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Mãe e Maternidade

Renato Rezende

Renato Rezende

[Tento-Carolina]

Quero ser rei e quero servir

Meu Deus, está tudo pegando fogo

É da minha ferida que escorre o meu Amor

Prestar atenção nos vazios, nos imensos vazios que existem entre
todas as pessoas, os momentos, as palavras, as coisas.
Praticamente tudo é vazio

Só dias maravilhosos?

Encantei-me por uma árvore em frente ao
templo de Shiva. Era uma árvore comum, mas
com extraordinárias pequenas sementes
vermelhas que salpicavam o chão. Vivas,
lustrosas, rijas. Peguei um punhado e as trouxe
para cá; coloquei algumas numa pequena caixa
de mármore incrustado de pedras para Lakshmi.
No mês passado, caminhando na rua que sobe o
morro, encontrei as mesmas sementes! E apenas
hoje percebi e comprovei que a árvore no quintal
do prédio diante da minha janela (ao lado da
mangueira, perto da buganvília) é ela. A menos
de 10 metros da minha janela, da minha cama.
Como nascem dentro de cachos espiralados que
só se abrem no chão, nunca percebi as sementes
antes. Mas agora, atento, vejo os pontos
vermelhos entre a folhagem.

bead tree, bois de condori, peacock
flower-fence, colales, coral bean tree,
culalis, false wili wili, falso-sândalo,
kaikes, la’aulopa,
lera, lerendamu, lopa, metekam, olhode-dragão, paina, pitipitio, pomea, red
sandalwood tree,
redbeadtree, segavé, telengtúngd,
telentundalel,
vaivai,
vaivainivavalangi,
tento-carolina

O mundo manifesto.

O amor é uma chama que deve consumir tudo,
mas em mim sendo facilmente extinguida pelos caminhões
de areia dos pensamentos e sentimentos cotidianos

desistir do plano, como parte da estratégia;
desistir da estratégia

Tudo é impuro e belo

Tudo é perfeito e imperfeito

(Senti-me o que sou, sem mais, uma pessoa entre outras, finita e autorizada)

Teria a coragem de dizer que não me sinto, freqüentemente, uma pessoa?

Viver no limite daquilo que me limita.

(ontem, na festa da Carol, me vi
novamente tomando atitudes herdadas da minha mãe, e pela
primeira vez não me senti ridícula e tola, mas me aceitei, aceitando
assim minha mãe, e, novamente, assim, me aceitando)

deixar de vir a ser para ser—o que sou

todo futuro já aconteceu

Alço o coração ao alto, os braços abertos—sei que Deus quer me ajudar.

Eu não quero a redenção; eu já sou redimida,

Vim aprender a amar
Ah, olhar transparente!

Maravilha das maravilhas

salva:

Deleitar-se com a vida
Depois de sacrificá-la

Amor de perdição
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Domingos Pellegrini

Domingos Pellegrini

Morte de mãe

.1.
Cercando a cama a gente esperava
escorregar daquele corpo a vida
para chorar (como se a morte
não vivesse sempre impressentida)

Matronas em pé com velhas varizes
machos curtidos em pinga úmidos
na penumbra: escuridão arrependida
(todos pendendo para aquele útero)

E devagar a vida escorregava
daquela boneca vestida de mãe
que abria os olhos e que chorava

e que dizia sempre sim sim sim
e esquecemos num canto qualquer e
para sempre fechou os olhos enfim
 

.2.
A carne quando nova, que beleza
mas vem o tempo com rugas varizes
cascas cansaço calos cicatrizes
careca corcunda cegueira surdeza

Olhar sem brilho e gesto sem leveza
tarde saudosa dos dias felizes
noite de acessos, tosses e crises
um dia a menos, única certeza

Vale a pena viver para isso?
E valerá a pena viver mais?
Mas a carne resiste, eis a verdade:

agarra-se às sopas e ao suspiro
dorme com medo de não acordar
e quando dorme enfim, que dignidade


.3.
E nossa mãe morreu, morreu avó
e tia prima cunhada sobrinha
empregada da casa e da rotina
e então nos móveis descansou o pó

Não teve tempo de ter uma amiga
entre campo e cidade em seu quintal
vassoura pia fogão e varal
e tanta planta da rosa à urtiga

Morreu – mas não desabou o mundo
também não despencaram as estrelas
só apagou-se a luz no criado-mudo

Não morreu de velha mas de canseira
e ainda queria dar algum conselho
quando lhe enchemos a boca de terra


.4.
Muito sol sem discursos e sem bronze
– chegamos, abrimos o caixão e
olhamos e olhamos como se
fosse uma foto para mandar longe

E soluçavam as pedras
por onde a gente tropeçava – tanto que
irmão até abraçava irmão e
o banguelo não ria do corcunda

Então irmanamente depusemos
os beijos de café que ela coou
na face enruguecida que bebemos

Choveu remorso até nas crianças
o silêncio afinal nos abençoou
mas em casa já falamos de herança
688
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Vermeer

Não é um mundo seguro. O ruído começa ali,
do outro lado da parede
onde está a estalagem
com risos e refregas, rixas de dentes, lágrimas,
o seu retinir de sinos
e o cunhado insano, o assassino, que faz com
que na sua presença todos sintam temor.

A grande explosão e o tropel do resgate que chega atrasado
os barcos exibindo-se nos canais, o dinheiro correndo
para o bolso do homem malvado
ultimatos atrás de ultimatos
flores encarnadas abertas ressoando premonições de guerra. 

E exactamente dali através da parede
para o estúdio de luz
e os segundos a quem autorizaram viver séculos.
Quadros com nomes próprios “A Lição de Música”
ou “Mulher de Azul Lendo uma Carta”.
Está grávida de oito meses, dois corações que batem dentro dela.
Na parede atrás vê-se um mapa enrugado da Terra Incognita.

Respira apenas. Um material azul que se desconhece está pregado às cadeiras.
Os rebites de ouro voaram com incrível rapidez
e pousaram ali abruptamente
como se não fossem outra coisa senão silêncio.

Os ouvidos zumbem, talvez do abismo talvez do cume.
É a pressão do outro lado da parede
A pressão que faz flutuar os factos
e firmar o pincel. 

Atravessar as paredes faz sofrer, faz adoecer
mas não temos outra escolha.
O mundo é um. Mas as paredes ….
As paredes são parte de ti –
Ou se sabe ou não se sabe embora seja assim para todos
excepto para as crianças. Para elas não há paredes.

O céu limpo tomou o seu lugar e encostou-se à parede.
É como uma prece ao vazio.
E o vazio volta o seu rosto para nós
E murmura
“Não sou vazio, sou aberto”.
489
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Garras do Paraíso

borboleta de madeira
sorriso de bicarbonato de sódio
mosca de serragem
amo minha pança
e o homem da loja de bebidas
me chama,
“sr. Schlitz.”
os caixas no hipódromo
gritam,
“O POETA SABE A VERDADE!”
quando desconto meus bilhetes.
as senhoras
dentro e fora da cama
dizem que me amam
e eu sigo por aí com pés
molhados e brancos.
albatrozes com olhos embriagados
as cuecas sujas do Popeye
percevejos de Paris,
já limpei as barricadas
dominei o
automóvel
a ressaca
as lágrimas
mas eu conheço
a condenação final
como qualquer garoto de escola que vê
o gato ser esmagado
pelo tráfego.
meu crânio tem uma fenda de
quatro centímetros bem no
topo.
a maioria dos meus dentes está
na frente. sinto
tonturas em supermercados
cuspo sangue quando bebo
uísque
e me entristeço
até a
aflição
quando penso em todas as
boas mulheres que conheci
que se
dissolveram
desapareceram
por trivialidades:
viagens a Pasadena,
piqueniques de criança,
tampas de pasta de dente
ralo abaixo.
não há nada a fazer
senão beber
jogar nos cavalos
apostar no poema
enquanto as jovens
se tornam mulheres
e as metralhadoras
apontam para mim
encolhidas
atrás de paredes mais finas
que pálpebras.
não há defesa
exceto em todos os erros
cometidos.
nesse meio-tempo
tomo banhos de chuveiro
atendo ao telefone
ponho ovos pra ferver
estudo o movimento e a perda
e me sinto tão bem
quanto o próximo instante
caminhando ao sol.

Fay estava indo bem com a gravidez. Para uma mulher madura, ela estava bem. Esperávamos em casa. Finalmente chegou a hora.
– Não vai levar muito tempo – ela disse. – Não quero chegar lá muito cedo.
Saí e dei uma verificada no carro. Retornei.
– Ooooh, oh – ela disse. – Não, espere.
Talvez ela pudesse salvar o mundo. Orgulhava-me sua calma. Perdoei-a a louça suja, a The New Yorker e a oficina de escritores. A velha era apenas mais uma criatura sozinha num mundo que não estava nem aí pra ela.
– É melhor irmos agora – eu disse.
– Não – disse Fay –, não quero fazer você esperar muito tempo. Sei que você não anda se sentindo bem.
– Fodam-se meus problemas. Vamos fazer isso duma vez.
– Não, por favor, Hank.
Ela simplesmente ficou ali sentada.
– Em que posso ajudar você? – perguntei.
– Nada.
Ficou onde estava por mais dez minutos. Fui até a cozinha atrás de um copo d’água. Quando voltei, ela disse:
– Você está pronto pra dirigir?
– Claro.
– Sabe onde fica o hospital?
– Claro.
Ajudei-a a entrar no carro. Havia percorrido duas vezes o trajeto na semana passada, como treinamento. Mas quando cheguei lá não fazia a mais vaga ideia de onde estacionar. Fay apontou para uma pista.
– Vá por ali. Estacione ali. Entramos por esse caminho.
– Sim, senhora – eu disse...
Ela estava num leito, num quarto dos fundos que dava para a rua. Seu rosto se contraía.
– Segure minha mão – ela disse.
Foi o que fiz.
– Está mesmo acontecendo? – perguntei.
– Sim.
– Você faz tudo parecer tão fácil – eu disse.
– Você é muito gentil. Isso ajuda.
– Gosto de ser gentil. É aquele maldito Correio...
– Eu sei. Eu sei.
Olhávamos pela janela dos fundos.
Eu disse:
– Olhe para aquelas pessoas lá embaixo. Não fazem ideia do que acontece aqui em cima. Apenas caminham pela calçada. Sim, isso é engraçado... uma vez eles também tiveram que nascer, cada um deles.
– Sim, é engraçado.
Podia sentir os movimentos do corpo dela através de sua mão.
– Segure mais forte – ela disse.
– Sim.
– Vou odiar quando você tiver que ir.
– Onde está o médico? Onde está todo mundo? Mas que merda!
– Eles logo aparecem.
Logo em seguida uma enfermeira entrou. Era um hospital católico e se tratava de uma enfermeira muito bonita, morena, espanhola ou portuguesa.
– O senhor... deve sair... agora – ela me disse.
Mostrei a Fay meus dedos cruzados e sorri um sorriso torto. Não creio que ela tenha visto. Peguei o elevador e desci.
Meu médico alemão me acordou. O mesmo que me havia feito os testes sanguíneos.
– Parabéns – ele disse, com um aperto de mão –, é uma menina. Quatro quilos.
– E a mãe?
– A mãe ficará bem. Não deu nenhum trabalho.
– Quando posso ver as duas?
– O senhor será avisado. Trate de sentar, eles virão chamá-lo. – E então ele se foi.
Olhei através do vidro. A enfermeira apontou para a minha filha. Seu rosto estava bem vermelho e ela chorava mais alto do que todos os outros bebês. A sala estava cheia de bebês, todos aos berros. Quantos nascimentos! A enfermeira parecia muito orgulhosa de meu bebê. Ao menos, esperava que aquela criança fosse a minha. Ela a ergueu de modo que eu pudesse vê-la melhor. Sorri através do vidro, não sabia como agir. Ela apenas berrou para mim. Pobrezinha, pensei, pobre criatura. Eu não sabia então que ela seria linda um dia, que se pareceria muito comigo, hahaha.
Gesticulei para a enfermeira que baixasse o bebê, então dei um tchauzinho para as duas. Era uma enfermeira bacana. Boas pernas, boas cadeiras. Seios fartos.
Fay tinha uma mancha de sangue no lado esquerdo de sua boca, e eu apanhei um lenço molhado e limpei a marca. As mulheres foram feitas para sofrer, não era à toa que estavam sempre pedindo declarações de amor.
– Queria que eles me deixassem com a nenê – disse Fay –, não está certo isso de nos separarem.
– Eu sei. Mas deve haver alguma razão de ordem médica.
– Sim, mas mesmo assim não parece certo.
– Não, não é mesmo. Mas a menina parece bem. Farei o que puder para que eles a tragam o quanto antes. Deve ter uns quarenta bebês por lá. Estão fazendo todas as mães esperarem. Acho que isso deve acontecer pra que elas tenham tempo de se recuperar. Nosso bebê parece muito forte, posso lhe garantir. Por favor, não se preocupe.
– Eu ficaria tão feliz com a minha nenê.
– Eu sei, eu sei. Não vai demorar.
– Senhor – uma enfermeira gorda, mexicana, se aproximou –, vou ter que pedir para o senhor sair agora.
– Mas eu sou o pai.
– Sim, nós sabemos. Mas sua esposa precisa descansar agora.
Apertei a mão de Fay, beijei-lhe a testa. Ela fechou os olhos e pareceu dormir. Não era uma mulher jovem. Talvez ela não tivesse salvado o mundo, mas tinha feito uma grande melhoria. Um brinde a Fay.
– Cartas na rua
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Câncer

encontrei seu quarto no alto de uma
escada.
ela estava sozinha.
“olá, Henry”, ela disse, e depois,
“você sabe, eu odeio esse quarto, ele não
tem janelas.”
eu estava com uma ressaca daquelas.
o cheiro era insuportável,
sentia-me prestes a
vomitar.
“eles me operaram dois dias atrás”,
ela disse. “me senti melhor no dia
seguinte, mas agora está tudo igual a antes, talvez até
pior.”
“sinto muito, mãe.”
“sabe, você estava certo, seu pai
é um homem terrível.”
pobre mulher. um marido brutal e
um filho alcoólatra.
“me desculpe, mãe, eu volto
logo...”
o cheiro havia me impregnado,
meu estômago pulava.
saí do quarto
e desci metade do lance de escadas,
me sentei ali
agarrado ao corrimão,
respirando o ar
puro.
a pobre mulher.
segui respirando e
mantendo o controle para não
vomitar.
me levantei e voltei a subir os
degraus em direção ao quarto.
“ele tinha me mandado para um
hospício, você
sabia?”
“sim. eu informei a eles
que tinham pegado a pessoa
errada.”
“você parece doente, Henry, está tudo bem
contigo?”
“não estou num bom dia, mãe. Volto
para ver você
amanhã.”
“tudo bem, Henry...”
fiquei de pé, fechei a porta, em seguida
desci a escada.
ganhei a rua, cheguei a um
roseiral.
soltei tudo sobre o
roseiral.
pobre e desgraçada mulher...
no dia seguinte cheguei com
flores.
subi a escada até a
porta.
havia uma guirlanda na
porta.
tentei abrir a porta mesmo assim.
estava trancada.
desci os degraus
cruzei as roseiras e seu jardim
e cheguei à rua
onde havia estacionado meu
carro.
duas garotinhas
entre 6 e 7 anos
voltavam da escola para casa.
“desculpem-me, senhoritas, mas vocês
gostariam de ganhar umas flores?”
elas pararam e me
encararam.
“tome”, estiquei o buquê à mais alta
das garotas. “agora, vocês
dividam, por favor, dê para sua amiguinha
a metade delas.”
“obrigada”, disse a mais
alta, “elas são
lindas.”
“sim, são mesmo”, disse a
outra, “muito
obrigada.”
elas se afastaram descendo a rua
e eu entrei no meu carro,
dei a partida, e
dirigi de volta para o meu
canto.
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