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Poemas neste tema

Protesto, Resistência e Revolução

Moacyr Felix

Moacyr Felix

Iniciação

— Meu pai, o que é a liberdade?
— É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.

— Meu pai, o que é a liberdade?

A mão limpa, o copo d'água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
— laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.

— Meu pai, o que é a liberdade?

É um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o braseiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para a altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
(...)


Publicado no livro Canto para as Transformações do Homem (1964).

In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.4-
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Moacyr Felix

Moacyr Felix

Eu Sou Daqui: 1970 a 1980

A Wilson Fadul, Waldo César e Luís Eduardo
Vanderlei, companheiros nas lutas pelo socialismo e
liberdade na Paz e Terra e na revista de mesmo nome


(...)

No Brasil o poema deve nascer como se fosse a própria vida
do coração que arranco como um peixe trêmulo nas horas
da liberdade a desmoronar-se devagarinho em cada rosto;
da melancolia a encolher-se na profundidade dos botecos;
das ruas que os ventos movem numa antiga cantilena de escravos;
da pobreza a dependurar-se no corpo grande da existência;
da revolução a servir de vinho para os que se constroem de pé.

No Brasil a palavra de cristal exila o tempo
da sombra quente do poema; usá-la tão-somente
para entoar brisas entre as roxas bundas do Saber
ou para dialogar com um Deus qualquer no espaço
sem sujeira e sem erros, sem manhãs estilhaçadas
no salário menor que as mãos,
é nos desfazermos da verdade que nos firma em homem
da cor do agora, homem comum, simples homem que escreve.
Em meu país, o poeta não usa a braçadeira dos patrões
e com mão insubmissa testemunha
os movimentos do Homem no tempo que sangra
entre a esperança e a história
de cada indivíduo e cada povo.
Em meu país a poesia manda os metafísicos à merda.
e é abrigo provisório das coisas e da vida que são provisórias.
E também às vezes é o definitivo lar
do desespero que se destina a servir a uma esperança
e sub-roga o suicídio pelos atos de criar.

Sem qualquer pretensão de eternidade
como o olhar do pivete a vigiar o carro
que passa, o poema brasileiro não nasce
alimentado pelo indefinível.
E nenhuma vaga saudade do Ser o impele
aqui e agora neste quando
em que se move
para existir, simplesmente existir
como é devido ao homem, a cada homem.

(...)

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Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).

In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.178-17
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Moacyr Felix

Moacyr Felix

Quinteto no Outono

(2a. versão)

A Fátima Pires dos Santos


I

Escrever um poema não é brincar
de ser com palavras e sons
sobre a brancura sem defesa
do papel ou da vida que não foi vivida.
No fundo dos becos sem saída
é que o poema se encontra
lado a lado com as mortes
inumeráveis e indefinidas
na mão que o escreve.
Morre e transforma-te!
Não há outro caminho:
o poema é sempre uma autópsia.

II

No lixo da praça os ossos do mundo
brilham como luas doentes.
No lixo da praça o poeta
quer ser apenas um homem
com uma canção nos gatilhos
de uma revolução necessária.
No lixo da praça os ossos do mundo
brilham como luas doentes
à espera da poesia, cadela
feroz e machucada, cadela
que ao poeta se amarra
sobre o represar da vida
mais forte que as voragens
do desejo de matar-se.
No lixo da praça, o poeta e a sua poesia
perambulam entre os ossos do mundo
a violência do sol aprisionada nas luas.

III

No fundo do prato havia um rosto.
Eu nunca pude decifrá-lo;
sua velocidade era diferente da minha,
nessas horas a minha esperança era
um pano velho que nem mais vestia
a fadiga da vida espantada.
No fundo do prato em meu país os ratos
usavam a cara dos poderosos
e comiam e comiam este rosto.
Um rosto que jamais sumia
diariamente enterrado e recomposto
no rosto de cada morte operária
dentro de cada coisa que eu via.
No fundo do prato havia um rosto
que eu nunca pude decifrar.
Além de mim, no entanto, ele era meu rosto, o rosto
em que nem sequer me encontrei
como quem cumpre, de fato, a sua própria lei.

(...)


In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993.

NOTA: Poema composto de 5 parte
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Gonçalves Dias

Gonçalves Dias

IV

(...)

E nessas cidades, vilas e aldeias, nos seus cais,
praças e chafarizes — vi somente — escravos!

E à porta ou no interior dessas casas mal construídas
e nesses palácios sem elegância — escravos!

E no adro ou debaixo das naves dos templos — de
costas para as imagens sagradas, sem temor, como
sem respeito — escravos!

E nas jangadas mal tecidas — e nas canoas de um
só toro de madeira — escravos; — e por toda a parte
— escravos!!...

Por isto o estrangeiro que chega a algum porto do
vasto império — consulta de novo a sua derrota e
observa atentamente os astros — porque julga que
um vento inimigo o levou às costas d'África.

E conhece por fim que está no Brasil — na terra
da liberdade, na terra ataviada de primores e esclarecida
por um céu estrelado e magnífico!

Mas grande parte da sua população é escrava —
mas a sua riqueza consiste nos escravos — mas o
sorriso — o deleite do seu comerciante — do seu
agrícola — e o alimento de todos os seus habitantes
é comprado à custa do sangue do escravo!

E nos lábios do estrangeiro, que aporta ao Brasil,
desponta um sorriso irônico e despeitoso — e ele diz
consigo, que a terra — da escravidão — não pode
durar muito; porque ele é crente, e sabe que os
homens são feitos do mesmo barro — sujeitos às
mesmas dores e às mesmas necessidades.


Poema integrante da série Capítulo I.

In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.10-1
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Teófilo Dias

Teófilo Dias

O Século Caminha

A Assis Brasil

O século é pujante, heróico, inexorável.
— Navio que enristou a quilha incontrastável
Às praias do porvir, lá vai talhando o mar.
Espadana-lhe em vão as bavas hediondas
O inútil preconceito; embalde em crespas ondas
Forceja por tolher-lhe o impávido marchar.

Quebrando à vaga rude a cólera, que espuma,
A — Idéia, o nauta audaz, atira-lhe, uma a uma,
As tradições do cetro e da tiara as leis;
Rota, cai do passado a trágica bandeira;
E de envolta com ela a triunfal esteira
Submerge avidamente as púrpuras dos reis.

Rasga afoito ao futuro as fundas névoas densas
O alento vingador, viril das novas crenças,
Que ruge, solto, livre, indômito e fatal.
Ó déspotas cruéis! ó Césares! é tarde!
Dobrai o régio manto orgíaco e cobarde!
É tempo! Adormecei no olvido sepulcral!

Consolai-vos! — Não mais os vossos membros rotos
Filtrarão sangue vil da história nos esgotos
Aos gritos infernais das ébrias multidões!
— No pólo social a estrela do direito
Ergueu-se, há muito já. No mortuário leito
Repousai. Já não há coroas nem brazões!

O século caminha. Os cadafalsos velhos
Ruíram. Das nações os vários evangelhos
Rasga-os, folha por folha, a garra de Satã;
E os livros feitos pó, virá uma só crença,
E unidos se verão numa harmonia imensa
Os crentes de Jesus, de Buda e do Corã.


Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.

In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
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Raul Pompéia

Raul Pompéia

As Greves

Depois, não carecemos de culpas reprováveis para ter a agitação popular no Rio de Janeiro. Aí estão as grèves.

Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.

É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.

Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.

A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.

Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.

E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.

Reparem bem no que é a grève.

A grève é a transformação moderna da guerra.

Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.

Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.

Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.

Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.

Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.

Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
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Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

O Saltimbanco Régio

I

"Calai-vos fariseus! A Roma dos Tibérios,
Quem disse que sepulta a ossada dos impérios?
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera?
A velha cortesã deixou de ser o que era,
Mas preza o riso e a farsa jovial,
Do franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços.


II

Silêncio! Fez-se ouvir-se o último sinal!
"À cena, ergue-se a "claque", o artista imperial!"
E o grande saltimbanco, entusiasmado, ufano,
Não quis que o esperasse o aplauso do romano...
Oh quadro deslumbrante e digno do porvir!
Logo ao saltar em cena o artista a se esgrimir
Um pasmo convulsivo estremeceu as almas
E fê-las rebentar numa explosão de palmas.
O sábio, respirando indômito ovações,
Achava em si um que de magros histriões.
Mas tanto lhe soara o grito do sucesso
Que ao cabo se imagina um Ursus-rei professo.
E a sede de mais glória e a sôfrega ambição
Fizeram-lhe anunciar ao mundo outra função.


III

Outrora quando um monstro, um César, um bandido,
Sentia o coração de rei prostituído
Pulsa-lhe sob o tédio, armado a gladiador,
Descia ao Coliseu - satânico de horror -
Para embeber sedento a cólera da hiena
No sangue dos plebeus a espadanar na arena.
Franqueava às multidões os pórticos reais
Desfeitas ao clarão das régias bacanais,
E dentre o tumultuar ciclópico do vício
O César engendrara um fogo de artifício.
Essa alma surda à voz do plectro coração
Queria mergulhar em chamas a paixão!
"Ao fogo!"
e em derredor, extático, surpreso,
O mundo via arder uma cidade em peso;
Enquanto descansava o rei nas alvas cãs
Nos braços ébrios, nus, das ébrias barregãs,
Co'a horizontal placidez medonha de um Cerbero !
Festins de Trimalcião e diversões de Nero.
Mas hoje o imperador tem outras ambições
Não desce a digladiar com tigres e leões
Nem arroja o seu nome ao nada, ao vilipêndio
Com Roma ao crepitar o fantástico incêndio...
P'ra dar o nome ao sec'lo, ao povo, a u'a nação
Atira-se a uma praça e sagra-se histrião!


IV

É outro Coliseu: mais vasto, mais fecundo
Tem Roma por cenário e por platéia o mundo.
É mais variada a festa. A um tempo o imperador
É sábio, poliglota, artista e professor,
Acróbata, truão, frascário, rei e mestre,
D. Juan, Robert, Falstaff e Benoiton eqüestre.
Oh! deve ser imenso, esplêndido o festim
Onde vai exibir-se o célebre arlequim,
Colher, longe da pátria, além, n'outro horizonte.
Mais um florão gentil que orne a heróica fronte.
A Roma meretriz essa imortal galé
Que um deus acorrentara a um poste Santa - Sé,
Heróico vencedor, colérico, iracundo,
Temendo em saturnais lhe submergisse o mundo
Dir-se-ia que olvidou a prece do cristão
Para entregar-se nua ao novo Trimalcião
Que ouviu novo estertor de servos gladiadores
Na liça triunfal de vis batalhadores
E ergueu-se dos lençóis do papa Mastaí
Bradando à Religião:
"Ao Circo ! eu não morri!"
E santo e majestoso e nobre e gigantesco!



Ó vós, que amais ouvir do herói funambulesco
Na cômica ascenção da mímica sem par,
As doidas expansões da gargalhada alvar;
Ó vos, que desfolhais a rosa do deboche;
Ó vós, que odiais o tédio e as tentações do "spleen",
não recuseis um "bravo!" ao deus do trampolim.
Calai-vos fariseus ! A Roma dos Tibérios
Não digam que sepulta a ossada dos impérios,
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera;
A velha cotesã deixou de ser o que era
Mas inda preza o riso e a farsa jovial
Ao franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços!

Texto enviado por Fernando Dias Campos Neto, sobrinho-bisneto do poeta, por e-mail, em 01 abr. 2002
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