Poemas neste tema
Protesto, Resistência e Revolução
Fernando Pessoa
Para adorar a beleza
Para adorar a beleza
E a liberdade amar
Fez Deus Portugal tão belo,
Pôs-nos Deus à beira-mar
(Só aprendemos a sonhar).
Sofra um só deve ser pública
Toda a dor (...) da opressão
Vamos, morte (?] ou república,
Suprimir [?] a revolução.
E a liberdade amar
Fez Deus Portugal tão belo,
Pôs-nos Deus à beira-mar
(Só aprendemos a sonhar).
Sofra um só deve ser pública
Toda a dor (...) da opressão
Vamos, morte (?] ou república,
Suprimir [?] a revolução.
1 264
Fernando Pessoa
LIBERTY
To G.N.
Oh, sacred Liberty, dear mother of Fame!
What are men here that they should expel thee?
What right of theirs, save power, makes others be
The pawns, as if unfeeling, in their game?
Ireland and the Transvaal, ye are a shame
On England and a blot! Oh, shall we see
For ever crushed and held who should be free
By human creatures without human name?
Wonder not then, dear friend, that here where men
Are far away I can well rest, and far
From where in lawful bodies, Christian‑wise,
Beings of earth their fellows fold and pen;
Glad that the winds not yet enchained are
And billows yet are free to fall and rise.
Oh, sacred Liberty, dear mother of Fame!
What are men here that they should expel thee?
What right of theirs, save power, makes others be
The pawns, as if unfeeling, in their game?
Ireland and the Transvaal, ye are a shame
On England and a blot! Oh, shall we see
For ever crushed and held who should be free
By human creatures without human name?
Wonder not then, dear friend, that here where men
Are far away I can well rest, and far
From where in lawful bodies, Christian‑wise,
Beings of earth their fellows fold and pen;
Glad that the winds not yet enchained are
And billows yet are free to fall and rise.
1 734
Fernando Pessoa
No conflito escuro e besta
No conflito escuro e besta
Entre a luz e o lojame
Que ao menos luz se derrame
Sobre a verdade, que é esta:
Como é uso dos lojistas
Aumentar aos cem por cento,
Protestam contra um aumento
Que é reles às suas vistas.
E gritam que é enxovalho
Que os grandes, quando ladrões,
Nem guardem as tradições
Dos gatunos de retalho.
Lojistas, que vos ocorra
Roubar duzentos por cento!
E acaba logo o argumento
Entre a Máfia e a Camorra...
Entre a luz e o lojame
Que ao menos luz se derrame
Sobre a verdade, que é esta:
Como é uso dos lojistas
Aumentar aos cem por cento,
Protestam contra um aumento
Que é reles às suas vistas.
E gritam que é enxovalho
Que os grandes, quando ladrões,
Nem guardem as tradições
Dos gatunos de retalho.
Lojistas, que vos ocorra
Roubar duzentos por cento!
E acaba logo o argumento
Entre a Máfia e a Camorra...
964
Fernando Pessoa
Clarim! Os mortos!
Contra Miguel de Vasconcellos
Republicano!
Eis outra vez o estrangeiro
Em Portugal!
Grita, clarim! Ao Conde Andeiro!
Mas quando a hora do Limoeiro
E do punhal?
Clarim, contra quem deu à França
A pátria e a grei,
Grita com fogo de esperança,
Vozes que chamem
O Rei!
E ao abismo do futuro clama
Por quem enfim
Vier, régia lusitana chama!
Pelo Rei que a Esperança chama,
Grita, clarim!
O Rei, a Lei, dias melhores …
Não sejam mais, nem já mais vezes
Os marinheiros portugueses
Guarda Vermelha dos Traidores!
Hoje em que nada é português
Salvo a desgraça,
E em que um sopro maligno e soez
Por sobre as nossas almas passa;
Hoje em que manda quem serviu
Por condição,
E o próprio amor à Pátria é frio
Por Pátria ser um nome vão;
Hoje que, ruído o trono e a glória,
Só o Traidor
O louro e o ouro da vitória
Goza, vil como um vil actor;
Hoje uma voz que se levante
E diga, embora
Chore de ver, chorando cante,
Que vem nascendo além a Aurora,
Diga em palavras já tocadas
De outra Visão,
O Rei, e a Vinda das Espadas,
E o fim da Horda e da Traição.
Republicano!
Eis outra vez o estrangeiro
Em Portugal!
Grita, clarim! Ao Conde Andeiro!
Mas quando a hora do Limoeiro
E do punhal?
Clarim, contra quem deu à França
A pátria e a grei,
Grita com fogo de esperança,
Vozes que chamem
O Rei!
E ao abismo do futuro clama
Por quem enfim
Vier, régia lusitana chama!
Pelo Rei que a Esperança chama,
Grita, clarim!
O Rei, a Lei, dias melhores …
Não sejam mais, nem já mais vezes
Os marinheiros portugueses
Guarda Vermelha dos Traidores!
Hoje em que nada é português
Salvo a desgraça,
E em que um sopro maligno e soez
Por sobre as nossas almas passa;
Hoje em que manda quem serviu
Por condição,
E o próprio amor à Pátria é frio
Por Pátria ser um nome vão;
Hoje que, ruído o trono e a glória,
Só o Traidor
O louro e o ouro da vitória
Goza, vil como um vil actor;
Hoje uma voz que se levante
E diga, embora
Chore de ver, chorando cante,
Que vem nascendo além a Aurora,
Diga em palavras já tocadas
De outra Visão,
O Rei, e a Vinda das Espadas,
E o fim da Horda e da Traição.
1 389
Fernando Pessoa
MARCHA FÚNEBRE
Com lixo, dinheiro dos outros, e sangue inocente,
Cercada por assassinos, traidores, ladrões (a salvo)
No seu caixão francês, liberalissimamente,
Em carro puxado por uma burra (a do estado) seu alvo,
(…)
Passa para além do mundo, em uma visão desconforme,
A República Democrática Portuguesa.
O Lenine de capote e lenço,
Afonso anti-Henriques Costa.
Mas o Diabo espantou-se: aqui entram bandidos
Até certo ponto e dentro de certo limite.
Assassinos, sim, mas com uma certa inteligência.
Ladrões, sim, mas capazes de uma certa bondade.
Agora vocês não trazem quem tivesse tido a decência
De ao menos ter uma vez dito a razão ou verdade.
Cercada por assassinos, traidores, ladrões (a salvo)
No seu caixão francês, liberalissimamente,
Em carro puxado por uma burra (a do estado) seu alvo,
(…)
Passa para além do mundo, em uma visão desconforme,
A República Democrática Portuguesa.
O Lenine de capote e lenço,
Afonso anti-Henriques Costa.
Mas o Diabo espantou-se: aqui entram bandidos
Até certo ponto e dentro de certo limite.
Assassinos, sim, mas com uma certa inteligência.
Ladrões, sim, mas capazes de uma certa bondade.
Agora vocês não trazem quem tivesse tido a decência
De ao menos ter uma vez dito a razão ou verdade.
1 769
Fernando Pessoa
O fado cantado à guitarra
O fado cantado à guitarra
Tem um som de desejar.
Vejo o que via o Bandarra,
Não sei se na terra ou no ar.
Sou cego mas vejo bem
No tempo em vez de no ar.
Goze quem goza o que tem.
A nau se há-de virar.
Canto às vezes sem dar voz
Como penso sem falar.
A cegueira que Deus me pôs
E um modo de luz me dar.
Vejo claro quanto mais deixo
O corpo cego às escuras.
Rogo pragas, mas não me queixo.
As pedras são todas duras.
Vejo um grande movimento
Em roda de uma árvore alta.
Das estrelas no firmamento
Há a mais nova que falta.
A preguiça (?) anda de rastos,
Os mortos gemem na cova.
Os gados voltam aos pastos
Quando desce a estrela nova.
Lei[o] no escuro os sinais
Do Quinto Império a chegar.
O Bandarra via mais,
Mas Deus é que há-de dar
Sinto perto o que está longe,
Quando penso julgo que fito,
Meu corpo está sentado em hoje
Minh'alma anda no Infinito.
Ando pelo fundo do mar,
Pelas ilhas do avesso,
E uma coisa que há-de chegar
Tem ali o seu começo.
Há no fundo d'um poço em mim
Um buraco de luz para Deus.
Lá muito no fundo do fim
Um olho feito nos céus.
E pelas paredes do poço
Anda uma coisa a mexer.
Rei moço, lindo rei moço,
Só ali te posso ver!
Meu coração está a estalar,
Minha alma diz-lhe não.
Vejo o Encoberto chegar
No meio da cerração.
Vendidos à Inglaterra,
Caixeiros da França vil,
Meteram a gente na guerra
Como num cesto aos mil.
Este vem trôpego e cego
Lá das Flandres e das Franças,
Só para o Leotte do Rego
Endireitar as finanças.
Este, que aos muros se encosta,
Veio doido lá da tropa,
Só porque o Afonso Costa
Queria ser gente na Europa.
Anda o povo a passar fome
E quem o mandou para a França
Não tem barriga para o que come
Nem mãos para o que alcança.
Metade foi para a guerra,
Metade morreu de fome.
Quem morre, cobre-o a terra.
Quem se afoga, o mar o some.
Ninguém odiava o alemão.
Mais se odiava o francês.
Deram-nos uma espada para a mão
E uma grilheta para os pés.
É inglesa a constituição,
E a república é francesa.
É d'estrangeiros a nação,
Só a desgraça é portuguesa.
E a raça que descobriu
O oriente e o ocidente
Foi morrer de balas e frio
Para a cama dos Costas ser quente.
Mas a verdade há-de vir,
O mal há-de ser descoberto
E Portugal há-de subir
Com a vinda do Encoberto.
Hão-de rir dos versos do cego;
Hão-de rir mas hão-de chorar,
Quem não for o Leotte do Rego
E tiver Pátria a que amar.
M[ija]ram na pia da Igreja,
Escreveram na porta do Paço
É em linha recta de Beja
Que está quem traz o baraço.
Era dez réis por cada homem
Para o Chagas ter fato novo.
Cada prato que eles comem
É tirado da boca do povo.
Quem é bom nunca é feliz,
Quem é mau é que tem razão;
O Afonso vive em Paris
E o Sidónio está num caixão.
Pobre era Jesus Cristo
E ainda o puseram na cruz.
De dentro de mim avisto
O Princípio de uma luz.
Um dia o Sidónio torna.
Estar morto é estar a fingir.
Quem é bom pode perder a forma
Mas não perder o existir.
Depois de quarenta e oito
Quando o sol estiver no Leão,
Há-de vir quem traga o açoite,
Até os mortos se erguerão.
Não riam da minha praga,
Os que viverem verão
Porque toda a Bíblia acaba
Na visão de S. João.
Sou cego mas tenho vista
Com os olhos de ver no escuro.
Falta o melhor da conquista
Que é ver para lá do muro.
Falo na minha guitarra
Só com o meu coração,
Vejo o que via o Bandarra
E no fim há um clarão.
Vejo o Encoberto voltar,
Vejo Portugal subir,
Há uma claridade no ar
E um sol no meu sentir.
Por que mesmo quem não acredita
É preciso acreditar;
Quando a gente endoidece de aflita,
Até se abraça ao ar.
Até que para o lado da barra
Há-de vir um grande clarão,
E voltar, como diz o Bandarra,
El-Rei Dom Sebastião.
No seu dia veio o segundo,
No outro será o terceiro,
Se o segundo foi para o fundo,
O terceiro será o primeiro.
Eu não quero nenhum estrangeiro,
Francês e inglês é o demónio,
Cuidado com o Terceiro
Que não é o Pimenta ou o Sidónio.
Logo que a Lua mudar
De onde não mostra valia,
No meio do meio do ar
Há-de aparecer o dia.
Na sua ilha desconhecida
O Encoberto já vai acordar.
Inda tem a viseira subida
E o ar de dormir a pensar.
Seu olhar é de rei e chama
Pela alma como uma mão.
Não é português quem não o ama.
Viva D. Sebastião!
Minha esquerda é a direita
De quem corre para mim.
Do futuro alguém me espreita,
Portugal não terá fim.
Tem um som de desejar.
Vejo o que via o Bandarra,
Não sei se na terra ou no ar.
Sou cego mas vejo bem
No tempo em vez de no ar.
Goze quem goza o que tem.
A nau se há-de virar.
Canto às vezes sem dar voz
Como penso sem falar.
A cegueira que Deus me pôs
E um modo de luz me dar.
Vejo claro quanto mais deixo
O corpo cego às escuras.
Rogo pragas, mas não me queixo.
As pedras são todas duras.
Vejo um grande movimento
Em roda de uma árvore alta.
Das estrelas no firmamento
Há a mais nova que falta.
A preguiça (?) anda de rastos,
Os mortos gemem na cova.
Os gados voltam aos pastos
Quando desce a estrela nova.
Lei[o] no escuro os sinais
Do Quinto Império a chegar.
O Bandarra via mais,
Mas Deus é que há-de dar
Sinto perto o que está longe,
Quando penso julgo que fito,
Meu corpo está sentado em hoje
Minh'alma anda no Infinito.
Ando pelo fundo do mar,
Pelas ilhas do avesso,
E uma coisa que há-de chegar
Tem ali o seu começo.
Há no fundo d'um poço em mim
Um buraco de luz para Deus.
Lá muito no fundo do fim
Um olho feito nos céus.
E pelas paredes do poço
Anda uma coisa a mexer.
Rei moço, lindo rei moço,
Só ali te posso ver!
Meu coração está a estalar,
Minha alma diz-lhe não.
Vejo o Encoberto chegar
No meio da cerração.
Vendidos à Inglaterra,
Caixeiros da França vil,
Meteram a gente na guerra
Como num cesto aos mil.
Este vem trôpego e cego
Lá das Flandres e das Franças,
Só para o Leotte do Rego
Endireitar as finanças.
Este, que aos muros se encosta,
Veio doido lá da tropa,
Só porque o Afonso Costa
Queria ser gente na Europa.
Anda o povo a passar fome
E quem o mandou para a França
Não tem barriga para o que come
Nem mãos para o que alcança.
Metade foi para a guerra,
Metade morreu de fome.
Quem morre, cobre-o a terra.
Quem se afoga, o mar o some.
Ninguém odiava o alemão.
Mais se odiava o francês.
Deram-nos uma espada para a mão
E uma grilheta para os pés.
É inglesa a constituição,
E a república é francesa.
É d'estrangeiros a nação,
Só a desgraça é portuguesa.
E a raça que descobriu
O oriente e o ocidente
Foi morrer de balas e frio
Para a cama dos Costas ser quente.
Mas a verdade há-de vir,
O mal há-de ser descoberto
E Portugal há-de subir
Com a vinda do Encoberto.
Hão-de rir dos versos do cego;
Hão-de rir mas hão-de chorar,
Quem não for o Leotte do Rego
E tiver Pátria a que amar.
M[ija]ram na pia da Igreja,
Escreveram na porta do Paço
É em linha recta de Beja
Que está quem traz o baraço.
Era dez réis por cada homem
Para o Chagas ter fato novo.
Cada prato que eles comem
É tirado da boca do povo.
Quem é bom nunca é feliz,
Quem é mau é que tem razão;
O Afonso vive em Paris
E o Sidónio está num caixão.
Pobre era Jesus Cristo
E ainda o puseram na cruz.
De dentro de mim avisto
O Princípio de uma luz.
Um dia o Sidónio torna.
Estar morto é estar a fingir.
Quem é bom pode perder a forma
Mas não perder o existir.
Depois de quarenta e oito
Quando o sol estiver no Leão,
Há-de vir quem traga o açoite,
Até os mortos se erguerão.
Não riam da minha praga,
Os que viverem verão
Porque toda a Bíblia acaba
Na visão de S. João.
Sou cego mas tenho vista
Com os olhos de ver no escuro.
Falta o melhor da conquista
Que é ver para lá do muro.
Falo na minha guitarra
Só com o meu coração,
Vejo o que via o Bandarra
E no fim há um clarão.
Vejo o Encoberto voltar,
Vejo Portugal subir,
Há uma claridade no ar
E um sol no meu sentir.
Por que mesmo quem não acredita
É preciso acreditar;
Quando a gente endoidece de aflita,
Até se abraça ao ar.
Até que para o lado da barra
Há-de vir um grande clarão,
E voltar, como diz o Bandarra,
El-Rei Dom Sebastião.
No seu dia veio o segundo,
No outro será o terceiro,
Se o segundo foi para o fundo,
O terceiro será o primeiro.
Eu não quero nenhum estrangeiro,
Francês e inglês é o demónio,
Cuidado com o Terceiro
Que não é o Pimenta ou o Sidónio.
Logo que a Lua mudar
De onde não mostra valia,
No meio do meio do ar
Há-de aparecer o dia.
Na sua ilha desconhecida
O Encoberto já vai acordar.
Inda tem a viseira subida
E o ar de dormir a pensar.
Seu olhar é de rei e chama
Pela alma como uma mão.
Não é português quem não o ama.
Viva D. Sebastião!
Minha esquerda é a direita
De quem corre para mim.
Do futuro alguém me espreita,
Portugal não terá fim.
1 130
Fernando Pessoa
TO ENGLAND
(when English journalists joked on Russia’s disasters)
How long, oh Lord, shall war and strife be rolled
On the God‑breathing breast of slumbering man,
Horrible nightmares in the doubtful span
Of his sleep blind to heaven? As of old,
Shall we, more wise, in frantic joy behold
The bloody fall of nation and of clan,
And ever others' woes with rough glee scan,
And war’s dark names in Glory's charts inscrolled?
We now that in vile joy our egoist fears
Behold dispelled, one day shall mourn the more
That blood of men erased them‑bitter tears
Of desolated woe, as wept of yore
(Yet not for the short space of ten long years)
The Grecian archer on the Lemnian shore.
II
Our enemies are fallen; other hands
Than ours have struck them, and our joy is great
To know that now at length our fears abate
From hurt and menace on great Eastern lands.
Bardling, scribbler and artist, servile bands,
From covert sneer outsigh their trembling hate,
Laughing at misery, and woe, and fal]en state,
Armies of men whole‑crushed on desolate strands.
The fallen lion every ass can kick,
That in his life, shamed to unmotioned fright,
His every move with eyes askance did trace.
I’ll scorn beseems us, men for war and trick,
Whose groanings nation poured her fullest might
To take the freedom of a former [?] race.
How long, oh Lord, shall war and strife be rolled
On the God‑breathing breast of slumbering man,
Horrible nightmares in the doubtful span
Of his sleep blind to heaven? As of old,
Shall we, more wise, in frantic joy behold
The bloody fall of nation and of clan,
And ever others' woes with rough glee scan,
And war’s dark names in Glory's charts inscrolled?
We now that in vile joy our egoist fears
Behold dispelled, one day shall mourn the more
That blood of men erased them‑bitter tears
Of desolated woe, as wept of yore
(Yet not for the short space of ten long years)
The Grecian archer on the Lemnian shore.
II
Our enemies are fallen; other hands
Than ours have struck them, and our joy is great
To know that now at length our fears abate
From hurt and menace on great Eastern lands.
Bardling, scribbler and artist, servile bands,
From covert sneer outsigh their trembling hate,
Laughing at misery, and woe, and fal]en state,
Armies of men whole‑crushed on desolate strands.
The fallen lion every ass can kick,
That in his life, shamed to unmotioned fright,
His every move with eyes askance did trace.
I’ll scorn beseems us, men for war and trick,
Whose groanings nation poured her fullest might
To take the freedom of a former [?] race.
1 735
Fernando Pessoa
Se eu tirar com urna pancada
Se eu tirar com urna pancada
O bolo barato da boca da criança pobre
Onde encontrarei justiça no mundo,
Onde me esconderei dos olhos do Vulto
Invisível que espreita pelas estrelas
Quando o coração vê pelos olhos o mistério olhar o universo?
Minha emoção concreta, ó brinquedo de crianças,
Ó pequenas alegrias legítimas da gente obscura,
Ó pobre riqueza exígua dos que não são ninguém...
Os móveis comprados com tanto sacrifício,
As toalhas remendadas com tanto cuidado,
As pequenas coisas de casa tão ajustadas e postas no lugar
E a roda de um dos mil carros do rei vencedor
Parte tudo, e todos perderam tudo.
Que imperador tem o direito
De partir a boneca à filha do operário?
Que César com suas legiões tem justiça
Para partir a máquina de costura da velha
Se eu for pela rua
E arrancar a fita suja na mão da garota
E a fizer chorar, onde encontrar qualquer Cristo?
O bolo barato da boca da criança pobre
Onde encontrarei justiça no mundo,
Onde me esconderei dos olhos do Vulto
Invisível que espreita pelas estrelas
Quando o coração vê pelos olhos o mistério olhar o universo?
Minha emoção concreta, ó brinquedo de crianças,
Ó pequenas alegrias legítimas da gente obscura,
Ó pobre riqueza exígua dos que não são ninguém...
Os móveis comprados com tanto sacrifício,
As toalhas remendadas com tanto cuidado,
As pequenas coisas de casa tão ajustadas e postas no lugar
E a roda de um dos mil carros do rei vencedor
Parte tudo, e todos perderam tudo.
Que imperador tem o direito
De partir a boneca à filha do operário?
Que César com suas legiões tem justiça
Para partir a máquina de costura da velha
Se eu for pela rua
E arrancar a fita suja na mão da garota
E a fizer chorar, onde encontrar qualquer Cristo?
1 289
Fernando Pessoa
ODE MARCIAL [b]
ODE MARCIAL
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
1 296
Fernando Pessoa
Ora porra!
Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.
2 705
Fernando Pessoa
Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.
Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.
Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!
1 346
Fernando Pessoa
CARRY NATION
CARRY NATION
Não uma santa estética, como Santa Teresa,
Não uma santa dos dogmas,
Não uma santa.
Mas uma santa humana, maluca e divina,
Materna, agressivamente materna,
Odiosa, como todas as santas,
Persistente, com a loucura da santidade.
Odeio-a e estou de cabeça descoberta
E dou-lhe vivas sem saber porquê!
Estupor americano aureolado de estrelas!
Bruxa de boa intenção...
Não lhe desfolhem rosas na campa,
Mas louros, os louros da glória
Façamos-lhe a glória e o insulto!
Bebamos à saúde da sua imortalidade
Esse vinho forte de bêbados.
Eu, que nunca fiz nada no mundo,
Eu, que nunca soube querer nem saber,
Eu, que fui sempre a ausência da minha vontade,
Eu te saúdo, mãezinha maluca, sistema sentimental!
Exemplar da aspiração humana!
Maravilha do bom gesto, duma grande vontade!
Minha Joana de Arc sem pátria!
Minha Santa Teresa humana!
Estúpida como todas as santas
E militante como a alma que quer vencer o mundo!
É no vinho que odiaste que deves ser saudada!
É com brindes gritados chorando que te canonizaremos!
Saudação de inimigo a inimigo!
Eu, tantas vezes caindo de bêbado só por não querer sentir,
Eu, embriagado tantas vezes, por não ter alma bastante,
Eu, o teu contrário,
Arranco a espada aos anjos, aos anjos que guardam o Éden,
E ergo-a em êxtase, e grito ao teu nome.
Não uma santa estética, como Santa Teresa,
Não uma santa dos dogmas,
Não uma santa.
Mas uma santa humana, maluca e divina,
Materna, agressivamente materna,
Odiosa, como todas as santas,
Persistente, com a loucura da santidade.
Odeio-a e estou de cabeça descoberta
E dou-lhe vivas sem saber porquê!
Estupor americano aureolado de estrelas!
Bruxa de boa intenção...
Não lhe desfolhem rosas na campa,
Mas louros, os louros da glória
Façamos-lhe a glória e o insulto!
Bebamos à saúde da sua imortalidade
Esse vinho forte de bêbados.
Eu, que nunca fiz nada no mundo,
Eu, que nunca soube querer nem saber,
Eu, que fui sempre a ausência da minha vontade,
Eu te saúdo, mãezinha maluca, sistema sentimental!
Exemplar da aspiração humana!
Maravilha do bom gesto, duma grande vontade!
Minha Joana de Arc sem pátria!
Minha Santa Teresa humana!
Estúpida como todas as santas
E militante como a alma que quer vencer o mundo!
É no vinho que odiaste que deves ser saudada!
É com brindes gritados chorando que te canonizaremos!
Saudação de inimigo a inimigo!
Eu, tantas vezes caindo de bêbado só por não querer sentir,
Eu, embriagado tantas vezes, por não ter alma bastante,
Eu, o teu contrário,
Arranco a espada aos anjos, aos anjos que guardam o Éden,
E ergo-a em êxtase, e grito ao teu nome.
1 072
Fernando Pessoa
A alma humana é porca como um ânus
A alma humana é porca como um ânus
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.
Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago.
A Távola Redonda foi vendida a peso,
E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a.
Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante.
Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile —
O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância.
Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros.
E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração.
Sim, está frio...
Está frio em tudo que sou, está frio...
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...
E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.
Engelho o capote à minha volta...
O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada
Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas...
Sim, a vida...
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...
Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote.
Ah, parte a cara à vida!
Levanta-te com estrondo no sossego de ti!
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.
Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago.
A Távola Redonda foi vendida a peso,
E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a.
Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante.
Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile —
O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância.
Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros.
E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração.
Sim, está frio...
Está frio em tudo que sou, está frio...
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...
E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.
Engelho o capote à minha volta...
O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada
Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas...
Sim, a vida...
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...
Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote.
Ah, parte a cara à vida!
Levanta-te com estrondo no sossego de ti!
1 606
Fernando Pessoa
PRIEST AND HANGMAN
«Burn me that book well, hangman,
Burn it to the last leaf,
Put at the stake the apostate
Whose hand of truth was thief.
«Burn his house to the ground, man,
Starve his children and wife,
His friends disperse, dissever,
His followers put to the knife.
«His works, his books, his poems
To fire's oblivion fling;
Let ashes remain of all this.
Remains there anything?»
«Some that stand by on looking
Have tears within their eyes.»
«In the stake shall be their ending
And vain and lone their cries.»
«All's done, my lord.» - «Remaineth
There aught that was, of theirs?»
«Ashes» - «Throw them to the winds then;
Still aught of them appears?»
My lord, there still persisteth
The name they had of good.»
Trouble not; t'will be forgotten
As their ashes and their blood.»
«Nothing remaineth. - «My lord, yet
Aught can I not dispel:
Our name that will be ever
A curse and a living hell.»
We also shall be forgotten
As these shall cease to be.
What will remain then? - My lord, still
The name of Tyranny.»
«That also will remain not.»
«But the Cause of what we do,
Of this bad world will. «What thou meanest
My mind cannot construe.»
My lord, I mean 'tis useless
That all things be crushed and trod.
There will then stand out to be hated
The accursed name of God»
Burn it to the last leaf,
Put at the stake the apostate
Whose hand of truth was thief.
«Burn his house to the ground, man,
Starve his children and wife,
His friends disperse, dissever,
His followers put to the knife.
«His works, his books, his poems
To fire's oblivion fling;
Let ashes remain of all this.
Remains there anything?»
«Some that stand by on looking
Have tears within their eyes.»
«In the stake shall be their ending
And vain and lone their cries.»
«All's done, my lord.» - «Remaineth
There aught that was, of theirs?»
«Ashes» - «Throw them to the winds then;
Still aught of them appears?»
My lord, there still persisteth
The name they had of good.»
Trouble not; t'will be forgotten
As their ashes and their blood.»
«Nothing remaineth. - «My lord, yet
Aught can I not dispel:
Our name that will be ever
A curse and a living hell.»
We also shall be forgotten
As these shall cease to be.
What will remain then? - My lord, still
The name of Tyranny.»
«That also will remain not.»
«But the Cause of what we do,
Of this bad world will. «What thou meanest
My mind cannot construe.»
My lord, I mean 'tis useless
That all things be crushed and trod.
There will then stand out to be hated
The accursed name of God»
1 599
Fernando Pessoa
FAUSTO (na taberna)
Já não tenho alma. Dei-a à luz e ao ruído
Só sinto um vácuo imenso onde (a) alma tive...
Sou qualquer cousa de exterior apenas,
Consciente apenas de já nada ser...
Pertenço à estúrdia e à crápula da noite,
Sou ser delas, encontro-me disperso
Por cada grito bêbado, por cada
Tom de luz no amplo bojo das botelhas.
Participo da névoa luminosa
Da orgia e da mentira do prazer.
E uma febre e um vácuo que há em mim
Confessa-me já morto... Palpo em torno
De minha alma os fragmentos do meu ser
Com o hábito imortal de prescrutar-me
E não sei onde estou, ou quanto sou,
Em que terreno de ruído e (...)
Enterrei o meu espírito febril.
Mas não é inda o fim. Inda é preciso
Que a morte me desmembre em outro, e eu fique
Ou o nada do nada ou o de tudo
E acabe enfim esta consciência oca
Que de existir me resta.
Sinto um tropel esfuziante e quente
De propósitos-sombras, e de impulsos
Transbordado do cálix da consciência
Para cima da vida... Sinto em mim
Gritos de impulsos, (...)
Sinto que qualquer coisa vai fazer-me
Conceber o horror da acção e ousio
Em que dispersarei enfim o resto
Da minha alma já oca. Cesse, cesse
Para sempre a minha alma de ser minha,
Abafe-lhe a consciência de existir
A minha voz. Acorde a minha voz
Ao gritar os propósitos de sangue
E horror cujo (...) não concebo
E é forçoso que deixe fugir...
(Alto)
Eia!
Camaradas! A orgia inda vai lenta!
Vamos a mais! Vamos a pôr no berço
As orgias romanas e a fazer
Os nossos feitos desta noite rir
De Nero e de Tibério! Vá que a vida
É pouca para (...) Eia, vamos!
Quem vive além na cidadela? O rei?
Bom. E a rainha? Melhor é. Quem mais?
As damas, os donzeis e os nobres todos
Da corte? Vamos à obra...
Ah, as damas. Violemos essa carne!
Rasguemo-la a espadim e a lança. Somos
A vingança dos servos! dos mandados
As crianças (...) e pequeninos
Seja nossa a hora última e (...)
Dos donzeis
Fogueira e (...) com os nobres todos
Afoguemos o rei no (...) onde
O mijo dos cavalos!
Vamos! Às carnes brancas! Aos veludos!
Não podem vir reforços. Se vierem
Morramos combatendo... A morte é hoje
Seja de hoje o gozo todo. Beba-se
O vinho todo, que a partir da taça
Será bom, pois que o vinho será gasto!
(Lança fogo à taberna... Saem todos de espadas desembainhadas... Correm e dançam pela estrada fora. Archotes agitam-se no ar, dançam, espalham lume... Seguem na estrada... Aqui e além incendeiam as choupanas.)
Só sinto um vácuo imenso onde (a) alma tive...
Sou qualquer cousa de exterior apenas,
Consciente apenas de já nada ser...
Pertenço à estúrdia e à crápula da noite,
Sou ser delas, encontro-me disperso
Por cada grito bêbado, por cada
Tom de luz no amplo bojo das botelhas.
Participo da névoa luminosa
Da orgia e da mentira do prazer.
E uma febre e um vácuo que há em mim
Confessa-me já morto... Palpo em torno
De minha alma os fragmentos do meu ser
Com o hábito imortal de prescrutar-me
E não sei onde estou, ou quanto sou,
Em que terreno de ruído e (...)
Enterrei o meu espírito febril.
Mas não é inda o fim. Inda é preciso
Que a morte me desmembre em outro, e eu fique
Ou o nada do nada ou o de tudo
E acabe enfim esta consciência oca
Que de existir me resta.
Sinto um tropel esfuziante e quente
De propósitos-sombras, e de impulsos
Transbordado do cálix da consciência
Para cima da vida... Sinto em mim
Gritos de impulsos, (...)
Sinto que qualquer coisa vai fazer-me
Conceber o horror da acção e ousio
Em que dispersarei enfim o resto
Da minha alma já oca. Cesse, cesse
Para sempre a minha alma de ser minha,
Abafe-lhe a consciência de existir
A minha voz. Acorde a minha voz
Ao gritar os propósitos de sangue
E horror cujo (...) não concebo
E é forçoso que deixe fugir...
(Alto)
Eia!
Camaradas! A orgia inda vai lenta!
Vamos a mais! Vamos a pôr no berço
As orgias romanas e a fazer
Os nossos feitos desta noite rir
De Nero e de Tibério! Vá que a vida
É pouca para (...) Eia, vamos!
Quem vive além na cidadela? O rei?
Bom. E a rainha? Melhor é. Quem mais?
As damas, os donzeis e os nobres todos
Da corte? Vamos à obra...
Ah, as damas. Violemos essa carne!
Rasguemo-la a espadim e a lança. Somos
A vingança dos servos! dos mandados
As crianças (...) e pequeninos
Seja nossa a hora última e (...)
Dos donzeis
Fogueira e (...) com os nobres todos
Afoguemos o rei no (...) onde
O mijo dos cavalos!
Vamos! Às carnes brancas! Aos veludos!
Não podem vir reforços. Se vierem
Morramos combatendo... A morte é hoje
Seja de hoje o gozo todo. Beba-se
O vinho todo, que a partir da taça
Será bom, pois que o vinho será gasto!
(Lança fogo à taberna... Saem todos de espadas desembainhadas... Correm e dançam pela estrada fora. Archotes agitam-se no ar, dançam, espalham lume... Seguem na estrada... Aqui e além incendeiam as choupanas.)
2 055
Fernando Pessoa
Maldita seja em toda a parte / A Igreja Católica
Maldita seja em toda a parte
A I[greja] C[atólica]
M[aldita] s[eja], com arte ou sem arte,
A I[greja] C[atólica]
E quando alguém por apanhar ar
Tiver uma cólica
E sinta preciso aluviar
Lembre-se sempre de bem cagar
Para a I[greja] C[atólica].
Maldita seja, de rabo à vela,
A I[greja] C[atólica]
De toda retrete que seja capela
A I[greja] C[atólica]
Há só duas coisas a fazer para aquela
I[greja] C[atólica]
Cagar p'ra ela e mijar p'ra ela
Para a I[greja] C[atólica].
Caguemos pois e tudo junto
Para a I[greja] C[atólica]
Até que o caso dê assunto
À I[greja] C[atólica]
Cagar também, também por cólica
Então ver-se-á e será ouvido
O que tem comido, e o que tem bebido,
O que tem sorvido e engolido
A I[greja] C[atólica].
A I[greja] C[atólica]
M[aldita] s[eja], com arte ou sem arte,
A I[greja] C[atólica]
E quando alguém por apanhar ar
Tiver uma cólica
E sinta preciso aluviar
Lembre-se sempre de bem cagar
Para a I[greja] C[atólica].
Maldita seja, de rabo à vela,
A I[greja] C[atólica]
De toda retrete que seja capela
A I[greja] C[atólica]
Há só duas coisas a fazer para aquela
I[greja] C[atólica]
Cagar p'ra ela e mijar p'ra ela
Para a I[greja] C[atólica].
Caguemos pois e tudo junto
Para a I[greja] C[atólica]
Até que o caso dê assunto
À I[greja] C[atólica]
Cagar também, também por cólica
Então ver-se-á e será ouvido
O que tem comido, e o que tem bebido,
O que tem sorvido e engolido
A I[greja] C[atólica].
1 631
Dantas Motta
Tiradentes sobe ao patíbulo
de Tiradentes sobe ao patíbulo, pretende falar, não o deixam, sofre 3 sermões
35. Jm. Jzé. da Sva. Xer.
dá entrada no LARGO DA LAMPADOSA,
e como que possuídos de furor histero-religioso,
os padres da Comunidade do Convento de Santo Antônio,
aumentando as suas vozes,
alteiam-n'as com a Recitação da Oração dos Agonizantes.
36. Subindo, rápido, ao patíbulo de 24 degraus,
Tiradentes quis falar.
Não o deixaram,
Sinal próprio das épocas em que os outros têm medo
da liberdade.
Deram-lhe, porém, ao invés da fala,
água, pois que suava com abundância.
Recusou-a.
Pediu que apressassem o bárbaro espetáculo.
Prolongaram-n'o.
1º — com dois sermões
2º — com o recitativo do Eu Pecador
3º — com a encomendação do seu corpo ainda vivo.
35. Jm. Jzé. da Sva. Xer.
dá entrada no LARGO DA LAMPADOSA,
e como que possuídos de furor histero-religioso,
os padres da Comunidade do Convento de Santo Antônio,
aumentando as suas vozes,
alteiam-n'as com a Recitação da Oração dos Agonizantes.
36. Subindo, rápido, ao patíbulo de 24 degraus,
Tiradentes quis falar.
Não o deixaram,
Sinal próprio das épocas em que os outros têm medo
da liberdade.
Deram-lhe, porém, ao invés da fala,
água, pois que suava com abundância.
Recusou-a.
Pediu que apressassem o bárbaro espetáculo.
Prolongaram-n'o.
1º — com dois sermões
2º — com o recitativo do Eu Pecador
3º — com a encomendação do seu corpo ainda vivo.
791
Essex Hemphill
Casamento americano
Na América,
eu ponho meu anel
no seu pau
que é o lugar dele.
Nenhum cavaleiro
trazendo o terror
ou soldado apocalíptico
há de chegar
e chagar nossa união.
Eles estão ocupados
demais pilhando
a terra para nos ver.
Eles não sabem
que nos precisamos
criticamente.
Esperam que tiremos licença médica,
fiquemos a noite toda perante a TV,
morramos por nossas próprias mãos.
Eles não sabem
que estamos reunindo forças.
A cada beijo
confirmamos o novo mundo.
O que a rosa sussurra
antes de abrir
prometo a você.
Eu dou a você meu coração,
uma casa segura.
Eu dou a você promessas outras que
leite, mel, liberdade.
Eu presumo que você sempre
será um homem livre com um sonho.
Na América,
eu coloco o seu anel
no meu pau
que é o lugar dele.
Que vivamos muito
para libertar este sonho.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
American Wedding
Essex Hemphill
In America,
I place my ring
on your cock
where it belongs.
No horsemen
bearing terror,
no soldiers of doom
will swoop in
and sweep us apart.
They’re too busy
looting the land
to watch us.
They don’t know
we need each other
critically.
They expect us to call in sick,
watch television all night,
die by our own hands.
They don’t know
we are becoming powerful.
Every time we kiss
we confirm the new world coming.
What the rose whispers
before blooming
I vow to you.
I give you my heart,
a safe house.
I give you promises other than
milk, honey, liberty.
I assume you will always
be a free man with a dream.
In America,
place your ring
on my cock
where it belongs.
Long may we live
to free this dream.
.
.
.
854
Abd al-Wahhab Al-Bayati
Sobre a felicidade
mentiram: a felicidade,
Mohammad,
não se vende.
e então os jornais
escreveram que do céu
choveram rãs ontem à noite.
amigo, roubaram-te a felicidade
enganaram-te
torturaram-te
crucificaram-te
nos laços das palavras
para dizerem de ti: morreu
para te venderem um lugar no céu.
ai como é inútil chorar.
eu tenho vergonha, Mohammad
e então as rãs
roubaram-nos a felicidade.
e eu apesar do sofrimento
continuo a caminho do Sol.
plantaram a noite com adagas
e cães
o céu da noite desaba sobre eles.
então revolta-te!
Mohammad!
então revolta-te!
e cuidado, não sejas traidor.
(tradução de André Simões)
:
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????? ????? ?????
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?? ????? ????? ????? ?????
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!?? ????
! ?????
?????? ?? ????
.
.
.
686
Jacques Brel
O último jantar
Em meu último jantar
Quero ver meus irmãos
Meus cachorros e gatos
E a beira do mar
No meu último jantar
Quero ver meus vizinhos
E os chineses vindo
Como se fossem primos
Também quero tomar
Da missa o vinho
Esse vinho divino
Que eu bebia em Arbois
E quero devorar
Depois da batina
Um frango faisão
Vindo de Perigord
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver as árvores que dormem
De braços cruzados
Depois quero ainda
Jogar pedras pra cima
E gritar Deus está morto
Pela última vez
No meu último jantar
Com meu burrinho quero estar
Com os frangos e gansos
Mulheres e vacas
No meu último jantar
Quero ver as meninas
Das quais fui o mestre
Ou que foram amantes
E quando de barriga cheia
Pronto para o enterro
Vou quebrar meu copo
Pedindo silêncio
Vou cantar aos brados
À morte que vem
Os amores que de tão devassos
Chegam a amedrontar
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver o sol que caminha
A se pôr lentamente
E ainda de pé
Vou insultar os burgueses
Sem remorso e sem medo
Pela última vez.
Após meu último jantar
Quero que a gente vá
Satisfeito e farto
Para algum outro lugar
Após meu último jantar
Quero me sentar
A sós como um rei
Recebendo as vestais
Em meu cachimbo vou queimar
Lembranças da infância
Sonhos inacabados
Restos de esperança
E vou guardar
Para vestir a alma
A ideia de roseira
E um nome de mulher
Depois vou olhar
Para o alto da colina
Que dança que pressente
Que acaba por afundar
E no cheiro das flores
Que em breve sumirá
Sei o medo que terei
Pela última vez
(tradução de Marília Garcia)
:
Le dernier repas
A mon dernier repas
Je veux voir mes frères
Et mes chiens et mes chats
Et le bord de la mer
A mon dernier repas
Je veux voir mes voisins
Et puis quelques Chinois
En guise de cousins
Et je veux qu'on y boive
En plus du vin de messe
De ce vin si joli
Qu'on buvait en Arbois
Je veux qu'on y dévore
Après quelques soutanes
Une poule faisane
Venue du Périgord
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir les arbres dormir
En refermant leurs bras
Et puis je veux encore
Lancer des pierres au ciel
En criant Dieu est mort
Une dernière fois
A mon dernier repas
Je veux voir mon âne
Mes poules et mes oies
Mes vaches et mes femmes
A mon dernier repas
Je veux voir ces drôlesses
Dont je fus maître et roi
Ou qui furent mes maîtresses
Quand j'aurai dans la panse
De quoi noyer la terre
Je briserai mon verre
Pour faire le silence
Et chanterai à tue-tête
A la mort qui s'avance
Les paillardes romances
Qui font peur aux nonnettes
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir le soir qui chemine
Lentement vers la plaine
Et là debout encore
J'insulterai les bourgeois
Sans crainte et sans remords
Une dernière fois
Après mon dernier repas
Je veux que l'on s'en aille
Qu'on finisse ripaille
Ailleurs que sous mon toit
Après mon dernier repas
Je veux que l'on m'installe
Assis seul comme un roi
Accueillant ses vestales
Dans ma pipe je brûlerai
Mes souvenirs d'enfance
Mes rêves inachevés
Mes restes d'espérance
Et je ne garderai
Pour habiller mon âme
Que l'idée d'un rosier
Et qu'un prénom de femme
Puis je regarderai
Le haut de ma colline
Qui danse qui se devine
Qui finit par sombrer
Et dans l'odeur des fleurs
Qui bientôt s'éteindra
Je sais que j'aurai peur
Une dernière fois.
.
.
.
1 075
Kenneth Rexroth
Perdidos Etc.
Os expatriados dos anos
Vinte e seu líder Pound
Foram aqueles que, em tempos de
Revolta mundial, não acharam nada
Melhor pra combater
Que a lei seca.
LOST ETC.
The expatriates of the
Twenties and their leader Pound
Were those who, in an age of
World revolt, found nothing more
Important to revolt against
Than the Eighteenth Amendment.
Vinte e seu líder Pound
Foram aqueles que, em tempos de
Revolta mundial, não acharam nada
Melhor pra combater
Que a lei seca.
LOST ETC.
The expatriates of the
Twenties and their leader Pound
Were those who, in an age of
World revolt, found nothing more
Important to revolt against
Than the Eighteenth Amendment.
1 042
Torquato Neto
Let’s Play That
quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let"s play that
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