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Angústia

Herberto Helder

Herberto Helder

O Poema - Vi

Fecundo mês da oferta onde a invenção ilumina
a harpa e a loucura desperta a pura espada
em pleno sangue. O vasto,
amargo e límpido mês interior onde a graça
se toca do fogo e o corpo se torna o cândido
e longo varão de música. Escada de seiva
entre arbustos de estrelas
e cubos de sal perpetuamente ardendo.
— Por ti, mês feliz de confusão e génio,
eu levanto minha húmida boca
até ao ar e ao vinho, levanto
minha obscura pedra por vias de tormento
e instinto até
ao barro vermelho do céu, ao espasmo
violento e sagrado das palavras.

Mês por onde subo fundamente agitado
em meu coração de argila, em minhas veias
de pequena infância espantada e grata.
E subindo me incendeio e consumo.
Mês das mãos purificadas.
Delicado mês para uma corola
de nuvem, um vivo transporte
entre coxas e mamas.
Em lama e areia se descobre
o pensamento, se perde a memória, se possui
uma estreita palavra virgem
e extrema.

Arde, mesa. Arde, instrumento de profunda
música. Arde, vinho. Carne,
ave, grande mar, grande estátua fria,
grande sorriso desfeito na face da solidão.
Mês de onde nascem os bichos ébrios e a voz
das catedrais de resina e o flanco
terrível e doce das montanhas
e o amor irmão da morte e da alegria.
Mês do poema, substância de Deus servida
como ceia e primeira pedra no espaço
da minha angústia,
do meu encanto.
Mês da aliança, tempo
tremendo da inocência onde a lua desce
suas raízes ferozes
e a morte anuncia seus primeiros sinais
de glória.

— E eu dormia. O sangue atravessava a noite
como cantando baixo.
Tecedeiras deixavam mãos sobre a atenção, flores começavam
no linho com o tremor comprido das veias.
Mês, mês. Um beijo pensava-se em palavra, recolhia-se, renascia,
vibrava na testa como o beijo da loucura.
— Pela terra adiante aumentava o trigo insensato do canto,
o perdão nascia das formas,
e por todas as coisas corria o sopro alucinado
e redentor
de um primeiro minuto de entre as mãos e a obra.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 13

Atravessei depressa a juventude.
Tinha duas coisas — a alegria e o terror.
Percorri-os sem tomar fôlego.
Quando cheguei ao outro lado, encontrava-me em frente da maturidade — estupefacto.
Não conhecia os nomes nem as subtilezas.
Falando com certas pessoas, eu dizia: conheci a alegria e o terror.
Elas sorriam.
Parece que eram sábias.
Ou estúpidas.
Nada sei disso.
Encontrei um homem louco que tinha uma frota de quebra-gelos no sul da Itália.
Contou-me também que descobrira um processo novo de prever os terramotos.
Construíra uma casa no meio da planície — dizia ele — e criara veados a toda a volta.
Quando se aproximava um tremor de terra, os veados vinham para junto da casa, de cornos trémulos.
Era uma planície de cornos trémulos.
Encontro pessoas assim: loucas, sérias — gente total.
Falam-me destas coisas, ou de dinheiro, progresso, política e felicidade.
Vê-se como me encontro desorientado, com a minha idade e as coisas que são dela ou não são.
Fui aos psicanalistas e mandaram-me deitar num divã.
Tenho a alegria ou o terror — por onde devo começar?
Fale do que quiser — diziam.
Eu estava de olhos abertos, deitado, na obscuridade do gabinete.
Ainda assim, distinguia bem uma reprodução medíocre das Musas Inquietantes, de Chirico, na parede em frente.
Representa a Piazza Vecchia, em Florença, com o Palácio Palatino ao fundo, bastante vermelho.
O céu tem a cor das garrafas verdes.
Representa chaminés de fábricas.
A atmosfera é de ameaçadora suspensão.
No espaço essencial, representa as terríveis figuras inspiradoras.
São estátuas que o não imitam, possuem mantos pregueados.
Espalham-se em volta os frios objectos do seu jogo.
Um bastão cilíndrico, paralelepípedos de cor, um cubo azul onde se senta a mulher de pedra branca, com seu escudo rubro ao lado.
A cabeça de uma das estátuas tem a forma de grande pêra ou bola de rugby.
Outra não tem cabeça.
No pescoço decepado, que não sangra, floresce um rebento negro.
Poderia segurar nas mãos a sua própria cabeça de cautchou.
Disse que o céu é tremendamente verde.
Sim, há uma figura disfarçada na sombra.
Esta ameaça total ou suspeita, ou longamente elaborada pergunta, suspende-se sobre abismos trementes.
Julgo que se poderia enlouquecer, olhando essas linhas vivas e áridas durante vinte e quatro horas.
Eu disse: tive um sonho.
Dei-lhe um nome, dou um nome a todos os meus sonhos.
Este chama-se — Os Animais Domésticos.
Era uma sala de teatro.
Ao fundo, em vez das portas de entrada e saída, havia uma esplanada no passeio de uma rua larga, com árvores, movimento e um céu vibrante por cima.
A plateia estava cheia de pessoas que conversavam umas com as outras, levantavam-se, sentavam-se — trocavam de lugares.
Eu encontrava-me no palco, deitado, com a cabeça no colo de uma velha sentada no chão.
Uma telefonia monstruosa, ocupando quase todo o palco, emitia uma louca canção — violenta, insuportável.
Um jovem mexia nos botões da telefonia.
A mesma canção violenta — sempre, sempre.
Depois levantei-me e desci para a plateia, misturando-me às pessoas, falando com elas, indo de aqui para ali.
De repente, encontrei-me na esplanada, despedindo-me de uma mulher que ia para a Suíça.
Vou para a Suíça, adeus.
Levantei-me para dar-lhe um beijo de despedida, e disse-lhe: adeus, viaja, viaja, faz bem viajar — a Suíça.
Sim, sim, sim, disse ela, sim.
Eu estava de pé, com a mão dela entre as minhas, e dizia-lhe: viaja, viaja, é muito instrutivo.
Sim, sim, dizia ela, e afastava-se, sim, dizia afastando-se, sim, sim.
Sentei-me e ouvi ao longe o grito da mulher: sim, de avião, sim, sim.
Respondi: a Suíça.
Reparei de súbito que conservava nas minhas a mão da mulher.
Fiquei preocupado.
Como se arranjará ela na Suíça, sem a mão direita?
Então atirei a mão para o ar.
A mão voou rapidamente em direcção à Suíça.
Resolvi passear pela cidade.
Mas, antes, fui espreitar para dentro da sala.
Na voz grave de um homem, a rádio transmitia agora o boletim meteorológico.
Previsão para amanhã: tempestade de areia no deserto, tempestade de neve no pólo, maremoto no mar, terramoto na terra, muita luz, muita treva.
Eu andava à procura pelas ruas.
Era uma cidade confusa, de casas muito baixas, sem portas, com grandes janelas.
Junto de cada janela, no interior, uma cama desfeita.
Eu espreitava para dentro destas casas de um só piso.
Todas as camas estavam vazias, menos uma, onde se encontrava uma criança de colo, nua, uma menina.
Uma menina.
Uma menina alarmante.
Tinha um sexo de mulher, cheio de pêlos eriçados.
Tirei então a criança da cama, pela janela, e levando-a ao colo voltei para o teatro, através das ruas vazias.
Pensava: é horrível, horrível.
É uma espécie de glória negra.
É bela e horrível.
É bela, bela, bela.
É horrivelmente bela.
É uma espécie de negro, negro triunfo.
No teatro, a criança transformou-se num enorme ramo de cravos negros que estremeciam nos meus braços, tremiam, pareciam respirar, viver tremulamente, cheios de seiva negra.
Comecei a colocar um cravo na cabeça de cada pessoa da plateia, como se cada cabeça fosse a boca de uma jarra.
Estavam agora no palco duas pessoas vestidas de espelho, em frente uma da outra, de perfil para a plateia, fazendo uma com o lado esquerdo do corpo aquilo que a outra fazia com o direito, numa simultaneidade rigorosa.
A cabeça de uma das figuras era branca e a da outra era negra.
A telefonia transmitia uma canção vertiginosa, e os cravos negros que eu ainda tinha nas mãos transformaram-se em fumo.
As minhas mãos estavam cobertas de sangue.
Então a música parou abruptamente, e a mesma voz que lera o boletim meteorológico disse no meio de um silêncio total:
Nascido para o inferno.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 14

Não se sabe bem então como é.
Como ciência rudimentar existe o terror, máquina apocalíptica do pressentimento.
Este saber desordenado instala-se no sonho, é aí que trepida um velho motor furioso.
É o coração, imagine-se — um órgão de profecia.
As altas coisas anunciadas vão à procura de personagens, e então aparecem o Pai e a Mãe: rostos demoníacos.
Conseguiram desprender-se da idade, da podridão, do crime de se haver amado a sua morte.
São figuras para todas as traições.
É terrível ser o filho, isto sabe-se — é a maligna sabedoria, enquanto pode não ser esquecida.
Com os labirintos dá-se isto: há que percorrê-los.
Então os pais agarram na infidelidade, cada um pelo seu lado, devorando-a.
Sabe-se, entretanto, que a infidelidade não pode ser de duas pessoas, porque tem de haver sempre traidor e traído.
É uma regra — foi banida a verdade dupla.
O papel monumental pertence à mulher — é sempre assim, sempre.
Possui a grandeza do destino, ela — é a terra, a sua cegueira superior, a clarividência.
E quando trai, com o corpo curvo e receptivo como a terra, é-lhe concedido o direito da mentira redonda — ela é a terra.
O pai parece ter morrido, sepultado nos terrenos da angústia — símbolo arcaico, metáfora pulverizada pela tremenda força compressora da terra — a dúplice, a ambígua, a feminina, a pactuante e protectora do filho atormentado pela embriaguez dos crimes.
E a mulher escreve no pergaminho: minha é a inocência.
E o filho recebe o legado — deita-se para dormir com ele, encosta-o ao coração, essa palavra de inocência que circula na circulação do sangue dele, o filho adormecido.
As justiças elegeram os pelotões de execução que esperam fora das câmaras, no pátio, em frente do muro onde se encostará o condenado, para receber no coração negro a bala libertadora.
Bastará talvez que o filho desenrole a palavra escrita pela mulher: inocência.
Nunca o fará, e chora pela última vez, enche o último instante com o valor duplo da inocência — palavra onde se juntaram mãe e filho, os amantes no crime.
A mãe é aquela face do enigma, no centro do labirinto, face da catástrofe, luz horrível que se recolhe como um ramo de flores venenosas.
Resta ao filho caminhar lentamente com a sua festa negra: o segredo que se não revela, o amor maldito, incesto, canto da sua glória tenebrosa.
E quando todos se meteram pelos anos dentro, caíram de podres, desapareceram, e os lugares foram esquecidos, e os tempos, e os antigos modos de trair e mentir e criar um enigma — então fica o filho, o órfão, com a verdadeira morte instalada no seu coração de homem, para com essa morte poder gritar:
Eu sou o crime, levanto-me com o meu crime, e então sou inocente, e atravesso o mundo para instaurar os novos lugares, o silêncio e as palavras sem culpa.
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