Poemas neste tema
Sucesso e Fracasso
Carlos Drummond de Andrade
Sacrifício
— Otávio, Otávio, que negócio é este?
Vadias ano inteiro e te despedes
com o peito faiscando de medalhas.
— É, troquei-as por bombas e brioches
semana após semana, mês a mês,
e muito me custou esta grandeza.
Passei fome… e alimento-me de glória.
Vadias ano inteiro e te despedes
com o peito faiscando de medalhas.
— É, troquei-as por bombas e brioches
semana após semana, mês a mês,
e muito me custou esta grandeza.
Passei fome… e alimento-me de glória.
1 216
Carlos Drummond de Andrade
Certificados Escolares
I
Do certame literário
neste grande educandário,
o nosso aluno mineiro,
pacato, aplicado, ordeiro,
sai louvado com justiça,
por ter galgado na liça
este sonhado ouropel:
o posto de coronel
em francês, inglês, latim.
Que Deus o conserve assim.
II
Em literário certame
após rigoroso exame
escrito, oral e o que mais,
de resultados cabais,
o nosso caro estudante
discreto, pouco falante,
conquistou em português,
sem mas, porém ou talvez,
o ápice colegial
dos galões de general.
III
Por seu bom comportamento
em cada hora e momento,
seja em aula ou no recreio,
na capela ou no passeio,
acordado e até no sono
(do que todos dão abono),
receberá hoje ufano
o prêmio maior do ano,
e que em silêncio não passe:
medalha de prima classe.
IV
Que resta fazer agora
no adiantado da hora
de nossa faina escolar
em forma complementar
com relação a este aluno
e que se torne oportuno
para melhor prepará-lo
qual adestrado cavalo,
da vida no páreo duro?
Que seja expulso — no escuro.
Do certame literário
neste grande educandário,
o nosso aluno mineiro,
pacato, aplicado, ordeiro,
sai louvado com justiça,
por ter galgado na liça
este sonhado ouropel:
o posto de coronel
em francês, inglês, latim.
Que Deus o conserve assim.
II
Em literário certame
após rigoroso exame
escrito, oral e o que mais,
de resultados cabais,
o nosso caro estudante
discreto, pouco falante,
conquistou em português,
sem mas, porém ou talvez,
o ápice colegial
dos galões de general.
III
Por seu bom comportamento
em cada hora e momento,
seja em aula ou no recreio,
na capela ou no passeio,
acordado e até no sono
(do que todos dão abono),
receberá hoje ufano
o prêmio maior do ano,
e que em silêncio não passe:
medalha de prima classe.
IV
Que resta fazer agora
no adiantado da hora
de nossa faina escolar
em forma complementar
com relação a este aluno
e que se torne oportuno
para melhor prepará-lo
qual adestrado cavalo,
da vida no páreo duro?
Que seja expulso — no escuro.
818
Carlos Drummond de Andrade
Craque
Segundo half-time.
Declina a tarde sobre o match
indefinido.
O Instituto Fundamental envolve o adversário.
A taça já é sua, questão de minutos.
Mas Abgar, certeiro, irrompe
de cabeçada,
conquista o triunfo para o deprimido
team confuso do Colégio Arnaldo.
Olha aí o Instituto siderado!
Despe Abgar o atlético uniforme,
simples recolhe-se ao salão de estudo
para burilar um dolorido
soneto quinhentista:
Em vão apuro a minha fortitude,
Senhora, por vencer o meu amor…
Declina a tarde sobre o match
indefinido.
O Instituto Fundamental envolve o adversário.
A taça já é sua, questão de minutos.
Mas Abgar, certeiro, irrompe
de cabeçada,
conquista o triunfo para o deprimido
team confuso do Colégio Arnaldo.
Olha aí o Instituto siderado!
Despe Abgar o atlético uniforme,
simples recolhe-se ao salão de estudo
para burilar um dolorido
soneto quinhentista:
Em vão apuro a minha fortitude,
Senhora, por vencer o meu amor…
608
Knut Hamsun
Em cem anos, tudo estará esquecido
Reviro-me insone por noites a fio,
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Trad.: Leonardo Pinto Silva
Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt
Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.
Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Trad.: Leonardo Pinto Silva
Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt
Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.
Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
553
José Miguel Silva
Estela Funerária
Era um rapaz sem vocação para o caminho,
um arco sem arqueiro.
Chama-se Elpenor.
Mais do que a palavra preocupava-o a lama
na sandália do poeta,
a mancha no tapete.
Movia-o a coragem de estar só,
divisão dos que celebram
o massacre da esperança.
Caiu a sua casa, vendeu as suas veias,
partiu para o desastre,
chegou à nossa frente.
um arco sem arqueiro.
Chama-se Elpenor.
Mais do que a palavra preocupava-o a lama
na sandália do poeta,
a mancha no tapete.
Movia-o a coragem de estar só,
divisão dos que celebram
o massacre da esperança.
Caiu a sua casa, vendeu as suas veias,
partiu para o desastre,
chegou à nossa frente.
1 061
Fernando Pessoa
NOTAS SOBRE TAVIRA
NOTAS SOBRE TAVIRA
Cheguei finalmente à vila da minha infância.
Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei.
(Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado).
Tudo é velho onde fui novo.
Desde já — outras lojas, e outras frontarias de pinturas nos mesmos prédios —
Um automóvel que nunca vi (não os havia antes)
Estagna amarelo escuro ante uma porta entreaberta.
Tudo é velho onde fui novo.
Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto.
A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo.
Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu.
Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos — Senhor do mundo —
É aos 41 que desembarco do comboio [indolentão?].
O que conquistei? Nada.
Nada, aliás, tenho a valer conquistado.
Trago o meu tédio e a minha falência fisicamente no pesar-me mais a mala...
De repente avanço seguro, resolutamente.
Passou roda a minha hesitação
Esta vila da minha infância é afinal uma cidade estrangeira.
(Estou à vontade, como sempre, perante o estranho, o que me não é nada)
Sou forasteiro tourist, transeunte.
E claro: é isso que sou.
Até em mim, meu Deus, até em mim.
Cheguei finalmente à vila da minha infância.
Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei.
(Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado).
Tudo é velho onde fui novo.
Desde já — outras lojas, e outras frontarias de pinturas nos mesmos prédios —
Um automóvel que nunca vi (não os havia antes)
Estagna amarelo escuro ante uma porta entreaberta.
Tudo é velho onde fui novo.
Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto.
A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo.
Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu.
Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos — Senhor do mundo —
É aos 41 que desembarco do comboio [indolentão?].
O que conquistei? Nada.
Nada, aliás, tenho a valer conquistado.
Trago o meu tédio e a minha falência fisicamente no pesar-me mais a mala...
De repente avanço seguro, resolutamente.
Passou roda a minha hesitação
Esta vila da minha infância é afinal uma cidade estrangeira.
(Estou à vontade, como sempre, perante o estranho, o que me não é nada)
Sou forasteiro tourist, transeunte.
E claro: é isso que sou.
Até em mim, meu Deus, até em mim.
1 046
Fernando Pessoa
Não há verdade na vida
Não há verdade na vida
Que se não diga a mentir.
Há quem apresse a subida
Para descer a sorrir.
Que se não diga a mentir.
Há quem apresse a subida
Para descer a sorrir.
1 834
Fernando Pessoa
NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA
NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA
Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário.
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece —
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo —
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário.
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece —
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo —
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
1 326
Fernando Pessoa
Quase sem querer
Quase sem querer (se o soubéssemos!) os grandes homens saindo dos homens vulgares
O sargento acaba imperador por transições imperceptíveis
Em que se vai misturando
O conseguimento com o sonho do que se consegue a seguir
E o caminho vai por degraus visíveis, depressa.
Ai dos que desde o principio vêem o fim!
Ai dos que aspiram a saltar a escada!
O conquistador de todos os impérios foi sempre ajudante de guarda-livros
A amante de todos os reis — mesmo dos já mortos — é mãe séria e carinhosa,
Se assim como vejo os corpos por fora, visse as almas por dentro.
Ah, que penitenciaria os Anjos!
Que manicómio o sentido da vida!
O sargento acaba imperador por transições imperceptíveis
Em que se vai misturando
O conseguimento com o sonho do que se consegue a seguir
E o caminho vai por degraus visíveis, depressa.
Ai dos que desde o principio vêem o fim!
Ai dos que aspiram a saltar a escada!
O conquistador de todos os impérios foi sempre ajudante de guarda-livros
A amante de todos os reis — mesmo dos já mortos — é mãe séria e carinhosa,
Se assim como vejo os corpos por fora, visse as almas por dentro.
Ah, que penitenciaria os Anjos!
Que manicómio o sentido da vida!
880
Fernando Pessoa
Meu coração. o almirante errado
Meu coração. o almirante errado
Que comandou a armada por haver
Tentou caminho onde o negou o Fado,
Quis ser feliz quando o não pôde ser.
E assim, [fechado?], absurdo, postergado,
Dado ao que nos resulta de se abster,
Não foi dado, não foi dado, não foi dado
E o verso errado deixa-o entender.
Mas há compensações absolutórias
Na sombra — no silencio da derrota
Que tem mais rosas de alma que as vitórias.
E assim surgiu, Imperial, a frota
Carregada de anseios e de glórias
Com que o almirante prosseguiu na rota.
Que comandou a armada por haver
Tentou caminho onde o negou o Fado,
Quis ser feliz quando o não pôde ser.
E assim, [fechado?], absurdo, postergado,
Dado ao que nos resulta de se abster,
Não foi dado, não foi dado, não foi dado
E o verso errado deixa-o entender.
Mas há compensações absolutórias
Na sombra — no silencio da derrota
Que tem mais rosas de alma que as vitórias.
E assim surgiu, Imperial, a frota
Carregada de anseios e de glórias
Com que o almirante prosseguiu na rota.
878
Fernando Pessoa
Subiste à glória pela descida abaixo.
Subiste à glória pela descida abaixo.
Paradoxo? Não: a realidade.
O paradoxo é o que é palavras
A realidade é o que és.
Subiste porque desceste.
Está bem.
Amanhã talvez eu faça a mesma coisa.
Por ora, se calhar, invejo-te.
Não sei se te invejo a vitória.
Não sei se te invejo o consegui-la.
Mas realmente creio que te a invejo
Sempre é vitória...
Façam um embrulho de mim
E depois deitem-me ao rio.
E não esqueçam o «se calhar» quando lá me deitarem.
Isso é importante.
Não esqueçam o «se calhar».
Isso é que é importante.
Porque tudo é se calhar...
Paradoxo? Não: a realidade.
O paradoxo é o que é palavras
A realidade é o que és.
Subiste porque desceste.
Está bem.
Amanhã talvez eu faça a mesma coisa.
Por ora, se calhar, invejo-te.
Não sei se te invejo a vitória.
Não sei se te invejo o consegui-la.
Mas realmente creio que te a invejo
Sempre é vitória...
Façam um embrulho de mim
E depois deitem-me ao rio.
E não esqueçam o «se calhar» quando lá me deitarem.
Isso é importante.
Não esqueçam o «se calhar».
Isso é que é importante.
Porque tudo é se calhar...
1 200
Fernando Pessoa
Outr'ora quis a fama — e não a quis,
Outrora quis a fama — e não a quis,
Que a fama, a popularidade, o ser
Conhecido, falado — quando não visto —
Confrange-me dum terror que não compreendo.
Violação do meu ser se me aparenta
Um desvergonhamento, não sei como.
Hoje um desgosto imenso e (...)
D'altos fins e de empresas elevadas
Boceja-me no espírito turvado
(No) coração vago de não sentir.
Que a fama, a popularidade, o ser
Conhecido, falado — quando não visto —
Confrange-me dum terror que não compreendo.
Violação do meu ser se me aparenta
Um desvergonhamento, não sei como.
Hoje um desgosto imenso e (...)
D'altos fins e de empresas elevadas
Boceja-me no espírito turvado
(No) coração vago de não sentir.
1 032
Fernando Pessoa
MOMENTS - I
I
The hen said «I can fly».
Do you know why?
Over a fence she flew.
The eagle said «Can I fly?»
Can you tell why?
Unto the stars she could not go.
The hen said «I can fly».
Do you know why?
Over a fence she flew.
The eagle said «Can I fly?»
Can you tell why?
Unto the stars she could not go.
1 275
Fernando Pessoa
MEANINGLESS LlNES
I became good, and was despised.
I became bad; I hated was.
If good or bad I was not prized,
In good or evil, equal loss.
I became bad and good by turns,
And thus did but unite two ills.
The spleen that now within me burns
Therefrom, nor good nor evil stills.
I became bad; I hated was.
If good or bad I was not prized,
In good or evil, equal loss.
I became bad and good by turns,
And thus did but unite two ills.
The spleen that now within me burns
Therefrom, nor good nor evil stills.
1 362
Fernando Pessoa
Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão,
Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão,
Que me conheço atrozmente, que toda a literatura
Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim,
Caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau —
Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos
Necrose da alma,
Apodrecimento dos sentidos.
Tudo quanto tenho feito conheço-o claramente: é nada.
Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes.
Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito.
Ó Paraíso Perdido da minha infância burguesa,
Meu Éden agasalhando o chá nocturno,
Minha colcha limpa de menino!
O Destino acabou-me como a um manuscrito interrompido.
Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter...
Papelotes da velha solteira — toda a minha vida.
Tenho uma náusea do estômago nos pulmões.
Custa-me a respirar para sustentar a alma.
Tenho uma quantidade de doenças tristes nas juntas da vontade.
Minha grinalda de poeta — eras de flores de papel,
A tua imortalidade presumida era o não teres vida.
Minha coroa de louros de poeta — sonhada petrarquicamente,
Sem capotinho mas com fama,
Sem dados mas com Deus —
Tabuleta [de] vinho falsificado na última taberna da esquina!
Que me conheço atrozmente, que toda a literatura
Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim,
Caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau —
Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos
Necrose da alma,
Apodrecimento dos sentidos.
Tudo quanto tenho feito conheço-o claramente: é nada.
Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes.
Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito.
Ó Paraíso Perdido da minha infância burguesa,
Meu Éden agasalhando o chá nocturno,
Minha colcha limpa de menino!
O Destino acabou-me como a um manuscrito interrompido.
Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter...
Papelotes da velha solteira — toda a minha vida.
Tenho uma náusea do estômago nos pulmões.
Custa-me a respirar para sustentar a alma.
Tenho uma quantidade de doenças tristes nas juntas da vontade.
Minha grinalda de poeta — eras de flores de papel,
A tua imortalidade presumida era o não teres vida.
Minha coroa de louros de poeta — sonhada petrarquicamente,
Sem capotinho mas com fama,
Sem dados mas com Deus —
Tabuleta [de] vinho falsificado na última taberna da esquina!
1 465
Fernando Pessoa
THE CIRCLE
I traced a circle on the ground,
It was a mystic figure strange
Wherein I thought there would abound
Mute symbols adequate of change,
And complex formulas of Law,
Which is the jaws of Change's maw.
My simpler thoughts in vain had stemmed
The current of this madness free,
But that my thinking is condemned
To symbol and analogy:
I deemed a circle might condense
With calm all mystery's violence.
And so in cabalistic mood
A circle traced I curious there;
Imperfect the made circle stood
Thought formed with minutest care.
From magic's failure deeply I
A lesson took to make me sigh.
It was a mystic figure strange
Wherein I thought there would abound
Mute symbols adequate of change,
And complex formulas of Law,
Which is the jaws of Change's maw.
My simpler thoughts in vain had stemmed
The current of this madness free,
But that my thinking is condemned
To symbol and analogy:
I deemed a circle might condense
With calm all mystery's violence.
And so in cabalistic mood
A circle traced I curious there;
Imperfect the made circle stood
Thought formed with minutest care.
From magic's failure deeply I
A lesson took to make me sigh.
1 508
Fernando Pessoa
THE ACURSED POET
Here the accursed poet lies,
Hid far from the pure blue skies;
Mixed with mud filth he lies
At the bottom of the stream.
He dreamed many a strange dream.
He loved mankind but he did nought
For mankind's good. Vain was his thought.
He would be loved and he was not.
The sun in morn or evening glow
Can reach him not where deep he lies
With mud and filth far from the skies.
He ached to feel, he ached to know.
He did aspire to what should last
Beyond the time that did it show.
Full of the giant city's waste
The river over him doth flow.
Dark over him flows the river.
Down to him no light can go.
Damn'd be he for ever!
Hid far from the pure blue skies;
Mixed with mud filth he lies
At the bottom of the stream.
He dreamed many a strange dream.
He loved mankind but he did nought
For mankind's good. Vain was his thought.
He would be loved and he was not.
The sun in morn or evening glow
Can reach him not where deep he lies
With mud and filth far from the skies.
He ached to feel, he ached to know.
He did aspire to what should last
Beyond the time that did it show.
Full of the giant city's waste
The river over him doth flow.
Dark over him flows the river.
Down to him no light can go.
Damn'd be he for ever!
1 427
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [d]
SAUDAÇÃO
A minha universalite —
A ânsia vaga, a alegria absurda, a dor indecifrável
Síndroma da doença da Incongruência Final.
Curso do êmbolo do dinamismo abstracto
Do vácuo dinâmico do mundo!
A minha aspiração consubstanciada com fórmulas
Matemática de mim falido
A minha universalite —
A ânsia vaga, a alegria absurda, a dor indecifrável
Síndroma da doença da Incongruência Final.
Curso do êmbolo do dinamismo abstracto
Do vácuo dinâmico do mundo!
A minha aspiração consubstanciada com fórmulas
Matemática de mim falido
1 401
Fernando Pessoa
Outrora
Outrora
No crepúsculo do Império,
Eu, Julião o Apóstata, mandei
Os templos dos meus Deuses reerguer.
Não é era minha a Hora.
Tua era, ó Cristo, e (…)
No crepúsculo do Império,
Eu, Julião o Apóstata, mandei
Os templos dos meus Deuses reerguer.
Não é era minha a Hora.
Tua era, ó Cristo, e (…)
2 065
Florbela Espanca
Ix
Perdi os meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!
Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
– Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!
Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de oiro e pedrarias...
Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!
Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
– Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!
Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de oiro e pedrarias...
Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...
2 083
Yu Xuanji
Olhando-os jogar polo
Desliza a bola, um cometa, macia roda
Batem-se os tacos, luas crescentes às pontas
Correm os homens, atiram-se uns contra os outros
Vejo-os por trás; do cercado, jogo meu olho
À frente a bola salta-lhes, cortam-se em círculos
Como se nem desejassem marcar, parecem
Mas iniciado este jogo, irão até o fim
E vença o melhor: a este, espera uma prenda
Batem-se os tacos, luas crescentes às pontas
Correm os homens, atiram-se uns contra os outros
Vejo-os por trás; do cercado, jogo meu olho
À frente a bola salta-lhes, cortam-se em círculos
Como se nem desejassem marcar, parecem
Mas iniciado este jogo, irão até o fim
E vença o melhor: a este, espera uma prenda
1 044
Leonardo Martinelli
Receitas para engolir e curar o fracasso
Origem, compra, preparo e sabor
1. Ave sertaneja
de porte médio
fibrosa, rija
de vida noturna
Preços: vinte e
sete contos o quilo
no Mercadão de
Madureira ou
trinta e sete
(ágio de dez paus)
nos açougues febris
da rede Mundial
O jeito é pegar
um 254 na madruga
ou encarar de frente
o trem da Central
2. Embrulhe o fracasso
com jornal de ontem
3. Afogue duas postas numa
panela de barro contendo
dois litros de vinho barato
Salgue e asse
em fogo alto
Enfeite o prato
com uma dúzia de
amóreas secas + 100 g
de fios de óvulos
4. Aí vai ele
numa baixela dourada
ridícula - duas
palavras
em francês fajuto
farão sorrir amarelo
o rapaz de
meia-idade e enrubescer
as bochechas
gentis suburbanas
à mesa
Rende
para uma duas três
mil pessoas
Posologia
Uma vez
hiperdosada
vai-se a bula ao
mar de bile
751
Abul ʿAla Al-Maʿarri
teus sonhos de grande empresa
Vãos, teus sonhos de grande empresa,
De forma vã, tu velejas espaços novos,
Vão, ancorar nesse mundo só de rostos
Se é outro fim que o mundo te reserva.
De forma vã, tu velejas espaços novos,
Vão, ancorar nesse mundo só de rostos
Se é outro fim que o mundo te reserva.
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Paulo Leminski
a gente ia ser homero
um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
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