José Bonifácio, o Moço

José Bonifácio, o Moço

1827–1886 · viveu 58 anos BR BR

José Bonifácio de Andrade e Silva, conhecido como o Moço, foi uma figura proeminente do Império do Brasil, atuando como político, diplomata, jurista e professor. Era sobrinho de José Bonifácio de Andrade e Silva, o Patriarca da Independência, e desempenhou um papel crucial na consolidação do período regencial e na defesa da unidade territorial brasileira. Sua atuação política foi marcada pela defesa do abolicionismo e pela busca de um sistema político que garantisse a estabilidade do país em um momento de grandes transformações.

n. 1827-11-08, Bordéus · m. 1886-10-26, São Paulo

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O Infante

"Il fut un temps, un temps d'ivresse
Ou l'aurore qui vous caresse
Rayonnait sur mon beau printemps."
V. Hugo


Sempre, sempre a sorrir! — Fogem-te os anos
Em céu de amores, devassando encantos;
Falando sonhas —
Aqui a linda flor te dá perfumes,
Ali a aurora te sorri nas nuvens,
Cantam as aves.

Tens no cristal do lago um liso espelho,
No firmamento azul a imagem tua,
No céu teu berço;
Co'a estrela um riso vais trocar à noite,
E no correr veloz a borboleta
Vences audaz;

Teu pensamento é brisa buliçosa,
Que mansa adeja, — meiga vai beijando
As flores todas —.
Do passado não tens uma lembrança,
Nem um cuidado no futuro ao menos,
Lindo o presente!

Ai! meus anos corridos não mais voltam!...
Dai-me um dia, meu Deus, da infância minha,
Um dia só! —
No ar a borboleta — a flor no prado,
No lago meu baixel — nos lábios riso,
Morrer depois!


Publicado no livro Rosas e Goivos (1848).

In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. p.27-28. (Poesia, 5
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Biografia

Identificação e contexto básico

José Bonifácio de Andrade e Silva, conhecido como o Moço, nasceu em Santos, São Paulo. Foi um influente político, diplomata, jurista e professor brasileiro. Sobrinho de José Bonifácio de Andrade e Silva, o Patriarca da Independência, herdou o nome e parte do prestígio familiar. Sua atuação se deu principalmente durante o período regencial e o Segundo Reinado do Império do Brasil. Era conhecido por sua defesa da unidade territorial brasileira e por sua posição abolicionista.

Infância e formação

Nascido em uma família de destaque, José Bonifácio, o Moço, recebeu uma educação privilegiada. Estudou Direito na Universidade de Coimbra, em Portugal, onde se formou, aprofundando seus conhecimentos jurídicos e políticos. O ambiente de efervescência intelectual e política europeia influenciou sua visão de mundo e seu comprometimento com as causas brasileiras, especialmente a abolição da escravatura e a organização do Estado.

Percurso literário

Embora mais conhecido por sua atuação política e jurídica, José Bonifácio, o Moço, também teve uma produção intelectual relevante. Escreveu sobre temas jurídicos, políticos e sociais, refletindo suas convicções e sua visão sobre o futuro do Brasil. Sua escrita era marcada pela clareza e pela argumentação consistente, visando influenciar o debate público e a legislação da época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de José Bonifácio, o Moço, abrange principalmente tratados jurídicos e discursos políticos. Destacam-se seus escritos em defesa da abolição da escravatura, nos quais apresentava argumentos racionais e humanitários. Seu estilo era formal e erudito, condizente com sua formação e com o público a que se destinava, mas sempre com o objetivo de defender causas de grande relevância social e nacional.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico José Bonifácio, o Moço, viveu em um período de intensas transformações no Brasil e no mundo. O Império do Brasil passava por seus primeiros anos de independência, enfrentando desafios para consolidar sua unidade territorial e sua estrutura política. O movimento abolicionista ganhava força, e a questão da escravidão era um dos debates centrais da sociedade brasileira. Ele também dialogou com correntes de pensamento europeias sobre direito, política e sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal José Bonifácio, o Moço, dedicou grande parte de sua vida à vida pública e ao serviço do Império. Sua formação em Direito e sua herança familiar o posicionaram para uma carreira política proeminente. Manteve posições firmes em relação às causas que defendia, especialmente a abolição, o que demonstrava um forte senso de justiça e compromisso social.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Reconhecido em sua época pela sua inteligência e dedicação, José Bonifácio, o Moço, teve um papel importante na política brasileira. Suas contribuições para o debate abolicionista e para a formulação de leis foram significativas. Sua obra, embora focada em questões da época, reflete um pensamento jurídico e político progressista para o seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado pelo pensamento iluminista e pelas ideias de seu tio, José Bonifácio de Andrade e Silva, o Moço contribuiu para a disseminação de ideias abolicionistas e liberais no Brasil. Seu legado reside em sua atuação política e jurídica em um momento crucial da história brasileira, especialmente em sua defesa da abolição, que antecipou um movimento de grande impacto social.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de José Bonifácio, o Moço, pode ser interpretada como um reflexo de sua época, marcada pela luta pela abolição e pela consolidação do Estado nacional. Seus argumentos jurídicos e políticos em favor da liberdade dos escravos demonstram uma consciência ética e um desejo de progresso social, alinhados com as tendências mais avançadas de seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por ser sobrinho do Patriarca da Independência, José Bonifácio, o Moço, muitas vezes teve sua atuação política e intelectual comparada à de seu tio. No entanto, ele desenvolveu uma trajetória própria e marcante, com contribuições específicas, especialmente no campo do direito e na defesa da causa abolicionista, com uma visão mais contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória José Bonifácio, o Moço, faleceu no Rio de Janeiro. Sua memória é preservada como a de um importante estadista e intelectual brasileiro, cuja atuação política e jurídica contribuiu para o desenvolvimento do país e para a luta contra a escravidão.

Poemas

6

O Infante

"Il fut un temps, un temps d'ivresse
Ou l'aurore qui vous caresse
Rayonnait sur mon beau printemps."
V. Hugo


Sempre, sempre a sorrir! — Fogem-te os anos
Em céu de amores, devassando encantos;
Falando sonhas —
Aqui a linda flor te dá perfumes,
Ali a aurora te sorri nas nuvens,
Cantam as aves.

Tens no cristal do lago um liso espelho,
No firmamento azul a imagem tua,
No céu teu berço;
Co'a estrela um riso vais trocar à noite,
E no correr veloz a borboleta
Vences audaz;

Teu pensamento é brisa buliçosa,
Que mansa adeja, — meiga vai beijando
As flores todas —.
Do passado não tens uma lembrança,
Nem um cuidado no futuro ao menos,
Lindo o presente!

Ai! meus anos corridos não mais voltam!...
Dai-me um dia, meu Deus, da infância minha,
Um dia só! —
No ar a borboleta — a flor no prado,
No lago meu baixel — nos lábios riso,
Morrer depois!


Publicado no livro Rosas e Goivos (1848).

In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. p.27-28. (Poesia, 5
1 476

Desejos

"Ai! infância, que tempo ditoso!
Que saudades tudo isto me traz!"

X. Cordeiro


Quem me dera ser criança
Reviver tempo de outrora,
Não ter males como agora,
Ver no futuro uma aurora,
E no presente a esperança! —

Quem me dera os doces beijos
Das virgens que me beijavam,
Abraços que me alegravam;
Quem me dera o que me davam
Os meus volúveis desejos! —

Quem me dera as travessuras
Da minha quadra passada,
E a carreira tresloucada,
E a vida tão esmaltada
De tanto amor e doçuras! —

Quem me dera os contozinhos,
Que minha mãe me contava,
As orações que eu rezava,
Que o velho pai me ensinava,
E seu afago e carinhos.

Oh! que delícia tivera!
— Não conhecer outra idade,
Não saber o que é maldade,
Gozar sempre a f'licidade...
Senhor! Senhor! — Quem me dera!


Publicado no livro Rosas e Goivos (1848).

In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. p.41-42. (Poesia, 5
1 700

O Escultor-Poeta

Ao Ilmo. Sr. M.A.A.A.

Je meurs, mais tu vivras...
(Amour et foi)


(...)

VI

Sonha, sonha, meu bardo; os dias passam,
— Corre a vida na terra;
O teu sonhar ninguém entende; ó vate,
— O paraíso encerra.

Sonha, meu bardo, que teu sonho é vida,
E é cedo p'ra morrer:
Inda te resta de absíntio amargo
Uma gota a sorver.

Falaste ao mundo, desdenhou-te os cantos;
Deste-lhe um coração, não quis afetos;
Choraste e não valeram os teus prantos!
Que importa? — Tens o sonho que te embala,

O divino cinzel que talha o mármor,
Que pela voz de Deus na terra fala,
Que a fragrância do céu no mundo exala.

Não pares de sonhar, — sonha, meu bardo,
Sonha embora co'a morte:
No frio encosto um corpo, e além tua alma
Em férvido transporte.

(...)


Publicado no livro Rosas e Goivos (1848).

In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. p.23-24. (Poesia, 5)

NOTA: M.A.A.A.: muito provavelmente, Manuel Antônio Álvares de Azevedo (segundo Alfredo Bosi e Nilo Scalzo); Poema composto de 8 parte
1 428

A Camões

Entre dois sonhos — lida mal sonhada —
De fantasias mil a fantasia
Viveu, como sua alma desvivia
De seus fundos cuidados mal cuidada.

Em lembrança da pátria deslembrada
A glória sua e a glória dela erguia;
Escura noite lhe surgira um dia
Na viva luz da formosura amada.

Partido o coração, a alma partida
Naqueles sonhos, vasta imensidade,
Era-lhe a vida morte e a morte, vida!

Hoje renasce a imortal saudade:
Tem nos versos a pátria aos céus erguida,
E o seu amor num templo — a eternidade.


In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).

NOTA: Poema publicado na Revista Brasileira, 10 jun. 188
1 513

O Barão e Seu Cavalo

CANTO I

O DELÍRIO

Donde vens, Inacinho, a horas mortas,
No meio de tigelas e comportas,
Co'uma vela na mão, cheio de empolas
Montado numa réstia de cebolas?
Onde foste buscar a enorme gorra,
O chapéu com feitio de pichorra?
Tu sonhas... tu deliras... que venturas?!
Foste acaso no Brás comprar verduras?

Não, Inácio Pindoba, és grande e forte!
Comes confeitos, capataz da morte;
Morcego de fardão e berimbau,
És capaz de engolir carvão e pau!
Donde vens? Donde vens? Das terras sardas
Não pode ser que vens de calças pardas!
Ei-lo murmura triste com voz aflita:
Não me deixam comer banana frita.

Sem sapatos, de meias de canhamo
Traz na destra gentil um verde ramo,
É como Ulisses procurando a Itália
Sem ter ciência de que foi à Gália...
As crianças assustam-se nas ruas
Por ver o Guimarães de costas nuas,
E dele as rondas quase deram cabo,
Vendo um cão a latir de lata ao rabo.

Ei-lo que chega à porta da polícia,
E assentou-se no chão! A tribunícia,
Loquela ardente, magistral viveiro,
Quis soltar, mas caiu sobre o terreiro!
Deu um passo, ei-lo entrando o corredor...
Solta um grito infernal: que dor, que dor!!

Galga os degraus, as portas arrebenta,
Torce um pé, machuca a esquerda venta,
Espirra sem querer, procura um banco,
Pede pão com manteiga e vinho branco...
"Tragam, tragam-me já o meu cigarro,
Tragam depressa que senão escarro!"
E ao som do bandolim
Com harmonias suaves
Cantou sozinho um cântico sem fim...
Tinha perdido dos baús as chaves!


In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).

NOTA: Poema satírico, dirigido contra o presidente da Província de São Paulo, Barão de Itaúna (Candinho), publicado em O Ipiranga, out./nov. 1868. Inacinho = Dr. Inácio Guimarães, chefe de políci
1 652

Adeus de Gonzaga

Adeus, Marília, adeus! O sonho corre,
Vai-se gastando a vida, vai fugindo;
Estremece-me a voz, ei-la que morre,
Inda o teu doce nome repetindo.
Uma hora lá vem, outra decorre,
E eu vejo em pranto o teu rosto lindo!
Adeus, Marília, adeus! A sepultura
Abre-me agora um leito em terra escura.

Ai! como é feia a terra do desterro!
Aqui não sopra a minha pátria aragem;
Aqui lançou-me a liberdade — o erro
De prestar à inocência vassalagem;
Aqui no chão do exílio, onde me enterro
Inda plácida brilha-me tua imagem!
Luar das minhas noites, sol do dia,
O corpo aquece-me — eis a terra fria!

(...)

Ai! Marília, Marília! Que é da vida
Que em meus braços contigo então sonhava?!
A casa, o ribeirão, a luz sumida,
Detrás do monte... além... que desmaiava;
Da ovelha desgarrada a voz perdida,
O gado que sozinho ali pastava;
O chão, a relva, a fonte, as lindas flores,
Nosso céu, nossa luz, nossos amores?!

Nada, nada ficou!... neste deserto
O tênue sopro desta vida expira;
Mal bate o coração, já não aceito
Esses hinos de amor que a alma delira!
Eis lá na sepultura vejo ao perto
Murchas coroas e quebrada lira,
Trevas, silêncio... solidão... horror!
Nem um pranto... um gemido... uma só flor!

S. Paulo, 1848.


In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).

NOTA: Poema publicado nas Harmonias Brasileiras, São Paulo, 185
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