Poemas neste tema
Sol, amanhecer e pôr do sol
Angela Santos
Hic et Nunc
Agora
quero apenas ser daqui…
sem ânsia de outro mundo
ou beleza que se eleve
à que rente ao chão que piso,
sinto e fruo por inteiro…
A fealdade não é
senão um olhar ao invés
e aqui
neste chão que sou
até do lodo se elevam
prodígios da natureza
em busca da luz do sol.
Aqui e agora
Ser,
chão rude e áspero,
anjo sem asas,
brisa que passa,
poeira de estrelas…..
e até lodo ser
se a beleza do Lotus
abrindo-se ao sol
do fundo do pântano
teimosamente
se erguer.
quero apenas ser daqui…
sem ânsia de outro mundo
ou beleza que se eleve
à que rente ao chão que piso,
sinto e fruo por inteiro…
A fealdade não é
senão um olhar ao invés
e aqui
neste chão que sou
até do lodo se elevam
prodígios da natureza
em busca da luz do sol.
Aqui e agora
Ser,
chão rude e áspero,
anjo sem asas,
brisa que passa,
poeira de estrelas…..
e até lodo ser
se a beleza do Lotus
abrindo-se ao sol
do fundo do pântano
teimosamente
se erguer.
1 133
Angela Santos
Condição
Se
de um mistério me queres falar
lembra-me a semente prenhe
acoitada no seio da terra
em silencio a germinar
Se me queres falar
do amor – dor
fala-me do tenro tronco
que em grito rasga
o corpo da mulher
Se me queres falar da alegria
lembra-me um rútila boca pequenina
que sem sombra de cuidado
ri ainda
Se me queres falar de paz
leva-me ao fim do dia
junto ao esplendor de um sol
em brasa
sobre a mansidão do mar.
Se me queres falar da vida
mostra-me o homem que procura
fala-me do amor, da dor
e às vezes da alegria!
de um mistério me queres falar
lembra-me a semente prenhe
acoitada no seio da terra
em silencio a germinar
Se me queres falar
do amor – dor
fala-me do tenro tronco
que em grito rasga
o corpo da mulher
Se me queres falar da alegria
lembra-me um rútila boca pequenina
que sem sombra de cuidado
ri ainda
Se me queres falar de paz
leva-me ao fim do dia
junto ao esplendor de um sol
em brasa
sobre a mansidão do mar.
Se me queres falar da vida
mostra-me o homem que procura
fala-me do amor, da dor
e às vezes da alegria!
995
Silvaney Paes
Aquele Olhar
Clamei
por muitos amores,
Concederam-me um ao alvorecer,
Mas ele trouxe tanta luz que me ofuscou
Parecendo demais para meus anseios
Achei que poderia fugir
Furtivamente sem nada dizer,
Como uma sombra que se escoa
Ante a luz que adentra pela janela.
Mas teus olhos viram-me
E perdi o meu recurso derradeiro,
Ilhado pela visão dessa luminosa manhã
Inebriado diante da mulher.
Tentei refazer minha trama,
Mas outra trama trazia desfecho igual
E parecias cantar em silencio
O gozo de ver-me sob o jugo do desejo
E te achegaste parta dar o nó em teu laço.
Na expressão daquele olhar
Pressenti que me perderia
Mergulhando nas suas vagas
Mesmo sabendo que elas ora alçam
Ora destroiem o coração de um homem
por muitos amores,
Concederam-me um ao alvorecer,
Mas ele trouxe tanta luz que me ofuscou
Parecendo demais para meus anseios
Achei que poderia fugir
Furtivamente sem nada dizer,
Como uma sombra que se escoa
Ante a luz que adentra pela janela.
Mas teus olhos viram-me
E perdi o meu recurso derradeiro,
Ilhado pela visão dessa luminosa manhã
Inebriado diante da mulher.
Tentei refazer minha trama,
Mas outra trama trazia desfecho igual
E parecias cantar em silencio
O gozo de ver-me sob o jugo do desejo
E te achegaste parta dar o nó em teu laço.
Na expressão daquele olhar
Pressenti que me perderia
Mergulhando nas suas vagas
Mesmo sabendo que elas ora alçam
Ora destroiem o coração de um homem
845
Jorge Viegas
Estrada do Silêncio
Apalpo os
passos que dou lentamente...
vergado,
ando pelas ruas,
rasgando o chão de pedras nuas,
humilhado,
à procura de um sinal ardente.
Vai o sol poente encontrar-me
à beira mar deitado.
No meu peito,
vulcões de sangue quente
desfazem as imagens da mente.
Apetece-me rasgar o silêncio estúpido
fazer das tiras, uma longa trança de desejo
e banhá-la no sangue translúcido
que escorre pela face escondida.
Apetece-me desfazer palavras
tornando-as insignificantes no deslocamento do tempo,
quebrar silabas, dando movimento
ao ardor alojado no peito.
Arrancar os segundos ao tempo,
destruindo a monotonia do saber.
Arrancar os ponteiros do contratempo..
não continuar a sofrer.
passos que dou lentamente...
vergado,
ando pelas ruas,
rasgando o chão de pedras nuas,
humilhado,
à procura de um sinal ardente.
Vai o sol poente encontrar-me
à beira mar deitado.
No meu peito,
vulcões de sangue quente
desfazem as imagens da mente.
Apetece-me rasgar o silêncio estúpido
fazer das tiras, uma longa trança de desejo
e banhá-la no sangue translúcido
que escorre pela face escondida.
Apetece-me desfazer palavras
tornando-as insignificantes no deslocamento do tempo,
quebrar silabas, dando movimento
ao ardor alojado no peito.
Arrancar os segundos ao tempo,
destruindo a monotonia do saber.
Arrancar os ponteiros do contratempo..
não continuar a sofrer.
1 241
Jorge Viegas
Sonho Azul
Voando
fechado no tempo,
Encontro momentos à muito perdidos.
Nos vales do paraíso
Infiltro a magia da liberdade
Nas veias da imaginação
E navego pela leveza do esplendor.
Acendo a tocha da reflexão
Embalo os sentimentos nos fluidos do silêncio
E abro a janela da criação
Vem comigo desvendar os mistérios da primavera
Delicadamente sentada no brilho das águas cristalinas,
Vaguear por entre os sons da inocência
E saborear a profundidade da beleza do carinho.
Vem decifrar as doces linhas dos enigmas
Que se escondem na beleza dos murmúrios do vento
E nas cores quentes do por do sol.
Vem percorrer as ondas do magnetismo absorvente
Do brilho dos olhares apaixonados pela sensual motivação
Da união de dois sentimentos.
Vem absorver essas gotas criadoras de sonhos interruptos
Que derrubam montanhas inexploráveis
Criando riachos por onde deslizas delicadamente deitada.
Vem provar o amor.
fechado no tempo,
Encontro momentos à muito perdidos.
Nos vales do paraíso
Infiltro a magia da liberdade
Nas veias da imaginação
E navego pela leveza do esplendor.
Acendo a tocha da reflexão
Embalo os sentimentos nos fluidos do silêncio
E abro a janela da criação
Vem comigo desvendar os mistérios da primavera
Delicadamente sentada no brilho das águas cristalinas,
Vaguear por entre os sons da inocência
E saborear a profundidade da beleza do carinho.
Vem decifrar as doces linhas dos enigmas
Que se escondem na beleza dos murmúrios do vento
E nas cores quentes do por do sol.
Vem percorrer as ondas do magnetismo absorvente
Do brilho dos olhares apaixonados pela sensual motivação
Da união de dois sentimentos.
Vem absorver essas gotas criadoras de sonhos interruptos
Que derrubam montanhas inexploráveis
Criando riachos por onde deslizas delicadamente deitada.
Vem provar o amor.
1 692
Silvaney Paes
Sol
De desconforto
ardia à natureza,
Esvaecida da luz que lhe inflamara,
Em incertas, luminosas e claras horas.
Que de tantas foram doces e amargas,
Quebrantadas pela dama que se avizinhara,
Ferindo a claridade como negra faca.
E o céu de um azul esplendoroso,
Agonizava agora em tons opacos,
Para sangrar em real vermelho.
Gritando o prenúncio primeiro,
De que ainda muito cedo,
Moribundo morreria em preto.
Estando o mundo preso,
Sob imenso bloco negro,
No breu da abóbada gigantesca
Restou do sol o espelho.
Em estrondosa lua cheia
Como o prenuncio verdadeiro,
Do retorno da luz a seu reino.
E depois das escuras horas,
Retorna com fugaz frescor e alvor
Em esplendorosa alvorada de cores,
Rasgando o negro manto da noite.
Como quem resgata a vida da morte,
Vivificando de novo a natureza,
Desde seu primeiro e ardente beijo
Até o escaldante Sol do meio-dia.
ardia à natureza,
Esvaecida da luz que lhe inflamara,
Em incertas, luminosas e claras horas.
Que de tantas foram doces e amargas,
Quebrantadas pela dama que se avizinhara,
Ferindo a claridade como negra faca.
E o céu de um azul esplendoroso,
Agonizava agora em tons opacos,
Para sangrar em real vermelho.
Gritando o prenúncio primeiro,
De que ainda muito cedo,
Moribundo morreria em preto.
Estando o mundo preso,
Sob imenso bloco negro,
No breu da abóbada gigantesca
Restou do sol o espelho.
Em estrondosa lua cheia
Como o prenuncio verdadeiro,
Do retorno da luz a seu reino.
E depois das escuras horas,
Retorna com fugaz frescor e alvor
Em esplendorosa alvorada de cores,
Rasgando o negro manto da noite.
Como quem resgata a vida da morte,
Vivificando de novo a natureza,
Desde seu primeiro e ardente beijo
Até o escaldante Sol do meio-dia.
1 065
Jorge Viegas
Magia
Quando pela manhã se abrem as janelas
E entra a brisa da felicidade, isto é magia.
Quando se cheira uma rosa encantada
E se sente o perfume de um beijo ardente, isto é magia.
Quando os raios escaldantes do sol
Se transformam em fonte eterna, isto é magia.
Quando se mergulha nas gotas da chuva
E navegamos pela imensidão, isto é magia.
Quando se toca na cores quentes do por do sol
E descobrimos cânticos dourados, isto é magia.
Quando se vê no reflexo do brilho do luar
Os contornos íntimos da sua beleza,
Se sente o perfume ardente do teu beijo,
O calor penetrante da tua ternura,
A imensidão absorvente do teu carinho,
Isto é AMOR.
E entra a brisa da felicidade, isto é magia.
Quando se cheira uma rosa encantada
E se sente o perfume de um beijo ardente, isto é magia.
Quando os raios escaldantes do sol
Se transformam em fonte eterna, isto é magia.
Quando se mergulha nas gotas da chuva
E navegamos pela imensidão, isto é magia.
Quando se toca na cores quentes do por do sol
E descobrimos cânticos dourados, isto é magia.
Quando se vê no reflexo do brilho do luar
Os contornos íntimos da sua beleza,
Se sente o perfume ardente do teu beijo,
O calor penetrante da tua ternura,
A imensidão absorvente do teu carinho,
Isto é AMOR.
1 928
Nuno Filipe Torres Dias
A Ti
O dia abstém-se
com o fulgor da aurora,
Entre azáfama das gentes
Que murmuram cansaço de outrora
E eu perdido nos teus olhos comoventes.
A noite faz-se durante horas
Com um toque de fundo das nascentes,
Que procuram o seu destino entre vidas abstinentes.
E eu perdido na magia do teu sorriso, querendo saber onde moras.
Assim, faz-se vinte e quatro horas,
Numa admiração incessante da tua graça, Onde o sentimento não se desfaça.
E, com os olhos postos em ti, pensares vagueiam em mim,
Com palpitações que se confundem com crateras vivas.
Por isso, vejo-te como começo e fim.
com o fulgor da aurora,
Entre azáfama das gentes
Que murmuram cansaço de outrora
E eu perdido nos teus olhos comoventes.
A noite faz-se durante horas
Com um toque de fundo das nascentes,
Que procuram o seu destino entre vidas abstinentes.
E eu perdido na magia do teu sorriso, querendo saber onde moras.
Assim, faz-se vinte e quatro horas,
Numa admiração incessante da tua graça, Onde o sentimento não se desfaça.
E, com os olhos postos em ti, pensares vagueiam em mim,
Com palpitações que se confundem com crateras vivas.
Por isso, vejo-te como começo e fim.
1 118
Lili Gharcia
Tema de Verão
Abriu-se
a cortina
e a tarde se iluminou brusca.
As naturezas acenderam a luz do ar.
Todas as coisas
e as não-coisas foram tingidas.
Felicidade espreguiçou radiante de luz e ar.
Este Pedaço de mundo,
o meu mundo,
o não-mundo,
e até mesmo o universo paralelo, marginal,
respirou sem querer, raro.
Pronto.
Já era tarde para impedir
que os músculos e as vísceras
ficassem limpos, lavados.
Tarde para admitir qualquer verdade,
inclusive a de que
fomos inumanos pelo sol fresco
e, num átomo, somos um todo.
a cortina
e a tarde se iluminou brusca.
As naturezas acenderam a luz do ar.
Todas as coisas
e as não-coisas foram tingidas.
Felicidade espreguiçou radiante de luz e ar.
Este Pedaço de mundo,
o meu mundo,
o não-mundo,
e até mesmo o universo paralelo, marginal,
respirou sem querer, raro.
Pronto.
Já era tarde para impedir
que os músculos e as vísceras
ficassem limpos, lavados.
Tarde para admitir qualquer verdade,
inclusive a de que
fomos inumanos pelo sol fresco
e, num átomo, somos um todo.
690
Rogério Bessa
Do Canto IX:
O Mundo Encontrado:
Inércia Calada e Mudez Falante do Sol
no impacto do cacto intacto,
o olho de intáctil tacto,
viaduto da em sol ação;
no pacto do cacto intacto,
o sol de olho por olho
no tacto incacto da mão.
no pacto, o cacto e o tacto
contrátil do contratante,
chão por chantão malsão.
Inércia Calada e Mudez Falante do Sol
no impacto do cacto intacto,
o olho de intáctil tacto,
viaduto da em sol ação;
no pacto do cacto intacto,
o sol de olho por olho
no tacto incacto da mão.
no pacto, o cacto e o tacto
contrátil do contratante,
chão por chantão malsão.
945
Maranhão Sobrinho
Tela do Norte
No estirão, percutindo os chifres, a boiada
monótona desliza; ondulando, a poeira,
em fulvas espirais, cobre toda a chapada
em cujos poentes o sol põe uns tons de fogueira.
Baba de sede e muge a leva; triturada
sob as patas dos bois a relva toda cheira!
Boiando, corta o ar a mórbida toada
do guia que, de pé, palmilha à cabeceira...
Nos flancos da boiada, aos recurvos galões
das éguas, vão tocando a reses fugitivas
o vaqueiros, com o sol nas pontas dos ferrões...
E, do gado o tropel, com as asas derreadas
quase riscando o chão, que o sol calcina, esquivas,
arrancam coleando as emas assustadas...
monótona desliza; ondulando, a poeira,
em fulvas espirais, cobre toda a chapada
em cujos poentes o sol põe uns tons de fogueira.
Baba de sede e muge a leva; triturada
sob as patas dos bois a relva toda cheira!
Boiando, corta o ar a mórbida toada
do guia que, de pé, palmilha à cabeceira...
Nos flancos da boiada, aos recurvos galões
das éguas, vão tocando a reses fugitivas
o vaqueiros, com o sol nas pontas dos ferrões...
E, do gado o tropel, com as asas derreadas
quase riscando o chão, que o sol calcina, esquivas,
arrancam coleando as emas assustadas...
2 241
Ildefonso Falcão
Sol Rubro
Sol rubro. Meio-dia. À luz que escalda
freme, em volúpias cálidas, a Terra.
Ouro... Um dilúvio de ouro pela espalda
dos montes, pelos prados, pela serra...
As árvores modorram... A esmeralda
do Mar que, ao fundo, imensa angústia encerra,
fulgura, no esplendor de quem desfralda
aos ventos fortes flâmulas de guerra.
É a vida que palpita, na beleza
Das frondes altas e das boas seivas,
abençoada por toda a Natureza...
Glória, pelo que existe de fecundo!
Glória à Luz que, através searas e leivas,
celebra as forças másculas do mundo!
freme, em volúpias cálidas, a Terra.
Ouro... Um dilúvio de ouro pela espalda
dos montes, pelos prados, pela serra...
As árvores modorram... A esmeralda
do Mar que, ao fundo, imensa angústia encerra,
fulgura, no esplendor de quem desfralda
aos ventos fortes flâmulas de guerra.
É a vida que palpita, na beleza
Das frondes altas e das boas seivas,
abençoada por toda a Natureza...
Glória, pelo que existe de fecundo!
Glória à Luz que, através searas e leivas,
celebra as forças másculas do mundo!
1 121
João Quental
Certa Vez de Manhã Cedo
Certa vez, de manhã cedo, o verão é um inseto morto
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
808
Jonas da Silva
Vesperal
Erma tarde litúrgica em declínio...
Há no espaço uma estranha barcarola
E o cadáver do Sol em nuvens rola,
O apunhalado príncipe sanguíneo.
Que na terra haja o luto, haja o assassínio
Mas ao crente amedronta e desconsola
O crime junto aos céus, junto à corola
Das estrelas — as rosas de alumínio.
Logo depois que os mármores vetustos
Desças, ó Noite, do pesar, dos sustos,
Depois que as asas de albatroz envergues,
Há de a Lua surgir pálida e etérea,
A Lua, a triste lâmpada sidérea,
O sorriso do azul para os albergues.
Há no espaço uma estranha barcarola
E o cadáver do Sol em nuvens rola,
O apunhalado príncipe sanguíneo.
Que na terra haja o luto, haja o assassínio
Mas ao crente amedronta e desconsola
O crime junto aos céus, junto à corola
Das estrelas — as rosas de alumínio.
Logo depois que os mármores vetustos
Desças, ó Noite, do pesar, dos sustos,
Depois que as asas de albatroz envergues,
Há de a Lua surgir pálida e etérea,
A Lua, a triste lâmpada sidérea,
O sorriso do azul para os albergues.
1 167
Edigar de Alencar
Cidade-Sol
Cidade pequena, lavada de sol,
de ruas que não têm fim,
alinhadas como os versos de um soneto.
Para tua iluminação diurna
devem trabalhar
todas as usinas do universo.
Fortaleza,
espelho fiel de nossa gente:
esbanjas tanta luz durante o dia
que à noite ficas no escuro...
de ruas que não têm fim,
alinhadas como os versos de um soneto.
Para tua iluminação diurna
devem trabalhar
todas as usinas do universo.
Fortaleza,
espelho fiel de nossa gente:
esbanjas tanta luz durante o dia
que à noite ficas no escuro...
1 067
Frutuoso Ferreira
Sousa Andrade
Erguem brumas do mar do etéreo brilhantismo,
Num faustoso Ocidente umas exéquias grandes...
Loira tarde no céu. Desse cristal dos Andes
Rola um Sol a cair nas vastidões do Abismo.
E na augusta amplidão daquela tarde enorme
Surge um vulto de azul de esplêndida safira:
É a bela Guimarães... A Pátria que delira
Na opala sideral do Ocaso que ali dorme.
É que entra nos Panteons da cérula turquesa,
O Gênio imorredoiro, escultural do Guesa,
O Gênio que entre nós chamou-se Sousa Andrade.
Como as que ele sonhara eternamente belas,
Possam novas coroas desfolhar-lhe estrelas,
Por sobre a noite azúlea da ampla Eternidade.
Num faustoso Ocidente umas exéquias grandes...
Loira tarde no céu. Desse cristal dos Andes
Rola um Sol a cair nas vastidões do Abismo.
E na augusta amplidão daquela tarde enorme
Surge um vulto de azul de esplêndida safira:
É a bela Guimarães... A Pátria que delira
Na opala sideral do Ocaso que ali dorme.
É que entra nos Panteons da cérula turquesa,
O Gênio imorredoiro, escultural do Guesa,
O Gênio que entre nós chamou-se Sousa Andrade.
Como as que ele sonhara eternamente belas,
Possam novas coroas desfolhar-lhe estrelas,
Por sobre a noite azúlea da ampla Eternidade.
888
Irineu Filho
Caravana
No alto do céu o sol fuzila...
Embaixo se abre amplo deserto:
Desolação funda e tranqüila
Ao longe paira, paira perto...
Embaixo se abre amplo deserto...
E nem, sequer, um ruído tento
Ao longe paira, paira perto,
Nem mesmo sopra um débil vento.
E nem, sequer, um ruído lento
Quebra, por fim, tal solidão,
Nem mesmo sopra um débil vento,
Fazendo erguer o pó do chão...
Quebra, por fim, tal solidão
Grande tropel que, em marcha insana,
Fazendo erguer o pó do chão,
Vem caminhando — é a caravana!
Grande tropel que, em marcha insana,
Pela planície zombadora
Vem caminhando — é a Caravana
Morta de sede abrasadora!...
Pela planície zombadora
Ei-la que passa e segue adiante,
Morta de sede abrasadora,
Penosamente, vacilante...
Ei-la que passa e segue adiante...
E, sombra, agora, além se desfaz,
Penosamente, vacilante...
Tristeza cruel volve tenaz.
Embaixo se abre amplo deserto:
Desolação funda e tranqüila
Ao longe paira, paira perto...
Embaixo se abre amplo deserto...
E nem, sequer, um ruído tento
Ao longe paira, paira perto,
Nem mesmo sopra um débil vento.
E nem, sequer, um ruído lento
Quebra, por fim, tal solidão,
Nem mesmo sopra um débil vento,
Fazendo erguer o pó do chão...
Quebra, por fim, tal solidão
Grande tropel que, em marcha insana,
Fazendo erguer o pó do chão,
Vem caminhando — é a caravana!
Grande tropel que, em marcha insana,
Pela planície zombadora
Vem caminhando — é a Caravana
Morta de sede abrasadora!...
Pela planície zombadora
Ei-la que passa e segue adiante,
Morta de sede abrasadora,
Penosamente, vacilante...
Ei-la que passa e segue adiante...
E, sombra, agora, além se desfaz,
Penosamente, vacilante...
Tristeza cruel volve tenaz.
1 026
Edigar de Alencar
Lenda
Um dia o sol levantou-se aborrecido
e resolveu mudar de ares.
Descambou para as bandas
do nordeste brasileiro
e foi parar numa terra hospitaleira,
onde a desgraça pouca é bobagem
e os homens amarelos e magros
dão surra em onça com o chapéu de couro.
A gente da terra
despertou a atenção do sol,
que começou a corricar pelas praias,
e pelos campos sem fim,
bebendo os riachos todos,
estorricando os caminhos,
derramando ouro
sobre as matas imensas,
cheias de xexéus e periquitos.
E o astro vagabundo gostou tanto
que nunca mais abandonou a terra.
e resolveu mudar de ares.
Descambou para as bandas
do nordeste brasileiro
e foi parar numa terra hospitaleira,
onde a desgraça pouca é bobagem
e os homens amarelos e magros
dão surra em onça com o chapéu de couro.
A gente da terra
despertou a atenção do sol,
que começou a corricar pelas praias,
e pelos campos sem fim,
bebendo os riachos todos,
estorricando os caminhos,
derramando ouro
sobre as matas imensas,
cheias de xexéus e periquitos.
E o astro vagabundo gostou tanto
que nunca mais abandonou a terra.
925
Euclides Bandeira
Predileto
É o tipo que me encanta, o louro. De relance
Nos enche de ouro fluido as pupilas surpresas...
Não Esse, para aflar as emoções burguesas,
Que anêmico flavesce idílios em romance.
É o flamante, o galhardos.. O louro de proezas
Ruivas ao sol, chispando áscuas, raios, nuance,
Que eletriza e que cega! O louro, enfim, que avance
Ao superno fulgor de pupilas acesas!
Freme-se ao vê-lo; há nervo, há vibração, há francas
Aleluias de luz! — labaredas de sândalo
A se evolar... No azul umas volutas brancas...
—Por tudo isso eu o quero e por ser tão escol
O ouro que te esplendora, ó Rúbia! ó flor de escândalo!
Ainda me tremem na alma umas réstias de sol...
Nos enche de ouro fluido as pupilas surpresas...
Não Esse, para aflar as emoções burguesas,
Que anêmico flavesce idílios em romance.
É o flamante, o galhardos.. O louro de proezas
Ruivas ao sol, chispando áscuas, raios, nuance,
Que eletriza e que cega! O louro, enfim, que avance
Ao superno fulgor de pupilas acesas!
Freme-se ao vê-lo; há nervo, há vibração, há francas
Aleluias de luz! — labaredas de sândalo
A se evolar... No azul umas volutas brancas...
—Por tudo isso eu o quero e por ser tão escol
O ouro que te esplendora, ó Rúbia! ó flor de escândalo!
Ainda me tremem na alma umas réstias de sol...
394
Celso Pinheiro
Crepúsculo
Crepúsculo. Dlin, dlon... Sinos gemendo aos dobres
Há paisagens no Céu e paisagens na Terra.
A alma branca da Torre e a alma verde da Serra,
Concentram-se a rezar, tristonhamente nobres...
A hemoptise da Luz mancha a toalha do rio...
Caravelas e naus, como enormes aranhas,
Em reverberações magníficas e estranhas,
Sobre as águas, a arfar, têm bailados de cio...
Chove, empastando o mato, uns filetes de sangue
Como cordas de sol do tear da Mocidade:
É a virgem-Natureza estuando em puberdade
Para a fecundação da Noite linda e langue...
Os velhos buritis dos confins da Floresta,
Vão pregando o Evangelho entre cardos e espinhos,
E a árvore seca, a rir, com seus frutos de ninhos,
É uma árvore de Natal engalanada em festa...
Chopin estende as mãos sobre as teclas de Poentex
E arranca a sinfonia estética das cores,
Enquanto nos vergéis as pequeninas flores
São mil bocas a arder na tarde flavescente!...
Há paisagens no Céu e paisagens na Terra.
A alma branca da Torre e a alma verde da Serra,
Concentram-se a rezar, tristonhamente nobres...
A hemoptise da Luz mancha a toalha do rio...
Caravelas e naus, como enormes aranhas,
Em reverberações magníficas e estranhas,
Sobre as águas, a arfar, têm bailados de cio...
Chove, empastando o mato, uns filetes de sangue
Como cordas de sol do tear da Mocidade:
É a virgem-Natureza estuando em puberdade
Para a fecundação da Noite linda e langue...
Os velhos buritis dos confins da Floresta,
Vão pregando o Evangelho entre cardos e espinhos,
E a árvore seca, a rir, com seus frutos de ninhos,
É uma árvore de Natal engalanada em festa...
Chopin estende as mãos sobre as teclas de Poentex
E arranca a sinfonia estética das cores,
Enquanto nos vergéis as pequeninas flores
São mil bocas a arder na tarde flavescente!...
1 179
Celso Pinheiro
Mater
A minha mãe, uma velhinha doce,
De olhar de mel e beijos de torcazes,
A minha mãe, coitada! talvez fosse
A dindinha dos cravos e lilases!...
No seu ventre bendito Ela me trouxe
Nove meses... E um dia, sob audazes
Raios de sol primaveril, notou-se
Que surgira um bebê de olhos vivazes...
Era eu! era um poeta extravagante,
Que nascera sem festas nem alardes,
Quando o dia era um límpido diamante...
A minha mãe... matou-a o mês de Agosto!
E é por Ela que eu vou todas as tardes
Rezar na capelinha do Sol-posto!...
De olhar de mel e beijos de torcazes,
A minha mãe, coitada! talvez fosse
A dindinha dos cravos e lilases!...
No seu ventre bendito Ela me trouxe
Nove meses... E um dia, sob audazes
Raios de sol primaveril, notou-se
Que surgira um bebê de olhos vivazes...
Era eu! era um poeta extravagante,
Que nascera sem festas nem alardes,
Quando o dia era um límpido diamante...
A minha mãe... matou-a o mês de Agosto!
E é por Ela que eu vou todas as tardes
Rezar na capelinha do Sol-posto!...
1 122
Carvalho Aranha
Mundo Interior
Faz dias, (quantos?) despertei, chorando.
Alguém morreu dentro de mim; parece
Que sinto badalar, saudoso e brando
Um velho sino, convidando à prece.
Dlin, dlon; dlin, dlon... Os ecos despertando
Tal som semelha a voz de quem padece,
Voz desolada, estertorosa, quando
A grande Vaga do Infinito desce...
Ouço um confuso soluçar, em torno;
E a alma pirilampeja, comovida,
Num derradeiro raio, baço e morno.
E escuto, agora, em trêmulos, plangente,
Vibrar o sino, em funeral à vida,
Que, em meu olhar, é como o Sol poente...
Alguém morreu dentro de mim; parece
Que sinto badalar, saudoso e brando
Um velho sino, convidando à prece.
Dlin, dlon; dlin, dlon... Os ecos despertando
Tal som semelha a voz de quem padece,
Voz desolada, estertorosa, quando
A grande Vaga do Infinito desce...
Ouço um confuso soluçar, em torno;
E a alma pirilampeja, comovida,
Num derradeiro raio, baço e morno.
E escuto, agora, em trêmulos, plangente,
Vibrar o sino, em funeral à vida,
Que, em meu olhar, é como o Sol poente...
884
Américo Facó
Sextina da Véspera
Um pensamento parte
Confluente da tarde,
— Banho de ouro em que a Rosa
Abre um ventre divino
À cadência amorosa
Do tempo e do destino.
Um só — tempo e destino,
Ambos em toda a parte:
Noite inquieta, amorosa
Manhã, morosa tarde...
Tempo — sono divino!
Destino — sonho... Rosa!
Sonho da tarde — Rosa!
Não lhe diz o destino
O que o tempo, divino,
Esquece em toda a parte;
Só lhe murmura a tarde
A delícia amorosa...
Vibra a luz amorosa,
Anima, aviva a Rosa,
— Excelência da tarde,
Surpresa do destino,
Em que ventura é parte
Sem o tempo — divino.
Tarde — rubor divino!
A luz tomba amorosa,
Toda se dá, se parte,
Esplendor cor-de-rosa...
Idéia do destino
Em que se perde a tarde!
Confluente da tarde,
— Banho de ouro em que a Rosa
Abre um ventre divino
À cadência amorosa
Do tempo e do destino.
Um só — tempo e destino,
Ambos em toda a parte:
Noite inquieta, amorosa
Manhã, morosa tarde...
Tempo — sono divino!
Destino — sonho... Rosa!
Sonho da tarde — Rosa!
Não lhe diz o destino
O que o tempo, divino,
Esquece em toda a parte;
Só lhe murmura a tarde
A delícia amorosa...
Vibra a luz amorosa,
Anima, aviva a Rosa,
— Excelência da tarde,
Surpresa do destino,
Em que ventura é parte
Sem o tempo — divino.
Tarde — rubor divino!
A luz tomba amorosa,
Toda se dá, se parte,
Esplendor cor-de-rosa...
Idéia do destino
Em que se perde a tarde!
1 402
Beni Carvalho
Descendo o Jaguaribe
I
Canta, no agalho agreste, o passaredo... Canta...
Em flor o cajueiral farfalha; o vento açoita...
E vai, de fronde em fronde, e vai, de moita em moita,
Áurea, a luz da manhã que, a sombra, abate e espanta.
Alto, côncavo, azul, escampo, o céu! Levanta
O vôo uma ave, além, que o bamburral acoita;
Não mais a verde mata a treva espessa enoita,
E tudo brilha, e esplende, e exulta, e harpeja, e encanta!
Claro, ao sol refulgindo, o Jaguaribe, lento,
Coleia, estuante, a arfar, os mangues alagando,
E, à praia, o coqueiral move e fustiga o vento...
Ao longe passa a voar, de marrecas um bando...
O rio, ansiando mais, lança-se ao Mar violento:
E o hino triunfal da Luz, ei-lo que vai cantado!...
Canta, no agalho agreste, o passaredo... Canta...
Em flor o cajueiral farfalha; o vento açoita...
E vai, de fronde em fronde, e vai, de moita em moita,
Áurea, a luz da manhã que, a sombra, abate e espanta.
Alto, côncavo, azul, escampo, o céu! Levanta
O vôo uma ave, além, que o bamburral acoita;
Não mais a verde mata a treva espessa enoita,
E tudo brilha, e esplende, e exulta, e harpeja, e encanta!
Claro, ao sol refulgindo, o Jaguaribe, lento,
Coleia, estuante, a arfar, os mangues alagando,
E, à praia, o coqueiral move e fustiga o vento...
Ao longe passa a voar, de marrecas um bando...
O rio, ansiando mais, lança-se ao Mar violento:
E o hino triunfal da Luz, ei-lo que vai cantado!...
904