Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Roberto Pontes
A Flor Anídrica
A Mirtes Brígido Machado
Por quem bate o coração da amiga
Já esquecida das pecas pétalas
A dessangrada papoula entre grafemas
Na revista contendo manchas pardas?
Ser vivo ainda? Borboleta ou forma?
Que importa o dobre de um sino
Abafado, ao rés do lado esquerdo?
Ter-se exaurido a força em certas mãos
Se o corpo frágil, os olhos da menina
São estampa que nunca se desfaz?
Horizontalizada, resguarda os segredos
Talvez de múmia, inseto ou arabesco
Discreto modo de assim permanecer
Ali imóvel, a marca de um momento
A sensação, impulso terno, gesto
De preservar a vida em tempo breve
A mão que o pôs ali.
Por quem pulsa o coração que esquece?
Bate pela flor? Ou sua ausência?
(De A Poesia Cearense no Século XX [Org. Assis Brasil]. Rio de Janeiro: 1996)
Por quem bate o coração da amiga
Já esquecida das pecas pétalas
A dessangrada papoula entre grafemas
Na revista contendo manchas pardas?
Ser vivo ainda? Borboleta ou forma?
Que importa o dobre de um sino
Abafado, ao rés do lado esquerdo?
Ter-se exaurido a força em certas mãos
Se o corpo frágil, os olhos da menina
São estampa que nunca se desfaz?
Horizontalizada, resguarda os segredos
Talvez de múmia, inseto ou arabesco
Discreto modo de assim permanecer
Ali imóvel, a marca de um momento
A sensação, impulso terno, gesto
De preservar a vida em tempo breve
A mão que o pôs ali.
Por quem pulsa o coração que esquece?
Bate pela flor? Ou sua ausência?
(De A Poesia Cearense no Século XX [Org. Assis Brasil]. Rio de Janeiro: 1996)
908
Roberto Pontes
Impressão
Havia um lago,
não é que havia?
Não sei se o que brilhava
era o sol.
Seria o mar.
Será que era?
Ou aquilo que rugia
era um bicho?
não é que havia?
Não sei se o que brilhava
era o sol.
Seria o mar.
Será que era?
Ou aquilo que rugia
era um bicho?
713
Paulo Augusto Rodrigues
Bicho
Hoje vive preso, trancado,
Atrás das cidades, inofensivo.
Existe apenas para lembrar-nos
Que um dia aquilo fomos nós.
A memória é como um zoológico
Isolando do mundo todo tipo de sentimentos animais
Que ainda não extinguimos.
Porém, o ritmo monótono e rápido da vida
Metralha, por aí, tudo que encontra
Matando espécies inteiras.
Resta o mêdo.
Que nunca durma o zelador.
Pois se assim for
Não existirá nenhuma lembrança real,
Viva.
Restará somente,
Fotos coloridas em livros desbotados
Mostrando a alma deste sentimento.
Desenhos a mão, esboços,
Num esforço de quem não sabe desenhar,
Num papel como este.
É essa a esperança,
Só depois de tudo acabado
Poderemos reconstruir.
Quando sofrer,
Rebusque a memória,
Numa jaula pequena, com a placa apagada,
Existe um bicho,
O mais indefeso.
Lá estava escrito...
Amor.
Atrás das cidades, inofensivo.
Existe apenas para lembrar-nos
Que um dia aquilo fomos nós.
A memória é como um zoológico
Isolando do mundo todo tipo de sentimentos animais
Que ainda não extinguimos.
Porém, o ritmo monótono e rápido da vida
Metralha, por aí, tudo que encontra
Matando espécies inteiras.
Resta o mêdo.
Que nunca durma o zelador.
Pois se assim for
Não existirá nenhuma lembrança real,
Viva.
Restará somente,
Fotos coloridas em livros desbotados
Mostrando a alma deste sentimento.
Desenhos a mão, esboços,
Num esforço de quem não sabe desenhar,
Num papel como este.
É essa a esperança,
Só depois de tudo acabado
Poderemos reconstruir.
Quando sofrer,
Rebusque a memória,
Numa jaula pequena, com a placa apagada,
Existe um bicho,
O mais indefeso.
Lá estava escrito...
Amor.
872
Ricardo Moraes Ferreira
Vidas Passadas
Como o índio de um velho poema
Me atirei como um selvagem
Através de uma nova miragem
Eu recaio num velho dilema
Herdei da pouca coragem
A pena triste de não ser amado
Perdi os sonhos que deixei na margem
Só restam dores do meu passado
Algumas cinzas de cartas antigas
Lágrimas pelo tempo enxugadas
Nenhuma saudade das velhas brigas
Novos amores nas tuas pegadas
Restos da vida - tu já nem te ligas
Velhos amores são vidas passadas
Me atirei como um selvagem
Através de uma nova miragem
Eu recaio num velho dilema
Herdei da pouca coragem
A pena triste de não ser amado
Perdi os sonhos que deixei na margem
Só restam dores do meu passado
Algumas cinzas de cartas antigas
Lágrimas pelo tempo enxugadas
Nenhuma saudade das velhas brigas
Novos amores nas tuas pegadas
Restos da vida - tu já nem te ligas
Velhos amores são vidas passadas
1 037
Romulo Gouvêa
Abstração
Há determinados momentos
em que penso em você.
Passo o tempo, divago,
montando os teus pedaços.
Recorto lembranças,
brinco com peças
de fácil encaixe
que se misturam e se separam.
Logo que te resgato
perco o foco da visão.
Busco o teu cheiro
no canto das minhas unhas.
Uso teus beijos, apelos, mensagens
teus ditos, segredos, olhares.
Uso tua boca, teus olhos
num sorriso.
Em determinados momentos
há um pensamento em você.
O tempo passa, monto teu retrato
com este material abstrato.
em que penso em você.
Passo o tempo, divago,
montando os teus pedaços.
Recorto lembranças,
brinco com peças
de fácil encaixe
que se misturam e se separam.
Logo que te resgato
perco o foco da visão.
Busco o teu cheiro
no canto das minhas unhas.
Uso teus beijos, apelos, mensagens
teus ditos, segredos, olhares.
Uso tua boca, teus olhos
num sorriso.
Em determinados momentos
há um pensamento em você.
O tempo passa, monto teu retrato
com este material abstrato.
905
Paulo Augusto Rodrigues
Especial
Uma noite especial
Fica involuntáriamente
Guardada na memória
Do corpo e do coração.
Uma mulher especial
Fica voluntáriamente
Guardada na memória
Do corpo e do coração.
Minha verdade,
é fundade pela lembrança
De uma noite especial
Em que uma mulher especial
Levou meu corpo a quase loucura
E meu coração a quase paixão.
Fica involuntáriamente
Guardada na memória
Do corpo e do coração.
Uma mulher especial
Fica voluntáriamente
Guardada na memória
Do corpo e do coração.
Minha verdade,
é fundade pela lembrança
De uma noite especial
Em que uma mulher especial
Levou meu corpo a quase loucura
E meu coração a quase paixão.
791
Paulo Augusto Rodrigues
Choro
Revendo as mesmas velhas fotos,
Relendo as mesmas lindas cartas,
Revivendo cada instante,
Cada detalhe.
Alguém canta na vitrola
Aquelas músicas esquecidas.
Ingenuidade perdida.
Neste momento de tristeza
Lembranças são troncos na água,
Me salvando a vida.
Impedindo que me afogue,
Nas correntezas e abismos
Que sobressaem neste dia.
O peso vem de fora,
Mas a força para suportá-lo
Esgota energias interiores.
Já não sinto meus membros...
As recordações voam sobre minha cabeça,
Se vão a garra e o ardor.
O tronco se afasta mais e mais,
As águas me engolem com ânsia.
Afundo...
E sinto que lá no fundo,
Choro.
Relendo as mesmas lindas cartas,
Revivendo cada instante,
Cada detalhe.
Alguém canta na vitrola
Aquelas músicas esquecidas.
Ingenuidade perdida.
Neste momento de tristeza
Lembranças são troncos na água,
Me salvando a vida.
Impedindo que me afogue,
Nas correntezas e abismos
Que sobressaem neste dia.
O peso vem de fora,
Mas a força para suportá-lo
Esgota energias interiores.
Já não sinto meus membros...
As recordações voam sobre minha cabeça,
Se vão a garra e o ardor.
O tronco se afasta mais e mais,
As águas me engolem com ânsia.
Afundo...
E sinto que lá no fundo,
Choro.
861
Ricardo Moraes Ferreira
Soneto e Saudade
Jogai as flores com ternura
Sobre o jazigo de nosso passado
Amei-te com a inocente loucura
Daqueles que morrem sem ter pecado
Corri os verdes campos da esperança
Sob os olhos atentos do destino
De inocente - sorri quando criança
E de pirraça - fugi como um menino
Na fuga audaz passaram-se os anos
E a vida me volta num breve lampejo
Lamúrias cruéis de velhos enganos
Loucura fugaz de um novo desejo
Eu olho prá trás - cadê nossos planos?
As flores, o campo ; só tu que não vejo!
Sobre o jazigo de nosso passado
Amei-te com a inocente loucura
Daqueles que morrem sem ter pecado
Corri os verdes campos da esperança
Sob os olhos atentos do destino
De inocente - sorri quando criança
E de pirraça - fugi como um menino
Na fuga audaz passaram-se os anos
E a vida me volta num breve lampejo
Lamúrias cruéis de velhos enganos
Loucura fugaz de um novo desejo
Eu olho prá trás - cadê nossos planos?
As flores, o campo ; só tu que não vejo!
915
Romulo Gouvêa
Uma cena
Uma cena.
Não sei se tinha cenário
não me lembro de cenário.
Não sei se tinha música ao fundo
não me lembro de música alguma.
Não era um ato, era uma cena
sem tempo.
Uma cena que se imprimiu
na minha memória para sempre.
Como um retrato, uma pintura
um instante que parou no espaço.
Eu a olhava, ela me olhava.
A nossa imagem dentro do nosso olhar.
E os dois ângulos desta cena,
em retinas diferentes,
eu pude ter de repente
juntos num só lugar,
numa cena que se imprimiu
na minha memória para sempre,
a cena do nosso olhar.
Não sei se tinha cenário
não me lembro de cenário.
Não sei se tinha música ao fundo
não me lembro de música alguma.
Não era um ato, era uma cena
sem tempo.
Uma cena que se imprimiu
na minha memória para sempre.
Como um retrato, uma pintura
um instante que parou no espaço.
Eu a olhava, ela me olhava.
A nossa imagem dentro do nosso olhar.
E os dois ângulos desta cena,
em retinas diferentes,
eu pude ter de repente
juntos num só lugar,
numa cena que se imprimiu
na minha memória para sempre,
a cena do nosso olhar.
906
Ribeiro Couto
O Longe e o Perto
Logo que a noite envolve em sombras o jardim
Parece que um mistério estranho me rodeia,
Bocas de flores se entreabrem para mim,
E não sei de quem são estes passos na areia
Nem este murmurar de uma queixa sem fim.
Como a seiva da terra alimenta as raízes,
Uma seiva secreta enche meu coração.
Deve ser o tal "gosto amargo de infelizes",
Plantinha sempre verde entre as pedras do chão,
Cujo travo provei em todos os países.
Tudo que pude fiz para não ser assim,
Mas não posso esquecer o longe pelo perto;
Os que amei e perdi dormem dentro de mim;
A culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
Logo que a noite envolve em sombras o jardim.
Parece que um mistério estranho me rodeia,
Bocas de flores se entreabrem para mim,
E não sei de quem são estes passos na areia
Nem este murmurar de uma queixa sem fim.
Como a seiva da terra alimenta as raízes,
Uma seiva secreta enche meu coração.
Deve ser o tal "gosto amargo de infelizes",
Plantinha sempre verde entre as pedras do chão,
Cujo travo provei em todos os países.
Tudo que pude fiz para não ser assim,
Mas não posso esquecer o longe pelo perto;
Os que amei e perdi dormem dentro de mim;
A culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
Logo que a noite envolve em sombras o jardim.
1 393
Raniere Rodrigues dos Santos
Onde Estás?
Eu te amo,
Não sei se te amo.
Eu te desejo,
Não sei se te desejo.
Eu te conheço,
Não sei se te conheço.
Apenas sei que em algum momento
Estiveste perto de mim.
Isso demonstra o prcsente
E este talvez inexistente
Demonstra lembranças,
O passado, por sua vez, compensou,
Compensou meu coração inesquecivelmente.
Saudade, esta está
A te procurar
E vê que não há como encontrar
A não ser desencadear
E peregrinar
A procura
De onde estás.
Não sei se te amo.
Eu te desejo,
Não sei se te desejo.
Eu te conheço,
Não sei se te conheço.
Apenas sei que em algum momento
Estiveste perto de mim.
Isso demonstra o prcsente
E este talvez inexistente
Demonstra lembranças,
O passado, por sua vez, compensou,
Compensou meu coração inesquecivelmente.
Saudade, esta está
A te procurar
E vê que não há como encontrar
A não ser desencadear
E peregrinar
A procura
De onde estás.
856
Ribeiro Couto
Anjo de Outrora
O anjo de outrora, adormecido na minha alma,
Acordou esta noite e espiou nos meus olhos:
A lágrima caída ainda há pouco era dele.
Foi ele que a esqueceu à porta dos meus olhos,
Com o discreto pudor com que à porta da igreja
Deixamos cair a esmola na mão de um pobre.
Acordou esta noite e espiou nos meus olhos:
A lágrima caída ainda há pouco era dele.
Foi ele que a esqueceu à porta dos meus olhos,
Com o discreto pudor com que à porta da igreja
Deixamos cair a esmola na mão de um pobre.
1 146
Renata Trocoli
Sem Título
Sem Título
A saudade de teus meigos olhos a olhar-me com tanto amor
doe em meu peito com aguda tristeza, meu grande amor.
Tuas macias, delicadas e pequeninas mãos tocavam meu rosto
com tanto carinho e amor que não podia deixar-te
um minuto sem meus abraços e doces palavras de amor.
Quando sentávamos debaixo das estrelas nas noites mornas
da bela primavera da Pérsia, me abraçavas com tanto medo
e chorava baixinho escondendo teu lindo rostinho delicado em meu
peito, e me fazia jura-te amor eterno.
Este amor que jurei e sinto sempre por ti minha linda princesa.
Sinto saudades de tuas palavras e teu carinho ao ver-me zangado e
preocupado, e como me acalmava com teu belo olhar sobre o meu,
sorrindo com doçura e colocando minha cabeça em teus delicados
ombros para fazer com que a calma tomasse conta de meu coração.
Por tantos dias fiquei a admirar tua beleza
enquanto dormias um sono tranqüilo e
quantas vezes tocava teus lindos cabelos negros, macios e perfumados
sem ter vontade de fechar os olhos para não perder tão bela visão.
Quantas vezes ainda dormi cansado em teus pequeninos braços
sentindo cada vez mais um amor puro e leal por ti.
Me abraçavas com doce saudade e com lágrimas nos olhos
depois de dias de batalha sem ver-me.
E cuidava de mim com tanto carinho e me amava com tanta saudade
que meus dias pareciam um doce sonho que não poderia nunca ter fim.
O mais triste meu amor foi perder-te.
Foi perceber que teu amor não mais me envolveria o corpo,
que não mais teria tua presença a cuidar de mim
nas noites de cansaço após uma batalha.
Com uma linda e dolorosa promessa nos despedimos.
Tu me abraçaste chorosa e amedrontada,
e prometemos um amor eterno
por todos os lugares onde passássemos, aonde estivéssemos.
Hoje a saudade de teus doces olhinhos
a olhar-me com amor cegam meus dias.
Mas pelo menos ainda posso sentir teus perfume
e teus abraços a me envolver...
A saudade de teus meigos olhos a olhar-me com tanto amor
doe em meu peito com aguda tristeza, meu grande amor.
Tuas macias, delicadas e pequeninas mãos tocavam meu rosto
com tanto carinho e amor que não podia deixar-te
um minuto sem meus abraços e doces palavras de amor.
Quando sentávamos debaixo das estrelas nas noites mornas
da bela primavera da Pérsia, me abraçavas com tanto medo
e chorava baixinho escondendo teu lindo rostinho delicado em meu
peito, e me fazia jura-te amor eterno.
Este amor que jurei e sinto sempre por ti minha linda princesa.
Sinto saudades de tuas palavras e teu carinho ao ver-me zangado e
preocupado, e como me acalmava com teu belo olhar sobre o meu,
sorrindo com doçura e colocando minha cabeça em teus delicados
ombros para fazer com que a calma tomasse conta de meu coração.
Por tantos dias fiquei a admirar tua beleza
enquanto dormias um sono tranqüilo e
quantas vezes tocava teus lindos cabelos negros, macios e perfumados
sem ter vontade de fechar os olhos para não perder tão bela visão.
Quantas vezes ainda dormi cansado em teus pequeninos braços
sentindo cada vez mais um amor puro e leal por ti.
Me abraçavas com doce saudade e com lágrimas nos olhos
depois de dias de batalha sem ver-me.
E cuidava de mim com tanto carinho e me amava com tanta saudade
que meus dias pareciam um doce sonho que não poderia nunca ter fim.
O mais triste meu amor foi perder-te.
Foi perceber que teu amor não mais me envolveria o corpo,
que não mais teria tua presença a cuidar de mim
nas noites de cansaço após uma batalha.
Com uma linda e dolorosa promessa nos despedimos.
Tu me abraçaste chorosa e amedrontada,
e prometemos um amor eterno
por todos os lugares onde passássemos, aonde estivéssemos.
Hoje a saudade de teus doces olhinhos
a olhar-me com amor cegam meus dias.
Mas pelo menos ainda posso sentir teus perfume
e teus abraços a me envolver...
999
Ricardo Madeira
Para Mais Tarde Recordar
Falas com luz
Que acende, reluz,
E que o Sol inveja;
Olhas com pérolas
Que o Mar deseja...
Sou como sou,
Nada posso fazer,
Nada a não ser
Se calhar talvez
Dizer outra vez
Como amo e te amo.
Tal como eu,
Eu sou eu
(Assim como eu),
Somos iguais,
Todos diferentes
E todos iguais.
Perguntei,
Disseste que sim,
Eu concordei,
Num sonho sem fim
Até terminar...
Inferno ao céu!
Fogo ao mar!
Raios de prata,
Rasguem o ar!
Grito com o vento,
Agarro o momento,
Guardo-o cá dentro,
Para mais tarde recordar...
"Night Music,
It keeps spinning inside my head,
Night Music,
Its all the things you never said..."
— Dio
Que acende, reluz,
E que o Sol inveja;
Olhas com pérolas
Que o Mar deseja...
Sou como sou,
Nada posso fazer,
Nada a não ser
Se calhar talvez
Dizer outra vez
Como amo e te amo.
Tal como eu,
Eu sou eu
(Assim como eu),
Somos iguais,
Todos diferentes
E todos iguais.
Perguntei,
Disseste que sim,
Eu concordei,
Num sonho sem fim
Até terminar...
Inferno ao céu!
Fogo ao mar!
Raios de prata,
Rasguem o ar!
Grito com o vento,
Agarro o momento,
Guardo-o cá dentro,
Para mais tarde recordar...
"Night Music,
It keeps spinning inside my head,
Night Music,
Its all the things you never said..."
— Dio
964
Raimundo Correia
Saudade
Aqui outrora retumbaram hinos;
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos...
Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos...
Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;
E em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos...
Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos...
Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;
E em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...
1 852
Ricardo Madeira
Memórias Perdidas de Tempos Esquecidos
Tudo o que tenho para te recordar
Está a meu lado: o teu vazio lugar
Que ninguém parece poder ocupar.
Que alternativa existe, para além de morrer,
Quando a única razão que temos para viver
É exactamente aquela que tentamos esquecer?
E o mais belo sonho que podemos sonhar
(O teu sorriso... Os teus olhos a brilhar...)
É aquele que temos de matar e enterrar...
As memórias perdidas de tempos esquecidos
Saem das sombras, voltam para me assombrar,
São os ecos das palavras que não te pude dizer,
Todos os sonhos que geram pesadelos ao acordar.
Um corredor sem sentido, nenhuma porta se abre,
Uma vida sem destino, a fechadura recusa a chave.
"Vem muerte tan escondida,
Que no te sienta venir,
Porque el plazer del morrir
No me torne á dar la vida."
-Miguel De Cervantes
Está a meu lado: o teu vazio lugar
Que ninguém parece poder ocupar.
Que alternativa existe, para além de morrer,
Quando a única razão que temos para viver
É exactamente aquela que tentamos esquecer?
E o mais belo sonho que podemos sonhar
(O teu sorriso... Os teus olhos a brilhar...)
É aquele que temos de matar e enterrar...
As memórias perdidas de tempos esquecidos
Saem das sombras, voltam para me assombrar,
São os ecos das palavras que não te pude dizer,
Todos os sonhos que geram pesadelos ao acordar.
Um corredor sem sentido, nenhuma porta se abre,
Uma vida sem destino, a fechadura recusa a chave.
"Vem muerte tan escondida,
Que no te sienta venir,
Porque el plazer del morrir
No me torne á dar la vida."
-Miguel De Cervantes
1 046
Ribeiro Couto
Soneto da Fiel Infância
Tudo que em mim foi natural — pobreza,
Mágoas de infância só, casa vazia,
Lutos, e pouco pão na pouca mesa —
Dói na saudade mais que então doía.
Da lamparina do meu qarto, acesa
No pequeno oratório noite e dia,
Vinha-me a sensação de uma riqueza
Que no meu sangue de menino ardia.
Altas horas, rezando no seu canto,
Minha mãe muitas vezes soluçava
E dava-me a beijar não sei que santo.
Meu Deus! Mais do que o santo que eu beijava,
Faz-me falta o cair daquele pranto
Com que ela junto ao peito me molhava.
Mágoas de infância só, casa vazia,
Lutos, e pouco pão na pouca mesa —
Dói na saudade mais que então doía.
Da lamparina do meu qarto, acesa
No pequeno oratório noite e dia,
Vinha-me a sensação de uma riqueza
Que no meu sangue de menino ardia.
Altas horas, rezando no seu canto,
Minha mãe muitas vezes soluçava
E dava-me a beijar não sei que santo.
Meu Deus! Mais do que o santo que eu beijava,
Faz-me falta o cair daquele pranto
Com que ela junto ao peito me molhava.
1 715
Paulo Silva Ribeiro
Juras Secretas
Juras Secretas
Não te farei juras secretas,
Não lhe darei ilusões,
Não te amarei em vão,
Não te beijarei só para sentir o gosto de teus lábios,
Não debruçarei meu corpo sobre o teu, só para sentir o teu prazer,
Não serei enfim, aquele que só lhe diz sempre sim, mas
Serei aquele que te amou enfim...
Há tempos
Sou teu endereço esquecido,
Sou teu livro não mais lido,
Sou teu caderno em branco,
Sou teu espelho sem imagem,
Sou tuas lembranças apagadas,
Sou tua madrugada não desejada,
Sou afianl o que passou de passagem por ti
Nesta vida inacaba...
Não te farei juras secretas,
Não lhe darei ilusões,
Não te amarei em vão,
Não te beijarei só para sentir o gosto de teus lábios,
Não debruçarei meu corpo sobre o teu, só para sentir o teu prazer,
Não serei enfim, aquele que só lhe diz sempre sim, mas
Serei aquele que te amou enfim...
Há tempos
Sou teu endereço esquecido,
Sou teu livro não mais lido,
Sou teu caderno em branco,
Sou teu espelho sem imagem,
Sou tuas lembranças apagadas,
Sou tua madrugada não desejada,
Sou afianl o que passou de passagem por ti
Nesta vida inacaba...
1 078
Paulo Silva Ribeiro
Quando o Sol Chegar
Quando o Sol Chegar
Quando o sol chegar
Não se esqueça nunca desta noite,
Não deixe as flores sobre a mesa,
Não se arrependa das juras feitas,
Não maldiga a pessoa, mas apenas siga a vida...
Quando o sol chegar
Não arranque os beijos dados em sua boca,
Não apague da lembrança as imagens desta noite,
Não retire o meu perfume te tua pele...
Quando o sol chegar
Não se esqueça de voltar,
Não bata a porta,
Não vá chorar,
Não vá se maldizer,
Quando o sol chegar...
Quando o sol chegar
Não se esqueça nunca desta noite,
Não deixe as flores sobre a mesa,
Não se arrependa das juras feitas,
Não maldiga a pessoa, mas apenas siga a vida...
Quando o sol chegar
Não arranque os beijos dados em sua boca,
Não apague da lembrança as imagens desta noite,
Não retire o meu perfume te tua pele...
Quando o sol chegar
Não se esqueça de voltar,
Não bata a porta,
Não vá chorar,
Não vá se maldizer,
Quando o sol chegar...
829
Rosani Abou Adal
Lembranças
Lembro-me da Riviera Francesa,
das ruas do Boulevar,
dos bares, dos cafés,
das ruas e alamedas
por onde passamos.
Lembro-me de todos os lugares
onde estivemos,
dos momentos que sorrimos,
das palavras que soletramos,
dos teus olhos me fitando,
das tuas mãos me afagando
com cheiro de licor de café.
Lembro-me dos teus cabelos
repousando no meu ombro,
da tua pele que me hidratava,
do teu suor com gosto
de morangos silvestres.
Lembro-me do teu beijo calado
com vontade de quero mais.
Lembro-me de ti
sentado no banco do jardim
despindo-me com teu olhar.
das ruas do Boulevar,
dos bares, dos cafés,
das ruas e alamedas
por onde passamos.
Lembro-me de todos os lugares
onde estivemos,
dos momentos que sorrimos,
das palavras que soletramos,
dos teus olhos me fitando,
das tuas mãos me afagando
com cheiro de licor de café.
Lembro-me dos teus cabelos
repousando no meu ombro,
da tua pele que me hidratava,
do teu suor com gosto
de morangos silvestres.
Lembro-me do teu beijo calado
com vontade de quero mais.
Lembro-me de ti
sentado no banco do jardim
despindo-me com teu olhar.
1 016
Raul de Leoni
Ingratidão
Nunca mais me esqueci! ... Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.
Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...
Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,
Como aquela magnífica amendoeira,
Eflorescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.
Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...
Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,
Como aquela magnífica amendoeira,
Eflorescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...
6 449
Paulo Henrique Góes Souza
Reminiscência
Um dia, o vento não soprará
E tu chegarás das cinzas,
Tal como Fênix
Saindo do álbum de retratos
Onde moras,
Que se foi há tempo
Nas chamas da ilusão...
Um dia, quando tu fizeres parte de mim,
E eu puder te tocar,
E fazer de ti minha mulher,
Serei eu o homem
Mais feliz de toda a corte,
Acho mesmo que de todo o mundo,
Pois voltarei ao tempo
Onde o passado será o presente,
E colherei o lírio que não te dei
E o beijo que não te roubei!...
Temo acordar de repente
E perceber em que século estou
E o olhar para as muralhas do tempo,
Aprisionando-me ao limite da memória
Onde a plena percepção chega apenas
Em forma de intuição
Nas brechas profundamente marcadas
Em minha alma...
Padeço
Pela mera possibilidade do fechamento desta fenda,
Agoira cavada por mim,
Neste instante de consciência,
Pois, se assim o for,
Perder-me-ei no amor reminiscente,
E o brilho dos teus olhos não se fará presente
Aos meus,
E tudo emudecerá,
Pois não mais ouvirei tua voz...
E tu chegarás das cinzas,
Tal como Fênix
Saindo do álbum de retratos
Onde moras,
Que se foi há tempo
Nas chamas da ilusão...
Um dia, quando tu fizeres parte de mim,
E eu puder te tocar,
E fazer de ti minha mulher,
Serei eu o homem
Mais feliz de toda a corte,
Acho mesmo que de todo o mundo,
Pois voltarei ao tempo
Onde o passado será o presente,
E colherei o lírio que não te dei
E o beijo que não te roubei!...
Temo acordar de repente
E perceber em que século estou
E o olhar para as muralhas do tempo,
Aprisionando-me ao limite da memória
Onde a plena percepção chega apenas
Em forma de intuição
Nas brechas profundamente marcadas
Em minha alma...
Padeço
Pela mera possibilidade do fechamento desta fenda,
Agoira cavada por mim,
Neste instante de consciência,
Pois, se assim o for,
Perder-me-ei no amor reminiscente,
E o brilho dos teus olhos não se fará presente
Aos meus,
E tudo emudecerá,
Pois não mais ouvirei tua voz...
911
Paulo F. Cunha
Recifetebas
Deito-me ao lado de Jocasta
sem remorsos
purificado por esta Recifetebas
da esfinge Jomard decifrada.
O’meu poeta que - bem mais que
tantos Penas, Bandeiras e Cabrais
me chega, por Recifetebas,
ao coração silente.
Pois me ensinaste como, quando
e onde amar de vez e melhor,
a mulher - cidade Recifenda
Há tanto abandonada, vilipendiada
com a metade má do amoródio
e , finalmente,(re)visitada
(re)conquistada, (re)morada.
Ah! Este reencontro com as ruas
da União, Concórdia, Creoulas, Sossego
Ah! O reencontro com o gosto da comida
e com o gosto do desgosto da chupada
da puta Rita, na praia, entre cinco dividida.
Obrigado meu poeta por decifrar-te
e ser Édipo sem remorso e sem cegueira
Comendo mangues, marés , coqueiros
desta sonhada cidade Recifetebas.
sem remorsos
purificado por esta Recifetebas
da esfinge Jomard decifrada.
O’meu poeta que - bem mais que
tantos Penas, Bandeiras e Cabrais
me chega, por Recifetebas,
ao coração silente.
Pois me ensinaste como, quando
e onde amar de vez e melhor,
a mulher - cidade Recifenda
Há tanto abandonada, vilipendiada
com a metade má do amoródio
e , finalmente,(re)visitada
(re)conquistada, (re)morada.
Ah! Este reencontro com as ruas
da União, Concórdia, Creoulas, Sossego
Ah! O reencontro com o gosto da comida
e com o gosto do desgosto da chupada
da puta Rita, na praia, entre cinco dividida.
Obrigado meu poeta por decifrar-te
e ser Édipo sem remorso e sem cegueira
Comendo mangues, marés , coqueiros
desta sonhada cidade Recifetebas.
762
Paula Nei
Trança
Esta santa relíquia imaculada
Do teu saudoso amor, esta lembrança
Da vida, que fugiu arrebatada,
Ligeira, como um sonho de criança.
Nas noites do meu sono de bonança
Eu guardo, junto a mim, ah! noiva amada,
Enquanto minha vista não se cansa
De vê-la, de adorá-la, extasiada...
Com o fio desta trança tão escura,
Tão negra, sim, que até minha amargura
Invejara-lhe a cor, e tão macia,
Qual pétala de rosa, eu teço, à noite,
Da viração sentindo o brando açoite,
O epitáfio de minha campa fria.
Do teu saudoso amor, esta lembrança
Da vida, que fugiu arrebatada,
Ligeira, como um sonho de criança.
Nas noites do meu sono de bonança
Eu guardo, junto a mim, ah! noiva amada,
Enquanto minha vista não se cansa
De vê-la, de adorá-la, extasiada...
Com o fio desta trança tão escura,
Tão negra, sim, que até minha amargura
Invejara-lhe a cor, e tão macia,
Qual pétala de rosa, eu teço, à noite,
Da viração sentindo o brando açoite,
O epitáfio de minha campa fria.
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