Poemas neste tema
Sol, amanhecer e pôr do sol
Paulo Silva Ribeiro
Quando o Sol Chegar
Quando o Sol Chegar
Quando o sol chegar
Não se esqueça nunca desta noite,
Não deixe as flores sobre a mesa,
Não se arrependa das juras feitas,
Não maldiga a pessoa, mas apenas siga a vida...
Quando o sol chegar
Não arranque os beijos dados em sua boca,
Não apague da lembrança as imagens desta noite,
Não retire o meu perfume te tua pele...
Quando o sol chegar
Não se esqueça de voltar,
Não bata a porta,
Não vá chorar,
Não vá se maldizer,
Quando o sol chegar...
Quando o sol chegar
Não se esqueça nunca desta noite,
Não deixe as flores sobre a mesa,
Não se arrependa das juras feitas,
Não maldiga a pessoa, mas apenas siga a vida...
Quando o sol chegar
Não arranque os beijos dados em sua boca,
Não apague da lembrança as imagens desta noite,
Não retire o meu perfume te tua pele...
Quando o sol chegar
Não se esqueça de voltar,
Não bata a porta,
Não vá chorar,
Não vá se maldizer,
Quando o sol chegar...
827
Papiniano Carlos
Cântico
Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:
Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza
é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:
Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza
é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.
1 919
Pedro Kilkerry
Cetáceo
Fuma. É cobre o zênite. E Chagosos do flanco
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada;
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um longo vôo branco.
Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala um marujo no banco
Brunindo ao sol brunido a pele atijolada.
Tine em cobre o zênite e o vento arqueja o oceano
Longo enforca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.
E na verde ironia, ondulosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d água ou do sol vermelho.
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada;
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um longo vôo branco.
Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala um marujo no banco
Brunindo ao sol brunido a pele atijolada.
Tine em cobre o zênite e o vento arqueja o oceano
Longo enforca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.
E na verde ironia, ondulosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d água ou do sol vermelho.
1 910
Oldegar Vieira
Gravuras no Vento
Gravura no vento.
Pois é desacontecido
o acontecimento.
Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.
Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.
Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.
Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.
Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.
Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.
À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.
Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.
Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.
Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.
Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.
Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.
Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.
Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.
Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.
Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.
Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.
Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...
Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.
Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...
Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?
Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.
Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.
Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.
Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...
Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!
Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.
Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.
Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?
Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.
Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.
Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?
Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.
Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.
Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.
Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...
Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.
Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.
Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?
Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.
Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?
Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.
Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.
Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.
Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?
Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.
Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.
Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.
É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?
Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.
Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.
Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...
Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.
Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.
Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.
Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.
Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.
Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.
E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.
Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.
Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.
Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.
Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?
Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.
Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.
Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.
Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.
Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.
Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.
Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.
O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.
Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.
Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.
Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.
Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.
Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.
Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.
Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.
Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.
Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.
Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.
Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.
Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.
Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.
Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.
Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?
Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.
Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?
Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
Pois é desacontecido
o acontecimento.
Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.
Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.
Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.
Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.
Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.
Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.
À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.
Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.
Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.
Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.
Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.
Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.
Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.
Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.
Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.
Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.
Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.
Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...
Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.
Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...
Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?
Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.
Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.
Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.
Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...
Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!
Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.
Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.
Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?
Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.
Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.
Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?
Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.
Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.
Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.
Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...
Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.
Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.
Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?
Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.
Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?
Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.
Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.
Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.
Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?
Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.
Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.
Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.
É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?
Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.
Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.
Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...
Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.
Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.
Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.
Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.
Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.
Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.
E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.
Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.
Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.
Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.
Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?
Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.
Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.
Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.
Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.
Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.
Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.
Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.
O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.
Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.
Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.
Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.
Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.
Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.
Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.
Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.
Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.
Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.
Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.
Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.
Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.
Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.
Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.
Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?
Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.
Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?
Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
1 206
Olegario Schmitt
Rotina
São seis horas da manhã
e acordo para a vida.
Vida... ou pura força de expressão?
São seis horas da manhã
e acordo para aquilo que subentende-se vida.
O sol dourado começa a anunciar a sua presença
no horizonte oposto àquele onde ontem se pôs.
Dez horas se passaram e cá está ele de novo.
Meu Deus, viver é repetir sempre as mesmas coisas
é sempre o mesmo sol
é sempre seis horas e eu acordo
é sempre o relógio apático, automático, como não deixaria de ser
berrando estridente:
SÃO SEIS HORAS, SÃO SEIS HORAS! ACORDA!
O SOL JÁ VAI NASCER!
No calendário se marca um dia a mais,
mas na verdade todos os dias são o mesmo dia,
todas as horas a mesma hora
todos os segundos, renitentes, ficam batendo no mesmo lugar.
Tudo anda em círculos, como a terra, como a lua em torno da terra,
como a terra em torno do sol
como o ponteiro dos segundos, na sua órbita: relógio.
São seis horas da manhã
e morro para o dia: volto a dormir e esqueço do sol.
e acordo para a vida.
Vida... ou pura força de expressão?
São seis horas da manhã
e acordo para aquilo que subentende-se vida.
O sol dourado começa a anunciar a sua presença
no horizonte oposto àquele onde ontem se pôs.
Dez horas se passaram e cá está ele de novo.
Meu Deus, viver é repetir sempre as mesmas coisas
é sempre o mesmo sol
é sempre seis horas e eu acordo
é sempre o relógio apático, automático, como não deixaria de ser
berrando estridente:
SÃO SEIS HORAS, SÃO SEIS HORAS! ACORDA!
O SOL JÁ VAI NASCER!
No calendário se marca um dia a mais,
mas na verdade todos os dias são o mesmo dia,
todas as horas a mesma hora
todos os segundos, renitentes, ficam batendo no mesmo lugar.
Tudo anda em círculos, como a terra, como a lua em torno da terra,
como a terra em torno do sol
como o ponteiro dos segundos, na sua órbita: relógio.
São seis horas da manhã
e morro para o dia: volto a dormir e esqueço do sol.
1 034
Olegário Mariano
O Enamorado das Rosas
Toda manhã, ao sol, cabelo ao vento,
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.
Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.
Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.
Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.
Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.
Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.
Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.
1 377
Oldegar Vieira
Haicai
Revoadas
Revoadas brancas
sobre rochedos escuros:
gaivotas e espumas.
Alvorada
Pouco a pouco vai
canto claro dos galos
clareando o dia
Revoadas brancas
sobre rochedos escuros:
gaivotas e espumas.
Alvorada
Pouco a pouco vai
canto claro dos galos
clareando o dia
1 696
Otacílio de Azevedo
Carro de Boi
Rodam, tardas, gemendo, as rodas, arrastando
os pesados pranchões de pau-darco. Angustiado
ora altivo e roufenho, ora moroso e brando,
todo carro de bois é um soluço abafado...
A hora viúva e glacial do crepúsculo quando
o sol desce, o seu canto é tão doce e magoado
que ora nos prende à terra, ora nos vai levando
na asa de oiro de sonho a um longínquo passado.
Choram, tristes, à frente, os bois mortos de sono...
Há uma vaga tristeza, uma ansiedade em tudo
e a paisagem dir-se-ia um por-de-sol, no outono...
Oh! Natureza — Mãe! Sei quanto sofres, pois
vejo, ansioso, rolar todo o teu pranto mudo
pelos bons olhos melancólicos dos bois.
os pesados pranchões de pau-darco. Angustiado
ora altivo e roufenho, ora moroso e brando,
todo carro de bois é um soluço abafado...
A hora viúva e glacial do crepúsculo quando
o sol desce, o seu canto é tão doce e magoado
que ora nos prende à terra, ora nos vai levando
na asa de oiro de sonho a um longínquo passado.
Choram, tristes, à frente, os bois mortos de sono...
Há uma vaga tristeza, uma ansiedade em tudo
e a paisagem dir-se-ia um por-de-sol, no outono...
Oh! Natureza — Mãe! Sei quanto sofres, pois
vejo, ansioso, rolar todo o teu pranto mudo
pelos bons olhos melancólicos dos bois.
1 305
Natalício Barroso
De manhã eu sei que o sol vai morrer
De manhã eu sei que o sol vai morrer
depois das dezoito horas.
Mas não me apavoro.
Ele pode morrer antes, se quiser.
Há muito tempo que a minha vida é uma sucessão de expectativas.
Nenhuma delas realizada.
Por isso espero o sol morrer depois das dezoito horas
e ele morre.
Uma tarde, quando o sol era uma estrela cadente,
eu pedi para uma bailarina nascer no lugar da lua.
Mas não nasceu.
Primeiro porque nenhuma bailarina vai nascer no lugar da lua.
Depois porque, se nascesse, não seria uma bailarina.
Mas uma deusa. Eu ri. Não porque fosse impossível
uma deusa nascer no lugar da lua.
Mas porque as deusas não nascem mais.
Elas se afogaram nos Lusíadas e nunca mais emergiram.
Estão lá, no fundo de um poema,
presas às barbas e aos cabelos de Netuno.
Camões que o diga. Ele que teceu
os raios de luar no rosto de Netuno
e deu-lhe o nome de Vasco da Gama.
depois das dezoito horas.
Mas não me apavoro.
Ele pode morrer antes, se quiser.
Há muito tempo que a minha vida é uma sucessão de expectativas.
Nenhuma delas realizada.
Por isso espero o sol morrer depois das dezoito horas
e ele morre.
Uma tarde, quando o sol era uma estrela cadente,
eu pedi para uma bailarina nascer no lugar da lua.
Mas não nasceu.
Primeiro porque nenhuma bailarina vai nascer no lugar da lua.
Depois porque, se nascesse, não seria uma bailarina.
Mas uma deusa. Eu ri. Não porque fosse impossível
uma deusa nascer no lugar da lua.
Mas porque as deusas não nascem mais.
Elas se afogaram nos Lusíadas e nunca mais emergiram.
Estão lá, no fundo de um poema,
presas às barbas e aos cabelos de Netuno.
Camões que o diga. Ele que teceu
os raios de luar no rosto de Netuno
e deu-lhe o nome de Vasco da Gama.
1 005
Noel Rosa
Cidade Mulher
Cidade de amor e ventura
Que tem mais doçura
Que uma ilusão
Cidade mais bela que o sorriso
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação
Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção
Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração
Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher
Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar
Cidade do céu sempre azulado
Teu sol é namorado
Das noites de luar
Cidade padrão de beleza
Foi a natureza
Quem te protegeu
Cidade de amores sem pecado
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu.
Que tem mais doçura
Que uma ilusão
Cidade mais bela que o sorriso
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação
Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção
Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração
Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher
Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar
Cidade do céu sempre azulado
Teu sol é namorado
Das noites de luar
Cidade padrão de beleza
Foi a natureza
Quem te protegeu
Cidade de amores sem pecado
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu.
970
Natalício Barroso
A Pasta
Um dia me surpreendi.
Havia um raio de sol escondido no meu guarda-roupa.
Abriu a janela do meu quarto quando eu a abri,
e se projetou nas minhas roupas com as pontas dos meus dedos.
Era um raio de sol tão claro quanto um jado dágua na
escuridão
e me molhou o semblante de contentamento.
Mas foi passageiro.
Bastou vestir a calça comprida
e pôr a camisa depois dos sapatos
para o dia, entrando na minha pasta preta, se cobrir de luto nas minhas
mãos.
Havia um raio de sol escondido no meu guarda-roupa.
Abriu a janela do meu quarto quando eu a abri,
e se projetou nas minhas roupas com as pontas dos meus dedos.
Era um raio de sol tão claro quanto um jado dágua na
escuridão
e me molhou o semblante de contentamento.
Mas foi passageiro.
Bastou vestir a calça comprida
e pôr a camisa depois dos sapatos
para o dia, entrando na minha pasta preta, se cobrir de luto nas minhas
mãos.
956
Manuel Sobrinho
Meu Sabiá
Subindo os alcantis, galgando o azul, varria
O áureo clarão da aurora as sombras no Nascente.
Sustenidos, bemóis, pelo festivo ambiente
Vibrava o passaredo, hinos entoando ao dia.
Vencendo pouco a pouco a tristeza e a apatia
Em que a envolvera a treva, inexoravelmente,
A natureza enfim livre e resplandecente,
Com régia majestade e intrepidez se erguia.
Tudo acordava e ria um rio amável, tudo!
Só na estreita gaiola, impassível e mudo,
Dir-se-ia meu sabiá num pensamento absorto...
É que — maldade humana! — o pobre passarinho,
De saudades, talvez, do profanado ninho,
Perdera a voz, que eu tanto ouvira... — Estava morto!
O áureo clarão da aurora as sombras no Nascente.
Sustenidos, bemóis, pelo festivo ambiente
Vibrava o passaredo, hinos entoando ao dia.
Vencendo pouco a pouco a tristeza e a apatia
Em que a envolvera a treva, inexoravelmente,
A natureza enfim livre e resplandecente,
Com régia majestade e intrepidez se erguia.
Tudo acordava e ria um rio amável, tudo!
Só na estreita gaiola, impassível e mudo,
Dir-se-ia meu sabiá num pensamento absorto...
É que — maldade humana! — o pobre passarinho,
De saudades, talvez, do profanado ninho,
Perdera a voz, que eu tanto ouvira... — Estava morto!
663
Mário Donizete Massari
Canavial
É MADRUGADA
Os canaviais vicejantes
esperam os braços
dos trabalhadores
os podões afiados
que decepam até
esperanças
Saio à rua,
meu itinerário é outro
Distingo vultos,
que se reúnem
às portas dos bares.
Não são os remanescentes
de um dia de carnaval,
não vestem alegorias.
São os braços que
ceifarão a cana
Estão todos quietos,
passo por eles no
meu itinerário e
uma dor profunda
me alcança
Uma dor madura
com sabor de caldo de cana
Os canaviais vicejantes
esperam os braços
dos trabalhadores
os podões afiados
que decepam até
esperanças
Saio à rua,
meu itinerário é outro
Distingo vultos,
que se reúnem
às portas dos bares.
Não são os remanescentes
de um dia de carnaval,
não vestem alegorias.
São os braços que
ceifarão a cana
Estão todos quietos,
passo por eles no
meu itinerário e
uma dor profunda
me alcança
Uma dor madura
com sabor de caldo de cana
905
Mário Donizete Massari
Nascente
O sol nascia
por detrás
da nascente das águas
dos olhos da menina.
Da nascente dos olhos da menina
jorra uma esperança antiga,
semente fértil,
olhar fecundo
a se derramar
sobre o mundo.
E a nascente fertiliza
As águas se juntam,
a menina se entrega
e assume o fruto.
O sol se põe
e à menina resta
o fruto;
E nos olhos da menina
ainda reside a esperança antiga.
por detrás
da nascente das águas
dos olhos da menina.
Da nascente dos olhos da menina
jorra uma esperança antiga,
semente fértil,
olhar fecundo
a se derramar
sobre o mundo.
E a nascente fertiliza
As águas se juntam,
a menina se entrega
e assume o fruto.
O sol se põe
e à menina resta
o fruto;
E nos olhos da menina
ainda reside a esperança antiga.
1 014
Maurício Batarce
A Bela Tristeza
O choro campestre me chama...
Deitado sob uma árvore frondosa,
Sons invadem meus sonhos
E o poente do sol me transmite energia.
O farfalhar das folhas,
O sussurrar do mato,
O zumbizar das abelhas
E a tarde toda vermelha...
O luar começa a falar
E ilumina meu pensar...
O cricrizar dos grilos
E o coaxar dos sapos
Fazem fundo para os sons da noite...
As estrelas me iluminaram
E meus olhos fechados
Pousam meu corpo no solo úmido de orvalho...
O breu se apossa de mim...
Paro de escrever...
Deitado sob uma árvore frondosa,
Sons invadem meus sonhos
E o poente do sol me transmite energia.
O farfalhar das folhas,
O sussurrar do mato,
O zumbizar das abelhas
E a tarde toda vermelha...
O luar começa a falar
E ilumina meu pensar...
O cricrizar dos grilos
E o coaxar dos sapos
Fazem fundo para os sons da noite...
As estrelas me iluminaram
E meus olhos fechados
Pousam meu corpo no solo úmido de orvalho...
O breu se apossa de mim...
Paro de escrever...
948
António Manuel Couto Viana
Barcarola
Deseja a noite, primeiro,
Malfazeja, tortuosa.
Este é um canto marinheiro:
Faz do meu pranto um veleiro
E do veleiro uma rosa.
Pela barra de Viana
Foge ao Penedo Ladrão
Uma escuna americana.
A noite, com forma humana,
Traz ondas que nunca vão.
Areia do Cabedelo:
Naufraga a escuna na duna!
Maré cheia em teu cabelo!
É um pássaro amarelo
Cada vela que se enfuna.
Dissolve a noite no mar:
A lua é toda molhada.
Abre-te, voz, devagar...
A escuna é espuma, é luar...
Madrugada! Madrugada!
Malfazeja, tortuosa.
Este é um canto marinheiro:
Faz do meu pranto um veleiro
E do veleiro uma rosa.
Pela barra de Viana
Foge ao Penedo Ladrão
Uma escuna americana.
A noite, com forma humana,
Traz ondas que nunca vão.
Areia do Cabedelo:
Naufraga a escuna na duna!
Maré cheia em teu cabelo!
É um pássaro amarelo
Cada vela que se enfuna.
Dissolve a noite no mar:
A lua é toda molhada.
Abre-te, voz, devagar...
A escuna é espuma, é luar...
Madrugada! Madrugada!
1 416
Mário Hélio
31-I(Sol Incompleto)
a manhã
lilases lilases
perdizes e avestruzes
aprisionadas em minha mente
e as marcas dorvalho descoram descrentes
na minha casa o sol é incompleto
o dia cresce na face e a noite nasce
para-
lela-
mente
porque não há escolha
no templo há somente hastes e naves inconseqüentes
as flores não nascem
existem pura e simplesmente
porque não há escolha
a manhã recebeu a angústia
dos primeiros raios que ressecam as folhas
lilases lilases
perdizes e avestruzes
aprisionadas em minha mente
e as marcas dorvalho descoram descrentes
na minha casa o sol é incompleto
o dia cresce na face e a noite nasce
para-
lela-
mente
porque não há escolha
no templo há somente hastes e naves inconseqüentes
as flores não nascem
existem pura e simplesmente
porque não há escolha
a manhã recebeu a angústia
dos primeiros raios que ressecam as folhas
823
Majela Colares
Os Limites do Tempo
Meia face de sol - a tarde finda
nos limites do céu e da calçada.
Uma tarde partida, quando ainda
refletida entre cores, desbotada.
Aquarela dispersa - morte linda.
(Colorido de tez avermelhada)
mas o tempo ilusório fez infinda
meia face de sol desfigurada.
Murchas pétalas de horas finge o monte
rente a linha deserta do horizonte
feito rosa pendida... rosa-flores.
Nos limites da sombra projetada
nos contornos da noite aproximada
percebo o tempo farejando as cores.
nos limites do céu e da calçada.
Uma tarde partida, quando ainda
refletida entre cores, desbotada.
Aquarela dispersa - morte linda.
(Colorido de tez avermelhada)
mas o tempo ilusório fez infinda
meia face de sol desfigurada.
Murchas pétalas de horas finge o monte
rente a linha deserta do horizonte
feito rosa pendida... rosa-flores.
Nos limites da sombra projetada
nos contornos da noite aproximada
percebo o tempo farejando as cores.
931
Majela Colares
Soneto Para uma Estação
Estas sombras antigas de poente
guardam arcos de sol - dias de outono -
desfolhados na noite, nunca ausente,
quando as horas bocejam voz de sono.
São instantes maduros de nascente
na surpresa incessante do mês nono,
concebidos em gestos, mão silente,
quando as horas bocejam cor de sono.
Entre os cílios, o mundo em movimento,
sob as asas dos olhos morre um vento
para não ser sequer restos de sono.
Mas ao leste dos lábios pousa a aurora
fogem sombras antigas, vão-se embora...
surgem arcos de sol - dias de outono.
guardam arcos de sol - dias de outono -
desfolhados na noite, nunca ausente,
quando as horas bocejam voz de sono.
São instantes maduros de nascente
na surpresa incessante do mês nono,
concebidos em gestos, mão silente,
quando as horas bocejam cor de sono.
Entre os cílios, o mundo em movimento,
sob as asas dos olhos morre um vento
para não ser sequer restos de sono.
Mas ao leste dos lábios pousa a aurora
fogem sombras antigas, vão-se embora...
surgem arcos de sol - dias de outono.
966
Majela Colares
Vertigem
Já se ouviam, de estrelas, rebramidos
entre as sombras da noite camuflada.
Rumores de horas mortas... tempos idos.
- Era a tarde batendo em retirada.
Lábios mudos fendidos pelos gestos...
pálida boca (a noite escancarada).
Consumidos olhares, quase restos.
- Era a tarde batendo em retirada.
A voz frágil, o braço já pendia.
Vago, inerte, rumando pela estrada,
raios cegos o sol oferecia.
- Era a tarde batendo em retirada.
Os ecos projetados no futuro.
Vã imagem, figura rebuscada.
Na linha do horizonte um traço escuro.
- Era a tarde batendo em retirada.
As palavras... a frase repetida,
denso texto, linguagem retratada.
Verso e verbo, no entanto, morte e vida.
Sempre a tarde batendo em retirada.
As medidas da mão, agora ausente,
conduzidas para hora anunciada.
A vertigem, por fim, não se pressente?
Quando é tarde batendo em retirada.
entre as sombras da noite camuflada.
Rumores de horas mortas... tempos idos.
- Era a tarde batendo em retirada.
Lábios mudos fendidos pelos gestos...
pálida boca (a noite escancarada).
Consumidos olhares, quase restos.
- Era a tarde batendo em retirada.
A voz frágil, o braço já pendia.
Vago, inerte, rumando pela estrada,
raios cegos o sol oferecia.
- Era a tarde batendo em retirada.
Os ecos projetados no futuro.
Vã imagem, figura rebuscada.
Na linha do horizonte um traço escuro.
- Era a tarde batendo em retirada.
As palavras... a frase repetida,
denso texto, linguagem retratada.
Verso e verbo, no entanto, morte e vida.
Sempre a tarde batendo em retirada.
As medidas da mão, agora ausente,
conduzidas para hora anunciada.
A vertigem, por fim, não se pressente?
Quando é tarde batendo em retirada.
1 001
Luiz de Aquino
Alguém, se Não Vieres
Alguém, se Não Vieres
Eu preciso que me olhes nos olhos
e decifres a angústia
que te atrai e me tortura.
Eu preciso te dizer certas coisas
que se calaram em mim quando te vi
na manhã imprevista
e indecisa,
mas dizer estas coisas custa ânsias
incontroláveis.
Eu preciso de vez que te chegues a mim
e não me digas bom-dia
e nem me cobres os dias e noites
da nossa ausência.
Eu preciso de alguém
que converse comigo
no amanhecer.
Eu preciso que me olhes nos olhos
e decifres a angústia
que te atrai e me tortura.
Eu preciso te dizer certas coisas
que se calaram em mim quando te vi
na manhã imprevista
e indecisa,
mas dizer estas coisas custa ânsias
incontroláveis.
Eu preciso de vez que te chegues a mim
e não me digas bom-dia
e nem me cobres os dias e noites
da nossa ausência.
Eu preciso de alguém
que converse comigo
no amanhecer.
975
Lúcia Maria Leite Sousa
O Arco-íris da Terra
Como um arco-íris de enrgia e cor
um imenso facho de luz surgiu
e da imensidão dos raios,
nasceu o azul cristalino do céu...
que nos encanta e presenteia
com a suave pureza do luar...
que apaixona e enlouquece os enamorados.
Eu vi o mar...
que nasceu verde...ou azul...
como um arco-íris...vultoso,
inundando de emoção o nosso olhar.
Eu senti o melodioso sussurrar do vento
nas folhar verdes das árvores...
como um arco-íris...
num vôo de esperança,
no verde-esperança da vida.
Eu vi a cinza semente borbulhar
no seio da terra...num sublime renascer.
Eu vi no céu
o encontro do sol e da lua,
num maravilhoso entardecer,
de cores vermelhas e incandescentes...
como um arco-íris...
e os pássaros a entoar melodias,
enriquecendo a grandiosa coreografia.
Mas no dia-a-dia da vida,
eu vi o facho de luz se apagar
e na imensidão do céu
um buraco negro predominar.
E as nuvens de gases,
eu vi o arco-íris encobrir,
e o azul do céu sombrear,
e o verde do mar escurecer,
e o amarelo das folhas entristecer,
e o verde das árvores esvair,
e toda terra gritar...não me deixai morrer!
Quero ser com um arco-íris,
e resplandecer luz e cor
até o infinito...eternamente!
13.07.92, Maceió/AL
um imenso facho de luz surgiu
e da imensidão dos raios,
nasceu o azul cristalino do céu...
que nos encanta e presenteia
com a suave pureza do luar...
que apaixona e enlouquece os enamorados.
Eu vi o mar...
que nasceu verde...ou azul...
como um arco-íris...vultoso,
inundando de emoção o nosso olhar.
Eu senti o melodioso sussurrar do vento
nas folhar verdes das árvores...
como um arco-íris...
num vôo de esperança,
no verde-esperança da vida.
Eu vi a cinza semente borbulhar
no seio da terra...num sublime renascer.
Eu vi no céu
o encontro do sol e da lua,
num maravilhoso entardecer,
de cores vermelhas e incandescentes...
como um arco-íris...
e os pássaros a entoar melodias,
enriquecendo a grandiosa coreografia.
Mas no dia-a-dia da vida,
eu vi o facho de luz se apagar
e na imensidão do céu
um buraco negro predominar.
E as nuvens de gases,
eu vi o arco-íris encobrir,
e o azul do céu sombrear,
e o verde do mar escurecer,
e o amarelo das folhas entristecer,
e o verde das árvores esvair,
e toda terra gritar...não me deixai morrer!
Quero ser com um arco-íris,
e resplandecer luz e cor
até o infinito...eternamente!
13.07.92, Maceió/AL
949
Leny Mara Souza
Homem Luz
Surgiu você...
Criança...
Homem...
Carinho...
Afeto...
Interiormente conseguindo
Com que meu ser
Seja centelhas de luzes ardentes,
Infiltrando dentro
Do meu íntimo de mulher.
Você...
Como o sol que brilha os dias
Penetrou...
Sufocou...
Explodiu...
Dando a evasão de
Todos os meus desejos de mulher.
Surja... Surja...
Seja como o sol que ilumina
Toda uma existência
Neste mundo selvagem.
Criança...
Homem...
Carinho...
Afeto...
Interiormente conseguindo
Com que meu ser
Seja centelhas de luzes ardentes,
Infiltrando dentro
Do meu íntimo de mulher.
Você...
Como o sol que brilha os dias
Penetrou...
Sufocou...
Explodiu...
Dando a evasão de
Todos os meus desejos de mulher.
Surja... Surja...
Seja como o sol que ilumina
Toda uma existência
Neste mundo selvagem.
890
Antero de Quental
Lamento
Um dilúvio
de luz cai da montanha:
Eis o dia! Eis o sol! O esposo amado!
Onde há por toda a terra um só cuidado
Que não dissipe a luz que o mundo banha?
Flor a custo medrada em erma penha.
Revolto mar ou golfo congelado,
Aonde há ser de Deus tão olvidado
Para quem paz e alívio o céu não tenha?
Deus é Pai! Pai de toda a criatura:
E a todo o ser o seu amor assiste:
De seus filhos o mal sempre lembrado....
Ah! Se deus a seus filhos dá ventura
Nesta hora santa... e eu só posso ser triste...
Serei filho, mas filho abandonado!
de luz cai da montanha:
Eis o dia! Eis o sol! O esposo amado!
Onde há por toda a terra um só cuidado
Que não dissipe a luz que o mundo banha?
Flor a custo medrada em erma penha.
Revolto mar ou golfo congelado,
Aonde há ser de Deus tão olvidado
Para quem paz e alívio o céu não tenha?
Deus é Pai! Pai de toda a criatura:
E a todo o ser o seu amor assiste:
De seus filhos o mal sempre lembrado....
Ah! Se deus a seus filhos dá ventura
Nesta hora santa... e eu só posso ser triste...
Serei filho, mas filho abandonado!
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