Poemas neste tema
Medo e Ansiedade
Reinaldo Ferreira
Domina-me um terror incoerente
Domina-me um terror incoerente
Do Nada, da final insensação
Por isso creio em Deus com Fé demente,
Por medo, por defesa, com paixão.
Se busco todavia uma razão
Que fortaleça a Fé de que sou crente,
Tortura-me o saber que tudo é vão,
Que tudo se aniquila finalmente,
Que tudo se transmuta e se transforma
E que perdura apenas noutra forma
Aquilo que no mundo é material.
Concebo que tudo isto tenha um fim.
Só não concebo o que será de mim,
Cumprido o meu degredo terreal.
Do Nada, da final insensação
Por isso creio em Deus com Fé demente,
Por medo, por defesa, com paixão.
Se busco todavia uma razão
Que fortaleça a Fé de que sou crente,
Tortura-me o saber que tudo é vão,
Que tudo se aniquila finalmente,
Que tudo se transmuta e se transforma
E que perdura apenas noutra forma
Aquilo que no mundo é material.
Concebo que tudo isto tenha um fim.
Só não concebo o que será de mim,
Cumprido o meu degredo terreal.
1 832
Ribamar Feitosa
Cantiga de Ninar Mamãe
Dorme, mamãe,
do meu coração,
o bicho papão
não vem te comer.
Dorme, mamãe,
que eu vou vigiar
e a cuca
maluca
não vem te pegar.
Dorme, mamãe,
não tenhas mais medo
de tudo e de nada,
de bruxa malvada
que faz a careta,
de bois perigosos
de cara bem preta.
Dorme, mamãe,
é tão bom ver você
nesta cama deitada.
Eu sou pequenina,
mas posso ficar
um instante acordada.
Dorme, mamãe,
um anjo chegou
e, devagar,
nos beijou.
E você, mamãezinha,
mais bonita ficou.
do meu coração,
o bicho papão
não vem te comer.
Dorme, mamãe,
que eu vou vigiar
e a cuca
maluca
não vem te pegar.
Dorme, mamãe,
não tenhas mais medo
de tudo e de nada,
de bruxa malvada
que faz a careta,
de bois perigosos
de cara bem preta.
Dorme, mamãe,
é tão bom ver você
nesta cama deitada.
Eu sou pequenina,
mas posso ficar
um instante acordada.
Dorme, mamãe,
um anjo chegou
e, devagar,
nos beijou.
E você, mamãezinha,
mais bonita ficou.
691
Nana Corrêa de Lima
Medo
Medo
Amo, mas sem certeza.
E é com dor nas entranhas
que assumo meus medos todos.
Vagarosamente,
Sem anestésico algum .....
Amo, mas sem certeza.
E é com dor nas entranhas
que assumo meus medos todos.
Vagarosamente,
Sem anestésico algum .....
874
Herberto Sales
Im Afraid of
Tenho medo de perder-te
e de, perdendo-te,
não mais te ver cavalgar sobre a relva úmida
em galope elástico e branco,
num ondular de ancas
brancas
de lua com maciez de jacintas.
Tenho medo de perder-te
e de, perdendo-te,
perder-me também
(irremediavelmente)
numa infecunda solidão floral:
sem o mel da polpa que o fruto oculta,
sem o pólen da rosa escarlate.
e de, perdendo-te,
não mais te ver cavalgar sobre a relva úmida
em galope elástico e branco,
num ondular de ancas
brancas
de lua com maciez de jacintas.
Tenho medo de perder-te
e de, perdendo-te,
perder-me também
(irremediavelmente)
numa infecunda solidão floral:
sem o mel da polpa que o fruto oculta,
sem o pólen da rosa escarlate.
1 083
João Quental
Natureza Morta
Quando o horror estanca as feridas da noite
A morte, emaranhado tecido de escuridão,
Passeia seus cabelos por entre as árvores.
O abandono
Pisam macios os pés no quarto de dormir:
na sala
Desmoronam, palidamente,
as flores do vaso.
(1989)
A morte, emaranhado tecido de escuridão,
Passeia seus cabelos por entre as árvores.
O abandono
Pisam macios os pés no quarto de dormir:
na sala
Desmoronam, palidamente,
as flores do vaso.
(1989)
916
Bocage
Certo enfermo, homem sisudo,
Certo enfermo, homem sisudo,
Deixou por condescendência
Chamar um doutor, que tinha
Entre os mais a preferência.
Manda-lhe o fofo Esculápio
Que bote a língua de fora,
E envia dez garatujas
À botica sem demora.
"Com isto (diz ao doente)
A sepultura lhe tapo".
Replica o pobre a tremer:
"Aposto que não escapo".
Deixou por condescendência
Chamar um doutor, que tinha
Entre os mais a preferência.
Manda-lhe o fofo Esculápio
Que bote a língua de fora,
E envia dez garatujas
À botica sem demora.
"Com isto (diz ao doente)
A sepultura lhe tapo".
Replica o pobre a tremer:
"Aposto que não escapo".
1 508
Walter Queiroz
O Susto
O susto era o céu
violento nos olhos
a mancha de fogo
cidade de nuvens
O susto era o sonho
na festa da noite
pastando lembranças
do último espanto
O susto era a tarde
passando carreira
girando a criança
pião na varanda
O susto foi grito
um gesto sem jeito
a lança de anúncios
no alvo do peito
O susto de agora
no tempo de hoje
folia de pranto
no canto das armas
violento nos olhos
a mancha de fogo
cidade de nuvens
O susto era o sonho
na festa da noite
pastando lembranças
do último espanto
O susto era a tarde
passando carreira
girando a criança
pião na varanda
O susto foi grito
um gesto sem jeito
a lança de anúncios
no alvo do peito
O susto de agora
no tempo de hoje
folia de pranto
no canto das armas
949
Vitor Casimiro
Ciclo Vicioso
O início
Não me esqueço
O vício
Só tem começo.
O trauma,
Que perfura
A alma
De que procura
Com toda calma
Perder o medo
Essa mania
De que ainda é cedo
De que ainda é dia
E seja o que aconteça
Não há mais perigo
Mesmo que desapareça
O meu amigo
Encontrarei a cura
Para a insensatez
Talvez loucura
De se perder de vez,
De um vez por todas.
Não me esqueço
O vício
Só tem começo.
O trauma,
Que perfura
A alma
De que procura
Com toda calma
Perder o medo
Essa mania
De que ainda é cedo
De que ainda é dia
E seja o que aconteça
Não há mais perigo
Mesmo que desapareça
O meu amigo
Encontrarei a cura
Para a insensatez
Talvez loucura
De se perder de vez,
De um vez por todas.
847
Vernaide Wanderley
Forragens e Desertos, nos
Versos da Escrivaninha
Minha escrivaninha é túmulo
e reboliço de lembranças;
armário entulhado de tormentas
e águas que retraçam rumos
e barram a invasão do tempo.
Sua desordem é castelo
e sertão dos meus desvelos;
redemoinho e povo desterrado,
exílio que modela dunas
e barra a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é mistério
nos fiapos do novelo que me tecem;
amor de gavetas, velhas bastilhas
e medo ou lucidez de resistências,
que barram a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é túmulo
e reboliço de lembranças;
armário entulhado de tormentas
e águas que retraçam rumos
e barram a invasão do tempo.
Sua desordem é castelo
e sertão dos meus desvelos;
redemoinho e povo desterrado,
exílio que modela dunas
e barra a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é mistério
nos fiapos do novelo que me tecem;
amor de gavetas, velhas bastilhas
e medo ou lucidez de resistências,
que barram a invasão do tempo.
744
Valdir L. Queiroz
Dissertação
Tenho medo
medo de flor do deserto
que teme o olhar do jardineiro
e ama os olhos do abutre.
tenho amor
amor de flor que "nasce"
no asfalto;
amor de peixe que "vive"
em aquário;
amor de pássaro que "morre"
em gaiola;
amor de gente que espera
outrora.
medo de flor do deserto
que teme o olhar do jardineiro
e ama os olhos do abutre.
tenho amor
amor de flor que "nasce"
no asfalto;
amor de peixe que "vive"
em aquário;
amor de pássaro que "morre"
em gaiola;
amor de gente que espera
outrora.
766
Severiano de Resende
Bellua
Como, neste lagoal surdo, surde elétrica e lesta
A Fera? Como, sem que o passo em relvas resvalasse,
O monstro, que a campanha e a vila infesta,
Penetra o meu castelo e vem olhar-me face a face?
(Vejo-o surgir diante de mim no espelho
ígneo e fosforescente
Todo tinto de verde e de vermelho,
E senta-se, sem que eu lhe diga que se sente.)
Mas sob o manto astral aos meus ombros esparso
A essência do meu ser recôndito eu disfarço.
Mira-me de alto a baixo e dos pés à cabeça
E da cabeça aos pés
E do meu corpo esfuracando a impermeável e espessa
Penumbra, arranca-me a alma (em vão!) e inquire-me: "Quem és?"
Como se este medonho híspido avejão de outro mundo
(E de outras eras)
Não temesse que do meu cérebro arguto e profundo
Me saísse em resposta esta outra pergunta: "Quem eras?"
Ou: "Quem foste?" porque, sem erro algum, eu bem conheço
De onde este fantasma vem.
E preciso não é remontar ao começo
Do caos primevo, que os arcanos do cosmos contém,
Para desmascará-lo e conhecê-lo bem.
MAS DENTRO EM MlM RESPLENDE A ÁRVORE DO BEM.
A Fera? Como, sem que o passo em relvas resvalasse,
O monstro, que a campanha e a vila infesta,
Penetra o meu castelo e vem olhar-me face a face?
(Vejo-o surgir diante de mim no espelho
ígneo e fosforescente
Todo tinto de verde e de vermelho,
E senta-se, sem que eu lhe diga que se sente.)
Mas sob o manto astral aos meus ombros esparso
A essência do meu ser recôndito eu disfarço.
Mira-me de alto a baixo e dos pés à cabeça
E da cabeça aos pés
E do meu corpo esfuracando a impermeável e espessa
Penumbra, arranca-me a alma (em vão!) e inquire-me: "Quem és?"
Como se este medonho híspido avejão de outro mundo
(E de outras eras)
Não temesse que do meu cérebro arguto e profundo
Me saísse em resposta esta outra pergunta: "Quem eras?"
Ou: "Quem foste?" porque, sem erro algum, eu bem conheço
De onde este fantasma vem.
E preciso não é remontar ao começo
Do caos primevo, que os arcanos do cosmos contém,
Para desmascará-lo e conhecê-lo bem.
MAS DENTRO EM MlM RESPLENDE A ÁRVORE DO BEM.
668
Rodrigo Carvalho
Intervenção da Morte
Consulta médica.
O ar anestesia meus pensamentos,
deixando-os livres.
Que teria eu sofrido para estar em tal lugar?
E o doutor,
de barbas brancas, — que até passava um pouco de calma, sabe?! —
anunciou o esperado:
— Tu realmente és saudável, é verdade.
Salvo tuas vísceras,
teimosas,
impondo-se em deslocar-se.
Causastes uma hérnia, vísceras danadas!
Hospital.
Exames, espera, tricotomia, espera, roupas brancas — ridículas! —
botinhas de pano, touca, cadeira-de-rodas. . .
Sala de cirurgia!
Deito-me na maca e amarram-me por inteiro.
Eletroldos, injeções, soro, bisturi, coração, anestesia. . .
. . .
Terminou?
. . .
E vem a recuperação que,
apesar de rápida,
é bastante dolorosa.
Após a cirurgia, paro e reflito.
Tenho a nítida impressão de que a morte,
é aquilo ali:
não sente-se nada;
não ouve-se nada;
não se é nada,
após os ‘bip’s’. . .
Salvador, 10 de julho de 1994
O ar anestesia meus pensamentos,
deixando-os livres.
Que teria eu sofrido para estar em tal lugar?
E o doutor,
de barbas brancas, — que até passava um pouco de calma, sabe?! —
anunciou o esperado:
— Tu realmente és saudável, é verdade.
Salvo tuas vísceras,
teimosas,
impondo-se em deslocar-se.
Causastes uma hérnia, vísceras danadas!
Hospital.
Exames, espera, tricotomia, espera, roupas brancas — ridículas! —
botinhas de pano, touca, cadeira-de-rodas. . .
Sala de cirurgia!
Deito-me na maca e amarram-me por inteiro.
Eletroldos, injeções, soro, bisturi, coração, anestesia. . .
. . .
Terminou?
. . .
E vem a recuperação que,
apesar de rápida,
é bastante dolorosa.
Após a cirurgia, paro e reflito.
Tenho a nítida impressão de que a morte,
é aquilo ali:
não sente-se nada;
não ouve-se nada;
não se é nada,
após os ‘bip’s’. . .
Salvador, 10 de julho de 1994
675
Rodrigo Carvalho
Sozinho
Que será que surge em mim neste momento?
Que inquietação é essa que é quase uma agonia?
Há alguma coisa que atormenta minha alma,
que neste momento inquieto,
torna-se sombria.
Porque, na solidão desta tarde que parece morrer,
sinto o coração bater,
em fortes pancadas de medo?
Não tenho medo.
Tenho que viver, crer e reerguer,
uma vida que todos pensam nada ser.
Porque pensei em minha mãe, agonizante?
Deveria pensar?
Deveria pensar em uma pessoa que faz parecer
a minha vida errante?
Deveria?
Como a casa é deserta!
E como a tarde é fria!
Surge cada vez mais o tormento. . .
E agora,
nessa hora,
o que permanece em minha alma?
Desesperança. . . Desalento. . . Desânimo. . .
Que me importa agora o passado?
A minha natureza repugna essa volúpia enorme
de fracasso.
E pergunto-me:
Que passado ruinaria só de belezas?
A partir de agora,
eu abomino a estupidez momentânea
e atitudes infâmias,
que fazem denegrir a auto-estima.
Que atos podem vir a destruir um ser?
Que sejam desconhecidos,
que perdure o vil alívio. . .
Que inquietação é essa que é quase uma agonia?
Há alguma coisa que atormenta minha alma,
que neste momento inquieto,
torna-se sombria.
Porque, na solidão desta tarde que parece morrer,
sinto o coração bater,
em fortes pancadas de medo?
Não tenho medo.
Tenho que viver, crer e reerguer,
uma vida que todos pensam nada ser.
Porque pensei em minha mãe, agonizante?
Deveria pensar?
Deveria pensar em uma pessoa que faz parecer
a minha vida errante?
Deveria?
Como a casa é deserta!
E como a tarde é fria!
Surge cada vez mais o tormento. . .
E agora,
nessa hora,
o que permanece em minha alma?
Desesperança. . . Desalento. . . Desânimo. . .
Que me importa agora o passado?
A minha natureza repugna essa volúpia enorme
de fracasso.
E pergunto-me:
Que passado ruinaria só de belezas?
A partir de agora,
eu abomino a estupidez momentânea
e atitudes infâmias,
que fazem denegrir a auto-estima.
Que atos podem vir a destruir um ser?
Que sejam desconhecidos,
que perdure o vil alívio. . .
731
Renato Russo
Será
Tire suas mãos de mim
Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou
Você pode até duvidar
É só que isso não é amor
Será só imaginação ?
Será que nada vai acontecer ?
Será que é tudo isso em vão ?
Será que vamos conseguir vencer ?
Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação
Serão noites inteiras
Talvez por medo da escuridão
Ficaremos acordados
Imaginando alguma solução
Prá que esse nosso egoísmo
Não destrua nosso coração
Brigar prá que
Se é sem querer
Quem é que vai
Nos proteger ?
Será que vamos ter
Que responder
Pelos erros a mais
Eu e você ?
Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou
Você pode até duvidar
É só que isso não é amor
Será só imaginação ?
Será que nada vai acontecer ?
Será que é tudo isso em vão ?
Será que vamos conseguir vencer ?
Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação
Serão noites inteiras
Talvez por medo da escuridão
Ficaremos acordados
Imaginando alguma solução
Prá que esse nosso egoísmo
Não destrua nosso coração
Brigar prá que
Se é sem querer
Quem é que vai
Nos proteger ?
Será que vamos ter
Que responder
Pelos erros a mais
Eu e você ?
1 019
Renato Russo
Música De Trabalho
Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho é só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que têm mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado à miséria
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
Mas o que eu tenho é só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Tem gente que não tem nada
E outros que têm mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar
Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado à miséria
Mas isso eu não aceito
Eu sei o que acontece
E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos
2 385
Renato Russo
Soldados
Nossas meninas estão longe daqui
Não temos com quem chorar e nem prá onde ir
Se lembra quando era só brincadeira
Fingir ser soldado a tarde inteira ?
Mas agora a coragem que temos no coração
Parece medo da morte mas não era então
Tenho medo de lhe dizer o que eu quero tanto
Tenho medo e eu sei porquê:
Estamos esperando
Quem é o inimigo ?
Quem é você ?
Nos defendemos tanto tanto sem saber
Porque lutar
Nossas meninas estão longe daqui
E de repente eu vi você cair
Não sei armar o que eu senti
Não sei dizer que vi você ali
Quem vai saber o que você sentiu ?
Quem vai saber o que você pensou ?
Quem vai dizer agora o que eu não fiz ?
Como explicar prá você o que eu quis ?
Somos soldados
Pedindo esmola
E a gente não queria lutar
Não temos com quem chorar e nem prá onde ir
Se lembra quando era só brincadeira
Fingir ser soldado a tarde inteira ?
Mas agora a coragem que temos no coração
Parece medo da morte mas não era então
Tenho medo de lhe dizer o que eu quero tanto
Tenho medo e eu sei porquê:
Estamos esperando
Quem é o inimigo ?
Quem é você ?
Nos defendemos tanto tanto sem saber
Porque lutar
Nossas meninas estão longe daqui
E de repente eu vi você cair
Não sei armar o que eu senti
Não sei dizer que vi você ali
Quem vai saber o que você sentiu ?
Quem vai saber o que você pensou ?
Quem vai dizer agora o que eu não fiz ?
Como explicar prá você o que eu quis ?
Somos soldados
Pedindo esmola
E a gente não queria lutar
1 276
Ruy Pereira e Alvim
Desencanto
Eu canto o canto
do meu desencanto.
Eu canto a lua
de pele manchada,
despudorada
com astronautas
de quarto em quarto
e nua.
E canto o medo
e as pequenas covardias
que no dia a dia,
em segredo,
fazem as minhas heresias.
Canto o tempo esgotado,
porque, na hora,
o deserto é pranto.
E o meu corpo chora
sem o recado,
que sublimará o meu canto.
do meu desencanto.
Eu canto a lua
de pele manchada,
despudorada
com astronautas
de quarto em quarto
e nua.
E canto o medo
e as pequenas covardias
que no dia a dia,
em segredo,
fazem as minhas heresias.
Canto o tempo esgotado,
porque, na hora,
o deserto é pranto.
E o meu corpo chora
sem o recado,
que sublimará o meu canto.
980
Ruy Pereira e Alvim
Manifesto 2 - Contra o Medo e a Dúvida
Parto em segredo.
Descubro - horas mortas -
no meu Reino, o medo
e a vigília absorta
na dúvida,
que tarde ou cedo,
bate à minha porta!
Descubro - horas mortas -
no meu Reino, o medo
e a vigília absorta
na dúvida,
que tarde ou cedo,
bate à minha porta!
885
Renato Russo
Ainda é cedo
Uma menina me ensinou
Quase tudo que eu sei
Era quase escravidão
Mas ela me tratava como um rei
Ela fazia muitos planos
Eu só queria estar ali
Sempre ao lado dela
Eu não tinha aonde ir
Mas, egoísta que eu sou,
Me esqueci de ajudar
A ela como ela me ajudou
E não quis me separar
Ela também estava perdida
E por isso se agarrava a mim também
E eu me agarrava a ela
Porque eu não tinha mais ninguém
E eu dizia: - Ainda é cedo
cedo
cedo
cedo
cedo
Sei que ela terminou
O que eu não comecei
E o que ela descobriu
Eu aprendi também, eu sei
Ela falou: - Você tem medo
Aí eu disse: - Quem tem medo é você
Falamos o que não devia
Nunca ser dito por ninguém
Ela me disse:
- Eu não sei mais o que eu
sinto por você. Vamos dar
um tempo, um dia a gente se vê
Aí eu disse: - Ainda é cedo
cedo
cedo
cedo
cedo
Quase tudo que eu sei
Era quase escravidão
Mas ela me tratava como um rei
Ela fazia muitos planos
Eu só queria estar ali
Sempre ao lado dela
Eu não tinha aonde ir
Mas, egoísta que eu sou,
Me esqueci de ajudar
A ela como ela me ajudou
E não quis me separar
Ela também estava perdida
E por isso se agarrava a mim também
E eu me agarrava a ela
Porque eu não tinha mais ninguém
E eu dizia: - Ainda é cedo
cedo
cedo
cedo
cedo
Sei que ela terminou
O que eu não comecei
E o que ela descobriu
Eu aprendi também, eu sei
Ela falou: - Você tem medo
Aí eu disse: - Quem tem medo é você
Falamos o que não devia
Nunca ser dito por ninguém
Ela me disse:
- Eu não sei mais o que eu
sinto por você. Vamos dar
um tempo, um dia a gente se vê
Aí eu disse: - Ainda é cedo
cedo
cedo
cedo
cedo
1 757
Renato Russo
Angra dos Reis
Deixa, se fosse sempre assim quente
Deita aqui perto de mim
Tem dias em que tudo está em paz
E agora todos os dias são iguais
Se fosse só sentir saudade
Mas tem sempre algo mais
Seja como for
É uma dor que dói no peito
Pode rir agora que estou sozinho
Mas não venha me roubar
Vamos brincar perto da usina
Deixa prá lá, a angra é dos reis
Por que se explicar se não existe perigo ?
Senti seu coração perfeito batendo à toa
E isso dói
Seja como for
É uma dor que dói no peito
Pode rir agora que estou sozinho
mas não venha me roubar
Vai ver que não é nada disso
Vai ver que já não sei quem sou
Vai ver que nunca fui mesmo
A culpa é toda sua e nunca foi
Mesmo se as estrelas começassem a cair
E a luz queimasse tudo ao redor
E fosse o fim chegando cedo
E você visse nosso corpo em chamas
Deixa prá lá.
Quando as estrelas começarem a cair
Me diz, me diz prá onde a gente vai fugir ?
Deita aqui perto de mim
Tem dias em que tudo está em paz
E agora todos os dias são iguais
Se fosse só sentir saudade
Mas tem sempre algo mais
Seja como for
É uma dor que dói no peito
Pode rir agora que estou sozinho
Mas não venha me roubar
Vamos brincar perto da usina
Deixa prá lá, a angra é dos reis
Por que se explicar se não existe perigo ?
Senti seu coração perfeito batendo à toa
E isso dói
Seja como for
É uma dor que dói no peito
Pode rir agora que estou sozinho
mas não venha me roubar
Vai ver que não é nada disso
Vai ver que já não sei quem sou
Vai ver que nunca fui mesmo
A culpa é toda sua e nunca foi
Mesmo se as estrelas começassem a cair
E a luz queimasse tudo ao redor
E fosse o fim chegando cedo
E você visse nosso corpo em chamas
Deixa prá lá.
Quando as estrelas começarem a cair
Me diz, me diz prá onde a gente vai fugir ?
1 686
Renato Russo
O teatro dos vampiros
Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto
E destes dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos
Este é o nosso mundo:
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance
Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres, nós não estamos
Vamos sair - mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas
Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir
Esquecer, dessa noite ter um lugar legal prá ir
Já entregamos o alvo e a artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas possam se encontrar
Quando me vi tendo de viver comigo apenas
E com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo, eu, homem feito
Tive medo e não consegui dormir
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim, não tenho pena de ninguém
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto
E destes dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos
Este é o nosso mundo:
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance
Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres, nós não estamos
Vamos sair - mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas
Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir
Esquecer, dessa noite ter um lugar legal prá ir
Já entregamos o alvo e a artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas possam se encontrar
Quando me vi tendo de viver comigo apenas
E com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo, eu, homem feito
Tive medo e não consegui dormir
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim, não tenho pena de ninguém
1 651
Raul Seixas
Eu Preciso de Ajuda
Para todos os insonemaníacos da Terra
Eu quero construir um tipo novo de máquina
Para voar de noite saindo do corpo
Ela ganhará prêmios de paz, eu sei disso
Mas eu mesmo não posso fazê-la
Estou exausto, eu preciso de ajuda
Admito meu desespero, eu sei
Que as pernas em minha pernas estão tremendo
E o esqueleto quer sair do meu corpo
Porque a noite de pedra já está concreta
Eu quero alguém para içar uma imensa roldana
E içá-la de volta sobre a montanha
Eu preciso de ajuda
Porque eu não posso fazer isso sozinho
Está tão escuro aqui fora
Que estou cambaleando
Rua abaixo como bêbado
Se bêbado não sou, talvez aleijado
Eu preciso de ajuda.
Eu quero construir um tipo novo de máquina
Para voar de noite saindo do corpo
Ela ganhará prêmios de paz, eu sei disso
Mas eu mesmo não posso fazê-la
Estou exausto, eu preciso de ajuda
Admito meu desespero, eu sei
Que as pernas em minha pernas estão tremendo
E o esqueleto quer sair do meu corpo
Porque a noite de pedra já está concreta
Eu quero alguém para içar uma imensa roldana
E içá-la de volta sobre a montanha
Eu preciso de ajuda
Porque eu não posso fazer isso sozinho
Está tão escuro aqui fora
Que estou cambaleando
Rua abaixo como bêbado
Se bêbado não sou, talvez aleijado
Eu preciso de ajuda.
1 179
Renata Trocoli
Teu Amor
Como uma luz aquecida e suave
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas m2os me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas m2os.
Teu doce beijo acaricia meus l5bios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor 0 novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraTos
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me d5 esperanTas de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presenTa.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peTo com todo coraT2o que ela me abenToe
com tua presenTa a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor t2o puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos coraTes.
Este amor vem de longe,
vem do alto e 0 benT2o dos c0us.
+ perfeito e verdadeiro,
0 sentimento que n2o se sente por qualquer um,
que n2o brinca com o coraT2o
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas m2os me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas m2os.
Teu doce beijo acaricia meus l5bios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor 0 novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraTos
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me d5 esperanTas de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presenTa.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peTo com todo coraT2o que ela me abenToe
com tua presenTa a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor t2o puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos coraTes.
Este amor vem de longe,
vem do alto e 0 benT2o dos c0us.
+ perfeito e verdadeiro,
0 sentimento que n2o se sente por qualquer um,
que n2o brinca com o coraT2o
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
992
Raul Seixas
Óculos Escuros
Esta luz tá muito forte
Tenho medo de cegar
Os meus olhos tão manchados
Com teus raios de luar
Eu deixei a vela acesa
Para a bruxa não voltar
Acendi a luz de dia
Para a noite não chiar
Já bebi daquela água
Quero agora vomitar
Uma vez a gente aceita
Duas tem que reclamar
A serpente está na terra
O programa está no ar
Vim de longe, de outra terra
Pra mirder teu calcanhar
Esta noite eu tive um sonho
Eu queria me matar
Com dois galos a galinha não tem tempo de chocar
Tanto pé na nossa frente que não sabe como andar
Quem não tem colírio usa óculos escuros
Quem não tem papel dá recado pelo muro
Quem não tem presente se conforma com o futuro!
Tenho medo de cegar
Os meus olhos tão manchados
Com teus raios de luar
Eu deixei a vela acesa
Para a bruxa não voltar
Acendi a luz de dia
Para a noite não chiar
Já bebi daquela água
Quero agora vomitar
Uma vez a gente aceita
Duas tem que reclamar
A serpente está na terra
O programa está no ar
Vim de longe, de outra terra
Pra mirder teu calcanhar
Esta noite eu tive um sonho
Eu queria me matar
Com dois galos a galinha não tem tempo de chocar
Tanto pé na nossa frente que não sabe como andar
Quem não tem colírio usa óculos escuros
Quem não tem papel dá recado pelo muro
Quem não tem presente se conforma com o futuro!
1 743