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Poemas neste tema

Mãe e Maternidade

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Vegas

havia uma árvore congelada que eu queria pintar
mas as bombas caíram
e em Vegas olhando através de uma persiana verde
às 3:30 da manhã,
morri sem pregos, sem um exemplar da Atlantic Monthly,
as janelas gritavam feito pombas lamentando o bombardeio de Milão
e eu saí para viver com os ratos
mas as luzes eram muito fortes
e pensei que talvez fosse melhor retornar e tomar assento em uma
aula de poesia:
uma maravilhosa descrição de uma gazela
é o inferno;
a cruz repousa feito uma mosca em minha janela,
a respiração de minha mãe agita pequenas folhas
em minha mente;
e eu peguei uma carona de volta a L.A. em meio a nuvens de ressaca
e puxei uma carta do meu bolso e a li
e o motorista do caminhão disse, o que é isso?
e eu respondi, tem uma garota lá no norte que costumava
dormir com Pound, ela está tentando me dizer que H.D.[1]
é nossa maior escriba: bem, Hilda nos deu alguns deuses
gregos e rosados em uma vasilha de porcelana, mas depois de lê-la
continuo tendo 140 pontas de gelo pendendo de meus ossos.
não seguirei direto até L.A., disse o motorista.
não tem problema, eu disse, os copos-de-leite assentem para nossas mentes
e algum dia todos iremos juntos para
casa.
de fato, ele disse, a nossa viagem juntos
termina aqui.
deixei ele ter o que queria; velha e ressecada puta do tempo
seus seios têm o gosto do creme azedo dos sonhos...
ele me desembarcou
no meio do deserto;
morrer é morrer é morrer,
velhos fonógrafos nos porões,
joe di maggio,
revistas em comunhão com cebolas...
um velho Ford me apanhou
45 minutos depois
e, desta vez,
mantive minha boca
calada.
[1] Hilda Doolittle, cujo nome literário foi H.D., teve importante papel no movimento modernista da poesia americana, em especial por sua associação ao Imagismo de Pound. Em sua poesia há frequentes referências à mitologia grega. (N.T.)
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Imaginação E Realidade

há muitas mulheres solteiras no mundo
com um ou dois ou três filhos
e alguém se pergunta aonde foram os maridos
ou aonde foram
os amantes
deixando para trás
todas essas mãos e esses olhos e esses pés
e essas vozes.
ao passar por suas casas
gosto de abrir armários e
olhar o que há dentro
ou então debaixo da pia
ou no guarda-roupa –
espero encontrar o marido
ou o amante e ele me dirá:
“ei, parceiro, você não percebeu as
estrias, ela tem estrias
e peitos caídos e come
cebolas o tempo todo e peida... mas
sou um cara habilidoso. posso consertar coisas,
sei como usar um torno mecânico e
troco sozinho o óleo do carro. sei jogar
sinuca, boliche, posso chegar em 5º ou
6º em qualquer maratona por
aí. tenho um jogo de tacos de
golfe, lanço a bola a longas distâncias. sei
onde fica o clitóris e o que fazer com
ele. tenho um chapéu de caubói com as abas
dobradas para cima.
sou bom com o laço e com os punhos
conheço os últimos passos de dança.”

e eu direi, “veja só, estou de saída”.
e sumirei antes que ele acabe me desafiando
para uma queda de braços
ou me conte uma piada bagaceira
ou me mostre a tatuagem no seu
bíceps direito em movimento.

mas de fato
tudo o que encontro no armário são
xícaras de café e pratos marrons, grandes e rachados
e debaixo da pia uma pilha de trapos
endurecidos, e no guarda-roupa – mais cabides
do que roupas, e é só quando ela me mostra
o álbum e as fotos dele –
tão bom quanto uma calçadeira, ou um carrinho de
supermercado cujas rodas não estão emperradas –
que a dúvida íntima se desfaz, e as
páginas avançam e ali está uma criança com
um traje de banho vermelho e lá está
a outra
perseguindo uma gaivota em Santa Mônica.
e a vida se torna triste e nada perigosa
e, dessa maneira, boa o suficiente:
tê-la para lhe trazer uma xícara de café em
uma daquelas xícaras sem que ele
apareça.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Alegrias de Nossa Senhora

I
RECITANTE
O Anjo traz a mensagem,
Prostra-se perante a Virgem e anuncia:
ANJO
O Filho de Deus quer ser teu filho, Maria:
Porque és cheia de graça e bendita entre as mulheres.
RECITANTE
A donzela, em sua humildade, torna-se grande;
Eleva-se acima da condição humana;
Atinge os confins da divindade.
Ó Virgem, que vais responder?
Maria cruza as mãos sobre o peito,
Inclina-se reverente:
MARIA
Sou a escrava do Senhor:
Faça-se em mim segundo a sua palavra.
CORO
Ó santas alegrias, castíssimas delícias
Da maternidade virginal!
Maria já é mãe de Deus.
O filho é o mesmo Verbo Divino
Eternamente gerado pelo Pai.
Feliz a Virgem Maria, cujo seio contém o próprio Deus!
II
RECITANTE
Caminha a Virgem pelas montanhas de Judá.
Tudo respira serenidade.
O cabrito montês brinca nos cimos mais altos.
* Esta composição está inspirada no texto de oratório do poema de uma monja carmelita.
Maria vai visitar Isabel.
Troca-se em paraíso a casinha branca da montanha.
Isabel, ao ouvir a saudação de Maria, exclama, cheia do Espírito Santo:
ISABEL
Bendita tu entre as mulheres
E bendito o fruto de teu ventre!
RECITANTE
O menino salta no ventre da Mãe e Maria canta:
MARIA
Minh'alma engrandece ao Senhor.
Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador
Porque atentou na baixeza de sua serva.
Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Grandes coisas me fez o Poderoso,
Grandes coisas faz o Poderoso:
Depõe dos tronos os soberbos
E eleva os humildes;
Enche de bens os famintos
E despede vazios os ricos.
Santo é o seu nome.
CORO
Aleluia! Aleluia! Aleluia!
III
RECITANTE
Noite feliz!
Começa em Belém a Missa da vida de Jesus.
Chegam os magos do Oriente, com as suas dádivas:
Ouro, incenso, mirra.
Pastores acorrem com as suas cornamusas, gaitas, flautas.
E cantam ao Messias recém-nascido:
CORO DE PASTORES
Glória a Deus nas alturas!
A Virgem-Mãe vela o seu menino.
Todo o que nele crer, não perecerá;
Todo o que nele crer, terá a vida eterna.
Glória a Deus nasalturas!
IV
RECITANTE
Crescia o menino e se fortalecia em espírito e sabedoria.
E a graça de Deus estava sobre ele,
Ora, todos os anos ia a Santa Família a Jerusalém, à festa da Páscoa.
De uma feita ficou o menino na cidade e não o souberam os pais.
Ao cabo de três dias o acharam no templo, sentado entre os doutores,
Que o ouviam, admirados de suas respostas.
Disse-lhe então Maria:
MARIA
Filho, por que fizeste assim para conosco?
Teu pai e eu, ansiosos, te buscávamos.
R RECITANTE
Ao que Jesus responde:
JESUS (menino de doze anos)
Por que me buscáveis?
Não sabeis que me convém tratar das coisas do Pai?
RECITANTE
E Maria:
MARIA
Achei aquele a quem minh'alma adora.
Recobrei-o e não o deixarei mais perder.
Meu espírito se alegra em meu Filho e Salvador.
CORO
Santo! Santo! Santo!
V
RECITANTE
A Hóstia Divina foi imolada no Calvário.
Ao terceiro dia foram as santas mulheres ao Sepulcro.
Estava a pedra removida e não acharam o corpo do Senhor Jesus.
Então dois varões de vestes resplandecentes falaram:
OS DOIS VARÕES
Por que buscais o vivente entre os mortos?
Não está aqui, já ressuscitou.
Lembrai-vos do que vos disse em Galiléia:
"Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos homens pecadores,
"E seja crucificado,
"E ao terceiro dia ressuscite."
CORO
Morte, onde está tua vitória?
Pela primeira vez foste vencida.
Maria, Mãe de Deus, alegra-te!
Teu filho ressurgiu, divino.
Hosana! Hosana! Hosana!
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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Balada Das Duas Mocinhas de Botafogo

Eram duas menininhas
Filhas de boa família:
Uma chamada Marina
A outra chamada Marília.
Os dezoito da primeira
Eram brejeiros e finos
Os vinte da irmã cabiam
Numa mulher pequenina.
Sem terem nada de feias
Não chegavam a ser bonitas
Mas eram meninas-moças
De pele fresca e macia.
O nome ilustre que tinham
De um pai desaparecido
Nelas deixara a evidência
De tempos mais bem vividos.
A mãe pertencia à classe
Das largadas de marido
Seus oito lustros de vida
Davam a impressão de mais cinco.
Sofria muito de asma
E da desgraça das filhas
Que, posto boas meninas
Eram tão desprotegidas
E por total abandono
Davam mais do que galinhas.

Casa de porta e janela
Era a sua moradia
E dentro da casa aquela
Mãe pobre e melancolia.
Quando à noite as menininhas
Se aprontavam pra sair
A loba materna uivava
Suas torpes profecias.
De fato deve ser triste
Ter duas filhas assim
Que nada tendo a ofertar
Em troca de uma saída
Dão tudo o que têm aos homens:
A mão, o sexo, o ouvido
E até mesmo, quando instadas
Outras flores do organismo.

Foi assim que se espalhou
A fama das menininhas
Através do que esse disse
E do que aquele diria.
Quando a um grupo de rapazes
A noite não era madrinha
E a caça de mulher grátis
Resultava-lhes maninha
Um deles qualquer lembrava
De Marília e de Marina
E um telefone soava
De um constante toque cínico
No útero de uma mãe
E suas duas filhinhas.
Oh, vida torva e mesquinha
A de Marília e Marina
Vida de porta e janela
Sem amor e sem comida
Vida de arroz requentado
E média com pão dormido
Vida de sola furada
E cotovelo puído
Com seios moços no corpo
E na mente sonhos idos!

Marília perdera o seu
Nos dedos de um caixeirinho
Que o que dava em coca-cola
Cobrava em rude carinho.
Com quatorze apenas feitos
Marina não era mais virgem
Abrira os prados do ventre
A um treinador pervertido.
Embora as lutas do sexo
Não deixem marcas visíveis
Tirante as flores lilases
Do sadismo e da sevícia
Às vezes deixam no amplexo
Uma grande náusea íntima
E transformam o que é de gosto
Num desgosto incoercível.

E era esse bem o caso
De Marina e de Marília
Quando sozinhas em casa
Não tinham com quem sair.
Ficavam olhando paradas
As paredes carcomidas
Mascando bolas de chicles
Bebendo água de moringa.
Que abismos de desconsolo
Ante seus olhos se abriam
Ao ouvirem a asma materna
Silvar no quarto vizinho!
Os monstros da solidão
Uivavam no seu vazio
E elas então se abraçavam
Se beijavam e se mordiam
Imitando coisas vistas
Coisas vistas e vividas
Enchendo as frondes da noite
De pipilares tardios.
Ah, se o sêmem de um minuto
Fecundasse as menininhas
E nelas crescessem ventres
Mais do que a tristeza íntima!
Talvez de novo o mistério
Morasse em seus olhos findos
E nos seus lábios inconhos
Enflorescessem sorrisos.
Talvez a face dos homens
Se fizesse, de maligna
Na doce máscara pensa
Do seu sonho de meninas!

Mas tal não fosse o destino
De Marília e de Marina.
Um dia, que a noite trouxe
Coberto de cinzas frias
Como sempre acontecia
Quando achavam-se sozinhas
No velho sofá da sala
Brincaram-se as menininhas.
Depois se olharam nos olhos
Nos seus pobres olhos findos
Marina apagou a luz
Deram-se as mãos, foram indo
Pela rua transversal
Cheia de negros baldios.
Às vezes pela calçada
Brincavam de amarelinha
Como faziam no tempo
Da casa dos tempos idos.
Diante do cemitério
Já nada mais se diziam.
Vinha um bonde a nove-pontos...
Marina puxou Marília
E diante do semovente
Crescendo em luzes aflitas
Num desesperado abraço
Postaram-se as menininhas.

Foi só um grito e o ruído
Da freada sobre os trilhos
E por toda parte o sangue
De Marília e de Marina.
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