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Morte e Luto

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Canto II - Alturas de Machu Picchu

I
Do ar ao ar como uma rede
vazia, ia eu entre as ruas e a atmosfera chegando e despedindo,
no advento do outono a moeda estendida
das folhas, e entre a primavera e as espigas,
o que maior amor, como dentro duma luva
que cai, nos entrega qual uma longa lua.


(Dias de vivo fulgor na intempérie
dos corpos: aços convertidos
ao silêncio do ácido:
noites desfiadas até a última farinha:
estamos agredidos da pátria nupcial.
)

Alguém que me esperou entre os violinos
achou um mundo como uma torre enterrada
fundindo sua espiral mais abaixo de todas
nas folhas de cor de roxo enxofre:
mais abaixo, no ouro da geologia,
como espada envolta em meteoros,
mergulhei a mão turbulenta e doce
no mais genital do terrestre.


Meti o resto entre as vagas profundas,
desci como gota entre a paz sulfúrica,
e, como um cego, regressei ao jasmim
da usada primavera humana.




II
Se a flor à flor entrega o alto germe
e a rocha mantém sua flor disseminada
em seu castigado traje de diamante e areia,
o homem franze a pétala da luz que recolhe
nos determinados mananciais marinhos
e verruma o metal palpitante em suas mãos.

E logo, entre a roupa e o fumo, sobre a mesa enterrada,
como embaralhada quantidade, fica a alma:
quartzo e desvelo, lágrimas no oceano
como lagos de frio: mas ainda
mata-a e agoniza-a com papel e com ódio,
submerge-a no tapete cotidiano, dilacera-a
entre as vestimentas hostis do arame.


Não: pelos corredores, ar, mar ou caminhos,
quem guarda sem punhal (como as encarnadas
amapolas) seu sangue? A cólera extenuou
a triste mercadoria do vendedor de seres,
e, enquanto nas alturas da ameixeira, o orvalho
há mil anos deixa a sua carta transparente,
sobre o mesmo ramo que espera, ó coração, ó rosto triturado
entre as cavidades do outono.


Quantas vezes nas ruas de inverno duma cidade
ou num ônibus ou num navio ao crepúsculo, ou
na solidão mais espessa, a da noite de festa,
sob o ressoar de sombras e sinos, na própria gruta
do prazer humano, quis parar e procurar o eterno
veio insondável que antes toquei na pedra ou no
relâmpago que o beijo desprendia.


(O que no cereal como uma história amarela
de pequenos peitos grávidos vai repetindo um número
que sem cessar é ternura nas capas germinais,
e que, idêntica sempre, se debulha em marfim
e o que na água é pátria transparente, sino
desde a neve isolada às ondas sangrentas.
)

Só pude unir um cacho de rostos ou de máscaras
precipitadas, como anéis de ouro falso,
como roupas dispersas filhas dum outono enraivecido
que fizesse tremer a miserável árvore das raças assustadas.


Não tive lugar para descansar a mão
e que, corrente como água de manancial acorrentado,
ou firme como lasca de antracite ou cristal,
tivesse devolvido o calor ou o frio de minha mão estendida.

Que era o homem? Em que parte de sua conversação aberta
entre os armazéns e os assovios, em qual de seus movimentos metálicos
vivia o indestrutível, o imperecível, a vida?



III
O ser como o milho se debulha no inesgotável
celeiro dos feitos perdidos, dos acontecimentos
miseráveis, do um ao sete, ao oito,
e não uma morte, mas muitas mortes chegadas para cada um:
cada dia uma morte pequena, pó, verme, lâmpada
que se apaga no lodo do subúrbio uma pequena morte de asas grossas
entrava em cada homem como curta lança
e era o homem assediado pelo pão ou pela faca,
o ganadeiro: o filho dos portos, o capitão escuro do arado,
ou o roedor das ruas espessas:
todos desfaleceram esperando sua morte, sua curta morte diária:
e seu quebranto aziago de cada dia era
como uma taça negra que bebiam a tremer.




IV
A poderosa morte me convidou muitas vezes:
era como o sol invisível nas ondas,
e o que seu invisível sabor disseminava
era como metade de afundamentos e altura
ou vastas construções de vento e nevasca.


Eu ao férreo gume vim, à estreiteza
do ar, à mortalha de agricultura e pedra,
ao estelar vazio dos passos finais
e à vertiginosa estrada espiral:
porém, largo, mar, ó morte! de onda em onda não vens,
senão como um galope de claridade noturna
ou como os totais números da noite.


Nunca chegaste a vasculhar o bolso, não era
possível tua visita sem uma roupa vermelha:
sem auroral alfombra de cercado silêncio:
sem altos ou enterrados patrimônios de lágrimas.


Não pude amar em cada ser uma árvore
com seu pequeno outono às costas (a morte de mil folhas),
todas as falsas mortes e as ressurreições
sem terra, sem abismo:
quis nadar nas vidas mais largas,
nas mais desatadas desembocaduras,
e quando pouco a pouco foi o homem me negando
e foi fechando a passagem e a porta para que não tocassem
minhas mãos mananciais sua inexistência ferida,
então fui de rua em rua, de rio em rio,
de cidade em cidade, de cama em cama,
e cruzou o deserto minha máscara salobre,
e nas últimas casas humilhadas, sem lâmpada, sem fogo.

sem pão, sem pedra, sem silêncio, sozinho,
rolei morrendo de minha própria morte.




V
Não és tu, morte grave, ave de plumas férreas,
o que o pobre herdeiro das habitações
levava entre alimentos apressurados, sob a pele vazia:
era algo, uma pobre pétala de corda exterminada:
um átomo do peito que não veio ao combate
ou o áspero orvalho que não caiu no rosto.

Era o que não pôde renascer, um pedaço
da pequena morte sem paz nem território:
um osso, um sino que morriam nele.

Eu levantei as vendas do iodo, mergulhei.
as mãos
nas pobres dores que matavam a morte,
e só achei na ferida uma rajada fria
que entrava pelos vagos interstícios da alma.




VI
Então na escada de terra subi
entre o emaranhado atroz das selvas perdidas
até a ti, Machu Picchu.

Alta cidade de pedras escalares,
por fim morada do que o terrestre
não escondeu nas adormecidas vestimentas.

Em ti, como duas linhas paralelas,
o berço do relâmpago e do homem
embalavam-se num vento de espinhos.


Mãe de pedra, espuma de condores.


Alto arrecife da aurora humana.


Pá perdida na primeira areia.


Esta foi a morada, este é o lugar:
aqui os largos grãos do milho subiram
e de novo tombaram como granizo vermelho.


Aqui a fibra dourada saiu da vicunha
para vestir os amores, os túmulos, as mães,
o rei, as orações, os guerreiros.


Aqui os pés do homem descansaram à noite
junto aos pés da águia, nas altas guaridas
carniceiras, e na aurora
pisaram com os pés do trovão a névoa rarefeita,
e tocaram as terras e as pedras
até reconhecê-las na noite ou na morte.


Olho as vestes e as mãos,
o vestígio da água na cavidade sonora,
a parede suavizada pelo tato dum rosto
que olhou com os meus olhos as lâmpadas terrestres,
que aceitou com as minhas mãos as desaparecidas
madeiras: pois tudo, roupagem, pele, vasilhas,
palavras, vinho, pães,
se foi, rolou pelo chão.


E o ar entrou com dedos
de flor de laranjeira sobre todos os adormecidos:
mil anos de ar, meses, semanas de ar,
de vento azul, de cordilheira férrea,
que fora m como suaves furacões de passos
lustrando o solitário recinto da pedra.




VII
Mortos de um só abismo, sombras de uma ribanceira,
a profunda, é assim como do tamanho
de vossa magnitude,
veio a verdadeira, a mais abrasadora
morte, e das rochas verrumadas,
dos capitéis escarlates,
dos aquedutos escalares
vos desmoronastes como num outono
numa única morte.

Hoje o ar vazio já não chora,
já não conhece os vossos pés de argila,
já esqueceu vossos cântaros que filtravam o céu,
quando o derramavam os punhais do raio,
e a árvore poderosa foi comida
pela névoa, e cortada pela rajada de vento.


Ela susteve a mão que caiu de repente
das alturas até o fim do tempo.


Já não sois mãos de aranha, débeis
fibras, teia emaranhada:
caiu tudo o que fostes: costumes, sílabas
gastas, máscaras de luz deslumbrante.


Mas uma permanência de pedra e de palavra:
a cidade como um copo levantou-se nas mãos
de todos, vivos, mortos, calados, sustentados
por tanta morte, um muro, por tanta vida um golpe
de pétalas de pedra: a rosa permanente, a morada:
este arrecife andino de colônias glaciais.


Quando a mão da cor de argila
se converteu em argila, e quando as pequeninas pálpebras se fecharam
cheias de ásperos muros, povoadas de castelos,
e quando todo o homem se arredou em seu buraco,
ficou a exatidão desfraldada:
o alto local da aurora humana:
o mais alto vaso que conteve o silêncio:
uma vida de pedra depois de tantas vidas.




VIII
Sobe comigo, amor americano.

Beija comigo as pedras secretas.


A prata torrencial do Urubamba
faz voar o pólen de sua copa amarela.

Voa o vazio da trepadeira,
a planta pétrea, a grinalda dura
sobre o silêncio do caixão serrano.

Vem, minúscula vida, entre as asas
da terra, enquanto - cristal e frio, ar batido
apartando esmeraldas combatidas,
ó, água selvagem, baixas da neve.


Amor, amor, até a noite abrupta,
desde o sonoro pedernal andino
até a aurora de joelhos vermelhos,
contempla o filho cego da neve.


Ó, Wilkamayu de sonoros fios,
quando rompes teus trovões lineares
em branca espuma, como neve ferida,
quando teu vendaval escarpado
canta e castiga despertando o céu,
que idioma trazes à orelha do mal
arrancada de tua espuma andina?

Quem apresou o relâmpago do frio
e o deixou nas alturas acorrentado,
repartido em suas lágrimas glaciais,
sacudido em suas rápidas espadas,
golpeando seus estames aguerridos,
conduzido em seu leito de guerreiro,
sobressaltado em final de rocha?

Que dizem suas chispas acossadas?
Teu secreto relâmpago rebelde
viajou antes povoado de palavras?
Quem vai partindo sílabas geladas,
idiomas negros, estandartes de ouro,
bocas profundas, gritos subjugados,
em tuas delgadas águas arteriais?

Quem vai cortando pálpebras florais
que chegam para espiar da terra?
Quem precipita cachos mortos
que descem em tuas mãos de cascata
a debulhar a sua noite debulhada
no carvão da geologia?

Quem despenha o ramo dos vínculos?
Quem outra vez sepulta os adeuses?

Amor, amor, não toques na fronteira,
nem adores a cabeça submersa:
deixa que o tempo cumpra sua estatura
em seu salão de mananciais partidos,
e, entre a água veloz e as muralhas,
recolhe o ar do desfiladeiro,

as paralelas lâminas do vento,
o canal cego das cordilheiras,
a áspera saudação do orvalho
e sobe, flor por flor, pela mata
pisando a serpente despenhada.


Na escarpada zona, pedra e bosque,
pó de estrelas verdes, selva clara,
Mantur explode como um lago vivo
ou como um novo piso de silêncio.


Vem ao meu próprio ser, à minha alba,
até as soledades coroadas.

O reino morto ainda vive.


E no Relógio a sombra sangüinária
do condor cruza como uma ave negra.




IX
Águia sideral, vinha de bruma.

Bastião perdido, cimitarra cega.

Cinturão estrelado, pão solene.

Escada torrencial, pálpebra imensa.

Túnica triangular, pólen de pedra.

Lâmpada de granito, pão de pedra.

Serpente mineral, rosa de pedra.

Nave enterrada, manancial de pedra.

Cavalo da luz, luz de pedra.

Esquadra equinocial, vapor de pedra.

Geometria final, livro de pedra.

Timbale entre as lufadas lavrado.

Madrépora do tempo submerso.

Muralha peles dedos suavizada.

Teto pelas plumas combatido.

Ramos de espelho, bases de tormenta.

Tronos revirados pelas trepadeiras.

Regime de garra encarniçada.

Vendaval sustentado na vertente.

Imóvel catarata de turquesa.

Sino patriarcal dos adormecidos.

Anel das neves dominadas.

Ferro deixado sobre suas estátuas.


Inacessível temporal fechado.

Mãos de puma, rocha sanguinária.

Torre encapelada, discussão de neve.

Noite erguida em dedos e raízes.

Janela das névoas, pomba endurecida.

Planta noturna, estátua dos trovões.

Cordilheira essencial, teto marinho.

Arquitetura de águias perdidas.

Corda do céu, abelha das alturas.

Nível sangrento, estrela construída.

Borbulha mineral, lua de quartzo.

Serpente andina, rosto de amaranto.

Cúpula de silêncio, pátria pura.

Noiva do mar, árvore de catedrais.

Ramo de sal, cerejeira de asas negras.

Dentadura nevada, trovão frio.

Lua arranhada, pedra ameaçadora.

Cabeleira do frio, ação do ar.

Vulcão de mãos, catarata escura.

Onda de prata, direção do tempo.




X
Pedra sobre pedra, o homem, onde esteve?
Ar no ar, o homem, onde esteve?
Tempo no tempo, o homem, onde esteve?
Foste também o pedacinho partido
do homem inconcluso, de águia vazia
que pelas ruas de hoje, que pelas pegadas,
que pelas folhas do outono morto
vai remoendo a alma até o túmulo?
A pobre mão, o pé, a pobre vida .
.
.

Os dias da luz desfiada
em ti, como a chuva
sobre as bandeirinhas das festas,
deram pétala por pétala de seu alimento escuro
na boca vazia?

Fome, coral do homem,
Fome, planta secreta, raiz dos lenhadores,
fome subiu a tua arraia de arrecife
até estas altas torres desprendidas?

Eu te interrogo, sal dos caminhos,
mostra-me a colher, deixa-me, arquitetura,
roer com um palito os estames de pedra,
subir todos os degraus do ar até o vazio,
esfregar a entranha até tocar o homem.


Machu Picchu, puseste
pedras na pedra, e na base, um trapo?
Carvão sobre carvão, e no fundo a lágrima?
Fogo no ouro, e nele, tremendo, o rubro
goteirão do sangue?
Devolve-me o escravo que enterraste!
Arroja das terras o pão duro
dos miseráveis, mostra-me as vestes
do servo e sua janela.

Dize-me como dormiu quando vivia.

Dize-me se foi seu sonho
rouco, entreaberto, como um oco negro
feito pela fadiga sobre o muro.

O muro, o muro! Se sobre o seu sonho
gravitou cada piso de pedra, e se caiu debaixo dela
como debaixo de uma lua, com o sonho!
Antiga América, noiva submersa,
também teus dedos
ao saírem da selva para o alto vazio dos deuses,
sob os estandartes da luz nupcial c do decoro.

mesclando-se ao ribombo dos tambores e das lanças,
também, também os teus dedos,
os que a rosa abstrata e a linha do frio, os
que o peito sangrento do novo cereal trasladaram
até a teia de matéria radiante, até as duras cavidades,
também, também, América enterrada, guardaste no mais baixo,
no amargo intestino, como uma águia, a fome?



XI
Através do confuso esplendor,
através da noite de pedra, deixa-me enfiar a mão
e deixa que em mim palpite, como ave mil anos prisioneira,
o velho coração do esquecido!
Deixa-me esquecer hoje esta sorte mais vasta que o mar,
pois o homem é mais vasto que o mar e suas ilhas,
e há que cair dentro como dentro dum poço para subir do fundo
com um ramo de água secreta e de verdades submersas.

Deixa-me esquecer, pedra vasta, a proporção poderosa,
a transcendente medida, as pedras da colméia,
e do esquadro deixa-me hoje roçar
a mão sobre a hipotenusa de áspero sangue e cilício.

Quando, qual uma ferradura de élitros rubros, o condor furibundo
me golpeia as têmporas na ordem do vôo
e furacão de plumas carniceiras varre a poeira sombria
das escalinatas diagonais, não vejo o bicho feroz,
não vejo o cego ciclo de suas garras,
vejo o antigo ser, servidor, o adormecido
nos campos, vejo um corpo, mil corpos, um homem, mil mulheres.

sob a rajada negra, negros de chuva c de noite,
com a pedra pesada da estátua:
Juan Cortapiedras, filho de Wiracocha,
Juan Comefrío, filho de estrela verde,
Juan Piesdescalzos, neto de turquesa,
sobe para nascer comigo, irmão.
2 942 2
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,

DOIS EXCERTOS DE ODES
(FINS DE DUAS ODES, NATURALMENTE)

I
....................................................................

Vem, Noite antiquíssima e idêntica.
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faz da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe,
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo,
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.

Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados.
Mão fresca sobre a testa em febre dos Humildes.
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde – quem sabe? – Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...

Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil.

Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente com um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

A lua começa a ser real.


II

Ah, o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades

E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exacta e precisa e activa da Vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó do «Sentimento de um Ocidental»!

Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas,
Que nem são países, nem momentos, nem vidas,
Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
Humedece interiormente o instante lento e longínquo!

Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
Como um mendigo de sensações impossíveis
Que não sabe quem lhas possa dar...

Quando eu morrer,
Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,
Por aquele caminho cuja ideia se não pode encarar de frente,
Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos,
Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece,
Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,
Por este hora mística e espiritual e antiquíssima,
Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,
Platão sonhando viu a ideia de Deus
Esculpir corpo e existência nitidamente plausível
Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.

Seja por esta hora que me leveis a enterrar,
Por esta hora que eu não sei como viver,
Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,
Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,
Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,
Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível
Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.

Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
Olha-me em silêncio e em segredo e pergunto a ti própria
– Tu que me conheces – quem eu sou...


30/06/1914 (publicado na Revista de Portugal, nº 4, Julho de 1938)
4 303 3
Matilde Campilho

Matilde Campilho

Principado Extinto

Isto é um poema
fala de amor
ou do medo do amor
Fala da morte
ou do fim da amálgama
rosto voz alma e cheiro
que é a morte
Isto é um poema
tenha medo
Fala dos peregrinos
que atravessam avenidas
de sobretudo e óculos
carregando flores invisíveis
e chorando mudos
Isto aqui é um poema
fala da permanência inútil
de um coração devastado
de uma floresta devastada
de uma corrida devastada
logo depois do disparo
da arma de 40 peças
que soltou a bandeirinha
e assim mesmo se desfez
Isto é um poema
fala da aparição do inverno
fala da fuga dos albatrozes

fala do punhal sobre a mesa
e do absurdo do punhal
feito de madeira e pedra
sobre a mesa do jantar
Fala do poder da erosão
que afinal incide sobre
pele e nervo e osso e olho
Fala do desaparecimento
Fala do desaparecimento
Claro que é um poema
fala do toque de saída
no colégio de Île de France
e das 39 saias das meninas
esvoaçando sem vontade
na direção do cais de ferro
Fala do pânico do corpo
que esbarra em si mesmo
no espelho pela manhã
e do urro silencioso
que nenhum vizinho
escuta mas que ainda
assim reverbera sem dó
até a hora final
fala do vômito que advém
dos gestos repetidos

prolongados assim ad astra
até que o sono apague tudo
Fala da palavra saudade
ou da palavra terremoto
fala do olho que tudo via
deixando lentamente de ver
até mesmo a cara de Jack Steam
o porteiro da loja de discos
onde toca a canção de Chavela
Nada mais no mundo importa
Isto é que é poema
Fala do cheiro das flores
e da injustiça da existência
das flores na cidade
Fala da dor excruciante
meu bem excruciante
que faz até desejar
o fim do poema
o fim da palavra amor
que após o disparo
se espelha apenas
na palavra loucura.
1 198 2
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema Quase Feito

eu vejo você bebendo numa fonte com suas
minúsculas mãos azuis, não, suas mãos não são minúsculas
elas são pequenas e a fonte é na França
de onde você me escreveu aquela última carta e
eu respondi e nunca mais obtive retorno.
você costumava escrever poemas insanos sobre
ANJOS E DEUS, tudo em caixa alta, e você
conhecia artistas famosos e muitos deles
eram seus amantes, e eu escrevia de volta, está tudo bem,
vá em frente, entre na vida deles, não sou ciumento
porque nós nem nos conhecemos. estivemos perto uma
[vez em
New Orleans, metade de uma quadra, mas nunca nos
[encontramos,
nunca um contato. assim você seguiu com os famosos,
[escreveu
sobre os famosos, e, claro, descobriu que os famosos
estavam preocupados com a fama deles – não com a jovem e
bela garota em suas camas, que lhes dava aquilo, e
[que acordava
de manhã para escrever em caixa alta poemas sobre
ANJOS E DEUS. nós sabemos que Deus está morto, eles nos
[disseram,
mas ao ouvi-la eu já não tinha certeza. talvez
fosse a caixa alta. você era uma das melhores poetas e eu disse para os editores, “publiquem-na, publiquem-na,
[ela é louca mas é
mágica. não há mentira em seu fogo”. eu te amei
como um homem ama uma mulher que jamais tocou,
[para
quem apenas
escreveu, de quem manteve algumas fotografias. eu poderia
[ter te
amado mais se eu tivesse sentado numa pequena sala
[enrolando um
cigarro e ouvindo você mijar no banheiro,
mas isso não aconteceu. suas cartas ficaram mais tristes.
seus amantes te traíram. criança, escrevi de volta, todos os
amantes traem. isso não ajudou. você disse
que tinha um banco em que ia chorar e que ficava numa
[ponte
e a ponte ficava sobre um rio e você sentava no seu banco de
[chorar
todas as noites e descia o pranto pelos amantes que
te machucaram e te esqueceram. escrevi de volta mas não
[obtive
qualquer retorno. um amigo me escreveu contando do seu
[suicídio
3 ou 4 meses depois de consumado. se eu tivesse te
[conhecido
provavelmente teria sido injusto com você ou você comigo. foi mesmo melhor assim.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Edifício Esplendor

Na areia da praia
Oscar risca o projeto.
Salta o edifício
da areia da praia.

No cimento, nem traço
da pena dos homens.
As famílias se fecham
em células estanques.

O elevador sem ternura
expele, absorve
num ranger monótono
substância humana.

Entretanto há muito
se acabaram os homens.
Ficaram apenas
tristes moradores.

ii

A vida secreta da chave.
Os corpos se unem e
bruscamente se separam.

O copo de uísque e o blue
destilam ópios de emergência.
Há um retrato na parede,
um espinho no coração,
uma fruta sobre o piano
e um vento marítimo com cheiro de peixe, tristeza, viagens...

Era bom amar, desamar,
morder, uivar, desesperar,
era bom mentir e sofrer.
Que importa a chuva no mar?
a chuva no mundo? o fogo?
Os pés andando, que importa?
Os móveis riam, vinha a noite,
o mundo murchava e brotava
a cada espiral de abraço.

E vinha mesmo, sub-reptício,
em momentos de carne lassa,
certo remorso de Goiás.
Goiás, a extinta pureza...

O retrato cofiava o bigode.

iii

Oh que saudades não tenho
de minha casa paterna.
Era lenta, calma, branca,
tinha vastos corredores
e nas suas trinta portas
trinta crioulas sorrindo,
talvez nuas, não me lembro.

E tinha também fantasmas,
mortos sem extrema-unção,
anjos da guarda, bodoques
e grandes tachos de doce
e grandes cismas de amor,
como depois descobrimos.

Chora, retrato, chora.
Vai crescer a tua barba
neste medonho edifício
de onde surge tua infância
como um copo de veneno.

iv

As complicadas instalações do gás,
úteis para suicídio,
o terraço onde camisas tremem,
também convite à morte,
o pavor do caixão
em pé no elevador,
o estupendo banheiro
de mil cores árabes,
onde o corpo esmorece
na lascívia frouxa
da dissolução prévia.
Ah, o corpo, meu corpo,
que será do corpo?
Meu único corpo,
aquele que eu fiz
de leite, de ar,
de água, de carne,
que eu vesti de negro,
de branco, de bege,
cobri com chapéu,
calcei com borracha,
cerquei de defesas,
embalei, tratei?
Meu coitado corpo
tão desamparado
entre nuvens, ventos,
neste aéreo living!

v

Os tapetes envelheciam
pisados por outros pés.

Do cassino subiam músicas
e até o rumor de fichas.

Nas cortinas, de madrugada,
a brisa pousava. Doce.

A vida jogada fora
voltava pelas janelas.

Meu pai, meu avô, Alberto...
Todos os mortos presentes.

Já não acendem a luz
com suas mãos entrevadas.

Fumar ou beber: proibido.
Os mortos olham e calam-se.

O retrato descoloria-se,
era superfície neutra.

As dívidas amontoavam-se.
A chuva caiu vinte anos.

Surgiram costumes loucos
e mesmo outros sentimentos.

— Que século, meu Deus! diziam os ratos.
E começavam a roer o edifício.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Desenredo

Grande admiração me causam os navios
e a letra de certas pessoas que esforço por imitar.
Dos meus, só eu conheço o mar.
Conto e reconto, eles dizem ‘ahn’.
E continuam cercando o galinheiro de tela.
Falo da espuma, do tamanho cansativo das águas,
eles nem lembram que tem o Quênia,
nem de leve adivinham que estou pensando em Tanzânia.
Afainosos me mostram o lote: aqui vai ser a cozinha,
logo ali a horta de couve.
Não sei o que fazer com o litoral.
Fazia tarde bonita quando me inseri na janela, entre meus
[tios,
e vi o homem com a braguilha aberta,
o pé de rosa-doida enjerizado de rosas.
Horas e horas conversamos inconscientemente em
[português
como se fora esta a única língua do mundo.
Antes e depois da fé eu pergunto cadê os meus que se
[foram,
porque sou humana, com capricho tampo o restinho de
[molho na panela.
Saberemos viver uma vida melhor que esta,
quando mesmo chorando é tão bom estarmos juntos?
Sofrer não é em língua nenhuma.
Sofri e sofro em Minas Gerais e na beira do oceano.
Estarreço de estar viva. Ó luar do sertão,
ó matas que não preciso ver pra me perder,
ó cidades grandes, estados do Brasil que amo como se os
[tivesse inventado.
Ser brasileiro me determina de modo emocionante
e isto, que posso chamar de destino, sem pecar,
descansa meu bem-querer.
Tudo junto é inteligível demais e eu não suporto.
Valha-me noite que me cobre de sono.
O pensamento da morte não se acostuma comigo.
Estremecerei de susto até dormir.
E no entanto é tudo tão pequeno.
Para o desejo do meu coração
o mar é uma gota.
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

Os virgens

Sou virgem e meu signo é Leão. Sou casada e sou virgem, tenho filhos e sou virgem. Tão virgem quanto você.

Quando falamos em virgindade, logo pensamos em sexo, e a partir do dia que o experimentamos, o mundo parece perder seu mistério maior. Não somos mais virgens - que grande ilusão de maturidade.

Virgindade é um conceito um tanto mais elástico. Somos virgens antes de voltar sozinhos do colégio pela primeira vez. Somos virgens antes do primeiro gole de vinho. Somos virgens antes de conhecer Nova York. Somos virgens antes do primeiro salário. E podemos já estar transando há anos e permanecermos virgens diante de um novo amor.

Por mais que já tenhamos amado e odiado, por mais que tenhamos sido rejeitados, descartados, seduzidos, conquistados, não há experiência amorosa que se repita, pois são variadas as nossas paixões e diferentes as nossas etapas, e tudo isso nos torna novatos. 

As dores, também elas, nos pegam despreparadas. A dor de perder um amigo não é a mesma de perder um carro num assalto, que por sua vez não é a mesma de perder a oportunidade de se declarar para alguém, que por outro lado difere da dor de perder o emprego. Somos sempre surpreendidos pelo que ainda não foi vivido. 

Mesmo no sexo, somos virgens diante de um novo cheiro, de um novo beijo, de um fetiche ainda não realizado. Se ainda não usamos uma lingerie vermelha, se ainda não fizemos amor dentro do mar, se ainda cultivamos alguns tabus, que espécie de sabe-tudo somos nós? 

Eu ainda sou virgem da neve, que já vi estática em cima das montanhas, mas nunca vi cair. Sou virgem do Canadá, da Turquia, da Polinésia. Sou virgem de helicóptero, Jack Daniels, revólver, análise, transa em elevador, LSD, Harley Davidson, cirurgia, rafting, show do Neil Yong, siso e passeata. A virgindade existencial nos acompanha até o fim dos nossos dias, especialmente no último, pois somos todos castos frente à morte, nossa derradeira experiência inédita. Enquanto ela não chega, é bom aproveitar cada minuto dessa nossa inocência frente ao desconhecido, pois é uma aventura tão excitante quanto o sexo e não tem idade pra acontecer.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Vôo Sobre As Igrejas

Vamos até à Matriz de Antônio Dias
onde repousa, pó sem esperança, pó sem lembrança, o Aleijadinho.
Vamos subindo em procissão a lenta ladeira.
Padres e anjos, santos e bispos nos acompanham
e tornam mais rica, tornam mais grave a romaria de assombração.

Mas já não há fantasmas no dia claro,
tudo é tão simples,
tudo tão nu,
as cores e cheiros do presente são tão fortes e tão urgentes
que nem se percebem catingas e rouges, boduns e ouros do século 18.

Vamos subindo, vamos deixando a terra lá em baixo.
Nesta subida só serafins, só querubins fogem conosco,
de róseas faces, de nádegas róseas e rechonchudas,
empunham coroas, entoam cantos, riscam ornatos no azul autêntico.

Este mulato de gênio
lavou na pedra-sabão
todos os nossos pecados,
as nossas luxúrias todas,
e esse tropel de desejos,
essa ânsia de ir para o céu
e de pecar mais na terra;
esse mulato de gênio
subiu nas asas da fama,
teve dinheiro, mulher,
escravo, comida farta,
teve também escorbuto
e morreu sem consolação.

Vamos subindo nessa viagem, vamos deixando
na torre mais alta o sino que tange, o som que se perde,
devotas de luto que batem joelhos, o sacristão que limpa os altares,
os mortos que pensam, sós, em silêncio, nas catacumbas e sacristias,
São Jorge com seu ginete,
o deus coberto de chagas, a virgem cortada de espadas,
e os passos da paixão, que jazem inertes na solidão.

Era uma vez um Aleijadinho,
não tinha dedo, não tinha mão,
raiva e cinzel, lá isso tinha,
era uma vez um Aleijadinho,
era uma vez muitas igrejas
com muitos paraísos e muitos infernos,
era uma vez São João, Ouro Preto,
Mariana, Sabará, Congonhas,
era uma vez muitas cidades
e o Aleijadinho era uma vez.
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Manuel António Pina

Manuel António Pina

Separação do corpo


O corpo tem abóbodas onde soam os
sentidos se tocados de leve ecoando longamente
como memórias de outra vida.
O passado não está ainda pronto para nós,
nem o futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue, nervos,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.

Lemos de mais e escrevemos de mais,
e afastámo-nos de mais - pois o preço
era muito alto para o que podíamos pagar -
do silêncio das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto. E, quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o mais que conseguimos.

A beleza do corpo amado é, eu sei,
lixo orgânico; e usura, de novo usura;
com o oiro e com o mármore
dos dias harmoniosos construímos
quartos de banho e balcões de bancos;
e grandes gestos, agora, nem nos romances,
quanto mais nos versos! E de amor
melhor é não falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.

Corpo, corpo, porque me abandonaste?
"Tomai e comei", pois sim, mas quando
a química não chega para adormecer
a que divindades nos acolheremos
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta História,
tanta Psicologia e tanta Antropologia?
A memória, sem o corpo, não cintila nem exalta
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos enfim calar-nos
sem temer a solidão nem a culpa
porque já não há tais palavras.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 312 e 313 | Assírio & Alvim, 2012
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