Poemas neste tema
Protesto, Resistência e Revolução
Paulo Leminski
cansei da frase polida
cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas
3 717
Felipe Vianna
IDEOLOGIA
Arma vil,
És tu,
Droga sutil;
Dopadora de homens
É a ideologia
Que te faz concordar
Com o contento descontente.
Ganhas pouco,
Isto te aborrece?
Mas és feliz,
No que parece;
Pois a ideologia
Te empurra a felicidade a seco
Em comprimidos de tarja preta
Duma caixa que diz:
“Tens emprego,
Milhares não têm;
Agradeça a Deus. ”
Droga de ideologia,
Droga que dopa o homem.
Como pode
A sociedade alimentar-se
De seus próprios resíduos,
Sem nem mesmo reciclá-los.
Ideologia,
Alimento podre,
Que mantém os ricos ricos
E os pobres pobres.
30/05/2001
És tu,
Droga sutil;
Dopadora de homens
É a ideologia
Que te faz concordar
Com o contento descontente.
Ganhas pouco,
Isto te aborrece?
Mas és feliz,
No que parece;
Pois a ideologia
Te empurra a felicidade a seco
Em comprimidos de tarja preta
Duma caixa que diz:
“Tens emprego,
Milhares não têm;
Agradeça a Deus. ”
Droga de ideologia,
Droga que dopa o homem.
Como pode
A sociedade alimentar-se
De seus próprios resíduos,
Sem nem mesmo reciclá-los.
Ideologia,
Alimento podre,
Que mantém os ricos ricos
E os pobres pobres.
30/05/2001
752
Miguel Ángel Asturias
Credo
Creio na Liberdade, Mãe de América
criadora de mares doces na terra,
e em Bolívar, seu filho, Senhor Nosso
que nasceu em Venezuela, padeceu
sob o poder espanhol, foi combatido,
sentiu-se morto sobre o Chimborazo,
ressuscitou na voz de Colômbia,
tocou ao Eterno com suas mãos
e está parado junto a Deus!
Não nos julgues, Bolívar, antes do dia último,
porque cremos na comunhão dos homens
que comungam com o povo, só o povo
faz livres aos homens, proclamamos
guerra a morte e sem perdão aos tiranos
cremos na ressurreição dos heróis
e na vida perdurável dos que como Tu,
Libertador, não morrem, fecham os olhos e se
ficam velando.
criadora de mares doces na terra,
e em Bolívar, seu filho, Senhor Nosso
que nasceu em Venezuela, padeceu
sob o poder espanhol, foi combatido,
sentiu-se morto sobre o Chimborazo,
ressuscitou na voz de Colômbia,
tocou ao Eterno com suas mãos
e está parado junto a Deus!
Não nos julgues, Bolívar, antes do dia último,
porque cremos na comunhão dos homens
que comungam com o povo, só o povo
faz livres aos homens, proclamamos
guerra a morte e sem perdão aos tiranos
cremos na ressurreição dos heróis
e na vida perdurável dos que como Tu,
Libertador, não morrem, fecham os olhos e se
ficam velando.
1 524
Marilina Ross
A praça branca
Recordo quando na praça
vi os filhos com as mães
que cantavam e saltavam
e brincavam de ser grandes
que brincavam de ser grandes
os filhos juntos as mães.
Porém chegou a tormenta
quando terminou o verão
a praça ficou deserta
nem as pombas ficaram
nem as pombas ficaram
Só as mães voltaram
mães que seguem buscando
aos filhos que deixaram
nessa praça brincando
brincando de que já eram livres
brincando, só brincando
brincando de que já eram livres
brincando...só brincando.
vi os filhos com as mães
que cantavam e saltavam
e brincavam de ser grandes
que brincavam de ser grandes
os filhos juntos as mães.
Porém chegou a tormenta
quando terminou o verão
a praça ficou deserta
nem as pombas ficaram
nem as pombas ficaram
Só as mães voltaram
mães que seguem buscando
aos filhos que deixaram
nessa praça brincando
brincando de que já eram livres
brincando, só brincando
brincando de que já eram livres
brincando...só brincando.
972
Cristiane Neder
Menores
Os menores fumam maconha
na Praça da Sé,
Já perderam a vergonha
e também a fé.
Tomam leite das prostitutas,
suas mães da noite e do dia,
encantados com o berço da rua
acreditam em uma saída.
Sonham debaixo do frio
com mulheres penduradas em bancas,
e sentem um espaço vazio
de todas serem escravas brancas.
Penduram-se no vidro do meu carro
todas as manhãs,
pedindo um trocado,
me oferecendo balas de hortelã.
Os menores
não foram crianças,
sempre foram maiores
desde a infância.
na Praça da Sé,
Já perderam a vergonha
e também a fé.
Tomam leite das prostitutas,
suas mães da noite e do dia,
encantados com o berço da rua
acreditam em uma saída.
Sonham debaixo do frio
com mulheres penduradas em bancas,
e sentem um espaço vazio
de todas serem escravas brancas.
Penduram-se no vidro do meu carro
todas as manhãs,
pedindo um trocado,
me oferecendo balas de hortelã.
Os menores
não foram crianças,
sempre foram maiores
desde a infância.
915
Angela Santos
Urgencia
Hoje é
decretado o estado de urgencia!
Ordens, decretos, leis
só aqueles emanadas da suprema
e soberana instancia
que é a Vida
Viver! A urgência é máxima!
Ao som de fanfaras e gritos
pelas cidades se anuncia:
clepsidras e ampulhetas esgotaram
a espera desmedida
e a eminente derrocada
dos romanos coliseus de nossa era
está prevista
A vida de saltimbanco
É decretada lei,
A terra inteira é nossa
e a profissão o perigo
de quem arrisca e ousa
desafiar o que venha
sem rede entre ele
e o chão
Anarquicamente viver
pelas ordens que emanam
do órgão que nos comanda
que nos anima e exalta
cuja voz é uma cadencia
que trespassa a mão pousada
no lado esquerdo do peito
Amar anarquicamente
pelas leis que o amor ditar
com seu curso e seus desvios,
amar os cambiantes do amor
que derruba o dever ser
e os moldes que nos tolhem
em busca da forma única
que é contida e contém
quando o amor é maior
e iguala a própria vida.
Passar o cabo da esperança
urge a hora da utopia.
além- eu, além- nós
além-leis, além limites,
romper diques, abrir comportas
a golpes reinventar
neste chão outros caminhos.
Cansamos,
este presente absurdo,
de pactuar e anuir,
de engolir nosso vómito
de estancar nossa raiva
de sufocar nosso grito
Cansamos!!!!!!!
decretado o estado de urgencia!
Ordens, decretos, leis
só aqueles emanadas da suprema
e soberana instancia
que é a Vida
Viver! A urgência é máxima!
Ao som de fanfaras e gritos
pelas cidades se anuncia:
clepsidras e ampulhetas esgotaram
a espera desmedida
e a eminente derrocada
dos romanos coliseus de nossa era
está prevista
A vida de saltimbanco
É decretada lei,
A terra inteira é nossa
e a profissão o perigo
de quem arrisca e ousa
desafiar o que venha
sem rede entre ele
e o chão
Anarquicamente viver
pelas ordens que emanam
do órgão que nos comanda
que nos anima e exalta
cuja voz é uma cadencia
que trespassa a mão pousada
no lado esquerdo do peito
Amar anarquicamente
pelas leis que o amor ditar
com seu curso e seus desvios,
amar os cambiantes do amor
que derruba o dever ser
e os moldes que nos tolhem
em busca da forma única
que é contida e contém
quando o amor é maior
e iguala a própria vida.
Passar o cabo da esperança
urge a hora da utopia.
além- eu, além- nós
além-leis, além limites,
romper diques, abrir comportas
a golpes reinventar
neste chão outros caminhos.
Cansamos,
este presente absurdo,
de pactuar e anuir,
de engolir nosso vómito
de estancar nossa raiva
de sufocar nosso grito
Cansamos!!!!!!!
888
Angela Santos
Dia
Internacional da Mulher)
Lançaram-nos
ao mundo
Despidas e desarmadas
E aceitamos caladas
Regras, tratados, pré-conceitos
E todos cuidavam saber
De que éramos feitas
E éramos menos
Em seus assentimentos
Fraco sexo, mãe devota
Rosto escondido por detrás dos véus,
Sofrimento e aceitação
Trancados soluços
Almas vexadas dentro de portas
E fomos o que quiseram que fossemos
Anos, dezenas, centenas, milhares deles
E fomos tudo isso, e tudo isso o somos ainda
Não sabendo , quantas de nós, que outra coisa
Somos já
O nosso despertar acordará todos os mágicos
Saberes, sabores, dizeres e sentidos
E ficaremos mais puras, mais perto de ser
Se nos olharmos à luz do que sempre
Havíamos sido sem saber
Viajamos pela História como sombras
Porque a noite era a dimensão que nos refletia
Mas descobrimos o prazer das bacantes
E erguemos nossa taça orgiástica ao sol
nos embriagamos de vida
e na vida mergulhamos
pois da vida criadoras
Os ventos da História
Sopraram mais fortes
E a descoberto, a olho nú
Surgiu a caixa Pandora
À luz do dia que nos furtaram
Clamamos paridade
Que iguais não somos
Antes este modo diverso de ser
E a tempestade atravessou a memória
E arrastou a poeira
Nas regras, tratados e pré-conceitos alojada
Estilhaçando a mentira que nos atava
Escavados os restos mortais,
Do que nunca fomos,
Na minúscula fração de um século
Ainda perguntamos:
- O que haveremos de ser??
Tudo!
Na caminhada infinita da Humanidade
Acabamos de nascer.
Lançaram-nos
ao mundo
Despidas e desarmadas
E aceitamos caladas
Regras, tratados, pré-conceitos
E todos cuidavam saber
De que éramos feitas
E éramos menos
Em seus assentimentos
Fraco sexo, mãe devota
Rosto escondido por detrás dos véus,
Sofrimento e aceitação
Trancados soluços
Almas vexadas dentro de portas
E fomos o que quiseram que fossemos
Anos, dezenas, centenas, milhares deles
E fomos tudo isso, e tudo isso o somos ainda
Não sabendo , quantas de nós, que outra coisa
Somos já
O nosso despertar acordará todos os mágicos
Saberes, sabores, dizeres e sentidos
E ficaremos mais puras, mais perto de ser
Se nos olharmos à luz do que sempre
Havíamos sido sem saber
Viajamos pela História como sombras
Porque a noite era a dimensão que nos refletia
Mas descobrimos o prazer das bacantes
E erguemos nossa taça orgiástica ao sol
nos embriagamos de vida
e na vida mergulhamos
pois da vida criadoras
Os ventos da História
Sopraram mais fortes
E a descoberto, a olho nú
Surgiu a caixa Pandora
À luz do dia que nos furtaram
Clamamos paridade
Que iguais não somos
Antes este modo diverso de ser
E a tempestade atravessou a memória
E arrastou a poeira
Nas regras, tratados e pré-conceitos alojada
Estilhaçando a mentira que nos atava
Escavados os restos mortais,
Do que nunca fomos,
Na minúscula fração de um século
Ainda perguntamos:
- O que haveremos de ser??
Tudo!
Na caminhada infinita da Humanidade
Acabamos de nascer.
1 043
Angela Santos
Recusa
Hábeis,
as vozes dos arautos
anunciam o jugo
num canto de inocência
simulado
e as nossas asas presas
perdem o jeito de voar.
Guarda o fundo da memória
um bater de asas
que o verdugo não profana,
e devagar vai esboçando
a forma de uma falésia antiga
sobrevoada
Inúteis fontes e oásis
prometidos
à nossa sede sem cura…
num gesto ousado
a alma se desprende
com o voo por destino.
as vozes dos arautos
anunciam o jugo
num canto de inocência
simulado
e as nossas asas presas
perdem o jeito de voar.
Guarda o fundo da memória
um bater de asas
que o verdugo não profana,
e devagar vai esboçando
a forma de uma falésia antiga
sobrevoada
Inúteis fontes e oásis
prometidos
à nossa sede sem cura…
num gesto ousado
a alma se desprende
com o voo por destino.
1 133
Angela Santos
Grito
Solte-se
o grito
que dilacere a surdez
dos vivos-mortos
e outros olhos sejam a luz,
a cura
da cegueira que aflige
Estendam-se os braços
ao jeito do desabrochar
eleve-se o canto
que à boca traga o gosto
da palavra Liberdade.
o grito
que dilacere a surdez
dos vivos-mortos
e outros olhos sejam a luz,
a cura
da cegueira que aflige
Estendam-se os braços
ao jeito do desabrochar
eleve-se o canto
que à boca traga o gosto
da palavra Liberdade.
1 014
Mauricio Segall
Venham admirar
Venham,
venham admirar
o mais recente monumento
neoclássico da civilização ocidental
Não tenham medo nem receio
das alvas chaminés marítimas,
vigilantes sentinelas avançadas
que vomitam os rugidos do boulez electrônico.
Atravessem ousadamente
o happening programado
vasto pátio de milagres,
repleto de artistas amadores,
profissionais do subemprego
(não esqueçam a moedinha, por favor)
e adentrem a queixada
do mais recente dos molochs.
Tranquilizem-se com as criancinhas
virgens, puras e rosadas
armadilhas inocentes
entrevistas nas provetas
dos ascéticos e desinfetados
ateliers de cria-cria-criatividade.
Venham, venham ser moídos
pela recepção glacial toda sorrisos
deglutidos pelas entranhas desnudas
e expelidos pelas peristálticas tripas de vidro
do mais novo monstro sagrado da arte
sorvedouro metálico
das multidões famintas
de verbo e cor
de som e espetáculo.
Transatlântico multicolorido
circo travestido
novo templo de aço
digerindo tecnologicamente
séculos de sensibilidade
e anos de orçamento.
Cultura nuclear instantânea
para os telespectadores
extasiados com a prestidigitação
arquitetônica do futuro
inserida a golpes de fórceps
entre os velhos tetos de paris.
Ah! Que saudades dos Halles
sacrificados no altar da especulação,
cujo imenso buraco desnudo
nos faz chorar a má-fé dos homens.
Centro Beaubourg-Pompidou
fruto da megalomania furiosa,
ditadura da nova moda,
agencia central da arte
igreja dos novos templos
ritual da nova liturgia,
computador maldito
piscando eternamente
anunciando a nova
e duradoura alienação.
venham admirar
o mais recente monumento
neoclássico da civilização ocidental
Não tenham medo nem receio
das alvas chaminés marítimas,
vigilantes sentinelas avançadas
que vomitam os rugidos do boulez electrônico.
Atravessem ousadamente
o happening programado
vasto pátio de milagres,
repleto de artistas amadores,
profissionais do subemprego
(não esqueçam a moedinha, por favor)
e adentrem a queixada
do mais recente dos molochs.
Tranquilizem-se com as criancinhas
virgens, puras e rosadas
armadilhas inocentes
entrevistas nas provetas
dos ascéticos e desinfetados
ateliers de cria-cria-criatividade.
Venham, venham ser moídos
pela recepção glacial toda sorrisos
deglutidos pelas entranhas desnudas
e expelidos pelas peristálticas tripas de vidro
do mais novo monstro sagrado da arte
sorvedouro metálico
das multidões famintas
de verbo e cor
de som e espetáculo.
Transatlântico multicolorido
circo travestido
novo templo de aço
digerindo tecnologicamente
séculos de sensibilidade
e anos de orçamento.
Cultura nuclear instantânea
para os telespectadores
extasiados com a prestidigitação
arquitetônica do futuro
inserida a golpes de fórceps
entre os velhos tetos de paris.
Ah! Que saudades dos Halles
sacrificados no altar da especulação,
cujo imenso buraco desnudo
nos faz chorar a má-fé dos homens.
Centro Beaubourg-Pompidou
fruto da megalomania furiosa,
ditadura da nova moda,
agencia central da arte
igreja dos novos templos
ritual da nova liturgia,
computador maldito
piscando eternamente
anunciando a nova
e duradoura alienação.
817
Regina Souza Vieira
Que País
Que país
Que história
Que presente
Que futuro
Ou que passado construímos?
Este que destrói primeiro
E depois sepulta em honra
Cada um dos seus heróis
No esquecimento?
Que história
Que presente
Que futuro
Ou que passado construímos?
Este que destrói primeiro
E depois sepulta em honra
Cada um dos seus heróis
No esquecimento?
706
Silvaney Paes
Preto
Negras
Almas
Em peles alvas
Não esqueceram
Suas negras senzalas
Negras Falas
Que vez por outra,
São naus lembradas
Trazendo almas escravas.
Negras Almas
Nessas línguas com facas
Que separam por serem fracas
E que cortam, marcam e matam
Negras Falas
Que humilham, pisam,
Negando as almas
Que não tenham a pele clara
Negras Almas
Enganadas achando terem escravas
Sendo vós as pretas almas
Em pele clara
Almas
Em peles alvas
Não esqueceram
Suas negras senzalas
Negras Falas
Que vez por outra,
São naus lembradas
Trazendo almas escravas.
Negras Almas
Nessas línguas com facas
Que separam por serem fracas
E que cortam, marcam e matam
Negras Falas
Que humilham, pisam,
Negando as almas
Que não tenham a pele clara
Negras Almas
Enganadas achando terem escravas
Sendo vós as pretas almas
Em pele clara
1 052
Luiz Felipe Coelho
Funcionários do ódio
Chamados
raivosos de aço a convocar multidões
para jardins odiosos
onde genocídios saem dos dicionários
e empilham cadáveres na grama
enquanto os gritos do saque
e as ondas da maldade
respingam sangue distraídos.
Matar
e beber uma cerveja gelada,
matar
e ir dormir um pouco,
matar
e levar brinquedos para os filhos.
O horror da facilidade da morte e da raiva
para espalhar cadáveres homogêneos
tem a profundidade de grandes lagos alpinos
de águas límpidas, azuis, sem vida,
e as frias serras que se vêem ao longe
a carregar pedras, gêlo, vento e delírios arianos,
tem a secura dos grandes desertos a gerar deuses cruéis.
espelhados na dureza dos dias,
e a escrever o genocídio e a guerra santa
nos seus livros sagrados,
mas vai além.
Cambodja? Auschwitz?
Palestina? gueto de Varsóvia?
Ruanda? Bósnia? Soweto?
Assim os vemos e nos acalmamos,
estranhas consoantes e vogais enfileiradas
em distantes mapas,
e nós não somos eles
e nos regozijamos por sermos diferentes.
Mas, será? A distância é aparente,
o nome talvez seja sempre o mesmo
e seria fácil dizê-lo:
é a lógica das limpezas étnicas,
é a certeza dos estados nacionais,
é a manutenção da ordem social,
é o direito à revolução,
é uma única religião verdadeira
e só se diz em uma língua,
e admite apenas um alfabeto,
mas será mesmo?
Seu nome é muito mais que tudo isto,
êle é a densa maldade sem espelho
a falar calmamente
e a matar.
raivosos de aço a convocar multidões
para jardins odiosos
onde genocídios saem dos dicionários
e empilham cadáveres na grama
enquanto os gritos do saque
e as ondas da maldade
respingam sangue distraídos.
Matar
e beber uma cerveja gelada,
matar
e ir dormir um pouco,
matar
e levar brinquedos para os filhos.
O horror da facilidade da morte e da raiva
para espalhar cadáveres homogêneos
tem a profundidade de grandes lagos alpinos
de águas límpidas, azuis, sem vida,
e as frias serras que se vêem ao longe
a carregar pedras, gêlo, vento e delírios arianos,
tem a secura dos grandes desertos a gerar deuses cruéis.
espelhados na dureza dos dias,
e a escrever o genocídio e a guerra santa
nos seus livros sagrados,
mas vai além.
Cambodja? Auschwitz?
Palestina? gueto de Varsóvia?
Ruanda? Bósnia? Soweto?
Assim os vemos e nos acalmamos,
estranhas consoantes e vogais enfileiradas
em distantes mapas,
e nós não somos eles
e nos regozijamos por sermos diferentes.
Mas, será? A distância é aparente,
o nome talvez seja sempre o mesmo
e seria fácil dizê-lo:
é a lógica das limpezas étnicas,
é a certeza dos estados nacionais,
é a manutenção da ordem social,
é o direito à revolução,
é uma única religião verdadeira
e só se diz em uma língua,
e admite apenas um alfabeto,
mas será mesmo?
Seu nome é muito mais que tudo isto,
êle é a densa maldade sem espelho
a falar calmamente
e a matar.
832
Lili Gharcia
Boulevard
Compro do mundo uma parte de mim.
A alma é tão comerciável....
Vendo aos homens a vida que me deram.
Multiplicai-me, Senhor!
O social é uma relação de compra e venda
Então vendo meu Milton,
Vendo Chopin,
Meu Bach,
Minha Alegria,
E depois me afogo de culpa por comer no almoço
um pedaço de espírito.
A alma é tão comerciável....
Vendo aos homens a vida que me deram.
Multiplicai-me, Senhor!
O social é uma relação de compra e venda
Então vendo meu Milton,
Vendo Chopin,
Meu Bach,
Minha Alegria,
E depois me afogo de culpa por comer no almoço
um pedaço de espírito.
1 548
Reinaldo Ferreira
Deixai os doidos governar entre comparsas
Deixai os doidos governar entre comparsas!
Deixai-os declamar dos seus balcões
Sobre as praças desertas!
Deixai as frases odiosas que eles disserem,
Como morcegos à luz do Sol,
Atónitas baterem de parede em parede,
Até morrerem no ar
Que as não ouviu
Nem percutiu
À distância da multidão que partiu!
Deixai-os gritar pelos salões vazios,
Eles, os portentosos mais que os mares,
Eles, os caudalosos mais que os rios,
O medo de estar sós
Entre os milhares
De esgares
Reflectidos nos colossais
Cristais
Hílares
Que a sua grandeza lhes sonhou!
Deixai-os declamar dos seus balcões
Sobre as praças desertas!
Deixai as frases odiosas que eles disserem,
Como morcegos à luz do Sol,
Atónitas baterem de parede em parede,
Até morrerem no ar
Que as não ouviu
Nem percutiu
À distância da multidão que partiu!
Deixai-os gritar pelos salões vazios,
Eles, os portentosos mais que os mares,
Eles, os caudalosos mais que os rios,
O medo de estar sós
Entre os milhares
De esgares
Reflectidos nos colossais
Cristais
Hílares
Que a sua grandeza lhes sonhou!
1 644
Rosemberg Cariry
Sexta-Feira
Entre pedras escaldadas
negro lençol de poeira
Gertrudes pariu um filho
como se fosse uma ovelha
Nem por isso houve festa
quebrou-se o monótono ritmo
dos enxadecos no chão
Nesta terra tantos morram
que outros serão paridos
serão servidos na mesa
tantos braços escravos
quanto as léguas
das sesmarias sem-fim
Aqui a vida estrebucha
corpo humano é queimado
como lenha da caldeira
Liberdade se contorce
espezinhada pelas botas
do senhor doutor coronel
negro lençol de poeira
Gertrudes pariu um filho
como se fosse uma ovelha
Nem por isso houve festa
quebrou-se o monótono ritmo
dos enxadecos no chão
Nesta terra tantos morram
que outros serão paridos
serão servidos na mesa
tantos braços escravos
quanto as léguas
das sesmarias sem-fim
Aqui a vida estrebucha
corpo humano é queimado
como lenha da caldeira
Liberdade se contorce
espezinhada pelas botas
do senhor doutor coronel
963
Nana Corrêa de Lima
Yanomani
Yanomani
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
940
Gilberto Gil
Procissão
Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na terra
Esperando o que Jesus prometeu
E Jesus prometeu vida melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver
Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na terra isto tem que se acabar
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na terra
Esperando o que Jesus prometeu
E Jesus prometeu vida melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver
Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na terra isto tem que se acabar
1 684
Cândido Rolim
Orfandade da Terra
por falta de justos
minha terra
é áspera de súplica
nem só a morte segrega
a carne da plebe
por falta de fuzis
meu povo
mastiga dor e extravio
nem só a noite arreda
a luz das lavouras
por falta de voz
canto
o prenúncio das foices
minha terra
é áspera de súplica
nem só a morte segrega
a carne da plebe
por falta de fuzis
meu povo
mastiga dor e extravio
nem só a noite arreda
a luz das lavouras
por falta de voz
canto
o prenúncio das foices
761
Durvalino Filho
O Rei Estava Ensimesmado
O rei estava ensimesmado,
De sua boca nada se ouvia
— nenhuma ordem para hoje,
nenhum enforcamento.
Não foi cobrado o dízimo da noite.
Um escândalo arrebentou na economia
e não foi liberado o pensamento
porque o rei havia-se calado
e o país inteiro adormecia.
O enclausurado urrou por entre as grades.
Mil acidentes com os bóias-frias.
O bispo ficou celerado, possesso
e o diabo rezou a ordem do dia.
Na iniciativa privada
forjaram-se falências desastrosas
com a mudez do rei que só ouvia.
Mataram cães de estimação
em mansões de beira-rio.
Comunidades se desintegraram,
crianças tornaram-se desafio
e a nudez das mulheres
virou prato do dia,
Adeus, véus de Alexandria!
Não houve festas nas periferias
e as mentiras aumentaram em abril.
Até que o rei declarou
num assomo de agonia:
"Nada mudou no Brasil."
De sua boca nada se ouvia
— nenhuma ordem para hoje,
nenhum enforcamento.
Não foi cobrado o dízimo da noite.
Um escândalo arrebentou na economia
e não foi liberado o pensamento
porque o rei havia-se calado
e o país inteiro adormecia.
O enclausurado urrou por entre as grades.
Mil acidentes com os bóias-frias.
O bispo ficou celerado, possesso
e o diabo rezou a ordem do dia.
Na iniciativa privada
forjaram-se falências desastrosas
com a mudez do rei que só ouvia.
Mataram cães de estimação
em mansões de beira-rio.
Comunidades se desintegraram,
crianças tornaram-se desafio
e a nudez das mulheres
virou prato do dia,
Adeus, véus de Alexandria!
Não houve festas nas periferias
e as mentiras aumentaram em abril.
Até que o rei declarou
num assomo de agonia:
"Nada mudou no Brasil."
366
Bocage
Aspirações do liberalismo, excitadas pela Revolução Francesa
Aspirações do liberalismo, excitadas pela Revolução Francesa
e consolidação da República em 1797
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha . . . Oh!, venha, e trêmulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, ó Liberdade!
e consolidação da República em 1797
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha . . . Oh!, venha, e trêmulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, ó Liberdade!
1 865
Wanda Cristina
Poema-quero
Eu quero um poema da cor
da minha cor.
Um poema-pálido
que banhe na chuva.
Um poema-pobre
que more nos mangues.
Um poema-irmão
que tenha meu sangue.
Um poema-pão
que tenha minha fome.
Um poema-esmola
no chapéu do povo.
Um poema-rasgado
de vestir meu sujo.
Um poema-insensato
pra falar sentindo.
Um poema-tema
de televisão.
Um poema-jornal
para o imprevisto...
Um poema-planeta
para eu habitar,
quando não mais existir condição
para controlar a natalidade do absurdo.
da minha cor.
Um poema-pálido
que banhe na chuva.
Um poema-pobre
que more nos mangues.
Um poema-irmão
que tenha meu sangue.
Um poema-pão
que tenha minha fome.
Um poema-esmola
no chapéu do povo.
Um poema-rasgado
de vestir meu sujo.
Um poema-insensato
pra falar sentindo.
Um poema-tema
de televisão.
Um poema-jornal
para o imprevisto...
Um poema-planeta
para eu habitar,
quando não mais existir condição
para controlar a natalidade do absurdo.
1 416
Sérgio Milliet
Fotografia
Esse papel estragado de fotografia
Era branco dentro da caixa.
Bastou expô-lo ao sol para que se queimasse...
Assim os negros quando nascem.
Era branco dentro da caixa.
Bastou expô-lo ao sol para que se queimasse...
Assim os negros quando nascem.
1 674
José Carlos Souza Santos
O Romanceiro
Vinte e quatro sóis
acesos no meu caminho
um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro
Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim
um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé
Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei
Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho
e lançaste o pregão ao vento :
- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos
- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido
Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido
- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito
O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro
- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar
- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho
- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto
- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado
- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear
- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam
- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor
Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce
Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã
Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres
Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas
- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade
- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados
- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento
Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas
As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído
Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver
- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia
Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito
acesos no meu caminho
um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro
Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim
um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé
Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei
Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho
e lançaste o pregão ao vento :
- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos
- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido
Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido
- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito
O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro
- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar
- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho
- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto
- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado
- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear
- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam
- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor
Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce
Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã
Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres
Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas
- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade
- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados
- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento
Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas
As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído
Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver
- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia
Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito
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