Poemas neste tema
Sucesso e Fracasso
Natércia Freire
Fantasmas
Mesmo que vós me toqueis,
ainda assim me não contento.
Mesmo que vós me leveis ...
Estão muito longe os anéis
que há nos cabelos ao vento ...
Para nossos bailes de fumo
não há saletas reais.
Corpos de fio de prumo,
olhos de barcos sem rumo
e ouvidos nos temporais.
Quando a casa dorme e sonha
é que os passos vem espreitar.
Da torre negra, as cegonhas,
sobre a planície que sonha,
deitam fantasmas ao mar.
Minhas claras companhias!
Ainda assim me não contento.
Há de haver praias vazias,
melancolias bravias
como aquelas que eu invento.
Tudo que em mim é fracasso
já não tem raiz humana.
Nas pontas do mesmo laço
é que o aço nos irmana.
Convosco em pó me desato
e a viagem não termina.
Parto de mim em retrato
no movimento sem ato
que o Destino me destina.
ainda assim me não contento.
Mesmo que vós me leveis ...
Estão muito longe os anéis
que há nos cabelos ao vento ...
Para nossos bailes de fumo
não há saletas reais.
Corpos de fio de prumo,
olhos de barcos sem rumo
e ouvidos nos temporais.
Quando a casa dorme e sonha
é que os passos vem espreitar.
Da torre negra, as cegonhas,
sobre a planície que sonha,
deitam fantasmas ao mar.
Minhas claras companhias!
Ainda assim me não contento.
Há de haver praias vazias,
melancolias bravias
como aquelas que eu invento.
Tudo que em mim é fracasso
já não tem raiz humana.
Nas pontas do mesmo laço
é que o aço nos irmana.
Convosco em pó me desato
e a viagem não termina.
Parto de mim em retrato
no movimento sem ato
que o Destino me destina.
1 211
Manuel Sobrinho
Trovas
Amigos, quantos tiveres,
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...
Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.
Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista
És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...
É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...
Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.
Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista
És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...
É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.
793
Milena Azevedo
As Guerreiras das Quadras
Quanta guarra,
quanta destreza,
são belas guerreiras
que lutam numa pequena fortaleza.
Cada lance,
cada cesta,
fazem a torcida vibrar
com assistências perfeitas que chegam a emocionar
à todos que estiverem a olhar.
É brilho, magia,
não dá para descrever tanta euforia,
tamanho talento e maestria
e nem como elas jogam com tanta energia.
É vontade de vencer,
é tão bom de torcer.
Quanto mais elas suam, mais querem aprender.
É só assim que elas sabem agradecer,
dando o que de melhor têm em seu ser.
quanta destreza,
são belas guerreiras
que lutam numa pequena fortaleza.
Cada lance,
cada cesta,
fazem a torcida vibrar
com assistências perfeitas que chegam a emocionar
à todos que estiverem a olhar.
É brilho, magia,
não dá para descrever tanta euforia,
tamanho talento e maestria
e nem como elas jogam com tanta energia.
É vontade de vencer,
é tão bom de torcer.
Quanto mais elas suam, mais querem aprender.
É só assim que elas sabem agradecer,
dando o que de melhor têm em seu ser.
847
Marta Gonçalves
Retrato do Poeta
Companheiro do vento, rosto de sal.
Ontem existia energia nos olhos.
O pórtico do tempo aberto ao silêncio
da alma.
Nossos fracassos nossos fracassos
desenhados na imaginação.
Ontem existia energia nos olhos.
O pórtico do tempo aberto ao silêncio
da alma.
Nossos fracassos nossos fracassos
desenhados na imaginação.
1 038
Marcelo Almeida de Oliveira
Podem tentar, mas o homem não cabe
Dr. Hermínio?
O melhor mindinhologista que conheço.
Francisco?
O melhor mecânico de corcel 73.
Afonso?
A melhor feijoada da cidade.
Manuel?
Campeão estadual de pinball.
Alfredo?
Pintava peixes como ninguém.
Ford?
Último modelo.
Da Vinci?
Desculpa, tô sem dinheiro.
Vida, competição.
Vence a menor alma.
O melhor mindinhologista que conheço.
Francisco?
O melhor mecânico de corcel 73.
Afonso?
A melhor feijoada da cidade.
Manuel?
Campeão estadual de pinball.
Alfredo?
Pintava peixes como ninguém.
Ford?
Último modelo.
Da Vinci?
Desculpa, tô sem dinheiro.
Vida, competição.
Vence a menor alma.
718
Luiz Nogueira Barros
Infortunística
A tragédia dos vôos
dos Dédalos e Ícaros improvisados
sob a fria fantasia das estrelas
para a soalheira dos dias causticantes...
dos Dédalos e Ícaros improvisados
sob a fria fantasia das estrelas
para a soalheira dos dias causticantes...
909
Luís António Cajazeira Ramos
Fiat Breu
Há pouco, fui brilhante.
Agora, brilho escapante,
ou escapadamente lusco
e fusco, ou busco um instante
qualquer, tropegamente.
Tão-somente, já não brilho
intensamente, como há poucos
instantes atrás.
Escapou-me o brilho reluzente
do primeiro instantâneo flash
de verídicas meta-observações,
que me conduziam a conclusões
deveras geniais, tal como eu
fosse capaz, um tanto mais
perceptivo para os tempos atuais.
Mas sou por demais insistente
e escrevo, sofregamente,
tentando segurar aquele flash,
capaz de dar-me luz de iluminação,
capaz de trazer-me compreensão
de densos organismos universais
e de mim mesmo, principalmente.
Mas é tudo um delírio,
ao final do que se escreve,
já sem brilho, tão breve...
mas já sem grilo, já leve,
até capaz de fazer-me sorrir.
Agora, brilho escapante,
ou escapadamente lusco
e fusco, ou busco um instante
qualquer, tropegamente.
Tão-somente, já não brilho
intensamente, como há poucos
instantes atrás.
Escapou-me o brilho reluzente
do primeiro instantâneo flash
de verídicas meta-observações,
que me conduziam a conclusões
deveras geniais, tal como eu
fosse capaz, um tanto mais
perceptivo para os tempos atuais.
Mas sou por demais insistente
e escrevo, sofregamente,
tentando segurar aquele flash,
capaz de dar-me luz de iluminação,
capaz de trazer-me compreensão
de densos organismos universais
e de mim mesmo, principalmente.
Mas é tudo um delírio,
ao final do que se escreve,
já sem brilho, tão breve...
mas já sem grilo, já leve,
até capaz de fazer-me sorrir.
808
João Ferry
Fim de Escola
Na escola toda vez, quando aparece
O exame final do fim do ano,
Nervoso cada qual faz uma prece,
Receando sofrer um desengano.
Boas notas só tem quem as merece,
E quem as obtém vaidoso e ufano,
Muitas vezes até depressa esquece,
Da professora e seu trabalho insano.
E o aluno fica alegre e mui contente,
Para gozar as férias bem feliz,
No lar para onde volta sorridente.
Mas acontece que o aluno mau,
Que de vadio estudar não quis,
Volta pra casa, mas só leva pau!...
O exame final do fim do ano,
Nervoso cada qual faz uma prece,
Receando sofrer um desengano.
Boas notas só tem quem as merece,
E quem as obtém vaidoso e ufano,
Muitas vezes até depressa esquece,
Da professora e seu trabalho insano.
E o aluno fica alegre e mui contente,
Para gozar as férias bem feliz,
No lar para onde volta sorridente.
Mas acontece que o aluno mau,
Que de vadio estudar não quis,
Volta pra casa, mas só leva pau!...
923
Inácio Raposo
Tântalos
Não pode ter de certo os olhos sempre enxutos
Quem sofre qual, no Erebo, o Tântalo maldito:
Sedento — vê debalde um córrego infinito;
Faminto — vê debalde os floridos produtos!...
Ante um castigo tal, que apiedava os brutos,
Leve talvez pareça um bárbaro delito!...
Foge sempre a torrente ao mísero precito
E, se tenta comer, escapam-se-lhe os frutos!
Há Tântalos também na vida transitória:
Querem estes a lympha e os pomos do talento,
E morrem no hospital para viver na história.
Desditosos que são... no malogrado intento!...
Longe de haverem ganho os loiros da vitória,
Encontram no sepulcro o eterno esquecimento!
Quem sofre qual, no Erebo, o Tântalo maldito:
Sedento — vê debalde um córrego infinito;
Faminto — vê debalde os floridos produtos!...
Ante um castigo tal, que apiedava os brutos,
Leve talvez pareça um bárbaro delito!...
Foge sempre a torrente ao mísero precito
E, se tenta comer, escapam-se-lhe os frutos!
Há Tântalos também na vida transitória:
Querem estes a lympha e os pomos do talento,
E morrem no hospital para viver na história.
Desditosos que são... no malogrado intento!...
Longe de haverem ganho os loiros da vitória,
Encontram no sepulcro o eterno esquecimento!
997
Horácio Dídimo
As Casas
após longa espera
nada aconteceu
as casas continuaram baixas
tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações
nada aconteceu
as casas continuaram baixas
tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações
1 325
Gabriel Archanjo de Mendonça
Desencanto
O sonho realizado
acomodou-se preguiçosamente
na lua da rede
e foi cuidar
por tempo de sesta
na digestão burguesa.
Que o sonho futuro
por mais que sonhado
não passe de sonho.
acomodou-se preguiçosamente
na lua da rede
e foi cuidar
por tempo de sesta
na digestão burguesa.
Que o sonho futuro
por mais que sonhado
não passe de sonho.
863
Fanny Luíza Dupré
Verão
Sobe a piracema
desafiando a correnteza
do rio caudaloso.
Vestibular...
Entra para a faculdade
o candidato cego.
desafiando a correnteza
do rio caudaloso.
Vestibular...
Entra para a faculdade
o candidato cego.
835
Fabrício Augusto Souza Gomes
Parte Da Minha Vida(ou Olhos da Noite)
PARTE DA MINHA VIDA
Passa com o tempo
que me reduz
a um só verso . . .
a uma só rima.
A grande aventura da vida
reside no fato
de deixá-la fluir
naturalmente.
São poetas atraídos
pela singela arte
de escrever
coisas da vida,
do passado,
do presente,
do futuro . . .
coisas do coração.
Apesar de tudo,
não tem explicação.
É complicado traduzir
meus leitores . . .
Agora,
tento escrever
parte da minha vida
Mas não é fácil!
A inspiração quer "rabiscar"
minha percepção!
Erro!
Fracasso!
Se não tento,
não experimento o sucesso!
Desconheço a decepção!
Enfim,
minha angústia
é o elo
que me motiva a escrever . . .
Escrever
esperando que alguém
num mundo distante
ainda se emocione
ao me ler
Para ti, leitor,
Torno-me seu cúmplice.
Aquele misterioso amigo,
que não tem rosto,
nem voz,
tampouco corpo!
Sou um pensamento abstrato
que você cria
pura imaginação!
Não tem jeito!
Não consigo falar
o que penso.
As palavras morrem
e meus lábios,
enquanto minha mente viaja
querendo dizer algo
às pessoas que ainda
se interessem em ler . . .
Mas tudo é questão de tempo!
O tempo que seduz o poeta . . .
. . . é o mesmo que dá o ponto ( final?)
a seus sonhos e inspirações.
Sou vítima de uma relação
extremamante intimista
com você,
que me lê agora.
Quero estar com você
o tempo todo.
Com você,
posso dizer tudo que sou,
tudo que penso,
tudo que acredito!
Posso falar das estrelas!
Do belo e triste brilho delas.
Posso falar do som do mar (que se ouve nas conchas!)
Posso falar de poesia . . .
Posso falar do meu coração
Certa vez,
escrevia sobre o dia
em plena escuridão da noite.
Tornei-me cada vez mais confuso . . .
pois a noite estava adormecida
no fundo de um rio
e não conseguia enxergá-lo!
O rio que guardava a noite
era rebelde, agressivo, inesperado.
Mas sincero.
Ele nasceu em mim
e morreu nos meus olhos.
Era a lágrima
que inundava
de tristeza e alegria
PARTE DA MINHA VIDA.
Passa com o tempo
que me reduz
a um só verso . . .
a uma só rima.
A grande aventura da vida
reside no fato
de deixá-la fluir
naturalmente.
São poetas atraídos
pela singela arte
de escrever
coisas da vida,
do passado,
do presente,
do futuro . . .
coisas do coração.
Apesar de tudo,
não tem explicação.
É complicado traduzir
meus leitores . . .
Agora,
tento escrever
parte da minha vida
Mas não é fácil!
A inspiração quer "rabiscar"
minha percepção!
Erro!
Fracasso!
Se não tento,
não experimento o sucesso!
Desconheço a decepção!
Enfim,
minha angústia
é o elo
que me motiva a escrever . . .
Escrever
esperando que alguém
num mundo distante
ainda se emocione
ao me ler
Para ti, leitor,
Torno-me seu cúmplice.
Aquele misterioso amigo,
que não tem rosto,
nem voz,
tampouco corpo!
Sou um pensamento abstrato
que você cria
pura imaginação!
Não tem jeito!
Não consigo falar
o que penso.
As palavras morrem
e meus lábios,
enquanto minha mente viaja
querendo dizer algo
às pessoas que ainda
se interessem em ler . . .
Mas tudo é questão de tempo!
O tempo que seduz o poeta . . .
. . . é o mesmo que dá o ponto ( final?)
a seus sonhos e inspirações.
Sou vítima de uma relação
extremamante intimista
com você,
que me lê agora.
Quero estar com você
o tempo todo.
Com você,
posso dizer tudo que sou,
tudo que penso,
tudo que acredito!
Posso falar das estrelas!
Do belo e triste brilho delas.
Posso falar do som do mar (que se ouve nas conchas!)
Posso falar de poesia . . .
Posso falar do meu coração
Certa vez,
escrevia sobre o dia
em plena escuridão da noite.
Tornei-me cada vez mais confuso . . .
pois a noite estava adormecida
no fundo de um rio
e não conseguia enxergá-lo!
O rio que guardava a noite
era rebelde, agressivo, inesperado.
Mas sincero.
Ele nasceu em mim
e morreu nos meus olhos.
Era a lágrima
que inundava
de tristeza e alegria
PARTE DA MINHA VIDA.
951
Efer Cilas dos Santos Junior
Cinema
John Ford,John Huston e também o Preminger,
Howard Hawks,Michael Curtiz,Henry King,
Billy Wilder,René Clement e Wyler,
Stanley Donen,Cukor,Victor Fleming,
Robert Wise,Coppola,Milos Forman,
King Vidor,B.Mile,Raoul Walsh,
Woody Allen,Sergio Leone e Kasdan
Stanley Kubrick,Buñuel,Aldrich.
Todos são nomes imortais,honrosos,
Assim como seus filmes grandiosos,
Que,para sempre,entre nós,ficarão.
E as gerações futuras encantadas,
Assistirão a tudo emocionadas
E aqueles nomes memorizarão!
Howard Hawks,Michael Curtiz,Henry King,
Billy Wilder,René Clement e Wyler,
Stanley Donen,Cukor,Victor Fleming,
Robert Wise,Coppola,Milos Forman,
King Vidor,B.Mile,Raoul Walsh,
Woody Allen,Sergio Leone e Kasdan
Stanley Kubrick,Buñuel,Aldrich.
Todos são nomes imortais,honrosos,
Assim como seus filmes grandiosos,
Que,para sempre,entre nós,ficarão.
E as gerações futuras encantadas,
Assistirão a tudo emocionadas
E aqueles nomes memorizarão!
871
José Castello
Histórias de poesia e pobreza
Amais inquietante história relatada por Paul Auster em A Arte da Fome, coletânea de prefácios, entrevistas e ensaios que acaba de ser traduzida pela José Olympio, não fala de fantasmas, ou de meninos que voam, como os que aparecem em sua Trilogia de Nova York, mas ainda assim é de dar arrepios. Auster, que foi um poeta mediano antes de se transformar em grande ficcionista, a conta em uma entrevista, concedida 11 anos depois da experiência que rememora e agora reproduzida no livro.
Dominado pelo sonho de escrever narrativas de ficção, mas obrigado pelos fatos da vida a se satisfazer com o espaço mais restrito (e, para ele, menos perigoso) da poesia, Auster já tinha se decidido, no fim dos anos 70, a abandonar de vez as fantasias literárias para se dedicar, apenas, a ganhar dinheiro. "Houve momentos em que eu pensei que tivesse chegado ao fim, que eu jamais escreveria outra palavra", rememora. Em dezembro de 1978, porém, um amigo coreógrafo o leva, sem nenhuma intenção particular, ao ensaio aberto de um balé. Auster, deprimido, se deixa arrastar. Sem qualquer expectativa especial em relação ao espetáculo, o escritor é, aos poucos, inundado pelo que vê. Dá-se uma revelação, um desses eventos inexplicáveis em que o acaso se mescla à sensibilidade e, no rasto desse vazamento, o invisível se torna visível.
Ao voltar para casa, ele se tranca no escritório e começa a escrever Espaços Brancos, obra sem gênero preciso onde, por fim, a vocação para a prosa se impõe. Escreve, compulsivamente, até as três da madrugada quando cai, exaurido, em sono profundo. Às oito da manhã, o telefone toca: alguém lhe comunica a morte repentina de seu pai, vítima de um ataque cardíaco. Semanas depois, Auster recebe uma herança que lhe dá, pela primeira vez na vida, a liberdade de escrever o que bem entende, sem se preocupar com as urgências do tempo e as contas do fim do mês.
"Não consigo me sentar e escrever sem pensar nisso", diz. "Afinal, que terrível equação! Pensar que a morte de meu pai salvou minha vida." Não é preciso aqui rastejar até a lama dos clichês edipianos, ou buscar a muleta das interpretações esotéricas. O horror está nos fatos. Auster teria permanecido um poeta medíocre se o acaso, esse deus sinuoso e complicado, não tivesse agido simultaneamente contra ele e a favor dele.
Essa história não me abandona no momento em que vejo Orides Fontela, a autora de Teia, a professora aposentada que vive na miséria, a poeta que a mídia transformou em "caso clínico", inteiramente asfixiada pela manipulação pública de sua pobreza. Não que Orides tenha que, ela também, ser bafejada por um golpe ambíguo da sorte para abandonar a poesia e se dedicar a outro gênero. Os versos são, mesmo, seu destino. Mas, diante da pobreza, todo discurso elevado - e o mais elevado de todos é o cínico - se torna uma malversação. E nem a piedade, nem o cinismo, produzem poesia.
Penso em Orides porque é impossível não dar valor à sua raiva, à sua decepção à sua sede aturdida de respeito que a mídia, cruel, transforma em curiosidade, como se ela fosse uma poeta de cera em um museu de horrores. Nela, também - como em Auster - a necessidade tinha tudo para matar o desejo insensato e se impor como um destino. Paul Auster teve a visita da sorte num momento de azar; Orides Fontela tem o azar de ser sozinha, ser aposentada e ser poeta, atributos que não parecem combinar com os modelos de sucesso em vigor, mas tem a sorte infinita de ser teimosa. E isso a salva. Em Teia, ela sintetiza: "A vida é que nos tem: nada mais temos".
Auster relata em seu livro uma segunda história que, pensando bem, dá uma resposta ríspida à primeira. Já no fim dos anos 80, passando uma temporada em uma velha mansão de Vermont, o escritor consegue, certa tarde, colocar o ponto final no romance A Música do Acaso. Orgulhoso, pleno, ele sai para fumar um charuto no jardim e desfilar seu sentimento de vencedor. Depara, dois passos adiante, com sua filha de dois anos, Sophie, totalmente nua, agachada sobre algumas pedras, concentrada em fazer cocô. A menina o vê e, sem interromper o ritual, grita: "Olha, papai! Olha o que estou fazendo!". Auster é obrigado, ali, a abandonar suas divagações de sucesso e glória para cuidar do asseio da filha. "Não sei se Sophie estava me oferecendo uma forma nada agradável de crítica literária ou se estava simplesmente fazendo uma observação filosófica sobre a igualdade de todos os atos criativos", diz.
Todo o esforço de Auster para ser livre se iguala, em um breve instante, à liberdade gratuita da pequena Sophie. Sou obrigado a pensar, novamente, em Orides Fontela, que não precisa de nossa piedade, nem de nossa repugnância, nem de nossa aprovação, nem de nossos louvores para ser uma poeta feroz. Nós a manipulamos para lá e para cá, enquanto ela, indiferente, continua a escrever.
("in" O Estado de S. Paulo, Caderno 2)
Dominado pelo sonho de escrever narrativas de ficção, mas obrigado pelos fatos da vida a se satisfazer com o espaço mais restrito (e, para ele, menos perigoso) da poesia, Auster já tinha se decidido, no fim dos anos 70, a abandonar de vez as fantasias literárias para se dedicar, apenas, a ganhar dinheiro. "Houve momentos em que eu pensei que tivesse chegado ao fim, que eu jamais escreveria outra palavra", rememora. Em dezembro de 1978, porém, um amigo coreógrafo o leva, sem nenhuma intenção particular, ao ensaio aberto de um balé. Auster, deprimido, se deixa arrastar. Sem qualquer expectativa especial em relação ao espetáculo, o escritor é, aos poucos, inundado pelo que vê. Dá-se uma revelação, um desses eventos inexplicáveis em que o acaso se mescla à sensibilidade e, no rasto desse vazamento, o invisível se torna visível.
Ao voltar para casa, ele se tranca no escritório e começa a escrever Espaços Brancos, obra sem gênero preciso onde, por fim, a vocação para a prosa se impõe. Escreve, compulsivamente, até as três da madrugada quando cai, exaurido, em sono profundo. Às oito da manhã, o telefone toca: alguém lhe comunica a morte repentina de seu pai, vítima de um ataque cardíaco. Semanas depois, Auster recebe uma herança que lhe dá, pela primeira vez na vida, a liberdade de escrever o que bem entende, sem se preocupar com as urgências do tempo e as contas do fim do mês.
"Não consigo me sentar e escrever sem pensar nisso", diz. "Afinal, que terrível equação! Pensar que a morte de meu pai salvou minha vida." Não é preciso aqui rastejar até a lama dos clichês edipianos, ou buscar a muleta das interpretações esotéricas. O horror está nos fatos. Auster teria permanecido um poeta medíocre se o acaso, esse deus sinuoso e complicado, não tivesse agido simultaneamente contra ele e a favor dele.
Essa história não me abandona no momento em que vejo Orides Fontela, a autora de Teia, a professora aposentada que vive na miséria, a poeta que a mídia transformou em "caso clínico", inteiramente asfixiada pela manipulação pública de sua pobreza. Não que Orides tenha que, ela também, ser bafejada por um golpe ambíguo da sorte para abandonar a poesia e se dedicar a outro gênero. Os versos são, mesmo, seu destino. Mas, diante da pobreza, todo discurso elevado - e o mais elevado de todos é o cínico - se torna uma malversação. E nem a piedade, nem o cinismo, produzem poesia.
Penso em Orides porque é impossível não dar valor à sua raiva, à sua decepção à sua sede aturdida de respeito que a mídia, cruel, transforma em curiosidade, como se ela fosse uma poeta de cera em um museu de horrores. Nela, também - como em Auster - a necessidade tinha tudo para matar o desejo insensato e se impor como um destino. Paul Auster teve a visita da sorte num momento de azar; Orides Fontela tem o azar de ser sozinha, ser aposentada e ser poeta, atributos que não parecem combinar com os modelos de sucesso em vigor, mas tem a sorte infinita de ser teimosa. E isso a salva. Em Teia, ela sintetiza: "A vida é que nos tem: nada mais temos".
Auster relata em seu livro uma segunda história que, pensando bem, dá uma resposta ríspida à primeira. Já no fim dos anos 80, passando uma temporada em uma velha mansão de Vermont, o escritor consegue, certa tarde, colocar o ponto final no romance A Música do Acaso. Orgulhoso, pleno, ele sai para fumar um charuto no jardim e desfilar seu sentimento de vencedor. Depara, dois passos adiante, com sua filha de dois anos, Sophie, totalmente nua, agachada sobre algumas pedras, concentrada em fazer cocô. A menina o vê e, sem interromper o ritual, grita: "Olha, papai! Olha o que estou fazendo!". Auster é obrigado, ali, a abandonar suas divagações de sucesso e glória para cuidar do asseio da filha. "Não sei se Sophie estava me oferecendo uma forma nada agradável de crítica literária ou se estava simplesmente fazendo uma observação filosófica sobre a igualdade de todos os atos criativos", diz.
Todo o esforço de Auster para ser livre se iguala, em um breve instante, à liberdade gratuita da pequena Sophie. Sou obrigado a pensar, novamente, em Orides Fontela, que não precisa de nossa piedade, nem de nossa repugnância, nem de nossa aprovação, nem de nossos louvores para ser uma poeta feroz. Nós a manipulamos para lá e para cá, enquanto ela, indiferente, continua a escrever.
("in" O Estado de S. Paulo, Caderno 2)
944
Castro Alves
Ao Sr Furtado Coelho
Tu és, artista, quem revive as eras
Quem reanima pálidos perfis,
Gênio elevado - idéias tu geras
Gênio! este nono quanto vales, diz!
Franklin Dória
DO GÊNIO a estrada é difícil,
Mas é brilhante também,
Se o gênio marcha entre cardos,
Marcha entre a rosa — a cecém.
Ao vê-lo o mundo então pasma,
No peito a inveja marasma,
E cala-se o ódio ignavo,
E quem tem fogo na fronte,
Quem tem nalma rica fonte
De amores, ergue o seu bravo.
Ergueste a voz em Dalila,
Contigo o artista adorei;
Depois em Lúcia choraste,
Contigo Lúcia chorei.
Falaste após, duro e frio,
No Cinismo — um calafrio
Passou-me gelado naima.
Eia, pois, Proteu da arte,
Que assim sabes transformar-te
Que a Proteu levas a palma.
Eia! o povo já admira
O gênio que em ti transluz,
Nem passa o gênio sem palmas
Na terra da Santa Cruz
Na terra das primaveras,
As glórias não são quimeras,
Nem o talento é um nome.
Aqui se admira o gênio,
Aqui se adora o proscênio,
Aqui se eleva um renome.
É bem risonha esta estrada
Das glórias ao brilho santo,
Ao ouvir vivos aplausos,
De — hosanas — a ouvir um canto;
Em cada dia uma palma,
Em cada momento umalma
Teu gênio sabe alcançar;
Deus ungiu-te a altiva fronte,
E, apontando-te o horizonte
Disse: "Eia! podes voar..."
Quanto és grande, — dizem todos
Que tem à arte, amor e fé;
Quanto és grande — di-lo o povo
Que ardente e sincero é.
Quanto és grande — o alaúde
Que entoa só canto rude,
Dizer-te procura em vão;
Que ao gênio só se admira...
Retratar não pode a lira
Mesmo em toda a inspiração.
Eia, avante! que o talento
Brilha sempre triunfal,
Como o sol ardente a pino
Aclara a montanha e o val.
Eia! Darte ó viajante
Coa fronte de luz brilhante
Vais ornado de lauréis;
Tens croas em vez de espinho
E, pois, no pó do caminho,
Lanço uma flor a teus pés.
Quem reanima pálidos perfis,
Gênio elevado - idéias tu geras
Gênio! este nono quanto vales, diz!
Franklin Dória
DO GÊNIO a estrada é difícil,
Mas é brilhante também,
Se o gênio marcha entre cardos,
Marcha entre a rosa — a cecém.
Ao vê-lo o mundo então pasma,
No peito a inveja marasma,
E cala-se o ódio ignavo,
E quem tem fogo na fronte,
Quem tem nalma rica fonte
De amores, ergue o seu bravo.
Ergueste a voz em Dalila,
Contigo o artista adorei;
Depois em Lúcia choraste,
Contigo Lúcia chorei.
Falaste após, duro e frio,
No Cinismo — um calafrio
Passou-me gelado naima.
Eia, pois, Proteu da arte,
Que assim sabes transformar-te
Que a Proteu levas a palma.
Eia! o povo já admira
O gênio que em ti transluz,
Nem passa o gênio sem palmas
Na terra da Santa Cruz
Na terra das primaveras,
As glórias não são quimeras,
Nem o talento é um nome.
Aqui se admira o gênio,
Aqui se adora o proscênio,
Aqui se eleva um renome.
É bem risonha esta estrada
Das glórias ao brilho santo,
Ao ouvir vivos aplausos,
De — hosanas — a ouvir um canto;
Em cada dia uma palma,
Em cada momento umalma
Teu gênio sabe alcançar;
Deus ungiu-te a altiva fronte,
E, apontando-te o horizonte
Disse: "Eia! podes voar..."
Quanto és grande, — dizem todos
Que tem à arte, amor e fé;
Quanto és grande — di-lo o povo
Que ardente e sincero é.
Quanto és grande — o alaúde
Que entoa só canto rude,
Dizer-te procura em vão;
Que ao gênio só se admira...
Retratar não pode a lira
Mesmo em toda a inspiração.
Eia, avante! que o talento
Brilha sempre triunfal,
Como o sol ardente a pino
Aclara a montanha e o val.
Eia! Darte ó viajante
Coa fronte de luz brilhante
Vais ornado de lauréis;
Tens croas em vez de espinho
E, pois, no pó do caminho,
Lanço uma flor a teus pés.
1 481
Castro Alves
Soneto
Á artista a Sra. D. JESUFNA MONTÁNI
DE GIOVANI na noite do espetáculo
em favor do Monte Pio da Bahia.
MOTE
"Das almas grandes a nobreza é esta."
GLOSA
AQUI, onde o talento verdadeiro
Não nega o povo o merecido preito;
Aqui onde no público respeito
Se conquista o brasão mais lisonjeiro.
Aqui onde o gênio sobranceiro
E, de torpes calúnias, ao efeito,
Jesuína, dos zoilos a despeito,
És tu que ocupas o lugar primeiro!
Repara como o povo te festeja...
Vê como em teu favor se manifesta,
Mau grado a mão, que, oculta, te apedreja!
Fazes bem desprezar quem te molesta;
Ser indif’rente ao regougar da inveja,
"Das almas grandes a nobreza é esta."
DE GIOVANI na noite do espetáculo
em favor do Monte Pio da Bahia.
MOTE
"Das almas grandes a nobreza é esta."
GLOSA
AQUI, onde o talento verdadeiro
Não nega o povo o merecido preito;
Aqui onde no público respeito
Se conquista o brasão mais lisonjeiro.
Aqui onde o gênio sobranceiro
E, de torpes calúnias, ao efeito,
Jesuína, dos zoilos a despeito,
És tu que ocupas o lugar primeiro!
Repara como o povo te festeja...
Vê como em teu favor se manifesta,
Mau grado a mão, que, oculta, te apedreja!
Fazes bem desprezar quem te molesta;
Ser indif’rente ao regougar da inveja,
"Das almas grandes a nobreza é esta."
1 438
Castro Alves
A Eugênia Câmara
AINDA UMA VEZ tu brilhas sobre o palco,
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...
Após a noite, que passou sombria,
A estrela-dalva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...
Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.
Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do poplar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.
O povo o povo
Maldiz as trevas, abençoa a luz
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
— Pra ti altares, não do poste a cruz.
Que queres? Ouve! — são mil palmas férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte — coroada estás.
Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens pra arrogante em breve
Distante ... longe ... mais além voar.
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...
Após a noite, que passou sombria,
A estrela-dalva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...
Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.
Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do poplar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.
O povo o povo
Maldiz as trevas, abençoa a luz
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
— Pra ti altares, não do poste a cruz.
Que queres? Ouve! — são mil palmas férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte — coroada estás.
Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens pra arrogante em breve
Distante ... longe ... mais além voar.
4 374
Emily Dickinson
À PORTA DE DEUS
Duas vezes perdi tudo
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
1 922
Mário de Sá-Carneiro
Torniquete
A tômbola anda depressa,
Nem sei quando irá parar ---
Aonde, pouco me importa;
O importante é que pare...
--- A minha vida não cessa
De ser sempre a mesma porta
Eternamente a abanar...
Abriu-se agora o salão
Onde há gente a conversar.
Entrei sem hesitação ---
Somente o que se vai dar?
A meio da reunião,
Pela certa disparato,
Volvo a mim a todo o pano:
Às cambalhotas desato,
E salto sobre o piano...
--- Vai ser bonita a função!
Esfrangalho as partituras,
Quebro toda a caqueirada,
Arrebento à gargalhada,
E fujo pelo saguão...
Meses depois, as gazetas
Darão críticas completas,
Indecentes e patetas,
Da minha última obra...
E eu --- prà cama outra vez,
Curtindo febre e revés,
Tocado de Estrela e Cobra...
Nem sei quando irá parar ---
Aonde, pouco me importa;
O importante é que pare...
--- A minha vida não cessa
De ser sempre a mesma porta
Eternamente a abanar...
Abriu-se agora o salão
Onde há gente a conversar.
Entrei sem hesitação ---
Somente o que se vai dar?
A meio da reunião,
Pela certa disparato,
Volvo a mim a todo o pano:
Às cambalhotas desato,
E salto sobre o piano...
--- Vai ser bonita a função!
Esfrangalho as partituras,
Quebro toda a caqueirada,
Arrebento à gargalhada,
E fujo pelo saguão...
Meses depois, as gazetas
Darão críticas completas,
Indecentes e patetas,
Da minha última obra...
E eu --- prà cama outra vez,
Curtindo febre e revés,
Tocado de Estrela e Cobra...
4 399
Fernando Pessoa
XXXV - Good. I have done. My heart weighs. I am sad.
Good. I have done. My heart weighs. I am sad.
The outer day, void statue of lit blue,
Is altogether outward, other, glad
At mere being not-I (so my aches construe).
I, that have failed in everything, bewail
Nothing this hour but that I have bewailed,
For in the general fate what is't to fail?
Why, fate being past for Fate, 'tis but to have failed.
Whatever hap or stop, what matters it,
Sith to the mattering our will bringeth nought?
With the higher trifling let us world our wit,
Conscious that, if we do t, that was the lot
The regular stars bound us to, when they stood
Godfathers to our birth and to our blood.
The outer day, void statue of lit blue,
Is altogether outward, other, glad
At mere being not-I (so my aches construe).
I, that have failed in everything, bewail
Nothing this hour but that I have bewailed,
For in the general fate what is't to fail?
Why, fate being past for Fate, 'tis but to have failed.
Whatever hap or stop, what matters it,
Sith to the mattering our will bringeth nought?
With the higher trifling let us world our wit,
Conscious that, if we do t, that was the lot
The regular stars bound us to, when they stood
Godfathers to our birth and to our blood.
4 211
Fernando Pessoa
V - I conquered. Far barbarians hear my name.
I conquered. Far barbarians hear my name.
Men were dice in my game,
But to my throw myself did lesser come:
I threw dice, Fate the sum.
Men were dice in my game,
But to my throw myself did lesser come:
I threw dice, Fate the sum.
3 927
Fernando Pessoa
Falhei. Os astros seguem seu caminho.
Falhei. Os astros seguem seu caminho.
Minha alma, outrora um universo meu,
É hoje, sei, um lúgubre escaninho
De consciência sob a morte e o céu.
Falhei. Quem sou vivi só de supô-lo.
O que tive por meu ou por haver
Fica sempre entre um pólo e o outro pólo
Do que me nunca há-de pertencer.
Falhei. Enfim! Consegui ser quem sou,
O que é já nada, com a lenha velha
Onde, pois valho só quanto me dou,
Pegarei facilmente uma centelha.
01/02/1933
Minha alma, outrora um universo meu,
É hoje, sei, um lúgubre escaninho
De consciência sob a morte e o céu.
Falhei. Quem sou vivi só de supô-lo.
O que tive por meu ou por haver
Fica sempre entre um pólo e o outro pólo
Do que me nunca há-de pertencer.
Falhei. Enfim! Consegui ser quem sou,
O que é já nada, com a lenha velha
Onde, pois valho só quanto me dou,
Pegarei facilmente uma centelha.
01/02/1933
4 238
Fernando Pessoa
Renego, lápis partido,
Renego, lápis partido,
Tudo quanto desejei.
E nem sonhei ser servido
Para onde nunca irei.
Pajem metido em farrapos
Da glória que outros tiveram,
Poderei amar os trapos
Por ser tudo que me deram.
E irei, príncipe mendigo,
Colher, com a boa gente,
Entre o ondular do trigo
A papoula inteligente.
12/04/1934
Tudo quanto desejei.
E nem sonhei ser servido
Para onde nunca irei.
Pajem metido em farrapos
Da glória que outros tiveram,
Poderei amar os trapos
Por ser tudo que me deram.
E irei, príncipe mendigo,
Colher, com a boa gente,
Entre o ondular do trigo
A papoula inteligente.
12/04/1934
4 430