Poemas neste tema
Sol, amanhecer e pôr do sol
Tarcísio Meira César
Breve sono
A leveza da pálpebra dormente
tinha, quando uma tarde adormeci:
uma pequena morte que morri,
muito aquém de algum sono, o mais ardente.
Parecia uma névoa dissolvente
de um momento breve que escondi,
feito do mais esquivo e suavíssimo
instante despregado do poente.
Morri um breve sono desde o além,
silencioso e só e sem lembrança,
como se em nada dissolvesse alguém.
Eu era como a tarde que morria
entre um pedaço da noite e a esquivança
de um instante escondido em pleno dia.
tinha, quando uma tarde adormeci:
uma pequena morte que morri,
muito aquém de algum sono, o mais ardente.
Parecia uma névoa dissolvente
de um momento breve que escondi,
feito do mais esquivo e suavíssimo
instante despregado do poente.
Morri um breve sono desde o além,
silencioso e só e sem lembrança,
como se em nada dissolvesse alguém.
Eu era como a tarde que morria
entre um pedaço da noite e a esquivança
de um instante escondido em pleno dia.
1 153
Lucídio Freitas
O Incêndio
O ar queima, o vento queima, a terra queima e abrasa.
ondas rubras de Sol batem fortes na areia...
No espaço nem sequer um leve ruflo de asa,
Passa aos beijos do Sol que fustiga e esbraseia.
Fogo de um lado e de outro e o vento o incêndio ateia,
Da planície a fazer vasto lençol de brasa;
E o fogo sobe e desce, e volta, e mais se alteia,
E abraça e beija, e morde a ossatura da casa.
Nisto um grande rumor pela terra se escuta.
Braços abertos no ar, soluçando, o Castelo,
Se desmorona, enfim, depois de estranha luta.
Velho Castelo Real! ó sombra de outra idade!...
Lembras hoje, depois desse horrível flagelo,
As ruínas de Sol no poente da Saudade! ...
ondas rubras de Sol batem fortes na areia...
No espaço nem sequer um leve ruflo de asa,
Passa aos beijos do Sol que fustiga e esbraseia.
Fogo de um lado e de outro e o vento o incêndio ateia,
Da planície a fazer vasto lençol de brasa;
E o fogo sobe e desce, e volta, e mais se alteia,
E abraça e beija, e morde a ossatura da casa.
Nisto um grande rumor pela terra se escuta.
Braços abertos no ar, soluçando, o Castelo,
Se desmorona, enfim, depois de estranha luta.
Velho Castelo Real! ó sombra de outra idade!...
Lembras hoje, depois desse horrível flagelo,
As ruínas de Sol no poente da Saudade! ...
3 215
Luis Germano Graal
Minhalma
Minhalma gentil que se parte
Vai
Sai de mim
Eu ficarei a relembrar-te
A reclamar-te
A chorar-te
Na clara escuridão da funda noite
Minhalma fremosa
Minhalma doce
Minhalma cheia de tudo, vai
Mãe natureza chama de volta
O que lhe pertence
Solta-te de mim
Não me pertences
Cai na toda escuridão
Minha luz, minha lâmpada, meu céu
Minha vida que minha mãe me deu
Fica a esperar
Escondida
Em algum colo
Morfeu
Fica meu corpo aqui
Fica meu corpo sem minhalma
Fica meu corpo no breu
Sem meu espírito
Um e uma e outro eram em mim
A presença
De alguém ausente de mim
Fica meu corpo longe
Bem longe
Minha sina
Meu destino
Minha cruz
Fica meu corpo incendiado no barco
Crucifixo
Fica o que foi e tinha sido
Antes
Destes mares de nunca mais
Nunca dantes
Nunca durantes
Nestes, naqueles, noutros mares
De nunca jamais
Restam nestas águas
Destes mares
A fumaça
O fero fogo
A luz
Os fantasmas, os ângelos
Os arcângelos
Que fomos
Restam pelo céu
Per omnia saecula saeculorum
Fumaças tapando a bola
Mas o fogo e a luz ardendo aqui
Transformam
Esta nave
Num farol
Lúmina, luminosa, lumescente
Lúcida
Nossa nave ilumina os mares
É farol
A nossa luz é tanta
Ilumina tudo
É sol.
Vai
Sai de mim
Eu ficarei a relembrar-te
A reclamar-te
A chorar-te
Na clara escuridão da funda noite
Minhalma fremosa
Minhalma doce
Minhalma cheia de tudo, vai
Mãe natureza chama de volta
O que lhe pertence
Solta-te de mim
Não me pertences
Cai na toda escuridão
Minha luz, minha lâmpada, meu céu
Minha vida que minha mãe me deu
Fica a esperar
Escondida
Em algum colo
Morfeu
Fica meu corpo aqui
Fica meu corpo sem minhalma
Fica meu corpo no breu
Sem meu espírito
Um e uma e outro eram em mim
A presença
De alguém ausente de mim
Fica meu corpo longe
Bem longe
Minha sina
Meu destino
Minha cruz
Fica meu corpo incendiado no barco
Crucifixo
Fica o que foi e tinha sido
Antes
Destes mares de nunca mais
Nunca dantes
Nunca durantes
Nestes, naqueles, noutros mares
De nunca jamais
Restam nestas águas
Destes mares
A fumaça
O fero fogo
A luz
Os fantasmas, os ângelos
Os arcângelos
Que fomos
Restam pelo céu
Per omnia saecula saeculorum
Fumaças tapando a bola
Mas o fogo e a luz ardendo aqui
Transformam
Esta nave
Num farol
Lúmina, luminosa, lumescente
Lúcida
Nossa nave ilumina os mares
É farol
A nossa luz é tanta
Ilumina tudo
É sol.
960
Gláucia Lemos
Predestinos
No dia em que tuas águas forem tantas
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
1 011
Lúcio José Gusman
Poema definitivo
És assim como o vento:
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!
967
Luís Canelo de Noronha
Décimas
Nascer o Sol no Ocidente,
quem jamais tal coisa viu,
se na oposição caiu
ser Sol posto, e Sol oriente?
Mas bem caiu, que um luzente
e mais gigante farol,
mostrando novo arrebol
quando aquele Sol caía,
Sol mais claro então se erguia
para ser o Sol do Sol.
Pôr o Oriente no Ocaso,
fazer do morrer nascer,
inui maior poder,
e faz assombroso o caso;
faz divina e não acaso
esta empresa, pois que assombra,
que se um Sol ao Sol assombra,
e o Sol uma Sombra fica,
em que seja sombra rica
é do Sol o Sol a Sombra.
quem jamais tal coisa viu,
se na oposição caiu
ser Sol posto, e Sol oriente?
Mas bem caiu, que um luzente
e mais gigante farol,
mostrando novo arrebol
quando aquele Sol caía,
Sol mais claro então se erguia
para ser o Sol do Sol.
Pôr o Oriente no Ocaso,
fazer do morrer nascer,
inui maior poder,
e faz assombroso o caso;
faz divina e não acaso
esta empresa, pois que assombra,
que se um Sol ao Sol assombra,
e o Sol uma Sombra fica,
em que seja sombra rica
é do Sol o Sol a Sombra.
987
Valéry Larbaud
Motociclistas
Felizes,
sentamo-nos e pedimos ovos.
Pendia um sol vermelho
do rosto do garçom.
Aproveitando a graça esplêndida do crepúsculo,
pedimos também livros, mulheres, vinhos,
Músicas, Júbilos,
Ah! Essências, Éteres, Qüididades,
VIDA ETERNA!!!
De manhãzinha,
acompanhamos com os dedos erguidos
os últimos cometas que se despediam.
- Tchau... Tchau...
sentamo-nos e pedimos ovos.
Pendia um sol vermelho
do rosto do garçom.
Aproveitando a graça esplêndida do crepúsculo,
pedimos também livros, mulheres, vinhos,
Músicas, Júbilos,
Ah! Essências, Éteres, Qüididades,
VIDA ETERNA!!!
De manhãzinha,
acompanhamos com os dedos erguidos
os últimos cometas que se despediam.
- Tchau... Tchau...
917
Lago Burnett
O copo dágua
O copo dágua. Insípido
entre o pássaro e a lâmpada.
Lúcido e líquido.
Listras de sol passeiam-lhe a superfície
sem excessos matinais de azul-desperto.
Luz flutuante, o mundo transparente,
o copo dágua resiste.
Sólida contextura, as
firmes paredes de vidro unânimes, eternas,
equilibram o milagre.
O copo dágua. insípido
na antenoite sonora. Simples,
lúcido e líquido.
(Os Elementos do Mito / l953)
entre o pássaro e a lâmpada.
Lúcido e líquido.
Listras de sol passeiam-lhe a superfície
sem excessos matinais de azul-desperto.
Luz flutuante, o mundo transparente,
o copo dágua resiste.
Sólida contextura, as
firmes paredes de vidro unânimes, eternas,
equilibram o milagre.
O copo dágua. insípido
na antenoite sonora. Simples,
lúcido e líquido.
(Os Elementos do Mito / l953)
1 167
Luiz Ademir Souza
Pilões 1
Não há de ser breve
o encontro que terei com o rio
A palavra-chave é a sépia
da sua cor
da sua voz latina
Não vou dizer que toda água
corre para o mar;
o oceano não há de ser rápido
-o seu murmúrio a encenar movimento
perigo
se expande com a luz tão fria da manhã
No silêncio da foz e do brilho
a corrida do homem pode livrar
água de pau e pedra
seja de líquido manso ou forte
de ventura ou encanto.
o encontro que terei com o rio
A palavra-chave é a sépia
da sua cor
da sua voz latina
Não vou dizer que toda água
corre para o mar;
o oceano não há de ser rápido
-o seu murmúrio a encenar movimento
perigo
se expande com a luz tão fria da manhã
No silêncio da foz e do brilho
a corrida do homem pode livrar
água de pau e pedra
seja de líquido manso ou forte
de ventura ou encanto.
1 045
Luís António Cajazeira Ramos
Luz e Breu
(soneto sonolento, ao acordar)
Quando a luz da manhã penetra pelas fímbrias
da cortina, eu percebo a escuridão de tudo
sumindo pouco a pouco; em pouco tempo, o mundo
invade a solidão e rouba ao sonho a vida.
Quando a sombra de tudo assoma e expõe o corpo
e a mente ao modo cru, entre o sono e a vigília,
não há nada a versar, pois que já testa a língua
o amargo amanhecer para um poema roto.
Na sombra-e-luz do dia, a escuridão se abriga
sob os meus olhos, livre e plena de sentidos,
embora nem eu saiba o que isto significa.
À luz do dia, fecho os olhos, sonho e vejo:
se este verso pudesse, enfim, levar-me além
de mim, a escuridão saciaria o desejo.
Quando a luz da manhã penetra pelas fímbrias
da cortina, eu percebo a escuridão de tudo
sumindo pouco a pouco; em pouco tempo, o mundo
invade a solidão e rouba ao sonho a vida.
Quando a sombra de tudo assoma e expõe o corpo
e a mente ao modo cru, entre o sono e a vigília,
não há nada a versar, pois que já testa a língua
o amargo amanhecer para um poema roto.
Na sombra-e-luz do dia, a escuridão se abriga
sob os meus olhos, livre e plena de sentidos,
embora nem eu saiba o que isto significa.
À luz do dia, fecho os olhos, sonho e vejo:
se este verso pudesse, enfim, levar-me além
de mim, a escuridão saciaria o desejo.
903
Luís António Cajazeira Ramos
A Estrela de Davi
(salmo do bom pastor)
A estrela de Davi me ilumina
a cada entardecer, no crepúsculo,
quando há escuridão nas esquinas,
e a noite cai num véu que é só luto.
A estrela de que falo é do mar,
achada por Davi nas areias
onde ele se deitou, a sonhar
com as ondas que sopravam sereias.
O menino Davi, de quem falo,
é o bom filho de Sara. Tão raro
alguém ser bom assim: deu-me a estrela!
E a estrela de Davi me ilumina,
pois ela é tal e qual lamparina,
se lhe enfio dentro, acesa, uma vela.
A estrela de Davi me ilumina
a cada entardecer, no crepúsculo,
quando há escuridão nas esquinas,
e a noite cai num véu que é só luto.
A estrela de que falo é do mar,
achada por Davi nas areias
onde ele se deitou, a sonhar
com as ondas que sopravam sereias.
O menino Davi, de quem falo,
é o bom filho de Sara. Tão raro
alguém ser bom assim: deu-me a estrela!
E a estrela de Davi me ilumina,
pois ela é tal e qual lamparina,
se lhe enfio dentro, acesa, uma vela.
1 527
José de Oliveira Falcon
Prelúdio
os galos na madrugada
cobrindo as éguas do alerta
os atalaias do alarme
na grande praça deserta
os galos rubros de guerra
espora crista e fanfarra
rasgando ao quebrar da barra
a gema de sol na serra
o heroísmo dos galos
com o levante na garganta
o galopar dos seus gritos
na luz que livre alevanta
madruga aurora madura
rompe a fanfarra na serra
brasão triunfo e estandarte
dos galos rubros de guerra
cobrindo as éguas do alerta
os atalaias do alarme
na grande praça deserta
os galos rubros de guerra
espora crista e fanfarra
rasgando ao quebrar da barra
a gema de sol na serra
o heroísmo dos galos
com o levante na garganta
o galopar dos seus gritos
na luz que livre alevanta
madruga aurora madura
rompe a fanfarra na serra
brasão triunfo e estandarte
dos galos rubros de guerra
894
João das Neves
Haicai
Nuvens de arco-íris
traspassam as montanhas
árvores e céus
Gota a gota o sol
pousa o entardecer
nas flores da noite
traspassam as montanhas
árvores e céus
Gota a gota o sol
pousa o entardecer
nas flores da noite
1 072
José Chagas
Soneto da Manhã Primeira
Quero a manhã exata, a manhã viva,
pois estas luzes e estes vôos na aurora,
são só ensaios de manhãs. E agora
o que eu quero é a manhã definitiva,
a autêntica manhã pura, exclusiva,
manhã nascida de si mesma e fora
desta jubilação falsa e sonora
que só por um momento nos cativa.
Ah, a manhã da última promessa,
manhã de um novo mundo que começa,
mais acessível, mais humano e bom.
Meu Deus, seria como chegasse
a manhã do primeiro sol que nasce,
a cor primeira e do primeiro som.
pois estas luzes e estes vôos na aurora,
são só ensaios de manhãs. E agora
o que eu quero é a manhã definitiva,
a autêntica manhã pura, exclusiva,
manhã nascida de si mesma e fora
desta jubilação falsa e sonora
que só por um momento nos cativa.
Ah, a manhã da última promessa,
manhã de um novo mundo que começa,
mais acessível, mais humano e bom.
Meu Deus, seria como chegasse
a manhã do primeiro sol que nasce,
a cor primeira e do primeiro som.
3 418
João Carlos Teixeira Gomes
Ante o Mar
Ávido de sol poente,
me planto na extensão do rude cais
a ver o mar que sonha à minha frente
— tão longo como é longo o nunca mais.
As ondas me propõem ecos de um tempo
em que me desavim nas travessias,
porque nauta já fui, ao léu dos ventos,
premido entre tufões e calmarias.
E assim também me lanço pela vida
num jogo de fortunas alternadas,
buscando a dúbia rota presumida
entre as coisas presentes e passadas.
me planto na extensão do rude cais
a ver o mar que sonha à minha frente
— tão longo como é longo o nunca mais.
As ondas me propõem ecos de um tempo
em que me desavim nas travessias,
porque nauta já fui, ao léu dos ventos,
premido entre tufões e calmarias.
E assim também me lanço pela vida
num jogo de fortunas alternadas,
buscando a dúbia rota presumida
entre as coisas presentes e passadas.
1 115
João Borges de Barros
Soneto
Tão brilhante não é quando amanhece
Do Sol, vencendo névoas, a luz pura,
Dissipando do Inverno a estação dura,
A Primavera tanto não floresce:
Como a luz que as idéias enriquece,
Como a pomba que os frutos assegura,
Nesta, que do descuido a sombra escura
Removendo, Academia hoje aparece.
Nasce pois, brilha já e o tempo avaro
Do progresso feliz nunca te prive,
Como já cometeu, Liceu preclaro,
Um númen mais sublime hoje revive,
Do luso Jove enfim no régio amparo,
Abre flor, Sol renasce, Fênix vive.
Do Sol, vencendo névoas, a luz pura,
Dissipando do Inverno a estação dura,
A Primavera tanto não floresce:
Como a luz que as idéias enriquece,
Como a pomba que os frutos assegura,
Nesta, que do descuido a sombra escura
Removendo, Academia hoje aparece.
Nasce pois, brilha já e o tempo avaro
Do progresso feliz nunca te prive,
Como já cometeu, Liceu preclaro,
Um númen mais sublime hoje revive,
Do luso Jove enfim no régio amparo,
Abre flor, Sol renasce, Fênix vive.
1 147
José Eduardo Mendes Camargo
No Mar
As gaivotas planam
Ao sabor do vácuo de um barco aventureiro.
O sol no horizonte
Penetra as entranhas das águas
E o céu, numa explosão de alegria,
Festeja em cores
Esta cópula divina da natureza.
Ao sabor do vácuo de um barco aventureiro.
O sol no horizonte
Penetra as entranhas das águas
E o céu, numa explosão de alegria,
Festeja em cores
Esta cópula divina da natureza.
936
José Eduardo Mendes Camargo
Luminescência
Vou despertar como o Sol,
Atravessando nuvens,
Desvirginando sombras,
Aquecendo corpos
E perdendo-me no horizonte.
Vou me recolher como a Lua
Refletindo-me no espelho das águas,
Dançando entre as estrelas,
Iluminando os caminhos dos encontros.
Vou me fundir em tua Luz,
E da nossa união
Um clarão de luminosidade
Resplandecerá no Universo.
Atravessando nuvens,
Desvirginando sombras,
Aquecendo corpos
E perdendo-me no horizonte.
Vou me recolher como a Lua
Refletindo-me no espelho das águas,
Dançando entre as estrelas,
Iluminando os caminhos dos encontros.
Vou me fundir em tua Luz,
E da nossa união
Um clarão de luminosidade
Resplandecerá no Universo.
769
José Agostinho de Macedo
A Cidade Bela
Quanto é bela Ulisseia! E quanto é grata
Dos sete montes seus ao longe a vista!
Das altas torres, pórticos soberbos
Quanto é grande, magnífico o prospecto!
Humilde e bonançoso o flavo Tejo,
Sobre areias auríferas correndo,
As praias lhe enriquece, as plantas beija.
Quão denso bosque de cavalos pinhos
Sobre a espádua sustenta! Do Oriente
Rubins acesos, fugidas safiras,
E da opulenta América os tesouros,
Cortando os mares líquidos, trouxeram.
Nela é mais puro o ar; e o Céu se esmalta
De mais sereno azul. O Sol brilhante,
Correndo o vasto Céu, se apraz de vê-la.
E quase se suspende, e, meigo, envia
Sobre ela o raio extremo, quando acaba
A lúcida carreira, a frente de ouro
No seio esconde das cerúleas ondas.
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Dos sete montes seus ao longe a vista!
Das altas torres, pórticos soberbos
Quanto é grande, magnífico o prospecto!
Humilde e bonançoso o flavo Tejo,
Sobre areias auríferas correndo,
As praias lhe enriquece, as plantas beija.
Quão denso bosque de cavalos pinhos
Sobre a espádua sustenta! Do Oriente
Rubins acesos, fugidas safiras,
E da opulenta América os tesouros,
Cortando os mares líquidos, trouxeram.
Nela é mais puro o ar; e o Céu se esmalta
De mais sereno azul. O Sol brilhante,
Correndo o vasto Céu, se apraz de vê-la.
E quase se suspende, e, meigo, envia
Sobre ela o raio extremo, quando acaba
A lúcida carreira, a frente de ouro
No seio esconde das cerúleas ondas.
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
942
Isabel Vilhena
Alma das Coisas
Olhando a serra, lá distante,
E o sol que sobre a serra desce,
Escuto nesse instante
O pássaro feliz e as flores da campina,
O arvoredo que vive sem saber
Agasalhando a paz dos ninhos,
Dizerem sua prece!
E quando no horizonte o dia acorda,
Na pompa da alvorada,
À hora virginal do amanhecer,
É para mim como se eu mesma visse
O próprio Deus olhando para o mundo!
Então, minha alma reza ajoelhada,
Em silêncio profundo,
A prece mais bonita que eu já disse
E que a ninguém na terra eu vou dizer!
Ao ver o rio deslizar sereno,
Na sua vida plena de bonança,
Nessa marcha saudosa de partida,
Refletindo no espelho de águas mansas
Um retalho do céu todo estrelado,
Os ninhos e um pedaço da montanha,
Eu o comparo àquele que, na vida,
É bem feliz, porque o rio
Sonha acordado...
E sem saber que sonha!
E o sol que sobre a serra desce,
Escuto nesse instante
O pássaro feliz e as flores da campina,
O arvoredo que vive sem saber
Agasalhando a paz dos ninhos,
Dizerem sua prece!
E quando no horizonte o dia acorda,
Na pompa da alvorada,
À hora virginal do amanhecer,
É para mim como se eu mesma visse
O próprio Deus olhando para o mundo!
Então, minha alma reza ajoelhada,
Em silêncio profundo,
A prece mais bonita que eu já disse
E que a ninguém na terra eu vou dizer!
Ao ver o rio deslizar sereno,
Na sua vida plena de bonança,
Nessa marcha saudosa de partida,
Refletindo no espelho de águas mansas
Um retalho do céu todo estrelado,
Os ninhos e um pedaço da montanha,
Eu o comparo àquele que, na vida,
É bem feliz, porque o rio
Sonha acordado...
E sem saber que sonha!
1 020
Truck Tumleh
Rotina
a lua
se esconde,
estrelas desaparecem,
o pássaro canta.
o sol
entra sala a dentro
e o relógio dispara;
o sono se despede
acordo.
saio.
como se fosse
um robô,
caio na rotina.
as coisas
que antes havia citado,
somem por trás
dos meus ombros.
pego um ônibus cheio,
por estar cheio de tudo
e eu de todos
não percebo
quem levou minha carteira.
uma bala perdida
atinge o poema.
he-mor-ra-gia!
sinal vermelho.
freio!
como um coração
que anuncia
sua última batida.
se esconde,
estrelas desaparecem,
o pássaro canta.
o sol
entra sala a dentro
e o relógio dispara;
o sono se despede
acordo.
saio.
como se fosse
um robô,
caio na rotina.
as coisas
que antes havia citado,
somem por trás
dos meus ombros.
pego um ônibus cheio,
por estar cheio de tudo
e eu de todos
não percebo
quem levou minha carteira.
uma bala perdida
atinge o poema.
he-mor-ra-gia!
sinal vermelho.
freio!
como um coração
que anuncia
sua última batida.
887
Isabel Vilhena
A Borboleta
Na transparência viva e luminosa
Dessa manhã de sol, passou fugindo
A borboleta azul, silenciosa,
Ligeira, breve, qual um sonho lindo,
Cabelo ao sol e face cor-de-rosa,
Dedinhos frágeis, gracioso unindo,
Atrás da flor aérea, vaporosa,
O garotinho ansioso vai seguindo.
A borboleta pousa numa flor,
Devagarinho, mudo, cauteloso,
Quase a prendeu! Fugiu... Que dissabor!
Garoto lindo! Borboleta esquiva!
— Coração moço, crente, esperançoso,
Em busca da ventura fugitiva!
Dessa manhã de sol, passou fugindo
A borboleta azul, silenciosa,
Ligeira, breve, qual um sonho lindo,
Cabelo ao sol e face cor-de-rosa,
Dedinhos frágeis, gracioso unindo,
Atrás da flor aérea, vaporosa,
O garotinho ansioso vai seguindo.
A borboleta pousa numa flor,
Devagarinho, mudo, cauteloso,
Quase a prendeu! Fugiu... Que dissabor!
Garoto lindo! Borboleta esquiva!
— Coração moço, crente, esperançoso,
Em busca da ventura fugitiva!
1 147
Geir Campos
Haicai
Vento da manhã
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.
Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.
Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.
1 307
Gilberto Avelino
Na Piscina
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
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