Poemas neste tema
Sucesso e Fracasso
Lois Pereiro
Cero a la izquierda
O corredor de fondo perde o alento
fuxindo dunha vida inzada de renuncias
da súa liturxia obesa e oleosa,
mediocre nos seus comunais fracasos,
bágoas de xelo, indignación contida
non deu chegado a tempo de exercer
a súa rebelión,
nin de levar a cabo
a súa vinganza definitiva
contra un mundo inxusto, homicida, e cruel,
pola inutilidade da súa propia vida
solitario, enfermo e fatigado,
a morte anticipouse e chegou antes.
936
Leónidas Lamborghini
O sabotador arrependido
No meu rosto está escrita a aceita
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita
Eu era o braço direito agora não sou nada
Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita
Eu era o braço direito agora não sou nada
Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.
790
Boris Pasternak
Ser famoso não é bonito.
Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.
O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.
Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.
Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.
Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como à paisagem
Oculta a nuvem com recato.
Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Porém não deves separar
Teu sucesso de teu fracasso.
Não deves renunciar a um mín-
Imo pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim.
(tradução de Augusto de Campos)
.
.
.
1 033
Hilda Machado
O cineasta do Leblon
“Aquele que escavar em sua consciência
até a camada do ritmo e flutuar nela
não perderá o juízo.”
Nina Gagen-Torn
O brilho de laranja ao sol
amendoeira rubra e pavão
oculta sobressaltos faustianos
encenam-se dramas na alma
suadas peripécias
lágrimas
mímesis
em sítios escusos está a mocinha raptada por um turco
e a nudez do missionário espancado
folheia-se uma antologia de acidentes
títulos afundam
e no lodo
personagens sem nome
e escândalos de fancaria
O comércio incessante
distrai das caudalosas sociologias do fracasso
idades do ouro perdidas
terror espetacular
recorta o esforço de colosso trágico
alçar-se acima da imensa massa de vencidos
violinos pela indesejada que fatalmente alcança e ceifa
carnaval exterior que é dublagem
Nos domingos de lua cheia
um infante sôfrego obriga a minuciosos tratados
miuçalhas
monopólio
asperezas
contrabando
e então
razias de corsário
na lua nova cruzo a cidade pra beijar a sua boca
transpor morros e encontrar a elevação
tropeça-se em pétalas de rosas
em trufas
visitas ao paraíso
as quartas-feiras são turvas
e trazem as penas do inferno
telefonemas seus
telefonemas meus
telefonemas da outra
e a ex
compomos o obrigatório conflito
repetir com honestidade a velha trama
até que ao fim do primeiro bimestre
erra-se no açúcar
escorrega-se na farsa
e mudam-se todos para a novela das 7
Homem da lua
fantasia de rudes hormônios
o bicho se coça
fervor marcial e bico de passarinho
cavalo rampante que rasga com as patas convenções de estilo
atravessa pontes queimadas
alcançou o vale feroz
terremoto maior que o de Lisboa arrasa cidadelas
afrouxa parafusos
e do colchão abala a mola-mestra
ouviu, carro?
tribos bárbaras desabam sobre a minha Europa
ouviu, montanha?
mudaram os livros que eu agora levo pra cama
antigas lendas fabulosas
uma grosseira rapsódia
cinco escritos libertinos
eu bebo como num banquete em Siracusa
e gozo como as prostitutas de Corinto
palmeira, ouviu?
1 139
Donizete Galvão
Fachada
Logo vai terminar o prazo
para o homem construir sua fachada.
Ele continua em andaimes.
Provisório.
Exibe máscaras cambiantes.
Sua face inconclusa,
sustentada por ferragens,
parece esconder que,
em todos esses anos de obra,
ergueram-se inúteis plataformas
para edificar um escombro.
1 552
Paulo Leminski
um dia
um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
Publicado no livro Polonaises (1980).
In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 198
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
Publicado no livro Polonaises (1980).
In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 198
1 693
Felipe d’Oliveira
I - O Clown
Sem apoio.
Solto na expectativa impaciente do irresistível.
Bloqueado pela ameaça circular dos cobradores
de jocoso, dos famintos de angústia grotesca.
Sem trapézio, como o trapezista.
Sem alteres, como o hércules.
Sem o aparato dos músculos, como o acrobata.
Sem refúgio e sem armas, desafia o risco manejando apenas
a desarticulação do jeito humano,
a deformação da máscara idiota onde a
graça estoura como um pontapé nas nádegas.
Sua ginástica tem de ser no vazio
sobre os fios frágeis do fracasso e do ridículo.
Dentro da roupa larga,
o corpo desengonçado
chacoalha cores, tropeça, achata-se sobre a
serragem do picadeiro.
A bofetada do partner
faz desabafar o delírio
sobre o tombo de costas (perfeito)
com estalos fingidos de espinha partida e
occipital rachado.
O aplauso voraz, em volta, o constringe
como uma goela de carnívoro.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Circo.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL, Santa Maria: UFSM, 1990. p.7
Solto na expectativa impaciente do irresistível.
Bloqueado pela ameaça circular dos cobradores
de jocoso, dos famintos de angústia grotesca.
Sem trapézio, como o trapezista.
Sem alteres, como o hércules.
Sem o aparato dos músculos, como o acrobata.
Sem refúgio e sem armas, desafia o risco manejando apenas
a desarticulação do jeito humano,
a deformação da máscara idiota onde a
graça estoura como um pontapé nas nádegas.
Sua ginástica tem de ser no vazio
sobre os fios frágeis do fracasso e do ridículo.
Dentro da roupa larga,
o corpo desengonçado
chacoalha cores, tropeça, achata-se sobre a
serragem do picadeiro.
A bofetada do partner
faz desabafar o delírio
sobre o tombo de costas (perfeito)
com estalos fingidos de espinha partida e
occipital rachado.
O aplauso voraz, em volta, o constringe
como uma goela de carnívoro.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Circo.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL, Santa Maria: UFSM, 1990. p.7
1 172
Armando Freitas Filho
Fazer carreira
Fazer carreira
é sair correndo por fora
— como um ladrão —
de dentro de si mesmo
virando-se pelo avesso
ao encalço do futuro
engolindo sapos
poemas e sopapos
comendo de tudo
e cometendo sem parar
paráfrases, pastiches, mélanges
marmeladas
competindo
não apenas
por um lugar ao sol
mas pelo lugar do sol
na vanguarda
ou entre os marginais
descendo-subindo ou o contrário
a escada rolante
a escalada, o escândalo
do sucesso
até conseguir
o crime perfeito
a obra-prima underground
que é o primeiro
ou o último degrau?
In: FREITAS FILHO, Armando. Longa vida, 1979/1981. Pref. Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Poiesis)
é sair correndo por fora
— como um ladrão —
de dentro de si mesmo
virando-se pelo avesso
ao encalço do futuro
engolindo sapos
poemas e sopapos
comendo de tudo
e cometendo sem parar
paráfrases, pastiches, mélanges
marmeladas
competindo
não apenas
por um lugar ao sol
mas pelo lugar do sol
na vanguarda
ou entre os marginais
descendo-subindo ou o contrário
a escada rolante
a escalada, o escândalo
do sucesso
até conseguir
o crime perfeito
a obra-prima underground
que é o primeiro
ou o último degrau?
In: FREITAS FILHO, Armando. Longa vida, 1979/1981. Pref. Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Poiesis)
1 177
Eduardo Alves da Costa
Mais Forte que James Bond
Mais forte que James Bond
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 223
Juó Bananére
As Pombigna
P'ru aviadore chi pigó o tombo
Vai a primiéra pombigna dispertada,
I maise otra vai disposa da primiéra;
I otra maise, i maise otra, i assi dista maniera,
Vai s'imbora tutta pombarada.
Pássano fóra o dí i a tardi intêra,
Catáno as formiguigna ingoppa a strada;
Ma quano vê a notte indisgraziada,
Vorta tuttos in bandos, in filêra.
Assi tambê o Cicero avua,
Sobí nu spaço, molto alê da lua,
Fica piqueno uguali d'un sabiá.
Ma tuttos dia avua, allegre, os pombo!...
Inveis chi o Muque, desdi aquilio tombo,
Nunga maise quiz sabe di avuá.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966
NOTA: Paródia do soneto "As Pombas", do livro SINFONIAS (1883), de Raimundo Correi
Vai a primiéra pombigna dispertada,
I maise otra vai disposa da primiéra;
I otra maise, i maise otra, i assi dista maniera,
Vai s'imbora tutta pombarada.
Pássano fóra o dí i a tardi intêra,
Catáno as formiguigna ingoppa a strada;
Ma quano vê a notte indisgraziada,
Vorta tuttos in bandos, in filêra.
Assi tambê o Cicero avua,
Sobí nu spaço, molto alê da lua,
Fica piqueno uguali d'un sabiá.
Ma tuttos dia avua, allegre, os pombo!...
Inveis chi o Muque, desdi aquilio tombo,
Nunga maise quiz sabe di avuá.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966
NOTA: Paródia do soneto "As Pombas", do livro SINFONIAS (1883), de Raimundo Correi
2 846
Menotti del Picchia
III - Avenida Paulista
Todos os estilos ancoraram no cais mole
do asfalto fidalgo...
Dentro daquele parque
fuma goiano um califa enriquecido
com uma fábrica de alpargatas da rua 25 de Março.
O sr. Conde está bebendo Chianti
servido por um criado de libré.
Até as colunas de mármore são de cimento armado.
E domingo, em Roles Royce ou em Ford
passaremos em revista
na parada do corso
todos os candidatos à consagração da Avenida.
Publicado no livro Chuva de Pedra (1925). Poema integrante da série Impromptus Urbanos.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.69. (Obras de Menotti del Picchia
do asfalto fidalgo...
Dentro daquele parque
fuma goiano um califa enriquecido
com uma fábrica de alpargatas da rua 25 de Março.
O sr. Conde está bebendo Chianti
servido por um criado de libré.
Até as colunas de mármore são de cimento armado.
E domingo, em Roles Royce ou em Ford
passaremos em revista
na parada do corso
todos os candidatos à consagração da Avenida.
Publicado no livro Chuva de Pedra (1925). Poema integrante da série Impromptus Urbanos.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.69. (Obras de Menotti del Picchia
2 348
Paulo Setúbal
Volta ao Arraial
Pascoal Moreira torna ao arraial onde deixara a bagagem. Vinha amuado; vinha sucumbido. "Com este infeliz successo se encheu de grande dissabor o cabo da tropa Paschoal Moreira". A derrota lancetara fundo a vaidade do sertanista. Que fazer agora? Voltar? E voltar sem índios? Não! O orgulho caboclo de Pascoal Moreira não sofrerá jamais que ele volte a São Paulo de mãos vazias. E não voltará de fato. Os deuses fadaram o paulista para destinos magníficos. Que sina curiosa a do desbravador! Vêde:
Os bandeirantes, derrotados e murchos, têm, ao penetrarem no arraial, esta inesperada e vivíssima surpresa: são festivamente recebidos com gritos, estrondos de mosquete, ronqueiras, grossa barulhada! Que é aquilo? Que significam tão quentes júbilos? A boa-nova espalha-se instantaneamente:
— Ouro!
A peonada grita, e arremessa os chapéus, e baila, e está toda num ébrio fanfarreio de alegria.
— Ouro! Ouro!
Mas como? Onde? Pascoal Moreira, desta vez, quer saber os detalhes do acontecido. Manda buscar os peões para inteirar-se do que houve. Sabe então que os peões — "os que haviam ficado na bagage" — haviam resolvido, para matar o tempo, explorar as barrancas do Coxipó.
Eram as mesmas barrancas onde os dois moleques haviam dado com as primeiras oitavas. Principiaram eles o trabalho de manhãzinha. Mas não trabalharam muito tempo: duas horas após, com gritos de júbilo, toparam aqueles homens com riquíssima pinta de ouro. Que pinta soberba! Foi uma das maiores que já se achou no Brasil. Do chão bruto, como por milagre, jorrou logo, às mãos dos caboclos, larga manancial de ouro. Os bagageiros, por entre alegrias infrenes, atiraram-se então a um cavocar furioso: "huns achavam cem oitavas, outros meia libra, outros cincoenta oitavas, conforme o que cada um fez em cavar com as maons, que outros instrumentos de minerar não havia. . ."
Pascoal Moreira ouve e vê. O ouro — aquele ouro real, tangível, que ali reluz às mãos da peonada — esbraseia, afinal, o ânimo frio do povoador. Pascoal, tocado de súbito entusiasmo, sai também a mineirar. E logo, ao esbrugar os primeiros torrões, irrompe entre os bandeirantes o mesmo grito mágico:
— Ouro!
Que surpreendente colheita! Grãos e folhetas faíscam a rodo no cascalho. Basta dizer que "os que haviam acompanhado o Capitão Paschoal Moreira, mais aproveitados, assim como o mesmo Capitão, acharam cada um libra e meia de ouro..." Não podia haver, para a derrota sofrida com os Coxiponés, epílogo mais fascinante. O retorno ao arraial das bagagens, aquele doloroso retorno de vencidos, foi o lustre e a glória da bandeira.
Por isso, no sertão bravo do Coxipó, nessa noite, lá naquele humilde arraial improvisado, tão longe dos homens e do mundo, viveram aqueles toscos sertanejos a sua grande noite de sonho e febre. Não podiam dormir. E com razão! Todos eles, tontos de gozo, "cantavam victoria contra as fadigas da pobreza, davam-se huns aos outros parabens de suas fortunas, e, reciprocamente, offereciam-se laudencias de alegria".
Pascoal Moreira, no seu mísero rancho de sapé, podia enfim, bem merecidamente, descansar das suas longas e rudes fadigas de bandeirante. O paulista, é verdade, não conquistara o ambicionado Coxiponé: conquistara, o que é bem mais, as ruidosas minas do sertão.
Estava descoberto o ouro de Cuiabá.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 38-40. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
Os bandeirantes, derrotados e murchos, têm, ao penetrarem no arraial, esta inesperada e vivíssima surpresa: são festivamente recebidos com gritos, estrondos de mosquete, ronqueiras, grossa barulhada! Que é aquilo? Que significam tão quentes júbilos? A boa-nova espalha-se instantaneamente:
— Ouro!
A peonada grita, e arremessa os chapéus, e baila, e está toda num ébrio fanfarreio de alegria.
— Ouro! Ouro!
Mas como? Onde? Pascoal Moreira, desta vez, quer saber os detalhes do acontecido. Manda buscar os peões para inteirar-se do que houve. Sabe então que os peões — "os que haviam ficado na bagage" — haviam resolvido, para matar o tempo, explorar as barrancas do Coxipó.
Eram as mesmas barrancas onde os dois moleques haviam dado com as primeiras oitavas. Principiaram eles o trabalho de manhãzinha. Mas não trabalharam muito tempo: duas horas após, com gritos de júbilo, toparam aqueles homens com riquíssima pinta de ouro. Que pinta soberba! Foi uma das maiores que já se achou no Brasil. Do chão bruto, como por milagre, jorrou logo, às mãos dos caboclos, larga manancial de ouro. Os bagageiros, por entre alegrias infrenes, atiraram-se então a um cavocar furioso: "huns achavam cem oitavas, outros meia libra, outros cincoenta oitavas, conforme o que cada um fez em cavar com as maons, que outros instrumentos de minerar não havia. . ."
Pascoal Moreira ouve e vê. O ouro — aquele ouro real, tangível, que ali reluz às mãos da peonada — esbraseia, afinal, o ânimo frio do povoador. Pascoal, tocado de súbito entusiasmo, sai também a mineirar. E logo, ao esbrugar os primeiros torrões, irrompe entre os bandeirantes o mesmo grito mágico:
— Ouro!
Que surpreendente colheita! Grãos e folhetas faíscam a rodo no cascalho. Basta dizer que "os que haviam acompanhado o Capitão Paschoal Moreira, mais aproveitados, assim como o mesmo Capitão, acharam cada um libra e meia de ouro..." Não podia haver, para a derrota sofrida com os Coxiponés, epílogo mais fascinante. O retorno ao arraial das bagagens, aquele doloroso retorno de vencidos, foi o lustre e a glória da bandeira.
Por isso, no sertão bravo do Coxipó, nessa noite, lá naquele humilde arraial improvisado, tão longe dos homens e do mundo, viveram aqueles toscos sertanejos a sua grande noite de sonho e febre. Não podiam dormir. E com razão! Todos eles, tontos de gozo, "cantavam victoria contra as fadigas da pobreza, davam-se huns aos outros parabens de suas fortunas, e, reciprocamente, offereciam-se laudencias de alegria".
Pascoal Moreira, no seu mísero rancho de sapé, podia enfim, bem merecidamente, descansar das suas longas e rudes fadigas de bandeirante. O paulista, é verdade, não conquistara o ambicionado Coxiponé: conquistara, o que é bem mais, as ruidosas minas do sertão.
Estava descoberto o ouro de Cuiabá.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 38-40. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 252
Fernando Pessoa
Quarta: D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL
Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;
Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;
Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.
5 473
Edgar Allan Poe
Epigram for Wall Street
I'll tell you a plan for gaining wealth,
Better than banking, trade or leases —
Take a bank note and fold it up,
And then you will find your money in creases!
This wonderful plan, without danger or loss,
Keeps your cash in your hands, where nothing can trouble it;
And every time that you fold it across,
'Tis as plain as the light of the day that you double it!
1845
Better than banking, trade or leases —
Take a bank note and fold it up,
And then you will find your money in creases!
This wonderful plan, without danger or loss,
Keeps your cash in your hands, where nothing can trouble it;
And every time that you fold it across,
'Tis as plain as the light of the day that you double it!
1845
1 187
Paulo Leminski
quatro dias sem te ver
quatro dias sem te ver
e não mudaste nada
falta açúcar na limonada
me perdi da minha namorada
nadei nadei e não dei em nada
sempre o mesmo poeta de bosta
perdendo tempo com a humanidade
e não mudaste nada
falta açúcar na limonada
me perdi da minha namorada
nadei nadei e não dei em nada
sempre o mesmo poeta de bosta
perdendo tempo com a humanidade
3 156
Paulo Leminski
quero a vitória
quero a vitória
do time de várzea
valente
covarde
a derrota
do campeão
5 X 0
em seu próprio chão
circo
dentro
do pão
do time de várzea
valente
covarde
a derrota
do campeão
5 X 0
em seu próprio chão
circo
dentro
do pão
2 346
Alfonsina Storni
Sabeis algo
Subi, subi, subi. Já estava bem em cima
quando senti um murmuro, era desafio, diatribe?
Escutei: gargalhadas, ironias, insultos.
o que vos pareço uma símia? Oh meus bons estultos:
sabeis de coisas belas?
Eu, fazem séculos que vivo trança que trança estrelas.
quando senti um murmuro, era desafio, diatribe?
Escutei: gargalhadas, ironias, insultos.
o que vos pareço uma símia? Oh meus bons estultos:
sabeis de coisas belas?
Eu, fazem séculos que vivo trança que trança estrelas.
1 139
Nauro Machado
Com os dez dedos da mão
Falhei
de tudo o pouco que ainda pude:
se o ser real não pôde ser virtude,
e o irreal ser só pôde , em represália
dizer ao ser real, sem que o abale a
vida em mim a ser só da ilusão:
de ti já sou, por fim, teu falso irmão,
eis o peso da angústia, o enxofre do ouro,
onde enterrei meu possível tesouro.
Feito de quê? De sombra mais que luz,
na assombração debaixo de uma cruz.
descobri-me à verdade, enfim capaz
de oferecer-se a mim - dela incapaz -
mas, sobretudo, pão, rosa ou dejeto,
Uma verdade feita de alfabeto.
de tudo o pouco que ainda pude:
se o ser real não pôde ser virtude,
e o irreal ser só pôde , em represália
dizer ao ser real, sem que o abale a
vida em mim a ser só da ilusão:
de ti já sou, por fim, teu falso irmão,
eis o peso da angústia, o enxofre do ouro,
onde enterrei meu possível tesouro.
Feito de quê? De sombra mais que luz,
na assombração debaixo de uma cruz.
descobri-me à verdade, enfim capaz
de oferecer-se a mim - dela incapaz -
mas, sobretudo, pão, rosa ou dejeto,
Uma verdade feita de alfabeto.
1 497
Jorge Viegas
Gratidão
Gratidão
é dádiva de Deus,
Em tudo dai graças, Paulo dizia,
Pela salvação que vem dos céus,
Graças a Ele ainda que tardia.
O agradecer não humilha, edifica
Nossas vidas que o mal persegue
E nos cerca de tudo que não vivifica,
Enobrece o homem que a Deus segue.
Graças pela doença, graças pela saúde.
Por fracassos para que Deus nos ajude
Até a vitoria final e júbilo que abraças.
Sejamos humildes, sejamos gratos
Pelas bênçãos, e também pelos ingratos,
Por insignificâncias, ... Em tudo dai graças.
é dádiva de Deus,
Em tudo dai graças, Paulo dizia,
Pela salvação que vem dos céus,
Graças a Ele ainda que tardia.
O agradecer não humilha, edifica
Nossas vidas que o mal persegue
E nos cerca de tudo que não vivifica,
Enobrece o homem que a Deus segue.
Graças pela doença, graças pela saúde.
Por fracassos para que Deus nos ajude
Até a vitoria final e júbilo que abraças.
Sejamos humildes, sejamos gratos
Pelas bênçãos, e também pelos ingratos,
Por insignificâncias, ... Em tudo dai graças.
1 822
Hugo Pires
Milénio
Por dois mil calhaus subi,
Tropeçando nas suas arestas áridas.
Dois mil socalcos escavei,
Rasgando a terra com as minhas mãos.
Duas mil videiras plantei,
Regando seus pés com a minha esperança.
Dois mil frutos colhi,
E de seu sumo vinho fiz,
E em dois mil litros de desilusão,
Mergulhei enfim sem salvação.
Tropeçando nas suas arestas áridas.
Dois mil socalcos escavei,
Rasgando a terra com as minhas mãos.
Duas mil videiras plantei,
Regando seus pés com a minha esperança.
Dois mil frutos colhi,
E de seu sumo vinho fiz,
E em dois mil litros de desilusão,
Mergulhei enfim sem salvação.
1 071
Sá Júnior
Ao Vivo e a Cores
A solidez da mensagem poética
desistimula minha dor e as possibilidades
da poesia vencem meu insistente cansaço.
A liquidez das palavras
me prova que a poesia
é uma coisa bem sólida.
Poemas são náuseas cotidianas,
engarrafamentos, greves,
trágicas touradas de Espanha,
afogados em Copacabana
e em outras tantas partes do mundo.
A gigantesca sede de vitória
é muito mais que metafísica:
engulo pílulas e pílulas do sucesso,
assisto diuturnamente às coisas da tevê.
Balizo meus passos e meus gestos
ao padrão ideal da propaganda.
Meus dedos tremulam no compasso
das bandeiras das naves de guerra
e em uníssono com os gritos
das torcidas extáticas.
Meu coração dispara com os beijos das novelas.
Meu pensamento não precisa mais agir:
rios de instruções fonéticas
me chegam desordenadamente à porta.
A hipnotizante velocidade urbana
escapou dos olhos das ruas
e eletriza a multidão disforme.
A tecnologia tenta engavetar as palavras,
mas sua liquidez escorre incontrolavelmente
dos dedos, dos olhos, das privações do povo,
das meretrizes com seus noturnos hematomas.
A liquidez das palavras
inunda avenidas, impulsiona multidões,
impregnando nas coisas modernas
o sopro e a necessária
gravidez sonora do poema.
desistimula minha dor e as possibilidades
da poesia vencem meu insistente cansaço.
A liquidez das palavras
me prova que a poesia
é uma coisa bem sólida.
Poemas são náuseas cotidianas,
engarrafamentos, greves,
trágicas touradas de Espanha,
afogados em Copacabana
e em outras tantas partes do mundo.
A gigantesca sede de vitória
é muito mais que metafísica:
engulo pílulas e pílulas do sucesso,
assisto diuturnamente às coisas da tevê.
Balizo meus passos e meus gestos
ao padrão ideal da propaganda.
Meus dedos tremulam no compasso
das bandeiras das naves de guerra
e em uníssono com os gritos
das torcidas extáticas.
Meu coração dispara com os beijos das novelas.
Meu pensamento não precisa mais agir:
rios de instruções fonéticas
me chegam desordenadamente à porta.
A hipnotizante velocidade urbana
escapou dos olhos das ruas
e eletriza a multidão disforme.
A tecnologia tenta engavetar as palavras,
mas sua liquidez escorre incontrolavelmente
dos dedos, dos olhos, das privações do povo,
das meretrizes com seus noturnos hematomas.
A liquidez das palavras
inunda avenidas, impulsiona multidões,
impregnando nas coisas modernas
o sopro e a necessária
gravidez sonora do poema.
810
Raquel Naveira
Napoleão
Sonhei que era Napoleão
Como qualquer louco
Que tem direito a seu sonho.
Como Napoleão
Sonhei com uma coroa,
Um manto,
Um naco de mundo entre os dentes.
Como Napoleão
Sonhei com palácios,
Abelhas, lírios,
Passeios num cavalo branco.
Como Napoleão
Sonhei com pirâmides,
Tempestades de neve,
Uma cama de campanha no deserto.
Como Napoleão
Acordei
E não era dono de nada,
De nenhuma ilha,
De nenhuma bússola,
De nenhuma glória.
Como Napoleão
Acordei e vi que tudo era sonho.
Como qualquer louco
Que tem direito a seu sonho.
Como Napoleão
Sonhei com uma coroa,
Um manto,
Um naco de mundo entre os dentes.
Como Napoleão
Sonhei com palácios,
Abelhas, lírios,
Passeios num cavalo branco.
Como Napoleão
Sonhei com pirâmides,
Tempestades de neve,
Uma cama de campanha no deserto.
Como Napoleão
Acordei
E não era dono de nada,
De nenhuma ilha,
De nenhuma bússola,
De nenhuma glória.
Como Napoleão
Acordei e vi que tudo era sonho.
1 243
Raniere Rodrigues dos Santos
O Pássaro
Olho para traz
E nada vejo.
A demonstração
Aparece
E revela
O pássaro.
Simples,
Quieto,
Tentando voar,
Para no céu brilhar.
Sabendo
Que não é chegada a hora,
Ele esperneia e chora
E só o sonho o consola.
Ele serve,
Ele encanta,
Ele escreve poesia
Rimando com a alegria.
O show
Chega
E o pássaro
Voa.
Ele brilha
Entre as estrelas
E toca
Uma paralisia.
Que pássaro
Danado,
Já tem filhos
E os protege.
O espetáculo
É preparado
E o pássaro
Fica todo embelezado.
O sucesso,
É o futuro
Que se torna presente
Para o pássaro contente.
Olho para trás
E vejo que há passado
Olho para frente
E vejo que há futuro de um presente
E nada vejo.
A demonstração
Aparece
E revela
O pássaro.
Simples,
Quieto,
Tentando voar,
Para no céu brilhar.
Sabendo
Que não é chegada a hora,
Ele esperneia e chora
E só o sonho o consola.
Ele serve,
Ele encanta,
Ele escreve poesia
Rimando com a alegria.
O show
Chega
E o pássaro
Voa.
Ele brilha
Entre as estrelas
E toca
Uma paralisia.
Que pássaro
Danado,
Já tem filhos
E os protege.
O espetáculo
É preparado
E o pássaro
Fica todo embelezado.
O sucesso,
É o futuro
Que se torna presente
Para o pássaro contente.
Olho para trás
E vejo que há passado
Olho para frente
E vejo que há futuro de um presente
922
Ona Gaia
As batatas
As batatas, os quiabos
as batalhas, os diabos
tudo isto resta muito raso e arraso:
as batatas eu como
os quiabos eu passo
as batalhas eu nego
os diabos amaço
como e passo
nego e amaço
há batatas e quiabos
na batalha dos diabos
ao vencedor as batatas
ao perdedor os quiabos
o buraco fundo do nada
é no laço sorte atada
mas o prêmio é feito de ego
e na pele dele navego
a cova úmida da terra
onde o tubérculo brotou
as raízes arrancadas
na última batalha travada.
as batalhas, os diabos
tudo isto resta muito raso e arraso:
as batatas eu como
os quiabos eu passo
as batalhas eu nego
os diabos amaço
como e passo
nego e amaço
há batatas e quiabos
na batalha dos diabos
ao vencedor as batatas
ao perdedor os quiabos
o buraco fundo do nada
é no laço sorte atada
mas o prêmio é feito de ego
e na pele dele navego
a cova úmida da terra
onde o tubérculo brotou
as raízes arrancadas
na última batalha travada.
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