Poemas neste tema
Protesto, Resistência e Revolução
Cruz e Sousa
Escravocratas
Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
manhosos, agachados — bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranqüilo.
Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar — formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha — enquanto o grande basta
O basta gigantesco, imenso, extraordinário —
da branca consciência — o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido — audaz me não soar.
Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d'estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro — ouvindo-vos urrar!
Publicado no livro Obra completa (1961). Poema integrante da série O Livro Derradeiro.
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981
manhosos, agachados — bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranqüilo.
Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar — formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha — enquanto o grande basta
O basta gigantesco, imenso, extraordinário —
da branca consciência — o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido — audaz me não soar.
Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d'estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro — ouvindo-vos urrar!
Publicado no livro Obra completa (1961). Poema integrante da série O Livro Derradeiro.
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981
4 297
Moacyr Felix
Iniciação
— Meu pai, o que é a liberdade?
— É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.
— Meu pai, o que é a liberdade?
A mão limpa, o copo d'água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
— laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.
— Meu pai, o que é a liberdade?
É um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o braseiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para a altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
(...)
Publicado no livro Canto para as Transformações do Homem (1964).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.4-
— É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.
— Meu pai, o que é a liberdade?
A mão limpa, o copo d'água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
— laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.
— Meu pai, o que é a liberdade?
É um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o braseiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para a altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
(...)
Publicado no livro Canto para as Transformações do Homem (1964).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.4-
1 320
Moacyr Felix
Eu Sou Daqui: 1970 a 1980
A Wilson Fadul, Waldo César e Luís Eduardo
Vanderlei, companheiros nas lutas pelo socialismo e
liberdade na Paz e Terra e na revista de mesmo nome
(...)
No Brasil o poema deve nascer como se fosse a própria vida
do coração que arranco como um peixe trêmulo nas horas
da liberdade a desmoronar-se devagarinho em cada rosto;
da melancolia a encolher-se na profundidade dos botecos;
das ruas que os ventos movem numa antiga cantilena de escravos;
da pobreza a dependurar-se no corpo grande da existência;
da revolução a servir de vinho para os que se constroem de pé.
No Brasil a palavra de cristal exila o tempo
da sombra quente do poema; usá-la tão-somente
para entoar brisas entre as roxas bundas do Saber
ou para dialogar com um Deus qualquer no espaço
sem sujeira e sem erros, sem manhãs estilhaçadas
no salário menor que as mãos,
é nos desfazermos da verdade que nos firma em homem
da cor do agora, homem comum, simples homem que escreve.
Em meu país, o poeta não usa a braçadeira dos patrões
e com mão insubmissa testemunha
os movimentos do Homem no tempo que sangra
entre a esperança e a história
de cada indivíduo e cada povo.
Em meu país a poesia manda os metafísicos à merda.
e é abrigo provisório das coisas e da vida que são provisórias.
E também às vezes é o definitivo lar
do desespero que se destina a servir a uma esperança
e sub-roga o suicídio pelos atos de criar.
Sem qualquer pretensão de eternidade
como o olhar do pivete a vigiar o carro
que passa, o poema brasileiro não nasce
alimentado pelo indefinível.
E nenhuma vaga saudade do Ser o impele
aqui e agora neste quando
em que se move
para existir, simplesmente existir
como é devido ao homem, a cada homem.
(...)
Imagem - 00810005
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.178-17
Vanderlei, companheiros nas lutas pelo socialismo e
liberdade na Paz e Terra e na revista de mesmo nome
(...)
No Brasil o poema deve nascer como se fosse a própria vida
do coração que arranco como um peixe trêmulo nas horas
da liberdade a desmoronar-se devagarinho em cada rosto;
da melancolia a encolher-se na profundidade dos botecos;
das ruas que os ventos movem numa antiga cantilena de escravos;
da pobreza a dependurar-se no corpo grande da existência;
da revolução a servir de vinho para os que se constroem de pé.
No Brasil a palavra de cristal exila o tempo
da sombra quente do poema; usá-la tão-somente
para entoar brisas entre as roxas bundas do Saber
ou para dialogar com um Deus qualquer no espaço
sem sujeira e sem erros, sem manhãs estilhaçadas
no salário menor que as mãos,
é nos desfazermos da verdade que nos firma em homem
da cor do agora, homem comum, simples homem que escreve.
Em meu país, o poeta não usa a braçadeira dos patrões
e com mão insubmissa testemunha
os movimentos do Homem no tempo que sangra
entre a esperança e a história
de cada indivíduo e cada povo.
Em meu país a poesia manda os metafísicos à merda.
e é abrigo provisório das coisas e da vida que são provisórias.
E também às vezes é o definitivo lar
do desespero que se destina a servir a uma esperança
e sub-roga o suicídio pelos atos de criar.
Sem qualquer pretensão de eternidade
como o olhar do pivete a vigiar o carro
que passa, o poema brasileiro não nasce
alimentado pelo indefinível.
E nenhuma vaga saudade do Ser o impele
aqui e agora neste quando
em que se move
para existir, simplesmente existir
como é devido ao homem, a cada homem.
(...)
Imagem - 00810005
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.178-17
1 149
Moacyr Felix
Quinteto no Outono
(2a. versão)
A Fátima Pires dos Santos
I
Escrever um poema não é brincar
de ser com palavras e sons
sobre a brancura sem defesa
do papel ou da vida que não foi vivida.
No fundo dos becos sem saída
é que o poema se encontra
lado a lado com as mortes
inumeráveis e indefinidas
na mão que o escreve.
Morre e transforma-te!
Não há outro caminho:
o poema é sempre uma autópsia.
II
No lixo da praça os ossos do mundo
brilham como luas doentes.
No lixo da praça o poeta
quer ser apenas um homem
com uma canção nos gatilhos
de uma revolução necessária.
No lixo da praça os ossos do mundo
brilham como luas doentes
à espera da poesia, cadela
feroz e machucada, cadela
que ao poeta se amarra
sobre o represar da vida
mais forte que as voragens
do desejo de matar-se.
No lixo da praça, o poeta e a sua poesia
perambulam entre os ossos do mundo
a violência do sol aprisionada nas luas.
III
No fundo do prato havia um rosto.
Eu nunca pude decifrá-lo;
sua velocidade era diferente da minha,
nessas horas a minha esperança era
um pano velho que nem mais vestia
a fadiga da vida espantada.
No fundo do prato em meu país os ratos
usavam a cara dos poderosos
e comiam e comiam este rosto.
Um rosto que jamais sumia
diariamente enterrado e recomposto
no rosto de cada morte operária
dentro de cada coisa que eu via.
No fundo do prato havia um rosto
que eu nunca pude decifrar.
Além de mim, no entanto, ele era meu rosto, o rosto
em que nem sequer me encontrei
como quem cumpre, de fato, a sua própria lei.
(...)
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993.
NOTA: Poema composto de 5 parte
A Fátima Pires dos Santos
I
Escrever um poema não é brincar
de ser com palavras e sons
sobre a brancura sem defesa
do papel ou da vida que não foi vivida.
No fundo dos becos sem saída
é que o poema se encontra
lado a lado com as mortes
inumeráveis e indefinidas
na mão que o escreve.
Morre e transforma-te!
Não há outro caminho:
o poema é sempre uma autópsia.
II
No lixo da praça os ossos do mundo
brilham como luas doentes.
No lixo da praça o poeta
quer ser apenas um homem
com uma canção nos gatilhos
de uma revolução necessária.
No lixo da praça os ossos do mundo
brilham como luas doentes
à espera da poesia, cadela
feroz e machucada, cadela
que ao poeta se amarra
sobre o represar da vida
mais forte que as voragens
do desejo de matar-se.
No lixo da praça, o poeta e a sua poesia
perambulam entre os ossos do mundo
a violência do sol aprisionada nas luas.
III
No fundo do prato havia um rosto.
Eu nunca pude decifrá-lo;
sua velocidade era diferente da minha,
nessas horas a minha esperança era
um pano velho que nem mais vestia
a fadiga da vida espantada.
No fundo do prato em meu país os ratos
usavam a cara dos poderosos
e comiam e comiam este rosto.
Um rosto que jamais sumia
diariamente enterrado e recomposto
no rosto de cada morte operária
dentro de cada coisa que eu via.
No fundo do prato havia um rosto
que eu nunca pude decifrar.
Além de mim, no entanto, ele era meu rosto, o rosto
em que nem sequer me encontrei
como quem cumpre, de fato, a sua própria lei.
(...)
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993.
NOTA: Poema composto de 5 parte
1 376
Raimundo Correia
Luiz Gama
A Raul Pompéia
Tantos triunfos te contando os dias,
Iam-te os dias descontando e os anos,
Quando bramavas, quando combatias
Contra os bárbaros, contra os desumanos;
Quando a alma brava e procelosa abrias
Invergável ao pulso dos tiranos,
E ígnea, como os desertos africanos
Dilacerados pelas ventanias...
Contra o inimigo atroz rompeste em guerra,
Grilhões a rebentar por toda a parte,
Por toda a parte a escancarar masmorras.
Morreste!... Embalde, Escravidão! Por terra
Rolou... Morreu por não poder matar-te!
Também não tarda muito que tu morras!
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.19
Tantos triunfos te contando os dias,
Iam-te os dias descontando e os anos,
Quando bramavas, quando combatias
Contra os bárbaros, contra os desumanos;
Quando a alma brava e procelosa abrias
Invergável ao pulso dos tiranos,
E ígnea, como os desertos africanos
Dilacerados pelas ventanias...
Contra o inimigo atroz rompeste em guerra,
Grilhões a rebentar por toda a parte,
Por toda a parte a escancarar masmorras.
Morreste!... Embalde, Escravidão! Por terra
Rolou... Morreu por não poder matar-te!
Também não tarda muito que tu morras!
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.19
2 644
Gonçalves Dias
IV
(...)
E nessas cidades, vilas e aldeias, nos seus cais,
praças e chafarizes — vi somente — escravos!
E à porta ou no interior dessas casas mal construídas
e nesses palácios sem elegância — escravos!
E no adro ou debaixo das naves dos templos — de
costas para as imagens sagradas, sem temor, como
sem respeito — escravos!
E nas jangadas mal tecidas — e nas canoas de um
só toro de madeira — escravos; — e por toda a parte
— escravos!!...
Por isto o estrangeiro que chega a algum porto do
vasto império — consulta de novo a sua derrota e
observa atentamente os astros — porque julga que
um vento inimigo o levou às costas d'África.
E conhece por fim que está no Brasil — na terra
da liberdade, na terra ataviada de primores e esclarecida
por um céu estrelado e magnífico!
Mas grande parte da sua população é escrava —
mas a sua riqueza consiste nos escravos — mas o
sorriso — o deleite do seu comerciante — do seu
agrícola — e o alimento de todos os seus habitantes
é comprado à custa do sangue do escravo!
E nos lábios do estrangeiro, que aporta ao Brasil,
desponta um sorriso irônico e despeitoso — e ele diz
consigo, que a terra — da escravidão — não pode
durar muito; porque ele é crente, e sabe que os
homens são feitos do mesmo barro — sujeitos às
mesmas dores e às mesmas necessidades.
Poema integrante da série Capítulo I.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.10-1
E nessas cidades, vilas e aldeias, nos seus cais,
praças e chafarizes — vi somente — escravos!
E à porta ou no interior dessas casas mal construídas
e nesses palácios sem elegância — escravos!
E no adro ou debaixo das naves dos templos — de
costas para as imagens sagradas, sem temor, como
sem respeito — escravos!
E nas jangadas mal tecidas — e nas canoas de um
só toro de madeira — escravos; — e por toda a parte
— escravos!!...
Por isto o estrangeiro que chega a algum porto do
vasto império — consulta de novo a sua derrota e
observa atentamente os astros — porque julga que
um vento inimigo o levou às costas d'África.
E conhece por fim que está no Brasil — na terra
da liberdade, na terra ataviada de primores e esclarecida
por um céu estrelado e magnífico!
Mas grande parte da sua população é escrava —
mas a sua riqueza consiste nos escravos — mas o
sorriso — o deleite do seu comerciante — do seu
agrícola — e o alimento de todos os seus habitantes
é comprado à custa do sangue do escravo!
E nos lábios do estrangeiro, que aporta ao Brasil,
desponta um sorriso irônico e despeitoso — e ele diz
consigo, que a terra — da escravidão — não pode
durar muito; porque ele é crente, e sabe que os
homens são feitos do mesmo barro — sujeitos às
mesmas dores e às mesmas necessidades.
Poema integrante da série Capítulo I.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.10-1
4 654
Cassiano Ricardo
Retorno à Rua
I
Turba-multa multicor. Em tumulto.
O ideal e a fome reunidos
em algum lugar da terra na rua.
Contra a exploração do osso humano
pelo cachorro humano.
Subvivos, no anseio de sobreviver.
O povo
na rua.
E já os policiais, geometricamente
chovidos de botões de ouro, na mão
a metralhadora portátil,
leve e breve;
na rua.
Vultos baralhados cuspindo furiosas
sílabas de sangue, uns na
face dos outros
de um a outro lado
da rua.
Bairro contra bairro, relâmpagos
de fuzis e o saldo:
(rubras rosas
monstruosas) que desabrocharam
na rua.
Bocas sem lábios que ficaram rindo
na rua
Dedos brotando avulsos pelos
vãos dos sapatos
na rua.
Olhos parados no rosto das calçadas
máquinas azuis-fixas fotografando
o juízo final
na rua.
Braços com mãos despetaladas, sem
uma cabeça que lhes sirva de
lanterna
e os recomponha,
na rua.
O interrogatório. Os sobreviventes.
Pedregulhos nos olhos.
Salvos
à fúria bélico-purpúrea da lei
na rua.
II
Outro saldo: o dos sobreviventes
indignos. Os que não saíram
de casa.
Os que faltaram a seus compr'
omissos
com a rua.
Os omissos.
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.184-185. Poema integrante da série O Bloco dos Suicidas
Turba-multa multicor. Em tumulto.
O ideal e a fome reunidos
em algum lugar da terra na rua.
Contra a exploração do osso humano
pelo cachorro humano.
Subvivos, no anseio de sobreviver.
O povo
na rua.
E já os policiais, geometricamente
chovidos de botões de ouro, na mão
a metralhadora portátil,
leve e breve;
na rua.
Vultos baralhados cuspindo furiosas
sílabas de sangue, uns na
face dos outros
de um a outro lado
da rua.
Bairro contra bairro, relâmpagos
de fuzis e o saldo:
(rubras rosas
monstruosas) que desabrocharam
na rua.
Bocas sem lábios que ficaram rindo
na rua
Dedos brotando avulsos pelos
vãos dos sapatos
na rua.
Olhos parados no rosto das calçadas
máquinas azuis-fixas fotografando
o juízo final
na rua.
Braços com mãos despetaladas, sem
uma cabeça que lhes sirva de
lanterna
e os recomponha,
na rua.
O interrogatório. Os sobreviventes.
Pedregulhos nos olhos.
Salvos
à fúria bélico-purpúrea da lei
na rua.
II
Outro saldo: o dos sobreviventes
indignos. Os que não saíram
de casa.
Os que faltaram a seus compr'
omissos
com a rua.
Os omissos.
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.184-185. Poema integrante da série O Bloco dos Suicidas
2 201
Ilka Brunhilde Laurito
Publicidade
Proibido colocar cartazes:
em chão
parede
poste.
(Em homem:
pode.)
1963
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.31. (Sélesis, 13
em chão
parede
poste.
(Em homem:
pode.)
1963
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.31. (Sélesis, 13
1 616
Gonçalves Dias
IV
(...)
Uma voz sonora e retumbante partiu do Ipiranga
e foi do mar aos Andes e do Prata às margens do
Amazonas.
E todos se ergueram violenta e instantaneamente
como um cadáver por virtude do galvanismo.
E soltaram o mesmo brado com voz entusiasta e
forte, e travaram das armas com a impavidez do guerreiro
e com a esperança do homem que pugna em favor da justiça.
E a corrente que prendia um Império a outro Império,
fraca com o seu comprimento, estalou violentamente
em mil pedaços.
E os dois Impérios soltaram dois gritos simultâneos;
— era de um lado o despeito do caçador que
vê fugir-lhe a presa, e do outro o contentamento da
águia quando pela primeira vez ousa fitar a luz do
sol e a balançar-se nos campos incomensuráveis do
espaço.
E os homens, que eram livres, regozijavam-se com
a vitória do povo emancipado, e os que eram tiranizados
afiavam com mais ardor a espada da liberdade
nas escadas dos potentes.
(...)
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.62-6
Uma voz sonora e retumbante partiu do Ipiranga
e foi do mar aos Andes e do Prata às margens do
Amazonas.
E todos se ergueram violenta e instantaneamente
como um cadáver por virtude do galvanismo.
E soltaram o mesmo brado com voz entusiasta e
forte, e travaram das armas com a impavidez do guerreiro
e com a esperança do homem que pugna em favor da justiça.
E a corrente que prendia um Império a outro Império,
fraca com o seu comprimento, estalou violentamente
em mil pedaços.
E os dois Impérios soltaram dois gritos simultâneos;
— era de um lado o despeito do caçador que
vê fugir-lhe a presa, e do outro o contentamento da
águia quando pela primeira vez ousa fitar a luz do
sol e a balançar-se nos campos incomensuráveis do
espaço.
E os homens, que eram livres, regozijavam-se com
a vitória do povo emancipado, e os que eram tiranizados
afiavam com mais ardor a espada da liberdade
nas escadas dos potentes.
(...)
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.62-6
3 554
Cassiano Ricardo
Ditirambo da Paz
quero paz
não
de pás
de cal
nem de pas-
maceira
quero paz
de pás
ao ombro
paz viva
paz
que mantém
o homem
em pé
na pers-
pectiva
do advir.
paz
de sempre
viva
muito viva
que cada um
de nós
cultiva
no peito
homem da
rua
ou na faina
do eito
lutando por
uma
madrugada
definitiva
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.49. Poema integrante da série Oscilação
não
de pás
de cal
nem de pas-
maceira
quero paz
de pás
ao ombro
paz viva
paz
que mantém
o homem
em pé
na pers-
pectiva
do advir.
paz
de sempre
viva
muito viva
que cada um
de nós
cultiva
no peito
homem da
rua
ou na faina
do eito
lutando por
uma
madrugada
definitiva
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.49. Poema integrante da série Oscilação
2 239
Cassiano Ricardo
Os Subvivos
III
Na sobremesa
os convivas
alheios à fome
de quem ficou
sob a mesa.
Não os seduzem
os subvivos.
Os subnutridos
do subsolo.
Os subjugados
do subsolo.
Todos os súditos
do subsolo.
E os que sub/irão
ao solo
pra exigir seu
lugar ao sol,
na feroz luta
entre os vivos
e os subvivos?
E os que sob
a mesa
só roeram os
ossos
que sobraram
da sobremesa?
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.119. Poema integrante da série Diavirá
Na sobremesa
os convivas
alheios à fome
de quem ficou
sob a mesa.
Não os seduzem
os subvivos.
Os subnutridos
do subsolo.
Os subjugados
do subsolo.
Todos os súditos
do subsolo.
E os que sub/irão
ao solo
pra exigir seu
lugar ao sol,
na feroz luta
entre os vivos
e os subvivos?
E os que sob
a mesa
só roeram os
ossos
que sobraram
da sobremesa?
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.119. Poema integrante da série Diavirá
2 738
Lara de Lemos
Anticanção para o Negrinho do Pastoreio
Não. Não quero a vela
para encontrar o inencontrável.
Nem quero achar gordos cavalos
que não pertencem
a nenhum só
de nossa gente.
Perca-se tudo
(menos coragem)
no perecível
das mãos que punem
homem indefeso
nas invernias.
Não quero a vela
nem teu segredo
menino-morto-assassinado
para encontrar campo
roubado
gado engordado
com tua pobreza
multiplicada.
Poupa teu choro menino-cristo
poupa teu medo, cresce
pra luta
preto com branco
branco com preto
no mesmo campo
no mesmo lado
no mesmo canto.
Poema integrante da série Do Mundo.
In: LEMOS, Lara de. Aura amara. Brasília: Coordenada Ed. de Brasília, 1969. (Poesia especial)
para encontrar o inencontrável.
Nem quero achar gordos cavalos
que não pertencem
a nenhum só
de nossa gente.
Perca-se tudo
(menos coragem)
no perecível
das mãos que punem
homem indefeso
nas invernias.
Não quero a vela
nem teu segredo
menino-morto-assassinado
para encontrar campo
roubado
gado engordado
com tua pobreza
multiplicada.
Poupa teu choro menino-cristo
poupa teu medo, cresce
pra luta
preto com branco
branco com preto
no mesmo campo
no mesmo lado
no mesmo canto.
Poema integrante da série Do Mundo.
In: LEMOS, Lara de. Aura amara. Brasília: Coordenada Ed. de Brasília, 1969. (Poesia especial)
1 560
Carlos Nejar
O Poder Está Solto
O poder está solto
É um louco nas ruas
um louco maneiroso
nos palácios
e governamental
perto da aurora
Mas esta é de jardins
impressões digitais cárceres
sujos violências
no arame de secar
e secretos rancores
América da aurora
onde colhi
o cravo de teu nome
E te guardo
em sobressalto
e corro amedrontado
pelo peito
O poder está solto
casa a casa
ou nas armas
de um reino precavido
Está no telefone
ouvindo o amor
e o suspeitoso ar
de quem vigia
pelas telhas
subornos de vontade
ou de fé silenciosa
América era um pátio
onde retive
meu amor
nos lábios
O poder nos julgou
e o desvendado mundo
em nós
Está solto o poder
— é um animal
América semeada
no relincho
de um cavalo
Como prender o mar
senão na praia?
América do mar
que me banhava
O poder só se prende
quando morde
ou alastra seu recado
América eu escavo
outra América
eu escavo
as florestas
este medo
eu escavo
os remendos
da história
escavo escavo
o escravo
que mói
a palma
de meus sonhos
eu escavo
o teu abismo
e o ritmo
do que te chama
Não há coração
igual ao teu
E te escavo
Não há poder
Apenas cúmplices
Publicado no livro Um país o coração (1980).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.65-6
É um louco nas ruas
um louco maneiroso
nos palácios
e governamental
perto da aurora
Mas esta é de jardins
impressões digitais cárceres
sujos violências
no arame de secar
e secretos rancores
América da aurora
onde colhi
o cravo de teu nome
E te guardo
em sobressalto
e corro amedrontado
pelo peito
O poder está solto
casa a casa
ou nas armas
de um reino precavido
Está no telefone
ouvindo o amor
e o suspeitoso ar
de quem vigia
pelas telhas
subornos de vontade
ou de fé silenciosa
América era um pátio
onde retive
meu amor
nos lábios
O poder nos julgou
e o desvendado mundo
em nós
Está solto o poder
— é um animal
América semeada
no relincho
de um cavalo
Como prender o mar
senão na praia?
América do mar
que me banhava
O poder só se prende
quando morde
ou alastra seu recado
América eu escavo
outra América
eu escavo
as florestas
este medo
eu escavo
os remendos
da história
escavo escavo
o escravo
que mói
a palma
de meus sonhos
eu escavo
o teu abismo
e o ritmo
do que te chama
Não há coração
igual ao teu
E te escavo
Não há poder
Apenas cúmplices
Publicado no livro Um país o coração (1980).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.65-6
946
Teófilo Dias
O Século Caminha
A Assis Brasil
O século é pujante, heróico, inexorável.
— Navio que enristou a quilha incontrastável
Às praias do porvir, lá vai talhando o mar.
Espadana-lhe em vão as bavas hediondas
O inútil preconceito; embalde em crespas ondas
Forceja por tolher-lhe o impávido marchar.
Quebrando à vaga rude a cólera, que espuma,
A — Idéia, o nauta audaz, atira-lhe, uma a uma,
As tradições do cetro e da tiara as leis;
Rota, cai do passado a trágica bandeira;
E de envolta com ela a triunfal esteira
Submerge avidamente as púrpuras dos reis.
Rasga afoito ao futuro as fundas névoas densas
O alento vingador, viril das novas crenças,
Que ruge, solto, livre, indômito e fatal.
Ó déspotas cruéis! ó Césares! é tarde!
Dobrai o régio manto orgíaco e cobarde!
É tempo! Adormecei no olvido sepulcral!
Consolai-vos! — Não mais os vossos membros rotos
Filtrarão sangue vil da história nos esgotos
Aos gritos infernais das ébrias multidões!
— No pólo social a estrela do direito
Ergueu-se, há muito já. No mortuário leito
Repousai. Já não há coroas nem brazões!
O século caminha. Os cadafalsos velhos
Ruíram. Das nações os vários evangelhos
Rasga-os, folha por folha, a garra de Satã;
E os livros feitos pó, virá uma só crença,
E unidos se verão numa harmonia imensa
Os crentes de Jesus, de Buda e do Corã.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
O século é pujante, heróico, inexorável.
— Navio que enristou a quilha incontrastável
Às praias do porvir, lá vai talhando o mar.
Espadana-lhe em vão as bavas hediondas
O inútil preconceito; embalde em crespas ondas
Forceja por tolher-lhe o impávido marchar.
Quebrando à vaga rude a cólera, que espuma,
A — Idéia, o nauta audaz, atira-lhe, uma a uma,
As tradições do cetro e da tiara as leis;
Rota, cai do passado a trágica bandeira;
E de envolta com ela a triunfal esteira
Submerge avidamente as púrpuras dos reis.
Rasga afoito ao futuro as fundas névoas densas
O alento vingador, viril das novas crenças,
Que ruge, solto, livre, indômito e fatal.
Ó déspotas cruéis! ó Césares! é tarde!
Dobrai o régio manto orgíaco e cobarde!
É tempo! Adormecei no olvido sepulcral!
Consolai-vos! — Não mais os vossos membros rotos
Filtrarão sangue vil da história nos esgotos
Aos gritos infernais das ébrias multidões!
— No pólo social a estrela do direito
Ergueu-se, há muito já. No mortuário leito
Repousai. Já não há coroas nem brazões!
O século caminha. Os cadafalsos velhos
Ruíram. Das nações os vários evangelhos
Rasga-os, folha por folha, a garra de Satã;
E os livros feitos pó, virá uma só crença,
E unidos se verão numa harmonia imensa
Os crentes de Jesus, de Buda e do Corã.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
1 902
Raul Pompéia
As Greves
Depois, não carecemos de culpas reprováveis para ter a agitação popular no Rio de Janeiro. Aí estão as grèves.
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
1 804
Carlos Frydman
Martelo-Pilão
Malha, malhando,
malhando está,
o pilão não cessa,
não pode cessar.
Pão, pão,
martelo-pilão
Pão com pão
com fome é bom.
Motores, engrenagens,
correias, roldanas,
bancadas unidas
por eixos gerais.
Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
Só param,
só cessam
quando convém
tocar
a sirene,
pela mão
do patrão.
Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
Que apito estridente!
Estridente apito
no coração da gente
em cada um ecoou.
Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
Malha, malhando,
malhando está.
Pesadas tonelagens
de milhões e milhares,
passando no malho,
que não cessa,
não pára,
não pode parar.
Pão, pão
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
malhando está,
o pilão não cessa,
não pode cessar.
Pão, pão,
martelo-pilão
Pão com pão
com fome é bom.
Motores, engrenagens,
correias, roldanas,
bancadas unidas
por eixos gerais.
Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
Só param,
só cessam
quando convém
tocar
a sirene,
pela mão
do patrão.
Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
Que apito estridente!
Estridente apito
no coração da gente
em cada um ecoou.
Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
Malha, malhando,
malhando está.
Pesadas tonelagens
de milhões e milhares,
passando no malho,
que não cessa,
não pára,
não pode parar.
Pão, pão
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 380
Maria Helena Nery Garcez
A Cidade I
Sepulcros caiados
gritando grafites!
São Paulo, comoção da minha vida...
Viola que nem por fora é bela!
Cadê o toicinho daqui?
O gato comeu...
Cadê o gato?
Fugiu pro mato...
E cadê o mato?
O fogo queimou...
O fogo que a água apagou...
A água que o boi não bebeu
porque imunda das abluções infindas
de milhões de fariseus.
Há algo de muito podre no reino das Multimarcas...
Ó a grita dos grafites,
grita que aos céus se alevanta!
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987.
NOTA: O terceiro verso cita, com alterações, o primeiro verso do poema "Inspiração" (São Paulo! comoção de minha vida...), do livro PAULICÉIA DESVAIRADA (1922), de Mário de Andrad
gritando grafites!
São Paulo, comoção da minha vida...
Viola que nem por fora é bela!
Cadê o toicinho daqui?
O gato comeu...
Cadê o gato?
Fugiu pro mato...
E cadê o mato?
O fogo queimou...
O fogo que a água apagou...
A água que o boi não bebeu
porque imunda das abluções infindas
de milhões de fariseus.
Há algo de muito podre no reino das Multimarcas...
Ó a grita dos grafites,
grita que aos céus se alevanta!
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987.
NOTA: O terceiro verso cita, com alterações, o primeiro verso do poema "Inspiração" (São Paulo! comoção de minha vida...), do livro PAULICÉIA DESVAIRADA (1922), de Mário de Andrad
1 143
Glauco Mattoso
Paz Há Séculos ou Piece de Résistance, 1975
Terrorismo com torresmo,
Represália a alho e óleo,
Militante à milanesa
E tortilha de guerrilha.
Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.
Molho pardo de massacre de combate,
Passeata com cassata de mandato,
Gabinetes com tortura ao molho tártaro,
Putsch com Ketchup, croquetes de sequestro.
O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou;
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou.
Salada mista extremista com vinho de Greves,
Trincheiras trinchadas com ilegumes partidos,
Comício com cominho, caudilho de baunilha,
Regimes e Dietas à la Magna Carta.
magna
che te fà bene!
Valentim, tim, tim,
Valentim, meu bem,
Quem tiver inveja
Faça assim também.
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Autoelogiáveis & Antoelogiáveis
Represália a alho e óleo,
Militante à milanesa
E tortilha de guerrilha.
Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.
Molho pardo de massacre de combate,
Passeata com cassata de mandato,
Gabinetes com tortura ao molho tártaro,
Putsch com Ketchup, croquetes de sequestro.
O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou;
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou.
Salada mista extremista com vinho de Greves,
Trincheiras trinchadas com ilegumes partidos,
Comício com cominho, caudilho de baunilha,
Regimes e Dietas à la Magna Carta.
magna
che te fà bene!
Valentim, tim, tim,
Valentim, meu bem,
Quem tiver inveja
Faça assim também.
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Autoelogiáveis & Antoelogiáveis
1 490
Fontoura Xavier
O Saltimbanco Régio
I
"Calai-vos fariseus! A Roma dos Tibérios,
Quem disse que sepulta a ossada dos impérios?
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera?
A velha cortesã deixou de ser o que era,
Mas preza o riso e a farsa jovial,
Do franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços.
II
Silêncio! Fez-se ouvir-se o último sinal!
"À cena, ergue-se a "claque", o artista imperial!"
E o grande saltimbanco, entusiasmado, ufano,
Não quis que o esperasse o aplauso do romano...
Oh quadro deslumbrante e digno do porvir!
Logo ao saltar em cena o artista a se esgrimir
Um pasmo convulsivo estremeceu as almas
E fê-las rebentar numa explosão de palmas.
O sábio, respirando indômito ovações,
Achava em si um que de magros histriões.
Mas tanto lhe soara o grito do sucesso
Que ao cabo se imagina um Ursus-rei professo.
E a sede de mais glória e a sôfrega ambição
Fizeram-lhe anunciar ao mundo outra função.
III
Outrora quando um monstro, um César, um bandido,
Sentia o coração de rei prostituído
Pulsa-lhe sob o tédio, armado a gladiador,
Descia ao Coliseu - satânico de horror -
Para embeber sedento a cólera da hiena
No sangue dos plebeus a espadanar na arena.
Franqueava às multidões os pórticos reais
Desfeitas ao clarão das régias bacanais,
E dentre o tumultuar ciclópico do vício
O César engendrara um fogo de artifício.
Essa alma surda à voz do plectro coração
Queria mergulhar em chamas a paixão!
"Ao fogo!"
e em derredor, extático, surpreso,
O mundo via arder uma cidade em peso;
Enquanto descansava o rei nas alvas cãs
Nos braços ébrios, nus, das ébrias barregãs,
Co'a horizontal placidez medonha de um Cerbero !
Festins de Trimalcião e diversões de Nero.
Mas hoje o imperador tem outras ambições
Não desce a digladiar com tigres e leões
Nem arroja o seu nome ao nada, ao vilipêndio
Com Roma ao crepitar o fantástico incêndio...
P'ra dar o nome ao sec'lo, ao povo, a u'a nação
Atira-se a uma praça e sagra-se histrião!
IV
É outro Coliseu: mais vasto, mais fecundo
Tem Roma por cenário e por platéia o mundo.
É mais variada a festa. A um tempo o imperador
É sábio, poliglota, artista e professor,
Acróbata, truão, frascário, rei e mestre,
D. Juan, Robert, Falstaff e Benoiton eqüestre.
Oh! deve ser imenso, esplêndido o festim
Onde vai exibir-se o célebre arlequim,
Colher, longe da pátria, além, n'outro horizonte.
Mais um florão gentil que orne a heróica fronte.
A Roma meretriz essa imortal galé
Que um deus acorrentara a um poste Santa - Sé,
Heróico vencedor, colérico, iracundo,
Temendo em saturnais lhe submergisse o mundo
Dir-se-ia que olvidou a prece do cristão
Para entregar-se nua ao novo Trimalcião
Que ouviu novo estertor de servos gladiadores
Na liça triunfal de vis batalhadores
E ergueu-se dos lençóis do papa Mastaí
Bradando à Religião:
"Ao Circo ! eu não morri!"
E santo e majestoso e nobre e gigantesco!
Ó vós, que amais ouvir do herói funambulesco
Na cômica ascenção da mímica sem par,
As doidas expansões da gargalhada alvar;
Ó vos, que desfolhais a rosa do deboche;
Ó vós, que odiais o tédio e as tentações do "spleen",
não recuseis um "bravo!" ao deus do trampolim.
Calai-vos fariseus ! A Roma dos Tibérios
Não digam que sepulta a ossada dos impérios,
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera;
A velha cotesã deixou de ser o que era
Mas inda preza o riso e a farsa jovial
Ao franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços!
Texto enviado por Fernando Dias Campos Neto, sobrinho-bisneto do poeta, por e-mail, em 01 abr. 2002
"Calai-vos fariseus! A Roma dos Tibérios,
Quem disse que sepulta a ossada dos impérios?
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera?
A velha cortesã deixou de ser o que era,
Mas preza o riso e a farsa jovial,
Do franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços.
II
Silêncio! Fez-se ouvir-se o último sinal!
"À cena, ergue-se a "claque", o artista imperial!"
E o grande saltimbanco, entusiasmado, ufano,
Não quis que o esperasse o aplauso do romano...
Oh quadro deslumbrante e digno do porvir!
Logo ao saltar em cena o artista a se esgrimir
Um pasmo convulsivo estremeceu as almas
E fê-las rebentar numa explosão de palmas.
O sábio, respirando indômito ovações,
Achava em si um que de magros histriões.
Mas tanto lhe soara o grito do sucesso
Que ao cabo se imagina um Ursus-rei professo.
E a sede de mais glória e a sôfrega ambição
Fizeram-lhe anunciar ao mundo outra função.
III
Outrora quando um monstro, um César, um bandido,
Sentia o coração de rei prostituído
Pulsa-lhe sob o tédio, armado a gladiador,
Descia ao Coliseu - satânico de horror -
Para embeber sedento a cólera da hiena
No sangue dos plebeus a espadanar na arena.
Franqueava às multidões os pórticos reais
Desfeitas ao clarão das régias bacanais,
E dentre o tumultuar ciclópico do vício
O César engendrara um fogo de artifício.
Essa alma surda à voz do plectro coração
Queria mergulhar em chamas a paixão!
"Ao fogo!"
e em derredor, extático, surpreso,
O mundo via arder uma cidade em peso;
Enquanto descansava o rei nas alvas cãs
Nos braços ébrios, nus, das ébrias barregãs,
Co'a horizontal placidez medonha de um Cerbero !
Festins de Trimalcião e diversões de Nero.
Mas hoje o imperador tem outras ambições
Não desce a digladiar com tigres e leões
Nem arroja o seu nome ao nada, ao vilipêndio
Com Roma ao crepitar o fantástico incêndio...
P'ra dar o nome ao sec'lo, ao povo, a u'a nação
Atira-se a uma praça e sagra-se histrião!
IV
É outro Coliseu: mais vasto, mais fecundo
Tem Roma por cenário e por platéia o mundo.
É mais variada a festa. A um tempo o imperador
É sábio, poliglota, artista e professor,
Acróbata, truão, frascário, rei e mestre,
D. Juan, Robert, Falstaff e Benoiton eqüestre.
Oh! deve ser imenso, esplêndido o festim
Onde vai exibir-se o célebre arlequim,
Colher, longe da pátria, além, n'outro horizonte.
Mais um florão gentil que orne a heróica fronte.
A Roma meretriz essa imortal galé
Que um deus acorrentara a um poste Santa - Sé,
Heróico vencedor, colérico, iracundo,
Temendo em saturnais lhe submergisse o mundo
Dir-se-ia que olvidou a prece do cristão
Para entregar-se nua ao novo Trimalcião
Que ouviu novo estertor de servos gladiadores
Na liça triunfal de vis batalhadores
E ergueu-se dos lençóis do papa Mastaí
Bradando à Religião:
"Ao Circo ! eu não morri!"
E santo e majestoso e nobre e gigantesco!
Ó vós, que amais ouvir do herói funambulesco
Na cômica ascenção da mímica sem par,
As doidas expansões da gargalhada alvar;
Ó vos, que desfolhais a rosa do deboche;
Ó vós, que odiais o tédio e as tentações do "spleen",
não recuseis um "bravo!" ao deus do trampolim.
Calai-vos fariseus ! A Roma dos Tibérios
Não digam que sepulta a ossada dos impérios,
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera;
A velha cotesã deixou de ser o que era
Mas inda preza o riso e a farsa jovial
Ao franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços!
Texto enviado por Fernando Dias Campos Neto, sobrinho-bisneto do poeta, por e-mail, em 01 abr. 2002
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Claudio Willer
Sobre os 40 Anos da Morte de García Lorca (1936-1976)
Eu vi pouca coisa nos jornais & revistas sobre os 40 anos
da morte de García Lorca
algumas manifestações e homenagens, & uma notícia interessante
(na Veja) detalhando as circunstâncias — só isso
o resto, notas esparsas perdidas nos textos
quase ninguém lembrou
passou despercebido
ninguém disse nada
ninguém quis lembrar
porque as pessoas não querem mais lembrar
e desistiram de falar
pois esta é a era do silêncio
silêncio de covas rasas e túmulos lacrados e circunscritos
silêncio vigiado e preso
silêncio de poeiras há pouco assentadas
pois todos estão mudos e perplexos
alguns mortos incomodam demais
e ninguém quer saber
ninguém quer ver
ninguém quer saber o que tem a ver
apenas este silêncio selado esponjoso grávido
de escorpiões & maresias & tempos & memórias
.& vítimas do fascismo
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981. Poema integrante da série Sobre García Lorca.
da morte de García Lorca
algumas manifestações e homenagens, & uma notícia interessante
(na Veja) detalhando as circunstâncias — só isso
o resto, notas esparsas perdidas nos textos
quase ninguém lembrou
passou despercebido
ninguém disse nada
ninguém quis lembrar
porque as pessoas não querem mais lembrar
e desistiram de falar
pois esta é a era do silêncio
silêncio de covas rasas e túmulos lacrados e circunscritos
silêncio vigiado e preso
silêncio de poeiras há pouco assentadas
pois todos estão mudos e perplexos
alguns mortos incomodam demais
e ninguém quer saber
ninguém quer ver
ninguém quer saber o que tem a ver
apenas este silêncio selado esponjoso grávido
de escorpiões & maresias & tempos & memórias
.& vítimas do fascismo
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981. Poema integrante da série Sobre García Lorca.
1 183
Affonso Ávila
Ponte de Xavier
.& da talha de xavierdebrito
à talha de antôniofrancisco
.& do texto de xavierdasilva
ao texto de cláudiomanuel
.& da tortura de xavierotiradentes
à tortura do torturadodesconhecido
.&
Publicado no livro Cantaria barroca (1975).
In: ÁVILA, Affonso. Discurso da difamação do poeta: antologia. São Paulo: Summus, 1978. p. 71. (Palavra poética, 1
à talha de antôniofrancisco
.& do texto de xavierdasilva
ao texto de cláudiomanuel
.& da tortura de xavierotiradentes
à tortura do torturadodesconhecido
.&
Publicado no livro Cantaria barroca (1975).
In: ÁVILA, Affonso. Discurso da difamação do poeta: antologia. São Paulo: Summus, 1978. p. 71. (Palavra poética, 1
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Armindo Trevisan
Poema-Granadino XI
Psiu! Entortaram
o beiço que herdamos
sem cachimbo de um pilão
e de uma erva do mato.
Pajé deu de comer
na mão aos passarinhos,
e a Anchieta.
Uma cruz ruminou
a alma implumada.
Psiu! Entortaram
o coração deste país.
Quem amolecerá o bronze
da pele que era nossa?
Entortaram até a língua.
A cor deu de aleitar-se,
o mameluco chupou
o polegar por descuido.
Qualquer coisa é preciso
para encher de aroma,
de som,
o padre-nosso esquecido.
Fiquem onde ficarem
os galões de Rondon.
Igaçabas e cascavéis
são nossos.
É preciso desentortar
a pancada que mugiu
no cérebro desta terra.
E fazer da ciência
como cauim o delírio
de provetas e guindastes,
iluminação e portos.
Não se desentorte errado
o sangue! Sangue é vento
que vem de todo lado.
Respire-o quem puder,
e fique mais corado.
Desentorte-se o vesgo
de um fuzil amargo,
o dinheiro pago
pelo dizer
sim ao passado.
E outra vez
desentorte-se o não,
que é tino de mundo
logo depois da criação.
E se alguém souber
de um destino mais terreal,
fale grosso que a língua
que temos é de algodão.
Se falarmos como pudermos,
seremos o que quisermos.
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
o beiço que herdamos
sem cachimbo de um pilão
e de uma erva do mato.
Pajé deu de comer
na mão aos passarinhos,
e a Anchieta.
Uma cruz ruminou
a alma implumada.
Psiu! Entortaram
o coração deste país.
Quem amolecerá o bronze
da pele que era nossa?
Entortaram até a língua.
A cor deu de aleitar-se,
o mameluco chupou
o polegar por descuido.
Qualquer coisa é preciso
para encher de aroma,
de som,
o padre-nosso esquecido.
Fiquem onde ficarem
os galões de Rondon.
Igaçabas e cascavéis
são nossos.
É preciso desentortar
a pancada que mugiu
no cérebro desta terra.
E fazer da ciência
como cauim o delírio
de provetas e guindastes,
iluminação e portos.
Não se desentorte errado
o sangue! Sangue é vento
que vem de todo lado.
Respire-o quem puder,
e fique mais corado.
Desentorte-se o vesgo
de um fuzil amargo,
o dinheiro pago
pelo dizer
sim ao passado.
E outra vez
desentorte-se o não,
que é tino de mundo
logo depois da criação.
E se alguém souber
de um destino mais terreal,
fale grosso que a língua
que temos é de algodão.
Se falarmos como pudermos,
seremos o que quisermos.
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
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Sílvio Romero
XVIII - A Escravidão
Moça a terra uma vez ouvira um grito
Com que as selvas robustas ecoaram;
Era Adão, pai dos homens, que bradava:
"Caim!" Caim!... as gerações clamaram.
Clamaram no futuro. Os séculos todos
Apressados, ruidosos, têm chegado,
Procurando abafar o grito eterno
Aos ruídos das festas; mas... baldado!
Embalde o mar arroja as suas vagas
Para lavar dos homens a memória;
Sempre a mancha se avista no horizonte,
E a lauda negra dorme lá na história.
— E o pensador curvado que medita —
— Como rasgar a página da ira, —
Alça-se a fronte, ofuscado por um brilho,
Brada: — "Achei!" Mas o mundo diz "Mentira!"
É a voz dos desgraçados, dos perdidos
Para o festim dos livres, que se escuta;
É o choro dos cativos, alternando
Das cadeias com o som, que a vida enluta.
É a voz dos corações roto aos ventos
Que vai falando... As mágoas não se calam.
É o choro dos opressos, de onda em onda,
Retumbando nos templos, que se abalam.
Cresça mais essa vaga escarcelosa;
Desse mar é que o dia vem raiando,
E desse turbilhão brotam os monstros,
Que os tronos e a miséria vão tragando.
(...)
Poema integrante da série Parte Primeira: A Humanidade.
In: ROMERO, Sílvio. Cantos do fim do século, 1869/1873. Rio de Janeiro: Tip. Fluminense, 1878
Com que as selvas robustas ecoaram;
Era Adão, pai dos homens, que bradava:
"Caim!" Caim!... as gerações clamaram.
Clamaram no futuro. Os séculos todos
Apressados, ruidosos, têm chegado,
Procurando abafar o grito eterno
Aos ruídos das festas; mas... baldado!
Embalde o mar arroja as suas vagas
Para lavar dos homens a memória;
Sempre a mancha se avista no horizonte,
E a lauda negra dorme lá na história.
— E o pensador curvado que medita —
— Como rasgar a página da ira, —
Alça-se a fronte, ofuscado por um brilho,
Brada: — "Achei!" Mas o mundo diz "Mentira!"
É a voz dos desgraçados, dos perdidos
Para o festim dos livres, que se escuta;
É o choro dos cativos, alternando
Das cadeias com o som, que a vida enluta.
É a voz dos corações roto aos ventos
Que vai falando... As mágoas não se calam.
É o choro dos opressos, de onda em onda,
Retumbando nos templos, que se abalam.
Cresça mais essa vaga escarcelosa;
Desse mar é que o dia vem raiando,
E desse turbilhão brotam os monstros,
Que os tronos e a miséria vão tragando.
(...)
Poema integrante da série Parte Primeira: A Humanidade.
In: ROMERO, Sílvio. Cantos do fim do século, 1869/1873. Rio de Janeiro: Tip. Fluminense, 1878
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Vladimir Maiakovski
DE V INTERNACIONAL
(tradução: Augusto de Campos)
Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.
Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.
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