Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Raimundo Bento Sotero
O trágico destino das palavras
Outro dia encontrei, por mero acaso,
Um livro, um tanto velho, amarelado,
Carcomido do tempo, mui traçado.
Era um clássico entregue ao vil descaso.
Prontamente o peguei naquele azo,
Ia ler; mas fiquei embaraçado
No português há muito desusado.
Pensei comigo: tudo tem ocaso.
A palavra é tal qual a criatura.
Esta ao nascer já ganha a sepultura
E trás a extrema-unção no batistério.
Aquela também morre, entretanto,
Fica por lá jazendo no seu canto,
Pois o livro é o seu próprio cemitério.
Um livro, um tanto velho, amarelado,
Carcomido do tempo, mui traçado.
Era um clássico entregue ao vil descaso.
Prontamente o peguei naquele azo,
Ia ler; mas fiquei embaraçado
No português há muito desusado.
Pensei comigo: tudo tem ocaso.
A palavra é tal qual a criatura.
Esta ao nascer já ganha a sepultura
E trás a extrema-unção no batistério.
Aquela também morre, entretanto,
Fica por lá jazendo no seu canto,
Pois o livro é o seu próprio cemitério.
957
Luís António Cajazeira Ramos
Soneto Contemporâneo
Aos coeternos.
Penetra surdamente no reino das palavras,
que outro valor mais alto se alevanta.
Drummond/Camões
Que vem a ser fazer poesia de seu tempo?
Eu faço a do momento, a poesia de hoje.
Eu faço sempre hoje, pois meu tempo é hoje.
Toda a poesia é hoje, pois hoje é seu tempo.
Hoje é sempre o momento de fazer poesia.
Choveu hoje? faz sol hoje? que dia é hoje?
Meteorologia e calendário não, hoje.
Hoje não! Hoje é dia de fazer poesia.
De hoje que Camões é de hoje também!
Carlos Drummond de Andrade é de hoje também.
Todos são de hoje, destacados do tempo.
Não me venham com necessidade de ser
linguagem nova, tudo novo, tudo a ser,
pois na poesia estou destacado do tempo.
Penetra surdamente no reino das palavras,
que outro valor mais alto se alevanta.
Drummond/Camões
Que vem a ser fazer poesia de seu tempo?
Eu faço a do momento, a poesia de hoje.
Eu faço sempre hoje, pois meu tempo é hoje.
Toda a poesia é hoje, pois hoje é seu tempo.
Hoje é sempre o momento de fazer poesia.
Choveu hoje? faz sol hoje? que dia é hoje?
Meteorologia e calendário não, hoje.
Hoje não! Hoje é dia de fazer poesia.
De hoje que Camões é de hoje também!
Carlos Drummond de Andrade é de hoje também.
Todos são de hoje, destacados do tempo.
Não me venham com necessidade de ser
linguagem nova, tudo novo, tudo a ser,
pois na poesia estou destacado do tempo.
2 204
Renier Dias Pereira
Silêncio Provocador
Silêncio Provocador
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
953
Ronaldo Cagiano
Pórtico
Na velha ponte
de Cataguases,
belvedere entre montanhas
vislumbro uma lâmina mordaz
na incontida fugacidade das águas
do Rio Pomba.
O leito que escorre inexorável
diante dos meus olhos,
carrega histórias & cansaços
numa retroviagem sem tamanho
diante do menino perplexo
que a tudo esgarça
com inquirição ou pranto.
A cidade, as pessoas, o vário tempo
são remotas cintilações de antanho,
mas ainda perdura
no mofo das amuradas
nos vetustos oitizeiros da rua
nos trilhos da velha estação
a oficina de sonhos
que hiberna no rigor
de tantos (des)caminhos.
de Cataguases,
belvedere entre montanhas
vislumbro uma lâmina mordaz
na incontida fugacidade das águas
do Rio Pomba.
O leito que escorre inexorável
diante dos meus olhos,
carrega histórias & cansaços
numa retroviagem sem tamanho
diante do menino perplexo
que a tudo esgarça
com inquirição ou pranto.
A cidade, as pessoas, o vário tempo
são remotas cintilações de antanho,
mas ainda perdura
no mofo das amuradas
nos vetustos oitizeiros da rua
nos trilhos da velha estação
a oficina de sonhos
que hiberna no rigor
de tantos (des)caminhos.
800
Cirstina Areias
Dispersão
Je me sens eparpillée travers les siècles...
Eu me sinto espalhada pelos séculos...
Há pedaços de mim na Grécia Antiga,
Há pedaços de mim na imensidão,
Meteoros de mim me ultrapassam,
Estou além e estou aquém
Sem rumo eu sou.
Não é meu o meu sonho, minha tristeza,
O meu verso cativo,
Alguém levou
O poeta de ontem e de sempre
Violou minha alma,
Me roubou.
Não pertence a mim o sentimento
A palavra me escapa,
O sangue esvai
Eu não vivo,
Eu existo nas estrelas
Dos que foram, dos que estão,
Dos que virão.
Demócritos, Pessoas, Sades,
Não nascidos,
Carrascos meus, ladrões
Nesta enlouquecida festa
Eu me entrego
Vadia, sem pudor
Pelas bocas ancestrais dos que hão de vir...
Não sou eu e não há Tempo e não há lei
Eu me empresto,
Eu me dou,
Eu me concedo...
Eu me deixo perdida em suas mãos,
Eu me deito amorosa entre seus versos!
E, por mais que eu me busque, que eu me olhe,
É poeira o que eu vejo, é dispersão...
Eu me sinto espalhada pelos séculos...
Há pedaços de mim na Grécia Antiga,
Há pedaços de mim na imensidão,
Meteoros de mim me ultrapassam,
Estou além e estou aquém
Sem rumo eu sou.
Não é meu o meu sonho, minha tristeza,
O meu verso cativo,
Alguém levou
O poeta de ontem e de sempre
Violou minha alma,
Me roubou.
Não pertence a mim o sentimento
A palavra me escapa,
O sangue esvai
Eu não vivo,
Eu existo nas estrelas
Dos que foram, dos que estão,
Dos que virão.
Demócritos, Pessoas, Sades,
Não nascidos,
Carrascos meus, ladrões
Nesta enlouquecida festa
Eu me entrego
Vadia, sem pudor
Pelas bocas ancestrais dos que hão de vir...
Não sou eu e não há Tempo e não há lei
Eu me empresto,
Eu me dou,
Eu me concedo...
Eu me deixo perdida em suas mãos,
Eu me deito amorosa entre seus versos!
E, por mais que eu me busque, que eu me olhe,
É poeira o que eu vejo, é dispersão...
860
Juscelino Vieira Mendes
Fim Natural
És o fim natural
Obrigatório
da pessoa humana.
Extingue-se-lhe
a personalidade,
a capacidade jurídica;
Transmite os seus direitos,
as suas obrigações
a seus sucessores
legais.
Estes seguram uma bandeira
que também um dia
será desfraldada
e novos sucessores virão,
porque és implacável...inexorável!
Não te importas com o tempo:
vivido
escolhido
sofrido.
És pura elegia...
Obrigatório
da pessoa humana.
Extingue-se-lhe
a personalidade,
a capacidade jurídica;
Transmite os seus direitos,
as suas obrigações
a seus sucessores
legais.
Estes seguram uma bandeira
que também um dia
será desfraldada
e novos sucessores virão,
porque és implacável...inexorável!
Não te importas com o tempo:
vivido
escolhido
sofrido.
És pura elegia...
949
António de Navarro
Poema IV
Ópera humana...
Onde o cantor é um operário
A construir e a destruir:
Cria ruínas e, a seu lado,
Ergue um castelo ao imaginarão,
Erguido no presente com a sombra no passado
E para a luz sombria do futuro.
E, enfim, lá canta a sua música
Feita de carne ou lama,
De pus ou chaga, de sorriso ou lágrima...
O instrumento e o palco
Somos nós
E o pensamento da obra nós julgamos
O nosso pensamento.
Mas ele,
Só ele sabe de cor o seu papel.
...Os ramos
Duma árvore partida
Parecem perguntar ao vento:
Aonde vamos?
Aonde foi a nossa vida?!
Pergunto ao pensamento: aonde vou?
Responde, idealizando um novo plano
Topográfico: fica a tua espera;
Diz o silêncio: tu és só o teu inesperado!
Parecem perguntar: aonde vamos,
Aonde foi a nossa vida?!
. . .Os ramos
Da árvore partida!
Onde o cantor é um operário
A construir e a destruir:
Cria ruínas e, a seu lado,
Ergue um castelo ao imaginarão,
Erguido no presente com a sombra no passado
E para a luz sombria do futuro.
E, enfim, lá canta a sua música
Feita de carne ou lama,
De pus ou chaga, de sorriso ou lágrima...
O instrumento e o palco
Somos nós
E o pensamento da obra nós julgamos
O nosso pensamento.
Mas ele,
Só ele sabe de cor o seu papel.
...Os ramos
Duma árvore partida
Parecem perguntar ao vento:
Aonde vamos?
Aonde foi a nossa vida?!
Pergunto ao pensamento: aonde vou?
Responde, idealizando um novo plano
Topográfico: fica a tua espera;
Diz o silêncio: tu és só o teu inesperado!
Parecem perguntar: aonde vamos,
Aonde foi a nossa vida?!
. . .Os ramos
Da árvore partida!
1 055
Daniel Faria
O meu projecto de morrer
O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 185
Albano Dias Martins
Enquanto
o amor,enquanto a morte
Enquanto aguardas
e as urnas vazias
recolhem a poeira do verão.
Enquanto,
já submissos, os touros
do sol a soturnos
desígnios entregam
seu furor.
Enquanto,
sob a casa, agora
as térmitas repousam, momentanea
mente reverdecem
meus eucaliptos de água
e ouro.
Enquanto
o amor.
Enquanto
a morte.
Enquanto.
in:Os
Remos Escaldantes(1983)
Enquanto aguardas
e as urnas vazias
recolhem a poeira do verão.
Enquanto,
já submissos, os touros
do sol a soturnos
desígnios entregam
seu furor.
Enquanto,
sob a casa, agora
as térmitas repousam, momentanea
mente reverdecem
meus eucaliptos de água
e ouro.
Enquanto
o amor.
Enquanto
a morte.
Enquanto.
in:Os
Remos Escaldantes(1983)
1 156
Carlos de Oliveira
Estalactite
IV
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
2 753
Albano Dias Martins
As palavras
em trânsito
Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.
in:O Mesmo
Nome(1996)
Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.
in:O Mesmo
Nome(1996)
1 261
António Franco Alexandre
fico aguardando telegramas, os azuis
recados.
os poderes da manhã já pouco duram.
à superfície o som move na boca
um pouco sopro.
não julgues que me importam as roldanas
do tempo no teu
corpo
são certos os abismos de cartão
e falsa a neve que nos cobre os passos.
de graça a terra nos dispõe na foto
e a idade inventa nomes que a dissipem
descobre-me impacientes os recados o
envelope da urgência o intervalo
de A Pequena Face
os poderes da manhã já pouco duram.
à superfície o som move na boca
um pouco sopro.
não julgues que me importam as roldanas
do tempo no teu
corpo
são certos os abismos de cartão
e falsa a neve que nos cobre os passos.
de graça a terra nos dispõe na foto
e a idade inventa nomes que a dissipem
descobre-me impacientes os recados o
envelope da urgência o intervalo
de A Pequena Face
1 335
Daniel Faria
Deve ser o último tempo
Deve ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
1 993
Carlos Nogueira Fino
como a água meu amor
como a água
meu amor
também as asas nos sacodem
no final do beijo
quantas páginas faltam?
se a fronteira é a das águas quem reprime a espuma
onde começa a praia?
no meu espelho o que via
era um homem de rosto voltado
de rosto voltado
para sempre
e uma linha de ombros onde as águas
e os teus lábios de espuma meu amor
me embaciavam
também ouvi chamar a isso
entardecer
idade
inclinação do sol
mas também cicatrizes ou sulcos como preferires
essa teia onde os dias marcam os seus signos
como as águas no solo meu amor
até furarem
meu amor
também as asas nos sacodem
no final do beijo
quantas páginas faltam?
se a fronteira é a das águas quem reprime a espuma
onde começa a praia?
no meu espelho o que via
era um homem de rosto voltado
de rosto voltado
para sempre
e uma linha de ombros onde as águas
e os teus lábios de espuma meu amor
me embaciavam
também ouvi chamar a isso
entardecer
idade
inclinação do sol
mas também cicatrizes ou sulcos como preferires
essa teia onde os dias marcam os seus signos
como as águas no solo meu amor
até furarem
1 014
Mário de Sá-Carneiro
Torniquete
A tômbola anda depressa,
Nem sei quando irá parar ---
Aonde, pouco me importa;
O importante é que pare...
--- A minha vida não cessa
De ser sempre a mesma porta
Eternamente a abanar...
Abriu-se agora o salão
Onde há gente a conversar.
Entrei sem hesitação ---
Somente o que se vai dar?
A meio da reunião,
Pela certa disparato,
Volvo a mim a todo o pano:
Às cambalhotas desato,
E salto sobre o piano...
--- Vai ser bonita a função!
Esfrangalho as partituras,
Quebro toda a caqueirada,
Arrebento à gargalhada,
E fujo pelo saguão...
Meses depois, as gazetas
Darão críticas completas,
Indecentes e patetas,
Da minha última obra...
E eu --- prà cama outra vez,
Curtindo febre e revés,
Tocado de Estrela e Cobra...
Nem sei quando irá parar ---
Aonde, pouco me importa;
O importante é que pare...
--- A minha vida não cessa
De ser sempre a mesma porta
Eternamente a abanar...
Abriu-se agora o salão
Onde há gente a conversar.
Entrei sem hesitação ---
Somente o que se vai dar?
A meio da reunião,
Pela certa disparato,
Volvo a mim a todo o pano:
Às cambalhotas desato,
E salto sobre o piano...
--- Vai ser bonita a função!
Esfrangalho as partituras,
Quebro toda a caqueirada,
Arrebento à gargalhada,
E fujo pelo saguão...
Meses depois, as gazetas
Darão críticas completas,
Indecentes e patetas,
Da minha última obra...
E eu --- prà cama outra vez,
Curtindo febre e revés,
Tocado de Estrela e Cobra...
4 401
Carlos Tê
Do meu vagar
Já não há mais o vagar
de quando se comia sentado
e devagar se caminhava
até chegar a qualquer lado
agora vai toda a gente
sempre de mão na buzina
sempre na linha da frente
a tremer de adrenalina
Do meu vagar não traço rotas
não tenho trilho que me prenda
não tiro dados nem notas
não encho uma linha de agenda
do meu vagar não chego a Meca
não faço nada num só dia
não corto a fita da meta
não vejo Roma nem Pavia
Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo do meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe não faz sentido
Do meu vagar há um nicho
um pico de ilha insubmersa
onde há lugar para o capricho
que dá pelo nome de conversa
do meu vagar a paisagem
ainda tem beleza em bruto
e vale mais uma palavra
que mil imagens por minuto
Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo do meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe não faz sentido
de quando se comia sentado
e devagar se caminhava
até chegar a qualquer lado
agora vai toda a gente
sempre de mão na buzina
sempre na linha da frente
a tremer de adrenalina
Do meu vagar não traço rotas
não tenho trilho que me prenda
não tiro dados nem notas
não encho uma linha de agenda
do meu vagar não chego a Meca
não faço nada num só dia
não corto a fita da meta
não vejo Roma nem Pavia
Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo do meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe não faz sentido
Do meu vagar há um nicho
um pico de ilha insubmersa
onde há lugar para o capricho
que dá pelo nome de conversa
do meu vagar a paisagem
ainda tem beleza em bruto
e vale mais uma palavra
que mil imagens por minuto
Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo do meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe não faz sentido
2 096
João Airas
Toda-las cousas eu vejo partir
Toda-las cousas eu vejo partir
do modo en como soiam seer,
e vejo as gentes partir de fazer
ben que soiam (tal tempo non ven!)
mais non se pode o coraçon partir
do meu amigo de mi querer ben.
Pero que ome parte o coraçon
das cousas que ama, per bõa fé,
e parte-se ome da terra onde é,
e parte-se ome du [mui] gran prol ten,
non se pode parti-lo coraçon
do meu amigo de mi querer ben.
Toda-las cousas eu vejo mudar:
mudam-se os tempos e muda-se o al,
muda-se a gente en fazer ben ou mal,
mudam-se os ventos e toda outra ren,
mais non se pode o coraçon mudar
do meu amigo de mi querer ben.
do modo en como soiam seer,
e vejo as gentes partir de fazer
ben que soiam (tal tempo non ven!)
mais non se pode o coraçon partir
do meu amigo de mi querer ben.
Pero que ome parte o coraçon
das cousas que ama, per bõa fé,
e parte-se ome da terra onde é,
e parte-se ome du [mui] gran prol ten,
non se pode parti-lo coraçon
do meu amigo de mi querer ben.
Toda-las cousas eu vejo mudar:
mudam-se os tempos e muda-se o al,
muda-se a gente en fazer ben ou mal,
mudam-se os ventos e toda outra ren,
mais non se pode o coraçon mudar
do meu amigo de mi querer ben.
1 453
Luís António Cajazeira Ramos
Fado de contas
Eu não quero chegar em casa nunca,
a caminho, no abrigo do teu colo,
sonhando... no balanço do automóvel,
que nos leva a um destino inalcançável.
O tempo pára, o espaço cristaliza-se,
e o carro é lar, e leito, e colo, e beijo...
No ocaso de teu beijo, eu me infinito
e esqueço da procura em que me perco.
De encontro aos vidros, saltam fachos vários,
como se objetos de desejos vastos,
onde meus gestos não se satisfaçam.
Aproxima-se o instante em que me apeio,
vai a carruagem, dobra a esquina, e sigo
noctívago das horas --- a teus passos.
a caminho, no abrigo do teu colo,
sonhando... no balanço do automóvel,
que nos leva a um destino inalcançável.
O tempo pára, o espaço cristaliza-se,
e o carro é lar, e leito, e colo, e beijo...
No ocaso de teu beijo, eu me infinito
e esqueço da procura em que me perco.
De encontro aos vidros, saltam fachos vários,
como se objetos de desejos vastos,
onde meus gestos não se satisfaçam.
Aproxima-se o instante em que me apeio,
vai a carruagem, dobra a esquina, e sigo
noctívago das horas --- a teus passos.
1 029
Fernando Pessoa
XXX - I do not know what truth the false untruth
I do not know what truth the false untruth
Of this sad sense of the seen world may own,
Or if this flowered plant bears also a fruit
Unto the true reality unknown.
But as the rainbow, neither earth's nor sky's,
Stands in the dripping freshness of lulled rain,
A hope, note real yet not fancy's, lies
Athwart the moment of our ceasing pain.
Somehow, since pain is felt yet felt as ill,
Hope hath a better warrant than being hoped;
Since pain is felt as aught we should not feel
Man hath a Nature's reason for having groped,
Since Time was Time and age and grief his measures
Towards a better shelter than Time's pleasures.
Of this sad sense of the seen world may own,
Or if this flowered plant bears also a fruit
Unto the true reality unknown.
But as the rainbow, neither earth's nor sky's,
Stands in the dripping freshness of lulled rain,
A hope, note real yet not fancy's, lies
Athwart the moment of our ceasing pain.
Somehow, since pain is felt yet felt as ill,
Hope hath a better warrant than being hoped;
Since pain is felt as aught we should not feel
Man hath a Nature's reason for having groped,
Since Time was Time and age and grief his measures
Towards a better shelter than Time's pleasures.
4 116
Fernando Pessoa
XXVII - How yesterday is long ago! The past
How yesterday is long ago! The past
Is a fixed infinite distance from to-day,
And bygone things, the first-lived as the last,
In irreparable sameness far away.
How the to-be is infinitely ever
Out of the place wherein it will be Now,
Like the seen wave yet far up in the river,
Which reaches not us, but the new-waved flow!
This thing Time is, whose being is having none,
The equable tyrant of our different fates,
Who could not be bought off by a shattered sun
Or tricked by new use of our careful dates.
This thing Time is, that to the grave will bear
My heart, sure but of it and of my fear.
Is a fixed infinite distance from to-day,
And bygone things, the first-lived as the last,
In irreparable sameness far away.
How the to-be is infinitely ever
Out of the place wherein it will be Now,
Like the seen wave yet far up in the river,
Which reaches not us, but the new-waved flow!
This thing Time is, whose being is having none,
The equable tyrant of our different fates,
Who could not be bought off by a shattered sun
Or tricked by new use of our careful dates.
This thing Time is, that to the grave will bear
My heart, sure but of it and of my fear.
4 401
Fernando Pessoa
XVIII - Indefinite space, which, by co-substance night,
Indefinite space, which, by co-substance night,
In one black mystery two void mysteries blends;
The stray stars, whose innumerable light
Repeats one mystery till conjecture ends;
The stream of time, known by birth-bursting bubbles;
The gulf of silence, empty even of nought;
Thought's high-walled maze, which the outed owner troubles
Because the string's lost and the plan forgot:
When I think on this and that here I stand,
The thinker of these thoughts, emptily wise,
Holding up to my thinking my thing-hand
And looking at it with thought-alien eyes,
The prayer of my wonder looketh past
The universal darkness lone and vast.
In one black mystery two void mysteries blends;
The stray stars, whose innumerable light
Repeats one mystery till conjecture ends;
The stream of time, known by birth-bursting bubbles;
The gulf of silence, empty even of nought;
Thought's high-walled maze, which the outed owner troubles
Because the string's lost and the plan forgot:
When I think on this and that here I stand,
The thinker of these thoughts, emptily wise,
Holding up to my thinking my thing-hand
And looking at it with thought-alien eyes,
The prayer of my wonder looketh past
The universal darkness lone and vast.
4 263
Fernando Pessoa
V - How can I think, or edge my thoughts to action,
How can I think, or edge my thoughts to action,
When the miserly press of each day's need
Aches to a narrowness of spilled distraction
My soul appalled at the world's work's time-greed?
How can I pause my thoughts upon the task
My soul was born to think that it must do
When every moment has a thought to ask
To fit the immediate craving of its cue?
The coin I'd heap for marrying my Muse
And build our home i'th' greater Time-to-be
Becomes dissolved by needs of each day's use
And I feel beggared of infinity,
Like a true-Christian sinner, each day flesh-driven
By his own act to forfeit his wished heaven.
When the miserly press of each day's need
Aches to a narrowness of spilled distraction
My soul appalled at the world's work's time-greed?
How can I pause my thoughts upon the task
My soul was born to think that it must do
When every moment has a thought to ask
To fit the immediate craving of its cue?
The coin I'd heap for marrying my Muse
And build our home i'th' greater Time-to-be
Becomes dissolved by needs of each day's use
And I feel beggared of infinity,
Like a true-Christian sinner, each day flesh-driven
By his own act to forfeit his wished heaven.
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Fernando Pessoa
XIII - The work is done. The hammer is laid down.
The work is done. The hammer is laid down.
The artisans, that built the slow-grown town,
Have been succeeded by those who still built.
All this is something lack-of-something screening.
The thought whole has no meaning
But lies by Time's wall like a pitcher spilt.
The artisans, that built the slow-grown town,
Have been succeeded by those who still built.
All this is something lack-of-something screening.
The thought whole has no meaning
But lies by Time's wall like a pitcher spilt.
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