Poemas neste tema
Política e Poder
Cacaso
O Que É o Que É
Descoberto pelo português
emancipado pelo inglês
educado pelo francês
sócio menor do americano
mas o modelo é japonês...
In: CACASO. Grupo Escolar. Fotos de Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro. Rio de Janeiro: Mapa Filmes, 1974. (Frenesi). Poema integrante da série 3a. Lição: Dever de Caça
emancipado pelo inglês
educado pelo francês
sócio menor do americano
mas o modelo é japonês...
In: CACASO. Grupo Escolar. Fotos de Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro. Rio de Janeiro: Mapa Filmes, 1974. (Frenesi). Poema integrante da série 3a. Lição: Dever de Caça
4 660
Carlos Vogt
Fábula Rábula
Era uma vez um país
num círculo vicioso
onde brilhavam estrelas
dobradas em seu fulgor
e o vagalume invejoso
sabia que o presidente
sonhava com um ditador
In: VOGT, Carlos. Paisagem doméstica. São Paulo: I. Guarnelli: Massao Ohno, 1984. Poema integrante da série Almanaque do Pensamento.
NOTA: Referência ao soneto "Círculo Vicioso", da série de poemas "Ocidentais", das POESIAS COMPLETAS (1901), de Machado de Assi
num círculo vicioso
onde brilhavam estrelas
dobradas em seu fulgor
e o vagalume invejoso
sabia que o presidente
sonhava com um ditador
In: VOGT, Carlos. Paisagem doméstica. São Paulo: I. Guarnelli: Massao Ohno, 1984. Poema integrante da série Almanaque do Pensamento.
NOTA: Referência ao soneto "Círculo Vicioso", da série de poemas "Ocidentais", das POESIAS COMPLETAS (1901), de Machado de Assi
1 420
Glauco Mattoso
Credo Progressista, 1977
para Murilo Mendes & Chico Buarque
Creio em Deus Pátria,
plenipotenciário,
criador do espaço aéreo
e das águas territoriais,
do Mal e do Bem,
do Visível e do Invisível.
E em Creso Justo,
Seu único Filho,
nosso Senhor feudal,
Que é filho procedente de Pai,
Peixinho de Peixe,
Nadador de Natação,
Sangue do Húmus.
O Qual foi concebido do 'Espírito das Leis';
nasceu da Mata Virgem;
padeceu sob o Poder Moderador;
foi seviciado, chacinado
e Seu cadáver abandonado em local ermo;
desceu ao proletariado,
ao terceiro Dia do Trabalho ressurgiu dos pobres,
segundo as Escrituras Definitivas
de Compra e Venda
devidamente inscritas no Cartório
de Registro de Imóveis da Capital;
subiu ao Planalto,
está sentado à mão direitista de Deus Pátria,
donde há de vir e julgar os ricos e os pobres;
e o Seu império não terá fim.
Creio no 'Espírito das Leis';
na Santa Aliança, no Santo Ofício,
na Família, na Propriedade
e na Traição, digo, na Tradição;
na mancomunação, perdão,
na comunhão dos santos cassados;
na cassação dos mandatos;
na ressurreição da carne de primeira;
na puxa vida eterna,
Amém.
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
Creio em Deus Pátria,
plenipotenciário,
criador do espaço aéreo
e das águas territoriais,
do Mal e do Bem,
do Visível e do Invisível.
E em Creso Justo,
Seu único Filho,
nosso Senhor feudal,
Que é filho procedente de Pai,
Peixinho de Peixe,
Nadador de Natação,
Sangue do Húmus.
O Qual foi concebido do 'Espírito das Leis';
nasceu da Mata Virgem;
padeceu sob o Poder Moderador;
foi seviciado, chacinado
e Seu cadáver abandonado em local ermo;
desceu ao proletariado,
ao terceiro Dia do Trabalho ressurgiu dos pobres,
segundo as Escrituras Definitivas
de Compra e Venda
devidamente inscritas no Cartório
de Registro de Imóveis da Capital;
subiu ao Planalto,
está sentado à mão direitista de Deus Pátria,
donde há de vir e julgar os ricos e os pobres;
e o Seu império não terá fim.
Creio no 'Espírito das Leis';
na Santa Aliança, no Santo Ofício,
na Família, na Propriedade
e na Traição, digo, na Tradição;
na mancomunação, perdão,
na comunhão dos santos cassados;
na cassação dos mandatos;
na ressurreição da carne de primeira;
na puxa vida eterna,
Amém.
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
1 570
Glauco Mattoso
Fique Ligado, 1977
dentro de
um segundo
em primeira
mão
o terceiro
mundo
no seu
quarto
arregale
o globo e não
pisque
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
um segundo
em primeira
mão
o terceiro
mundo
no seu
quarto
arregale
o globo e não
pisque
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
1 280
Glauco Mattoso
Paz Há Séculos ou Piece de Résistance, 1975
Terrorismo com torresmo,
Represália a alho e óleo,
Militante à milanesa
E tortilha de guerrilha.
Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.
Molho pardo de massacre de combate,
Passeata com cassata de mandato,
Gabinetes com tortura ao molho tártaro,
Putsch com Ketchup, croquetes de sequestro.
O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou;
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou.
Salada mista extremista com vinho de Greves,
Trincheiras trinchadas com ilegumes partidos,
Comício com cominho, caudilho de baunilha,
Regimes e Dietas à la Magna Carta.
magna
che te fà bene!
Valentim, tim, tim,
Valentim, meu bem,
Quem tiver inveja
Faça assim também.
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Autoelogiáveis & Antoelogiáveis
Represália a alho e óleo,
Militante à milanesa
E tortilha de guerrilha.
Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.
Molho pardo de massacre de combate,
Passeata com cassata de mandato,
Gabinetes com tortura ao molho tártaro,
Putsch com Ketchup, croquetes de sequestro.
O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou;
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou.
Salada mista extremista com vinho de Greves,
Trincheiras trinchadas com ilegumes partidos,
Comício com cominho, caudilho de baunilha,
Regimes e Dietas à la Magna Carta.
magna
che te fà bene!
Valentim, tim, tim,
Valentim, meu bem,
Quem tiver inveja
Faça assim também.
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Autoelogiáveis & Antoelogiáveis
1 490
Carlos Vogt
Sociedade Moderna no Terceiro Mundo
para o Roberto Schwarz
Autovacinamos
a população
contra a febre de consumo
não há antídoto
só
a concreta falta
de
dinheiro
In: VOGT, Carlos. Cantografia: o itinerário do carteiro cartógrafo. Pref. Antonio Candido. São Paulo: Massao Ohno: Hucitec; Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Quadrados.
Autovacinamos
a população
contra a febre de consumo
não há antídoto
só
a concreta falta
de
dinheiro
In: VOGT, Carlos. Cantografia: o itinerário do carteiro cartógrafo. Pref. Antonio Candido. São Paulo: Massao Ohno: Hucitec; Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Quadrados.
1 187
Fontoura Xavier
O Saltimbanco Régio
I
"Calai-vos fariseus! A Roma dos Tibérios,
Quem disse que sepulta a ossada dos impérios?
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera?
A velha cortesã deixou de ser o que era,
Mas preza o riso e a farsa jovial,
Do franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços.
II
Silêncio! Fez-se ouvir-se o último sinal!
"À cena, ergue-se a "claque", o artista imperial!"
E o grande saltimbanco, entusiasmado, ufano,
Não quis que o esperasse o aplauso do romano...
Oh quadro deslumbrante e digno do porvir!
Logo ao saltar em cena o artista a se esgrimir
Um pasmo convulsivo estremeceu as almas
E fê-las rebentar numa explosão de palmas.
O sábio, respirando indômito ovações,
Achava em si um que de magros histriões.
Mas tanto lhe soara o grito do sucesso
Que ao cabo se imagina um Ursus-rei professo.
E a sede de mais glória e a sôfrega ambição
Fizeram-lhe anunciar ao mundo outra função.
III
Outrora quando um monstro, um César, um bandido,
Sentia o coração de rei prostituído
Pulsa-lhe sob o tédio, armado a gladiador,
Descia ao Coliseu - satânico de horror -
Para embeber sedento a cólera da hiena
No sangue dos plebeus a espadanar na arena.
Franqueava às multidões os pórticos reais
Desfeitas ao clarão das régias bacanais,
E dentre o tumultuar ciclópico do vício
O César engendrara um fogo de artifício.
Essa alma surda à voz do plectro coração
Queria mergulhar em chamas a paixão!
"Ao fogo!"
e em derredor, extático, surpreso,
O mundo via arder uma cidade em peso;
Enquanto descansava o rei nas alvas cãs
Nos braços ébrios, nus, das ébrias barregãs,
Co'a horizontal placidez medonha de um Cerbero !
Festins de Trimalcião e diversões de Nero.
Mas hoje o imperador tem outras ambições
Não desce a digladiar com tigres e leões
Nem arroja o seu nome ao nada, ao vilipêndio
Com Roma ao crepitar o fantástico incêndio...
P'ra dar o nome ao sec'lo, ao povo, a u'a nação
Atira-se a uma praça e sagra-se histrião!
IV
É outro Coliseu: mais vasto, mais fecundo
Tem Roma por cenário e por platéia o mundo.
É mais variada a festa. A um tempo o imperador
É sábio, poliglota, artista e professor,
Acróbata, truão, frascário, rei e mestre,
D. Juan, Robert, Falstaff e Benoiton eqüestre.
Oh! deve ser imenso, esplêndido o festim
Onde vai exibir-se o célebre arlequim,
Colher, longe da pátria, além, n'outro horizonte.
Mais um florão gentil que orne a heróica fronte.
A Roma meretriz essa imortal galé
Que um deus acorrentara a um poste Santa - Sé,
Heróico vencedor, colérico, iracundo,
Temendo em saturnais lhe submergisse o mundo
Dir-se-ia que olvidou a prece do cristão
Para entregar-se nua ao novo Trimalcião
Que ouviu novo estertor de servos gladiadores
Na liça triunfal de vis batalhadores
E ergueu-se dos lençóis do papa Mastaí
Bradando à Religião:
"Ao Circo ! eu não morri!"
E santo e majestoso e nobre e gigantesco!
Ó vós, que amais ouvir do herói funambulesco
Na cômica ascenção da mímica sem par,
As doidas expansões da gargalhada alvar;
Ó vos, que desfolhais a rosa do deboche;
Ó vós, que odiais o tédio e as tentações do "spleen",
não recuseis um "bravo!" ao deus do trampolim.
Calai-vos fariseus ! A Roma dos Tibérios
Não digam que sepulta a ossada dos impérios,
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera;
A velha cotesã deixou de ser o que era
Mas inda preza o riso e a farsa jovial
Ao franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços!
Texto enviado por Fernando Dias Campos Neto, sobrinho-bisneto do poeta, por e-mail, em 01 abr. 2002
"Calai-vos fariseus! A Roma dos Tibérios,
Quem disse que sepulta a ossada dos impérios?
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera?
A velha cortesã deixou de ser o que era,
Mas preza o riso e a farsa jovial,
Do franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços.
II
Silêncio! Fez-se ouvir-se o último sinal!
"À cena, ergue-se a "claque", o artista imperial!"
E o grande saltimbanco, entusiasmado, ufano,
Não quis que o esperasse o aplauso do romano...
Oh quadro deslumbrante e digno do porvir!
Logo ao saltar em cena o artista a se esgrimir
Um pasmo convulsivo estremeceu as almas
E fê-las rebentar numa explosão de palmas.
O sábio, respirando indômito ovações,
Achava em si um que de magros histriões.
Mas tanto lhe soara o grito do sucesso
Que ao cabo se imagina um Ursus-rei professo.
E a sede de mais glória e a sôfrega ambição
Fizeram-lhe anunciar ao mundo outra função.
III
Outrora quando um monstro, um César, um bandido,
Sentia o coração de rei prostituído
Pulsa-lhe sob o tédio, armado a gladiador,
Descia ao Coliseu - satânico de horror -
Para embeber sedento a cólera da hiena
No sangue dos plebeus a espadanar na arena.
Franqueava às multidões os pórticos reais
Desfeitas ao clarão das régias bacanais,
E dentre o tumultuar ciclópico do vício
O César engendrara um fogo de artifício.
Essa alma surda à voz do plectro coração
Queria mergulhar em chamas a paixão!
"Ao fogo!"
e em derredor, extático, surpreso,
O mundo via arder uma cidade em peso;
Enquanto descansava o rei nas alvas cãs
Nos braços ébrios, nus, das ébrias barregãs,
Co'a horizontal placidez medonha de um Cerbero !
Festins de Trimalcião e diversões de Nero.
Mas hoje o imperador tem outras ambições
Não desce a digladiar com tigres e leões
Nem arroja o seu nome ao nada, ao vilipêndio
Com Roma ao crepitar o fantástico incêndio...
P'ra dar o nome ao sec'lo, ao povo, a u'a nação
Atira-se a uma praça e sagra-se histrião!
IV
É outro Coliseu: mais vasto, mais fecundo
Tem Roma por cenário e por platéia o mundo.
É mais variada a festa. A um tempo o imperador
É sábio, poliglota, artista e professor,
Acróbata, truão, frascário, rei e mestre,
D. Juan, Robert, Falstaff e Benoiton eqüestre.
Oh! deve ser imenso, esplêndido o festim
Onde vai exibir-se o célebre arlequim,
Colher, longe da pátria, além, n'outro horizonte.
Mais um florão gentil que orne a heróica fronte.
A Roma meretriz essa imortal galé
Que um deus acorrentara a um poste Santa - Sé,
Heróico vencedor, colérico, iracundo,
Temendo em saturnais lhe submergisse o mundo
Dir-se-ia que olvidou a prece do cristão
Para entregar-se nua ao novo Trimalcião
Que ouviu novo estertor de servos gladiadores
Na liça triunfal de vis batalhadores
E ergueu-se dos lençóis do papa Mastaí
Bradando à Religião:
"Ao Circo ! eu não morri!"
E santo e majestoso e nobre e gigantesco!
Ó vós, que amais ouvir do herói funambulesco
Na cômica ascenção da mímica sem par,
As doidas expansões da gargalhada alvar;
Ó vos, que desfolhais a rosa do deboche;
Ó vós, que odiais o tédio e as tentações do "spleen",
não recuseis um "bravo!" ao deus do trampolim.
Calai-vos fariseus ! A Roma dos Tibérios
Não digam que sepulta a ossada dos impérios,
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera;
A velha cotesã deixou de ser o que era
Mas inda preza o riso e a farsa jovial
Ao franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços!
Texto enviado por Fernando Dias Campos Neto, sobrinho-bisneto do poeta, por e-mail, em 01 abr. 2002
1 351
Glauco Mattoso
Hino Patriótico do Prisioneiro Político, 1977
para ser recitado em tom marcial,
com acompanhamento de castanholas,
trote de cascos (equinos) sobre paralelepípedos
ou tilintar de ossos (humanos)
independen
te
men
te
de quem
te
men
te
tens o de
ver
de
outra ver
dade de
fender
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses.
NOTA DO AUTOR: "saiu na 13a. folha do JORNAL DOBRABIL. Um 'divertissement' pra satirizar o artificialismo dos sonetos monossilábicos e quejandos, e também pra mexer com a turma da poesia 'engagée'. Não fica gozadíssimo juntar o panfletarismo ao construtivismo? No entanto e no fundo, é tudo farinha do mesmo cossaco, né
com acompanhamento de castanholas,
trote de cascos (equinos) sobre paralelepípedos
ou tilintar de ossos (humanos)
independen
te
men
te
de quem
te
men
te
tens o de
ver
de
outra ver
dade de
fender
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses.
NOTA DO AUTOR: "saiu na 13a. folha do JORNAL DOBRABIL. Um 'divertissement' pra satirizar o artificialismo dos sonetos monossilábicos e quejandos, e também pra mexer com a turma da poesia 'engagée'. Não fica gozadíssimo juntar o panfletarismo ao construtivismo? No entanto e no fundo, é tudo farinha do mesmo cossaco, né
1 532
Eudoro Augusto
Final de Século
A coisa anda meio difícil
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
1 088
Eudoro Augusto
Suma Biológica de Cacá de Aquino
Deus tudo vê.
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
1 174
Nelson Ascher
Outra Abordagem Crítica
Rompendo, uma após outra,
camadas sucessivas
de engano sobre engodo
em círculos concêntricos,
atinge-se, através
da crítica ortodoxa ao
discurso sobre o método
sincrônico, aliada à
dialética, ou seja, um
corte epistemológico
fatal, o assim chamado
Brasil que, todavia,
equívoco verídico,
resiste sempre à análise,
driblando, assim, a nossa
raquítica hermenêutica
pois, quando nesta terra
de contrastes, de farsas
que se repetem como
história, ou de subúrbio
em toda parte e centro
em parte alguma, mesmo
os ratos se subnutrem
com sobras do festim de
sobras, cujos convivas
não deixam nem gorjeta,
todos se mostram homens
cordiais que, lombrigas
otimistas no estômago
de um cadáver precoce,
abrem, súbito e sem
dente, o sorriso atávico.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p.69-7
camadas sucessivas
de engano sobre engodo
em círculos concêntricos,
atinge-se, através
da crítica ortodoxa ao
discurso sobre o método
sincrônico, aliada à
dialética, ou seja, um
corte epistemológico
fatal, o assim chamado
Brasil que, todavia,
equívoco verídico,
resiste sempre à análise,
driblando, assim, a nossa
raquítica hermenêutica
pois, quando nesta terra
de contrastes, de farsas
que se repetem como
história, ou de subúrbio
em toda parte e centro
em parte alguma, mesmo
os ratos se subnutrem
com sobras do festim de
sobras, cujos convivas
não deixam nem gorjeta,
todos se mostram homens
cordiais que, lombrigas
otimistas no estômago
de um cadáver precoce,
abrem, súbito e sem
dente, o sorriso atávico.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p.69-7
966
Régis Bonvicino
Dias em Seguida
estoit il lors temps de moy taire?
françois villon
vida — a que me convidas?
aos becos sem saída,
às noites mal dormidas,
à esperança perdida,
ao dano dos inseticidas,
à brasília podrida,
à fé de n. s. aparecida,
às idéias traídas,
às poesias reunidas,
às migalhas do rei midas,
às verdades não vividas,
aos dias em seguida?
vida — a que me condenas?
à retribuição das penas,
ao riso das hienas,
aos banqueiros da onzena,
ao assassino de viena,
à boa alma de mecenas,
ao remorso de madalena,
ao socorro da sirena,
ao torpor das cantilenas,
à calvície de melena,
ao destino das antenas,
a morrer apenas?
In: BONVICINO, Régis. 33 poemas. São Paulo: Iluminuras: Secretaria de Estado da Cultura, 1990.
NOTA: Publicado no Folhetim de 01 jan. 1988; Este poema foi escrito no dia do 88o. aniversário da Repúblic
françois villon
vida — a que me convidas?
aos becos sem saída,
às noites mal dormidas,
à esperança perdida,
ao dano dos inseticidas,
à brasília podrida,
à fé de n. s. aparecida,
às idéias traídas,
às poesias reunidas,
às migalhas do rei midas,
às verdades não vividas,
aos dias em seguida?
vida — a que me condenas?
à retribuição das penas,
ao riso das hienas,
aos banqueiros da onzena,
ao assassino de viena,
à boa alma de mecenas,
ao remorso de madalena,
ao socorro da sirena,
ao torpor das cantilenas,
à calvície de melena,
ao destino das antenas,
a morrer apenas?
In: BONVICINO, Régis. 33 poemas. São Paulo: Iluminuras: Secretaria de Estado da Cultura, 1990.
NOTA: Publicado no Folhetim de 01 jan. 1988; Este poema foi escrito no dia do 88o. aniversário da Repúblic
1 435
Claudio Willer
As Palavras da Tribo
poema coletivo em parceria com Roberto Piva,
Juan e Cristina Hernandez
"Então, era isto a vida?
Pois bem: repita-se!"
Nietzsche
(...)
a espécie humana agride os verdes campos da memória a civilização
como passaporte para o próximo verão verdades cuspidas
pelas palavras da história a história atapetada de jasmins
[e
estercos noturnos dentaduras feito bandeiras atômicas mãos
sonâmbulas abismos sedosos feitos à intempérie daqueles que
choram pelos oceanos sem nome aqueles que dormem e se
suicidam sem culpa formada
amaldiçoo tua vez teu orgasmo pequeno e voraz tuas omoplatas
crepusculares chamando cordilheiras e sendeiros lunares
amores e ódios encapuçados num crucifixo opalino de olhos
matizados pela essência do teu nascimento austral gênio
hiperbóreo feito ao acaso de um fusil de asfaltos e
[pederastas
carcomidos pelos relógios de areias nucleares salvo-conduto
para uma eternidade comprada nas quitandas carboníferas de
deuses falsos
agora Fernando Pessoa flagra a espécie humana lombo de onça
africana que lambeu a esfera da carne rumo à veia jugular
sapateando no topo do prédio do bar Jeca onde eu e meu
amor um dia tomamos uma canja histórica fonte de orgasmos
cabeludos corações da noite constelações de ursas doidas
pondo ovos de celofane
vontade de transformar meu amor em toda espécie humana para dar o
beijo que nos transportará pela fenda da galáxia caindo no
prato de amêndoas do outro lado ou numa mesa branca de
Sto. Agostinho ou numa raça de hipopótamos longínqua e
delicada à espera da maluca união que não conhece limites
nem sul nem norte nem o doce naufrágio onde viramos do
avesso e dizemos Sim
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
Juan e Cristina Hernandez
"Então, era isto a vida?
Pois bem: repita-se!"
Nietzsche
(...)
a espécie humana agride os verdes campos da memória a civilização
como passaporte para o próximo verão verdades cuspidas
pelas palavras da história a história atapetada de jasmins
[e
estercos noturnos dentaduras feito bandeiras atômicas mãos
sonâmbulas abismos sedosos feitos à intempérie daqueles que
choram pelos oceanos sem nome aqueles que dormem e se
suicidam sem culpa formada
amaldiçoo tua vez teu orgasmo pequeno e voraz tuas omoplatas
crepusculares chamando cordilheiras e sendeiros lunares
amores e ódios encapuçados num crucifixo opalino de olhos
matizados pela essência do teu nascimento austral gênio
hiperbóreo feito ao acaso de um fusil de asfaltos e
[pederastas
carcomidos pelos relógios de areias nucleares salvo-conduto
para uma eternidade comprada nas quitandas carboníferas de
deuses falsos
agora Fernando Pessoa flagra a espécie humana lombo de onça
africana que lambeu a esfera da carne rumo à veia jugular
sapateando no topo do prédio do bar Jeca onde eu e meu
amor um dia tomamos uma canja histórica fonte de orgasmos
cabeludos corações da noite constelações de ursas doidas
pondo ovos de celofane
vontade de transformar meu amor em toda espécie humana para dar o
beijo que nos transportará pela fenda da galáxia caindo no
prato de amêndoas do outro lado ou numa mesa branca de
Sto. Agostinho ou numa raça de hipopótamos longínqua e
delicada à espera da maluca união que não conhece limites
nem sul nem norte nem o doce naufrágio onde viramos do
avesso e dizemos Sim
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 350
Claudio Willer
Sobre os 40 Anos da Morte de García Lorca (1936-1976)
Eu vi pouca coisa nos jornais & revistas sobre os 40 anos
da morte de García Lorca
algumas manifestações e homenagens, & uma notícia interessante
(na Veja) detalhando as circunstâncias — só isso
o resto, notas esparsas perdidas nos textos
quase ninguém lembrou
passou despercebido
ninguém disse nada
ninguém quis lembrar
porque as pessoas não querem mais lembrar
e desistiram de falar
pois esta é a era do silêncio
silêncio de covas rasas e túmulos lacrados e circunscritos
silêncio vigiado e preso
silêncio de poeiras há pouco assentadas
pois todos estão mudos e perplexos
alguns mortos incomodam demais
e ninguém quer saber
ninguém quer ver
ninguém quer saber o que tem a ver
apenas este silêncio selado esponjoso grávido
de escorpiões & maresias & tempos & memórias
.& vítimas do fascismo
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981. Poema integrante da série Sobre García Lorca.
da morte de García Lorca
algumas manifestações e homenagens, & uma notícia interessante
(na Veja) detalhando as circunstâncias — só isso
o resto, notas esparsas perdidas nos textos
quase ninguém lembrou
passou despercebido
ninguém disse nada
ninguém quis lembrar
porque as pessoas não querem mais lembrar
e desistiram de falar
pois esta é a era do silêncio
silêncio de covas rasas e túmulos lacrados e circunscritos
silêncio vigiado e preso
silêncio de poeiras há pouco assentadas
pois todos estão mudos e perplexos
alguns mortos incomodam demais
e ninguém quer saber
ninguém quer ver
ninguém quer saber o que tem a ver
apenas este silêncio selado esponjoso grávido
de escorpiões & maresias & tempos & memórias
.& vítimas do fascismo
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981. Poema integrante da série Sobre García Lorca.
1 183
José Bonifácio, o Moço
O Barão e Seu Cavalo
CANTO I
O DELÍRIO
Donde vens, Inacinho, a horas mortas,
No meio de tigelas e comportas,
Co'uma vela na mão, cheio de empolas
Montado numa réstia de cebolas?
Onde foste buscar a enorme gorra,
O chapéu com feitio de pichorra?
Tu sonhas... tu deliras... que venturas?!
Foste acaso no Brás comprar verduras?
Não, Inácio Pindoba, és grande e forte!
Comes confeitos, capataz da morte;
Morcego de fardão e berimbau,
És capaz de engolir carvão e pau!
Donde vens? Donde vens? Das terras sardas
Não pode ser que vens de calças pardas!
Ei-lo murmura triste com voz aflita:
Não me deixam comer banana frita.
Sem sapatos, de meias de canhamo
Traz na destra gentil um verde ramo,
É como Ulisses procurando a Itália
Sem ter ciência de que foi à Gália...
As crianças assustam-se nas ruas
Por ver o Guimarães de costas nuas,
E dele as rondas quase deram cabo,
Vendo um cão a latir de lata ao rabo.
Ei-lo que chega à porta da polícia,
E assentou-se no chão! A tribunícia,
Loquela ardente, magistral viveiro,
Quis soltar, mas caiu sobre o terreiro!
Deu um passo, ei-lo entrando o corredor...
Solta um grito infernal: que dor, que dor!!
Galga os degraus, as portas arrebenta,
Torce um pé, machuca a esquerda venta,
Espirra sem querer, procura um banco,
Pede pão com manteiga e vinho branco...
"Tragam, tragam-me já o meu cigarro,
Tragam depressa que senão escarro!"
E ao som do bandolim
Com harmonias suaves
Cantou sozinho um cântico sem fim...
Tinha perdido dos baús as chaves!
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).
NOTA: Poema satírico, dirigido contra o presidente da Província de São Paulo, Barão de Itaúna (Candinho), publicado em O Ipiranga, out./nov. 1868. Inacinho = Dr. Inácio Guimarães, chefe de políci
O DELÍRIO
Donde vens, Inacinho, a horas mortas,
No meio de tigelas e comportas,
Co'uma vela na mão, cheio de empolas
Montado numa réstia de cebolas?
Onde foste buscar a enorme gorra,
O chapéu com feitio de pichorra?
Tu sonhas... tu deliras... que venturas?!
Foste acaso no Brás comprar verduras?
Não, Inácio Pindoba, és grande e forte!
Comes confeitos, capataz da morte;
Morcego de fardão e berimbau,
És capaz de engolir carvão e pau!
Donde vens? Donde vens? Das terras sardas
Não pode ser que vens de calças pardas!
Ei-lo murmura triste com voz aflita:
Não me deixam comer banana frita.
Sem sapatos, de meias de canhamo
Traz na destra gentil um verde ramo,
É como Ulisses procurando a Itália
Sem ter ciência de que foi à Gália...
As crianças assustam-se nas ruas
Por ver o Guimarães de costas nuas,
E dele as rondas quase deram cabo,
Vendo um cão a latir de lata ao rabo.
Ei-lo que chega à porta da polícia,
E assentou-se no chão! A tribunícia,
Loquela ardente, magistral viveiro,
Quis soltar, mas caiu sobre o terreiro!
Deu um passo, ei-lo entrando o corredor...
Solta um grito infernal: que dor, que dor!!
Galga os degraus, as portas arrebenta,
Torce um pé, machuca a esquerda venta,
Espirra sem querer, procura um banco,
Pede pão com manteiga e vinho branco...
"Tragam, tragam-me já o meu cigarro,
Tragam depressa que senão escarro!"
E ao som do bandolim
Com harmonias suaves
Cantou sozinho um cântico sem fim...
Tinha perdido dos baús as chaves!
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).
NOTA: Poema satírico, dirigido contra o presidente da Província de São Paulo, Barão de Itaúna (Candinho), publicado em O Ipiranga, out./nov. 1868. Inacinho = Dr. Inácio Guimarães, chefe de políci
1 652
Armindo Trevisan
Tábua de Marinheiro
O livro que é semeado
não me interessa.
Interessa-me o livro
que soca, desloca,
aumenta.
Interessa-me a cola,
a palha de arroz, a resina
que desgoverna
o pensamento.
Em um livro são margens
os braços que completam.
No livro,
todo estudante é citado.
Como réu.
Ou preso político.
Numa aula
o perigo não está
engaiolado. É livre.
Desde que livre, o perigo
monta as páginas do grego,
ou da eletrônica, com a mesma
montaria.
É perigo por ser
a distância entre a rua
e o que da rua veio.
É perigo assim mesmo.
Inútil o professor
exigir-lhe silêncio.
Um livro
nunca está em silêncio.
(...)
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
não me interessa.
Interessa-me o livro
que soca, desloca,
aumenta.
Interessa-me a cola,
a palha de arroz, a resina
que desgoverna
o pensamento.
Em um livro são margens
os braços que completam.
No livro,
todo estudante é citado.
Como réu.
Ou preso político.
Numa aula
o perigo não está
engaiolado. É livre.
Desde que livre, o perigo
monta as páginas do grego,
ou da eletrônica, com a mesma
montaria.
É perigo por ser
a distância entre a rua
e o que da rua veio.
É perigo assim mesmo.
Inútil o professor
exigir-lhe silêncio.
Um livro
nunca está em silêncio.
(...)
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
1 033
Edgar Allan Poe
The Divine Right Of Kings
The only king by right divine
Is Ellen King, and were she mine
I'd strive for liberty no more,
But hug the glorious chains I wore.
Her bosom is an ivory throne,
Where tyrant virtue reigns alone ;
No subject vice dare interfere,
To check the power that governs here.
O! would she deign to rule my fate,
I'd worship Kings and kingly state,
And hold this maxim all life long,
The King — my King — can do no wrong. P
1845
Is Ellen King, and were she mine
I'd strive for liberty no more,
But hug the glorious chains I wore.
Her bosom is an ivory throne,
Where tyrant virtue reigns alone ;
No subject vice dare interfere,
To check the power that governs here.
O! would she deign to rule my fate,
I'd worship Kings and kingly state,
And hold this maxim all life long,
The King — my King — can do no wrong. P
1845
1 197
Fernando Pessoa
[1] A Cabeça do Grifo: O INFANTE D. HENRIQUE
Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
7 013
Paulo Leminski
quero a vitória
quero a vitória
do time de várzea
valente
covarde
a derrota
do campeão
5 X 0
em seu próprio chão
circo
dentro
do pão
do time de várzea
valente
covarde
a derrota
do campeão
5 X 0
em seu próprio chão
circo
dentro
do pão
2 346
Álvares de Azevedo
O EDITOR
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
A poesia transcrita é de Torquato,
Desse pobre poeta enamorado
Pelos encantos de Leonora esquiva,
Copiei-a do próprio manuscrito;
E, para prova da verdade pura
Deste prólogo meu, basta que eu diga
Que a letra era um garrancho indecifrável,
Mistura de borrões e linhas tortas!
Trouxe-ma do Arquivo lá da lua
E decifrou-ma familiar demônio...
Demais... infelizmente é bem verdade
Que Tasso lastimou-se da penúria
De não ter um ceitil para a candeia.
Provo com isso que do mundo todo
O sol é este Deus indefinível,
Ouro, prata, papel, ou mesmo cobre,
Mais santo do que os Papas - o dinheiro!
Byron no seu Don Juan votou-lhe cantos,
Filinto Elísio e Tolentino o sonham,
Foi o Deus de Bocage e d'Aretino,
- Aretino! essa incrível criatura
Lívida, tenebrosa, impura e bela,
Sublime... e sem pudor, onda de lodo
Em que do gênio profanou-se a pérola,
Vaso d'ouro que um óxido terrível
Envenenou de morte, alma - poeta
Que tudo profanou com as mãos imundas
E latiu como um cão mordendo um século...
..............................
Quem não ama o dinheiro? Não me engano
Se creio que Satã, à noite, veio
Aos ouvidos de Adão adormecido,
Na sua hora primeira, murmurar-lhe
Essa palavra mágica da vida,
Que vibra musical em todo o mundo,
Se houvesse o Deus-Vintém no Paraíso
Eva não se tentava pelas frutas,
Pela rubra maçã não se perdera:
Preferira decerto o louro amante
Que tine tão suave e é tão macio!
Se não faltasse o tempo a meus trabalhos,
Eu mostraria quanto o povo mente
Quando diz que - a poesia enjeita e odeia
As moedinhas doiradas. É mentira!
Desde Homero (que até pedia cobre),
Virgílio, Horácio, Calderón, Racine,
Boileau e o fabuleiro LaFontaine
E tantos que melhor decerto fora
De poetas copiar algum catálogo,
Todos a mil e mil por ele vivem
E alguns chegaram a morrer por ele!
Eu só peço licença de fazer-vos
Uma simples pergunta: - na gaveta
Se Camões visse o brilho do dinheiro...
Malfilâtre, Gilbert, o altivo Chatterton
Se o tivessem nas rotas algibeiras,
Acaso blasfemando morreriam?
Segunda Parte
A poesia transcrita é de Torquato,
Desse pobre poeta enamorado
Pelos encantos de Leonora esquiva,
Copiei-a do próprio manuscrito;
E, para prova da verdade pura
Deste prólogo meu, basta que eu diga
Que a letra era um garrancho indecifrável,
Mistura de borrões e linhas tortas!
Trouxe-ma do Arquivo lá da lua
E decifrou-ma familiar demônio...
Demais... infelizmente é bem verdade
Que Tasso lastimou-se da penúria
De não ter um ceitil para a candeia.
Provo com isso que do mundo todo
O sol é este Deus indefinível,
Ouro, prata, papel, ou mesmo cobre,
Mais santo do que os Papas - o dinheiro!
Byron no seu Don Juan votou-lhe cantos,
Filinto Elísio e Tolentino o sonham,
Foi o Deus de Bocage e d'Aretino,
- Aretino! essa incrível criatura
Lívida, tenebrosa, impura e bela,
Sublime... e sem pudor, onda de lodo
Em que do gênio profanou-se a pérola,
Vaso d'ouro que um óxido terrível
Envenenou de morte, alma - poeta
Que tudo profanou com as mãos imundas
E latiu como um cão mordendo um século...
..............................
Quem não ama o dinheiro? Não me engano
Se creio que Satã, à noite, veio
Aos ouvidos de Adão adormecido,
Na sua hora primeira, murmurar-lhe
Essa palavra mágica da vida,
Que vibra musical em todo o mundo,
Se houvesse o Deus-Vintém no Paraíso
Eva não se tentava pelas frutas,
Pela rubra maçã não se perdera:
Preferira decerto o louro amante
Que tine tão suave e é tão macio!
Se não faltasse o tempo a meus trabalhos,
Eu mostraria quanto o povo mente
Quando diz que - a poesia enjeita e odeia
As moedinhas doiradas. É mentira!
Desde Homero (que até pedia cobre),
Virgílio, Horácio, Calderón, Racine,
Boileau e o fabuleiro LaFontaine
E tantos que melhor decerto fora
De poetas copiar algum catálogo,
Todos a mil e mil por ele vivem
E alguns chegaram a morrer por ele!
Eu só peço licença de fazer-vos
Uma simples pergunta: - na gaveta
Se Camões visse o brilho do dinheiro...
Malfilâtre, Gilbert, o altivo Chatterton
Se o tivessem nas rotas algibeiras,
Acaso blasfemando morreriam?
1 914
Felipe Vianna
FOME
Aspiramos ao bem do povo
Mas, ao povo nada fazemos.
Com encarecimento peço de novo
Para que tentemos.
O que você ganha?
Não posso explicar;
É uma sensação incrível
Ver a felicidade de chorar.
A ventura de comer,
Matar a fome,
Matar a sede,
São direitos do homem.
Será maravilhoso,
Um mundo igual,
Esta utopia,
Uma anarquia total.
Os donos do mundo,
Conto-os nos dedos.
E por que são?
Espero uma explicação.
07/03/1996
Mas, ao povo nada fazemos.
Com encarecimento peço de novo
Para que tentemos.
O que você ganha?
Não posso explicar;
É uma sensação incrível
Ver a felicidade de chorar.
A ventura de comer,
Matar a fome,
Matar a sede,
São direitos do homem.
Será maravilhoso,
Um mundo igual,
Esta utopia,
Uma anarquia total.
Os donos do mundo,
Conto-os nos dedos.
E por que são?
Espero uma explicação.
07/03/1996
619
Felipe Vianna
IDEOLOGIA
Arma vil,
És tu,
Droga sutil;
Dopadora de homens
É a ideologia
Que te faz concordar
Com o contento descontente.
Ganhas pouco,
Isto te aborrece?
Mas és feliz,
No que parece;
Pois a ideologia
Te empurra a felicidade a seco
Em comprimidos de tarja preta
Duma caixa que diz:
“Tens emprego,
Milhares não têm;
Agradeça a Deus. ”
Droga de ideologia,
Droga que dopa o homem.
Como pode
A sociedade alimentar-se
De seus próprios resíduos,
Sem nem mesmo reciclá-los.
Ideologia,
Alimento podre,
Que mantém os ricos ricos
E os pobres pobres.
30/05/2001
És tu,
Droga sutil;
Dopadora de homens
É a ideologia
Que te faz concordar
Com o contento descontente.
Ganhas pouco,
Isto te aborrece?
Mas és feliz,
No que parece;
Pois a ideologia
Te empurra a felicidade a seco
Em comprimidos de tarja preta
Duma caixa que diz:
“Tens emprego,
Milhares não têm;
Agradeça a Deus. ”
Droga de ideologia,
Droga que dopa o homem.
Como pode
A sociedade alimentar-se
De seus próprios resíduos,
Sem nem mesmo reciclá-los.
Ideologia,
Alimento podre,
Que mantém os ricos ricos
E os pobres pobres.
30/05/2001
752
Felipe Vianna
IDIOSSINCRASIA
Homem,
Quem és tu?
Sem personalidade,
Sem caráter.
Que entre a turba
Exacerbadamente
Idiossincrático se faz.
Do emendado
Ao mais rebelde
Não foge nunca
Desta estirpe social.
II
Quem és tu?
Insurgente idiota
Que, para fugir da rota,
Idiossincrático se faz.
III
Vulgo certo,
Emendado, correto.
Burro de carga
Da ideologia te faz.
11/06/2001
Quem és tu?
Sem personalidade,
Sem caráter.
Que entre a turba
Exacerbadamente
Idiossincrático se faz.
Do emendado
Ao mais rebelde
Não foge nunca
Desta estirpe social.
II
Quem és tu?
Insurgente idiota
Que, para fugir da rota,
Idiossincrático se faz.
III
Vulgo certo,
Emendado, correto.
Burro de carga
Da ideologia te faz.
11/06/2001
971
Felipe Vianna
VITÓRIA
No amor e na guerra
O importante é vencer.
Não importa o que espera,
O importante é você.
Na estratégia da vida
Uma luta vencida
Não vale nada
Se não tem uma amada.
Sim, uma amada,
Uma amada ideologia
Certa e precisa
Para esta vida imprecisa.
O certo
Nem sempre
É o correto.
Os amigos
Às vezes são
Seus maiores inimigos.
Tudo não basta.
Pois não é o bastante
Para que tu, infante,
Faça.
Isso, faze,
Faze teu nome correr pelos sete mares,
Cruzar por todos os ares
E neste mundo deixar a marca.
07/07/2001
O importante é vencer.
Não importa o que espera,
O importante é você.
Na estratégia da vida
Uma luta vencida
Não vale nada
Se não tem uma amada.
Sim, uma amada,
Uma amada ideologia
Certa e precisa
Para esta vida imprecisa.
O certo
Nem sempre
É o correto.
Os amigos
Às vezes são
Seus maiores inimigos.
Tudo não basta.
Pois não é o bastante
Para que tu, infante,
Faça.
Isso, faze,
Faze teu nome correr pelos sete mares,
Cruzar por todos os ares
E neste mundo deixar a marca.
07/07/2001
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