Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Mario Ribeiro Martins
Os Idos
Quando nos tempos idos, mas lembrados,
meu coração fervia nas paixões,
os meus versos riquíssimos, amados,
eram versos de amor, de corações.
Mas hoje são meus versos repassados,
de tristezas, misérias, ilusões.
Meus dias de velhice, desfibrados,
não me trazem senão recordações.
A musa me fugiu do coração
e a dor se apoderou da minha vida:
SÓ FAÇO VERSOS TRISTES NESTA LIDA.
Muitos lerão meus versos e dirão,
e dirão para todos, com certeza:
ESTE VATE FOI FILHO DA TRISTEZA.
meu coração fervia nas paixões,
os meus versos riquíssimos, amados,
eram versos de amor, de corações.
Mas hoje são meus versos repassados,
de tristezas, misérias, ilusões.
Meus dias de velhice, desfibrados,
não me trazem senão recordações.
A musa me fugiu do coração
e a dor se apoderou da minha vida:
SÓ FAÇO VERSOS TRISTES NESTA LIDA.
Muitos lerão meus versos e dirão,
e dirão para todos, com certeza:
ESTE VATE FOI FILHO DA TRISTEZA.
1 096
Mário Simões
Corpos e Almas
Oh, Se eu pudesse esquecer,
Do que já vi e volto a ver,
E que também nunca soubesse,
Do que me lembra e não me esquece!
E já que outra não posso ter,
Só tenho olhos para te ver.
O meu grito embriagado,
Cantou bem alto por todo lado,
Cerrados meus lábios, recordam,
O ar que atrofia os que choram,
O vento húmido escondeu o meu destino,
Minhas coisas de enlevo e de menino,
Nem um sonho palpável eu vejo
Para dissipar os braços do desejo.
Para quebrar os delírios minha alma canta,
À peganhenta calma que mata,
Última lembrança do segredo,
Lembrando-me que esta luz sumida,
É o subir a baixar a vida.
O negrume do céu que baixa e clama,
Aos jardins para lhes regar a chama,
O mundo novo nos espera um só aceno,
As vozes de rebate entram em combate ameno.
E o grito audaz da revolta,
É o espirito sereno que solta.
Os rouxinóis enlevados na saudade,
Que se quedem no desleixo da obscuridade,
Felizes, desgraçadas, e sem idade!....
(In livro Culpas Mortais)
Do que já vi e volto a ver,
E que também nunca soubesse,
Do que me lembra e não me esquece!
E já que outra não posso ter,
Só tenho olhos para te ver.
O meu grito embriagado,
Cantou bem alto por todo lado,
Cerrados meus lábios, recordam,
O ar que atrofia os que choram,
O vento húmido escondeu o meu destino,
Minhas coisas de enlevo e de menino,
Nem um sonho palpável eu vejo
Para dissipar os braços do desejo.
Para quebrar os delírios minha alma canta,
À peganhenta calma que mata,
Última lembrança do segredo,
Lembrando-me que esta luz sumida,
É o subir a baixar a vida.
O negrume do céu que baixa e clama,
Aos jardins para lhes regar a chama,
O mundo novo nos espera um só aceno,
As vozes de rebate entram em combate ameno.
E o grito audaz da revolta,
É o espirito sereno que solta.
Os rouxinóis enlevados na saudade,
Que se quedem no desleixo da obscuridade,
Felizes, desgraçadas, e sem idade!....
(In livro Culpas Mortais)
781
Gerardo Mello Mourão
Olho com olho
Olho com olho
tua pupila dura
sobre
a beleza feroz de tua boca
acompanhou meu canto — e não sei
se pouco a pouco ou de repente
começaram a nascer em tua pele
umas flores azuis — e brotaram
em teu rosto e invadiram
tua cabeça e cobriam
teus olhos e teus lábios e cresciam
em tufos nas orelhas e se abriam sobre
as narinas e a nuca e o seio e as pernas
e formavam uma
touceira de madressilvas onde
eram antes os ásperos pentelhos
e os beija-flores e as abelhas acendiam
a tesoura de suas asas fulgurantes
e sorviam o mel em teu semblante
rosa — margarida — violeta
e eu disse em vão teu nome — pois
as corolas cambiavam de cor à minha voz
Açucena e Magnólia
e às vezes
te desabrochavam da cútis
milhões de miosótis multicores — e outras —
eras toda um girassol de ouro — pois
de tua pele estão nascendo flores — de tuas
virilhas o antúrio vive — e um dia
de teu hálito à tua voz
se irão compondo nos lábios os gerânios
rosas-moiras e grinaldas.
de lavanda silvestre — e ao teu aroma
brotarão de meus dedos e de meu umbigo
e do sexo farejante
narinas insaciadas
Pois começaram a me nascer narizes
por todo o corpo e me passeias
os pulmões
e aspiro
e inspiro
tua presença odorífera — e a doçura
do orvalho orvalha
agora as violetas onde
fora a dura pupila de ouro
Também contemplo as tuas dimensões
pois ás vezes também me nascem, Godo,
dois miserandos olhos sobre a nuca
e quando
pergunto o meu futuro responde o meu passado
e quando
contemplo o meu passado vejo o meu futuro — e assim
caminho e sou
eu mesmo a minha própria órbita
mísero misérrimo vazio
e cheio de misericórdia
misericordioso pranto cerca os horizontes
e arrastando-me na areia
arrasto um Deus pelos cabelos e interpelo
Apolo, Apolo mostra
ao cego iluminado onde
o passado começa e o futuro termina
pois
o mísero poeta prisioneiro
nem de seu passado nem de seu futuro se liberta
e em vão
vê o cesto das horas
encher-se em vão da água de seus dias
Uma noite a rapariga de Serajevo apontou-me os Balkãs
e por vinte dinars começou a ler a minha mão
esquerda ao pé
de um poste sob a lua
de repente calou-se e passou a ler em silencio
— ou rezava talvez —
e começou a chorar — e as lágrimas
caíam de seus olhos ciganos
e o pranto vinha de longínquos países
e ela banhava com ele a minha mão Perplexa
e beijava e enxugava em seus cabelos
e eu não sei de outra palavra senão
a que naufragou em sua pupila e se despedaçou
em seu soluço quando
o cálamo vivo de seu dedo se erguia
do mapa de minha palma e apontava no ar
não sei se as serras dos Balkãs
não sei se as serras da Lua
não sei se os montes de Vênus
ou. as estrelas
de Capricórnio
E assim, amor,
em teus olhos transidos tenho lido
a estrofe e a catástrofe
de minha peripécia:
velhas terras me envenenam os pés
sobre o fio dos passos me devolvo
del mezzo del cammin e não me perco
na selva escura onde, Ariadne,
o chão musgoso guarda
a memória sábia do caminho
me Venerem quarente
per talos et paludes:
pela planta dos pés me envenenaram
esses doces venenos e rorejo
dos poros o suor deste mel — e das pupilas
oh dulce lacrymarum donum in quo salus
salus mundi salutat — pois Apolo
Apolo pai, Apolo filho, Apolo pneuma
caminha só entre as estrelas
nos outubros salubres do país.
tua pupila dura
sobre
a beleza feroz de tua boca
acompanhou meu canto — e não sei
se pouco a pouco ou de repente
começaram a nascer em tua pele
umas flores azuis — e brotaram
em teu rosto e invadiram
tua cabeça e cobriam
teus olhos e teus lábios e cresciam
em tufos nas orelhas e se abriam sobre
as narinas e a nuca e o seio e as pernas
e formavam uma
touceira de madressilvas onde
eram antes os ásperos pentelhos
e os beija-flores e as abelhas acendiam
a tesoura de suas asas fulgurantes
e sorviam o mel em teu semblante
rosa — margarida — violeta
e eu disse em vão teu nome — pois
as corolas cambiavam de cor à minha voz
Açucena e Magnólia
e às vezes
te desabrochavam da cútis
milhões de miosótis multicores — e outras —
eras toda um girassol de ouro — pois
de tua pele estão nascendo flores — de tuas
virilhas o antúrio vive — e um dia
de teu hálito à tua voz
se irão compondo nos lábios os gerânios
rosas-moiras e grinaldas.
de lavanda silvestre — e ao teu aroma
brotarão de meus dedos e de meu umbigo
e do sexo farejante
narinas insaciadas
Pois começaram a me nascer narizes
por todo o corpo e me passeias
os pulmões
e aspiro
e inspiro
tua presença odorífera — e a doçura
do orvalho orvalha
agora as violetas onde
fora a dura pupila de ouro
Também contemplo as tuas dimensões
pois ás vezes também me nascem, Godo,
dois miserandos olhos sobre a nuca
e quando
pergunto o meu futuro responde o meu passado
e quando
contemplo o meu passado vejo o meu futuro — e assim
caminho e sou
eu mesmo a minha própria órbita
mísero misérrimo vazio
e cheio de misericórdia
misericordioso pranto cerca os horizontes
e arrastando-me na areia
arrasto um Deus pelos cabelos e interpelo
Apolo, Apolo mostra
ao cego iluminado onde
o passado começa e o futuro termina
pois
o mísero poeta prisioneiro
nem de seu passado nem de seu futuro se liberta
e em vão
vê o cesto das horas
encher-se em vão da água de seus dias
Uma noite a rapariga de Serajevo apontou-me os Balkãs
e por vinte dinars começou a ler a minha mão
esquerda ao pé
de um poste sob a lua
de repente calou-se e passou a ler em silencio
— ou rezava talvez —
e começou a chorar — e as lágrimas
caíam de seus olhos ciganos
e o pranto vinha de longínquos países
e ela banhava com ele a minha mão Perplexa
e beijava e enxugava em seus cabelos
e eu não sei de outra palavra senão
a que naufragou em sua pupila e se despedaçou
em seu soluço quando
o cálamo vivo de seu dedo se erguia
do mapa de minha palma e apontava no ar
não sei se as serras dos Balkãs
não sei se as serras da Lua
não sei se os montes de Vênus
ou. as estrelas
de Capricórnio
E assim, amor,
em teus olhos transidos tenho lido
a estrofe e a catástrofe
de minha peripécia:
velhas terras me envenenam os pés
sobre o fio dos passos me devolvo
del mezzo del cammin e não me perco
na selva escura onde, Ariadne,
o chão musgoso guarda
a memória sábia do caminho
me Venerem quarente
per talos et paludes:
pela planta dos pés me envenenaram
esses doces venenos e rorejo
dos poros o suor deste mel — e das pupilas
oh dulce lacrymarum donum in quo salus
salus mundi salutat — pois Apolo
Apolo pai, Apolo filho, Apolo pneuma
caminha só entre as estrelas
nos outubros salubres do país.
1 211
Gerardo Mello Mourão
Jà vou atravessando a província formosa e a Musa
Jà vou atravessando a província formosa e a Musa
é contígua aos países longínquos:
o prisioneiro é aquele que era livre
o morto o que era vivo
entre o cão e o cano linheiro da espingarda o caçador
alinha o olho sagaz
e a narceja selvagem tomba do azul do céu a asa pendida
de seu fio de sangue — e sempre
por um fio de sangue
Eleutheria
Ariadne convulsa a liberdade encontra
o caminho da morte
— poeta solus poeta tantum —
só o poeta pranteia
sua bela narceja derrubada
na paisagem lacustre:
maldito seja o estampido maldita
seja a mão que afaga o gatilho e a pupila
que endurece à pontaria
maldita seja quando o tiro
quebra as asas aflitas e ao peso
da descarga de chumbo a flor alada
se rebenta no chão e cai
come corpo morto cade
Já peregrinei essas províncias formosas
vi a lua romena sobre os Kárpatos
e as colinas dos Kárpatos onde
os monjes serenos de Sinaia e o pátio
de seu mosteiro sobre
vales e colinas da Transilvânia montada
em sua cítara de nuvens — vi a lua
e a branca mão de Artemis sempre virgem
caçadora de estrelas
fere a noite
no firmamento azul a seta sagrada e pulsa
o coração da luz:
ali quem sabe, Apolo,
para teu rastro um rastro
pois tu mesmo
foras talvez apenas
o buscador de teu próprio rastro
pousam primeiro os olhos no caminho
e ali onde pousaram
pisam os pés nas pupilas onde
ao chão da relva virgem se sugere
o rastro que virá:
e assim andei a Dácia e a Trácia
e o Ponto Euxino e na montanha búlgara
à chama crepitante desse rastro
arderam calcanhares — e o vento
desmanchou em cinza a pulcra perna varonil:
não já sobre teu pé — sobre teu rastro
se lança o corpo divino
as estrelas desabrochavam da terra, Jonathan,
e os firmamentos caíam dentro de um
oceano de jardins:
pois consultei as rosas de outono da Bulgária
e os cravos de Istambul e naveguei
o Bósforo o Mar Negro e o Mar de Mármara
esse Ponto Euxino onde Ovídio
Publius Ovidius Naso poeta fuit — e velejei
as costas da Dardânia onde foi Troia onde
Heitor domava os cavalos e onde
a corda de tua lira regia a lança
do mais doce dos homens
— do guerreiro puro —
Naveguei o Adriático e o Tirreno
o Egeu e o Mar da Jônia e o Atlântico e o Pacífico
e as ilhas e as antilhas
e o mar do Caribe e o Mar do Norte e o Mar
Mediterrâneo e o meio das terras
e as terras ignotas e as terras filiorum dei
e cavalguei o lombo do Ontário o São Lourenço
e o Amazonas e o São Francisco e o Mississipi
e o Paraguai e o Paraná e o Prata
e as cataratas e os outros lagos e os outros rios
o Danúbio e o Tibre o Jaguaribe e o Sena
e o Pó e a ribeira do Arno por onde
caminhava o poeta e o Reno e o Meno por onde
cantava o demente divino e o Tejo de onde
celebrava Camões as caravelas rumo
aos mares nunca dantes navegados e às ilhas
nunca depois reencontradas onde
as ninfas se entregavam aos guerreiros
enumero os caminhos — e seus nomes celebram
a viagem aos tempos matinais
pois navego
a matina dos tempos onde apenas
o som da lira e os cabelos de Melpômene vestiam
a glória fálica de teu corpo nu
na escritura do chão a memória de meus pés
das serras do Ceará Grande e Mel Redondo
às serras de mel do Himeto — pois pisei
a água e o solo
e não pisei a flor o anjo a oliva
nem os filhos dos homens e odiei
os lugares do ódio e os lugares do sangue
sobre o chão dos algozes me cravei de espinhos
e busco
os caminhos do amor
Esta é a memória de meus pés por onde
a liberdade peregrina
— por onde
as columbas arrulham a paz por onde
os adolescentes colhem
as belas raparigas que adormecem nuas
— por onde
corre o vinho alegre
e os homens
e os deuses
bebem no mesmo copo à saúde dos pássaros
das colinas dos lagos e das árvores
das cidades das ruas — à saúde
dos circunstantes e dos transeuntes:
Até breve, Apolo.
é contígua aos países longínquos:
o prisioneiro é aquele que era livre
o morto o que era vivo
entre o cão e o cano linheiro da espingarda o caçador
alinha o olho sagaz
e a narceja selvagem tomba do azul do céu a asa pendida
de seu fio de sangue — e sempre
por um fio de sangue
Eleutheria
Ariadne convulsa a liberdade encontra
o caminho da morte
— poeta solus poeta tantum —
só o poeta pranteia
sua bela narceja derrubada
na paisagem lacustre:
maldito seja o estampido maldita
seja a mão que afaga o gatilho e a pupila
que endurece à pontaria
maldita seja quando o tiro
quebra as asas aflitas e ao peso
da descarga de chumbo a flor alada
se rebenta no chão e cai
come corpo morto cade
Já peregrinei essas províncias formosas
vi a lua romena sobre os Kárpatos
e as colinas dos Kárpatos onde
os monjes serenos de Sinaia e o pátio
de seu mosteiro sobre
vales e colinas da Transilvânia montada
em sua cítara de nuvens — vi a lua
e a branca mão de Artemis sempre virgem
caçadora de estrelas
fere a noite
no firmamento azul a seta sagrada e pulsa
o coração da luz:
ali quem sabe, Apolo,
para teu rastro um rastro
pois tu mesmo
foras talvez apenas
o buscador de teu próprio rastro
pousam primeiro os olhos no caminho
e ali onde pousaram
pisam os pés nas pupilas onde
ao chão da relva virgem se sugere
o rastro que virá:
e assim andei a Dácia e a Trácia
e o Ponto Euxino e na montanha búlgara
à chama crepitante desse rastro
arderam calcanhares — e o vento
desmanchou em cinza a pulcra perna varonil:
não já sobre teu pé — sobre teu rastro
se lança o corpo divino
as estrelas desabrochavam da terra, Jonathan,
e os firmamentos caíam dentro de um
oceano de jardins:
pois consultei as rosas de outono da Bulgária
e os cravos de Istambul e naveguei
o Bósforo o Mar Negro e o Mar de Mármara
esse Ponto Euxino onde Ovídio
Publius Ovidius Naso poeta fuit — e velejei
as costas da Dardânia onde foi Troia onde
Heitor domava os cavalos e onde
a corda de tua lira regia a lança
do mais doce dos homens
— do guerreiro puro —
Naveguei o Adriático e o Tirreno
o Egeu e o Mar da Jônia e o Atlântico e o Pacífico
e as ilhas e as antilhas
e o mar do Caribe e o Mar do Norte e o Mar
Mediterrâneo e o meio das terras
e as terras ignotas e as terras filiorum dei
e cavalguei o lombo do Ontário o São Lourenço
e o Amazonas e o São Francisco e o Mississipi
e o Paraguai e o Paraná e o Prata
e as cataratas e os outros lagos e os outros rios
o Danúbio e o Tibre o Jaguaribe e o Sena
e o Pó e a ribeira do Arno por onde
caminhava o poeta e o Reno e o Meno por onde
cantava o demente divino e o Tejo de onde
celebrava Camões as caravelas rumo
aos mares nunca dantes navegados e às ilhas
nunca depois reencontradas onde
as ninfas se entregavam aos guerreiros
enumero os caminhos — e seus nomes celebram
a viagem aos tempos matinais
pois navego
a matina dos tempos onde apenas
o som da lira e os cabelos de Melpômene vestiam
a glória fálica de teu corpo nu
na escritura do chão a memória de meus pés
das serras do Ceará Grande e Mel Redondo
às serras de mel do Himeto — pois pisei
a água e o solo
e não pisei a flor o anjo a oliva
nem os filhos dos homens e odiei
os lugares do ódio e os lugares do sangue
sobre o chão dos algozes me cravei de espinhos
e busco
os caminhos do amor
Esta é a memória de meus pés por onde
a liberdade peregrina
— por onde
as columbas arrulham a paz por onde
os adolescentes colhem
as belas raparigas que adormecem nuas
— por onde
corre o vinho alegre
e os homens
e os deuses
bebem no mesmo copo à saúde dos pássaros
das colinas dos lagos e das árvores
das cidades das ruas — à saúde
dos circunstantes e dos transeuntes:
Até breve, Apolo.
1 007
Gerardo Mello Mourão
Raul Young, capitão de longo curso, Godo,
Raul Young, capitão de longo curso, Godo,
vai marinhando um barco de cedro por Buenos Aires
ao vento fluvial — e alí
inaugurei o Paraná e o pampa
e os adolescentes se repetiram
no Richmond de Florida onde um dia
o espaço suplicou a forma de teu corpo:
Joana
Joana de Aragão
— te chamamos —
e acenaste um sorriso entre os cristais
e ali ainda agora
estão os teus cabelos governando o vento
pois para sempre
estarás onde estiveste: — viaja
a estrela imóvel
todos os céus
do capitão de longo curso
Trinta anos chorava o poeta a mesma lágrima
no bar do Richmond de Florida:
muitas vezes te encontrei e uma vez
te alongavas entre as mesas do bar
e crescias e recolhias
o bandoneon de teu corpo:
sobre esta mesa embaralho
os naipes do tempo e preciso
de muitos tempos no espaço desta mesa — de muitos
espaços antigos e futuros
para tuas chegadas e partidas
outra vez tua beleza
era uma lança fulgurante
de Belgrano a Corrientes:
janta Leopoldo Marechal com Juan Domingo entre choférs
no restaurante de La Boca:
por la cabeza de los dirigentes
ou
con la cabeza de los dirigentes
salta Güemes
de su tierra salteña
los gauchos degolladores
— e te lembras? —
Carbajal
servia numa terrina de prata
a cabeça sangrenta do capitão
e as taças
espumavam à saúde
vinho ou sangue
pois tênsil é o dia
e trazes o arco tenso e a lira
de cordas tensas e buscar-te
é desferir a flecha e desferir o som
por teus signos teus rastros caminhamos
caçadores da vida caçadores da morte caçadores do amor
e assim se caça a liberdade e assim recolho
em batalhas de amor campos de plumas, dom Luís,
a rosa por botim —
e ou vinho ou sangue
à saúde, Apolo.
vai marinhando um barco de cedro por Buenos Aires
ao vento fluvial — e alí
inaugurei o Paraná e o pampa
e os adolescentes se repetiram
no Richmond de Florida onde um dia
o espaço suplicou a forma de teu corpo:
Joana
Joana de Aragão
— te chamamos —
e acenaste um sorriso entre os cristais
e ali ainda agora
estão os teus cabelos governando o vento
pois para sempre
estarás onde estiveste: — viaja
a estrela imóvel
todos os céus
do capitão de longo curso
Trinta anos chorava o poeta a mesma lágrima
no bar do Richmond de Florida:
muitas vezes te encontrei e uma vez
te alongavas entre as mesas do bar
e crescias e recolhias
o bandoneon de teu corpo:
sobre esta mesa embaralho
os naipes do tempo e preciso
de muitos tempos no espaço desta mesa — de muitos
espaços antigos e futuros
para tuas chegadas e partidas
outra vez tua beleza
era uma lança fulgurante
de Belgrano a Corrientes:
janta Leopoldo Marechal com Juan Domingo entre choférs
no restaurante de La Boca:
por la cabeza de los dirigentes
ou
con la cabeza de los dirigentes
salta Güemes
de su tierra salteña
los gauchos degolladores
— e te lembras? —
Carbajal
servia numa terrina de prata
a cabeça sangrenta do capitão
e as taças
espumavam à saúde
vinho ou sangue
pois tênsil é o dia
e trazes o arco tenso e a lira
de cordas tensas e buscar-te
é desferir a flecha e desferir o som
por teus signos teus rastros caminhamos
caçadores da vida caçadores da morte caçadores do amor
e assim se caça a liberdade e assim recolho
em batalhas de amor campos de plumas, dom Luís,
a rosa por botim —
e ou vinho ou sangue
à saúde, Apolo.
928
Moreira Campos
Insubmissos e lmponderáveis
Onde as vozes, os gestos e as sombras
que encheram estas paredes?
Os pés que pisaram estas lajes
(tijolos de ladrilho)?
Revejo tudo.
O vulto grande de meu pai, já na porta:
— Vou indo, Adélia.
O ovo de madeira com que minha mãe cerzia meias.
Os meus carretéis de brinquedo.
A modinha
de Mundinha
na cozinha.
Os esquisitos santos de minha avó,
seu oratório e palhas bentas, seus esquecimentos:
— Menino, o Tiago ainda não voltou!
(Meu avô Tiago, morto havia dez anos).
Um dia os homens vieram
com muito alarido e grandes latas de cal.
Caiaram tudo.
Revolveram o piso.
Só não puderam cobrir e revolver aquelas vozes,
aqueles gestos,
aquelas sombras,
aqueles passos.
Insubmissos e imponderáveis.
que encheram estas paredes?
Os pés que pisaram estas lajes
(tijolos de ladrilho)?
Revejo tudo.
O vulto grande de meu pai, já na porta:
— Vou indo, Adélia.
O ovo de madeira com que minha mãe cerzia meias.
Os meus carretéis de brinquedo.
A modinha
de Mundinha
na cozinha.
Os esquisitos santos de minha avó,
seu oratório e palhas bentas, seus esquecimentos:
— Menino, o Tiago ainda não voltou!
(Meu avô Tiago, morto havia dez anos).
Um dia os homens vieram
com muito alarido e grandes latas de cal.
Caiaram tudo.
Revolveram o piso.
Só não puderam cobrir e revolver aquelas vozes,
aqueles gestos,
aquelas sombras,
aqueles passos.
Insubmissos e imponderáveis.
1 120
Gerardo Mello Mourão
O Capitão me olhou no fundo da rede
O Capitão me olhou no fundo da rede — contam —
foi ao cartório de Manuel Guilhermino e disse:
— "Compadre, registre meu neto na folha número um de seu livro,
mande comprar um livro novo,
vai ser o maior homem das Ipueiras
tenho cinco terças de prata e ele vai estudar na Europa".
Depois, veio a seca do dezenove e o Capitão, que se salvara no quinze,
mandando o gado para o Piauí
viu morrerem seus últimos garrotes, secarem suas últimas canas
noblesse oblige — a honra dos senhores — trabalho é coisa de escravos
a honra dos senhores e o futuro dos netos se guardava
testemunha Cynobelino
na barriga das novilhas e na garapa da cana caiana
e o Capitão, deitado em sua rede de varandas azuis e brancas
— rede do Acarati —
comeu com dignidade as cinco terças de prata e
o neto não foi estudar na Europa
e um dia à beira
da límpida cacimba à ribanceira de seu rio
perfumava o corpo trigueiro com as folhas do mofumbo à sombra
das oiticicas e pendiam sobre
sua boca primitiva
dois seios brancos entre axilas de ouro
dois olhos verdes em seus olhos mergulhados
e sua voz ariana murmurava:
"venho estudar no espanto de teus olhos
na pureza de tua fronte na dor
de tua face na alegria
de teu sexo ingênuo
e na Ásia e na África e na América
do fervor de teu sangue o sangue que te dei." E eram
talismã e tônico e retorno
à adolescência e à rosa de teu ventre.
foi ao cartório de Manuel Guilhermino e disse:
— "Compadre, registre meu neto na folha número um de seu livro,
mande comprar um livro novo,
vai ser o maior homem das Ipueiras
tenho cinco terças de prata e ele vai estudar na Europa".
Depois, veio a seca do dezenove e o Capitão, que se salvara no quinze,
mandando o gado para o Piauí
viu morrerem seus últimos garrotes, secarem suas últimas canas
noblesse oblige — a honra dos senhores — trabalho é coisa de escravos
a honra dos senhores e o futuro dos netos se guardava
testemunha Cynobelino
na barriga das novilhas e na garapa da cana caiana
e o Capitão, deitado em sua rede de varandas azuis e brancas
— rede do Acarati —
comeu com dignidade as cinco terças de prata e
o neto não foi estudar na Europa
e um dia à beira
da límpida cacimba à ribanceira de seu rio
perfumava o corpo trigueiro com as folhas do mofumbo à sombra
das oiticicas e pendiam sobre
sua boca primitiva
dois seios brancos entre axilas de ouro
dois olhos verdes em seus olhos mergulhados
e sua voz ariana murmurava:
"venho estudar no espanto de teus olhos
na pureza de tua fronte na dor
de tua face na alegria
de teu sexo ingênuo
e na Ásia e na África e na América
do fervor de teu sangue o sangue que te dei." E eram
talismã e tônico e retorno
à adolescência e à rosa de teu ventre.
903
Gerardo Mello Mourão
Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros
Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros
naquele tempo
mas nunca deixamos nossos mortos insepultos
insepultos eram os temerários
que ousaram nossa terra e nosso punho.
O Padre Martiniano de Alencar, pai de José de Alencar, governava a província
in illo tempore
a província era governada por um padre endemoniado, adúltero, covarde e por covarde
invejoso dos bravos que troavam livremente o clavinote pelos pés-de-serra dos Mourões
do pé-da-serra
e emprenhavam suas fêmeas ao ar livre
e eram fortes e belos e bons.
Este papel amarelo é uma carta de seu tetravô: encomenda doze caixas de vinho
francês outras doze de cognac de la ville de Cognac
para a fartura de sua mesa de caitetus, marrecos e veados e atas
maduras graviolas silvestres, cajás, cajus, melancias e ananazes no país dos Mourões
e biscoitos de Jacobs, London,
para as mulheres de sua casa
e por essas fidalguias
o biltre do Alencar decreta:
seja afogado em sangue o país dos Mourões.
Meus engenhos foram queimados
queimados vivos os garrotes de meus currais
ainda hoje nossas terras cheiram
a carne assada a mel queimado
à la viande flambée
não se afogam na água os surubins
no sangue não se afoga a raça dos Mourões
alimento do amor e da bravura
deste vinho se nutre o coração dos puros
deste vinho venho vindo e vejo a vida
e busco sua uva e te chamo de novo
vem, formosa mulher, camélia pálida
que banharam de luz as alvoradas
vem com teus olhos verdes desvairados
ensinar o caminho das uvas
o fervor destas veias quer mais vinho
minha raça é a dos embriagados
minha profissão, meu estado civil: bêbado
residência não tenho: bebo, bêbado, exilado
do país dos Mourões
conspiro a volta e conspiro o Anschlusz
de todas as terras à Capitania de meu avô à sesmaria
de meu país
de Ipueiras a Stocolmo e de Palmares de Pernambuco à ilha grega
essas terras são minhas
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto
e vou lavrando a escritura de meu canto
e lavrando o tempo e o cedro de uma noite e de uma cama.
naquele tempo
mas nunca deixamos nossos mortos insepultos
insepultos eram os temerários
que ousaram nossa terra e nosso punho.
O Padre Martiniano de Alencar, pai de José de Alencar, governava a província
in illo tempore
a província era governada por um padre endemoniado, adúltero, covarde e por covarde
invejoso dos bravos que troavam livremente o clavinote pelos pés-de-serra dos Mourões
do pé-da-serra
e emprenhavam suas fêmeas ao ar livre
e eram fortes e belos e bons.
Este papel amarelo é uma carta de seu tetravô: encomenda doze caixas de vinho
francês outras doze de cognac de la ville de Cognac
para a fartura de sua mesa de caitetus, marrecos e veados e atas
maduras graviolas silvestres, cajás, cajus, melancias e ananazes no país dos Mourões
e biscoitos de Jacobs, London,
para as mulheres de sua casa
e por essas fidalguias
o biltre do Alencar decreta:
seja afogado em sangue o país dos Mourões.
Meus engenhos foram queimados
queimados vivos os garrotes de meus currais
ainda hoje nossas terras cheiram
a carne assada a mel queimado
à la viande flambée
não se afogam na água os surubins
no sangue não se afoga a raça dos Mourões
alimento do amor e da bravura
deste vinho se nutre o coração dos puros
deste vinho venho vindo e vejo a vida
e busco sua uva e te chamo de novo
vem, formosa mulher, camélia pálida
que banharam de luz as alvoradas
vem com teus olhos verdes desvairados
ensinar o caminho das uvas
o fervor destas veias quer mais vinho
minha raça é a dos embriagados
minha profissão, meu estado civil: bêbado
residência não tenho: bebo, bêbado, exilado
do país dos Mourões
conspiro a volta e conspiro o Anschlusz
de todas as terras à Capitania de meu avô à sesmaria
de meu país
de Ipueiras a Stocolmo e de Palmares de Pernambuco à ilha grega
essas terras são minhas
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto
e vou lavrando a escritura de meu canto
e lavrando o tempo e o cedro de uma noite e de uma cama.
1 017
Herculano Moraes
Cantigas de Minha Terra
Um dia nós exportamos
Milhares de marruás
O gado manso tangido pelos sertões
De vastos carnaubais
No lombilho do jumento
Ou sobre os trilhos de aço
A cera de carnaúba
Desenvolvia o progresso
Bendito tempo de glória...
Dentro dos sacos de açúcar
O coco de babaçu teve parte na história...
Ciclo bendito da riqueza brasileira
velho tempo de fartura contado por meus avós
— Pra nossos netos, Socorro,
Que lembrança teremos nós?
Milhares de marruás
O gado manso tangido pelos sertões
De vastos carnaubais
No lombilho do jumento
Ou sobre os trilhos de aço
A cera de carnaúba
Desenvolvia o progresso
Bendito tempo de glória...
Dentro dos sacos de açúcar
O coco de babaçu teve parte na história...
Ciclo bendito da riqueza brasileira
velho tempo de fartura contado por meus avós
— Pra nossos netos, Socorro,
Que lembrança teremos nós?
962
Gerardo Mello Mourão
Era uma vez em Rovigo, Itália
Era uma vez em Rovigo, Itália,
Maria Zanani:
entrou em luta corporal com o marido — conta a United Press International —
foi arremessada contra a parede de sua velha casa
a parede esboroou-se e jorraram
três milhões em moedas de ouro
tre millioni di lire
sobre o casal
subitamente reconduzido
à lua de mel
num carro em que as rodas eram liras
e as liras eram de ouro, tocando marchas nupciais e canções napolitanas:
nas casas de meu país as paredes guardam
os ossos e o sangue dos Mourões
minha tetravó vendeu suas jóias de ouro
e os machos puderam comprar mais bacamartes
e a terra dos canaviais continuou grande e nossa e
nas casas de engenho
as moendas cantavam dia e noite e nos terreiros
ao galamarte cantador os meninos morenos
giravam no ar
e no ar
torneavam o torso
e dóricos
à beleza e ao perigo
dos galamartes cantadores ao perigo
das guiadas e dos rifles
e à mestria das bestas certeiras
medravam os machos
in illo tempore
e ao seu bote
o teu corpo roubado às ruínas etruscas
há de tombar no chão ardente
do país dos Mourões
e ao seu baque irão brotar
os do culto de Hécate Ctônia
"e igual que antaño
en torno al sobreviviente
los pastores se ciernen en rueda
y oran en común
y se aprietan por las manos".
Maria Zanani:
entrou em luta corporal com o marido — conta a United Press International —
foi arremessada contra a parede de sua velha casa
a parede esboroou-se e jorraram
três milhões em moedas de ouro
tre millioni di lire
sobre o casal
subitamente reconduzido
à lua de mel
num carro em que as rodas eram liras
e as liras eram de ouro, tocando marchas nupciais e canções napolitanas:
nas casas de meu país as paredes guardam
os ossos e o sangue dos Mourões
minha tetravó vendeu suas jóias de ouro
e os machos puderam comprar mais bacamartes
e a terra dos canaviais continuou grande e nossa e
nas casas de engenho
as moendas cantavam dia e noite e nos terreiros
ao galamarte cantador os meninos morenos
giravam no ar
e no ar
torneavam o torso
e dóricos
à beleza e ao perigo
dos galamartes cantadores ao perigo
das guiadas e dos rifles
e à mestria das bestas certeiras
medravam os machos
in illo tempore
e ao seu bote
o teu corpo roubado às ruínas etruscas
há de tombar no chão ardente
do país dos Mourões
e ao seu baque irão brotar
os do culto de Hécate Ctônia
"e igual que antaño
en torno al sobreviviente
los pastores se ciernen en rueda
y oran en común
y se aprietan por las manos".
706
Moreira Campos
Chuva
São as primeiras águas de janeiro.
Banham-se as folhas,
sobe do chão o cheiro de terra molhada,
que me penetra
e repentinamente me transporta.
Há pedaços de infância nesta chuva.
Tento reconstituir o retábulo de azulejo,
traço com traço.
Um azulejo antigo,
de ingenuidade colonial.
O banho sob o jacaré na calçada?
O mergulho no Poço das Pedras?
A fria fuligem vinda da telha-vã
e que caiu na minha rede?
A oração que minha mãe me ensinou
e que o homem esqueceu?
A voz rolada do trovão que amedronta,
porque vinda das origens?
O relâmpago que iluminou o guarda-roupa?
(Minha mãe cobria todos os espelhos).
A manhã que amanheceu lavada como a minha infância,
com asas de insetos na calcada?
Tento viajar no tempo,
reconstituir os desenhos do retábulo.
Inútil.
Só o imponderável.
E esta chuva,
que chora em gotas na vidraça,
como eu me choro.
Banham-se as folhas,
sobe do chão o cheiro de terra molhada,
que me penetra
e repentinamente me transporta.
Há pedaços de infância nesta chuva.
Tento reconstituir o retábulo de azulejo,
traço com traço.
Um azulejo antigo,
de ingenuidade colonial.
O banho sob o jacaré na calçada?
O mergulho no Poço das Pedras?
A fria fuligem vinda da telha-vã
e que caiu na minha rede?
A oração que minha mãe me ensinou
e que o homem esqueceu?
A voz rolada do trovão que amedronta,
porque vinda das origens?
O relâmpago que iluminou o guarda-roupa?
(Minha mãe cobria todos os espelhos).
A manhã que amanheceu lavada como a minha infância,
com asas de insetos na calcada?
Tento viajar no tempo,
reconstituir os desenhos do retábulo.
Inútil.
Só o imponderável.
E esta chuva,
que chora em gotas na vidraça,
como eu me choro.
1 605
Gerardo Mello Mourão
Um dia as orquídeas se abriram sobre
Um dia as orquídeas se abriram sobre
olhos oblíquos de Magdalena
antes da âncora da dor numa angra verde
e antes
de partir-se teu rosto da romã
antes, vadio com seu cão e sua flauta
pelos montes o poeta
vadiava e farejava as garrafas de whisky,
a virilha das francesas e eram
baralhos de bacará e roletas de ouro
— a bolinha de marfim
cai no sete
cai no zero
cai no preto
no vermelho
a bolinha de marfim
cai não cai
onde é que cai?
Valencius Wurch, echt deutsch
barão da Pomerânia usava polainas e chapéu
gelô e seu nariz
usava um olho cego de um lado e de outro
um monóculo inútil
e era a glória das namoradas da Rua do Senado
e Monsenhor Manuel Gomes, prelado doméstico
do Papa,
pastoreava o bairro de São Cristóvão
com seu cajado do país da Paraíba
e Manuel Machado, depois doutor em leis, depois
capitão de tropas expedicionárias e herói da Pátria
guardou no coração um estilhaço de granada alemã
e com o belo cravo de sangue de seu peito
visitou a morte num campo da Itália
e tornou, virgem e alegre, à Rua Mem de Sá
e casto ao medo e intemperante ao perigo
o filho dos Mourões
Mourão pastava
adolescentes, cônegos, roletas e janelas de trem
de lira a tiracolo e essas
são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
onde às vezes perguntava o sol ao quarto dalva
e Dalva
Dalva Silveira navegava o sargaço nas virilhas
aloeste de seus promontórios trêmulos
dei toda as velas.
Sabia de naus francesas por ali com muita
artilharia e pólvora e abarrotadas de brasil:
fiz a vela no bordo do sul
fui quatro relógios
e ao meio-dia era na esteira da nau
duas léguas dela e não podia cobrar terra
cheguei à nau e primeiro que lhe tirasse
me tirou dois tiros:
antes que fosse noite lhe tirei
três tiros de camelo e três vezes
toda a artilharia: e de noite carregou
tanto o vento lessueste que não pude jogar
senão artelheria meúda — e com ele
pelejamos toda a noite:
em rompendo a alva
mandei um marinheiro ver:
via uma vela — não divisava
se era latina se redonda.
E que me importa a mim que veja ou que não veja
se cumpriu toda
a cerimônia de ver.
E essas são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
e o valete bicéfalo tangia
ora a espada ora a lira
ora a esquina ora o mar — e Nilo
Nilo José da Costa achara no subúrbio de
Campo Grande
a lua — e achara seu verdadeiro nome e era
Marcus Sandoval e de suas mãos
antes pendiam o fio da navalha e a tesoura
sábia — e delas
nunca mais rolaram cabelos de macho no salão
de barbeiro rolaram
as mechas da lua fêmea
— lua — disse o vento —
mostra-me a graça feminina
das tuas bailarinas
e ao sopro do luar sussurrando
ao ouvido das árvores quietas
todas as frondes num deslumbramento
bailavam aos levíssimos do vento
o bailado das sombras pelo chão
e Marcus Sandoval penou degredo
na Ilha de Fernando Noronha
Fernam de Loronha a nornordeste
por ouvir o filho dos Mourões
e por tanger espada em vez de cítara
e a morte se hospedou em seus pulmões e dorme
no cemitério de Campo Grande e nunca mais
um soneto foi pedido nos botequins do subúrbio
e nunca mais
o silêncio da noite doeu na serenata
onde andará o violão de José Carlos
e a rouca voz de Orlando Carneiro amigo íntimo
de Jesus Cristo
escande agora em vez da ode os códigos da lei
Meritíssimo Juiz da Vara Cível
trauteia agora a dodecafônica demanda
cite-se o réu — e testemunha
debaixo de vara sou citado
e desde as 7 horas do dia, Pero Lopes, até o sol
posto
pelejamos sempre: a nau me deu dentro
na caravela trinta e dois tiros
quebrou-me muitos aparelhos e rompeu-me
as velas todas:
estando eu assim com a nau tomada chegou
o Capitão Irmão com os outros navios e Francisco
Francisco da Gama Lima
servia o mel e o pão o coração fraterno
de José Ribas e fazia o pelo sinal da santa cruz
com a mesma lágrima e o mesmo mel
junto ao cadáver de Anísio Teixeira
onde era o pranto da filha derelicta.
E vinha a nau do Capitão com Pedro Maranduba
carregado de brasil
trazia muita artelheria e outra muita munição
de guerra
por lhes faltar pólvora se deram —
na nau não demos mais que uma bombarda
com um pedreiro ao lume dágua:
com a artelheria meúda lhe ferimos seis homens
na caravela me não mataram nem feriram
nenhum homem — de que
dei muitas graças ao Senhor Deus.
Noroeste e sulsueste se corria:
ao longo da nau eram tudo barreiras vermelhas
vieram da terra a nado às naus
índios a perguntar-nos
se queríamos Brasil:
carregado de Brasil
quero Brasil e as naus
carregadas de Brasil
se preciso, com muita artilharia e bombarda e ainda
abalroar as naus estrangeiras quebrar
a espada aos coronéis piratas e passá-los
a fio de espada boa e partir
a caminho da Grécia em nossa caravela
abarrotada de Brasil com Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho,
com grande lastro de Brasil.
Ao sair da lua abonançou-se o vento
e era o quarto da prima
formosa
no mar de seus cabelos Dora
Maria Mourão — Dora Correia Lima
no quarto da modorra no Leblon
era meio-dia e parecia noite
e o relâmpago de ouro de teus olhos
cortava a tempestade dos cabelos
e o mar tão grosso me entrava
por todas as partes com
o jogar da nau de ventre liso
Dora afagada à brisa ao faro das narinas:
houve vista de montes
e era mui alta a maravilha
em teu monte de relva
e hoje me faz dela
dez léguas e dez línguas noroleste
a costa se corre nornordeste e susudeste — Dora —
e toda longa ao longo do mar
no sertão serras mui altas e formosas
haverá delas ao mar dez léguas — e a lugares,
menos
e haveria às altas e formosas colinas tuas dez
beijos aos teus seios
e a lugares, menos,
e à noite veio o piloto-mor no esquife e súbito
são dez mil léguas de memória a esses seios
e a lugares, mais.
Perfundo de cinqüenta braças dárea limpa
o cabo de pareel que jaz ao mar
da banda sudoeste aloeste e a tuas partes
loessudoeste:
quando fui fora do parcel
eram serras mui altas sudoeste
sob a cintura túrgidas redondas
à mercê de tomar prumo
e com Mercedes Martins a prumo
vou mordendo a maçã em labirinto e mar
a caminho da Grécia onde esperavam entre
orquídeas
olhos oblíquos de Magdalena.
olhos oblíquos de Magdalena
antes da âncora da dor numa angra verde
e antes
de partir-se teu rosto da romã
antes, vadio com seu cão e sua flauta
pelos montes o poeta
vadiava e farejava as garrafas de whisky,
a virilha das francesas e eram
baralhos de bacará e roletas de ouro
— a bolinha de marfim
cai no sete
cai no zero
cai no preto
no vermelho
a bolinha de marfim
cai não cai
onde é que cai?
Valencius Wurch, echt deutsch
barão da Pomerânia usava polainas e chapéu
gelô e seu nariz
usava um olho cego de um lado e de outro
um monóculo inútil
e era a glória das namoradas da Rua do Senado
e Monsenhor Manuel Gomes, prelado doméstico
do Papa,
pastoreava o bairro de São Cristóvão
com seu cajado do país da Paraíba
e Manuel Machado, depois doutor em leis, depois
capitão de tropas expedicionárias e herói da Pátria
guardou no coração um estilhaço de granada alemã
e com o belo cravo de sangue de seu peito
visitou a morte num campo da Itália
e tornou, virgem e alegre, à Rua Mem de Sá
e casto ao medo e intemperante ao perigo
o filho dos Mourões
Mourão pastava
adolescentes, cônegos, roletas e janelas de trem
de lira a tiracolo e essas
são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
onde às vezes perguntava o sol ao quarto dalva
e Dalva
Dalva Silveira navegava o sargaço nas virilhas
aloeste de seus promontórios trêmulos
dei toda as velas.
Sabia de naus francesas por ali com muita
artilharia e pólvora e abarrotadas de brasil:
fiz a vela no bordo do sul
fui quatro relógios
e ao meio-dia era na esteira da nau
duas léguas dela e não podia cobrar terra
cheguei à nau e primeiro que lhe tirasse
me tirou dois tiros:
antes que fosse noite lhe tirei
três tiros de camelo e três vezes
toda a artilharia: e de noite carregou
tanto o vento lessueste que não pude jogar
senão artelheria meúda — e com ele
pelejamos toda a noite:
em rompendo a alva
mandei um marinheiro ver:
via uma vela — não divisava
se era latina se redonda.
E que me importa a mim que veja ou que não veja
se cumpriu toda
a cerimônia de ver.
E essas são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
e o valete bicéfalo tangia
ora a espada ora a lira
ora a esquina ora o mar — e Nilo
Nilo José da Costa achara no subúrbio de
Campo Grande
a lua — e achara seu verdadeiro nome e era
Marcus Sandoval e de suas mãos
antes pendiam o fio da navalha e a tesoura
sábia — e delas
nunca mais rolaram cabelos de macho no salão
de barbeiro rolaram
as mechas da lua fêmea
— lua — disse o vento —
mostra-me a graça feminina
das tuas bailarinas
e ao sopro do luar sussurrando
ao ouvido das árvores quietas
todas as frondes num deslumbramento
bailavam aos levíssimos do vento
o bailado das sombras pelo chão
e Marcus Sandoval penou degredo
na Ilha de Fernando Noronha
Fernam de Loronha a nornordeste
por ouvir o filho dos Mourões
e por tanger espada em vez de cítara
e a morte se hospedou em seus pulmões e dorme
no cemitério de Campo Grande e nunca mais
um soneto foi pedido nos botequins do subúrbio
e nunca mais
o silêncio da noite doeu na serenata
onde andará o violão de José Carlos
e a rouca voz de Orlando Carneiro amigo íntimo
de Jesus Cristo
escande agora em vez da ode os códigos da lei
Meritíssimo Juiz da Vara Cível
trauteia agora a dodecafônica demanda
cite-se o réu — e testemunha
debaixo de vara sou citado
e desde as 7 horas do dia, Pero Lopes, até o sol
posto
pelejamos sempre: a nau me deu dentro
na caravela trinta e dois tiros
quebrou-me muitos aparelhos e rompeu-me
as velas todas:
estando eu assim com a nau tomada chegou
o Capitão Irmão com os outros navios e Francisco
Francisco da Gama Lima
servia o mel e o pão o coração fraterno
de José Ribas e fazia o pelo sinal da santa cruz
com a mesma lágrima e o mesmo mel
junto ao cadáver de Anísio Teixeira
onde era o pranto da filha derelicta.
E vinha a nau do Capitão com Pedro Maranduba
carregado de brasil
trazia muita artelheria e outra muita munição
de guerra
por lhes faltar pólvora se deram —
na nau não demos mais que uma bombarda
com um pedreiro ao lume dágua:
com a artelheria meúda lhe ferimos seis homens
na caravela me não mataram nem feriram
nenhum homem — de que
dei muitas graças ao Senhor Deus.
Noroeste e sulsueste se corria:
ao longo da nau eram tudo barreiras vermelhas
vieram da terra a nado às naus
índios a perguntar-nos
se queríamos Brasil:
carregado de Brasil
quero Brasil e as naus
carregadas de Brasil
se preciso, com muita artilharia e bombarda e ainda
abalroar as naus estrangeiras quebrar
a espada aos coronéis piratas e passá-los
a fio de espada boa e partir
a caminho da Grécia em nossa caravela
abarrotada de Brasil com Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho,
com grande lastro de Brasil.
Ao sair da lua abonançou-se o vento
e era o quarto da prima
formosa
no mar de seus cabelos Dora
Maria Mourão — Dora Correia Lima
no quarto da modorra no Leblon
era meio-dia e parecia noite
e o relâmpago de ouro de teus olhos
cortava a tempestade dos cabelos
e o mar tão grosso me entrava
por todas as partes com
o jogar da nau de ventre liso
Dora afagada à brisa ao faro das narinas:
houve vista de montes
e era mui alta a maravilha
em teu monte de relva
e hoje me faz dela
dez léguas e dez línguas noroleste
a costa se corre nornordeste e susudeste — Dora —
e toda longa ao longo do mar
no sertão serras mui altas e formosas
haverá delas ao mar dez léguas — e a lugares,
menos
e haveria às altas e formosas colinas tuas dez
beijos aos teus seios
e a lugares, menos,
e à noite veio o piloto-mor no esquife e súbito
são dez mil léguas de memória a esses seios
e a lugares, mais.
Perfundo de cinqüenta braças dárea limpa
o cabo de pareel que jaz ao mar
da banda sudoeste aloeste e a tuas partes
loessudoeste:
quando fui fora do parcel
eram serras mui altas sudoeste
sob a cintura túrgidas redondas
à mercê de tomar prumo
e com Mercedes Martins a prumo
vou mordendo a maçã em labirinto e mar
a caminho da Grécia onde esperavam entre
orquídeas
olhos oblíquos de Magdalena.
1 068
Gerardo Mello Mourão
Pelas águas clementes e inclementes navegar
Pelas águas clementes e inclementes navegar
e navegar o chão, a fêmea, a cajazeira
com vento leste sair fora da barra
debaixo da capitânia de Martim Afonso
com Pero Lopes de Souza e de seus bagos venho
antes da era de Úrsula, Alexandre, José e outras
matriarcas e outros patriarcas e aí
começa o labirinto de Gerardo — na era
de Dom Manuel, o Venturoso, pois
por ventura aventura e desventura
ia de capitão de hua armada o governador
da terra do Brasil.
E de que me terei esquecido? Não, por certo,
daquele medo, não daquela dor notuma e as
vacas mugindo
no terror à solidão
de teus pastos e teus céus.
Ficaram num cinzeiro os olhos azuis de Catarina
no cinzeiro de um bar — e de tantas
tantas outras coisas me lembro dia e noite
aquela noite o canto das prostitutas encarceradas
— e o coração,
Demóstenes Gonzalez, o teu, hecho pedazos
e o pedaço de lua aquela noite
no chão do calabouço — e às vezes
Pedro Mota — a morte de Pedro Mota
fulminado quando
cantava sob o chuveiro uma ópera italiana
e a corneta comprada no Ipu e a cartola de meu
pai, a garrucha de bronze de meu avô
e o céu
aberto, mas de súbito
e entra Pedro Mota e sorri
com a cartola de meu pai na delicada mão
e entra Edgar com uma bala no fígado
os santos inocentes acolhidos acenam
e saúdam a gentileza da morte
ao hino de Araci naquela tarde:
não, não me diga adeus.
E de que me terei esquecido? Não, por certo
do tempo em que reinou a calmaria podre
e sem ventar bafo de vento
era mais grosso o mar e ao mar
lancei o prumo e perguntei o fundo
e tomei o fundo com cinqüenta e cinco braças
Tenerife! Tenerife!
tomamos as monetas e mais que o dia
já podia a noite
e pairamos a noite toda até o quarto dalva
demorava-me o Cabo das Tormentas a leste e
depois
barlaventeamos outra noite sem poder cobrar nada
por não poder fazer caminho
e não me esqueço, por certo,
do quintal do Encantado, ribeira e casa
de Araci de Almeida onde o canto dos galos
alongou tua morte
no alanceado coração — e como esqueceria
teus seios olorosos — e da cova deles
bem que rescendiam
e do cravo e da morte os suspeitos aromas:
e ainda cantarei de ti (agora tenho apenas o grande
mar por ló dessa lembrança)
nem mais vela que traquete e mezena
e muito trabalho na capitânia
porque não governava e não governa.
E amainamos a vela e fomos
correndo ao som do mar — até que foi de dia.
E de que me terei esquecido? Não, por certo,
de um cavalo soluçando às estrelas do céu e às
éguas do terreiro
a dor aguda do grande pênis negro
e os cascos do alazão na ladeira da serra
de São Gonçalo dos Mourões
e o bandoneon de Gesu Melo — ou de Josa? —
e a camisa escocesa e a cartucheira e o punhal
e os luminosos olhos
de José Mourão retinindo esporas de prata
na estação de Cratéus — ali a casa de Solon Faria
e a arte de calcular por meio de algarismos
e em sua mão de sábio da comarca ardia um giz
e tantos anos depois, Solon Faria Fllho doutrinava
sobre
a arte de f azer mel por meio das palavras e as
abelhas
rodeavam seus olhos. E de que me terei esquecido?
Não,
por certo, de uma gravata azul
de Aretusa dançando e os seios
de Carmen começando ao olor dos jasmineiros
Maria entre cajus vermelhos e amarelos
D. José Tupinambá da Frota, bispo-conde de Sobral
regendo o sólio e o maestro com sua clarinete
regendo
os tornozelos de Aretusa
e um bonde
varando a madrugada na Tijuca
e tantas outras coisas — e contemplei tremendo
a arte de fazer amor por meio de mágica - o polaco Tadeu
chupando ajoelhado aos pés do marinheiro crioulo
e um carneiro pastando a flor do bogari no quintal
do vigário
e o coldre viril do Colt no cinturão de meu tio e a
elegância
da taça de cristal na poderosa mão de meu avô
e tantas outras coisas — já não sei
se coisas ou lembranças:
possuídas um dia possuíram
o pulso do poeta
inventado e inventor
da memória inventora — e quem soubera
ao andar de Piehin vir de seu corpo
a graça a seu vestido — ou dele
florescer a beleza ao quadril
naquela adolescência?
Não te enxugue em espádua e anca e coxa
a água de beleza em que estes olhos
lavaram tua pele:
vem formosa mulher, camélia pálida,
já do salgado mar a espuma viva
prateia-me a pupila:
é preciso partir e na mão grossa
a enxárcia a vela a cordoalha pedem
um jeito de monção — e à chibata
dos ventos na garupa o barco pede
uma estrela no céu para o caminho à noite:
tu com teus olhos, Vega da Lyra, gema da Coroa
Boreal, estrelas verdes
e de Andrômeda e da Cassiopéia.
Luís de Gonzaga não conhecia o rosto
de Branca de Castela, sua mãe:
nunca fitara um rosto de mulher — os olhos —
ensinava ó Mestre asceta — são
janela da alma e por ali
entram as tentações — e pelos meus
entraram todas:
pungido por olhares fui crescendo:
o melancólico olhar do bisavô em seu retrato
pintado pelo pincel municipal de Raul
Catunda
e a morte na pupila do primo agonizante
e os olhos tristes — o quem te memorem —
desse conde alemão no Castelo de Kronberg, em
Frankfurt
e os teus boiando
constelados de verde à sombra de ouro
da Coroa Boreal de teus cabelos
dorida Berenice
hão de levar os meus por noite e mar. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
na penugem de teu braço quando
atrás de tua orelha era um perfume
farejado; e é preciso desfrutar
a luz, e aos olhos não negar nada na vida e
não perder
cova de seio, pedra de rua, axila e nuca tonsurada
e andorinhas ao céu
de agosto foragidas e dormir
sobre o catálogo palpitante. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
de Claude e Sylvianne e as outras cimitarras
fulgurantes:
aos fascinados olhos transpassavam
de um golpe o coração e tudo
era roteiro — os cegos tocando viola
na feira de Várzea Formosa
os soldados de mosquetão na estrada de Alagoas
e Arlette
ruiva e nua em seu bordel e nas noites de maio
a grinalda da Virgem e os anjos de novena e longa
túnica
e tudo era roteiro e de que banda
do mundo é o sítio do desejo, Capitão?
Soubesse dele e o não cantara
na sanfona saudosa o marinheiro Lorenz
e em sua voz marulhada o dalmata do cargueiro
grego
naquele outubro.
E à quarta do nordeste e à quarta daloeste
pode haver outra vista de terra e por isso
aprendi a pairar a noite toda até o quarto dalva
e também Dalva pairava
as monetas ao léu e o seio em boia e então
barlaventeávamos até o caroço da noite:
no coração marsupial todas as horas
eram nutridas
e volta-se a ampulheta e voltam sempre
os grãos de areia e os grãos
desses nomes de coisas e lugares e pessoas
plantados nas entranhas:
a um tiro da abombarda estão sempre suas ilhas
ao alimpar-se a névoa —
oblivionem oblitus me esqueci de esquecer-me
e aos meus mortos
em vão imolo os bodes vigorosos
e os cantos fúnebres:
do ninho de seus túmulos levantam-se
e ao redor do atônito poeta
cantam a letra
dos próprios epitáfios:
nos alqueires do Inferno ningué
e navegar o chão, a fêmea, a cajazeira
com vento leste sair fora da barra
debaixo da capitânia de Martim Afonso
com Pero Lopes de Souza e de seus bagos venho
antes da era de Úrsula, Alexandre, José e outras
matriarcas e outros patriarcas e aí
começa o labirinto de Gerardo — na era
de Dom Manuel, o Venturoso, pois
por ventura aventura e desventura
ia de capitão de hua armada o governador
da terra do Brasil.
E de que me terei esquecido? Não, por certo,
daquele medo, não daquela dor notuma e as
vacas mugindo
no terror à solidão
de teus pastos e teus céus.
Ficaram num cinzeiro os olhos azuis de Catarina
no cinzeiro de um bar — e de tantas
tantas outras coisas me lembro dia e noite
aquela noite o canto das prostitutas encarceradas
— e o coração,
Demóstenes Gonzalez, o teu, hecho pedazos
e o pedaço de lua aquela noite
no chão do calabouço — e às vezes
Pedro Mota — a morte de Pedro Mota
fulminado quando
cantava sob o chuveiro uma ópera italiana
e a corneta comprada no Ipu e a cartola de meu
pai, a garrucha de bronze de meu avô
e o céu
aberto, mas de súbito
e entra Pedro Mota e sorri
com a cartola de meu pai na delicada mão
e entra Edgar com uma bala no fígado
os santos inocentes acolhidos acenam
e saúdam a gentileza da morte
ao hino de Araci naquela tarde:
não, não me diga adeus.
E de que me terei esquecido? Não, por certo
do tempo em que reinou a calmaria podre
e sem ventar bafo de vento
era mais grosso o mar e ao mar
lancei o prumo e perguntei o fundo
e tomei o fundo com cinqüenta e cinco braças
Tenerife! Tenerife!
tomamos as monetas e mais que o dia
já podia a noite
e pairamos a noite toda até o quarto dalva
demorava-me o Cabo das Tormentas a leste e
depois
barlaventeamos outra noite sem poder cobrar nada
por não poder fazer caminho
e não me esqueço, por certo,
do quintal do Encantado, ribeira e casa
de Araci de Almeida onde o canto dos galos
alongou tua morte
no alanceado coração — e como esqueceria
teus seios olorosos — e da cova deles
bem que rescendiam
e do cravo e da morte os suspeitos aromas:
e ainda cantarei de ti (agora tenho apenas o grande
mar por ló dessa lembrança)
nem mais vela que traquete e mezena
e muito trabalho na capitânia
porque não governava e não governa.
E amainamos a vela e fomos
correndo ao som do mar — até que foi de dia.
E de que me terei esquecido? Não, por certo,
de um cavalo soluçando às estrelas do céu e às
éguas do terreiro
a dor aguda do grande pênis negro
e os cascos do alazão na ladeira da serra
de São Gonçalo dos Mourões
e o bandoneon de Gesu Melo — ou de Josa? —
e a camisa escocesa e a cartucheira e o punhal
e os luminosos olhos
de José Mourão retinindo esporas de prata
na estação de Cratéus — ali a casa de Solon Faria
e a arte de calcular por meio de algarismos
e em sua mão de sábio da comarca ardia um giz
e tantos anos depois, Solon Faria Fllho doutrinava
sobre
a arte de f azer mel por meio das palavras e as
abelhas
rodeavam seus olhos. E de que me terei esquecido?
Não,
por certo, de uma gravata azul
de Aretusa dançando e os seios
de Carmen começando ao olor dos jasmineiros
Maria entre cajus vermelhos e amarelos
D. José Tupinambá da Frota, bispo-conde de Sobral
regendo o sólio e o maestro com sua clarinete
regendo
os tornozelos de Aretusa
e um bonde
varando a madrugada na Tijuca
e tantas outras coisas — e contemplei tremendo
a arte de fazer amor por meio de mágica - o polaco Tadeu
chupando ajoelhado aos pés do marinheiro crioulo
e um carneiro pastando a flor do bogari no quintal
do vigário
e o coldre viril do Colt no cinturão de meu tio e a
elegância
da taça de cristal na poderosa mão de meu avô
e tantas outras coisas — já não sei
se coisas ou lembranças:
possuídas um dia possuíram
o pulso do poeta
inventado e inventor
da memória inventora — e quem soubera
ao andar de Piehin vir de seu corpo
a graça a seu vestido — ou dele
florescer a beleza ao quadril
naquela adolescência?
Não te enxugue em espádua e anca e coxa
a água de beleza em que estes olhos
lavaram tua pele:
vem formosa mulher, camélia pálida,
já do salgado mar a espuma viva
prateia-me a pupila:
é preciso partir e na mão grossa
a enxárcia a vela a cordoalha pedem
um jeito de monção — e à chibata
dos ventos na garupa o barco pede
uma estrela no céu para o caminho à noite:
tu com teus olhos, Vega da Lyra, gema da Coroa
Boreal, estrelas verdes
e de Andrômeda e da Cassiopéia.
Luís de Gonzaga não conhecia o rosto
de Branca de Castela, sua mãe:
nunca fitara um rosto de mulher — os olhos —
ensinava ó Mestre asceta — são
janela da alma e por ali
entram as tentações — e pelos meus
entraram todas:
pungido por olhares fui crescendo:
o melancólico olhar do bisavô em seu retrato
pintado pelo pincel municipal de Raul
Catunda
e a morte na pupila do primo agonizante
e os olhos tristes — o quem te memorem —
desse conde alemão no Castelo de Kronberg, em
Frankfurt
e os teus boiando
constelados de verde à sombra de ouro
da Coroa Boreal de teus cabelos
dorida Berenice
hão de levar os meus por noite e mar. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
na penugem de teu braço quando
atrás de tua orelha era um perfume
farejado; e é preciso desfrutar
a luz, e aos olhos não negar nada na vida e
não perder
cova de seio, pedra de rua, axila e nuca tonsurada
e andorinhas ao céu
de agosto foragidas e dormir
sobre o catálogo palpitante. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
de Claude e Sylvianne e as outras cimitarras
fulgurantes:
aos fascinados olhos transpassavam
de um golpe o coração e tudo
era roteiro — os cegos tocando viola
na feira de Várzea Formosa
os soldados de mosquetão na estrada de Alagoas
e Arlette
ruiva e nua em seu bordel e nas noites de maio
a grinalda da Virgem e os anjos de novena e longa
túnica
e tudo era roteiro e de que banda
do mundo é o sítio do desejo, Capitão?
Soubesse dele e o não cantara
na sanfona saudosa o marinheiro Lorenz
e em sua voz marulhada o dalmata do cargueiro
grego
naquele outubro.
E à quarta do nordeste e à quarta daloeste
pode haver outra vista de terra e por isso
aprendi a pairar a noite toda até o quarto dalva
e também Dalva pairava
as monetas ao léu e o seio em boia e então
barlaventeávamos até o caroço da noite:
no coração marsupial todas as horas
eram nutridas
e volta-se a ampulheta e voltam sempre
os grãos de areia e os grãos
desses nomes de coisas e lugares e pessoas
plantados nas entranhas:
a um tiro da abombarda estão sempre suas ilhas
ao alimpar-se a névoa —
oblivionem oblitus me esqueci de esquecer-me
e aos meus mortos
em vão imolo os bodes vigorosos
e os cantos fúnebres:
do ninho de seus túmulos levantam-se
e ao redor do atônito poeta
cantam a letra
dos próprios epitáfios:
nos alqueires do Inferno ningué
1 097
Herculano Moraes
A canga-o Boi
A canga e o boi
na alternância
de quem soluça
um tempo imaginário.
A canga e o boi
vaga lembrança
de um mundo
sempiterno e vário.
A canga e o boi
legenda esmaecida
na face opaca
de um tempo sem medida.
A canga e o boi
gravura como (vida)
filete sanguíneo na face
da memória... diluída.
A canga...
O boi...
Os sulcos perenes,
de rodas ringindo
na pele do tempo.
A canga...
E o boi?
na alternância
de quem soluça
um tempo imaginário.
A canga e o boi
vaga lembrança
de um mundo
sempiterno e vário.
A canga e o boi
legenda esmaecida
na face opaca
de um tempo sem medida.
A canga e o boi
gravura como (vida)
filete sanguíneo na face
da memória... diluída.
A canga...
O boi...
Os sulcos perenes,
de rodas ringindo
na pele do tempo.
A canga...
E o boi?
1 150
Gerardo Mello Mourão
Àquele tempo a musa pícara
Àquele tempo a musa pícara
ensaiava os tanguinhos brasileiros de Ernesto Nazareth
e oh! que saudades que eu tenho
da aurora da minha vida
ia colher as pitangas
trepava a tirar as mangas
à sombra das bananeiras
debaixo dos laranjais
livre filho das montanhas
eu ia bem satisfeito
de camisa aberta ao peito
pés descalços, braços nus
correndo pelas campinas
à volta das cachoeiras
atrás das asas ligeiras
das borboletas azuis
e surgia ao salto de um peixe de prata na cachoeira
a garganta respondia ao trom das águas
e o reflexo dos mangarás vermelhos se quebrava na lagoa
aos cangapés e deles súbito
o fauno de sete anos relinchava no barranco
erguendo a saia
da menina aguadeira.
Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio, era botadeira de água
e meu primo Francisco aguardava, dia a dia, seus treze anos chegarem
e um braço na cintura e outro na cabeça onde se erguia a cabaça de água limpa
anunciavam seus dois seios e sobre
suas ancas baiadeiras
já Tereza ensinava
o caminho da Grécia e a rua do alto
onde a grande pedra terminava junto à casa de Antônio Pinho e Olívia
na graça de um cabrito Imóvel ao crepúsculo.
Estrela do mar sobre o lago do ventre
estrela de pelos
pentágono pentélicon pentelhos
pentâmetro
pentateuco do amor!
Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio anunciara
o pentâmetro de ouro da canção
ninho da estrela
e o bulício do pássaro da estrela
preparava a lua e o mel
de tua noite.
De longe venho para a possessão
e da lua e do mel e da noite
Tão minha como as terras, as cabras, as novilhas,
os patacões de prata e os rifles de papo-amarelo e os engenhos
de cana e as raparigas essas terras são minhas
e a mais das escrituras de meu avô Major ou de Manuel Mourão
nos cartórios de Tamboril e Ipueiras
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto.
Doação de minha avó, Dona Ana Feitosa:
"Trezentas braças de terra de comprido e outras trezentas braças de largo,
de uma só banda do rio Acaracu, da parte do sul, onde ela, doadora,
tem sua casa de vivenda, com quarenta vacas situadas neste mesmo logar,
ao Senhor Santo Anastácio, para patrimônio de uma capela que se pretende
erigir neste mencionado logar do Tamboril e nela colocar dito santo".
O Capitão encomendara em Pernambuco uma imagem da Senhora Santana,
que seria a padroeira, e os comerciantes do Recife, por engano, mandaram
Santo Anastácio.
De qualquer forma, o chão de Deus foi tirado de minhas braças de terra
e Santo Anastácio, padroeiro por engano,
tem seu logar ao lado de São Gonçalo dos Mourões,
que essas terras são minhas, desde as dezoito léguas de serra na Serra dos Cocos,
de São Gonçalo dos Mourões, até os limites da Serra Azul e o sertão de Bruxaxá,
Borborema, Paraíba,
onde os vaqueiros encourados furam grotas
testemunha José Joffily
no rastro do boi ensebado
e ainda ali assentamos os currais reiúnos e os engenhos de rapadura e cachaça
até o grande sertão que se abre depois da Canabrava dos Mourões,
ao pé da serra dos Mourões do pé-da-serra e se estende pelo Crateús,
Piauí a oeste, e se dilata do antigo cortume de Nova-Russas dos Mourões,
que ali tinham mulheres ruças e éguas ruças, e vai para o sertão do Tamboril
e atravessa os Inhamuns, onde dorme meu pai e chega ao Tauá e à Mombaça
onde os Feitosa somos senhores do Cococi e de outras terras e onde era a minha avó
do país dos Calabaças.
Nesta estrada que o senhor está vendo, onde não há um pé-de-pau
para se descomer atrás, o Major Galdino, seu avô, derrubou a rifle um caboclo
sem prestância. O Major beirava os oitenta, fez pontaria do alto de
rua burra de sela — uma burra baia — e creio que foi a última façanha dele,
das vinte e seis que se conhecem.
Enviávamos às nossas mulheres rosários de ouro e pulseiras
de ouro
e a orelha sangrenta do inimigo
dentro do porta-orelhas de ouro que hoje está entre as
jóias da prima Sinhá.
São minhas essas terras, as vacas, os mandiocais, as casas-de-farinha e os vaqueiros
e suas orelhas e suas fêmeas:
de trinta e duas delas teve filhos o Coronel José de Barros
Mello, chamado o Cascavel, meu tetravô
e os bastardos do General cobrem as terras que são minhas que hei lavrado
em meu canto e sobre elas vou lavrando a escritura de meu canto desde
as ribeiras do Acaracu, do Potí, do Jatobá, até o Parnaíba, o sertão de Oeiras,
Piauí onde o avô de meu avó foi Capitão-Mor, Governador da Província,
Vítor de Barros Galvão,
até o São Francisco onde canta o poeta do país das Gerais,
onde Penedo ergue seus templos de pedra e a flor de pedra
de seus templos de onde viemos
e onde a formosa filha de Alagoas banha o seio moreno:
naquele tempo
meu avô alagoano, o Coronel Martins Chaves,
deu duas léguas de terra a São Francisco e duas arrobas de ouro e prata
à filha núbil e dois bacamartes de coronha lavrada ao genro Carvalhedo
e sobre o voto a São Francisco e sobre
duas arrobas de ouro e prata e sobre
dois bacamartes de coronha lavrada
das Alagoas ao Ceará foi construída
a raça dos Mourões
in illo tempore.
Esta é a bengala de seu avô e esta de toledana
é de meu padrinho Padre Feitosa
e com ela, mais seu avô, mais o velho Alexandre Mourão,
mais oitocentos parentes e cabras das Ipueiras, mais quinhentos do Tamboril
invadimos Crateús para tirar da cadeia nosso primo, o Coronel Giló,
e defender os nossos primos Correia Lima, que estavam se acabando na
política de baixo
e os Correia Lima não podiam se acabar antes de Emília,
a mais bela de seus país.
Naquele tempo
a beleza das mulheres nos fez valentes
e Antônio raptou Maria Veras
e de Alexandre um dia sem esperar foi descoberto e
custou caro — conta ele — o belo amor
e do Piauí ao Maranhão a Pernambueo o sangue de Manuel, de Sinhôsinho,
do Cascavel foi derramado
por amor das mulheres
e por ela e por todas elas, por três, por duas e por uma delas aguardo
militarmente el tiempo
e sirvo o dia e a noite a coice darmas
con el florete de la aventura manchado de sangre no olvidada
e estou de partida e não me parto
e me muero porque no muero
e não quero morrer e sobrevivo
entre os que tombaram à esquerda e à direita
para comer a erva tenra em sua mão
e carregá-lo no lombo e à sombra do plátano
ensinar ao seu ventre a prenhez dos Mourões
ensinar ao seu ventre a prenhez e a dor e o sangue dos Mourões
e a alegria da ressurreição
a alegria dos rapazes e raparigas de Atenas.
ensaiava os tanguinhos brasileiros de Ernesto Nazareth
e oh! que saudades que eu tenho
da aurora da minha vida
ia colher as pitangas
trepava a tirar as mangas
à sombra das bananeiras
debaixo dos laranjais
livre filho das montanhas
eu ia bem satisfeito
de camisa aberta ao peito
pés descalços, braços nus
correndo pelas campinas
à volta das cachoeiras
atrás das asas ligeiras
das borboletas azuis
e surgia ao salto de um peixe de prata na cachoeira
a garganta respondia ao trom das águas
e o reflexo dos mangarás vermelhos se quebrava na lagoa
aos cangapés e deles súbito
o fauno de sete anos relinchava no barranco
erguendo a saia
da menina aguadeira.
Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio, era botadeira de água
e meu primo Francisco aguardava, dia a dia, seus treze anos chegarem
e um braço na cintura e outro na cabeça onde se erguia a cabaça de água limpa
anunciavam seus dois seios e sobre
suas ancas baiadeiras
já Tereza ensinava
o caminho da Grécia e a rua do alto
onde a grande pedra terminava junto à casa de Antônio Pinho e Olívia
na graça de um cabrito Imóvel ao crepúsculo.
Estrela do mar sobre o lago do ventre
estrela de pelos
pentágono pentélicon pentelhos
pentâmetro
pentateuco do amor!
Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio anunciara
o pentâmetro de ouro da canção
ninho da estrela
e o bulício do pássaro da estrela
preparava a lua e o mel
de tua noite.
De longe venho para a possessão
e da lua e do mel e da noite
Tão minha como as terras, as cabras, as novilhas,
os patacões de prata e os rifles de papo-amarelo e os engenhos
de cana e as raparigas essas terras são minhas
e a mais das escrituras de meu avô Major ou de Manuel Mourão
nos cartórios de Tamboril e Ipueiras
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto.
Doação de minha avó, Dona Ana Feitosa:
"Trezentas braças de terra de comprido e outras trezentas braças de largo,
de uma só banda do rio Acaracu, da parte do sul, onde ela, doadora,
tem sua casa de vivenda, com quarenta vacas situadas neste mesmo logar,
ao Senhor Santo Anastácio, para patrimônio de uma capela que se pretende
erigir neste mencionado logar do Tamboril e nela colocar dito santo".
O Capitão encomendara em Pernambuco uma imagem da Senhora Santana,
que seria a padroeira, e os comerciantes do Recife, por engano, mandaram
Santo Anastácio.
De qualquer forma, o chão de Deus foi tirado de minhas braças de terra
e Santo Anastácio, padroeiro por engano,
tem seu logar ao lado de São Gonçalo dos Mourões,
que essas terras são minhas, desde as dezoito léguas de serra na Serra dos Cocos,
de São Gonçalo dos Mourões, até os limites da Serra Azul e o sertão de Bruxaxá,
Borborema, Paraíba,
onde os vaqueiros encourados furam grotas
testemunha José Joffily
no rastro do boi ensebado
e ainda ali assentamos os currais reiúnos e os engenhos de rapadura e cachaça
até o grande sertão que se abre depois da Canabrava dos Mourões,
ao pé da serra dos Mourões do pé-da-serra e se estende pelo Crateús,
Piauí a oeste, e se dilata do antigo cortume de Nova-Russas dos Mourões,
que ali tinham mulheres ruças e éguas ruças, e vai para o sertão do Tamboril
e atravessa os Inhamuns, onde dorme meu pai e chega ao Tauá e à Mombaça
onde os Feitosa somos senhores do Cococi e de outras terras e onde era a minha avó
do país dos Calabaças.
Nesta estrada que o senhor está vendo, onde não há um pé-de-pau
para se descomer atrás, o Major Galdino, seu avô, derrubou a rifle um caboclo
sem prestância. O Major beirava os oitenta, fez pontaria do alto de
rua burra de sela — uma burra baia — e creio que foi a última façanha dele,
das vinte e seis que se conhecem.
Enviávamos às nossas mulheres rosários de ouro e pulseiras
de ouro
e a orelha sangrenta do inimigo
dentro do porta-orelhas de ouro que hoje está entre as
jóias da prima Sinhá.
São minhas essas terras, as vacas, os mandiocais, as casas-de-farinha e os vaqueiros
e suas orelhas e suas fêmeas:
de trinta e duas delas teve filhos o Coronel José de Barros
Mello, chamado o Cascavel, meu tetravô
e os bastardos do General cobrem as terras que são minhas que hei lavrado
em meu canto e sobre elas vou lavrando a escritura de meu canto desde
as ribeiras do Acaracu, do Potí, do Jatobá, até o Parnaíba, o sertão de Oeiras,
Piauí onde o avô de meu avó foi Capitão-Mor, Governador da Província,
Vítor de Barros Galvão,
até o São Francisco onde canta o poeta do país das Gerais,
onde Penedo ergue seus templos de pedra e a flor de pedra
de seus templos de onde viemos
e onde a formosa filha de Alagoas banha o seio moreno:
naquele tempo
meu avô alagoano, o Coronel Martins Chaves,
deu duas léguas de terra a São Francisco e duas arrobas de ouro e prata
à filha núbil e dois bacamartes de coronha lavrada ao genro Carvalhedo
e sobre o voto a São Francisco e sobre
duas arrobas de ouro e prata e sobre
dois bacamartes de coronha lavrada
das Alagoas ao Ceará foi construída
a raça dos Mourões
in illo tempore.
Esta é a bengala de seu avô e esta de toledana
é de meu padrinho Padre Feitosa
e com ela, mais seu avô, mais o velho Alexandre Mourão,
mais oitocentos parentes e cabras das Ipueiras, mais quinhentos do Tamboril
invadimos Crateús para tirar da cadeia nosso primo, o Coronel Giló,
e defender os nossos primos Correia Lima, que estavam se acabando na
política de baixo
e os Correia Lima não podiam se acabar antes de Emília,
a mais bela de seus país.
Naquele tempo
a beleza das mulheres nos fez valentes
e Antônio raptou Maria Veras
e de Alexandre um dia sem esperar foi descoberto e
custou caro — conta ele — o belo amor
e do Piauí ao Maranhão a Pernambueo o sangue de Manuel, de Sinhôsinho,
do Cascavel foi derramado
por amor das mulheres
e por ela e por todas elas, por três, por duas e por uma delas aguardo
militarmente el tiempo
e sirvo o dia e a noite a coice darmas
con el florete de la aventura manchado de sangre no olvidada
e estou de partida e não me parto
e me muero porque no muero
e não quero morrer e sobrevivo
entre os que tombaram à esquerda e à direita
para comer a erva tenra em sua mão
e carregá-lo no lombo e à sombra do plátano
ensinar ao seu ventre a prenhez dos Mourões
ensinar ao seu ventre a prenhez e a dor e o sangue dos Mourões
e a alegria da ressurreição
a alegria dos rapazes e raparigas de Atenas.
1 195
Moreira Campos
Antecipação
Este fim de tarde,
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
1 153
Moreira Campos
A Visita
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta,
eu vos visito não porque seja um bom,
não porque seja aquele homem "coração de ouro",
como dizeis aos vizinhos em tom de segredo,
que contudo deverá ser ouvido por mim,
enquanto meu automóvel espera à sombra da árvore.
Não. Eu vos visito para sentir os caibros toscos desta sala, a telha-vã,
a velha máquina de costura coberta com a toalhinha
sobre a qual repousa a tentativa do jarro de flores;
o retrato desbotado de vosso marido
contra a parede.
Eu vos visito para indagar do moleque que criastes
e que fugiu pela janela,
que o vento da noite ficou batendo.
E eu vos visito sobretudo para usufruir de vossa solidão
e do mistério de vossas palavras nobres,
de mulher lida em romances, embora baratos.
— E os meninos (da vizinhança) ainda aperreiam muito?
— Hem?
— Os meninos?
— Uns vândalos, meu filho.
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta, esta palavra "vândalos"
me comove muito mais do que todos os vossos males.
Contudo, trouxe-vos estas maçãs para vossa convalescença
ó tia Augusta,
eu vos visito não porque seja um bom,
não porque seja aquele homem "coração de ouro",
como dizeis aos vizinhos em tom de segredo,
que contudo deverá ser ouvido por mim,
enquanto meu automóvel espera à sombra da árvore.
Não. Eu vos visito para sentir os caibros toscos desta sala, a telha-vã,
a velha máquina de costura coberta com a toalhinha
sobre a qual repousa a tentativa do jarro de flores;
o retrato desbotado de vosso marido
contra a parede.
Eu vos visito para indagar do moleque que criastes
e que fugiu pela janela,
que o vento da noite ficou batendo.
E eu vos visito sobretudo para usufruir de vossa solidão
e do mistério de vossas palavras nobres,
de mulher lida em romances, embora baratos.
— E os meninos (da vizinhança) ainda aperreiam muito?
— Hem?
— Os meninos?
— Uns vândalos, meu filho.
Ó tia de minha mulher,
ó tia Augusta, esta palavra "vândalos"
me comove muito mais do que todos os vossos males.
Contudo, trouxe-vos estas maçãs para vossa convalescença
1 617
Gerardo Mello Mourão
Hoje é dia de louras, Abdias
Hoje é dia de louras, Abdias,
telefona e amanhã
quero Wanda Moreno, quero Hilda, quero Rosa e depois
quero de novo a ruiva da Barata Ribeiro, quero Néa,
quero Paula da casa de Arabela e Lourdes com Marina e quero todas
da casa de Helenita:
meu avô passou nos peitos todas as filhas dos moradores do engenho
os Mourões raparigueiros há trezentos anos:
eram cinqüenta mulheres
à noite no cabaret
entre elas uma francesa
sentada num canapé
Raimundo Mourão brigava
com o vigário da Sé
trazia o diabo no couro
quando entrou no cabaret
as mulheres quando o viram
ficaram todas em pé.
Deixara em baixo o Marreira
no cabresto do alazão
na cinta o coldre bordado
e unia chibata na mão
parecia um cangaceiro
do bando do Lampeão
a parnaíba nos quartos
vinte léguas de sertão
cantador Nertan Macedo
afina já teu bordão
matéria-prima do verso
este é um Mello Mourão
valente rico e faceiro
dançador e fanfarrão
tanto bebe como canta
como atira que nem cão
mulheres no porta-seios
segurem o coração
"couro bando papaceia
o chão imemorial
o bode o cavalo o boi
o sentimento mortal
o homem caça dileta
refletida no punhal"
tanta tesão entre as coxas
como balas no embornal
A noite se encheu de tiros
começou a confusão
não ficou homem na sala
pois quem enfrenta um Mourão?
as luzes levando chumbo
virou tudo escuridão
provou as cinqüenta fêmeas
pôs a mão no coração
e sentiu que ele no peito
não se fartara inda não
não encontrava em Francisca
os seios de Conceição
nem em Antônia a cadência
que as ancas de Isaura dão:
só mesmo teus olhos verdes
dariam a ordenação
capaz na noite e no dia
de saciar um Mourão
mas antes que tu chegasses
um punhal na escuridão
deixou morto aquele macho
banhado em sangue no chão:
caça dileta do amor
tombou Raimundo Mourão
herdei-lhe a espora de prata
o rebenque e o alazão
relógio de ouro maciço
de corrente e medalhão
trinta e dois de carga dupla
o clavinote alemão
e na bainha de couro
o punhal de estimação
dezoito pentes de bala
cartucheira e cinturão
os olhos concupiscentes
a aguardente e a perdição
o gosto de mulher boa
procurada com paixão
e atrás de ti pelo mundo
abandonei o sertão.
telefona e amanhã
quero Wanda Moreno, quero Hilda, quero Rosa e depois
quero de novo a ruiva da Barata Ribeiro, quero Néa,
quero Paula da casa de Arabela e Lourdes com Marina e quero todas
da casa de Helenita:
meu avô passou nos peitos todas as filhas dos moradores do engenho
os Mourões raparigueiros há trezentos anos:
eram cinqüenta mulheres
à noite no cabaret
entre elas uma francesa
sentada num canapé
Raimundo Mourão brigava
com o vigário da Sé
trazia o diabo no couro
quando entrou no cabaret
as mulheres quando o viram
ficaram todas em pé.
Deixara em baixo o Marreira
no cabresto do alazão
na cinta o coldre bordado
e unia chibata na mão
parecia um cangaceiro
do bando do Lampeão
a parnaíba nos quartos
vinte léguas de sertão
cantador Nertan Macedo
afina já teu bordão
matéria-prima do verso
este é um Mello Mourão
valente rico e faceiro
dançador e fanfarrão
tanto bebe como canta
como atira que nem cão
mulheres no porta-seios
segurem o coração
"couro bando papaceia
o chão imemorial
o bode o cavalo o boi
o sentimento mortal
o homem caça dileta
refletida no punhal"
tanta tesão entre as coxas
como balas no embornal
A noite se encheu de tiros
começou a confusão
não ficou homem na sala
pois quem enfrenta um Mourão?
as luzes levando chumbo
virou tudo escuridão
provou as cinqüenta fêmeas
pôs a mão no coração
e sentiu que ele no peito
não se fartara inda não
não encontrava em Francisca
os seios de Conceição
nem em Antônia a cadência
que as ancas de Isaura dão:
só mesmo teus olhos verdes
dariam a ordenação
capaz na noite e no dia
de saciar um Mourão
mas antes que tu chegasses
um punhal na escuridão
deixou morto aquele macho
banhado em sangue no chão:
caça dileta do amor
tombou Raimundo Mourão
herdei-lhe a espora de prata
o rebenque e o alazão
relógio de ouro maciço
de corrente e medalhão
trinta e dois de carga dupla
o clavinote alemão
e na bainha de couro
o punhal de estimação
dezoito pentes de bala
cartucheira e cinturão
os olhos concupiscentes
a aguardente e a perdição
o gosto de mulher boa
procurada com paixão
e atrás de ti pelo mundo
abandonei o sertão.
1 154
Gerardo Mello Mourão
Entre alabardas do Museu Histórico
Entre alabardas do Museu Histórico
Gustavo Barroso inventava a glória paraguaia
e Mariano Mafra pregava o massacre dos
judeus enquanto
Berta Samuel me devorava coração e pênis
na Rua Santo Amaro e na Praia do Russel
o Almirante jovial manobrava o bilboquê e o
coração
vida da minha vida, Glória querida — exclamava
de joelhos
e Dona Glorinha bela enchia de graça e suco de uva
o cristal do Almirante e Paulo Fleming
aprendia a um tempo
o cálculo infinitesimal o ditirambo o gin e as
noivas familiares
e Manola o aguardava com seus olhos azuis e
Simone era cantada por suas sonatas ao
piano e seus cabelos
naquele tempo Manuel Hasslocher era barão e
entre suas lavandas
cintilava a esmeralda no pulso da baronesa
Torelli
e se ensinava ao poeta o Bourgogne a lavanda
as estrangeiras de tornozelo fino e os
cachimbos de cereja
e rolava em seu aroma o seio branco de Bice
Taliani
depois roçava la Karavaieva
a tangerina de seu rosto
e as marquesas da Itália e as putas de Araguari
e la maison de Madame Janine Rua Cândido
Mendes — Tônia Madô Louise e Dolly
conheciam
a virilha do príncipe libidinoso
I am an indian prince, Madam, and this is Mr.
Ottoni and this Mr. Americano Freire
coming from Karputala — e Maria Alonso
oferecera seu corpo paraguaio na noite de Buenos
Aires
e depois era cantada entre as grades do Presídio
da Ilha Grande
com aguardente e evocações
às musas helicônias — e ali.
Atena de olhos garços foi vista
sobre.a relva noturna a bunda branca à lua e ao
ritmo
do prisioneiro alemão — e era
uma vez o cigano dos Balkãs Nicolau
e passou a lâmina no pescoço de ouro da cigana
Marena
e perguntava aos guardas do presídio
—"a mulher é sua? a lâmina é sua? Então o sr.
não tem nada com isso"
e eu ia degolando com minha própria lâmina
a minha própria rosa
dessas noites desses dias
— "Divino degollado! " — exclamava o poeta aos
pés de Godo
em madrugada de La Boca
e los hermanos Peila contavam histórias obscenas
de Abdias
e Jonquières prestava testemunho do azul e depois
Maldonado inventava inventos e Arden Quin
assobiava a internacional na noite rouca e entre
melodias arábigo-andaluzas Fleitas
e Sarmiento forneciam
a ordenação do tango en mi tristeza
na pensão de Raymonde com Ginette ou Dolly
e tudo era missão — a devassa Raquel esposa de
general conspícuo
na partouse de Mirtes ou de Mônica:
todos tienen su tango — assim Ulisses quando Circe
abriu as portas fulgentes e as coxas de ouro e
ofereceu
os pentelhos ruivos a farinha e o fulvo mel
como vinho de Pramnos e os lívidos venenos e às
vezes
na taça de duas asas a libação
afogava na garganta a gesta em flor e o fruto
apodrecia antes do afago
do zéfiro nas jeiras.
E uma noite quando
farejava sua barriga redonda, ela me disse:
"hão de sempre esperar-te as naus recurvas
pois tiveste parte
nas rosas de Pieria" — e sei
das escrituras de Galdino e Manuel Mourão e da
divina Safo: tenho parte
na rosa e na criança tenho parte
na noite no ananás na rapariga e no rifle
de Alexandre Mourão e com este mosquetão
papo-amarelo que me mandou o compadre
Jarmelino de Alagoas
um Coronel de Tanque dArca e Limoeiro de Anadía
matou cinco
inclusive um padre de São Luís de Quitunde e um
famanaz
das bandas de Coqueiro Seco — e nessas mortes
tenho parte
Gustavo Barroso inventava a glória paraguaia
e Mariano Mafra pregava o massacre dos
judeus enquanto
Berta Samuel me devorava coração e pênis
na Rua Santo Amaro e na Praia do Russel
o Almirante jovial manobrava o bilboquê e o
coração
vida da minha vida, Glória querida — exclamava
de joelhos
e Dona Glorinha bela enchia de graça e suco de uva
o cristal do Almirante e Paulo Fleming
aprendia a um tempo
o cálculo infinitesimal o ditirambo o gin e as
noivas familiares
e Manola o aguardava com seus olhos azuis e
Simone era cantada por suas sonatas ao
piano e seus cabelos
naquele tempo Manuel Hasslocher era barão e
entre suas lavandas
cintilava a esmeralda no pulso da baronesa
Torelli
e se ensinava ao poeta o Bourgogne a lavanda
as estrangeiras de tornozelo fino e os
cachimbos de cereja
e rolava em seu aroma o seio branco de Bice
Taliani
depois roçava la Karavaieva
a tangerina de seu rosto
e as marquesas da Itália e as putas de Araguari
e la maison de Madame Janine Rua Cândido
Mendes — Tônia Madô Louise e Dolly
conheciam
a virilha do príncipe libidinoso
I am an indian prince, Madam, and this is Mr.
Ottoni and this Mr. Americano Freire
coming from Karputala — e Maria Alonso
oferecera seu corpo paraguaio na noite de Buenos
Aires
e depois era cantada entre as grades do Presídio
da Ilha Grande
com aguardente e evocações
às musas helicônias — e ali.
Atena de olhos garços foi vista
sobre.a relva noturna a bunda branca à lua e ao
ritmo
do prisioneiro alemão — e era
uma vez o cigano dos Balkãs Nicolau
e passou a lâmina no pescoço de ouro da cigana
Marena
e perguntava aos guardas do presídio
—"a mulher é sua? a lâmina é sua? Então o sr.
não tem nada com isso"
e eu ia degolando com minha própria lâmina
a minha própria rosa
dessas noites desses dias
— "Divino degollado! " — exclamava o poeta aos
pés de Godo
em madrugada de La Boca
e los hermanos Peila contavam histórias obscenas
de Abdias
e Jonquières prestava testemunho do azul e depois
Maldonado inventava inventos e Arden Quin
assobiava a internacional na noite rouca e entre
melodias arábigo-andaluzas Fleitas
e Sarmiento forneciam
a ordenação do tango en mi tristeza
na pensão de Raymonde com Ginette ou Dolly
e tudo era missão — a devassa Raquel esposa de
general conspícuo
na partouse de Mirtes ou de Mônica:
todos tienen su tango — assim Ulisses quando Circe
abriu as portas fulgentes e as coxas de ouro e
ofereceu
os pentelhos ruivos a farinha e o fulvo mel
como vinho de Pramnos e os lívidos venenos e às
vezes
na taça de duas asas a libação
afogava na garganta a gesta em flor e o fruto
apodrecia antes do afago
do zéfiro nas jeiras.
E uma noite quando
farejava sua barriga redonda, ela me disse:
"hão de sempre esperar-te as naus recurvas
pois tiveste parte
nas rosas de Pieria" — e sei
das escrituras de Galdino e Manuel Mourão e da
divina Safo: tenho parte
na rosa e na criança tenho parte
na noite no ananás na rapariga e no rifle
de Alexandre Mourão e com este mosquetão
papo-amarelo que me mandou o compadre
Jarmelino de Alagoas
um Coronel de Tanque dArca e Limoeiro de Anadía
matou cinco
inclusive um padre de São Luís de Quitunde e um
famanaz
das bandas de Coqueiro Seco — e nessas mortes
tenho parte
840
Marly de Oliveira
Perdi a capacidade de assombro
Perdi a capacidade de assombro
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.
1 408
Micheliny Verunschk
Isaura
Isaura
Sentia nos dedos
Das mãos
Os rios,
As epifanias,
Os cheiros
Dos cabelos de José.
Seus dedos brincavam
E sentiam
Os cheiros
( O cheiro de mato
De campina,
De homem
Dos cabelos de José )
Isaura sentia.
Gostaria de morrer
Se assim não fosse.
Juraria numa cruz
Por São Carlinhos,
Por São Ascenso,
Por São Austraclínio,
Os santos
De sua inventada devoção.
Na cadeira de balanço
Sobre o colo
Molhado
Do xalé verde-água
Dormiam
Os cabelos macios,
Os cabelos cheirosos,
Os cabelos que sempre
Cantaram saudades:
Os cabelos de José.
Dormia José,
Deitado em seu colo.
...
( Amaro e Tobias e João
Desconpreendiam
Todos os dias
O mistério de Isaura,
Na varanda do solar,
Desperdiçar os sóis
E os anis
A ninar um chapéu.
Não sabiam eles
Que José dormia ).
Sentia nos dedos
Das mãos
Os rios,
As epifanias,
Os cheiros
Dos cabelos de José.
Seus dedos brincavam
E sentiam
Os cheiros
( O cheiro de mato
De campina,
De homem
Dos cabelos de José )
Isaura sentia.
Gostaria de morrer
Se assim não fosse.
Juraria numa cruz
Por São Carlinhos,
Por São Ascenso,
Por São Austraclínio,
Os santos
De sua inventada devoção.
Na cadeira de balanço
Sobre o colo
Molhado
Do xalé verde-água
Dormiam
Os cabelos macios,
Os cabelos cheirosos,
Os cabelos que sempre
Cantaram saudades:
Os cabelos de José.
Dormia José,
Deitado em seu colo.
...
( Amaro e Tobias e João
Desconpreendiam
Todos os dias
O mistério de Isaura,
Na varanda do solar,
Desperdiçar os sóis
E os anis
A ninar um chapéu.
Não sabiam eles
Que José dormia ).
1 065
Maria de Lourdes Hortas
Estações
Poderia afogar-me
na silente cisterna de lágrimas
léguas de um longo tempo extraviado
quando o mar recua
para ermo horizonte
de incompletude e inesperança.
Todavia há marés que me resgatam
réstia de luz por instantes ferindo
a silente espessura da lembrança.
na silente cisterna de lágrimas
léguas de um longo tempo extraviado
quando o mar recua
para ermo horizonte
de incompletude e inesperança.
Todavia há marés que me resgatam
réstia de luz por instantes ferindo
a silente espessura da lembrança.
1 004
Micheliny Verunschk
Grindley
Os meninos
da rua velha
querem seda colorida
para povoar os azuis
da xícara clara
de pipas.
Também
balões multicores
e aladas traquinagens
querem os meninos tafuis
do pires
de bordas douradas
(Os meninos
da rua velha:
ladrões do tempo
— crianças —
senhores de prata e luz
gravados na porcelana).
da rua velha
querem seda colorida
para povoar os azuis
da xícara clara
de pipas.
Também
balões multicores
e aladas traquinagens
querem os meninos tafuis
do pires
de bordas douradas
(Os meninos
da rua velha:
ladrões do tempo
— crianças —
senhores de prata e luz
gravados na porcelana).
1 102
Micheliny Verunschk
Segredo de Camarinha
Cora,
teu retrato amarelado de
moça
fala à minha dor.
Teu retrato-butterfly antigo
pousa,
pousa sobre
a rosa remendada
de minha dor.
Aquele rapaz, Cora,
que tinha o medo
(o medo que têm todos os homens)
e que não pressentiu a espera ancestral,
aquele rapaz, Cora,
o desencontrei também.
Ele vestia
o mesmo sorriso
e o mesmo cheiro bom de terra
e o mesmo medo
(ainda o medo)
o medo
ele vestia.
(O que há de se fazer,
Cora,
com um mal destes de amor ?)
Cora,
teu antigo retrato de moça
baila-bailarina
sobre a minha dor.
teu retrato amarelado de
moça
fala à minha dor.
Teu retrato-butterfly antigo
pousa,
pousa sobre
a rosa remendada
de minha dor.
Aquele rapaz, Cora,
que tinha o medo
(o medo que têm todos os homens)
e que não pressentiu a espera ancestral,
aquele rapaz, Cora,
o desencontrei também.
Ele vestia
o mesmo sorriso
e o mesmo cheiro bom de terra
e o mesmo medo
(ainda o medo)
o medo
ele vestia.
(O que há de se fazer,
Cora,
com um mal destes de amor ?)
Cora,
teu antigo retrato de moça
baila-bailarina
sobre a minha dor.
1 291