, e por que mi tolhestes
que nom possa meu amigo veer?
- Porque, filha, des que o vós conhocestes,
nunca punhou erg'em mi vos tolher.
E sei, filha, que vos trag'enganada
com seus cantares, que nom valem nada,
que lhi podia quem quer desfazer.
- Nom dizem, madr', esso cada pousada
os que trobar sabem bem entender.
Sacade-me, madre, destas paredes
e verei meu amig', e ve[e]redes
que logo me met'em vosso poder.
- .............................
nem m'ar venhades tal preito mover.
Ca sei eu bem qual preito vos el trage,
e sodes vós, filha, de tal linhage
que devia vosso servo seer.
- Coidades vós, madre, que é tam sage
que podess'el conmig'esso põer?
Sacade-me, madre, destas prijões,
ca nom havedes de que vos temer.
- Filha, bem sei eu vossos corações,
ca nom quer'en gram pesar atender.
em tal prisom, e por que mi tolhestes
que nom possa meu amigo veer?
- Porque, filha, des que o vós conhocestes,
nunca punhou erg'em mi vos tolher.
E sei, filha, que vos trag'enganada
com seus cantares, que nom valem nada,
que lhi podia quem quer desfazer.
- Nom dizem, madr', esso cada pousada
os que trobar sabem bem entender.
Sacade-me, madre, destas paredes
e verei meu amig', e ve[e]redes
que logo me met'em vosso poder.
- .............................
nem m'ar venhades tal preito mover.
Ca sei eu bem qual preito vos el trage,
e sodes vós, filha, de tal linhage
que devia vosso servo seer.
- Coidades vós, madre, que é tam sage
que podess'el conmig'esso põer?
Sacade-me, madre, destas prijões,
ca nom havedes de que vos temer.
- Filha, bem sei eu vossos corações,
ca nom quer'en gram pesar atender.
629
Pedro Amigo de Sevilha
Um Cantar Novo D'amigo
Um cantar novo d'amigo
querrei agora aprender,
que fez ora meu amigo,
e cuido log'entender,
no cantar que diz que fez
por mi, se o por mi fez.
Um cantar d'amig'há feito,
e, se mi o disser alguém
dereito como el é feito,
cuid'eu entender mui bem,
no cantar que diz que fez
por mi, se o por mi fez.
O cantar éste mui dito,
pero que o eu nom sei,
mais, pois mi o houverem dito,
cuid'eu que entend[er]ei,
no cantar que diz que fez
por mi, se o por mi fez.
querrei agora aprender,
que fez ora meu amigo,
e cuido log'entender,
no cantar que diz que fez
por mi, se o por mi fez.
Um cantar d'amig'há feito,
e, se mi o disser alguém
dereito como el é feito,
cuid'eu entender mui bem,
no cantar que diz que fez
por mi, se o por mi fez.
O cantar éste mui dito,
pero que o eu nom sei,
mais, pois mi o houverem dito,
cuid'eu que entend[er]ei,
no cantar que diz que fez
por mi, se o por mi fez.
542
Martim Soares
Cavaleiro, Com Vossos Cantares
Cavaleiro, com vossos cantares
mal avil[t]astes os trobadores;
e pois assi per vós som vençudos,
busquem per al servir sas senhores;
ca vos vej'eu mais das gentes gaar
de vosso bando, por vosso trobar,
ca nom eles, que som trobadores.
Os aldeiãos e os concelhos
tôdolos havedes por pagados;
também se chamam por vossos quites,
como se fossem vossos comprados,
por estes cantares que fazedes d'amor,
em que lhis acham os filhos sabor
e os mancebos que têm soldados.
Benquisto sodes dos alfaiates,
dos peliteiros e dos medores;
do vosso bando som os trompeiros
e os jograres dos atambores,
porque lhis cabe nas trombas vosso som;
pera atambores ar dizem que nom
acham no mund'outros sões melhores.
Os trobadores e as molheres
de vossos cantares som nojados
a ũa, por que eu pouco daria,
pois mi dos outros fossem loados;
ca eles nom sabem que xi nem fazer:
querem bom som e bõo de dizer
e os cantares fremosos e rimados.
E tod'aquesto é mao de fazer
a quen'os sol fazer desiguados.
mal avil[t]astes os trobadores;
e pois assi per vós som vençudos,
busquem per al servir sas senhores;
ca vos vej'eu mais das gentes gaar
de vosso bando, por vosso trobar,
ca nom eles, que som trobadores.
Os aldeiãos e os concelhos
tôdolos havedes por pagados;
também se chamam por vossos quites,
como se fossem vossos comprados,
por estes cantares que fazedes d'amor,
em que lhis acham os filhos sabor
e os mancebos que têm soldados.
Benquisto sodes dos alfaiates,
dos peliteiros e dos medores;
do vosso bando som os trompeiros
e os jograres dos atambores,
porque lhis cabe nas trombas vosso som;
pera atambores ar dizem que nom
acham no mund'outros sões melhores.
Os trobadores e as molheres
de vossos cantares som nojados
a ũa, por que eu pouco daria,
pois mi dos outros fossem loados;
ca eles nom sabem que xi nem fazer:
querem bom som e bõo de dizer
e os cantares fremosos e rimados.
E tod'aquesto é mao de fazer
a quen'os sol fazer desiguados.
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