Poemas neste tema
Paixão
Herberto Helder
11
cabelos amarrados quentes que se desamarram,
oh quero-te em volta de luz batida,
em língua máxima,
a floração devora as varas,
o ar que se empolga devora-te a obra mulheril,
uns palmos de sangue até à boca sôfrega,
e depois desmanchas-te
oh quero-te em volta de luz batida,
em língua máxima,
a floração devora as varas,
o ar que se empolga devora-te a obra mulheril,
uns palmos de sangue até à boca sôfrega,
e depois desmanchas-te
629
Herberto Helder
12
sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria
1 087
Herberto Helder
18
porque estremeço à maravilha da volta com que tiras o vestido por
cima da cabeça,
coluna de fogo,
pela minha morte acima
cima da cabeça,
coluna de fogo,
pela minha morte acima
1 125
Herberto Helder
Tríptico - I
Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
E o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
E o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.
1 802
Herberto Helder
Petite Pute Deitada Toda Nua Sobre a Cama À Espera
l’amour la mort
petite pute deitada toda nua sobre a cama à espera,
e inexplicavelmente eu entro nela de corpo inteiro e idade inteira
petite pute deitada toda nua sobre a cama à espera,
e inexplicavelmente eu entro nela de corpo inteiro e idade inteira
1 198
Herberto Helder
E Eu Que Sopro E Envolvo Teu Corpo Tremulamente
e eu que sopro e envolvo teu corpo tremulamente intacto com meu
corpo de bode coroado
fedendo a testosterona e sangue,
num mundo de aromas e de orvalho,
farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome,
e se brotas em tua donzelia e és ao modo de festejo,
e de minha bruteza te encurvas tanto que te sussurro um poema de
louvação e embalo,
tão soluto e agudo e soberano,
algures, quando
a água quebre e os verbos soberbos cantem,
e tudo se desfaça,
e refaça,
não como soía,
mas com um assombro novo:
faz-se-me tarde para o poema das frutas que de macias se fendem e
fundem nas gengivas,
e no ímpeto da luz rasgada em baixo,
cômo-te antes que morra:
e eu sei quanto depressa morro
corpo de bode coroado
fedendo a testosterona e sangue,
num mundo de aromas e de orvalho,
farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome,
e se brotas em tua donzelia e és ao modo de festejo,
e de minha bruteza te encurvas tanto que te sussurro um poema de
louvação e embalo,
tão soluto e agudo e soberano,
algures, quando
a água quebre e os verbos soberbos cantem,
e tudo se desfaça,
e refaça,
não como soía,
mas com um assombro novo:
faz-se-me tarde para o poema das frutas que de macias se fendem e
fundem nas gengivas,
e no ímpeto da luz rasgada em baixo,
cômo-te antes que morra:
e eu sei quanto depressa morro
1 198
Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 2
Os braços arvorados acima do trono, Com um rasgão luminoso
movido tudo
a uma potência orgânica de astro:
astro
pleno,
Ameaça de desordem sobre uma trama exacta
de números
de gramática, Se dessa pauta se arrebatasse
a cerrada ligeireza
da dança, Inominável sistema
de peso e graça, Se a matéria crescesse
fincada
num tendão, Pela abertura fortemente
entre os nervos: pelos membros
se gerasse pulsando a forma, E uma
soberania formal
ardesse pelo meio, Os dedos:
uma estrela poderosa, Toco-te cheia
de fósforo
de sangue
de força eléctrica, A lua que é o fundamento,
O halo da tua onda
de oxigénio: de seda, Urdes a brancura
que te urde
o sono: que te acorda
em sobressalto atravessada
pelos relâmpagos, És o teu próprio nexo,
Toco-te apenas,
Suor:
tensão: o diamante que toco:
tacto contra tacto:
a língua
presa por uma veia negra: o odor: o bafo
-toco-te,
E moves-te como
uma porta tocada no fecho: apenas
como
um astro transbordante: palpitas apenas como uma
pálpebra sobre o mundo:
ou uma luz sem pálpebras
que te olha e olha, Respiras apenas:
pulmão
do quarto afogado: pulmão
árduo, Apenas
ferida perpétua: fluxo: púrpura ardida
— ó raiz transpirada dos meus braços
movido tudo
a uma potência orgânica de astro:
astro
pleno,
Ameaça de desordem sobre uma trama exacta
de números
de gramática, Se dessa pauta se arrebatasse
a cerrada ligeireza
da dança, Inominável sistema
de peso e graça, Se a matéria crescesse
fincada
num tendão, Pela abertura fortemente
entre os nervos: pelos membros
se gerasse pulsando a forma, E uma
soberania formal
ardesse pelo meio, Os dedos:
uma estrela poderosa, Toco-te cheia
de fósforo
de sangue
de força eléctrica, A lua que é o fundamento,
O halo da tua onda
de oxigénio: de seda, Urdes a brancura
que te urde
o sono: que te acorda
em sobressalto atravessada
pelos relâmpagos, És o teu próprio nexo,
Toco-te apenas,
Suor:
tensão: o diamante que toco:
tacto contra tacto:
a língua
presa por uma veia negra: o odor: o bafo
-toco-te,
E moves-te como
uma porta tocada no fecho: apenas
como
um astro transbordante: palpitas apenas como uma
pálpebra sobre o mundo:
ou uma luz sem pálpebras
que te olha e olha, Respiras apenas:
pulmão
do quarto afogado: pulmão
árduo, Apenas
ferida perpétua: fluxo: púrpura ardida
— ó raiz transpirada dos meus braços
1 192
Fernão Rodrigues Lobo Soropita
A umas lágrimas de uma despedida
Quando de ambos os céus caindo estava
O rico orvalho, em pérolas formado,
E sobre as frescas rosas derramado,
Igual beleza recebia e dava.
Amor que sempre ali presente estava,
Como competidor de meu cuidado,
Num vaso de cristal de ouro lavrado
As gotas uma a uma entesourava.
Eu, c’os olhos na luz, que aquele dia,
Entre as nuvens do novo sentimento,
Escassamente os raios descobria,
Se me matar (dizia) apartamento,
Ao menos não fará que esta alegria
Não seja paga igual de meu tormento.
O rico orvalho, em pérolas formado,
E sobre as frescas rosas derramado,
Igual beleza recebia e dava.
Amor que sempre ali presente estava,
Como competidor de meu cuidado,
Num vaso de cristal de ouro lavrado
As gotas uma a uma entesourava.
Eu, c’os olhos na luz, que aquele dia,
Entre as nuvens do novo sentimento,
Escassamente os raios descobria,
Se me matar (dizia) apartamento,
Ao menos não fará que esta alegria
Não seja paga igual de meu tormento.
716
Eduardo Pitta
Temos das coisas a lembrança das viagens
Temos das coisas a lembrança das viagens
ignotas. E o sentido delas estilhaça
no primeiro espelho da memória.
Como aquelas noites muito brancas
povoadas de crimes inenarráveis.
Também as nossas mãos, vorazes,
tacteiam um percurso de sangue:
o de inquestionáveis desígnios do amor.
ignotas. E o sentido delas estilhaça
no primeiro espelho da memória.
Como aquelas noites muito brancas
povoadas de crimes inenarráveis.
Também as nossas mãos, vorazes,
tacteiam um percurso de sangue:
o de inquestionáveis desígnios do amor.
512
Matilde Campilho
I´Ll Have What She´S Having
nunca vou ser bom para ti
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
975
Pedro Amigo de Sevilha
Sei Eu, Donas, Que Nom Quer Tam Gram Bem
Sei eu, donas, que nom quer tam gram bem
hom'outra dona com'a mi o meu
amigo quer; ca, porque lhi dix'eu
"Nom me veredes já mais des aqui",
desmaiou logo bem ali por en,
e houve log'i a morrer por mim.
Porque lhi dixi que nunca veer-
-me poderia, quis por en morrer;
e fui alá e achei-o jazer
sem fala já, e houv'en gram pesar
e falei-lh'[e] houve-mi a conhocer
e diss': "Oí ũa dona falar?"
Dix'eu: "Oístes", já polo guarir,
e guareceu; maila que vos disser
que ama tant[o] hom'outra molher
mentir-vos-á, ca já x'o el provou
com quantas viu e achou: as partir
todas d'amor, e assi as leixou.
E bem vos poss'eu em salvo jurar
que outr'home vivo nom sab'amar
dereitamente; ca, por me provar,
veerom outros em mim entender
se poderiam de mim guaanhar,
mais nom poderom de mim rem haver.
Mais aquel que [mi] tam de coraçom
quer bem, par Deus, mal seria se nom
o guarisse, pois por mi quis morrer.
hom'outra dona com'a mi o meu
amigo quer; ca, porque lhi dix'eu
"Nom me veredes já mais des aqui",
desmaiou logo bem ali por en,
e houve log'i a morrer por mim.
Porque lhi dixi que nunca veer-
-me poderia, quis por en morrer;
e fui alá e achei-o jazer
sem fala já, e houv'en gram pesar
e falei-lh'[e] houve-mi a conhocer
e diss': "Oí ũa dona falar?"
Dix'eu: "Oístes", já polo guarir,
e guareceu; maila que vos disser
que ama tant[o] hom'outra molher
mentir-vos-á, ca já x'o el provou
com quantas viu e achou: as partir
todas d'amor, e assi as leixou.
E bem vos poss'eu em salvo jurar
que outr'home vivo nom sab'amar
dereitamente; ca, por me provar,
veerom outros em mim entender
se poderiam de mim guaanhar,
mais nom poderom de mim rem haver.
Mais aquel que [mi] tam de coraçom
quer bem, par Deus, mal seria se nom
o guarisse, pois por mi quis morrer.
412
Martim Soares
O Que Conselh'a Mim de M'eu Quitar
O que conselh'a mim de m'eu quitar
de mia senhor, porque me nom faz bem,
e me por tam poderos'ora tem
de m'en partir, nunca el houv'amor
qual hoj'eu hei, nem viu esta senhor
com que Amor fez a mim començar.
Mais non'a viu e vai-mi agora dar
tal conselho, em que perde seu sem;
ca, se a vir ou lha mostrar alguém,
bem me faç'eu d'atanto sabedor:
que me terrá mia morte por melhor
ca me partir do seu bem desejar.
Ca, se el vir o seu bom semelhar,
desta dona por que mi a mi mal vem,
nom m'ar terrá que m'eu possa per rem
dela partir, enquant'eu vivo for,
nem que m'end'eu tenha por devedor,
nem outr'home que tal senhor amar.
E pois la vir, se poder-s'i guardar
de lh'aviir com'end'a mim avém,
bem terrei eu que escapará en;
mais d'ũa rem hei ora gram pavor:
des que a vir, este conselhador
de nom poder mim nem si conselhar.
de mia senhor, porque me nom faz bem,
e me por tam poderos'ora tem
de m'en partir, nunca el houv'amor
qual hoj'eu hei, nem viu esta senhor
com que Amor fez a mim començar.
Mais non'a viu e vai-mi agora dar
tal conselho, em que perde seu sem;
ca, se a vir ou lha mostrar alguém,
bem me faç'eu d'atanto sabedor:
que me terrá mia morte por melhor
ca me partir do seu bem desejar.
Ca, se el vir o seu bom semelhar,
desta dona por que mi a mi mal vem,
nom m'ar terrá que m'eu possa per rem
dela partir, enquant'eu vivo for,
nem que m'end'eu tenha por devedor,
nem outr'home que tal senhor amar.
E pois la vir, se poder-s'i guardar
de lh'aviir com'end'a mim avém,
bem terrei eu que escapará en;
mais d'ũa rem hei ora gram pavor:
des que a vir, este conselhador
de nom poder mim nem si conselhar.
361
Lourenço
Amiga, Des Que Meu Amigo Vi
Amiga, des que meu amigo vi,
el por mi morr'e eu ando des i
namorada.
Des que o vi primeir'e lhi falei
el por mi morre e eu del fiquei
namorada.
Des que nos vimos, assi nos avém:
el por mi morr'e eu ando por en
namorada.
Des que nos vimos, vêde'lo que faz:
el por mi morr'e eu and[o] assaz
namorada.
el por mi morr'e eu ando des i
namorada.
Des que o vi primeir'e lhi falei
el por mi morre e eu del fiquei
namorada.
Des que nos vimos, assi nos avém:
el por mi morr'e eu ando por en
namorada.
Des que nos vimos, vêde'lo que faz:
el por mi morr'e eu and[o] assaz
namorada.
713
João Lobeira
Senhor Genta
Senhor genta,
mi tormenta
voss'amor em guisa tal,
que tormenta
que eu senta
outra nom m'é bem nem mal
- mais la vossa m'é mortal!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Das que vejo
nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom
- senhor do meu coraçom!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Mia ventura
em loucura
me meteu de vos amar:
é loucura
que me dura,
que me nom posso en quitar
- ai fremosura sem par!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
mi tormenta
voss'amor em guisa tal,
que tormenta
que eu senta
outra nom m'é bem nem mal
- mais la vossa m'é mortal!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Das que vejo
nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom
- senhor do meu coraçom!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Mia ventura
em loucura
me meteu de vos amar:
é loucura
que me dura,
que me nom posso en quitar
- ai fremosura sem par!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
610
João Garcia de Guilhade
Amigos, Nom Poss'eu Negar
Amigos, nom poss'eu negar
a gram coita que d'amor hei,
ca me vejo sandeu andar,
e com sandece o direi:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
Pero quem quer x'entenderá
aquestes olhos quaes som,
e dest'alguém se queixará;
mais eu, já quer moira quer nom:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
Pero nom devia a perder
home que já o sem nom há
de com sandece rem dizer,
e com sandece dig'eu já:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
a gram coita que d'amor hei,
ca me vejo sandeu andar,
e com sandece o direi:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
Pero quem quer x'entenderá
aquestes olhos quaes som,
e dest'alguém se queixará;
mais eu, já quer moira quer nom:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
Pero nom devia a perder
home que já o sem nom há
de com sandece rem dizer,
e com sandece dig'eu já:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
900
João Garcia de Guilhade
Amigos, Quero-Vos Dizer
Amigos, quero-vos dizer
a mui gram coita 'm que me tem
ũa dona que quero bem,
e que me faz ensandecer;
e, catando pola veer,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu.
E já m'eu conselho nom sei,
ca já o meu adubad'é,
e sei mui bem, per bõa fé,
que já sempr'assi andarei:
catando se a veerei,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu.
E já eu nom posso chorar,
ca já chorand'ensandeci,
e faz-mi amor andar assi
como me veedes andar:
catando per cada logar,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu.
E já o nom posso negar:
alguém me faz assi andar.
a mui gram coita 'm que me tem
ũa dona que quero bem,
e que me faz ensandecer;
e, catando pola veer,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu.
E já m'eu conselho nom sei,
ca já o meu adubad'é,
e sei mui bem, per bõa fé,
que já sempr'assi andarei:
catando se a veerei,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu.
E já eu nom posso chorar,
ca já chorand'ensandeci,
e faz-mi amor andar assi
como me veedes andar:
catando per cada logar,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu,
assi and'eu, assi and'eu.
E já o nom posso negar:
alguém me faz assi andar.
714
João Airas de Santiago
Quer Meu Amigo de Mi Um Preito
Quer meu amigo de mi um preito
que el já muitas vezes quisera:
que lhi faça bem; e já temp'era,
mas, como quer que seja meu feito,
farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
mais nom tam cedo com'el querria.
E digam-lhi por mi que nom tenha
que lho vou eu por mal demorando,
ca el anda-se de mi queixando,
mais, como quer que depois [mi] venha,
farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
mais nom tam cedo com'el querria.
El é por mi atam namorado
e meu amor o traj'assi louco
que se nom pod'atender um pouco,
mais, tanto que eu haja guisado,
farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
mais nom tam cedo com'el querria.
E, como quer que fosse, el querria
haver já bem de mim todavia.
E bem sei del que nom cataria
o que m'end'a mim depois verria.
que el já muitas vezes quisera:
que lhi faça bem; e já temp'era,
mas, como quer que seja meu feito,
farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
mais nom tam cedo com'el querria.
E digam-lhi por mi que nom tenha
que lho vou eu por mal demorando,
ca el anda-se de mi queixando,
mais, como quer que depois [mi] venha,
farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
mais nom tam cedo com'el querria.
El é por mi atam namorado
e meu amor o traj'assi louco
que se nom pod'atender um pouco,
mais, tanto que eu haja guisado,
farei-lh'eu bem, par Santa Maria,
mais nom tam cedo com'el querria.
E, como quer que fosse, el querria
haver já bem de mim todavia.
E bem sei del que nom cataria
o que m'end'a mim depois verria.
583
João Airas de Santiago
Vedes, Amigo, Ond'hei Gram Pesar
Vedes, amigo, ond'hei gram pesar:
sei muitas donas que sabem amar
seus amigos e soem-lhis falar
e nom lho sabem, assi lhis avém;
e nós sol que o queiramos provar,
log'é sabud'e nom sei eu per quem.
Tal dona sei eu, quando quer veer
seu amigo, a que sabe bem querer,
que lho nom podem per rem entender
o[s] que cuidam que a guarda[m] mui bem;
e nós sol que o queiramos fazer,
log'é sabud'e nom sei eu per quem.
Com'eu querria, nom se guis'assi:
falar vosco, que morredes por mi,
com'outras donas falam, e des i
nunca lhis mais podem entender rem;
e nós [sol] ante que cheguemos i,
log'é sabud'e nom sei eu per quem.
Coita lhi venha qual ora a nós vem
per quem nos a nós tod'este mal vem.
sei muitas donas que sabem amar
seus amigos e soem-lhis falar
e nom lho sabem, assi lhis avém;
e nós sol que o queiramos provar,
log'é sabud'e nom sei eu per quem.
Tal dona sei eu, quando quer veer
seu amigo, a que sabe bem querer,
que lho nom podem per rem entender
o[s] que cuidam que a guarda[m] mui bem;
e nós sol que o queiramos fazer,
log'é sabud'e nom sei eu per quem.
Com'eu querria, nom se guis'assi:
falar vosco, que morredes por mi,
com'outras donas falam, e des i
nunca lhis mais podem entender rem;
e nós [sol] ante que cheguemos i,
log'é sabud'e nom sei eu per quem.
Coita lhi venha qual ora a nós vem
per quem nos a nós tod'este mal vem.
546
João Baveca
Muitos Dizem Que Gram Coita D'amor
Muitos dizem que gram coita d'amor
os faz em mais de mil guisas cuidar,
e devo-m'eu dest'a maravilhar:
que por vós moir'e nom cuido, senhor,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
E se hoj'homem há cuidados, bem sei,
se per coita d'amor ham de seer,
que eu devia cuidados haver;
pero, senhor, nunca em al cuidei,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
Ca me coita voss'amor assi
que nunca dórmi[o], se Deus mi perdom,
e cuido sempre no meu coraçom,
pero nom cuid'[em] al, des que vos vi,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
E d'amor sei que nulh'homem nom tem
en maior coita ca mi por vós vem.
os faz em mais de mil guisas cuidar,
e devo-m'eu dest'a maravilhar:
que por vós moir'e nom cuido, senhor,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
E se hoj'homem há cuidados, bem sei,
se per coita d'amor ham de seer,
que eu devia cuidados haver;
pero, senhor, nunca em al cuidei,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
Ca me coita voss'amor assi
que nunca dórmi[o], se Deus mi perdom,
e cuido sempre no meu coraçom,
pero nom cuid'[em] al, des que vos vi,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
E d'amor sei que nulh'homem nom tem
en maior coita ca mi por vós vem.
362
João Baveca
Pesa-Mi, Amiga, Por Vos Nom Mentir,
Pesa-mi, amiga, por vos nom mentir,
d'ũas novas que de mi e do meu
amig'oí, e direi-vo-las eu:
dizem que lh'entendem o grand'amor
que há comig', e, se verdade for,
por maravilha pod'a bem sair.
E bem vos digo que, des que oí
aquestas novas, sempre trist'andei,
ca bem entend'e bem vej'e bem sei
o mal que nos deste preit'averrá
pois lh'entenderem, ca posto x'é já
de morrer eu por el e el por mi.
Ca, poilo souberem, el partid'é
de nunca jamais viir a logar
u me veja, tanto m'ham de guardar;
vede'lo morto por esta razom,
pois bem sabedes vós de mi que nom
poss'eu sem el viver, per bõa fé.
Mais Deus, que sabe o gram bem que m'el quer
e eu a el, quando nos for mester,
nos guarde de mal, se vir ca bem é.
d'ũas novas que de mi e do meu
amig'oí, e direi-vo-las eu:
dizem que lh'entendem o grand'amor
que há comig', e, se verdade for,
por maravilha pod'a bem sair.
E bem vos digo que, des que oí
aquestas novas, sempre trist'andei,
ca bem entend'e bem vej'e bem sei
o mal que nos deste preit'averrá
pois lh'entenderem, ca posto x'é já
de morrer eu por el e el por mi.
Ca, poilo souberem, el partid'é
de nunca jamais viir a logar
u me veja, tanto m'ham de guardar;
vede'lo morto por esta razom,
pois bem sabedes vós de mi que nom
poss'eu sem el viver, per bõa fé.
Mais Deus, que sabe o gram bem que m'el quer
e eu a el, quando nos for mester,
nos guarde de mal, se vir ca bem é.
551
João Airas de Santiago
Nom Hei Eu Poder do Meu Amigo
Nom hei eu poder do meu amigo
partir, amigas, de mi querer bem,
e, pero m'eu queixo, prol nom mi tem,
e quando lh'eu rogo muit'e digo
que se parta de mi tal bem querer,
tanto mi val come nom lho dizer.
Se mi quer falar, digo-lh'eu logo
que mi nom fale, ca mi vem gram mal
de sa fala, mais mui pouco mi val;
e quando lh'eu digo muit'e rogo
que se parta de mi tal bem querer,
tanto mi val come nom lho dizer.
Sempre mi pesa com sa companha,
porque hei medo de mi crecer prez
com el, com'outra vegada já fez;
e, pero lhi dig'em mui gram sanha
que se parta de mi tal bem querer,
tanto mi val come nom lho dizer.
partir, amigas, de mi querer bem,
e, pero m'eu queixo, prol nom mi tem,
e quando lh'eu rogo muit'e digo
que se parta de mi tal bem querer,
tanto mi val come nom lho dizer.
Se mi quer falar, digo-lh'eu logo
que mi nom fale, ca mi vem gram mal
de sa fala, mais mui pouco mi val;
e quando lh'eu digo muit'e rogo
que se parta de mi tal bem querer,
tanto mi val come nom lho dizer.
Sempre mi pesa com sa companha,
porque hei medo de mi crecer prez
com el, com'outra vegada já fez;
e, pero lhi dig'em mui gram sanha
que se parta de mi tal bem querer,
tanto mi val come nom lho dizer.
604
João Airas de Santiago
A Por Que Perço o Dormir
A por que perço o dormir
e ando mui namorado
vejo-a daqui partir
e fic'eu desemparado;
a mui gram prazer se vai
a Crexent', em sua mua baia;
vestida d'um prés de Cambrai,
Deus! que bem lh'está manto e saia.
A morrer houvi por en
tanto a vi bem talhada,
que parecia mui bem
em sua sela dourada;
as sueiras som d'ensai
e os arções [som] de faia;
vestida d'um prés de Cambrai
Deus! que bem lh'está manto e saia.
Se a pudess'eu filhar
terria-m'en por bem andante
e nos braços a levar
na coma do rocim, deante,
per caminho de Lampai
passar Minh'e Doir'e Gaia;
vestida d'um prés de Cambrai
Deus! que bem lh'está manto e saia.
Se a pudess'alongar
quatro légoas de Crecente
e nos braço'la filhar,
apertá-la fortemente,
nom lhi valria dizer "ai"
nem chamar Deus nem Sant'Ovaia.
vestida d'um prés de Cambrai
Deus! que bem lh'está manto e saia.
e ando mui namorado
vejo-a daqui partir
e fic'eu desemparado;
a mui gram prazer se vai
a Crexent', em sua mua baia;
vestida d'um prés de Cambrai,
Deus! que bem lh'está manto e saia.
A morrer houvi por en
tanto a vi bem talhada,
que parecia mui bem
em sua sela dourada;
as sueiras som d'ensai
e os arções [som] de faia;
vestida d'um prés de Cambrai
Deus! que bem lh'está manto e saia.
Se a pudess'eu filhar
terria-m'en por bem andante
e nos braços a levar
na coma do rocim, deante,
per caminho de Lampai
passar Minh'e Doir'e Gaia;
vestida d'um prés de Cambrai
Deus! que bem lh'está manto e saia.
Se a pudess'alongar
quatro légoas de Crecente
e nos braço'la filhar,
apertá-la fortemente,
nom lhi valria dizer "ai"
nem chamar Deus nem Sant'Ovaia.
vestida d'um prés de Cambrai
Deus! que bem lh'está manto e saia.
362
D. Dinis
Mia Madre Velida,
Mia madre velida,
vou-m'a la bailia
do amor.
Mia madre loada,
vou-m'a la bailada
do amor.
Vou-m'a la bailia
que fazem em vila
do amor.
[Vou-m'a la bailada
que fazem em casa
do amor.]
Que fazem em vila
do que eu bem queria
do amor.
Que fazem em casa
do que eu muit'amava
do amor.
Do que eu bem queria;
chamar-m'-am garrida
do amor.
Do que eu muit'amava;
chamar-m'-am perjurada
do amor.
vou-m'a la bailia
do amor.
Mia madre loada,
vou-m'a la bailada
do amor.
Vou-m'a la bailia
que fazem em vila
do amor.
[Vou-m'a la bailada
que fazem em casa
do amor.]
Que fazem em vila
do que eu bem queria
do amor.
Que fazem em casa
do que eu muit'amava
do amor.
Do que eu bem queria;
chamar-m'-am garrida
do amor.
Do que eu muit'amava;
chamar-m'-am perjurada
do amor.
544
D. Dinis
Dizede Por Deus, Amigo
- Dizede por Deus, amigo:
tamanho bem me queredes
como vós a mi dizedes?
- Si, senhor, e mais vos digo:
nom cuido que hoj'home quer
tam gram bem no mund'a molher.
- Nom creo que tamanho bem
mi vós podéssedes querer
camanh'a mi ides dizer
- Si, senhor, e mais direi en:
nom cuido que hoj'home quer
tam gram bem no mund'a molher.
- Amig', eu nom vos creerei,
fé que dev'a Nostro Senhor,
que m'havedes tam grand'amor!
- Si, senhor, e mais vos direi:
nom cuido que hoj'home quer
tam gram bem no mund'a molher.
tamanho bem me queredes
como vós a mi dizedes?
- Si, senhor, e mais vos digo:
nom cuido que hoj'home quer
tam gram bem no mund'a molher.
- Nom creo que tamanho bem
mi vós podéssedes querer
camanh'a mi ides dizer
- Si, senhor, e mais direi en:
nom cuido que hoj'home quer
tam gram bem no mund'a molher.
- Amig', eu nom vos creerei,
fé que dev'a Nostro Senhor,
que m'havedes tam grand'amor!
- Si, senhor, e mais vos direi:
nom cuido que hoj'home quer
tam gram bem no mund'a molher.
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