Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Pablo Neruda
Os anos
Vai o tempo baixando talvez em meu corpo, em teu corpo, uma rosa,
e como um termômetro a idade da rosa desce à terra;
é lenta e delgada a linha de sua inexorável estreiteza
e na transparência do dia caminha a sede na taça
e se vai minorando a chama do vinho em teu corpo;
a rosa que esteve na altura de tua cabeleira
infundindo a pompa fragrante da primavera
pendeu transbordando os olhos com água de espadas e relâmpagos de água-marinha,
pôs no nariz um tremor de adeio de voo na sombra
e o rastro que deixa o aroma veloz do veado na selva
tudo foi percebido, caçado, queimado e perdido:
a rosa duplica os lábios curiosos e ansiosos do enamorado,
levanta os peitos compactos das açucenas
e cresce a dura donzela como um obelisco
até derramar-se em carícias molhadas pelo embelezamento
e baixa a rosa no filho matando a mãe
e volta a brilhar seu fulgor na altura do homem que nasce,
até que no trânsito cai do sexo a rosa
e cambaleia a idade na noite do frio
até que a terra recolhe teu corpo que já não floresce.
Não conto a paisagem, não diga o viajante que eu o examino,
não diga que vejo através de seu corpo de vidro a idade que sustenta ou demole seus passos,
eu sou o distante que leva em suas veias sua vida e a minha
e se participo de sua alma compartilho com ele o outono
e no movimento estrelado das estações floridas
resguardo a parte da primavera que lhe corresponde.
Foi minha obrigação transparente viver outras vidas,
morrer outras mortes e ressuscitar entre gente que não me conhece.
É esta a hora do mar circundante e pela janela compreendo
a água infinita que não me interessa. Sabei, companheiros,
que os pescadores de ouriços saíram e vejo sua mínima nave
tocar o penhasco de Ilha Negra distanciar-se bailando na espuma
enquanto sobe e desce na onda um aziago debate:
a proa cai de bruços e cede o vazio
até que outra vez se estabelece na espuma seu nenúfar negro.
Desceu mascarado ao silêncio o que era Rodríguez
e agora com roupa de esqualo chama-se sigilo e ondula
buscando colado à pedra o calado organismo
que pulsa entreaberto colado à sua mãe infinita
até que a faca separe a vida e a pedra
e o homem regressa levando em um saco o molusco
sangrento.
e como um termômetro a idade da rosa desce à terra;
é lenta e delgada a linha de sua inexorável estreiteza
e na transparência do dia caminha a sede na taça
e se vai minorando a chama do vinho em teu corpo;
a rosa que esteve na altura de tua cabeleira
infundindo a pompa fragrante da primavera
pendeu transbordando os olhos com água de espadas e relâmpagos de água-marinha,
pôs no nariz um tremor de adeio de voo na sombra
e o rastro que deixa o aroma veloz do veado na selva
tudo foi percebido, caçado, queimado e perdido:
a rosa duplica os lábios curiosos e ansiosos do enamorado,
levanta os peitos compactos das açucenas
e cresce a dura donzela como um obelisco
até derramar-se em carícias molhadas pelo embelezamento
e baixa a rosa no filho matando a mãe
e volta a brilhar seu fulgor na altura do homem que nasce,
até que no trânsito cai do sexo a rosa
e cambaleia a idade na noite do frio
até que a terra recolhe teu corpo que já não floresce.
Não conto a paisagem, não diga o viajante que eu o examino,
não diga que vejo através de seu corpo de vidro a idade que sustenta ou demole seus passos,
eu sou o distante que leva em suas veias sua vida e a minha
e se participo de sua alma compartilho com ele o outono
e no movimento estrelado das estações floridas
resguardo a parte da primavera que lhe corresponde.
Foi minha obrigação transparente viver outras vidas,
morrer outras mortes e ressuscitar entre gente que não me conhece.
É esta a hora do mar circundante e pela janela compreendo
a água infinita que não me interessa. Sabei, companheiros,
que os pescadores de ouriços saíram e vejo sua mínima nave
tocar o penhasco de Ilha Negra distanciar-se bailando na espuma
enquanto sobe e desce na onda um aziago debate:
a proa cai de bruços e cede o vazio
até que outra vez se estabelece na espuma seu nenúfar negro.
Desceu mascarado ao silêncio o que era Rodríguez
e agora com roupa de esqualo chama-se sigilo e ondula
buscando colado à pedra o calado organismo
que pulsa entreaberto colado à sua mãe infinita
até que a faca separe a vida e a pedra
e o homem regressa levando em um saco o molusco
sangrento.
1 110
Pablo Neruda
Um dia
Foi-se ontem, fez-se luz, fez-se fumaça, foi-se;
e outro dia compacto levanta uma lança no frio:
A quem falto? Que voz que não escuto me chama chorando
ou quem é o perdido no bosque com uma guitarra?
Talvez foge entre ramas molhadas o puma de pés amarelos
ou na rua San Diego, em Santiago do Chile, uma jovem vestida de hera
ao amar entrelaça seu abraço com aqueles jasmins amargos
que treparam em minha adolescência por minha voz quebrantando sacadas.
e outro dia compacto levanta uma lança no frio:
A quem falto? Que voz que não escuto me chama chorando
ou quem é o perdido no bosque com uma guitarra?
Talvez foge entre ramas molhadas o puma de pés amarelos
ou na rua San Diego, em Santiago do Chile, uma jovem vestida de hera
ao amar entrelaça seu abraço com aqueles jasmins amargos
que treparam em minha adolescência por minha voz quebrantando sacadas.
1 215
Pablo Neruda
Santos Revisitado
I.
SANTOS: É no Brasil, e faz já quatro vezes dez anos.
Alguém a meu lado conversa “Pelé é um super-homem”,
“Não sou um aficionado, mas na televisão eu gosto”.
Antes era selvático este porto e cheirava
como uma axila do Brasil caloroso.
“Caio de Santa Marta.” É um barco, e é outro, mil barcos!
Agora os frigoríficos estabelecerem catedrais
de belo cinza, e parecem
jogos de dados de deuses os brancos edifícios.
O café e o suor cresceram até criar as proas,
o pavimento, as habitações retilíneas:
quantos grãos de café, quantas gotas salobres
de suor? Talvez o mar
se encheria, mas a terra não, nunca a terra, nunca satisfeita,
faminta sempre de café, sedenta
de suor negro! Terra maldita, espero
que arrebentes um dia, de alimentos, de sacos mastigados
e de eterno suor de homens que já morreram
e foram substituídos para continuar suando.
II.
Aquele Santos de um dia de Junho, de quarenta anos menos,
volta a mim com um triste olor de tempo e bananeira,
com um cheiro de banana podre, esterco de ouro,
e uma raivosa chuva quente sob o sol.
Os trópicos me pareciam enfermidades do mundo,
feridas pululantes da terra. Adeus
noções: Aprendi o calor
como se aprendem as lágrimas, com sobressalto:
aprendi os meses da Monção e a insensata
fragrância da manga de Mandalay (penetrante
como flecha veloz de marfim e face),
e respeitei os templos sujos de meus semelhantes,
escuros como eu mesmo, idólatras como todos os homens.
III.
Quanto tu fazemos, quando eu fazemos a viagem do amor,
amor, Matilde, o mar ou tua boca redonda
são, somos a hora que despreendeu o então,
e cada dia corre buscando aniversário.
IV.
Santos, oh desonra do olvido, oh paciência
do tempo, que não só passou
mas que trouxe barcos brancos, verdes, sutis
e o tremor florestal se fez ferruginoso.
V.
Compreendo que escutei a esfera pondo o ouvido em um ponto
e às vezes ouço só um rumor de marés ou abelhas:
perdão se não pude e a tempo escutar essa locomotiva
ou o estrondo espacial da nave que estala em seu ovo de aço
e que sobe silvando entre constelações e temperaturas,
perdoem algum dia se não vi o crescimento dos edifícios
porque estava olhando crescer uma árvore, perdão.
Tratarei de cumprir com aquelas cidades que fugiram de minha alma
e se armaram de duras paredes, elevadores altivos,
deixando-me fora na chuva, olvidado nos anos ausentes,
agora que volto de então tiro o chapéu, e rio
saudando este grande esplendor sem desejo nem inveja:
sentindo-me vivo como uma laranja cortada conserva em sua metade de ouro o intacto vestido de ontem
e no outro hemisfério respeita o cimento crescente.
SANTOS: É no Brasil, e faz já quatro vezes dez anos.
Alguém a meu lado conversa “Pelé é um super-homem”,
“Não sou um aficionado, mas na televisão eu gosto”.
Antes era selvático este porto e cheirava
como uma axila do Brasil caloroso.
“Caio de Santa Marta.” É um barco, e é outro, mil barcos!
Agora os frigoríficos estabelecerem catedrais
de belo cinza, e parecem
jogos de dados de deuses os brancos edifícios.
O café e o suor cresceram até criar as proas,
o pavimento, as habitações retilíneas:
quantos grãos de café, quantas gotas salobres
de suor? Talvez o mar
se encheria, mas a terra não, nunca a terra, nunca satisfeita,
faminta sempre de café, sedenta
de suor negro! Terra maldita, espero
que arrebentes um dia, de alimentos, de sacos mastigados
e de eterno suor de homens que já morreram
e foram substituídos para continuar suando.
II.
Aquele Santos de um dia de Junho, de quarenta anos menos,
volta a mim com um triste olor de tempo e bananeira,
com um cheiro de banana podre, esterco de ouro,
e uma raivosa chuva quente sob o sol.
Os trópicos me pareciam enfermidades do mundo,
feridas pululantes da terra. Adeus
noções: Aprendi o calor
como se aprendem as lágrimas, com sobressalto:
aprendi os meses da Monção e a insensata
fragrância da manga de Mandalay (penetrante
como flecha veloz de marfim e face),
e respeitei os templos sujos de meus semelhantes,
escuros como eu mesmo, idólatras como todos os homens.
III.
Quanto tu fazemos, quando eu fazemos a viagem do amor,
amor, Matilde, o mar ou tua boca redonda
são, somos a hora que despreendeu o então,
e cada dia corre buscando aniversário.
IV.
Santos, oh desonra do olvido, oh paciência
do tempo, que não só passou
mas que trouxe barcos brancos, verdes, sutis
e o tremor florestal se fez ferruginoso.
V.
Compreendo que escutei a esfera pondo o ouvido em um ponto
e às vezes ouço só um rumor de marés ou abelhas:
perdão se não pude e a tempo escutar essa locomotiva
ou o estrondo espacial da nave que estala em seu ovo de aço
e que sobe silvando entre constelações e temperaturas,
perdoem algum dia se não vi o crescimento dos edifícios
porque estava olhando crescer uma árvore, perdão.
Tratarei de cumprir com aquelas cidades que fugiram de minha alma
e se armaram de duras paredes, elevadores altivos,
deixando-me fora na chuva, olvidado nos anos ausentes,
agora que volto de então tiro o chapéu, e rio
saudando este grande esplendor sem desejo nem inveja:
sentindo-me vivo como uma laranja cortada conserva em sua metade de ouro o intacto vestido de ontem
e no outro hemisfério respeita o cimento crescente.
867
Pablo Neruda
Noite - LXXXIV
Uma vez mais, amor, a rede do dia extingue
trabalhos, rodas, fogos, estertores, adeuses,
e à noite entregamos o trigo vacilante
que o meio-dia obteve da luz e a terra.
Só a lua no meio de sua página pura
sustém as colunas do estuário do céu,
a habitação adota a lentidão do ouro
e vão e vão tuas mãos preparando a noite.
Oh amor, oh noite, oh cúpula fechada por um rio
de impenetráveis águas na sombra do céu
que destaca e submerge suas uvas tempestuosas,
até que só sejamos um só espaço escuro,
uma taça em que a cinza celeste tomba,
uma gota no pulso de um lento e longo rio.
trabalhos, rodas, fogos, estertores, adeuses,
e à noite entregamos o trigo vacilante
que o meio-dia obteve da luz e a terra.
Só a lua no meio de sua página pura
sustém as colunas do estuário do céu,
a habitação adota a lentidão do ouro
e vão e vão tuas mãos preparando a noite.
Oh amor, oh noite, oh cúpula fechada por um rio
de impenetráveis águas na sombra do céu
que destaca e submerge suas uvas tempestuosas,
até que só sejamos um só espaço escuro,
uma taça em que a cinza celeste tomba,
uma gota no pulso de um lento e longo rio.
1 099
Pablo Neruda
Tarde - LXXVII
Hoje é hoje com o peso de todo o tempo ido,
com as asas de tudo o que será amanhã,
hoje é o Sul do mar, a velha idade da água
e a composição de um novo dia.
À tua boca elevada à luz ou à lua
se acresceram as pétalas de um dia consumido,
e ontem vem trotando por sua rua sombria
para que recordemos teu rosto que morreu.
Hoje, ontem e amanhã se comem caminhando,
consumimos um dia como uma vaca ardente,
nosso gado espera com seus dias contados,
mas em teu coração pôs sua farinha o tempo,
meu amor construiu um forno com barro de Temuco:
tu és o pão de cada dia para minha alma.
com as asas de tudo o que será amanhã,
hoje é o Sul do mar, a velha idade da água
e a composição de um novo dia.
À tua boca elevada à luz ou à lua
se acresceram as pétalas de um dia consumido,
e ontem vem trotando por sua rua sombria
para que recordemos teu rosto que morreu.
Hoje, ontem e amanhã se comem caminhando,
consumimos um dia como uma vaca ardente,
nosso gado espera com seus dias contados,
mas em teu coração pôs sua farinha o tempo,
meu amor construiu um forno com barro de Temuco:
tu és o pão de cada dia para minha alma.
1 166
Pablo Neruda
Tarde - LXVII
A grande chuva do Sul cai sobre Ilha Negra
como uma só gota transparente e pesada,
o mar abre suas folhas frias e a recebe,
a terra apreende o úmido destino de uma taça.
Alma minha, dá-me em teus beijos a água
salobre destes meses, o mel do território,
a fragrância molhada por mil lábios do céu,
a paciência sagrada do mar no inverno.
Algo nos chama, todas as portas se abrem sós,
relata a água um longo rumor às janelas,
cresce o céu para baixo tocando as raízes,
e assim tece e destece sua rede celeste o dia
com tempo, sal, sussurros, crescimentos, caminhos,
uma mulher, um homem e o inverno na terra.
LXVIII
(Carranca de Proa)
A menina de madeira não chegou caminhando:
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
como uma só gota transparente e pesada,
o mar abre suas folhas frias e a recebe,
a terra apreende o úmido destino de uma taça.
Alma minha, dá-me em teus beijos a água
salobre destes meses, o mel do território,
a fragrância molhada por mil lábios do céu,
a paciência sagrada do mar no inverno.
Algo nos chama, todas as portas se abrem sós,
relata a água um longo rumor às janelas,
cresce o céu para baixo tocando as raízes,
e assim tece e destece sua rede celeste o dia
com tempo, sal, sussurros, crescimentos, caminhos,
uma mulher, um homem e o inverno na terra.
LXVIII
(Carranca de Proa)
A menina de madeira não chegou caminhando:
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
1 253
Pablo Neruda
Parece Que Um Navio
Parece que um navio estranho
passará pelo mar, a certa hora.
Não é de ferro nem são alaranjadas
suas bandeiras,
ninguém sabe de onde
nem a hora,
tudo está preparado
e não há melhor salão, tudo disposto
ao passageiro acontecimento.
A espuma está disposta
como uma alfombra fina,
tecida com estrelas,
mais distante o azul,
o verde, o movimento ultramarinho,
tudo espera.
E aberto o rochedo,
lavado, limpo, eterno,
espalhado na areia
como um cordão de castelos,
como um cordão de torres.
Tudo está disposto,
o silêncio está convidado,
e até homens, sempre distraídos,
esperam não perder presença;
vestiram-se como em dia Domingo,
lustraram as botas,
pentearam-se.
Estão ficando velhos
e o navio não passa.
passará pelo mar, a certa hora.
Não é de ferro nem são alaranjadas
suas bandeiras,
ninguém sabe de onde
nem a hora,
tudo está preparado
e não há melhor salão, tudo disposto
ao passageiro acontecimento.
A espuma está disposta
como uma alfombra fina,
tecida com estrelas,
mais distante o azul,
o verde, o movimento ultramarinho,
tudo espera.
E aberto o rochedo,
lavado, limpo, eterno,
espalhado na areia
como um cordão de castelos,
como um cordão de torres.
Tudo está disposto,
o silêncio está convidado,
e até homens, sempre distraídos,
esperam não perder presença;
vestiram-se como em dia Domingo,
lustraram as botas,
pentearam-se.
Estão ficando velhos
e o navio não passa.
1 405
Pablo Neruda
Noite - XCII
Amor meu, se morro e tu não morres,
amor meu, se morres e não morro,
não demos à dor mais território:
não há extensão como a que vivemos.
Pó no trigo, areia nas areias,
o tempo, a água errante, o vento vago
nos transportou como grão-navegante.
Podemos não nos encontrar no tempo.
Esta campina em que nos achamos,
oh pequeno infinito! devolvemos.
Mas este amor, amor, não terminou,
e assim como não teve nascimento
morte não tem, é como um longo rio,
só muda de terras e de lábios.
amor meu, se morres e não morro,
não demos à dor mais território:
não há extensão como a que vivemos.
Pó no trigo, areia nas areias,
o tempo, a água errante, o vento vago
nos transportou como grão-navegante.
Podemos não nos encontrar no tempo.
Esta campina em que nos achamos,
oh pequeno infinito! devolvemos.
Mas este amor, amor, não terminou,
e assim como não teve nascimento
morte não tem, é como um longo rio,
só muda de terras e de lábios.
1 107
Pablo Neruda
O Mar E Os Jasmins
De tua mão pequena em outra hora
saíram criaturas
debulhadas
no espanto da geografia.
Assim voltou Camões
para deixar-te um ramo de jasmins
que continuou florescendo.
A inteligência ardeu como uma vinha
de transparentes uvas
em tua raça.
Guerra Junqueiro entre as ondas
deixou tombar seu trovão
de liberdade bravia
que transportou o oceano em seu canto,
e outros multiplicaram
teu esplendor de roseiras e cachos
como se de teu território estreito
brotassem grandes mãos
derramando sementes
para toda a terra.
No entanto,
o tempo te enterrou.
O pó clerical
acumulado em Coimbra
caiu em teu rosto
de laranja oceânica
e cobriu o esplendor de tua cintura.
saíram criaturas
debulhadas
no espanto da geografia.
Assim voltou Camões
para deixar-te um ramo de jasmins
que continuou florescendo.
A inteligência ardeu como uma vinha
de transparentes uvas
em tua raça.
Guerra Junqueiro entre as ondas
deixou tombar seu trovão
de liberdade bravia
que transportou o oceano em seu canto,
e outros multiplicaram
teu esplendor de roseiras e cachos
como se de teu território estreito
brotassem grandes mãos
derramando sementes
para toda a terra.
No entanto,
o tempo te enterrou.
O pó clerical
acumulado em Coimbra
caiu em teu rosto
de laranja oceânica
e cobriu o esplendor de tua cintura.
1 118
Pablo Neruda
XIII - Os homens
Chegamos muito longe, muito longe
para entender as órbitas de pedra,
os olhos extintos que continuam olhando,
os grandes rostos dispostos para a eternidade.
para entender as órbitas de pedra,
os olhos extintos que continuam olhando,
os grandes rostos dispostos para a eternidade.
1 144
Pablo Neruda
Noite - XCI
A idade nos cobre como a garoa,
interminável e árido é o tempo,
uma pluma de sal toca teu rosto,
uma goteira corroeu minha roupa:
o tempo não distingue entre minhas mãos
ou um voo de laranjas nas tuas:
fere com neve ou enxadão a vida:
a vida tua que é a vida minha.
A vida minha que te dei se enche
de anos, como o volume de um cacho.
Regressarão as uvas à terra.
E ainda lá embaixo o tempo segue sendo,
esperando, chovendo sobre o pó,
ávido de apagar até a ausência.
interminável e árido é o tempo,
uma pluma de sal toca teu rosto,
uma goteira corroeu minha roupa:
o tempo não distingue entre minhas mãos
ou um voo de laranjas nas tuas:
fere com neve ou enxadão a vida:
a vida tua que é a vida minha.
A vida minha que te dei se enche
de anos, como o volume de um cacho.
Regressarão as uvas à terra.
E ainda lá embaixo o tempo segue sendo,
esperando, chovendo sobre o pó,
ávido de apagar até a ausência.
1 060
Pablo Neruda
O Herói
Em uma rua de Santiago
tem vivido um homem desnudo
por tantos longos anos, sim,
sem calçar-se, não, sem vestir-se
e com chapéu, no entretanto.
Sem mais roupagem que seus pêlos
este varão filosofante
mostrou-se no balcão às vezes
e viu-o a cidadania
como um nudista solitário
inimigo das camisas,
da calça e da casaca.
Assim passavam as modas,
desapareciam os coletes
e voltavam certas lapelas,
certas bengalas em desuso:
tudo era ressurreição
e eram enterros na roupa,
tudo, menos aquele mortal
tão nu quanto veio ao mundo,
desdenhoso como os deuses
dedicados à ginástica.
(Os testemunhos e as testemunhas
do habitante singular
dão detalhes que me estremecem
ao mostrar a transformação
do homem e sua fisiologia.)
Depois daquela nudez
com quarenta anos de nu
da cabeça até os pés
se cobriu com escamas negras
e os cabelos lhe cobriram
de tal maneira os olhos
que nunca mais pôde ler,
nem do dia os jornais.
Assim ficou seu pensamento
fixo em um ponto do passado
como o antigo editorial
de um jornal desaparecido.
(Curioso caso o daquele varão
que morreu quando perseguia
seu canário no terraço.)
Fica provado nesta história
que a boa fé não resiste
às investidas do inverno.
tem vivido um homem desnudo
por tantos longos anos, sim,
sem calçar-se, não, sem vestir-se
e com chapéu, no entretanto.
Sem mais roupagem que seus pêlos
este varão filosofante
mostrou-se no balcão às vezes
e viu-o a cidadania
como um nudista solitário
inimigo das camisas,
da calça e da casaca.
Assim passavam as modas,
desapareciam os coletes
e voltavam certas lapelas,
certas bengalas em desuso:
tudo era ressurreição
e eram enterros na roupa,
tudo, menos aquele mortal
tão nu quanto veio ao mundo,
desdenhoso como os deuses
dedicados à ginástica.
(Os testemunhos e as testemunhas
do habitante singular
dão detalhes que me estremecem
ao mostrar a transformação
do homem e sua fisiologia.)
Depois daquela nudez
com quarenta anos de nu
da cabeça até os pés
se cobriu com escamas negras
e os cabelos lhe cobriram
de tal maneira os olhos
que nunca mais pôde ler,
nem do dia os jornais.
Assim ficou seu pensamento
fixo em um ponto do passado
como o antigo editorial
de um jornal desaparecido.
(Curioso caso o daquele varão
que morreu quando perseguia
seu canário no terraço.)
Fica provado nesta história
que a boa fé não resiste
às investidas do inverno.
660
Pablo Neruda
De Uma Viagem
De uma viagem volto ao mesmo ponto,
por quê?
Por que não volto aonde antes vivi,
ruas, países, continentes, ilhas,
onde tive e estive?
Por que será este lugar a fronteira
que me elegeu, que tem este recinto
senão um látego de ar vertical
sobre meu rosto, e umas flores negras
que o longo inverno morde e despedaça?
Ai, que me assinalam:
— este é o preguiçoso,
o senhor enferrujado,
daqui não se moveu,
deste duro recinto
foi ficando imóvel
até que endureceram seus olhos
e cresceu-lhe uma hera no olhar.
por quê?
Por que não volto aonde antes vivi,
ruas, países, continentes, ilhas,
onde tive e estive?
Por que será este lugar a fronteira
que me elegeu, que tem este recinto
senão um látego de ar vertical
sobre meu rosto, e umas flores negras
que o longo inverno morde e despedaça?
Ai, que me assinalam:
— este é o preguiçoso,
o senhor enferrujado,
daqui não se moveu,
deste duro recinto
foi ficando imóvel
até que endureceram seus olhos
e cresceu-lhe uma hera no olhar.
1 288
Pablo Neruda
Índia, 1951
Na Índia
de novo,
outra vez
o aroma
de frutas mortas, o
grasnido
de corvos.
Senti que se oprimia
dentro de um vaso quebrado
meu coração, ouvi
passos,
passos que morreram,
passos.
Ramagem
de raças e de túnicas,
Índia,
materna, entrelaçada,
angusta, cruel, remota,
eras a mesma.
Os grandes rios sepultando corpos,
a cor de açafrão nas colinas,
mas agora
não era minha juventude, minha solitária adolescência vagante.
Agora
as flores me esperavam,
caíram em meu colo,
e um nome,
uma carta,
uma simples sílaba
vinha
lá do cárcere para reconhecer-me.
Terras de Telenghana,
mártires, criaturas
colhidas entre
dois fogos,
as metralhadoras do governo,
os cárceres
do Nizam de Hyderabad.
Camponeses caídos
nas que já creram
terras suas,
agora
com Parlamento próprio,
sem ingleses,
e a velha miséria,
a fome
ululando nas aldeias.
Esperando,
esperando
sempre viveu a Índia,
sentada
junto ao rio do tempo,
esperando.
Passavam os guerreiros
de pés ensanguentados,
os príncipes
comedores de pérolas,
os ingleses
impassíveis,
os sacerdotes frios
como sáurios,
estudando o umbigo
da terra e do céu,
todos
devorando-te algo,
passageiros, piratas, mercenários,
e tu, mãe do mundo,
sentada junto ao rio
do tempo
fiando e esperando.
Agora os poetas,
Sirdard Jaffris ou o outro,
o magro ou o barbudo,
saíam do cárcere.
A poesia
na Índia
entrava no calabouço,
saía e regressava,
aprendendo
a liberdade entre os prisioneiros,
conhecendo
as penas,
os dialetos, as dores,
as palavras secretas
dos ensimesmados camponeses,
a queixa dolorosa,
as abertas feridas,
a doçura rebelde
que avança levantando seu estandarte
de estrelas e pombas.
Útero da terra, território
fechado em que fermentam
as uvas da História.
Antiga irmã
dos velhos planetas,
eu soube agora,
escutando os cantos nos povoados,
as iras debulhadas,
os punhos no vento,
soube
que se levantarão tuas estaturas,
que se acumulará teu poderio,
que darás a teu povo
o pão que lhe negavas,
e que já não veremos
passar detrás do ouro,
cruzar detrás do rito
deslumbrador da teogonia,
a fome com sua escova
varrendo pobres ossos e sujeiras
no lado do caminho.
Índia, levanta
tua juventude, incita
teu relógio para marcar a hora que vem.
Adianta-te e colhe
no horário o alto meio-dia.
São antigas tuas flechas.
Sobe-as à tua testa e crava
no horário teu destino.
de novo,
outra vez
o aroma
de frutas mortas, o
grasnido
de corvos.
Senti que se oprimia
dentro de um vaso quebrado
meu coração, ouvi
passos,
passos que morreram,
passos.
Ramagem
de raças e de túnicas,
Índia,
materna, entrelaçada,
angusta, cruel, remota,
eras a mesma.
Os grandes rios sepultando corpos,
a cor de açafrão nas colinas,
mas agora
não era minha juventude, minha solitária adolescência vagante.
Agora
as flores me esperavam,
caíram em meu colo,
e um nome,
uma carta,
uma simples sílaba
vinha
lá do cárcere para reconhecer-me.
Terras de Telenghana,
mártires, criaturas
colhidas entre
dois fogos,
as metralhadoras do governo,
os cárceres
do Nizam de Hyderabad.
Camponeses caídos
nas que já creram
terras suas,
agora
com Parlamento próprio,
sem ingleses,
e a velha miséria,
a fome
ululando nas aldeias.
Esperando,
esperando
sempre viveu a Índia,
sentada
junto ao rio do tempo,
esperando.
Passavam os guerreiros
de pés ensanguentados,
os príncipes
comedores de pérolas,
os ingleses
impassíveis,
os sacerdotes frios
como sáurios,
estudando o umbigo
da terra e do céu,
todos
devorando-te algo,
passageiros, piratas, mercenários,
e tu, mãe do mundo,
sentada junto ao rio
do tempo
fiando e esperando.
Agora os poetas,
Sirdard Jaffris ou o outro,
o magro ou o barbudo,
saíam do cárcere.
A poesia
na Índia
entrava no calabouço,
saía e regressava,
aprendendo
a liberdade entre os prisioneiros,
conhecendo
as penas,
os dialetos, as dores,
as palavras secretas
dos ensimesmados camponeses,
a queixa dolorosa,
as abertas feridas,
a doçura rebelde
que avança levantando seu estandarte
de estrelas e pombas.
Útero da terra, território
fechado em que fermentam
as uvas da História.
Antiga irmã
dos velhos planetas,
eu soube agora,
escutando os cantos nos povoados,
as iras debulhadas,
os punhos no vento,
soube
que se levantarão tuas estaturas,
que se acumulará teu poderio,
que darás a teu povo
o pão que lhe negavas,
e que já não veremos
passar detrás do ouro,
cruzar detrás do rito
deslumbrador da teogonia,
a fome com sua escova
varrendo pobres ossos e sujeiras
no lado do caminho.
Índia, levanta
tua juventude, incita
teu relógio para marcar a hora que vem.
Adianta-te e colhe
no horário o alto meio-dia.
São antigas tuas flechas.
Sobe-as à tua testa e crava
no horário teu destino.
1 189
Pablo Neruda
Integrações
Depois de tudo te amarei
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.
1 989
Pablo Neruda
As Tuas Mãos
Quando as tuas mãos saem,
amor, até mim,
que me traz o seu voo?
Porque se detiveram
na minha boca, de súbito,
porque as reconheço
como se acaso, antes,
lhes tivesse tocado,
como se antes de existirem
tivessem percorrido
a minha testa, a minha cintura?
A sua suavidade vinha
voando sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
sobre a primavera,
e quando as puseste
no meu peito,
reconheci essas asas
de pomba dourada,
reconheci esse giz
e essa cor de trigo.
Os anos da minha vida
percorri-os à sua procura.
Subi as escadas,
atravessei os recifes,
levaram-me os comboios,
as águas trouxeram-me,
e na pele das uvas
senti o teu toque.
A madeira de súbito
trouxe-me o teu contacto,
a amêndoa anunciava-me
a tua suavidade secreta,
até que as tuas mãos
se fecharam no meu peito
e ali como duas asas
chegou ao fim a sua viagem.
amor, até mim,
que me traz o seu voo?
Porque se detiveram
na minha boca, de súbito,
porque as reconheço
como se acaso, antes,
lhes tivesse tocado,
como se antes de existirem
tivessem percorrido
a minha testa, a minha cintura?
A sua suavidade vinha
voando sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
sobre a primavera,
e quando as puseste
no meu peito,
reconheci essas asas
de pomba dourada,
reconheci esse giz
e essa cor de trigo.
Os anos da minha vida
percorri-os à sua procura.
Subi as escadas,
atravessei os recifes,
levaram-me os comboios,
as águas trouxeram-me,
e na pele das uvas
senti o teu toque.
A madeira de súbito
trouxe-me o teu contacto,
a amêndoa anunciava-me
a tua suavidade secreta,
até que as tuas mãos
se fecharam no meu peito
e ali como duas asas
chegou ao fim a sua viagem.
1 976
Pablo Neruda
Todos
Todos
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
1 163
Pablo Neruda
Saúde, Dizemos Cada Dia
Saúde, dizemos cada dia,
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
1 251
Pablo Neruda
O Tempo Que Não Se Perdeu
Não se contam as ilusões
nem as compreensões amargas,
não há medida para contar
o que não podia acontecer-nos,
o que nos rondou como besouro
sem que tivéssemos percebido
do que estávamos perdendo.
Perder até perder a vida
é viver a vida e a morte
não são coisas passageiras
mas sim constantes, evidentes,
a continuidade do vazio,
o silêncio em que cai tudo
e por fim nos mesmos caímos.
Ai! o que esteve tão cerca
sem que pudéssemos saber.
Ai! o que não podia ser
quando talvez podia ser.
Tantas asas circunvoaram
as montanhas da tristeza
e tantas rodas sacudiram
a estrada do destino
que já não há nada a perder.
Terminaram-se os lamentos.
nem as compreensões amargas,
não há medida para contar
o que não podia acontecer-nos,
o que nos rondou como besouro
sem que tivéssemos percebido
do que estávamos perdendo.
Perder até perder a vida
é viver a vida e a morte
não são coisas passageiras
mas sim constantes, evidentes,
a continuidade do vazio,
o silêncio em que cai tudo
e por fim nos mesmos caímos.
Ai! o que esteve tão cerca
sem que pudéssemos saber.
Ai! o que não podia ser
quando talvez podia ser.
Tantas asas circunvoaram
as montanhas da tristeza
e tantas rodas sacudiram
a estrada do destino
que já não há nada a perder.
Terminaram-se os lamentos.
1 361
Pablo Neruda
Outra Coisa
Sucedem-se tão poucas coisas
que devo sempre recontá-las.
Ninguém me dá asfodelos
e ninguém me faz suspirar.
Porque cheguei à encruzilhada
de um arrevesado destino
quando se apagam os relógios
e cai o céu sobre o céu
até que o dia moribundo
tira a lua para passear.
Até quando se desenreda
esta beleza equinocial
que de verde passa à redonda,
de onda marinha à catarata,
de sol soberbo à lua branca,
de solidão a capitólio,
sem que se altere a equação
do mundo em que não ocorre nada.
Não ocorre nada senão um dia
que como exemplar estudante
se senta com seus galardões
atrás de outro dia premiado,
até que o coro semanal
se converteu num anel
que nem a noite transfigura
porque chega tão adornada,
tão portentosa como sempre.
Vamos ver se pescam peixes loucos
que subam como ornitorrincos
pelas paredes de minha casa
e rompam o novo equilíbrio
que me persegue e me atormenta.
que devo sempre recontá-las.
Ninguém me dá asfodelos
e ninguém me faz suspirar.
Porque cheguei à encruzilhada
de um arrevesado destino
quando se apagam os relógios
e cai o céu sobre o céu
até que o dia moribundo
tira a lua para passear.
Até quando se desenreda
esta beleza equinocial
que de verde passa à redonda,
de onda marinha à catarata,
de sol soberbo à lua branca,
de solidão a capitólio,
sem que se altere a equação
do mundo em que não ocorre nada.
Não ocorre nada senão um dia
que como exemplar estudante
se senta com seus galardões
atrás de outro dia premiado,
até que o coro semanal
se converteu num anel
que nem a noite transfigura
porque chega tão adornada,
tão portentosa como sempre.
Vamos ver se pescam peixes loucos
que subam como ornitorrincos
pelas paredes de minha casa
e rompam o novo equilíbrio
que me persegue e me atormenta.
1 157
Pablo Neruda
Enigmas Para Intranquilos
Pelos dias do ano que virá
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
1 186
Pablo Neruda
Outro Castelo
Não sou, não sou o ígneo,
sou feito de roupa, reumatismo,
papéis rasgados, encontros esquecidos,
pobres signos rupestres
no que foram pedras orgulhosas.
No que ficou o castelo da chuva,
a adolescência com seus tristes sonhos
e aquele propósito entreaberto
de ave estendida, de águia no céu,
de fogo heráldico?
Não sou, não sou o raio
de fogo azul, cravado como lança
em qualquer coração sem amargura.
A vida não é a ponta de um punhal,
não é um golpe de estrela,
mas um gastar-se dentro de um vestuário,
um sapato mil vezes repetido,
uma medalha que se vai oxidando
dentro de uma caixa escura, escura.
Não peço nova rosa nem dores,
nem indiferença é o que me consome,
mas cada signo que se escreveu,
o sal e o vento borram a escrita
e a alma agora é um tambor calado
à margem de um rio, daquele rio
que estava ali e ali continuará sendo.
sou feito de roupa, reumatismo,
papéis rasgados, encontros esquecidos,
pobres signos rupestres
no que foram pedras orgulhosas.
No que ficou o castelo da chuva,
a adolescência com seus tristes sonhos
e aquele propósito entreaberto
de ave estendida, de águia no céu,
de fogo heráldico?
Não sou, não sou o raio
de fogo azul, cravado como lança
em qualquer coração sem amargura.
A vida não é a ponta de um punhal,
não é um golpe de estrela,
mas um gastar-se dentro de um vestuário,
um sapato mil vezes repetido,
uma medalha que se vai oxidando
dentro de uma caixa escura, escura.
Não peço nova rosa nem dores,
nem indiferença é o que me consome,
mas cada signo que se escreveu,
o sal e o vento borram a escrita
e a alma agora é um tambor calado
à margem de um rio, daquele rio
que estava ali e ali continuará sendo.
1 183
Pablo Neruda
Ix - Celebração
Coloquemos os sapatos, a camisa listada,
o terno azul embora já brilhem os cotovelos,
coloquemos os fogos de bengala e de artifício,
coloquemos vinho e cerveja entre o pescoço e os pés,
porque devidamente devemos celebrar
este número imenso que custou tanto tempo,
tantos anos e dias em pacotes,
tantas horas, tantos milhões de minutos,
vamos celebrar esta inauguração.
Desengarrafemos todas as alegrias resguardadas
e busquemos alguma noiva perdida
que aceite uma festiva dentada.
Hoje é. Hoje chegou. Pisamos o tapete
do interrogativo milênio. O coração, a amêndoa
da época crescente, a uva definitiva
irá se depositando em nós,
e será a verdade tão esperada.
Enquanto isso uma folha da folhagem
acrescenta o começo da idade:
ramo a ramo se cruzará a ramagem,
folha a folha subirão os dias
e fruto a fruto chegará a paz:
a árvore da sorte se prepara
desde a encarniçada raiz que sobrevive
buscando a água, a verdade, a vida.
Hoje é hoje. Chegou esta manhã
preparada por muita escuridão:
não sabemos se é claro porém
este mundo recém-inaugurado:
nós o aclararemos, nós o escureceremos
até que seja dourado e queimado
como os grãos duros do milho:
para cada um, os recém-nascidos,
os sobreviventes, os cegos,
os mudos, os mancos e coxos,
para que vejam e para que falem,
para que sobrevivam e corram,
para que agarrem a futura fruta
do reino atual que deixamos aberto
tanto para o explorador como para a rainha,
tanto para o interrogante cosmonauta
como para o agricultor tradicional,
para as abelhas que chegam agora
para participar da colmeia
e sobretudo para os povos recentes,
para os povos crescentes desde agora
com as novas bandeiras que nasceram
em cada gota de sangue ou suor.
Hoje é hoje e ontem se foi, não há dúvida.
Hoje é também amanhã, e eu me fui
com algum ano frio que se foi,
se foi comigo e me levou naquele ano.
Disto não há dúvida. Minha ossatura
consistiu, às vezes, em palavras duras
como ossos ao ar e à chuva,
e pude celebrar o que acontece
deixando em vez de canto ou testemunho
um obstinado esqueleto de palavras.
o terno azul embora já brilhem os cotovelos,
coloquemos os fogos de bengala e de artifício,
coloquemos vinho e cerveja entre o pescoço e os pés,
porque devidamente devemos celebrar
este número imenso que custou tanto tempo,
tantos anos e dias em pacotes,
tantas horas, tantos milhões de minutos,
vamos celebrar esta inauguração.
Desengarrafemos todas as alegrias resguardadas
e busquemos alguma noiva perdida
que aceite uma festiva dentada.
Hoje é. Hoje chegou. Pisamos o tapete
do interrogativo milênio. O coração, a amêndoa
da época crescente, a uva definitiva
irá se depositando em nós,
e será a verdade tão esperada.
Enquanto isso uma folha da folhagem
acrescenta o começo da idade:
ramo a ramo se cruzará a ramagem,
folha a folha subirão os dias
e fruto a fruto chegará a paz:
a árvore da sorte se prepara
desde a encarniçada raiz que sobrevive
buscando a água, a verdade, a vida.
Hoje é hoje. Chegou esta manhã
preparada por muita escuridão:
não sabemos se é claro porém
este mundo recém-inaugurado:
nós o aclararemos, nós o escureceremos
até que seja dourado e queimado
como os grãos duros do milho:
para cada um, os recém-nascidos,
os sobreviventes, os cegos,
os mudos, os mancos e coxos,
para que vejam e para que falem,
para que sobrevivam e corram,
para que agarrem a futura fruta
do reino atual que deixamos aberto
tanto para o explorador como para a rainha,
tanto para o interrogante cosmonauta
como para o agricultor tradicional,
para as abelhas que chegam agora
para participar da colmeia
e sobretudo para os povos recentes,
para os povos crescentes desde agora
com as novas bandeiras que nasceram
em cada gota de sangue ou suor.
Hoje é hoje e ontem se foi, não há dúvida.
Hoje é também amanhã, e eu me fui
com algum ano frio que se foi,
se foi comigo e me levou naquele ano.
Disto não há dúvida. Minha ossatura
consistiu, às vezes, em palavras duras
como ossos ao ar e à chuva,
e pude celebrar o que acontece
deixando em vez de canto ou testemunho
um obstinado esqueleto de palavras.
1 047
Pablo Neruda
V - Os Convidados
E nós os mortos, os escalonados no tempo,
semeados em cemitérios utilitários e arrogantes
ou caídos em ossários de pobres bolivianos,
nós, os mortos de 1925, 26,
33, 1940, 1918, mil novecentos e cinco,
mil novecentos e mil, enfim, nós,
os falecidos antes desta estúpida cifra
em que já não vivemos, que acontece conosco?
Eu, Pedro Páramo, Pedro Semente, Pedro Ninguém,
não tive direito a quatro números e à ressurreição?
Quero ver os ressuscitados para cuspir-lhes na cara,
os precoces que estão a ponto de cair
em aviões, bondes, nas guerras do ódio,
os que apenas tiveram tempo de nascer e apresentar
armas ao novo século e ficaram derrubados,
apodrecendo na metade dos festejos e do vinho!
Quero sair de minha tumba, eu morto, por que não?
Por que os prematuros vão ser esquecidos?
Todos são convidados à reunião!
É um ano mais, é um século mais, com mortos e vivos,
e tem-se que cuidar do protocolo, por não só a vida,
mas também as flores secas, as coroas apodrecidas, o silêncio,
porque o silêncio tem direito à formosura
e nós, indicados da morte,
queremos existir um só minuto florido
quando se abrirem as portas da honra vindoura!
semeados em cemitérios utilitários e arrogantes
ou caídos em ossários de pobres bolivianos,
nós, os mortos de 1925, 26,
33, 1940, 1918, mil novecentos e cinco,
mil novecentos e mil, enfim, nós,
os falecidos antes desta estúpida cifra
em que já não vivemos, que acontece conosco?
Eu, Pedro Páramo, Pedro Semente, Pedro Ninguém,
não tive direito a quatro números e à ressurreição?
Quero ver os ressuscitados para cuspir-lhes na cara,
os precoces que estão a ponto de cair
em aviões, bondes, nas guerras do ódio,
os que apenas tiveram tempo de nascer e apresentar
armas ao novo século e ficaram derrubados,
apodrecendo na metade dos festejos e do vinho!
Quero sair de minha tumba, eu morto, por que não?
Por que os prematuros vão ser esquecidos?
Todos são convidados à reunião!
É um ano mais, é um século mais, com mortos e vivos,
e tem-se que cuidar do protocolo, por não só a vida,
mas também as flores secas, as coroas apodrecidas, o silêncio,
porque o silêncio tem direito à formosura
e nós, indicados da morte,
queremos existir um só minuto florido
quando se abrirem as portas da honra vindoura!
1 039