Poemas neste tema
Velhice e Envelhecimento
João Linneu
Meu Pai
Algo mais lento,um tanto mais sábio,com setenta e setetalvez chegue ao cento. E se o fizer,quem saberia ao certo?Íntimo dos números,tímido, mas nem tanto;se algarismo fosse, pimo entre os primoscom certeza seria.Vagando entre fórmulas,curvas, retas e abcissas;deriva do sólido e perde a raiz.Pairando no ar, sonhacom ângulos, senos e co-senos.Se por vezes é distante,mesmo estando sempre presente;impassível,manda recadosvia sarça ardente.Sua verve é rara,um par de vezes, ímpar. Cáspite!Quantas virtudes,(-não aquelas nas lápides vulgarizadas-)tem meu pai!
857
Lucídio Freitas
A meu Pai
Esqueço todo bem que, em minha estrada,
Prodigamente, como um Deus, semeio,
Fazendo meu o sofrimento alheio,
Amparando toda alma abandonada.
Quantas e quantas vezes tenho em meio
Da vida, dentro a noite erma e gelada,
Confortado a velhice desgraçada,
Na mornidão amiga do meu seio!
Para servir aos meus irmãos padeço
E dou-lhes a água e o pão, o teto e o leito
E o beijo que consola e que bendiz...
Mas todo bem que faço logo esqueço
Para guardar apenas no meu peito,
A saudade de um bem que eu nunca fiz...
Prodigamente, como um Deus, semeio,
Fazendo meu o sofrimento alheio,
Amparando toda alma abandonada.
Quantas e quantas vezes tenho em meio
Da vida, dentro a noite erma e gelada,
Confortado a velhice desgraçada,
Na mornidão amiga do meu seio!
Para servir aos meus irmãos padeço
E dou-lhes a água e o pão, o teto e o leito
E o beijo que consola e que bendiz...
Mas todo bem que faço logo esqueço
Para guardar apenas no meu peito,
A saudade de um bem que eu nunca fiz...
1 087
J. B. Sayeg
O Velho
O velho disse vamos
vamos voltar para casa
mas você já está em casa
lhe disse a mulher, gentilmente,
vamos voltar para casa
falou o velho de novo
e entrou com lucidez
no mundo de sua velhice.
( de Os Comedores do Museu, 1979)
vamos voltar para casa
mas você já está em casa
lhe disse a mulher, gentilmente,
vamos voltar para casa
falou o velho de novo
e entrou com lucidez
no mundo de sua velhice.
( de Os Comedores do Museu, 1979)
906
Jáder de Carvalho
Eu me enganei
Eu me enganei quando disse: "É o fim!"
Via-me no espelho: a neve no cabelo.
As rugas se cruzavam no meu rosto.
A vista se cansava. Ah, era o fim!
Dentro do peito, o coração batia.
Em contraste com o rosto, a alma era jovem.
Eu gostava do cheiro das mulheres:
ia do olfato às profundezas d’alma.
Pensei: "A vida não me chega ao termo.
Sou todo vida. Só por fora é a morte."
E o mundo viu minha ressurreição.
Ah, quantas noites dormirei contigo!
Ah, quanto sol-nascente inda me espera!
A estrada é longa, mas não cansarei!...
Via-me no espelho: a neve no cabelo.
As rugas se cruzavam no meu rosto.
A vista se cansava. Ah, era o fim!
Dentro do peito, o coração batia.
Em contraste com o rosto, a alma era jovem.
Eu gostava do cheiro das mulheres:
ia do olfato às profundezas d’alma.
Pensei: "A vida não me chega ao termo.
Sou todo vida. Só por fora é a morte."
E o mundo viu minha ressurreição.
Ah, quantas noites dormirei contigo!
Ah, quanto sol-nascente inda me espera!
A estrada é longa, mas não cansarei!...
761
H. Masuda Goga
Inverno
Na Praça da Sé,
tomando sol os idosos
sem falar nem ler.
Cipós-de-são-joão
rebentados pelas rodas
dum carro de boi...
tomando sol os idosos
sem falar nem ler.
Cipós-de-são-joão
rebentados pelas rodas
dum carro de boi...
897
Gilson Nascimento
Noite de São João
A festa qui nóis fizemo
No convite já dissemo
Mas car ece ispilicá
É pra mode arrelembrá
Do São João que se passou
São João das fogueira grande
Das labareda bunita
Que assubia lá pra riba
Lambendo a cara da noite
Levando junto com ela
O grito das meninada
Os papouco dos foguete
As reza da gente grande
O gargaiá da moçada
São João das bacia dágua
Friinha de fazê gosto
Pra gente oiá bem no fundo
E percurá pela cara
Quando a cara aparecia
Meu Deus, qui sastifação!
A criatura vivia
Inté o outro São João
Mais porém quando essa água
A cara do ente escondia
Valei-me, Virge Maria
Mal sinal, assombração
Pro mode qui a morte vinha
Dizia os véi, os antigo
Com a sua foice bem grande
Antes do outro São João
São João das comida boa
Faz minha boca miná
Cangica, pé-de-moleque
Pamonha, mi, aluá
São João das bomba estourando
Dos busca-pé percurando
Muié mode aperreá
Dos coió e das rodinha
Dos traque, das estrelinha
Quaje sem luz, pobrezinha
Num briava, mais porém
Infeitiçava o oiá
Afiado, afiada
Padrim, madrinha também
Dando volta na fogueira
Com as mão bem agrudada
Dando nó nas amizade
Arrochando os parafuso
Dos amô, das afeição.
São João qui taqui guardado
No meu véio coração
Coração já mei cansado
Mas quinda bate avexado
Toda vez que o calendaro
Me amostra na sua fôia
Que é noite de São João
No convite já dissemo
Mas car ece ispilicá
É pra mode arrelembrá
Do São João que se passou
São João das fogueira grande
Das labareda bunita
Que assubia lá pra riba
Lambendo a cara da noite
Levando junto com ela
O grito das meninada
Os papouco dos foguete
As reza da gente grande
O gargaiá da moçada
São João das bacia dágua
Friinha de fazê gosto
Pra gente oiá bem no fundo
E percurá pela cara
Quando a cara aparecia
Meu Deus, qui sastifação!
A criatura vivia
Inté o outro São João
Mais porém quando essa água
A cara do ente escondia
Valei-me, Virge Maria
Mal sinal, assombração
Pro mode qui a morte vinha
Dizia os véi, os antigo
Com a sua foice bem grande
Antes do outro São João
São João das comida boa
Faz minha boca miná
Cangica, pé-de-moleque
Pamonha, mi, aluá
São João das bomba estourando
Dos busca-pé percurando
Muié mode aperreá
Dos coió e das rodinha
Dos traque, das estrelinha
Quaje sem luz, pobrezinha
Num briava, mais porém
Infeitiçava o oiá
Afiado, afiada
Padrim, madrinha também
Dando volta na fogueira
Com as mão bem agrudada
Dando nó nas amizade
Arrochando os parafuso
Dos amô, das afeição.
São João qui taqui guardado
No meu véio coração
Coração já mei cansado
Mas quinda bate avexado
Toda vez que o calendaro
Me amostra na sua fôia
Que é noite de São João
1 003
Francisco Carvalho
Lavoura
As minhas mãos
já foram robustas
já plantaram
sementes de milho
nas terras dos filisteus
hoje só semeiam
as lavouras do adeus.
já foram robustas
já plantaram
sementes de milho
nas terras dos filisteus
hoje só semeiam
as lavouras do adeus.
2 284
Flávio Sátiro Fernandes
O Ponto de Cem Réis
O Ponto de Cem Réis
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
804
Flávio Sátiro Fernandes
Ode aos noventanos
Ao meu pai,
nos seus noventa anos.
O tempo é rio
por onde flui o existir.
A energia
que podia se extinguir
renasce,
tocada pelas asas
das borboletas que,
na manhã clara,
se libertam
do capulho alvinitente
do algodoal.
No mimetismo geográfico,
a compreensão dos mistérios
que a alma revolve
no seu dia-a-dia.
Viver é o desafio.
A casa é o desafio.
O pão é o desafio.
Andar é o desafio.
Ver é o desafio.
Ouvir é o desafio.
Vida de vaidade despojada.
Verdade em aço forjada.
nos seus noventa anos.
O tempo é rio
por onde flui o existir.
A energia
que podia se extinguir
renasce,
tocada pelas asas
das borboletas que,
na manhã clara,
se libertam
do capulho alvinitente
do algodoal.
No mimetismo geográfico,
a compreensão dos mistérios
que a alma revolve
no seu dia-a-dia.
Viver é o desafio.
A casa é o desafio.
O pão é o desafio.
Andar é o desafio.
Ver é o desafio.
Ouvir é o desafio.
Vida de vaidade despojada.
Verdade em aço forjada.
853
Elisabeth Veiga
Enigma
Malícia, fidúcia:
as unhas pintadas de mel.
E o vestido da nudez oculta
a velhice da alma.
Verdes mares longínquos
da mocidade: ressaca
de vinho tinto.
Que punhal é esse que não vejo
e usas, de súbito
e engulo,
e com uma cobra por echarpe
sirvo a mesa
de luto:
não sou a mesma. E quem és?
Quem és? Responde
com a tua inocência de um tiro.
Em que bolso estava
quem eu vejo?
Mas tão depressa que parece nada.
A mesa é a mesma:
é madeira sem surpresa.
O que é servido evapora.
Quem eras?
as unhas pintadas de mel.
E o vestido da nudez oculta
a velhice da alma.
Verdes mares longínquos
da mocidade: ressaca
de vinho tinto.
Que punhal é esse que não vejo
e usas, de súbito
e engulo,
e com uma cobra por echarpe
sirvo a mesa
de luto:
não sou a mesma. E quem és?
Quem és? Responde
com a tua inocência de um tiro.
Em que bolso estava
quem eu vejo?
Mas tão depressa que parece nada.
A mesa é a mesma:
é madeira sem surpresa.
O que é servido evapora.
Quem eras?
822
Epitácio Mendes Silva
Meu caro velho
Quando te vejo, cansado e cabisbaixo,
lembro das tuas histórias ricas e curiosas.
Teu olhar, mesmo não tendo os olhos do passado,
mantém os tons do mundo um dia cor-de-rosa.
Por vezes surpreendo-te em lágrimas
que justificas tremulando a voz,
das palavras que dizes, ao acaso,
mas um acaso transformado em ocaso.
Uma coisa é certa: ainda tens o riso
da criança, num corpo envelhecido,
a fugir da solidão e buscar pelos caminhos
antigos perfumes de rosas e de lírios.
Meu caro velho, a tua antiguidade
é luta contra o tempo e a idade.
E esta luta está no brilho dos teus olhos
toda a vez que, alegre, falas de amor...
lembro das tuas histórias ricas e curiosas.
Teu olhar, mesmo não tendo os olhos do passado,
mantém os tons do mundo um dia cor-de-rosa.
Por vezes surpreendo-te em lágrimas
que justificas tremulando a voz,
das palavras que dizes, ao acaso,
mas um acaso transformado em ocaso.
Uma coisa é certa: ainda tens o riso
da criança, num corpo envelhecido,
a fugir da solidão e buscar pelos caminhos
antigos perfumes de rosas e de lírios.
Meu caro velho, a tua antiguidade
é luta contra o tempo e a idade.
E esta luta está no brilho dos teus olhos
toda a vez que, alegre, falas de amor...
1 090
Corrêa da Silva
Saudade
De xale posto nos ombros,
toda vestida de preto, acurvada,
de cabelos de neve e de rosto enrugado,
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
volta de assistir à sua missa de todo santo dia...
E miudinha, ligeira, qual uma cigarra,
parece, até que está correndo... Fugindo...
Com medo do sol, que enche a cidade inteira,
— casas e ruas, ruas e casas — nesta manhã dominical,
com a sua luz gloriosa, fascinante e entontecedora
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
chega à porta do seu imponente sobradão colonial
Entra. Sobe os dois lances da comprida escada
e rapidamente atravessa a varanda senhorial...
Agora está trancada, sozinha no seu quarto,
o aposento mais querido, dentre todos,
cheirando muito a velhice e a mistério,
cheio de imagens de santos e de móveis antigos...
(Aposento que vive sempre fechado pra toda gente...)
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
abre, bem devagarinho, bem devagarinho, a sua bolsa....
Tira de dentro uma pequenina chave de prata... Depois,
silenciosa, chega pra perto da cômoda de jacarandá
e, curvada, quase de joelhos, puxa o último gavetão...
A suas mãos fidalgas, tão brancas e tão magras,
mãos leves e lindas, mãos longas e frias,
estão tremendo... Tremendo... Tremendo de emoção
Ela guarda, já nem sabe há quanto tempo,
naquele pesado gavetão da cômoda de jacarandá,
as doces e puras e simples lembranças
de seu longínquo e inesquecível romance da mocidade...
Uma flor... Uma carta... Um retrato...
toda vestida de preto, acurvada,
de cabelos de neve e de rosto enrugado,
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
volta de assistir à sua missa de todo santo dia...
E miudinha, ligeira, qual uma cigarra,
parece, até que está correndo... Fugindo...
Com medo do sol, que enche a cidade inteira,
— casas e ruas, ruas e casas — nesta manhã dominical,
com a sua luz gloriosa, fascinante e entontecedora
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
chega à porta do seu imponente sobradão colonial
Entra. Sobe os dois lances da comprida escada
e rapidamente atravessa a varanda senhorial...
Agora está trancada, sozinha no seu quarto,
o aposento mais querido, dentre todos,
cheirando muito a velhice e a mistério,
cheio de imagens de santos e de móveis antigos...
(Aposento que vive sempre fechado pra toda gente...)
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
abre, bem devagarinho, bem devagarinho, a sua bolsa....
Tira de dentro uma pequenina chave de prata... Depois,
silenciosa, chega pra perto da cômoda de jacarandá
e, curvada, quase de joelhos, puxa o último gavetão...
A suas mãos fidalgas, tão brancas e tão magras,
mãos leves e lindas, mãos longas e frias,
estão tremendo... Tremendo... Tremendo de emoção
Ela guarda, já nem sabe há quanto tempo,
naquele pesado gavetão da cômoda de jacarandá,
as doces e puras e simples lembranças
de seu longínquo e inesquecível romance da mocidade...
Uma flor... Uma carta... Um retrato...
389
Carlos Magalhães de Azeredo
Despedida
Não me coroes, Alma querida, de rosas: o encanto
Da juventude é efêmero; e a minha é quase extinta.
Também não me coroes de louros: a Glória não fala
Ao coração, nem o ouve; passa, longínqua e fria.
Coroa-me des heras, que abraçam as graves ruínas:
São da humildade símbolo e da tristeza eterna ...
Da juventude é efêmero; e a minha é quase extinta.
Também não me coroes de louros: a Glória não fala
Ao coração, nem o ouve; passa, longínqua e fria.
Coroa-me des heras, que abraçam as graves ruínas:
São da humildade símbolo e da tristeza eterna ...
892
Cláudio Martins
O Tempo Passa
"O tempo passa, a gente vai mudando
Sonhos e esperanças vão morrendo...
deve ser triste envelhecer temendo
o abismo que a idade vai cavando.
É preciso evitar que vãos tormentos,
quase sempre irreais ou superados,
por mera ansiedade exagerados,
transmudem nossas vidas em desalentos.
A Vida é uma jornada, simplesmente
defrontá-la, altaneira e firmemente,
é prova de vivência e de saber
E mesmo fosse triste envelhecer,
jovem sempre será o que, prudente,
não quer mais do que tem, ou pode ter.
Sonhos e esperanças vão morrendo...
deve ser triste envelhecer temendo
o abismo que a idade vai cavando.
É preciso evitar que vãos tormentos,
quase sempre irreais ou superados,
por mera ansiedade exagerados,
transmudem nossas vidas em desalentos.
A Vida é uma jornada, simplesmente
defrontá-la, altaneira e firmemente,
é prova de vivência e de saber
E mesmo fosse triste envelhecer,
jovem sempre será o que, prudente,
não quer mais do que tem, ou pode ter.
930
Cláudio Feldman
Haicai
Seca
Corvos
Nos galhos curvos:
Únicas folhas.
Dia Lento
Dia lento:
Um velho cavalo
Subindo a encosta.
Corvos
Nos galhos curvos:
Únicas folhas.
Dia Lento
Dia lento:
Um velho cavalo
Subindo a encosta.
1 084
Olympia Mahu
Mamãe
Viver é uma luta constatnte
Um desafio, a cada instante
Desafios de vida e de sobrvivência
Em embates de angústias, de felicidades...
E tu, mamãe
Oitenta anos de lutas
De bravas lutas...
Tua vida foi sempre uma constante batalha
Um exemplo gratificante de tenacidade,
De aplicação, determinação e paciência,
Muita paciência...
Lembro-me muito bem de tuas lutas
Como mãe, trabalhadora, cidadã.
Deixando em cada uma delas a tua marca,
De garra e resignação.
Como fiel da balança
Trazias sempre o equilíbrio
Com o teu sábio silêncio...
Cada dia mais eu te admiro
Ao te lembrar em exemplos singelos
Tão ricos de sabedoria.
Sei que muitas vezes erraste,
Assim, aprimoravas a vida...
Mas, tenho cereteza,
Erraste pouco
Para os muitos desafios que enfrentaste...
Olimpya Mahu, 10/09/94
Um desafio, a cada instante
Desafios de vida e de sobrvivência
Em embates de angústias, de felicidades...
E tu, mamãe
Oitenta anos de lutas
De bravas lutas...
Tua vida foi sempre uma constante batalha
Um exemplo gratificante de tenacidade,
De aplicação, determinação e paciência,
Muita paciência...
Lembro-me muito bem de tuas lutas
Como mãe, trabalhadora, cidadã.
Deixando em cada uma delas a tua marca,
De garra e resignação.
Como fiel da balança
Trazias sempre o equilíbrio
Com o teu sábio silêncio...
Cada dia mais eu te admiro
Ao te lembrar em exemplos singelos
Tão ricos de sabedoria.
Sei que muitas vezes erraste,
Assim, aprimoravas a vida...
Mas, tenho cereteza,
Erraste pouco
Para os muitos desafios que enfrentaste...
Olimpya Mahu, 10/09/94
878
Carlos Nóbrega
O Vento
Já tão velhinho
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
824
Carla Bianca
Vingança
O tempo passou, minhas carnes estão secas e o rosto árido. Espero chuvas de sonhos para molhar a vida e fazer germinar esperança. Há séculos não vejo o sol. Não sei mais o que é brilho, a última vez que avistei o dourado, ele falava de amor e lançava olhares num tom de promessa. Tive medo, faltou coragem para apostar na luz e seguir o clarão. Hoje estou nas trevas e meus olhos adaptados ao breu. Os pés têm roteiros programados, não se aventuram além dos limites, do que é conhecido.
O negro ergueu muralhas e sitiou a vida que ainda resiste à escassez de amor.
Chuvas de granizo, quedas de meteoritos. Toda a natureza conspira, tramando uma vingança pela morte da ousadia.
O negro ergueu muralhas e sitiou a vida que ainda resiste à escassez de amor.
Chuvas de granizo, quedas de meteoritos. Toda a natureza conspira, tramando uma vingança pela morte da ousadia.
965
Bráulio de Abreu
Pássaros
O espaço era cheio de asas
porque os pássaros chegaram
As árvores estremeceram
porque os pássaros pousaram.
O silêncio fugiu
porque os pássaros cantaram.
Sonho, por que vieste em forma de asas?
Desejo, por que vieste em forma de pouso sutil?
Esperança, por que vieste em forma de canto?
E os pássaros partiram...
E com eles, o pássaro da Infância,
O pássaro da Juventude,
O pássaro da Mocidade.
Quando o silêncio retornou,
só havia o pássaro da Velhice:
veio para ficar.
porque os pássaros chegaram
As árvores estremeceram
porque os pássaros pousaram.
O silêncio fugiu
porque os pássaros cantaram.
Sonho, por que vieste em forma de asas?
Desejo, por que vieste em forma de pouso sutil?
Esperança, por que vieste em forma de canto?
E os pássaros partiram...
E com eles, o pássaro da Infância,
O pássaro da Juventude,
O pássaro da Mocidade.
Quando o silêncio retornou,
só havia o pássaro da Velhice:
veio para ficar.
1 017
Artur Eduardo Benevides
Soneto de Indagação
Será tarde, Senhora, será tarde?
A vida, igual ao dia, encontra ocaso.
Termina, pouco a pouco, o nosso prazo
E o frio olhar da morte já nos carde.
Que tua luz me salve ou me resguarde.
Tuas chamas me queimam. Já me abraso.
Estamos bem além de um simples caso.
A alma, outrora errante, em ânsias arde.
Tenho estranho fulgor de adolescência,
Mas, ao notar que tudo pede urgência,
Sinto que amar me traz um certo alarde.
E ao ver o tempo inexorável, lento,
Escravo de teu grande encantamento
Aflito te pergunto — será tarde?
A vida, igual ao dia, encontra ocaso.
Termina, pouco a pouco, o nosso prazo
E o frio olhar da morte já nos carde.
Que tua luz me salve ou me resguarde.
Tuas chamas me queimam. Já me abraso.
Estamos bem além de um simples caso.
A alma, outrora errante, em ânsias arde.
Tenho estranho fulgor de adolescência,
Mas, ao notar que tudo pede urgência,
Sinto que amar me traz um certo alarde.
E ao ver o tempo inexorável, lento,
Escravo de teu grande encantamento
Aflito te pergunto — será tarde?
1 803
Arruda Furtado
Ao Miguel
Nas gênesis remotas sempre honradas,
No atavismo que bem em ti reponta,
Estão graças que foram dispensadas
A ti, pelo Senhor, graças sem conta.
Tais riquezas por ti aproveitadas
Tornaram-te melhor, em alta monta,
Sem vaidades (por ti bem desprezadas),
Suportando, humilde, toda afronta.
Quando celebras teus noventa anos,
Com toda tua família congregada,
Teus irmãos todos, igualmente ufanos,
Desejam-te na data consagrada,
De coração, augúrios dos mais lhanos
Sob as bênçãos da Mãe Imaculada.
No atavismo que bem em ti reponta,
Estão graças que foram dispensadas
A ti, pelo Senhor, graças sem conta.
Tais riquezas por ti aproveitadas
Tornaram-te melhor, em alta monta,
Sem vaidades (por ti bem desprezadas),
Suportando, humilde, toda afronta.
Quando celebras teus noventa anos,
Com toda tua família congregada,
Teus irmãos todos, igualmente ufanos,
Desejam-te na data consagrada,
De coração, augúrios dos mais lhanos
Sob as bênçãos da Mãe Imaculada.
394
António Afonso Bernardino
Duas Pêras
Mote
Duas pêras que eu tinha
Andavam sempre empinadas
De tanto lhes ter mexido
Estão moles e penduradas.
I
Eram duas pêras perfeitas
Quando um dia as conheci
A primeira vez que as vi
Achei-as muito direitas
Rosadas muito bem feitas
Pareciam cacho na vinha
Uma fruta tão durinha
Que eu gostava de mexer
Levava horas a ver
Duas pêras que eu tinha.
II
Mas que ricas pêras são
Dizia cá para mim
Dá gosto ver fruta assim
Seja de Inverno ou de Verão
Quando lhe jogava a mão
Até as deixava inchadas
Eram sempre bem esfregadas
Fosse de noite ou de dia
Pêras de pele macia
Andavam sempre empinadas.
III
Fruta torrada amarela
Que fruta tão natural
Nem sequer havia igual
Uma fruta como aquela
Tinham uma cor tão bela
Fizeram-me andar perdido
Quase estraguei o sentido
Noutro tempo atrasado
Hoje tenho o fruto estragado
De tanto lhe ter mexido.
IV
Murcharam com a idade
Ficaram todas franzidas
São duas pêras lembidas
Que perderam a vaidade
No tempo da mocidade
Foram muito bem tratadas
Mas já não são apalpadas
Coitadinhas metem dó
São duas peles num pé só
Estão moles e penduradas.
Duas pêras que eu tinha
Andavam sempre empinadas
De tanto lhes ter mexido
Estão moles e penduradas.
I
Eram duas pêras perfeitas
Quando um dia as conheci
A primeira vez que as vi
Achei-as muito direitas
Rosadas muito bem feitas
Pareciam cacho na vinha
Uma fruta tão durinha
Que eu gostava de mexer
Levava horas a ver
Duas pêras que eu tinha.
II
Mas que ricas pêras são
Dizia cá para mim
Dá gosto ver fruta assim
Seja de Inverno ou de Verão
Quando lhe jogava a mão
Até as deixava inchadas
Eram sempre bem esfregadas
Fosse de noite ou de dia
Pêras de pele macia
Andavam sempre empinadas.
III
Fruta torrada amarela
Que fruta tão natural
Nem sequer havia igual
Uma fruta como aquela
Tinham uma cor tão bela
Fizeram-me andar perdido
Quase estraguei o sentido
Noutro tempo atrasado
Hoje tenho o fruto estragado
De tanto lhe ter mexido.
IV
Murcharam com a idade
Ficaram todas franzidas
São duas pêras lembidas
Que perderam a vaidade
No tempo da mocidade
Foram muito bem tratadas
Mas já não são apalpadas
Coitadinhas metem dó
São duas peles num pé só
Estão moles e penduradas.
1 501
Alexandre Marino
Avoagem
o velho guerreiro avoava sobre a vida
porque era grande nosso medo de tudo
e revolvia com as mãos a terra brava
plantando um sabor de coisa nova
sobre as coisas velhas que ele velho guerreava
ele se perdia sobre o chão cheirando a chuva
e nos arrastava pelas mãos pelos quintais
apontando com os dedos amarelos de cigarro
cada pedaço de mundo que por ali passava
e que nós despercebíamos no vento ou no barro
ele coçava a cabeça branca apoiado na bengala
e tamborilava as unhas grossas na madeira
e distribuía a cada um ao se sentar à mesa
os pedaços de história que catava na memória
e soltava pelos poros em forte correnteza
e quando começava a lhe fugir a lucidez
o velho guerreiro cavalgava de verdade
a égua fiel que antes de morrer no pasto
conduzia pelas ruas da cidade
esse seu olhar profundo do álbum de retratos.
porque era grande nosso medo de tudo
e revolvia com as mãos a terra brava
plantando um sabor de coisa nova
sobre as coisas velhas que ele velho guerreava
ele se perdia sobre o chão cheirando a chuva
e nos arrastava pelas mãos pelos quintais
apontando com os dedos amarelos de cigarro
cada pedaço de mundo que por ali passava
e que nós despercebíamos no vento ou no barro
ele coçava a cabeça branca apoiado na bengala
e tamborilava as unhas grossas na madeira
e distribuía a cada um ao se sentar à mesa
os pedaços de história que catava na memória
e soltava pelos poros em forte correnteza
e quando começava a lhe fugir a lucidez
o velho guerreiro cavalgava de verdade
a égua fiel que antes de morrer no pasto
conduzia pelas ruas da cidade
esse seu olhar profundo do álbum de retratos.
964