Poemas neste tema
Saudade e Ausência
Carolina Vigna Prado
Angústias de uma espera
Deixei o telefone no máximo na esperança de você ligar.
Percorri bares, restaurantes, esquinas, lares.
Te escrevi dezenas de cartas que nunca entreguei.
Arrumei a casa.
Comprei roupa.
Fui aos lugares que você freqüenta.
Tentei largar o cigarro.
Me perfumei.
Me tornei feminina.
Mudei meu horário.
Emagreci.
Amei os teus.
Te liguei, disseram que tinha saído.
Te pedi, você não respondeu.
Fiz planos.
Comprei espartilho, cinta-liga e lingerie.
Te fiz cafuné.
Me fiz disponível.
Consertei a cama.
Comprei lençóis.
Fiz cópia da chave para o caso de você ficar.
Tomo pílulas para o caso de você querer.
Carrego sua foto na minha carteira.
Aprendi a andar no seu bairro.
Chorei por você.
Ri com você.
Ri de você.
Não me importei com seu atraso.
Inventei você ao meu lado.
Te convidei para entrar.
Te convidei para ficar.
Te contei tanto.
Te dei a chave.
Te desejei.
Te atrapalhei.
Te sufoquei.
Te matei.
E você nem percebeu.
Percorri bares, restaurantes, esquinas, lares.
Te escrevi dezenas de cartas que nunca entreguei.
Arrumei a casa.
Comprei roupa.
Fui aos lugares que você freqüenta.
Tentei largar o cigarro.
Me perfumei.
Me tornei feminina.
Mudei meu horário.
Emagreci.
Amei os teus.
Te liguei, disseram que tinha saído.
Te pedi, você não respondeu.
Fiz planos.
Comprei espartilho, cinta-liga e lingerie.
Te fiz cafuné.
Me fiz disponível.
Consertei a cama.
Comprei lençóis.
Fiz cópia da chave para o caso de você ficar.
Tomo pílulas para o caso de você querer.
Carrego sua foto na minha carteira.
Aprendi a andar no seu bairro.
Chorei por você.
Ri com você.
Ri de você.
Não me importei com seu atraso.
Inventei você ao meu lado.
Te convidei para entrar.
Te convidei para ficar.
Te contei tanto.
Te dei a chave.
Te desejei.
Te atrapalhei.
Te sufoquei.
Te matei.
E você nem percebeu.
847
Cynara Novaes
O barco passou
O barco passou
e o vento passou
e o sol não veio
não veio
A nuvem passou
a manhã passou
e a alegria não veio
não veio
A menina passou
a moça passou
e a lua não veio
não veio
A menina ficou
o tempo ficou
pois a vida não veio
não veio
e o vento passou
e o sol não veio
não veio
A nuvem passou
a manhã passou
e a alegria não veio
não veio
A menina passou
a moça passou
e a lua não veio
não veio
A menina ficou
o tempo ficou
pois a vida não veio
não veio
1 012
Cynara Novaes
Meus noturnos
Meus noturnos
amanhecem
em tuas alvoradas
e continuam dia a fora
noite a dentro
invetendo fuso horários
enlouquecidos pela
falta das estrelas.
amanhecem
em tuas alvoradas
e continuam dia a fora
noite a dentro
invetendo fuso horários
enlouquecidos pela
falta das estrelas.
909
Clóvis Ramos
São Luís
I
Em São Luís há sobradões, ermidas
que lembram do passado o tempo nobre,
a beleza sem par, que não se encobre
no silêncio das coisas esquecidas.
Pelas ruas estreitas e avenidas,
quanta história de amor! Basta se dobre
uma esquina e, de novo, rico ou pobre,
vibram no coração doces feridas!
Ah! tudo em São Luís vira poesia
na saudade que vem, terna saudade,
que nos maltrata e nos alivia!
E sonhando um amor, espero, ainda,
rever a terra da felicidade,
que tanto quero, com ternura infinda.
II
Estou em São Luís e, novamente,
cantarola em meu peito um amor antigo.
Digo num verso comovido e ardente,
tudo o que sinto como meu castigo.
Por uma rua ensolarada sigo
e meu pensar, talvez, ninguém pressente.
Ahi meu sonho de amor, que ainda persigo!
Ai! saudade que fere ferozmente!
Pelas praças, que flores perfumosas!
O sol as beija como beija as rosas
dos lábios da mulher que se quer bem.
São Luís é a cidade da ternura...
Em cada canto um sonho meu perdura,
perdura, em cada canto, o olhar de alguém.
Em São Luís há sobradões, ermidas
que lembram do passado o tempo nobre,
a beleza sem par, que não se encobre
no silêncio das coisas esquecidas.
Pelas ruas estreitas e avenidas,
quanta história de amor! Basta se dobre
uma esquina e, de novo, rico ou pobre,
vibram no coração doces feridas!
Ah! tudo em São Luís vira poesia
na saudade que vem, terna saudade,
que nos maltrata e nos alivia!
E sonhando um amor, espero, ainda,
rever a terra da felicidade,
que tanto quero, com ternura infinda.
II
Estou em São Luís e, novamente,
cantarola em meu peito um amor antigo.
Digo num verso comovido e ardente,
tudo o que sinto como meu castigo.
Por uma rua ensolarada sigo
e meu pensar, talvez, ninguém pressente.
Ahi meu sonho de amor, que ainda persigo!
Ai! saudade que fere ferozmente!
Pelas praças, que flores perfumosas!
O sol as beija como beija as rosas
dos lábios da mulher que se quer bem.
São Luís é a cidade da ternura...
Em cada canto um sonho meu perdura,
perdura, em cada canto, o olhar de alguém.
1 128
Cunha Santos Filho
Motel
O mênstruo da aurora em tom vermelho
repete-me abatido na vidraça
minha imagem em dó, ré, mi, coalha no espelho
o sol, lavando o resto, vê e passa
é a manhã, rebento do meu sono, afoito
me mudo para a lâmpada que, acesa,
crava minha sombra sobre a mesa
caneta e eu, poema, eterno coito
saudades dela em mim como estrias
na pele. E como é dura removê-las
devassos nós dormimos quando é dia
que às noites, como cães lassos de orgia
se ela faz suruba com as estrelas
eu vivo em coito anal com a poesia
repete-me abatido na vidraça
minha imagem em dó, ré, mi, coalha no espelho
o sol, lavando o resto, vê e passa
é a manhã, rebento do meu sono, afoito
me mudo para a lâmpada que, acesa,
crava minha sombra sobre a mesa
caneta e eu, poema, eterno coito
saudades dela em mim como estrias
na pele. E como é dura removê-las
devassos nós dormimos quando é dia
que às noites, como cães lassos de orgia
se ela faz suruba com as estrelas
eu vivo em coito anal com a poesia
1 217
Carvalho Nogueira
Paula Ney
Era mesmo o poeta Paula Ney:
apareceu-me em sonho. Recordou
horas a fio uma porção de coisas
e leu-me uns versos que escreveu no céu.
Disse que os velhos poetas cearenses
da ingênua Fortaleza do passado
estão pedindo missa. E suas almas
continuam penando de saudade.
Contou também que, certa madrugada,
rogou licença a Deus e veio aqui
para rever a "loira desposada".
Nesse instante, seus olhos marejaram
e, quando quis falar o que faltava,
as palavras morreram de tristeza.
apareceu-me em sonho. Recordou
horas a fio uma porção de coisas
e leu-me uns versos que escreveu no céu.
Disse que os velhos poetas cearenses
da ingênua Fortaleza do passado
estão pedindo missa. E suas almas
continuam penando de saudade.
Contou também que, certa madrugada,
rogou licença a Deus e veio aqui
para rever a "loira desposada".
Nesse instante, seus olhos marejaram
e, quando quis falar o que faltava,
as palavras morreram de tristeza.
820
Cleonice Rainho
Viagem
Lá vai o navio,
cortando o mar.
Lá vai o avião,
furando o ar.
É azul o céu
e verde o mar.
E eu fico pensando
na cor da saudade
que os viajantes levam
da terra e do lar.
cortando o mar.
Lá vai o avião,
furando o ar.
É azul o céu
e verde o mar.
E eu fico pensando
na cor da saudade
que os viajantes levam
da terra e do lar.
1 244
Cid Saboia de Carvalho
Plenilúnio
Plenilúnio, oh plena lua
de meu avô e de minha avó.
Leio versos dele nas velhas coletâneas
enquanto os recortes amarelecidos
fazem queixas e promessas,
queixas, promessas e esperanças.
Tudo de ti me fala, eis que confessa
nas canções plenas de luas cheias,
cheias de todas as luas.
Ao pé do soneto publicado
o anúncio do livro que se perdeu,
cujas páginas quase não restaram.
E agora, perto de um século depois,
tomo o plenilúnio ao meu cuidado
com um livro sem graça,
mas cheio de emoção como seria o seu.
Meu avô Eduardo declamava com voz cheia
os versos que fez como padeiro
para Mimosa, minha avó.
Tudo restou acontecido,
inclusive as mortes no caminho.
a dele, a dela e a partida
dos filhos todos que tiveram.
O velho álbum guarda recortes amarelos
e é a própria lua cheia que me ilumina
com seculares emoções,
jovens emoções que se renovam a cada lua.
Os dedos de minha Mãe pregaram esses papéis
que jazem pregados em mim.
Oh plenilúnio, oh lua plena, plena lua
lua de cem anos, lua cheia
de uma saudade sem fim.
Plenilúnio da saudade,
oh plenilúnio de mim.
de meu avô e de minha avó.
Leio versos dele nas velhas coletâneas
enquanto os recortes amarelecidos
fazem queixas e promessas,
queixas, promessas e esperanças.
Tudo de ti me fala, eis que confessa
nas canções plenas de luas cheias,
cheias de todas as luas.
Ao pé do soneto publicado
o anúncio do livro que se perdeu,
cujas páginas quase não restaram.
E agora, perto de um século depois,
tomo o plenilúnio ao meu cuidado
com um livro sem graça,
mas cheio de emoção como seria o seu.
Meu avô Eduardo declamava com voz cheia
os versos que fez como padeiro
para Mimosa, minha avó.
Tudo restou acontecido,
inclusive as mortes no caminho.
a dele, a dela e a partida
dos filhos todos que tiveram.
O velho álbum guarda recortes amarelos
e é a própria lua cheia que me ilumina
com seculares emoções,
jovens emoções que se renovam a cada lua.
Os dedos de minha Mãe pregaram esses papéis
que jazem pregados em mim.
Oh plenilúnio, oh lua plena, plena lua
lua de cem anos, lua cheia
de uma saudade sem fim.
Plenilúnio da saudade,
oh plenilúnio de mim.
1 009
Cleonice Rainho
Meu Lenço
Um pedacinho de pano
florido ou não,
o lenço é útil
e gosto dele
no bolso ou na mão.
Da calçada
ou da janela
dou adeus com ele
para o papai,
quando vai trabalhar,
e para os passarinhos
que vejo voar.
Corro com o lenço
aberto ao vento
— a vela de um barco
ou uma bandeirinha
bem esticadinha...
Mas, de lenço molhado,
na fonte dos olhos,
não gosto não!
E pano encharcado
na água de tristeza
do coração.
florido ou não,
o lenço é útil
e gosto dele
no bolso ou na mão.
Da calçada
ou da janela
dou adeus com ele
para o papai,
quando vai trabalhar,
e para os passarinhos
que vejo voar.
Corro com o lenço
aberto ao vento
— a vela de um barco
ou uma bandeirinha
bem esticadinha...
Mas, de lenço molhado,
na fonte dos olhos,
não gosto não!
E pano encharcado
na água de tristeza
do coração.
1 308
Claudia Moraes Rego
No seu colo
Cabeça no seu colo
orelha colada em sua perna
ouvindo
palavras fiadas em conversa
conduzidas, transmitidas
através
de carnes e ossos
com ecos e reverberações
intrigantes:
orelha colada na pele
friinha (mistério!)
macia e perambulante.
Hoje
minha mãe
é a lembrança de um corpo
--- auscultado ---
ontem.
orelha colada em sua perna
ouvindo
palavras fiadas em conversa
conduzidas, transmitidas
através
de carnes e ossos
com ecos e reverberações
intrigantes:
orelha colada na pele
friinha (mistério!)
macia e perambulante.
Hoje
minha mãe
é a lembrança de um corpo
--- auscultado ---
ontem.
1 042
Chico Buarque
Ela e sua janela
Ela e sua menina
Ela e seu tricô
Ela e sua janela, espiando
Com tanta moça aí
Na rua o seu amor
Só pode estar dançando
Da sua janela
Imagina ela
Por onde ele anda
E ela vai talvez
Sair uma vez
Na varanda
Ela e um fogareiro
Ela e seu calor
Ela e sua janela, esperando
Com tão pouco dinheiro
Será que o seu amor
Ainda está jogando
Da sua janela
Uma vaga estrela
E um pedaço de lua
E ela vai talvez
Sair outra vez
Na rua
Ela e seu castigo
Ela e seu penar
Ela e sua janela, querendo
Com tanto velho amigo
O seu amor num bar
Só pode estar bebendo
Mas outro moreno
Joga um novo aceno
E uma jura fingida
E ela vai talvez
Viver duma vez
A vida
Ela e seu tricô
Ela e sua janela, espiando
Com tanta moça aí
Na rua o seu amor
Só pode estar dançando
Da sua janela
Imagina ela
Por onde ele anda
E ela vai talvez
Sair uma vez
Na varanda
Ela e um fogareiro
Ela e seu calor
Ela e sua janela, esperando
Com tão pouco dinheiro
Será que o seu amor
Ainda está jogando
Da sua janela
Uma vaga estrela
E um pedaço de lua
E ela vai talvez
Sair outra vez
Na rua
Ela e seu castigo
Ela e seu penar
Ela e sua janela, querendo
Com tanto velho amigo
O seu amor num bar
Só pode estar bebendo
Mas outro moreno
Joga um novo aceno
E uma jura fingida
E ela vai talvez
Viver duma vez
A vida
1 746
Pe. Osvaldo Chaves
Doce e Breve
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Uma saudade breve,
Com a duração das rosas.
Poupa-me dos protestos de "saudade
Imorredoura e eterna:"
Sobre o meu corpo a terra
Já é por demais pesada.
O eterno, assim como o infinito,
Me dá vertigens.
Eu amo a flor
Que vive "o espaço de uma manhã",
Eu amo o entardecer, eu amo a aurora,
Que duram menos,
Ainda menos que a flor,
Um pouco mais de uma hora;
E a onda que se eleva, e se encrespa, e se abate
Em flor de espuma,
E o êxtase do amor que dura alguns seguidos ...
Eu amo a vida!
A vida,
Tão doce e breve,
Que tem na flor, no entardecer, na aurora
E tem na onda e no êxtase do amor
A mais perfeita imagem.
Eu amo a vida!
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Unia saudade breve,
Com a duração das rosas.
Apenas com saudade:
Uma saudade breve,
Com a duração das rosas.
Poupa-me dos protestos de "saudade
Imorredoura e eterna:"
Sobre o meu corpo a terra
Já é por demais pesada.
O eterno, assim como o infinito,
Me dá vertigens.
Eu amo a flor
Que vive "o espaço de uma manhã",
Eu amo o entardecer, eu amo a aurora,
Que duram menos,
Ainda menos que a flor,
Um pouco mais de uma hora;
E a onda que se eleva, e se encrespa, e se abate
Em flor de espuma,
E o êxtase do amor que dura alguns seguidos ...
Eu amo a vida!
A vida,
Tão doce e breve,
Que tem na flor, no entardecer, na aurora
E tem na onda e no êxtase do amor
A mais perfeita imagem.
Eu amo a vida!
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Unia saudade breve,
Com a duração das rosas.
1 076
Olympia Mahu
Saudades de ti, minha Belém
Uma saudade intensa apoderou-se de mim
Busquei alegrias em todos os recantos
Mas tu estavas a chamar-me, altiva e distante...
Tudo fiz para desvencilhar-me de tua imagem
Das tuas lembranças, hoje, saudades...
Nas coisas mais simples deixavas tua marca
Imagem, tristeza, felicidades...
Ao encontrar-me contigo, tudo mudou
Meus dias foram longos, lindos e vibrantes
Teu semblante nebuloso, teu céu tristonho...tudo era alegria
O sol e a chuva estavam sempre a combinar os encontros, as saídas
Meu suor era um banho de energia, onde eu mergulhava com alegria...
Andanças, corre-corre, encontros e conversas sem-fim
As madrugadas ouviam, silenciosas, enormes confidências...
E eu vivenciei as noites e os dias com sofreguidão
Pois eu queria apossar-me de ti
Para ter-te sempre comigo em meu exílio...
Hoje, aqui estou, de volta. Em casa, feliz...
Cheia de felizes lembranças para acalentar minhas saudades
Que serão muitas... e com tamanha distância
A te impedir de mim...
Olimpya Mahu,, 23/5/96
Busquei alegrias em todos os recantos
Mas tu estavas a chamar-me, altiva e distante...
Tudo fiz para desvencilhar-me de tua imagem
Das tuas lembranças, hoje, saudades...
Nas coisas mais simples deixavas tua marca
Imagem, tristeza, felicidades...
Ao encontrar-me contigo, tudo mudou
Meus dias foram longos, lindos e vibrantes
Teu semblante nebuloso, teu céu tristonho...tudo era alegria
O sol e a chuva estavam sempre a combinar os encontros, as saídas
Meu suor era um banho de energia, onde eu mergulhava com alegria...
Andanças, corre-corre, encontros e conversas sem-fim
As madrugadas ouviam, silenciosas, enormes confidências...
E eu vivenciei as noites e os dias com sofreguidão
Pois eu queria apossar-me de ti
Para ter-te sempre comigo em meu exílio...
Hoje, aqui estou, de volta. Em casa, feliz...
Cheia de felizes lembranças para acalentar minhas saudades
Que serão muitas... e com tamanha distância
A te impedir de mim...
Olimpya Mahu,, 23/5/96
901
Dílson Catarino
Confissões
Quero sentir no teu rosto
um sinal de minha ausência.
Quero lamber tuas lágrimas
Aplacar teu sofrimento.
Quero fixar-me em teu corpo
pra transcender-me em delírio
pra sentir as mesmas dores
Tratar das mesmas feridas.
Isso é pra ter na memória
teu cheiro embriagador
É pra ter mais que certeza
que o sonho não acabou
É pra ver ainda forte
tudo o que nos juntou
-o-
um sinal de minha ausência.
Quero lamber tuas lágrimas
Aplacar teu sofrimento.
Quero fixar-me em teu corpo
pra transcender-me em delírio
pra sentir as mesmas dores
Tratar das mesmas feridas.
Isso é pra ter na memória
teu cheiro embriagador
É pra ter mais que certeza
que o sonho não acabou
É pra ver ainda forte
tudo o que nos juntou
-o-
865
Carla Bianca
Lembrança
Guardo a saudade no fundo da goela. Lá coloco sentimentos como se fossem drágeas a serem engolidas. Procuro um copo d’água para desentalar a saudade.
Molhada a goela, sinto a saudade transformar-se em lembrança. O peito descansa de esperar por alguém que não tem paradeiro.
As lembranças são preciosidades que não fazem sofrer. Lindas molduras, de momentos vividos.
Agora viajo no tempo repassando as venturas que tive com o amor. Os rostos parecem sorrir, transcendendo as dúvidas que antes marcavam suas testas e expressões. Eles são lembranças, deixaram de ser saudades.
Observo mais atentamente e avisto o teu rosto na galeria das emoções. Ele tem agora um sorriso plácido, tranqüilo, de pessoa em paz, com a vida, este pedaço de energia que não possui tempo certo e viaja na memória dos contemporâneos de sua passagem.
Tua lembrança pertence à nobre seção do afeto e apraz contemplar figura que tanto ensinou e agora diz que devo procurar outro mestre.
Molhada a goela, sinto a saudade transformar-se em lembrança. O peito descansa de esperar por alguém que não tem paradeiro.
As lembranças são preciosidades que não fazem sofrer. Lindas molduras, de momentos vividos.
Agora viajo no tempo repassando as venturas que tive com o amor. Os rostos parecem sorrir, transcendendo as dúvidas que antes marcavam suas testas e expressões. Eles são lembranças, deixaram de ser saudades.
Observo mais atentamente e avisto o teu rosto na galeria das emoções. Ele tem agora um sorriso plácido, tranqüilo, de pessoa em paz, com a vida, este pedaço de energia que não possui tempo certo e viaja na memória dos contemporâneos de sua passagem.
Tua lembrança pertence à nobre seção do afeto e apraz contemplar figura que tanto ensinou e agora diz que devo procurar outro mestre.
943
Olympia Mahu
Espera
A porta se abrirá...
E, na sala vazia, tua presença, teu perfume...
Tua saudade surgirá, envolvente, no ar...
Dominando tudo.
Pensar... triste pensar... nem pensar
Tua lembrança forte, teu beijo,
Teu abraço envolvente em meu corpo
Num calafrio de amor.
Aqui estou, toda tua, toda nua,
Em sussurros de amor.
Me abandono no cansaço
Em doce sonolência de estar contigo
Em agonia de amor...
Doce abandono,
Eterno idílio
Em breve sonho,
Meu exílio...
Olimpya Mahu, nov/91
E, na sala vazia, tua presença, teu perfume...
Tua saudade surgirá, envolvente, no ar...
Dominando tudo.
Pensar... triste pensar... nem pensar
Tua lembrança forte, teu beijo,
Teu abraço envolvente em meu corpo
Num calafrio de amor.
Aqui estou, toda tua, toda nua,
Em sussurros de amor.
Me abandono no cansaço
Em doce sonolência de estar contigo
Em agonia de amor...
Doce abandono,
Eterno idílio
Em breve sonho,
Meu exílio...
Olimpya Mahu, nov/91
910
Castro Alves
Horas de Saudade
TUDO VEM me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase quinda há pouco lias.
As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
DAvc-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.
E não Vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.
E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo nalma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.
É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.
No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minhalma — o ninho!
Por onde trilhas — um perfume expande-se.
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço ...
E teu rastro de amor guarda minhalma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos! ...
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase quinda há pouco lias.
As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
DAvc-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.
E não Vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.
E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo nalma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.
É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.
No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minhalma — o ninho!
Por onde trilhas — um perfume expande-se.
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço ...
E teu rastro de amor guarda minhalma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos! ...
2 547
Castro Alves
Se Eu Te Dissesse
SE EU te dissesse que cindindo os mares,
Triste, pendido sobre a vítrea vaga,
Eu desfolhava de teu nome as pétalas
Ao salso vento, que as marés afaga...
Se eu te dissesse que por ermos cimos,
Por ínvios trilhos de uni país distante,
Teu casto riso, teu olhar celeste
Ungia o lábio ao viajor errante;
Se eu te dissesse que do alvergue à ermida,
Do monte ao vale, da chapada à selva,
Junta comigo vagueou tua alma;
Junta comigo pernoitou na relva;
Se eu te dissesse que ao relento frio
Dei minha fronte à viração gemente,
E olhando o rumo de teu lar — saudoso,
Molhei as trevas de meu pranto algente;
Se eu te dissesse, bela flor das saias!
Que eu dei teu nome dos sertões às flores!...
E ousei, na trova em que os pastores gemem,
Por ti, senhora, improvisar de amores;
Se eu te dissesse que tu foste a concha
Que o peregrino traz da Terra Santa,
Mago amuleto que no seio mora,
Doce relíquia... talismã que encanta!... ;
Se eu te dissesse que tu foste a rosa
Que ornava a gorra ao menestrel divino;
Cruz que o Templário conchegava ao peito
Quando nas naves reboava o hino;
Se eu te dissse que tu és, criança!
O anjo-da-guarda que me orvalha as preces...;
Se eu te disserte... — Foi talvez mentira! —
Se eu te dissesse... Tu talvez dissesses...
Triste, pendido sobre a vítrea vaga,
Eu desfolhava de teu nome as pétalas
Ao salso vento, que as marés afaga...
Se eu te dissesse que por ermos cimos,
Por ínvios trilhos de uni país distante,
Teu casto riso, teu olhar celeste
Ungia o lábio ao viajor errante;
Se eu te dissesse que do alvergue à ermida,
Do monte ao vale, da chapada à selva,
Junta comigo vagueou tua alma;
Junta comigo pernoitou na relva;
Se eu te dissesse que ao relento frio
Dei minha fronte à viração gemente,
E olhando o rumo de teu lar — saudoso,
Molhei as trevas de meu pranto algente;
Se eu te dissesse, bela flor das saias!
Que eu dei teu nome dos sertões às flores!...
E ousei, na trova em que os pastores gemem,
Por ti, senhora, improvisar de amores;
Se eu te dissesse que tu foste a concha
Que o peregrino traz da Terra Santa,
Mago amuleto que no seio mora,
Doce relíquia... talismã que encanta!... ;
Se eu te dissesse que tu foste a rosa
Que ornava a gorra ao menestrel divino;
Cruz que o Templário conchegava ao peito
Quando nas naves reboava o hino;
Se eu te dissse que tu és, criança!
O anjo-da-guarda que me orvalha as preces...;
Se eu te disserte... — Foi talvez mentira! —
Se eu te dissesse... Tu talvez dissesses...
2 833
Castro Alves
Cansaço
O NÁUFRAGO nadou por longas horas...
Na praia dorme frio num desmaio.
A força após a luta abandonou-o,
Do sol queimou-lhe a face ardente raio.
Pois eu sou como o nauta... Após a luta
Meu amor dorme lânguido no peito.
Cansado... talvez morto, dorme e dorme
Da indiferença no gelado leito.
Sobre as asas velozes a andorinha
Maneira se lançou nos puros ares...
Veio após o tufão... lutou debalde,
Mas em breve boiou por sobre os mares.
Eu sou como a andorinha... Ergui meu vôo
Sobre as asas gentis da fantasia.
A descrença nublou-me o céu da vida...
E a crença estrebuchou numa agonia.
Como as flores de estufa que emurchecem
Lembrando o céu azul do seu país,
Minha alma vai morrendo, suspirando
Por seus perdidos sonhos tão gentis.
E que durma ... E que durma ... ó virgem santa,
Que criou sempre pura a fantasia,
Só a ti é que eu quero que te sentes
Ao meu lado na última agonia.
Na praia dorme frio num desmaio.
A força após a luta abandonou-o,
Do sol queimou-lhe a face ardente raio.
Pois eu sou como o nauta... Após a luta
Meu amor dorme lânguido no peito.
Cansado... talvez morto, dorme e dorme
Da indiferença no gelado leito.
Sobre as asas velozes a andorinha
Maneira se lançou nos puros ares...
Veio após o tufão... lutou debalde,
Mas em breve boiou por sobre os mares.
Eu sou como a andorinha... Ergui meu vôo
Sobre as asas gentis da fantasia.
A descrença nublou-me o céu da vida...
E a crença estrebuchou numa agonia.
Como as flores de estufa que emurchecem
Lembrando o céu azul do seu país,
Minha alma vai morrendo, suspirando
Por seus perdidos sonhos tão gentis.
E que durma ... E que durma ... ó virgem santa,
Que criou sempre pura a fantasia,
Só a ti é que eu quero que te sentes
Ao meu lado na última agonia.
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Carlos Nóbrega
Substantivo Concreto
No quarto do morto
ainda sentíamos
das noites mais fundas
A matéria dos seus sonhos
--
Tocar-nos
ainda sentíamos
das noites mais fundas
A matéria dos seus sonhos
--
Tocar-nos
966
Marcolino Candeias
Aqui não tem sabiá
Para a Deka
Não tem sabiá aqui nem tem palmeiras. Aqui rapadura não tem meu bem
nem pé-de-moleque nem brigadeiro metido
em tudo quanto é sítio. E mesmo
teu pezinho de jabuticá meu bem
já virou quindim
lá bem no meiinho da chacrinha da memória.
Aqui saudade às vezes tem. Te bate negra.
Mas não dá princesa pra chamar a polícia.
Isso são uns bem caipira nem sabem o que é cachaça. Tudo
uns tatu velho que não tem mais jeito.
É quando de Chico pra Gilberto e de Elis pra Bosco tu viras sagui
e por toda a casa
Uma orgia de orixás
bota uma alegria danada que desconchava direito
esta minha sisudez de quem nasceu no mar.
Aqui meu bem não tem sabiá não.
Aqui tem só uma gracinha sorrindinho.
Tem você, né?
Marcolino Candeias
(Montréal, Novembro, 1990)
Não tem sabiá aqui nem tem palmeiras. Aqui rapadura não tem meu bem
nem pé-de-moleque nem brigadeiro metido
em tudo quanto é sítio. E mesmo
teu pezinho de jabuticá meu bem
já virou quindim
lá bem no meiinho da chacrinha da memória.
Aqui saudade às vezes tem. Te bate negra.
Mas não dá princesa pra chamar a polícia.
Isso são uns bem caipira nem sabem o que é cachaça. Tudo
uns tatu velho que não tem mais jeito.
É quando de Chico pra Gilberto e de Elis pra Bosco tu viras sagui
e por toda a casa
Uma orgia de orixás
bota uma alegria danada que desconchava direito
esta minha sisudez de quem nasceu no mar.
Aqui meu bem não tem sabiá não.
Aqui tem só uma gracinha sorrindinho.
Tem você, né?
Marcolino Candeias
(Montréal, Novembro, 1990)
1 462
Castro Alves
Recordações
(RECITATIVO PARA O PIANO)
LEMBRAS-TE ainda dessa noite bela
Em que, donzela, te chegaste a mim?
Lembras-te? Dize... mas não tenhas pejo...
Que vai um beijo pra corar assim?...
........................................
Que linda noite! da montanha o vento
Tênue lamento suspirava então.
E nos teus lábios, no tremor, no medo
Lia o segredo de febril paixão.
Passava a lua pelo azul do espaço
Do teu regaço a namorar o alvor.
Como era terna no seu brando lume.
...Tive ciúme de ver tanto amor ...
Como dum cisne alvinitentes plumas
Iam de brumas a vagar nos céus,
Gemia a brisa — perfumando-a a rosa —
Terna, queixosa nos cabelos teus.
Que noite santa!... Sempre o lábio mudo
A dizer tudo, a respirar paixão;
De espaço a espaço um fervoroso beijo,
E após o pejo... e algum frouxo não.
Eu fui a brisa — tu me foste a rosa,
Fui mariposa — tu me foste a luz,
— Brisa — beijei-te — mariposa — ardi-me.
E hoje me oprime do martírio a cruz.
E agora quando da montanha o vento
Geme um lamento de infinito amor,
Busco debalde tescutar as juras...
Não mais venturas... só me resta a dor.
Seria um sonho aquela noite bela?
Dize, donzela... Foi real... bem sei!...
Ai! não me negues, diz-mo a lua, o vento,
Diz-mo o tormento que por ti penei!...
LEMBRAS-TE ainda dessa noite bela
Em que, donzela, te chegaste a mim?
Lembras-te? Dize... mas não tenhas pejo...
Que vai um beijo pra corar assim?...
........................................
Que linda noite! da montanha o vento
Tênue lamento suspirava então.
E nos teus lábios, no tremor, no medo
Lia o segredo de febril paixão.
Passava a lua pelo azul do espaço
Do teu regaço a namorar o alvor.
Como era terna no seu brando lume.
...Tive ciúme de ver tanto amor ...
Como dum cisne alvinitentes plumas
Iam de brumas a vagar nos céus,
Gemia a brisa — perfumando-a a rosa —
Terna, queixosa nos cabelos teus.
Que noite santa!... Sempre o lábio mudo
A dizer tudo, a respirar paixão;
De espaço a espaço um fervoroso beijo,
E após o pejo... e algum frouxo não.
Eu fui a brisa — tu me foste a rosa,
Fui mariposa — tu me foste a luz,
— Brisa — beijei-te — mariposa — ardi-me.
E hoje me oprime do martírio a cruz.
E agora quando da montanha o vento
Geme um lamento de infinito amor,
Busco debalde tescutar as juras...
Não mais venturas... só me resta a dor.
Seria um sonho aquela noite bela?
Dize, donzela... Foi real... bem sei!...
Ai! não me negues, diz-mo a lua, o vento,
Diz-mo o tormento que por ti penei!...
1 947
Castro Alves
Canção do Violeiro
Passa, ó vento das campinas,
Leva a canção do tropeiro.
Meu coração stá deserto,
Stá deserto o mundo inteiro.
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Ela foi-se ao pôr da tarde
Como as gaivotas do rio.
Como os orvalhos que descem
Da noite num beijo frio,
O cauã canta bem triste,
Mais triste é meu coração.
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
E eu disse: a senhora volta
Com as flores da sapucaia.
Veio o tempo, trouxe as flores,
Foi o tempo, a flor desmaia.
Colhereira, que além voas,
Onde está meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Não quero mais esta vida,
Não quero mais esta terra.
Vou procurá-la bem longe,
Lá para as bandas da serra.
Ai! triste que eu sou escravo!
Que vale ter coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Leva a canção do tropeiro.
Meu coração stá deserto,
Stá deserto o mundo inteiro.
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Ela foi-se ao pôr da tarde
Como as gaivotas do rio.
Como os orvalhos que descem
Da noite num beijo frio,
O cauã canta bem triste,
Mais triste é meu coração.
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
E eu disse: a senhora volta
Com as flores da sapucaia.
Veio o tempo, trouxe as flores,
Foi o tempo, a flor desmaia.
Colhereira, que além voas,
Onde está meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Não quero mais esta vida,
Não quero mais esta terra.
Vou procurá-la bem longe,
Lá para as bandas da serra.
Ai! triste que eu sou escravo!
Que vale ter coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
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